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ÍNDICE

Prólogo................................................................................................................................3

Parte I: Escola do Tempo.................................................................................................6


Capítulo 01.........................................................................................................................6
Capítulo 02.......................................................................................................................20
Capítulo 03.......................................................................................................................28
Capítulo 04.......................................................................................................................40
Capítulo 05.......................................................................................................................53
Capítulo 06.......................................................................................................................66

Parte II: Tempo de Retorno...........................................................................................78


Capítulo 07.......................................................................................................................78
Capítulo 08.......................................................................................................................93
Capítulo 09....................................................................................................................106
Capítulo 10....................................................................................................................126
Capítulo 11.....................................................................................................................141

Parte III: Viagens..........................................................................................................160


Capítulo 12....................................................................................................................160
Capítulo 13....................................................................................................................177
Capítulo 14....................................................................................................................192
Capítulo 15....................................................................................................................208
Capítulo 16....................................................................................................................220
Capítulo 17....................................................................................................................229
Capítulo 18....................................................................................................................248

Parte IV: Entre Anjos e Demônios.............................................................................255


Capítulo 19....................................................................................................................255
Capítulo 20....................................................................................................................269
Capítulo 21....................................................................................................................285
Capítulo 22....................................................................................................................302

Epílogo...........................................................................................................................319

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J. ROBERT KING
“Time Streams”

(Magic: the Gathering. Ciclo dos Artefatos. Livro III.)

Prólogo

Urza diz que está são. Talvez ele realmente esteja . Medir a sanidade dos

planinautas é uma tarefa dif ícil . Ele viveu por mais de três mil anos. Ele se

cura apenas com a força de sua vontade . Com um pensamento, ele caminha de

um mundo para algum mundo e , depois, para outro mundo. Até mesmo sua

aparência é uma questão de conveniência , as roupas e até mesmo as feições são

projetadas por sua mente . Como as noções convencionais de sanidade podem se

aplicar a um planinauta?

Talvez elas não possam, mas sua loucura começou antes dele ser um

planinauta . Três mil anos atrás, um Urza mortal lutou contra seu irmão mortal .

A rivalidade fraternal deles se tornou fratricida . Assim começou a Guerra dos

Irmãos. Em sua raiva para matar Mishra , Urza mobilizou os exércitos do

mundo, afundou a ilha de Argoth , eviscerou o continente de Terisíare e varreu

nações inteiras do globo. Ele iniciou uma era glacial . O castigo por toda essa

insanidade foi ele se tornar um planinauta .

Urza diz que ele se arrepende da destruição. O verdadeiro arrependimento

seria um bom sinal .

Não foi o arrependimento que mais tarde enviou Urza em sua própria

invasão a Phyrexia . Foi a vingança por seu irmão. De alguma forma , Urza se

convenceu de que não matara Mishra , que o phyrexiano Gix o fizera . Na

verdade , Gix seduziu Mishra com promessas de impressionante poder e , no

final , o transformou em um amálgama monstruoso de carne e artif ício. Mas

Urza foi o assassino de Mishra . Só que não em sua mente .

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Em sua mente ensandecida , Urza culpou Gix e fez planos de se vingar.

Seu motivo era louco, e sua invasão ainda mais louca . Urza atacou Phyrexia –

um planinauta contra exércitos de monstruosidades demoníacas. Ele perdeu, é

claro. Ele não podia derrotar um mundo inteiro e quase foi feito em pedaços

tentando.

Com o rabo entre as pernas, Urza recuou para o reino de Serra , um lugar

com anjos e nuvens flutuantes. Lá ele se curou, mas nunca se recuperou

verdadeiramente . A loucura ainda o assombrava , assim como Phyrexia . Gix

seguiu em seu rastro. Assim que Urza saiu do Reino de Serra , achando-se

inteiro e disposto, Gix e seus demônios chegaram. Uma guerra começou no céu.

Esse lugar, como qualquer outro onde Urza escolhera morar, foi dizimado.

Séculos depois, o lugar ainda está encolhendo em um longo colapso.

Quando eu aponto essas imprudências, Urza encolhe os ombros. Ele afirma

que recuperou sua sanidade depois de tudo isso. Ele atribui sua nova

perspectiva a Xantcha e Ratepe - “dois queridos amigos que se sacrificaram para

matar o demônio Gix, fechar o portal para Phyrexia e salvar minha vida . A

eles, sou eternamente grato.”

A verdadeira gratidão também seria um bom sinal .

Urza , em seus três milênios de vida , nunca demonstrou verdadeira

gratidão nem teve um “querido amigo”. Conheço-o há três décadas. Em duas

delas, eu trabalhei lado a lado com ele na academia que estabelecemos aqui em

Tolária . Eu não sou seu querido amigo. Ninguém é . A maioria dos tutores e

estudantes da academia nem sequer sabem o seu verdadeiro nome , chamando-o

de mestre Malzra . A última pessoa que esteve perto o suficiente de Urza para ser

um amigo querido foi seu irmão, e todo mundo sabe o que aconteceu com ele .

Não, Urza é incapaz de arrependimento e gratidão, de ter amigos

queridos, não que não tenham existido pessoas como Xantcha , Ratepe , Serra e

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eu, que realmente amamos o homem e daríamos nossas vidas por ele . Mas ele

parece incapaz de retornar nossa afeição.

Isso não é suficiente para declará-lo insano, é claro. Como eu disse , medir

a sanidade dos planinautas é tarefa dif ícil , mas há algo de louco na crença de

Urza de que Xantcha e Ratepe se sacrificaram, que o reino de Serra e Argoth se

sacrificaram, que Mishra se sacrificou… Parece que todos e tudo com o que Urza

diz se preocupar é destruído. E o que isso significa para mim, seu mais novo

amigo querido?

– Barrin , mago mestre de Tolária

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Parte I
ESCOLA DO TEMPO

Capítulo 01

Jhoira estava em pé, na beira de seu mundo. Atrás dela estava a ilha de Tolária,
suas florestas de palmeiras e salas de conferências dominadas por mágicos prodígios e
criaturas mecânicas. Era um reino de testes incessantes, experimentações inúteis,
preocupações e trabalho, muito trabalho.
Diante dela estava o oceano azul, o céu azul e o mundo ilimitado. Nuvens se
empilhavam em montanhas empíreas acima do mar cintilante. Ondas brancas quebravam
nas rochas ásperas abaixo. Além da fina e brilhante linha do horizonte, o mundo inteiro a
aguardava. Sua alma gêmea estava lá em algum lugar, ela sonhara. Tudo estava lá fora –
sua terra natal, seus pais, sua tribo shivana, seu futuro.
Jhoira suspirou e se inclinou para sentar em um acostamento de arenito aquecido
pelo sol. Os ventos marinhos faziam seus longos cabelos negros dançarem sobre seus
ombros finos. Brisas fluíam, quentes e familiares, por suas vestes brancas de estudante.
Ela tinha passado muitas horas neste lugar ensolarado, seu refúgio da academia, mas
ultimamente o refúgio lhe trazia tanto tristeza quanto alegria.
Fazia oito anos que ela estava na academia, aprendendo tudo o que podia sobre
máquinas. Um prodígio quando chegara, Jhoira agora era uma artífice formidável. Ela
também era uma mulher, ou quase, aos dezoito anos, e estava cansada da escola e das
crianças, do enxofre e do óleo de máquina. Ela estava farta de artifícios e ilusões e
queria algo real – alguém real.
Jhoira fechou os olhos, aspirando profundamente o ar salgado para os pulmões.
Sua alma gêmea seria alta e de pele bronzeada, como os jovens da tribo Ghitu de sua
terra natal – olhos penetrantes e fortes. Ele seria esperto, sim, mas não como Teferi e os
outros meninos que tentavam chamar a atenção de Jhoira através de palhaçadas juvenis e
insinuações toscas. Ele seria um homem, e ele seria misterioso. Isso era o mais
importante.
Ela não poderia estar apaixonada por um homem a menos que, no cerne de seu ser,
houvesse mistério.

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Ela abriu os olhos e mudou seu peso de um pé para o outro, uma sandália emitiu um
sopro de poeira. “Eu sou uma idiota. Não há um homem como esse no mundo.” Mesmo
se houvesse, ela nunca iria conhecê-lo, não enquanto ela estivesse presa nesta maldita
ilha.

*****

De pé, o homem de prata acordou. Ele já se movera antes, já havia andado e


falado. Ele tinha ocupado esse enorme corpo de metal, olhado com seus olhos prateados,
e levantado coisas com suas mãos enormes. Antes tudo isso parecia ser sempre um
sonho. Agora ele estava acordado. Agora ele estava vivo.
O laboratório ao seu redor era brilhante e limpo. O mestre Malzra gostava dele
limpo – limpo, mas desordenado. Uma parede continha centenas de esboços e
refinamentos de esboços, alguns com tinta, outros com chumbo e outros com giz. Outra
estava cheia de implementos especializados – tornos de metal, serras de viga, moldes de
injeção, prensas, rolos, foles, brocas. Uma terceira parede suportava estantes de
engrenagens e suportes e outras peças mecânicas fundidas. Uma quarta mantinha uma
sessão de mecanismos montados. Uma quinta – poucos quartos da escola eram quadrados
– permitia a saída para a sala. No centro do espaço, uma grande forja negra se erguia.
Sua chaminé subia e atravessava a cúpula acima. Uma galeria no segundo andar
circundava as bordas da sala. Até naquelas varandas, mesmo agora, jovens olhos
espreitavam o resultado da experiência mais recente do mestre Malzra. Olhavam para o
homem prateado.
O homem prateado olhou de volta. Ele se sentia amedrontado, embaraçado,
tímido. Ele se perguntou o que pensavam sobre ele – perguntou e se preocupou de uma
forma que nunca tinha acontecido antes. Tudo estava daquele modo. Ele já havia visto
este laboratório muitas vezes antes, mas nunca teria usado termos como “limpo”,
“desordenado” e “brilhante” para descrevê-lo ou o homem que o tinha criado. Agora, o
homem prateado percebia mais do que apenas coisas. Ele percebeu a organização das
coisas, sua disposição e o que elas implicavam sobre o seu criador. O laboratório era um
projeto na mente do mestre Malzra – antigo, obcecado, brilhante, incansável,
preocupado, míope, grandioso…

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Mestre Malzra, enquanto isso, o estudava. O olhar do homem era penetrante. As
dobras de pele envelhecida se erguiam, ceticamente, sob um olho. As suas narinas se
alargavam, mas ele não parecia respirar. Uma mão enegrecida de fuligem estremeceu
ligeiramente ao levantar para arranhar sua barba loira. Ele engoliu em seco, piscando –
mas com olhos como aquele, tão duros e afiados quanto diamantes, parecia que ele não
precisava piscar.
“Alguma mudança notável no perfil energético da sonda, Barrin?” – perguntou
Malzra por cima do ombro.
Foi uma estranha saudação. O homem prateado sentiu-se um pouco ofendido.
“Uma boa pergunta,” veio a resposta – do segundo em comando de Malzra, um
mago mestre. Barrin saiu do lado de um molde de injeção, limpou a areia de suas mãos
com um pano branco. “Por que não pergunta a ele?”
Malzra piscou novamente. “Perguntar a quem?”
“Pergunte a ele,” repetiu o mago, erguendo um canto de sua boca. “À sonda.”
Malzra franziu os lábios. Ele assentiu. “Sonda, eu sou o mestre Malzra, seu
criador. Gostaria de saber se você notou alguma mudança em seu perfil de energia.”
“Eu me lembro de quem você é,” respondeu o homem prateado. Sua voz era
profunda e ressonante em sua forma de metal. “E eu noto uma mudança bem definida no
meu perfil de energia. Eu estou acordado.”
Um alvoroço de vozes veio da varanda.
Malzra parecia quase sorrir. “Ah, você está acordado. Bom. Como você está, sem
dúvida, ciente, nós fizemos algumas modificações em você, esperando melhorar seu
desempenho, seu intelecto e sua capacidade de integração social.” Ele rangeu os dentes e
não conseguiu dizer mais nada. Malzra olhou para Barrin em busca de ajuda.
O mago – magro, de meia-idade, com um jaleco branco – se aproximou. Ele deu
um tapinha no ombro do homem prateado. “Olá. Estamos felizes por você ter acordado.
Como está se sentindo?”
“Confuso,” o homem de prata se ouviu dizer, então com uma voz de surpresa, ele
continuou. “Tudo parece ter uma nova dimensão. Estou cheio de informações
conflitantes.”
Barrin perguntou. “Informação conflitante?”

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“Sim,” respondeu o homem prateado. “Sinto, por exemplo, que, embora o mestre
Malzra seja seu superior em classe e idade, ele muitas vezes difere de você devido a seus
desinteresses sociais.”
“Desinteresses sociais?” perguntou Barrin.
“Ele prefere a companhia de máquinas à de pessoas,” esclareceu o homem de
prata.
Risos abafados vieram da galeria. A expressão de Malzra se fechou quando ele
olhou para cima.
A sonda continuou, “Inclusive agora, percebo que minha observação, embora
precisa, desagrada o mestre Malzra, diverte os alunos e envergonha você.”
Barrin corou levemente. “É verdade.” Ele se virou para Malzra. “Eu poderia
executar alguns testes mágicos, mas mesmo sem eles, é claro que os componentes
intelectual e emocional do implante estão funcionando.”
“Muito bem,” respondeu Malzra com tristeza, para o deleite dos observadores na
galeria. “Ainda assim, eu ficaria muito feliz se testes adicionais desses componentes
ocorressem longe da minha companhia.”
“Em outras palavras?”
“Libere a sonda. Deixe a coisa interagir com os alunos. Podemos monitorar seu
progresso,” instruiu Malzra.
Barrin olhou para a sonda. Sabedoria e magia dançavam nos olhos castanhos do
homem. “Você ouviu o que ele disse. Saia. Explore. Conheça algumas pessoas. Faça
alguns amigos. Nós te chamaremos de volta quando estivermos prontos para mais
experiências.”
O homem prateado reconheceu estas instruções movendo-se em direção à porta.
Enquanto passava por cima de tornos e brocas, a sonda estranhou o ressentimento que
sentia em relação ao seu criador. Malzra se referia a ele como “coisa”. Barrin se referia a
ele como “você”.
Como se estivesse lendo sua mente, Barrin aproximou-se do homem prateado e
acariciou seu ombro novamente. “Você estava certo sobre as ‘desilusões sociais’ do
mestre Malzra, que gosta muito mais de máquinas do que de pessoas. O que você não
parece perceber é que ele ficou nervoso ao lidar com você.”
A resposta do homem prateado foi sombria. “Eu também percebi isso claramente.”

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“Sim,” disse Barrin, “mas isso significa que ele não pensa mais em você como
uma máquina. Para ele, você está se tornando uma pessoa.”
Quando a sonda e os alunos saíram do laboratório, Barrin atraiu Urza até uma
parede cheia de esboços. Ali, em diagramas de chumbo e tinta, o homem prateado estava
detalhado, por dentro e por fora.
“Bem, você estava certo,” disse Barrin calmamente. “O coração de Xantcha era a
chave. Seus córtices afetivos e intelectuais devem estar intactos, como você imaginou.
Podemos estar gratos que nenhuma das memórias dela permaneceu, ou sua
personalidade, aparentemente. Ainda assim, eu tenho que me perguntar sobre a decisão
de colocar o que equivale a uma matriz phyrexiana no centro de sua criação mais
poderosa e avançada. Eu poderia ter conseguido o mesmo efeito com um feitiço de
animação.”
O mestre desistiu de comentar. “Eu queria alcançar a sensibilidade através de
meios puramente mecânicos. Além disso, não há mais nada phyrexiano no cristal do
coração. Não há nem mesmo nada de Xantcha nele – apenas o suficiente de uma matriz
para permitir o aprendizado lógico, emocional e social.”
Barrin estremeceu ligeiramente ao ouvir as palavras escolhidas pelo homem.
“Sim, bem, esse é o outro assunto. O que temos aqui não é mais apenas uma máquina.
Você sabe, e eu sei disso. O mesmo acontece com a sonda. Você lhe deu emoções. Você
precisa reconhecer essas emoções. Você precisa respeitar essas emoções.” Apenas um
olhar vazio lhe respondeu. “Você não vê? Isso não é mais apenas uma sonda. Ele é um
homem – não, mais do que isso – ele é uma criança. Ele precisará ser guiado, nutrido-”
O mestre parecia severo. “Eu queria que você tivesse mencionado isso antes.
Poderíamos ter elaborado um procedimento para lidar com esse aspecto do
desenvolvimento da sonda.”
“É justamente isso,” respondeu Barrin. “Você não pode elaborar um procedimento
para este tipo de coisa. Você não pode traçá-la em um modelo. Você tem que parar de
pensar como um artífice e começar a pensar como um… bem, como um pai.”
“Eu fui órfão aos doze anos. Mishra e eu. Nós nos viramos bem.”
O mago bufou ligeiramente ao ouvir aquilo. “Se você quiser, eu vou agir como
mentor da sonda em seu lugar, mas com o tempo você vai precisar criar esse vínculo por

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você mesmo. E isso significará dizer quem você realmente é – dizendo a ele que ele foi
criado por Urza Planinauta.”

*****

O laboratório do mestre Malzra era bastante assustador para o homem de prata e


seu novo córtex intelectual. Os corredores e espaços além dos laboratórios – as salas de
aula, os teatros cirúrgicos, os túneis de vento, as câmaras de ensaio e inúmeros
laboratórios – eram impressionantes. Ao contemplar essas elaboradas estruturas, a sonda
compreendeu finalmente o que era uma escola: um edifício destinado a ajudar a adquirir
novos conhecimentos, a passá-lo aos outros e a aplicá-lo em invenções. Isso foi uma
revelação. Seus criadores precisavam aprender. Eles não eram os anjos conhecedores de
tudo, impulsionados pela necessidade lógica e pela apreensão da ascendente bondade.
Eram animais ignorantes, enobrecidos apenas por sua insaciável curiosidade, e alguns
eram menos enobrecidos do que outros.
“Eu sou Teferi,” se apresentou um garoto que estava no caminho do homem de
prata e, ainda, parou em sua frente, como se desafiando a criatura de meia tonelada a
passar sobre ele. “Eu sou o mago prodígio.” Ele seguiu a introdução com um estalar de
dedos, soltando pipocantes faíscas azuis pelo ar.
A sonda parou de repente e agachou-se ligeiramente para dar uma olhada melhor
no jovem estudante. O rosto de Teferi era pequeno, escuro e travesso. Os cabelos negros
despenteados saltavam descontroladamente sobre seus olhos reluzentes. Ele usava as
vestes brancas, cheias de dobras, de um estudante tolariano. Na cintura dele, uma faixa
de couro segurava sua variedade pessoal de cristais, varinhas e fetiches. Seus pés
estavam nus, em desafio à política da escola, embora as unhas dos pés carregassem
estranhos símbolos em brilhante e lustrosa pintura. Ele ofereceu uma de suas mãos
formalmente em direção à sonda.
O homem prateado estendeu sua própria mão maciça e sacudiu ligeiramente o
braço inteiro do menino. “Eu sou a Sonda do mestre Malzra.” Assim que ele pegou a mão
do garoto, a sonda notou uma estranha e aguda sacudida em sua pele prateada. “Seu
aperto de mão é chocante.”

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O rapaz puxou a mão e deu de ombros, parecendo de alguma forma desapontado.
“Apenas um feitiço em que tenho trabalhado. Chuta as bundas das pessoas. Não funciona
em golens, eu acho. Me diga, que tipo de nome é Sonda do mestre Malzra, afinal?"
“É o único nome que tenho," respondeu a sonda com sinceridade. O rosto de
Teferi enrugou e ele balançou a cabeça. “Não está bom o suficiente. Agora, você tem
uma personalidade. Você precisa de um nome de verdade.”
Outros jovens estudantes estavam se reunindo no corredor atrás de Teferi, e eles
se inclinaram para o interior, antecipando algo. “Eu não estou familiarizado com os
procedimentos de nomeação.” Teferi sorriu confiante. “Oh, eu estou bastante
familiarizado. Vamos ver. Você é grande e reluzente. O que mais é grande e reluzente? A
Lua Nula. Por que não te chamamos de Homem Nulo?” Os alunos riram dessa sugestão.
A sonda sentiu uma sensação de irritação. “Isso soa insatisfatório, nulo não
significa nada. Sua sugestão implicaria que eu sou um homem nada.”
Teferi assentiu com a cabeça seriamente, embora um sorriso presunçoso surgisse
em sua boca. “Não podemos escolher esse. Enfim, você não é realmente um homem.
Você é um artefato. Arty seria um bom nome para você. Arty, o Artefato.”
A sonda não pôde determinar qualquer razão para rejeitar essa sugestão, além das
risadas dos alunos. “Arty é um nome usado entre seres humanos?”
“Ah, claro,” respondeu Teferi entusiasticamente, “como um primeiro nome, mas a
maioria dos seres humanos também tem um sobrenome. Vamos ver, você é de prata. O
que mais é feito de prata? As colheres são, e como você é grande, nós devemos te
nomear baseado em uma colher grande – uma concha, ou talvez uma pá. Assim, seu
nome completo deve ser Arty Cabeça-de-Concha ou Arty Cabeça-de-Pá.”
Aqueles jovens pareciam rir de toda e qualquer sugestão feita a eles. O homem
prateado ficou menos preocupado com a diversão deles. “O que soar mais agradável aos
ouvidos humanos.”
“Oh, qualquer um dos nomes trará um sorriso a quem o ouvir. Ainda, Cabeça-de-
Concha soa um pouco arrogante demais, como se você estivesse se vangloriando.
Cabeça-de-Pá é muito mais fácil. Eu voto para Arty Cabeça-de-Pá. O que dizem os
outros?”

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Os estudantes reunidos vibraram animadamente, e o homem de prata não pôde
deixar de ser levado pelo humor. No momento, qualquer nome parecia melhor do que
nenhum.
“Então eu serei Arty Cabeça-de-Pá,” disse a sonda, solenemente.
“Vamos, então, Cabeça-de-Pá,” disse Teferi solenemente, gesticulando pelo
corredor com seu braço de menino. Flâmulas de iluminação conjurada se espalharam de
seus dedos. “Tenho muito para te mostrar.”
A multidão de estudantes cercou a sonda e arrastou suas mãos frias de metal com
seus dedos quentes. Ele andava com cuidado entre eles, preocupado em não pisar em
algum pé.
A comitiva de crianças conduziu a sonda como se ele fosse um dignitário
visitante. Chegaram primeiro a um grande refeitório com vigas de marfim e paredes de
alabastro. Debaixo da abóbada branca havia mesas compridas e escuras cheias de mais
estudantes que se dobravam por cima de tigelas de barro e travessas com biscoitos e
queijo.
“Este é o grande salão,” relatou Teferi. “Aqui é onde nós estudantes comemos. A
comida é especialmente preparada para que nada dela possa nos distrair de nossos
estudos. Consegue notar as cores suaves e a consistência média de tudo isso? Os sabores
são ainda mais indistinguíveis. Ninguém poderia roer um daqueles biscoitos e gastar um
momento sequer para contemplar suas virtudes inexistentes.”
A sonda poderia dizer que esse garoto tinha uma compreensão aguda da verdade
por trás das aparências. “Mestre Malzra deve cuidar grandemente dos estudos de vocês.”
Teferi riu, embora o som fosse pesaroso. “Ah, sim. Ele alimenta nossas mentes
como um fazendeiro nutre o grão. Ele acumula esterco sobre nossas cabeças, sabendo
que vamos crescer através dele, que ele vai nos suportar ricamente, e então ele vem com
uma foice e arranca nossas cabeças para nutrir seu próprio apetite. É um esquema
refinado, dependendo de quem você é.” Ele disse esse último trecho enquanto guiava a
sonda e seus companheiros saindo de um corredor para outra câmara, semelhante à
primeira, exceto que a abóbada acima era escura, e os alunos nas longas mesas estavam
encolhidos sobre folhas de papel, com canetas de pena arranhando-as irregularmente.
“Aqui é parte da dieta de esterco que eu te falei. Esses alunos estão copiando projetos e
tratados do mestre Malzra, Mago Barrin e outros estudiosos. É copiando sedutoramente

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os escritos de nossos melhores estudiosos que nós nos tornamos escribas consumados por
nós mesmos.”
A sonda estava grata. “O que esses projetos e tratados descrevem?”
“Máquinas, como você. Dispositivos, principalmente. Ele tem um mausoléu
inteiro – hum, isto é, um museu – cheio de artefatos. Você estará lá também, em breve.
Mestre Malzra tem uma imaginação muito ativa e a coloca em grande uso criando meios
elaborados para poupar a si mesmo de um pouco do trabalho. Ele criou inúmeros
dispositivos para cozinhar mais rápido e de forma mais eficiente a papa e os biscoitos,
para limitar de forma mais efetiva a liberdade dos que estão sob seu comando e para
defender todos nós de forma mais completa contra inimigos externos para que apenas ele
possa nos atormentar.”
O homem de prata sentiu-se desconfortável com essa nova linha de pensamento.
“Inimigos externos? Que inimigos tem Malzra?”
“Oh, todo mundo está contra ele, ou você não sabia?” disse Teferi suavemente
enquanto se moviam para o corredor. Ele conjurou uma pequena faca, girou-a habilmente
entre seus dedos, e então a dissipou. “Pelo menos é o que Malzra pensa. Ele tem
criaturas mecânicas e verdadeiros guerreiros vagando pelos muros ao redor da academia
o tempo todo, homens de argila vagando pelo bosque ao lado do mar, e pássaros
mecânicos espiões sobre a ilha. Eu mesmo nunca ouvi falar de um único inimigo real,
mas Malzra gasta tanto tempo criando essas máquinas e recriando-as e aperfeiçoando-as,
que deve haver muito mais do que essa paranoia psicótica, você não acha?”
“Suponho que sim,” respondeu o homem de prata.
Chegaram à outra sala, esta era cheia de brutamontes dissecados de metal,
guerreiros mecânicos, máquinas desmontadas, sucatas enferrujadas e, na parede oposta,
um grande forno aberto. Trabalhadores de um lado da forja flamejante jogavam o carvão
nas chamas e bombeavam um fole maciço. Trabalhadores do outro lado despejavam
caixas de peças sobressalentes em grandes cubas de metal derretido. No restante da
câmara suja, estudantes moviam-se entre as máquinas destruídas como abutres rondando
um campo de batalha coberto de mortos. Um arrepio de pavor atravessou a sonda.
Teferi notou o impulso e sorriu sombriamente. “Veja, Arty, mesmo que Malzra não
tenha outros inimigos, suas velhas criações poderiam facilmente se virar contra ele. Elas
deveriam. Elas certamente têm razão para odiá-lo. Malzra rapidamente se cansa de seus

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brinquedos. Posso imaginar uma legião de homens de metal, como você mesmo,
descobrindo que Malzra planejou derretê-los. Eles poderiam escapar pelo mar. Posso
imaginar nações inteiras de criaturas mecânicas que fugiram de seu criador apenas para
reunir-se na esperança de voltar e matá-lo.”
O homem prateado estava horrorizado. “Como uma criatura artefato poderia
destruir o criador de artefatos?”
“Dê a ele um ano, Arty,” disse Teferi suavemente, embora nenhum dos estudantes
risse desta vez. O menino acariciou o braço do golem. “Dê a ele um ano – dois, em
alguns casos, e você enfrentará aquela fornalha impetuosa. É o caminho do artifício.
Quando você estiver em pedaços nessa sala, pergunte a si mesmo o que pensa sobre o
mestre Malzra.”

*****

Jhoira estava novamente em seu paraíso rochoso no mundo. Ela passava cada vez
menos tempo na academia e mais e mais tempo ali, sonhando com lugares distantes e
futuros.
Um ondulante movimento branco chamou sua atenção. Lá, ao longo da costa,
entre dois dedos de pedra, algo se movia. Parecia uma asa de gaivota, mas era grande
demais. Um pelicano? Um leão do mar branco? Jhoira piscou, esfregando os olhos. O
mar e o céu estavam ofuscantes ali. Talvez fosse apenas um pedaço de esponja.
Não, era mais do que isso. Parecia tecido – talvez outro estudante? Jhoira deslizou
da borda de arenito e se acomodou na encosta desmoronada. Uma ponta do tecido branco
estava amarrada a algo rígido – um mastro. Era uma vela. Jhoira desceu mais depressa.
As solas de sua sandália deslizavam no cascalho e areia. Ela atravessou uma capoeira e
subiu por uma fenda entre duas pedras esculpidas pelo vento.
O lugar dava para uma ampla praia de areia bege, quebrada por riachos com
pedras negras escarpadas. Acima de um desses riachos, uma vela montada nos flancos
laterais tremulava de um casco de madeira quebrada. O impacto tinha afastado a proa do
barco e estilhaçado a madeira do meio do navio. Desde então, as rochas haviam roído a
estrutura, cada nova onda triturando o casco novamente sobre as pedras esfarrapadas.

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Jhoira aproximou-se cautelosamente. Pouquíssimos navios chegavam a Tolária. A
maioria eram os navios de abastecimento da própria academia, capitaneados por
marinheiros escolhidos a dedo pelo mestre Malzra. A ilha era muito remota, muito
distante das rotas comerciais para atrair outros navios. Este barco deve ter perdido o
rumo e andado à deriva por alguma distância antes de bater. Talvez tenha sido
abandonado. Talvez sua tripulação tivesse sido arrastada ao mar. Jhoira esticou o pescoço
enquanto se aproximava, procurando sinais de vida no casco arruinado. As marcas das
suas sandálias ficaram cheias de água salgada atrás dela. Ela alcançou o afloramento
rochoso e subiu em cima dos destroços balançantes.
Era uma embarcação pequena, do tipo que poderia ter sido ocupada por uma
tripulação de cinco pessoas ou uma por tripulação de apenas uma. O convés estava todo
bagunçado – linhas amarradas frouxamente, pequenos barris rolando a cada onda de mar.
A escotilha estava aberta e, na escuridão, Jhoira vislumbrou gaivotas lutando por
pedaços de alimentos duros que foram derrubados de caixotes quebrados. O mastro
estava rachado, embora ainda sustentasse a vela rasgada, e o cabo da vela principal
estava cortado, como se o barco estivesse a toda velocidade quando atingiu a pedra. Ele
deve ter encalhado na última noite, quando a Lua Tremeluzente estava obscurecida por
uma tempestade da meia-noite. A proa tinha desaparecido por completo, mas a popa
permanecia. Um conjunto estreito de escadas conduzia a uma pequena entrada. Os
aposentos do capitão ficariam logo ali.
“O que você está fazendo?” Jhoira se perguntou preocupada enquanto subia a
rocha onde o navio estava empalado, levantava uma perna sobre a balaustrada de
estibordo e se impulsionava para o convés balançante. “Esta coisa poderia se soltar a
qualquer momento, rolar e me arrastar para o mar.”
Mesmo assim, ela se lançou para frente, alcançou o conjunto de escadas que
levavam até o alojamento do capitão, e desceu. Ela puxou a porta vermelha e se encolheu
contra o ar quente e viciado dentro da sala. O espaço era escuro e apertado. Com cada
onda que surgia, o chão tilintava com as tralhas – um tubo de mapa, uma pedra imantada,
um estilete, uma lanterna destruída, chaves mestras, uma régua de cálculo e outros itens
indistinguíveis. De um lado da cabine, uma pequena mesa abraçava a parede. Do outro
havia um par de beliches. A cama do fundo continha uma figura imóvel.
Morto, pensou Jhoira. O homem estava imóvel, apesar do mar agitado. Seu rosto
estava bronzeado sob os cachos de cabelos dourados. Seu queixo estava desmazelado

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com uma barba de uma semana por fazer. Suas mãos, grandes e fortes, estavam postas
em seu peito em atitude de morte.
Jhoira recuou. Talvez este fosse um navio da praga, este homem sendo o último a
sucumbir, sem ninguém para jogá-lo ao mar. Ela tinha sido uma idiota por subir a bordo.
Então ele se moveu. Ele respirou, e ela soube que mesmo se ele estivesse
contaminado, ela não poderia abandoná-lo. Sem mais hesitação, Jhoira atravessou a
cabine cheia, curvou-se ao lado do beliche e ergueu o homem. Ela sempre fora forte. Os
Ghitu de Shiv tinham de ser fortes. Colocando o homem sobre seu ombro, ela saiu da
cabine e subiu as escadas. Andar no convés coberto de entulho com um homem no ombro
foi difícil, e Jhoira tropeçou duas vezes. Rilhando os dentes em determinação, ela cruzou
a balaustrada. Com um salto de prender a respiração, Jhoira alcançou a rocha e agarrou-
se a ela.
Como se deslocada por seu salto, a embarcação quebrada se afastou do penhasco.
Uma onda a atingiu, levantando-a, e com uma profusão salgada, o barco voou em direção
a Jhoira e sua carga. Ela subiu para um ponto mais alto na rocha. A onda caiu de volta na
costa, levando o barco com ela. O mastro rolou por baixo e estalou como um galho.
Como se fosse um manto, a vela envolveu o barco estilhaçado enquanto se afastava com
a onda que se retirava. Barris quebrados e outros destroços ferviam na esteira do barco.
Arfando, Jhoira observou a massa quebrada de destroços vir à tona nas águas mais
profundas. A próxima onda o revirou mais uma vez, e então o navio desapareceu.
Durante algum tempo ela pôde vê-lo, movendo-se na ressaca como um leviatã branco.
Jhoira esperou as ondas diminuírem e desceu da pedra. Atravessou a orla arenosa,
tentada a pôr o homem ali. Um olhar penetrante no alto da colina lhe disse que nenhum
outro estudante ou acadêmico tinha visto o naufrágio ou sabia do homem, mas outros
poderiam aparecer logo. Então, ele poderia ser considerado morto. Malzra não aturava a
chegada de estranhos em sua ilha paradisíaca, e os estudantes juraram relatar qualquer
náufrago assim que eles o descobrissem. Jhoira planejava relatar este, é claro, mas não
queria que ninguém mais soubesse sobre ele – não ainda.
Por mais forte que fosse, subir a costa até o seu refúgio foi um trabalho
extenuante. Quando ela chegou, colocou o homem no chão ensolarado de arenito onde
ela havia passado tantas tardes. Verificou a respiração e o pulso, encontrou ambos, e
colocou uma mão em sua testa para verificar a febre. Ele aparentava estar quente,

17
embora pudesse ser apenas da luz do sol. Havia um teste melhor para febre. Com o
coração batendo, ela se inclinou e beijou sua testa.
“Quente. Sim. Muito quente,” Jhoira disse sem fôlego.
Ela tirou o manto externo, removeu um pouco do mato preso nele e colocou o
tecido sobre o rosto do homem, protegendo-o do sol. Ela pegou um pequeno cantil do
cinto, separou os lábios do homem e derramou um fresco gotejamento de água em sua
boca.
Ele era bonito, bronzeado, forte, alto e misterioso. Aquilo era a coisa mais
importante de todas. As últimas gotas caíram do cantil.
“Fique aqui,” ela sussurrou, acariciando seu ombro. “Não deixe ninguém ver você.
Vou buscar mais água e cobertores. Eu cuidarei de você. Fique aqui.”
Com o coração voando em seu peito como um pássaro enjaulado, Jhoira se afastou
rapidamente de seu lugar secreto e de seu desconhecido secreto.
Seus passos ainda não haviam desaparecido além da elevação rochosa quando os
olhos azuis do desconhecido se abriram. Havia um brilho neles, algo vagamente
metálico. Poderia ser apenas o brilho prateado das nuvens refletindo neles, mas poderia
haver algo mais naquele brilho, algo mecânico, algo ameaçador.

Monólogo

Urza conseguiu, finalmente , construir uma máquina que realmente vive .

Ele está trabalhando há três mil anos para conceber tal coisa . Agora que ele tem

uma , ele não sabe o que fazer com ela .

O homem de prata foi projetado para permitir que Urza retorne no tempo,

ainda mais longe do que aqueles três mil anos, no tempo dos antigos Thran .

Urza espera que a sonda possa chegar ao tempo daquela antiga raça , cerca de

seis milênios no passado. Se o próprio Urza pudesse chegar a tal momento, ele

poderia impedir que os Thran se transformassem na raça de abominações meio-

carne meio-máquina que buscam destruir a vida em Dominária , corrigindo

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assim o erro que ele e seu irmão Mishra fizeram ao abrir as portas para

Phyrexia .

Eu pontuei que desfazer os phyrexianos equivale a matar todos nós que

vivemos neste mundo desde a sua criação. Ainda assim, Urza preferiria ignorar

seus erros e começar tudo de novo do que enfrentar o seu passado – exatamente

como ele fez em Argoth .

A coisa perturbadora é que ele está cometendo todos os mesmos erros

novamente . Se ele pudesse só ter abraçado seu irmão em vez de tê-lo atacado –

se ele pudesse só ter pedido desculpas por sua arrogância e obsessão e ter se

reconciliado – a Guerra dos Irmãos nunca teria sido travada , a irmandade de

Gix nunca teria se estabelecido no mundo, e Argoth e a maioria de Terisíare não

teriam sido destruídos. Se tivesse trabalhado com seu irmão em vez de contra

ele , combinando seu gênio e o poder de ambas as metades da pedra que haviam

descoberto, o caminho de Phyrexia poderia ter sido interrompido no próprio dia

em que foi acidentalmente aberto.

A reconciliação não está presente no homem mais do que o

arrependimento, o remorso ou a amizade . Cada pecado de omissão que Urza

cometeu contra seu irmão, ele está repetindo agora contra seus próprios alunos…

e seu recém-nascido homem de prata .

– Barrin , mago mestre de Tolária

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Capítulo 02

Os estudantes já haviam saído do laboratório. Somente o mestre Malzra, seu fiel


associado Barrin, e o homem de prata permaneciam entre os implementos escuros e os
infinitos esboços.
“Você aprendeu muito em seu primeiro dia,” disse Barrin gentilmente. “Nós
estivemos observando, à distância. Você interagiu bem.”
“Eu tenho um amigo,” iniciou o homem de prata.
Um pequeno sorriso cruzou o rosto de Barrin. “Sim. Teferi, meu prodígio pródigo
– nós sabemos disso.”
“Ele me contou muitas coisas,” continuou a sonda. Sua voz estava repleta de
suspeitas. “Ele explicou a academia para mim. Ele me chamou de Arty Cabeça de Pá.”
O mago respirou fundo, irritado. “Teferi é um jovem mago brilhante – meu
estudante mais promissor – mas ele gosta de causar problemas. Ele torna as coisas duas
vezes mais difíceis para si mesmo, e três vezes mais difíceis para os outros.”
“Teferi é um bom primeiro amigo,” interrompeu Malzra com uma espontaneidade
incomum. Ele encarou o homem de prata e o homem de carne e osso, depois pareceu se
esconder atrás de seus olhos tremeluzentes. “Afinal, Barrin, você disse que a sonda tem
emoções, necessidades de amigos.”
“Sim,” disse o mago, desviando da conversa de modo, também, incomum. “Mestre
Malzra está ansioso para iniciar os experimentos para os quais você foi criado. É por isso
que nós te chamamos essa tarde.”
Barrin caminhou na direção de uma parede, abriu uma pequena escotilha e tirou
uma vara com três vezes a sua altura. Na ponta da vara havia um pequeno gancho. Barrin
levantou o gancho até o teto, engatou em um encaixe escondido e puxou para baixo. Um
longo painel na cúpula se deslocou e depois lentamente se movimentou suavemente. Em
hastes hidráulicas, o painel desceu da cúpula. Uma grande e complexa máquina de
cilindros de vidros, armações de metal e tubos serpenteantes emergiu. Uma luz brilhante
emanava de todo o aparato, dez vezes mais pesado que o próprio homem de prata.
“Essa é a máquina de distorção temporal,” explicou o mestre Malzra. “Ela é
energizada por quatro fontes separadas de energia: térmica, mecânica, geomagnética e,
claro, Thran. O componente térmico provê um marcador de tempo molecular, uma

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medida exata do vetor temporal, calibrado em vibração atômica por segundo. O
componente mecânico rotaciona a unidade sobre seu eixo, portanto criando abaixo do
aparelho um cone de radiação no qual a distorção temporal se manifestará. O
componente geomagnético provê precisas coordenadas de longitude, latitude e altitude
dos pontos de origem e de destino. As powerstones Thran, evidentemente, são a unidade
principal da máquina.”
O homem de prata pensou alto, “O que essa máquina… é?”
“Uma máquina do tempo,” explicou Barrin. “Na verdade, ela proporciona viagens
através do tempo e do espaço. Hoje à noite, nós planejamos testar apenas os
componentes temporais.”
“Você deseja que eu opere esta máquina?” supôs a sonda.
“Nós desejamos que você viaje nela,” respondeu o mestre Malzra. “O design atual
destrói criaturas biológicas. Qualquer organismo com um coração pulsante, respiração,
trato digestivo ou uma rede neural baseada em reações químicas está mal adaptado ao
campo de distorções temporais.”
“Eles morrem,” explicou Barrin. “Metais são muito menos suscetíveis a estresses
temporais. Prata, dentre todos os metais, mostrou ser mais resistente. É por isso que você
é feito de prata. É para isso que você foi criado – para viajar através do portal e reportar
o que você descobrir.”
O homem de prata se aproximou da máquina pendurada. Seus olhos traçaram um
círculo no chão, abaixo do aparelho maciço. “Teferi me falou sobre isso. Cada máquina é
feita para um propósito específico. Cada máquina é feita para defender você e a
academia contra… inimigos externos.”
Mestre Malzra levantou uma sobrancelha. “Teferi sabe tanto assim?”
“Todo mundo parece saber,” disse o homem de prata.
“Bem, sim,” disse o artífice. “Isto é parte dessa defesa. Você não deve divulgar a
informação que nós estamos relatando a você-”
“Claro que não.”
“Nós pretendemos, eventualmente, enviar você ou outra sonda, ou talvez uma
pessoa, para o tempo dos Thran, para avisá-los do caminho que levará a esses inimigos
externos.”

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“Me enviar ou enviar outra sonda…” ecoou o homem de prata, pensando na
fornalha feroz, sucatas de metal e trabalhadores com pás.
“Isso é extremamente secreto, claro.” disse Malzra.
“Sim,” respondeu o homem prateado.
“A regressão de hoje não será nada tão grandioso,” assegurou Barrin,
aparentemente sentindo a hesitação da sonda. “Se as coisas forem bem, nós retornaremos
no tempo até, talvez, hoje de manhã.”
“O que eu devo fazer?” perguntou a sonda.
“Você deve ficar aqui, dentro do círculo,” disse o mestre Malzra. “Só isso. Você
ficará ali e esperará enquanto a máquina faz o resto do trabalho. Quando a regressão
temporal diminuir, você deverá sair do círculo para chegar no tempo desejado. Você
permanecerá fora de fase no tempo passado – você poderá ver seus arredores, mas
ninguém conseguirá te enxergar. Isso é para proteger a continuidade temporal. Quando as
partículas do seu ser gradualmente se alinharem com o seu novo ambiente, este efeito de
fora de fase diminuirá, e você se tornará visível. Não importa se estiver dentro ou fora de
fase, você será capaz de afetar o ambiente, porém nós pedimos que você não faça
alterações significativas, novamente, para manter a integridade temporal. Nós
controlaremos sua viagem de retorno para esse objetivo. Quando você voltar para o
presente, você reportará o que você descobriu. Você entendeu?”
“Eu entendi,” disse o homem de prata, secamente. “Esse é o meu objetivo. É por
isso que eu fui criado.”
Barrin mirou o golem de prata e sacudiu sua cabeça. Ele se virou para Malzra e
falou calmamente em sua orelha. “Eu não estou gostando disso. Parece que ele foi
traumatizado por Teferi.”
Malzra riu silenciosamente. “Você está traumatizado por Teferi.”
“O córtex emocional é muito novo.”
“Ele exibiu resposta emocional adequada a Teferi.”
“Eu estou te dizendo, eu não estão gostando disso..”
“Ele entendeu. Ele sabe que essa é razão por trás de sua criação.”
“E se ele intervir no fluxo temporal?”

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“Então nós trazemos ele de volta e saberemos que ele não é suficiente para a
tarefa.”
O homem de prata se manteve em silêncio enquanto os homens falavam, seus
sentidos acurados captando cada palavra.
“Eu entendo que você esteja ansioso, Malzra, mas nós temos tempo. Se nosso
experimento funcionar, nós teremos todo o tempo do mundo. Testar uma criatura viva
não é como testar uma máquina. Você não pode simplesmente desmontar uma criatura,
inserir novas partes e recomeçar.”
“Ao contrário, isso é o que nós fizemos hoje de manhã,” concluiu Malzra, virando
as costas ao seu colega. Com um pequeno gesto, ele disse ao homem de prata, “Entre no
círculo. A fase de energização demora alguns instantes.”
Em silêncio, a sonda deu um passo em direção ao círculo e parou. Ele conseguia
sentir o peso magnífico e silencioso da máquina do tempo pendurada sobre sua cabeça.
Do exato centro do chão, ele observou Malzra e Barrin.
Barrin usou a mesma vara com gancho para ativar o painel escondido no chão.
Uma seção trifoliada de rocha se moveu para o lado e uma variedade de controles se
ergueu na sala. Havia um conjunto de bobinas de cobre e tubos pulsantes abaixo do
painel de controle conectado com o chão. Enquanto isso, Malzra trabalhava nos ajustes
das alavancas e interruptores.
Os fluidos começaram a se mover pelos tubos. Um som baixo começou entre os
grandes cilindros de vidro. As placas de latão começaram a zunir. A própria cúpula
retumbou com o som.
Um gemido agudo ecoou pelo laboratório, e um fino raio vermelho surgiu da base
da máquina. Ele atravessou o ar carregado, passou pelo ombro do homem de prata, e
atingiu o círculo desenhado no chão. O raio se agitou por um instante e depois formou
um arco. Assim que atingiu o golem, ele acelerou o seu curso. Em poucos momentos, o
único raio havia se ampliado em um cone carmesim que o envolvia.
O homem de prata continuava parado, banhado na luz lúgubre, observando seus
criadores. Os homens estavam ocupados em seus controles, elaborando a fonte de energia
e nivelando outra, direcionando o feixe do raio em um crescendo, configurando as
coordenadas do espaço e do tempo… a luz se intensificou. Os esforços dos artífices

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diminuíram. O zumbido chegou ao extremo. Mestre Malzra e Barrin não se moveram,
congelados no espaço e no tempo.
A sonda entendeu. O zumbido da máquina e seu cone de luz puxaram a linha
temporal até ela se tornar um nó desgastado, e depois até ela se tornar nada. No crescente
furor, a máquina arrancava os momentos passados daquele novelo enrolado. Eles também
começaram a se desembaraçar. Não mais imóveis, mestre Malzra e Barrin se moviam
para trás, desfazendo tudo o que havia sido feito. Seus braços desferiam golpes
estranhos, como cauda de escorpião. Mais que isso, o homem de prata também se movia,
ou seu passado se movia. Ele deu um passo para trás, para fora do círculo, exatamente
como ele havia caminhado para dentro, alguns minutos atrás.
Dentro do cone da regressão, o homem de prata do presente observava com
espanto. Seu doppelganger conversava com Malzra e Barrin. Suas palavras se perdiam
devido ao som da máquina, mas o sentido delas era claro – sílabas revertidas que não
informavam ou esclareciam, ao contrário, desinformavam e obscureciam. Enquanto eles
falavam, o golem fantasma entendia cada vez menos e menos, e a máquina do tempo
fantasma se retraía em direção à cúpula. Quando a breve conversa acabou, o golem
andou para trás, em direção à porta, ignorando a máquina escondida e tudo o que havia
sido dito.
A regressão acelerou. Barrin e Malzra escorregaram para fora do lugar,
desmontando coisas, esquecendo conversas, reduzindo conclusões a hipóteses,
entregando passo a passo toda a marcha temporal. Logo eles se começaram a se mover
tão rapidamente que pareciam borrões em forma de homens, até que desaparecem
completamente. O laboratório ficou escuro e vazio por um tempo, exceto pelo
movimento ocasional de um rato.
Eventualmente os dois sábios retornaram, seguidos por vários assistentes e
tutores. As galerias acima estavam inundadas por olhos ansiosos e atentos. O golem do
passado avançou para o início de tudo. Seu retorno foi seguido por cabeças balançantes e
gestos bruscos, como uma ovação no ar. Os artífices haviam formado uma área de retiro,
para onde o golem caminhou. Ele alcançou o ponto marcado e se instalou em imensa
inércia. Ocorreram outros questionamentos.
Malzra, com uma brusquidão quase selvagem, alcançou o pescoço da sonda, fez
alguns rápidos movimentos e empurrou a cabeça da criatura para trás, sobre seus ombros.
Então, ele levantou a peça metálica do crânio.

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Dentro da máquina do tempo, o homem de prata olhava fixamente, atordoado por
ver seu próprio corpo ser tão rápido e facilmente desmantelado. O corpo ainda estava
parado, embora o revestimento da cabeça estivesse agora em cima da mesa, como se
tivesse descartado. O funcionamento interno da cabeça do golem foi descoberto.
Engrenagens e cabos brilhavam em um conjunto de suportes. Luz vazava por todas as
direções. Malzra estava ocupado puxando uma caixa de prata central, os movimentos de
seus dedos se contraindo na criatura dissecada. Outras duas contrações e Malzra
alcançou a caixa. Ele a abriu. Dentro dela havia uma pedra escura, do tamanho do punho
de uma criança. Ele removeu o cristal. Todos os últimos sinais de vida se esvaíram da
criatura.
O homem de prata assistia em espanto, enquanto Malzra segurava a pedra. Alguns
sorrisos engolidos vieram da galeria. Malzra gritou algo que acabou com aquela graça e
foi em direção a uma mesa, onde ele posicionou a pedra em uma caixa de metal.
Os estudantes na galeria começaram a se movimentar. Malzra e Barrin se
ocuparam guardando ferramentas em caixas e esfregando manchas de óleo das mãos.
Enquanto o lugar esvaziava lentamente, o golem dissecado simplesmente permaneceu lá,
sem vida e sem cabeça, no meio de tudo.
A regressão diminuiu. O homem de prata viajante do tempo ardia em calor, devido
ao estresse temporal. Ele deu um passo para fora do feixe cintilante. Ao seu redor, o
tempo diminuía seu ritmo. Os estudantes voltavam para a galeria. Os sábios
desempacotavam suas ferramentas e limpavam suas mãos.
Fora de fase e despercebido por todos eles, o homem de prata se aproximou do seu
antecessor sem cabeça. Ele olhou para dentro da caixa de prata vazia que saía do pescoço
do golem. Ele olhou dentro do seu próprio pescoço, imaginando onde estaria a alavanca
que possibilitava que seu crânio fosse retirado. Sua mente, suas emoções, sua própria
essência poderia ser arrastada como um pedaço de carvão e ser exposta. Ele era uma
mera diversão para as crianças. Elas o chamavam de amigo, mas, na verdade, ele era
apenas o Cabeça-de-pá. Sem a pedra escura, ele não era nem isso. O homem de prata
encarou a inegável imagem de sua própria morte.
A regressão terminou. Ele foi subitamente puxado do fluxo temporal e novamente
banhado naquele ganancioso brilho avermelhado. O mestre Malzra o invocou para o
presente.

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O homem de prata chegou. O feixe de luz salpicou e se afastou, retirando-se para
dentro da máquina acima. Ela também se retirou, deixando um rastro de fumaça
acinzentada devido ao esforço que enfrentou.
Barrin e Malzra ficaram de pé, piscando, em seus controles. Tentados, os dois
sábios soltaram os controles e se dirigiram para a sonda.
Barrin falou primeiro. “Você está bem-?”
“Você é capaz de fazer um relatório?” interrompeu Malzra.
“Meu corpo está muito quente,” respondeu o homem de prata, “mas eu sou capaz,
sim.”
“Quão longe você foi?” perguntou Malzra.
“De volta à manhã de hoje, na hora do meu despertar.”
“Excelente,” disse Malzra enquanto Barrin anotou a resposta em um pedaço de
papel. “E você tocou ou moveu alguma coisa naquele tempo?”
“Eu toquei apenas o chão, com meus pés, e apenas me movi.”
“Alguém se aproximou de você, ou houve alguma indicação de que sua presença
foi notada?”
“Não.”
“O que você observou?”
Essa resposta não veio tão prontamente quanto as outras.
“Eu observei a mim mesmo desmontado. Eu observei o núcleo do meu ser sendo
removido. Eu observei a pequena, escura e frágil coisa que é minha mente, minha
essência e minha alma.”

Monólogo

O primeiro dia de vida é sempre o mais dif ícil ; ser arrastado de qualquer

útero quente e seguro em que tenha sido concebido e , em seguida , empurrado

para a frieza do mundo. Há muito para se ajustar: respirar ar em vez de líquido

é uma delas, estar nu e ser esfregado e espetado é outra . O pior de tudo é o

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momento em que o cordão é cortado e você está subitamente e irrevogavelmente

sozinho.

É em reconhecimento a tais traumas que os braços das mães são feitos.

Você não tem mãe . Você também não tem pai . Você tem dois criadores.

Nenhum de nós sabe como confortá-lo e protegê-lo. Se você precisar de muito

acolhimento, talvez até o consideremos defeituoso. Talvez seja porque você foi

projetado para ser uma arma , não uma pessoa . Talvez porque não esperávamos

ter que salvar você . Nós esperávamos que você nos salvasse .

– Barrin , mago mestre de Tolária

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Capítulo 03

Já havia se passado quase um mês, desde que Jhoira observara a sessão no


laboratório em que o homem de prata acordara. Ela podia se lembrar de cada detalhe da
técnica do mestre Malzra. Ela havia passado esse tempo estudando powerstones, como a
que estava colocada na cabeça do golem, e examinando esboços do projeto do artefato.
Tudo era uma preparação para o projeto que ela teria que apresentar. Era o preço pago
por todos os estudantes de elite convidados a observar o procedimento. Restava apenas
mais uma tarefa antes que ela estivesse pronta para escrever seu relatório – entrevistar a
máquina.
Ela suspirou em apreensão e bateu os dedos preguiçosamente sobre os projetos.
Ela esperava obter uma descrição satisfatória do desempenho intelectual e emocional do
golem a partir desses projetos, de sua pesquisa sobre as powerstones Thran e da
observação em primeira mão da readaptação. Entretanto, nenhuma dessas coisas
explicava as aparentes capacidades lógicas e afetivas daquilo – dele. Ela teria que
entrevistá-lo.
Jhoira olhou em sinal de rendição para o teto de seu dormitório. Entrevistar a
máquina significava vencer o seu autoproclamado protetor, Teferi. O rapaz – aos
quatorze anos, apenas um menino – era parte prodígio, parte brincalhão e parte
pervertido. Infelizmente, as três partes estavam loucamente apaixonadas por Jhoira. Ela
tinha feito o seu melhor para desencorajar seus avanços, mas ele não notara as
repreensões sutis, e considerou as não sutis apenas rudes brincadeiras afetuosas.
Se ela lhe dissesse que não estava interessada, ele se comprometeria a torná-la
interessada. Se ela dissesse que o odiava, ele responderia que o ódio e o amor estavam
apenas a uma espessura de um fio de cabelo de distância e por falar em cabelo, será que
ele poderia ter uma mecha do cabelo dela? Ela tinha um pressentimento de que ele havia
feito várias tentativas de inventar uma poção do amor mágica para conquistá-la.
Apenas pensar no jovem rapaz – no menino, ele era apenas um menino – deixava
Jhoira irritada. Ela levantou de sua mesa e andou de um lado para o outro no pequeno
quarto que ocupava na academia. Se pelo menos Teferi vislumbrasse um homem de
verdade, como aquele que ela encontrara à beira-mar, que ajudara e mantivera em
segredo no seu esconderijo nas rochas… Não. Ninguém podia saber sobre Kerrick,

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exceto ela. É assim que foi e é assim que deve ser. Jhoira sentou-se em sua cama estreita
e olhou pela janela do cubículo. Além das copas das árvores e pedregulhos caídos estava
o litoral e seu amor secreto.
Ela balançou a cabeça em uma tentativa de retomar o foco. O quanto antes ela
entrevistasse o homem de prata, mais rápido ela poderia terminar o seu relatório e assim
se reencontrar com Kerrick. Agarrando um maço de papel e uma pena ponta de chumbo,
Jhoira se dirigiu à porta e seguiu pela academia procurando pelo homem de prata.
Ela o encontrou no grande salão, se agachando para sentar em um toco da madeira
que foi carregado especificamente para ele depois de quebrar três dos bancos da
academia. Ele parecia deprimido, abaixado na ponta de uma mesa. Teferi se sentou ao
lado dele e um punhado de seguidores do prodígio se aglomerou em fartos risos ao redor.
Cenouras estavam no menu de hoje e Teferi descobriu que levitando-as em vários
buracos do crânio do golem, poderia criar orelhas cômicas e um longo nariz torcido.
Àquelas alterações vieram outras – alface oleosa em uma cabeleira improvisada e olhos
grandes e esbugalhados feitos de biscoitos duros enfiados nas órbitas oculares da
máquina.
Jhoira balançou a cabeça ao se aproximar. Se os relatórios estivessem corretos,
esta máquina era plenamente consciente. Ele sabia o que estava sendo feito a ele e se
importava.
“Mestre Malzra sabe o que você está fazendo, Teferi?”
O garoto ergueu os olhos, seus arteiros traços se iluminaram quando ele a viu.
“Olá, Jhoira, já conhece o Arty Cabeça-de-Pá?”
“O mestre Malzra sabe o que você está fazendo?” Ela repetiu com raiva.
O jovem de quatorze anos demonstrava uma superioridade presunçosa. Ele acenou
com a cabeça em direção à sala espelhada onde Malzra e Barrin frequentemente
almoçavam. “Mestre Malzra está profundamente interessado em todas as minhas
aventuras. Eu sou o prodígio mágico de Barrin, é claro que eles sabem o que estou
fazendo.”
“Esta criatura artefato é consciente, Teferi. Ele pensa. Ele tem sentimentos. Você
não pode simplesmente brincar com ele assim.”

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“Eu posso, e eu vou”, respondeu Teferi. Ele levitou um par de rabanetes para fazê-
los pairar como brincos em ambos os lados da cabeça do golem. “Que diversão é brincar
com alguém que não tem pensamentos e sentimentos?”
Exasperada, Jhoira estendeu as mãos. “De qualquer forma, eu preciso entrevistá-
lo.”
Teferi sorriu. “Vá em frente, eu sou seu intérprete, certo, Cabeça-de-Pá?”
Atrás de sua máscara de biscoitos e cenouras, o homem de prata permaneceu em
silêncio.
Repugnantemente, Jhoira se aproximou e tirou uma folha de alface esvoaçante da
cabeça da criatura, fios de óleo de salada cintilando em sua testa brilhante. “Você já
pensou que pode estar danificando, que pode estar destruindo ele? Isso é um mecanismo
sensível.”
“Mestre Malzra quer que ele seja testado”, Teferi respondeu sem hesitar. Ele
entrelaçou os dedos atrás da cabeça e recostou-se no banco. “Eu só estou fazendo um
exame rigoroso, se você está com ciúmes, eu posso organizar um exame rigoroso para
você, lá no meu quarto.” Seus amigos entoaram um emocionado “oooh” ao ouvir a
sugestão.
Jhoira corou. “Eu não estou interessada em garotinhos-” Ela respondeu,
removendo selvagemente os biscoitos do rosto do homem de prata. O golem enviou-lhe
um olhar de sofrimento perdido “-não estou interessada em meninos minúsculos e
maldosos que cortam os olhos de pardais, pisam em rosas e esvaziam suas bexigas em
qualquer coisa bonita e boa.”
“Isso é o que você é, Teferi – você não é nem um menininho desagradável, mas
uma criança que não consegue controlar seu próprio corpo, não pode reconhecer ninguém
como real, não pode fazer nada além de choramingar e contaminar todos ao seu redor.
Você precisa crescer muito antes de ser qualquer coisa além de um bebê chorão.” Jhoira
pontuou este argumento arrancando as diversas cenouras da cabeça do golem.
Teferi ficou em silêncio. Seu rosto ficou pálido como se o rubor das feições de
Jhoira sugasse a cor das suas. Quando ela terminou, seu lábio tremia. Seus olhos estavam
tão largos e escancarados como os biscoitos no chão.
Jhoira abaixou, gentilmente, majestosamente, e pegou a mão do homem de prata.
“Vamos. Eu tenho um monte de perguntas para lhe fazer.”

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A sonda levantou-se, como se sua massa de meia tonelada pudesse ter sido
levantada por sua mão esguia. Olhando para trás por sobre seu ombro, o homem de prata
seguiu Jhoira exibindo abatimento e confusão em seus ombros curvados.

*****

Barrin estava nervoso. Ele saiu do corredor que dava para o grande salão e parou
na frente dele. Através de um vidro unidirecional encantado pelo próprio mago, ambos
testemunharam o incidente com as cenouras e biscoitos e centenas de outras brincadeiras
que Teferi tinha feito com o infeliz golem. Essas ocasiões pareciam apenas divertir
ligeiramente Urza. Elas deixaram Barrin furioso.
“Eu não consigo entender por que você permite isso!” disse exaltado. “Aqui está a
primeira criatura artefato verdadeiramente viva que você criou e ainda assim você o
entrega às depredações daquele… daquele abutre!”
“As coisas vivas têm que viver, Barrin,” Urza disse calmamente. “Se Teferi avariar
a sonda, vamos saber que ela precisa ser redesenhada.”
“Avariar? Redesenhar?” Barrin enfureceu-se. “Isso não é o que você faz com seres
vivos, eles têm que viver – como você disse, este golem tem apenas um mês de idade. Dê
tempo a ele.”
“Tempo é tudo que dei a ele. Vamos tentar outra regressão no final deste mês,”
disse Urza, indo em direção à porta da câmara.
“Enquanto isso”, disse Barrin severamente, “Vou pedir a Jhoira para cuidar dele,
para mantê-lo longe de Teferi. Eu realmente não entendo por que você se recusa a deixar-
me expulsar esse instigador.”
Urza voltou-se para a porta aberta. “Eu o mantenho aqui porque ele é um gênio
mágico – movido e destinado à grandeza. Ele pode ser um incômodo social, sim, mas eu
também era um.”
“Você ainda é”, Barrin observou acidamente, “mas Teferi é mais do que um
incômodo. Jhoira disse a verdade. Ele é egoísta. Ele é perigoso. Ele machuca as pessoas,
sem pensar ou se arrepender. Ele não assume nenhuma responsabilidade por seus atos.
Eu não me importo com seu potencial. Até que ele cresça, ele vai deixar um caminho de
destruição em seu rastro.”

31
“Você já disse o mesmo de mim antes.” Urza piscou, considerando. “Sim, eu
mantenho Teferi aqui porque ele lembra a mim.”
Jhoira conduziu o homem de prata ao seu quarto. Ele teve que se virar de lado para
se encaixar através da porta em arco, e uma vez lá dentro, simplesmente permaneceu lá,
tão rígido e temeroso quanto um adolescente.
“Está tudo bem. Eu não vou te morder,” Jhoira assegurou. Ela gesticulou ao golem
para que ela pudesse fechar a porta atrás dele.
O clique do trinco fez o quarto parecer ainda menor. Apesar de seus ombros
encolhidos e comportamento silencioso, a sonda parecia especialmente grande naquele
momento.
Jhoira contornou-o e ocupou-se a arrumar o quarto. “Não é muito, eu sei, mas é
tudo que eu preciso e tem privacidade.” Ela pegou uma roupa íntima à vista e a escondeu
dentro de uma cesta em um canto. “Aqui está a minha cama”, prosseguiu ela,
endireitando nervosamente o cobertor cinzento-esverdeado e afofando o travesseiro,
como se esperasse que o homem de prata se deitasse sobre ele. “Aqui é onde eu guardo
minhas roupas – as vestes de estudante penduradas naquele guarda-roupa encrustado de
ossos lá, e minhas roupas de sair aqui nesta gaveta. Essa é a desvantagem de ser feita de
pele. Eu tenho que me cobrir o tempo todo.”
Aquilo pareceu forçado. Jhoira lembrou-se que ele era um homem de metal, e não
estaria mais interessado em suas roupas de baixo do que uma maçaneta.
“Veja. Aqui está algo que você vai gostar.” Ela alcançou uma prateleira baixa
acima de sua mesa de desenho e tirou um pequeno pingente de metal. Foi feito para se
assemelhar a um homem lagarto vestido com roupões pesados. “Isto é da minha terra
natal, Shiv. É de metal, e não apenas metal, mas metal Viashino, que é uma das coisas
mais resistentes do mundo.” Sem pensar, ela jogou a joia para o golem.
Uma mão maciça arrebatou o item no ar, o primeiro movimento que o golem fizera
desde que se instalou na quietude. Ele olhou para o pingente. "É duro,” ele concordou em
uma voz como o distante rumor de uma cachoeira. “E me arranhou.”
Jhoira franziu a testa. Ela cruzou a sala para olhar. Dois arranhões pequenos
marcavam a palma do homem de prata. “Oh, não. Eu sinto muito. Deixe-me pegar algo
para-” Ela caiu na gargalhada, se recompôs, e se jogou na cama.
O homem de prata inclinou-se para a frente. “O que foi, eu disse algo idiota?”

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“Não, não”, Jhoira reassegurou. “Eu disse. Fui eu. Se um dos meus outros amigos
tivesse se arranhado, eu teria pressionado uma toalha para parar o sangramento, mas
você não pode sangrar. Ainda assim, eu estava indo pegar uma toalha.” “Um de seus
outros amigos?” O golem ecoou. “Ah, eu estou apenas nervosa. Não sei por quê.” Ela
sentou-se solene na cama. “Eu realmente não tenho muitos amigos, não costumo deixar
ninguém entrar aqui, e sei que você é apenas uma máquina, mas parece tão real, muito
parecido com uma pessoa”.
“Muito parecido com uma pessoa.”
Ela balançou a cabeça e pegou uma toalha nos seus suprimentos de desenho.
“Ainda assim, acho que você precisa de uma dessas. Eu estou falando e falando, e você
aí, com vinagre pingando da sua cabeça.” Dobrando o pano em uma mão, ela caminhou
para o golem e começou a limpar o líquido. “Sabe, na minha terra natal, minha tribo em
Shiv, eles colocam óleo na cabeça de alguém para honrá-lo, é chamado unção. Ghitu faz
isso quando você nasce e quando você começa uma busca visionária, quando precisa de
cura e quando você acaba de ser salvo da morte.” Ela pacientemente removeu os veios do
líquido e poliu a cabeça brilhante da criatura.
“Talvez seja isso que me aconteceu”, disse o homem de prata. “Talvez eu tenha
acabado de ser ungido”.
“Você tem sorte de ter sido apenas óleo e vinagre. Conhecendo Teferi, poderia ter
sido algo muito pior.”
“Não foi Teferi que me ungiu,” o homem de prata retumbou. “Não foi Teferi quem
viu que eu precisava de cura.”
Jhoira sorriu tristemente, enxugando o último traço de óleo. Ela gesticulou para o
pingente. “Você pode ficar com ele. Eles trazem sorte e é bom ter com você em uma
busca visionária.” Ela enxugou as mãos em outro pano e jogou ambos na cesta do canto.
“De qualquer maneira, eu estou fazendo um relatório sobre você, e tenho algumas
perguntas – se você não se importar?”
O homem de prata disse solenemente, “Você é a primeira pessoa a perguntar se eu
me importo com alguma coisa.”
Jhoira assentiu distraidamente. Ela puxou um grande maço de esboços debaixo de
sua mesa de desenho e selecionou uma série de folhas ruidosas dele. Ela as espalhou na
sua área de trabalho.

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“Estes desenhos são de mim”, observou o golem.
“Sim. Este é o último conjunto de esquemas feitos para você antes da powerstone
ser implantada – estas são as vistas de frente, de trás, esquerda, direita, superior e
inferior. Há um detalhe de seu torso. Você tem muito espaço lá dentro. E aqui está a sua
cabeça,” disse ela, apontando para cada matriz de linhas cinzentas e engrenagens de
trabalho.
“Esta legenda me chama apenas de ‘SONDA 1’ ”, indicou o golem.
“Sim”, respondeu Jhoira. “Mestre Malzra não é muito imaginativo quando se trata
de nomes. Ainda assim, é um nome melhor do que Arty Cabeça-de-Pá.”
Um dos enormes dedos do golem delineou um colchete que indicava toda a
estrutura do constructo. Ao lado dele estava uma legenda que dizia simplesmente:
“KARN”.
“Gosto mais deste nome, o que quer dizer?”
Jhoira ergueu os olhos do esboço. Seus olhos se estreitaram atentamente enquanto
estudava os traços brilhantes do golem. “Isso é Thran antigo. Eu não sei muito da língua,
mesmo o mestre Malzra não sabe muito dela – mas eu conheço essa palavra, significa
‘poderoso’”.
“Karn,” o golem repetiu pensativamente.
Jhoira sorriu de novo. “Sim. Esse é um bom nome. Esse é o seu nome. Karn.” Ela
se virou para a mesa. “Agora, os esboços deste lado mostram a powerstone e sua
integração na superestrutura. O ponto principal do meu relatório é explicar como um
autômato se torna uma criatura pensante e com sentimentos, simplesmente através da
adição de um cristal. Eu não fui capaz de descobrir apenas olhando para esses diagramas,
mesmo observando a operação. Não posso imaginar como uma powerstone –
especialmente uma que parecia morta, como a que está dentro de você – poderia dar a
uma criatura pensamento, vida e alma.”
“Talvez não seja a powerstone,” disse Karn calmamente.
“Não é a powerstone?” perguntou Jhoira. “Então o que seria?”
“Não sei, mas sem isso, não sou nada,” observou Karn. “Eu me vi sem ela. Sou
apenas uma pilha de metal.”
“Você se viu?” Jhoira perguntou. Ela se virou para o homem de prata e tomou a
mão dele com um ar de conspiração. “Karn, o que é que eles têm pedido para você fazer

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lá? Eu sei que o mestre Malzra tem feito experimentos secretos com você no centro
deles. Ele construiu algum tipo de grande máquina, na qual eu trabalhei em algumas
partes – mas nenhum de nós pôde adivinhar o que ela faz. E sinto algo estranho sobre a
escola desde que você chegou, há algo no ar. Eu sinto como se ondas atravessassem uma
represa, ou algo assim. Esses experimentos têm alguma coisa a ver com isso?” Uma
batida insistente veio à porta.
O rosto de Jhoira endureceu. “É Teferi, aquele pequeno rato.” Então ela disse, em
direção à porta, “Só um momento.”
A batida veio novamente. “É o Mago Barrin. Eu vim pela sonda. E eu tenho um
pedido para te fazer, Jhoira.”
Jhoira correu até a porta, abriu-a e curvou-se ligeiramente. “Nós estávamos no
meio de uma entrevista, mas podemos conversar mais tarde. Você se importaria, Karn?”
“De jeito nenhum,” respondeu o homem de prata, “eu gostaria disso”. Ele se virou
de lado para passar pela porta em arco. Barrin recuou para abrir espaço. “Karn?” “Sim”,
respondeu Jhoira. “Esse é o nome dele, como posso ajudar?”

*****

A noite se aproximava de Tolária. O sol moribundo queimava os telhados azuis,


dando-lhes uma coloração bronze. A Lua Tremeluzente espiava palidamente sobre as
copas das árvores. Glebas densas e quentes de selva chiavam com os coros finais de
pássaros diurnos, e os pássaros noturnos iniciaram ululantes suas primeiras canções.
Ondas brancas ao longo da costa escarpada brilhavam douradas sobre o mar. Ao longo da
tarde, uma coluna de ar quente e imóvel se erguera sobre a ilha, mas agora, antes da brisa
da noite, ela se deslocava e se desenrolava pelas árvores. Os estudantes e os demais
estremeciam de alívio.
Jhoira estava entre eles. Ela se agachou na sombreada marquise da muralha
oriental da academia, respirando lentamente. A galeria onde ela espreitava havia sido
projetada como escorrimento para lavabos, mas o edifício para o qual eles serviam havia
se tornado um laboratório em vez de um dormitório. Uma série de grades presas na
passagem e uma comporta destinavam-se a proteger a passagem contra invasores. Jhoira
foi a primeira a notar o canal não utilizado nos mapas dos edifícios; ela era boa em

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reparar detalhes em uma página. A perspectiva de ter sua própria entrada e saída para a
academia era muito atraente. Permitiria que ela burlasse toques de recolher rigorosos.
Ela só removeu os parafusos após criar substitutos que eram capazes de manter a
passagem segura para todos os outros. Ela não era egoísta o suficiente para pôr em risco
a segurança de toda a escola por causa de suas próprias diversões particulares.
Diversões particulares. Ela sorriu. Kerrick ficaria lisonjeado com o título. Seu
relacionamento já tinha durado dois meses – certamente mais do que uma diversão
passageira.
Antes que ela o alcançasse, Jhoira tinha que passar pelos guardas, tanto humanos
quanto máquinas. Eles seriam mais vigilantes agora com o ar esfriando do que eram na
quieta tarde quente. Ela não se atreveu a abrir a grade até ela ouvir seu amigo acima…
“Lá está de novo!” gritou um dos homens. “Tenha cuidado!”
“Maldito pássaro!” Amaldiçoou outro.
“Pássaro uma ova”, gritou um terceiro. “Eles os fazem lá dentro, são brinquedos.”
Ela ouviu seu pássaro barulhento de brinquedo mergulhar e perseguir os homens
na muralha. Era uma construção simples, pesando o equivalente a dois pedaços de papel,
mas era rápido e estridente. Ela havia descoberto os projetos em alguns desenhos antigos
de ninguém menos que Tawnos, o lendário assistente do lendário Urza. Não importava
quem realmente havia desenhado as máquinas voadoras emplumadas. Importava apenas
que ela conseguia fazê-los facilmente e-
“Arghh, está no meu cabelo!” “Acerta ele com a espada!”
“Não, está no meu cabelo, droga!”
“Fique parado!”
“Eles baniram essas coisas. Fizeram circular um memorando! Isso é o que eles
disseram! Deixe-os fazer guarda aqui e ter essas malditas coisas presas em seus…”
Os pequenos pássaros mecânicos eram tão adeptos a travessuras quanto o próprio
Teferi. Durante a exclamação seguinte, Jhoira balançou a grade para fora, rolou pelo
eixo, fechou o metal, pôs seus pinos especiais, e rastejou se afastando pelos arbustos. Lá,
sem fôlego, fez uma pausa. Havia um barulho de marteladas acima e as batidas frenéticas
de asas arruinadas. Alguém pisou uma última vez, e houve silêncio. Então… “Veja, não é
um pássaro de verdade. Está vendo onde as penas estão dobradas nesse laço de papel? E

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aqui, essa parte dura? Isso é o que sente seu suor. Eles fazem essas coisas para nos
atacar! Os imbecis são muito jovens, muito pálidos e frágeis para suar.”
“Se um dia eu pegar o pequeno prodígio que está fazendo isso.”
“Ele está nos observando agora, aposto.”
“Olha aqui! Veja! Isso é o que eu faço com sua invenção, seu pequeno imbecil!”
Jhoira tentou não rir enquanto abria caminho pela densa floresta. Ela conhecia
perfeitamente o caminho. Era estreito e sombreado, exposto apenas depois das encostas
abaixo da margem ocidental. Ela se movia sem quebrar galhos ou rasgar as folhas. Eram
seus aliados nessa empreitada. Enquanto ninguém encontrasse o caminho na floresta,
ninguém encontraria o lugar rochoso que ela mantinha acima do mar inconstante.
Enquanto ninguém descobrisse o lugar rochoso, ninguém saberia sobre Kerrick.
Em apenas uma hora, ela passou a curva final de terra ressequida acima do lugar.
O sol já havia sumido do céu. Uma manta marrom-avermelhada de nuvens cobriu o
mundo. A lanterna coberta que ela trouxera ao local brilhava levemente através de uma
fenda. Olhando pela rachadura, viu a estante de livros que Kerrick havia improvisado a
partir de pedras e placas planas de madeira flutuante. A estante florescia com volumes
emprestados pela academia: Kerrick era um ávido leitor. Ele tinha pouca coisa a fazer
durante os dias e disse que esperava adquirir conhecimento suficiente sobre artifício para
poder tentar a admissão. Ele era um bom leitor, um caçador melhor e um cozinheiro
muito melhor. Agora, inclusive, Jhoira podia sentir o saboroso aroma de lebre de pântano
salgado queimando em uma frigideira. Kerrick tinha adornado a criatura com hortelã e
cebolinha selvagens. Jhoira estremeceu.
O que a academia servia não poderia sequer ser considerado comida comparado a
um banquete como aquele.
Atraída por aqueles aromas, Jhoira caminhou na ponta dos pés pela borda. Ao lado
da frigideira estavam um par de pés magros e bronzeados cruzados um sobre o outro. Ao
aproximar-se, viu as pernas longas e musculosas unidas a esses pés, as calças rasgadas e
esfarrapadas do homem, as mãos fortes, já segurando outro livro. Lá estava o rosto
bonito, os belos cachos dourados. Jhoira estremeceu novamente.
O que a academia tinha para oferecer não poderia sequer ser considerado viril
comparado a um banquete como aquele.
Ele olhou para cima, a viu e sorriu.

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Jhoira saltou em seu colo e o envolveu em braços ansiosos e beijos. “Eu esperei o
dia todo para vê-lo.”
O riso dançava em seus olhos. “Péssimo dia?”
“Você não tem ideia”, ela disse entre beijos. “Há um pequeno tirano pretensioso
que pensa que seu trabalho é fazer todos infelizes.”
“Sim, Teferi,” Kerrick respondeu.
“Eu já mencionei ele?”
“Muitas vezes”, disse Kerrick. “Você disse que ele tem uma queda por você, mas é
você que sempre fala dele.”
“Ele é uma criança!” Ela respondeu indignada. “Eu falo sobre ele como se eu
falasse sobre uma infestação de goblins.”
Kerrick encolheu os ombros. Ele se moveu em direção ao fogo para virar a carne
de lebre, e Jhoira percebeu um sopro de seu cheiro almiscarado. Não era um cheiro a se
preocupar, mas o forte odor animal de um homem que trabalha sob o sol.
Por cima do ombro, o homem disse preguiçosamente, “Teferi parece um de seus
únicos amigos.”
“Oh?” Jhoira respondeu maliciosamente. “Eu passo muito tempo aqui para ter
outros amigos, e não ouço você reclamando.”
“Não mesmo.”
“Além disso, fiz um novo amigo. Ele é mais forte do que você, mais alto que do
você, mais jovem do que você, mais educado… definitivamente mais educado.”
Um delicioso brilho de ciúme apareceu nos olhos de Kerrick. “Então, por que você
está aqui?”
“Ele é uma máquina!” Jhoira disse, enrolando o homem em outro abraço. “Ele é
uma máquina consciente, e eu acho que ele também tem uma queda por mim.”
“Mesmo?” Kerrick respondeu. “O sentimento é mútuo?”
“É”, provocou Jhoira, “e um pouco de ciúme lhe fará algum bem. Você ficou muito
confortável vivendo aqui em meu local secreto.”
“Mais forte do que eu, mais alto do que eu, mais jovem do que eu? Se você quer
que eu fique realmente com ciúmes, traga os projetos para que eu possa ficar obcecado
por eles.”

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“Você os terá amanhã – se você devolver seus livros atrasados”, disse Jhoira.
“Agora, volte aqui. Esses bifes precisam de mais alguns momentos, e eu também.” Ela o
arrastou para a cama e inspirou o cheiro dele e dos bifes em seu peito.
Ah, ela poderia suportar cem Teferis contanto que ela tivesse sua rota de fuga,
seus pássaros de papel, e seu amor selvagem e secreto.

Monólogo

O que Urza vê em Teferi? O pequeno monstro não é nada igual a Urza em

nenhuma idade . Uma coisa é certa , Teferi tem senso de humor. Talvez sua

única característica que merece redenção – sem contar seu inegável

brilhantismo. Mesmo assim, Teferi usa seu brilhantismo apenas para destruir as

coisas e não para construí-las. Urza sempre foi um construtor, um dos sérios.

Por outro lado, as criações de Urza – seu homem mecânico, suas torres de

guerra , bombas e armaduras de poder – sempre foram utilizadas para

destruição. A soma de todas as constantes criações de Urza sempre foi a

destruição. Irônico, não?

Devo ter esperanças de que , no final , a constante destruição de Teferi

trará uma nova criação?

– Barrin , mago mestre de Tolária

39
Capítulo 04

Karn pisou no rodopiante feixe de luz vermelho. Acima, a máquina de Malzra


voltava o fluxo do tempo. Era a terceira tentativa de Karn em alguns meses. Cada teste
atingia apenas algumas horas de volta no tempo. Cada um produzia um estresse temporal
cada vez maior por toda a estrutura. A cobertura atual permitia uma regressão de dezoito
horas, além disso certamente haveria um colapso.
Karn disse a si mesmo que deveria se acostumar com o momento vertiginoso em
que a engrenagem do universo parava em si mesma e começava lentamente a girar ao
contrário. Havia um instante com rodas girando e gemidos de protesto antes que a correia
do tempo se invertesse. Então vinha uma aceleração repentina: Barrin e Malzra eram
libertados de sua imobilidade. Uma física alienígena tomava conta. Efeito se tornava
causa, lembranças se tornavam profecias, e homens de prata eram desmontados para
engolirem o riso.
Agora, à medida que o carretel do tempo retrocedia, o espaço também mudava.
Dentro de seu cone de luz vermelha, Karn deslizou lentamente para o lado. Ele tremia
através dos motores de aço e recipientes de forno, sua forma física defasada com a
sincronicidade atômica ao redor dele. Em instantes, ele deslizou pela parede do
laboratório e saiu pelo corredor. Viu-se passeando para trás pelo corredor ao lado de
Jhoira. Ela o acompanhara ao laboratório, falando da sua ilha vulcânica e de como sentia
falta da sua tribo.
Jhoira e Karn se tornaram rápidos amigos nos últimos meses. Ela era uma gigante
mental, e ele era um gigante de metal. Sempre que Karn não estava no laboratório e
Jhoira não estava estudando ou dormindo, os dois estavam juntos. Ela lhe ensinara a
pular pedras, o que ele poderia fazer com pedras do tamanho de pães. Ele a deixara
montar em suas costas enquanto subia os pináculos do leste. Do alto das pedras salientes,
tinham visto navios tão distantes que só seus cestos de observação se mostravam acima
do horizonte. Jhoira compartilhou com Karn suas diversas invenções mecânicas
impressionantes – pássaros de brinquedo, sapos e cigarrinhas – e consertou um servo de
dedo que tinha queimado após um de seus testes secretos. Uma noite, ele pegou
emprestado as ferramentas de desenho dela, quando ela adormeceu no meio da conversa,
e desenhou um retrato tosco e elegante dela. O melhor de tudo era que eles tinham

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construído um lar um para o outro, um refúgio dos rigores esgotantes de suas funções na
academia e das depredações de uma certa ameaça de quatorze anos.
Karn e seu poço de luz vermelha saíram do outro lado do corredor. Passou por um
conjunto de salas de aula. Algumas estavam escuras e vazias. Outras estavam cheias de
tutores, alunos e constructos. Muitas dessas estruturas eram formas básicas destinadas a
ensinar os princípios do artifício aos jovens estudantes. Dispositivos mais avançados
poderiam fazer camas, amarrar cordões de botas, ou correr como baratas. As mais móveis
dessas criações eram usadas por alguns dos alunos mais velhos em elaboradas corridas
de apostas após as aulas. Algumas máquinas de elite eram projetadas para se infiltrar nos
quartos de estudantes do sexo oposto e espionar para seus criadores. Para cada
dispositivo atacante, havia três defensivos que podiam detectar, desativar ou destruir o
atacante. Entretanto, as criações de mais alto nível – o tipo que Jhoira passava seus dias
projetando e construindo – eram componentes complexos para o dispositivo de viagem
no tempo do mestre Malzra. Ele tinha dezenas de seus mais antigos e mais promissores
alunos trabalhando no projeto, embora nenhum deles soubesse o objetivo final dos
dispositivos projetados.
O viajante do tempo avançou em seu veículo de luz. Viu por dentro de salas de
aula, escorregou por uma estudante adormecida, deitada doente e sozinha em sua cela,
passou por uma exibição pirotécnica sobre as propriedades da poeira de carvão e vagou
pelo estudo particular de Malzra. Livros e modelos se alinhavam nas paredes, diagramas
e estudos pendurados em suportes. No meio disso, em uma mesa cheia de manuscritos
antigos, Barrin e Malzra discutiam acaloradamente.
Karn vagou além dessas paredes também. Ele emergiu de madrugada nos jardins
da academia e passou pela parede externa de dois metros de espessura, então se moveu
pelas florestas. As folhas giravam em estranhas espirais contrárias em ventos sugadores.
O sol recuou para desaparecer abaixo do horizonte. Através de uma vasta escuridão,
Karn deslizou para a distante costa ocidental. Era um lugar que ele e Jhoira nunca
exploraram em seus passeios, mantendo-se nos pináculos e ao leste. Karn deslizou
através de troncos de árvores e pedregulhos, até longos e baixos ressaltos de terra na
borda da ilha. Depois, o chão caiu. Uma série de degraus ásperos perambulava em
direção ao mar.
No que pareciam apenas momentos, a margem espumosa do oceano passou cerca
de dezesseis metros abaixo dos pés pendentes de Karn. A água parecia ferver, sempre

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recuando da costa dentada. Ele flutuou para longe. A manhã se aprofundou na noite. A
Lua Tremeluzente deixou o céu. A meia-noite negra brilhava com o crepúsculo.
Ele estava quente. Ele estava perto da borda da cobertura, dezoito horas no
passado e oito quilômetros no espaço. O plano era que Malzra e Barrin monitorassem as
tensões temporais sobre o dispositivo do portal e chamassem Karn de volta antes que ele
atingisse o ponto de fusão. Isso não estava acontecendo. Suas placas prateadas do peito
já estavam se contrapondo em expansão febril.
Ainda assim, ele vagueou para longe dali.
A luz vermelha de repente brilhou cintilante ao seu redor. Lutando para ficar
ereto, Karn mergulhou, tão maciço e quente quanto um meteoro. No alto, o céu estava
estrelado, mas sem lua. O oceano abaixo era profundo e negro. Ele rugiu para encontrá-
lo. Ondas salpicadas agarraram suas pernas, emitiram jatos de vapor da pele escaldante
do golem, e arrastaram-no para o fundo. Durante longos momentos, Karn ficou envolto
em uma nuvem fina de bolhas de vapor, e então ele escorregou para fora da substância
espumosa e afundou na escuridão fria e viscosa. O limo arenoso passou ao redor dele, e
então seus pés golpearam a zona bentônica no fundo.
Por alguns momentos, ele simplesmente ficou lá sentindo a água salgada
esgueirando-se por todas as suas placas e nos espaços interiores de seu ser. Certamente
eles o chamariam de volta agora. Só precisava esperar. Ainda assim, a cada longo
instante, ele sentia seu deslocamento temporal sendo drenado. Ele logo estaria
sincronizado com as partículas desse tempo contínuo, sólido e visível para qualquer um
que pudesse olhar. Melhor não dar a ninguém essa chance. Ele ficaria onde estava até ser
lembrado.
Uma hora havia se passado. Os últimos bolsões de ar presentes nele fluíram e
escaparam para a superfície uns dezesseis metros acima. Ele foi sacolejado três vezes por
uma serpente curiosa e perdeu a esperança de ser automaticamente invocado. Talvez ele
estivesse fora do alcance. Ele teria que encontrar sua própria saída.
Felizmente, entre seus recursos havia um relógio interno, uma bússola e um
sextante – não que ele pudesse ver estrelas. Mesmo assim, com as várias melhorias que
Malzra fizera a todos esses sistemas, Karn tinha um senso de direção quase infalível. Ele
partiu, caminhando para a ilha.

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Levou mais tempo do que ele esperava. Havia numerosos bancos de areia
submersos para subir e outros poços para descer. Havia também um recife de coral que
era frágil demais para subir e extenso demais para circunavegar. Ele acabou tendo que
esmagar algumas acreções de animais, arranhando suas articulações prateadas.
Era meia-noite quando sua cabeça finalmente emergiu da água. As constelações
salpicavam o céu sobre a ilha negra. Na distância extrema, a academia brilhava, uma
coleção de caixas de joias de marfim. Dentro daquelas paredes, seu outro eu, seu eu
histórico, passaria a noite em desativação voluntária. Dentro daquelas paredes, Jhoira e
Teferi dormiam, e Malzra e Barrin, sem dúvida, ponderavam a próxima tentativa
espacial-temporal. As paredes envolventes daquela escola eram tudo no mundo para
Karn, e o resto da ilha estava escuro.
Exceto por aquele brilho fosco próximo à frente do penhasco do mar. A luz era tão
pequena que ele a tomara pela primeira vez como uma estrela distante. Marcando sua
posição, Karn emergiu da água e subiu a costa inclinada. A água desprendia-se aos
galões de suas entranhas. Ele se levantou e deixou a purgação continuar.
E essa luz? Não era permitido ninguém permanecer além das paredes após o
anoitecer. Quem poderia estar nesse refúgio?
Karn subiu. O lado rochoso do penhasco diante dele ficou muito fácil de subir
depois das profundidades arrastantes do mar. Com alguns escorregões e arranhões, ele
atingiu o pico. À frente, numa fenda profunda e estreita de pedra, uma luz morna
brilhava. Karn caminhou em sua direção.
De repente, a luz se foi.
Ele fez uma pausa, permitindo que seus olhos se ajustassem à escuridão estrelada.
Algo se moveu naquele espaço – algo quente. Karn avistou um vesgo olhar perscrutador
e o brilho das estrelas em uma pequena lâmina de aço. A figura retirou-se novamente
para dentro da caverna. Karn começou a avançar, seus pés maciços movendo-se
silenciosamente sobre o chão coberto de cascalho.
A pessoa na caverna reapareceu, erguendo uma vara curvada. Ouviu-se um
barulho. Algo – uma flecha grosseira – disparou rapidamente, golpeando a pele de Karn.
O metal soou com o som de pedra rachando. Uma haste quebrada caiu para um lado.
Um ato hostil. Um homem das cavernas vivendo na fronteira de Tolária. Um
intruso.

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Karn ajeitou sua mandíbula e marchou em direção à caverna. Duas outras flechas
atingiram o golem e se arrebentaram nas rochas. Ele se aproximou, furioso. O homem
abandonou seu arco e pegou um grande porrete com ponta de pedra. Ele firmou o taco
em sua mão, grunhiu um aviso sem palavras, e adentrou na noite.
Karn caminhou até a figura e investiu para capturá-lo, mas o homem era muito
rápido, fugindo do seu alcance. O porrete lhe acertou. Sua ponta de pedra estilhaçou e
pulverizou a parte externa. O cabo de madeira tremeu no punho do homem. Karn girou.
Ele alcançou o homem com as costas de uma mão e o atirou ao chão. O corpo
esparramou-se contra um afloramento de rocha e ficou imóvel.
Uma luz brilhou ao lado de Karn. Ele girou. Chamas rugiram sobre ele. O fogo
ferveu a água em suas articulações. Ele avançou além das chamas do segundo atacante.
Com os braços em chamas, Karn emergiu na caverna.
“Karn!” Veio um grito de surpresa e alívio. “O que você está fazendo aqui?”
“Jhoira?” Karn perguntou. Seus olhos se ajustaram rapidamente à escuridão.
Jhoira tremia em seu pijama, segurando uma tocha ardente em sua mão. Ela devia
ter usado a brasa para atear fogo no carvão em pó, como os alunos eram instruídos na
academia.
Karn exclamou, “O que você está fazendo aqui?”
O rosto de Jhoira ficou ressentido e desesperado. “Você me seguiu. Não acredito
que me seguiu.”
“Eu não te segui,” Karn protestou.
“Por que você deixou a área da escola à noite então? E o toque de recolher?”
Jhoira desafiou.
“Eu poderia perguntar o mesmo para você,” contrariou Karn.
“Onde está Kerrick? O que é que você fez?” perguntou ela de repente, e tropeçou
por Karn até a entrada da caverna. Ela se sentiu levemente cega no escuro até que sua
mão se assentou na perna do homem. Ela o sacudiu. “Você está bem? Você pode me
ouvir?” O homem não se moveu.
Karn se aproximou. “Vou levá-lo para dentro-”
“Não,” insistiu Jhoira, passando por ele e entrando na caverna. “Seu pescoço pode
estar quebrado. Movê-lo pode matá-lo.” Ela acendeu a lanterna, juntou gaze e
suprimentos de uma prateleira, e se apressou em sair. Ajoelhando-se ao lado do homem

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caído, ela soltou um gemido de preocupação. Uma mão acariciou seu cabelo dourado e
encaracolado. “Nenhum sangue, e ele está respirando.” Ela cerrou os dentes quando seus
dedos encontraram um grande nódulo em sua testa. “Você o machucou de verdade.”
“Quem é ele?” Karn perguntou suspeitosamente. “O que ele está fazendo aqui?”
“Ele é Kerrick,” disse Jhoira com um suspiro. Ela sondou seu pescoço para
verificar se havia lesão ou inchaço. “Ele estava tentando me proteger.”
“Ele não é um estudante,” observou Karn.
“Não. Ele é um náufrago, e ele é meu amigo.” Ela deslizou os braços sob o
homem, levantou-o e levou-o para dentro. “Você poderia pegar a lanterna, Karn?”
O golem obedeceu, seguindo-a como um cão abatido. “Você nunca me falou sobre
ele.”
Jhoira acomodou o homem na plataforma em um canto do espaço. “Eu nunca disse
a ninguém. O mestre Malzra o mataria.”
“Mas somos amigos. Não temos segredos um com o outro,” disse Karn. Ele
colocou a lanterna na mesa improvisada.
“Temos segredos. Você não vai me dizer em quais experimentos você está
envolvido.”
“O mestre Malzra me proibiu.”
Jhoira sorriu sombriamente, mergulhando um pano em um jarro de água e
aplicando-o no nódulo na cabeça de Kerrick. “O mestre Malzra me proibiu – ou qualquer
outro – de abrigar náufragos, também, então tudo se resume ao mestre Malzra. Eu guardo
segredos de você por causa dele, e você guarda segredos de mim por causa dele. É assim
que ele quer. Ele não quer que nenhum de nós tenha amigos, que tenha vida.”
Karn sentiu uma onda de pavor doentio passar por ele. Lembrou-se de como era a
sua existência antes de encontrar Jhoira, preso entre a calma apatia de Malzra e a forte
antipatia de Teferi. Este momento poderia arruinar as coisas entre ele e Jhoira. Este
momento poderia custar a Karn a única amiga que ele tinha e transformá-lo novamente
em Arty Cabeça-de-pá.
“Viagem no tempo,” Karn exclamou, sua voz angustiada. “É isso que o mestre
Malzra está testando. É por isso que estou aqui. Ele está testando um dispositivo que me
enviará de volta séculos ou milênios, que me transportará para qualquer lugar do
planeta.”

45
Jhoira interrompeu seus cuidados e olhou com admiração para o golem. “É por
isso que ele te chamou de sonda…”
“É a única razão pela qual eu fui criado,” Karn disse sobriamente. “Ele me
instruiu a não contar a ninguém sobre isso, sob o risco de ser desmontado.”
“Se ele conseguir fazer isso, ele pode mudar a história-”
“Ele não quer que eu mude a história.” De repente Karn percebeu que poderia
estar mudando a história naquele exato momento.
“Há muito mais sobre o mestre Malzra do que parece,” observou Jhoira,
espantada.
“Bem,” disse Karn, ajoelhando-se diante de Jhoira à luz pálida da lanterna. “Esse
é o único segredo que tenho guardado de você. Você sabe tudo sobre mim. Você estudou
todos os meus planos. Você assistiu Malzra me montar. Você até me deu meu nome,
minha vida. Você pode me perdoar? Ainda podemos ser amigos?”
Um sorriso que era parte alegria e parte piedade irrompeu no rosto dela. “Claro,
Karn. Agora, você também sabe o meu maior segredo. Eu sempre confiei em você, e eu
ainda confio em você. Karn, você é meu único amigo verdadeiro no mundo.”
“O que ele é?” Karn perguntou, indicando o homem inconsciente.
“Ele é o meu amor.”
Ela mal havia dito estas palavras quando o puxão cintilante do deslocamento
temporal de Karn o prendeu. Ele estremeceu, mudou de fase, tornou-se incorpóreo, e
sentiu o súbito e rápido deslizamento da luz vermelha.
Logo antes de girar pela parede de pedra do espaço, ele vislumbrou, por trás do
rosto de Jhoira, um dos dedos de Kerrick se movendo e seu olho levemente aberto.
“Vale a pena o esforço,” Urza insistiu de onde estava sentado em seu estudo
superior. “Os Thran se tornaram phyrexianos. Se pudermos desviá-los desse caminho,
mantê-los no caminho do artifício, em vez da mutação, podemos salvar o mundo inteiro.”
Barrin estendeu a mão e parou, parecendo puxar o ar. “O que é que foi isso? Você
sentiu isso?”
“Uma anomalia temporal,” disse Urza. “Estão ocorrendo desde que nós enviamos
a sonda pela primeira vez pelo portal de viagem no tempo. Essa foi mais forte do que as
outras.”

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“Uma anomalia temporal,” repetiu Barrin, aturdido. “É disso que estou falando.
Recebemos anomalias como esta quando enviamos alguém de volta dezoito horas. O que
acontecerá se enviarmos antes disso?”
“Devemos impedir que os Thran se tornem phyrexianos.”
“Mas milênios? Se pudéssemos chegar a esse ponto no tempo, você poderia fazer
algumas viagens laterais e corrigir todos os seus próprios erros do passado – levar os
phyrexianos ao plano de Serra, atacar Phyrexia, explodir Argoth, matar seu irmão… você
poderia até mesmo decidir não descobrir a powerstone em Koilos e evitar que os
phyrexianos reentrassem em Dominária.”
O olhar de Urza estava sério. “É assim que você enxerga os eventos da minha
vida? Um grande fracasso após o outro?”
“Claro que não,” assegurou Barrin. “Você fez muito bem, e eu não me incomodo
com seus erros. Magos também aprendem por tentativa e erro. O que eu reluto em aceitar
é o fato de você nunca assumir a responsabilidade por seus erros. Você não aprende com
seus erros. Você nunca se redime deles.”
“É isso que estou tentando fazer agora. Eu trouxe os phyrexianos de volta ao
mundo. Agora estou fazendo todo o possível para descobrir como expulsá-los para
sempre,” disse Urza. “Eu aprendi, mas eu tenho muito mais para aprender antes de poder
corrigir esse grande erro.”
“Sim,” concordou Barrin, “você tem muito mais para aprender.”
Perdendo o propósito deste comentário, Urza disse, “eu vi um pedaço do quebra-
cabeça, mas eu não sei onde ele se encaixa ainda. Você notou o pingente que Karn usa?”
Barrin acenou com a mão. “Um pequeno lagarto em uma corrente.”
“Você notou como o metal é duro? Eu testei a sua dureza. Ele arranhou aço,
adamantina e diamante. Além do mais, não se aquece com o estresse temporal.”
Barrin piscou, considerando. “O que você está dizendo? Que devemos construir
outra sonda feita deste metal?”
“Talvez. Talvez,” os olhos de Urza brilharam com as possibilidades. “Vou ter que
perguntar a Karn onde ele conseguiu. Se pudéssemos forjar uma sonda com ele-”
“Devemos fazer um acordo com os fabricantes de metal,” Barrin perguntou
sarcasticamente, “ou apenas tomar o controle de sua pátria e expulsá-los?”
“Comece com um tratado, é claro. Sempre haverá tempo para conquistas.”

47
Barrin estava sombrio. Sob um suspiro, ele disse: “Sim, você tem muito a
aprender.”

*****

Em poucos meses, as capacidades de deslocamento espacial da máquina do tempo


foram aperfeiçoadas. Em uma viagem, Karn chegou às Regiões Agrestes de Adarkar, a
milhares de quilômetros de Tolária. O lugar era pouco mais do que um frágil céu azul
acima de uma frágil terra branca. A neve e o gelo cobriam a maior parte do solo.
Manchas desprotegidas revelavam areia que se fundira em grandes e finas placas de
vidro, deixadas por uma batalha de fogo ocorrida muito tempo atrás. Onde Karn chegou
– desta vez sem a desconcertante queda do céu – a terra era uma folha de vidro rachada,
com areia fundida em um calor semelhante a uma fornalha. A pedido de Malzra, Karn
recolheu fragmentos e os trouxe de volta com ele.
Malzra testou as amostras. Ele declarou que realmente eram das Regiões Agrestes
de Adarkar. Ele ficou muito satisfeito com este resultado e planejou ir ainda mais longe
na próxima tentativa.
Enquanto isso, os fluxos da distorção temporal começaram a piorar. No início,
esses distúrbios eram sutis e pouco numerosos, sendo ligeiros intervalos de tempo que
passavam pelo ar como tremores leves. A frequência dos episódios aumentou
gradualmente, de uma vez por semana para uma vez por dia. A gravidade foi de meros
soluços para lapsos que se estendiam por quatro ou cinco pulsações. Palavras soavam
após os lábios se mexerem. Música agitava e desafinava. Os grupos de carrilhões
tornaram-se irremediavelmente ressoantes. Os cálices transbordavam ou eram
derrubados. Pergaminhos se soltavam dos dedos dos tutores e se espalhavam pelo chão.
As chamas devoravam pedaços de carne na grelha enquanto os bifes ao lado
permaneciam crus.
Estes eram apenas pequenos aborrecimentos, especialmente para uma criatura
como Karn, sem batimentos cardíacos ou respiração para ficar ressoando. Alguns dos
tutores mais adoentados, porém, tiveram que enfrentar essas tempestades de tempo,
dobrando-se sobre seus joelhos e ficando ofegantes ao respirar. À medida que as faixas

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de distorção se aprofundavam e se tornavam mais comuns, a enfermaria da escola se
enchia.
Isso perturbava Karn. Na outra vez que ele foi chamado para mais uma tentativa,
dois meses depois, ele trouxe suas preocupações.
“Eu não sou como você,” observou Karn. “É por isso que você me fez, porque
criaturas como você não podem se mover com segurança pelas distorções de tempo. Cada
vez que eu regrido pela máquina, mais vazamentos de tempo ocorrem, e cada vez
maiores.”
O mestre Malzra estudou o golem profundamente. O fundador da academia sempre
tinha uma estranha intensidade em seu rosto e um foco cintilante em seus olhos, como se
ele pudesse ver séculos de tempo cristalizado em meros momentos.
“São estas… fugas de tempo que estão te afetando?”
Barrin levantou os olhos do painel que preparava. Ele acenou com aprovação para
Karn, cutucando-o para continuar.
“Não a mim,” Karn respondeu, “mas a todos os outros. Eles não estão seguros.
Você tem muitos estudantes em idade avançada aqui e um monte de crianças pequenas.
Você é responsável.”
“Houve algum ferimento grave?” interrompeu o mestre, com os olhos brilhando
como gemas gêmeas.
“Ainda não, mas se continuarmos esses experimentos, haverá ferimentos, e talvez
mortes, em toda a ilha.”
Outro aceno veio do mago.
Malzra piscou, atônito. “Se não continuarmos com essas experiências, haverá
ferimentos e mortes em todo o mundo. Você não entende, Karn. Você viveu meros
momentos. Você viu apenas cem milhas quadradas de terra. Eu vivi milênios. Eu vi
mundos e mundos de mundos. Há males na porta, Karn, males além de qualquer coisa
que você possa imaginar. Eu só sei que eles estão lá e estão batendo. Eu sozinho estou
planejando uma forma de mantê-los lá fora para sempre ou destruí-los quando eles
entrarem. Eu permaneço sozinho entre este mundo e a destruição total, e você vem a mim
como uma babá dessas crianças e velhos caquéticos e exige que eles tomem leite de
cabra e tenham a hora do cochilo?”
Mago Barrin abaixou o olhar, a cabeça balançando suavemente.

49
Karn parou por alguns momentos sem responder. Ele acreditou, finalmente, no que
Teferi havia dito sobre a paranoia de Malzra. Um impulso incitou Karn a confrontar o
homem com sua própria loucura torturada, mas os últimos meses lhe ensinaram muito a
lidar com essas estranhas e irracionais criaturas de carne. “Sim. É uma luta solitária e
perigosa.”
Barrin olhou para cima, impressionado. “Uma que pode, um dia, matar a todos
nós,” ele disse em repreensão silenciosa.
Malzra tomou os comentários como um acordo. “Bom. Fico feliz que ambos
concordem. Agora, Karn, antes de entrar na máquina, quero que deixe o pingente
comigo. Pode interferir na regressão.”
Desconfiado, Karn levantou lentamente o pingente do pescoço e o entregou.
Malzra olhou-o intensamente. “Onde você conseguiu isso?” Havia um brilho
ganancioso em seus olhos.
Karn abriu a boca para falar, mas lhe faltaram palavras. Os delírios loucos de
Malzra ainda ressoavam em sua cabeça. Se o mestre começasse a cutucar o quarto de
Jhoira, ele poderia descobrir seu segredo. Ela poderia ser expulsa – ou pior.
“Eu o achei. Estava preso a um pedaço de madeira flutuante que alcançou a
costa.”
“Pedaço de madeira,” Malzra disse duvidosamente.
“Pedaço de madeira,” repetiu Karn.
Sacudindo a cabeça irritado, Malzra disse, “Para a máquina, então, Karn.”
Desta vez, a regressão o levou a uma cena de grande carnificina. O lugar era
maligno, além da imaginação de Karn. Os homens, ou o que antes eram homens, jaziam
mortos no chão de relva. Alguns estavam quase completos, marcados apenas por rosas de
sangue em seus corações ou barrigas. A outros estavam faltando membros,
provavelmente arrastados para longe pelos cães selvagens que trotavam entre os mortos.
Ainda menos restava em alguns guerreiros. Eles haviam sido rasgados pela metade por
lâminas inimaginavelmente afiadas ou estourados em fragmentos por bolas de fogo.
Máquinas de guerra ardentes ocupavam o horizonte. O cheiro de lixo, fumaça, entranhas,
vermes e doenças enchia o ar.
Certamente essa devastação foi causada pelos horrores e males de que Malzra
falou, pensou o homem de prata.

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Karn nunca se sentira doente antes, mas agora seu corpo prateado tremia como se
uma mancha atingisse o seu cerne. Ele foi demandado a coletar algum sinal de sua
jornada, mas não conseguiu tirar uma espada da mão de um homem caído ou soltar o
capacete que não conseguira salvar uma vida. Em vez disso, Karn encontrou um único
escudo, deitado sozinho e sem sangue em um tufo de grama. Então ele o levantou e o
segurou contra si, esperando miseravelmente pelo mestre se lembrar dele.
Quando Karn voltou, apresentou pesarosamente o escudo a Malzra. O mestre o
identificou – uma braçadeira de Nova Argive. Pela descrição do homem de prata sobre a
batalha, Malzra meramente assentiu sombriamente – uma batalha tinha ocorrido naquele
local apenas dois dias antes. Karn tinha regredido apenas um dia e meio. O mestre estava
frustrado e zangado. Ele bruscamente entregou o pingente de volta.
“Se estas são as atrocidades de que você falou, mestre Malzra,” Karn disse
solenemente enquanto colocava o amuleto, “entendo agora por que você luta tanto.”
O sorriso de Malzra – uma visão incomum – foi sardônico. “Essas atrocidades não
são nada, são resultados de ódio humano. O que eu luto é contra o ódio dos demônios.”

Monólogo

Às vezes eu me esqueço de tudo o que Urza viu, de tudo o que ele fez.

O homem prateado voltou de Nova Argive . Nós o interrogamos e fechamos

o laboratório. Naquela noite , durante a sessão de leitura na sala de Urza , ele

deixou o volume que estava lendo deslizar para ficar aberto em seu colo. Ele

olhou fixamente para frente por algum tempo. Abaixei meu livro também e

esperei . Os olhos de Urza tinham aquele olhar distante , e eu vislumbrei as

metades da Mightstone e Weakstone se mostrando através deles. Além das altas

janelas, os ventos do mar debatiam entre as palmeiras.

“Eu estava lutando contra um mundo inteiro, não era apenas contra Gix,

mas um mundo inteiro,” ele murmurou.

Cautelosamente , arrisquei , “Lutando contra um mundo inteiro?”

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“Em Phyrexia . Eu fui lutar com Gix, mas havia um mundo inteiro de

Gixes. Demônios, bruxas mecânicas, dragões mecânicos, mortos-vivos e vivos

mortos. E por trás de tudo isso, um deus. Um deus sombrio e louco.”

Eu ironicamente imaginei a mesma descrição vindo de um invasor de

Tolária .

“Eu lutei para destruir um mundo inteiro, mas Xantcha – ela lutou

apenas para recuperar seu coração.”

Eu respirei profundamente . “Sim. Essa pedra era um mundo inteiro para

ela . É um mundo inteiro para Karn .”

Um brilho de percepção súbita brilhou nos olhos escuros e antigos de

Urza . “É por isso que eles agem da maneira que agem.”

“Quem?”

“Os alunos, os tutores – até você e Karn . Cada um de vocês está

defendendo seu próprio coração, seu próprio mundo.”

Ele não é louco, não totalmente . Ele é velho e desumano, transformado

pelos milênios, mas não é totalmente louco.

“Sim,” eu concordei . “Você não se lembra de como é a sensação? É uma

luta solitária e perigosa , que , um dia , matará a todos nós.”

- Barrin , mago mestre de Tolária

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Capítulo 05

Teferi se sentou em uma rocha, acima do inquieto mar noturno.


Foi uma façanha chegar a esse lugar. Jhoira era leve e atlética. Ela se movimentou
silenciosa e rapidamente do seu quarto após o sinal da lanterna daquela noite. Apesar do
encantamento de invisibilidade de Teferi, ela sentiu que estava sendo seguida. Duas
vezes, enquanto caminhava pelos corredores vazios da escola, ela olhou para trás. Na
primeira vez, Teferi procurou uma entrada na forjaria. A maçaneta da porta estremeceu.
Ela olhou para trás durante muito tempo, no meio da noite febril, e Teferi não ousou
respirar. Quando ele finalmente olhou novamente, ela já havia saído. Ele a encontrou no
Salão das Criaturas Artefatos – um museu onde Malzra colocava as invenções
importantes, porém obsoletas. O lugar era desconcertante o suficiente durante o dia. Era
cheio de criaturas-estátuas de placas de metal e conjuntos de cabos, cada uma delas
colocada com os membros estendidos, como se suplicassem para serem reativadas. À
noite, o museu era absolutamente assustador. Duros, com cabeças de cachorro, os
guerreiros yotianos estavam agachados. Levantadores su-chi, com seus joelhos ao
contrário, pareciam colossos de algum mundo distante. Do outro lado do bestiário
mecânico, Jhoira não passava de um fugaz triângulo de tecido. A porta que ela atravessou
levava ao laboratório oeste – uma estrutura semiutilizada que era extremamente quente
no alto do verão e úmida no inverno.
Mais uma vez, ele quase a perdeu. Não havia nenhum sinal dela no laboratório.
Ele lançou uma mágica, vendo o calor de suas pegadas no chão. Elas desapareciam à
medida que ele as seguia. Ela tinha se afastado. Teferi pisou em uma grade um pouco
torcida. Ela rangeu. Ele se ajoelhou e ficou olhando para a escuridão abaixo da grade. A
manipulação de Jhoira era evidente, até mesmo no escuro – pelo menos aos olhos de um
mago – e o truque com os parafusos especialmente projetados demorou alguns minutos
para ser desvendado. Depois disso, foi fácil para alcançar a muralha. Ele a viu escorregar
pelo canal, enquanto os guardas acima xingavam algum pássaro noturno. Teferi conjurou
um pássaro real para fazer o mesmo por ele, um capitão celeste que assustou os homens a
ponto de quase pularem. Com o pássaro e sua invisibilidade, o jovem prodígio a seguiu
com facilidade.
Após isso, Jhoira não foi tão cautelosa. Talvez, por estar longe da escola, ela
pensasse que não haveria ninguém para detectá-la. Talvez, por estar perto de seu refúgio,

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ela estivesse muito ansiosa para ser cuidadosa. Mesmo com a luz irregular da Lua
Tremeluzente, Teferi conseguiu andar rápido pela floresta úmida até chegar àquele lugar,
logo acima do mar, ao lado da entrada da caverna cintilante. Ele dissipou sua
invisibilidade, respirou fundo e, com um sorriso presunçoso, alcançou o lugar secreto.
Ele parou em cima da hora.
Teferi viu o que estava lá dentro, quem estava lá dentro.
Em um ataque de nojo, ele recuou, incapaz de suportar mais. Ele esperava
encontrar algo para usar contra Jhoira, algo com o qual ele poderia extorquir um beijo
dela, talvez, mas não isso, outro homem. Mesmo se Teferi mencionasse que ele conhecia
seu segredo, ele não conseguiria ganhar seu coração com isso. Ela só o odiaria ainda
mais. Ele se sentou lá enquanto o mar se debatia incessantemente abaixo e o vento
cravava suas garras nas nuvens sobre a cabeça. Ele se levantou e voltou para a academia,
sua mente agitada com tantas perguntas.
Enquanto ele caminhava pela vegetação a oeste da ilha, um novo pensamento
surgiu: era possível que certas coisas na vida não pudessem ser alcançadas com
manipulação e truques. Nada que ele fizesse conquistaria Jhoira. Nenhuma enganação,
bajulação, humilhação, artifício, exibição ou insinuação haviam-na convencido de que
ele era ótimo. Teferi estava honestamente confuso.
Ele nunca conhecera uma pessoa tão resistente à obviedade de sua supremacia. Ela
não conseguia ver nenhuma de suas virtudes esmagadoras, de tão determinada que ela
estava a se concentrar na diferença de suas idades. “Cresça”, era tudo o que ela pensava
em dizer para ele. Ele estava crescendo. Como ele poderia crescer mais rápido? Ele não
tinha uma máquina do tempo…
Foi quando ele sentiu uma mão agarrar seu ombro e empurrar seu rosto para o
chão.

*****

“Teferi sabe sobre Kerrick,” Karn disse a Jhoira. O homem prateado teve esse
pressentimento do lado de fora da porta, na nervosa luz matutina.
Sonolenta, Jhoira piscou para o amigo. Ela esteve de guarda há apenas uma hora
antes, durante a mudança de guarda com o nascer do sol.

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“Do que você está falando?”
“Eles o pegaram fora da academia esta manhã. Ele estava voltando da costa
ocidental.”
Apreensiva, Jhoira sinalizou para Karn entrar e fechar a porta. Ela passou a mão
por seus cabelos revoltos.
“Agora, sobre o que você está falando?”
“Teferi tem te observado,” disse Karn com quieta intensidade. “Provavelmente ele
te seguiu. Eles o encontraram quando ele voltava da costa. Ele deve ter visto…”
“Quem o encontrou?” Jhoira interrompeu.
“Os guardas da muralha ocidental. Um deles viu algo se movimentando na selva,
assim que ele saiu. O guarda o seguiu até perder a trilha, mas esperou pelo seu retorno,
na mesma posição. Eles o interrogaram por horas – estão com raiva por causa dos
pássaros mecânicos e acham que Teferi os conjurou. Entretanto, eles não conseguiram
nada dele, nem mesmo o caminho que você usou para sair da escola, e meia hora atrás,
eles o entregaram para o próprio mestre Malzra.”
Tremendo a cabeça com irritação, Jhoira abriu as portas do seu guarda-roupas e se
atirou entre elas. Ela escolheu a sua capa branca mais formal, bordada em fios dourados
e a retirou. Vestindo sobre suas roupas de dormir, ela escolheu um cinto de corda
dourada e o apertou ao redor de sua cintura, furiosa.
“O que você vai fazer?” perguntou Karn, atordoado.
“Eu vou me defender.”
“Teferi ainda não disse nada”, afirmou Karn.
“Teferi?” Jhoira perguntou, com raiva. “Ele está segurando para o preço certo. Ele
vai me vender assim que o mestre Malzra girar um dedo.” Ela balançou sua cabeça
novamente. “Eu quero ser mais rápida do que ele. Eu quero confessar o que eu fiz, assim,
pelo menos, eu terei a honestidade ao meu lado.” Com um resmungão final, ela se virou
e se inclinou sobre sua cama, suas mãos dobrando as cobertas sobre uma protuberância
que Karn não tinha notado antes. “Vamos.”
Quando os dois se viraram para sair, Karn olhou de volta para a cama e viu o
cabelo dourado e encaracolado de Kerrick.

55
*****

O mestre Malzra estava em um interrogatório. Seu rosto, sempre aceso com um


brilho interior dourado, estava brilhante como uma vela. Seus olhos pareciam lançar
feixes vermelhos do fogo do inferno. Ele caminhava, suas vestes azuis se enrugavam
sobre ele. À luz fraca da pequena sala, ele era enorme e poderoso, como se ele usasse
uma das armaduras que ele exibia no Salão das Criaturas Artefatos.
Diante dele, Teferi, de 14 anos, parecia tão pequeno quanto um pardal.
“Quem é você, então? O que é você? Um espião? Você é muito jovem para ser um
phyrexiano adormecido. Você não tem o cheiro do óleo brilhante. Mas você é inteligente,
ambicioso e incorrigível, exatamente o tipo de pessoa que os phyrexianos escolhem. O
que você estava fazendo além da muralha? Com quem você estava se encontrando?
Neutralizadores phyrexianos?”
Teferi manteve os olhos erguidos na mesa de madeira escura onde ele se sentou.
“Eu nem sei o que você quer dizer com Firéqueci-sei-lá-o-quêssiano-”
“Não zombe de mim!” exigiu Malzra, esmurrando a mesa.
Alcançando uma reserva interna de força, Teferi levantou seus olhos para
encontrar as orbes brilhantes do mestre, que pareciam com os olhos multifacetados de
um inseto. Teferi respirou fundo e rugiu de volta para o homem: “Você é louco, mestre.
Todos sabem disso. É claro que você também é um gênio. Nenhum de nós viria aqui para
estudar se não soubéssemos disso. Você sabe mais sobre artifício e magia do que
qualquer homem em milênios, mas você é louco. Comedores de fogo e fanáticos,
demônios e homens com cara de cachorro, invasores, conspiradores e espiões – os únicos
invasores que já vieram a esta ilha são peixes estúpidos o suficiente para ficarem
encalhados pela maré ou gaivotas que perderam seu senso de direção e se afastaram de
tudo, no meio do nada. Ninguém quer entrar aqui, mestre Malzra, mas eu posso pensar
em cerca de duzentos estudantes e quarenta acadêmicos que desejam sair, e é isso que eu
estava fazendo além da muralha, acredite ou não.”
No repentino e atordoado silêncio, alguém bateu à porta. O mago Barrin saiu das
sombras e foi em direção à porta.
Enquanto o trinco tocava e as vozes abafadas falavam, Teferi e Malzra olharam
nos olhos um do outro. Houve identificação entre eles. Apesar da grande diferença em

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suas idades, os dois sabiam naquele momento que eram mais parecidos do que diferentes
– brilhantes, motivados, egoístas, incontroláveis, obsessivos, irreprimíveis e tão falhos
como talentosos. Mas havia algo além disso, uma inegável faísca de grandeza –
inconfundível entre aqueles abençoados ou amaldiçoados por ela.
Os olhos de Malzra se intensificaram. Teferi sentiu uma presença em sua mente.
Sinuoso como uma cobra, Malzra deslizava por seus pensamentos. O mestre cheirava as
lembranças, abocanhava e as engolia. Os medos, como ratos, foram os primeiros a serem
engolidos, então ciúmes, timidez e insegurança. A mente do mestre desencadeou as
imagens da floresta e a Lua Tremeluzente. A verdade estava logo ali. Cheirava azeda e
forte. Malzra avançou. Em instantes, ele saberia. Ele saberia.
Os olhos de Teferi também se intensificaram. Um gato veio rondando entre seus
pensamentos – indignação e orgulho – e saltou na mente serpenteante de Malzra. Garras
e presas, cuspidas e silvos, pelos e escamas, eles lutaram na mente do jovem. A batalha
era feroz, embora apenas seus olhos iluminados sinalizavam algo dela.
Discretamente, Barrin limpou a garganta para quebrar a tensão. “Jhoira e Karn
estão aqui.”
“Em outra hora,” resmungou Malzra.
“Ela diz que veio para confessar,” disse Barrin, gesticulando para que a jovem e o
homem de prata entrassem.
Malzra terminou o combate de olhares. Seus olhos brilharam assim que ele
marcou a mulher Ghitu. Ela estava vestida com a túnica formal da academia, a que ela
usara quando introduzida nas fileiras dos alunos sêniores.
“Confessar o quê?”
“Eu sou culpada de tudo isso,” disse Jhoira, de uma vez. “É por minha causa que
Teferi estava do lado de fora da muralha na noite passada.”
O jovem olhou com espanto para ela, então pulou. “Ela me provocou.” Todos os
olhos se viraram interrogativamente para ele. “Eu estou sempre tentando impressioná-la,
mas ela acha que eu sou jovem demais para ela. Então, ela disse que ela não falaria
comigo novamente até eu fazer algo corajoso e adulto.”
“Não é isso que-” Jhoira começou,
“Você pensou que se esgueirar fora da academia seria algo adulto-?” questionou
Malzra.

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“Eu pensei que se eu pudesse sair na floresta à noite, talvez eu conseguisse pegar
um mergulhão noturno. Eles cantam bonito. Eles cantam para a Lua Tremeluzente. Eu fiz
aqueles pássaros mecânicos para impressioná-la – ela não está interessada na minha
magia, e eu queria mostrar pra ela que eu sou um artífice também – mas ela disse ‘eles
são falsos, assim como você’. Então eu pensei, se eu pudesse pegar um pássaro real, um
raro cantor noturno, sem usar magia, pegar eu mesmo-”
“Para pegar um mergulhão?” Barrin perguntou, atônito.
“Eu tinha uma pequena corrente com um colar de metal. Eu ia prendê-la ao redor
da perna do pássaro e colocar um capuz na cabeça dele, mas ele caiu do meu bolso
quando o guarda me deteve.”
“Um mergulhão noturno?” Barrin repetiu, incrédulo. Ele se virou para Malzra.
“Eu não acredito nele. Malzra, acho que neste caso podemos suspender a moratória da
escola contra a sondagem de mentes. Eu poderia lançar um feitiço da verdade sobre
ele…”
“Não-” Algo mudou nos olhos de Malzra, não um amolecimento, mas um
endurecimento, um cálculo afiado. “Não, isso não foi uma transgressão suficiente para
tomarmos medidas tão drásticas.” Um olhar culpado passou entre ele e Teferi. “Ele
encontrou um mergulhão noturno, por contra própria, mas eu diria que isso não foi o
suficiente para impressionar Jhoira. Não foi algo corajoso ou adulto. Foi imprudente e
estúpido.”
Teferi engoliu em seco e inclinou a cabeça. “Sim, senhor.”
Atordoada, Jhoira percebeu que sua boca estava se movendo, mas nenhum som
estava saindo.
“O que você tem a dizer, Jhoira?” Malzra perguntou. “Você está impressionada
com essas façanhas?”
Ela respirou profundamente e disse: “Bem, de certa forma, sim.”

*****

Depois que os estudantes e o homem de prata saíram, Barrin espreitou entre as


sombras dos livros da biblioteca de Urza. Por sua vez, o planinauta estava sentado,
silente e inquieto, à mesa de acácia-negra.

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Como dizer isso, imaginou Barrin, como falar qualquer coisa sobre isso? “Há mais
coisa nisso, Urza. Você sabe disso.”
“Eu sei,” veio a resposta calma.
“Você não deve permitir que a verdade nas palavras de Teferi – tudo aquilo sobre
gênio, loucura e paranoia – o distraia do fato de que ele estava fora da escola por mais
do que mergulhões noturnos.”
“Sim,” concordou Urza, cansado. Ele inspirou longa, consciente e profundamente;
não era algo que ele precisava fazer para sobreviver, sendo uma criatura de pura energia.
Atos simples como respirar traziam-lhe uma inestimável conexão com o mundo ao seu
redor. “Há um phyrexiano na escola. Eu sinto o seu cheiro. Está protegido, guardado e
cauteloso. Seu cheiro é fraco e difuso, mas ele está aqui. Um phyrexiano em Tolária.”

*****

A luz rubi do portal de viagens temporais pulsava ao redor de Karn. Ele não via
nada disso. Seu pensamento estava em suas lembranças, focado no confronto entre
Malzra, Teferi, Barrin e Jhoira. O resultado daquele episódio, há uma semana, ainda o
confundia. Kerrick deveria ter sido exposto, Jhoira e Teferi advertidos e expulsos, e a
animosidade entre eles teria se tornado uma parede inabalável. Em vez disso, o náufrago
ganhara acesso à academia através da passagem secreta, Jhoira e Teferi ganharam pontos
na estima de Malzra, e o jovem prodígio ganhou respeito aos olhos da mulher que ele
sempre quisera impressionar. Como tudo isso havia acontecido, Karn ainda não entendeu.
Ele tinha a sensação de que muito do que acontecera naquela estranha reunião estava em
palavras não ditas e ações incompletas.
O tempo diminuiu e parou. Malzra e Barrin se tornaram estátuas – ainda em seus
controles. O gemido da máquina atingiu um pico. Além daquilo, estava a tranquilidade
morta. Então as turbinas do tempo se inverteram e começaram a rolar para trás. Era o
pior instante, e durante ele Karn se sentia completamente sozinho. Após uma lenta
deliberação, Malzra e Barrin voltaram a se mover, suas mãos se soltaram dos controles,
desfazendo tudo o que tinham feito e desligando a máquina. A luz se aprofundou em
torno de Karn. Desta vez, a poça não se alterou. Malzra atingiu certa habilidade em
deslocamento espacial – ele parecia ter uma especial compreensão daquele esforço

59
arcano – e, assim, deixou de lado para tentar reforçar o invólucro temporal. Nesse
processo, todo o poder da máquina foi desviado para o vetor temporal.
Começou, a lentidão do desenrolar do tempo. Karn havia se acostumado a se ver
saindo do reservatório de luz, cair para trás, ouvir atentamente os dois homens e recuar
pela porta. Anteriormente, Malzra e Barrin estavam o tempo todo ocupados, quebrando
pedaços da máquina do tempo, removendo novos componentes e os substituindo por
pedaços de metal queimado e vidro. Um dia, suas alterações reformariam aquela máquina
de modo a permitir que Karn viajasse de volta séculos ou milênios…
Ele deixou sua mente à deriva. Naquela viagem, ele veria sua própria criação e a
pilha de placas e rodas dentadas que ele tinha sido anteriormente. Ele veria o tempo em
que Barrin seria um jovem, um bebê, em que ele estava no corpo de sua mãe, o tempo em
que ele não era realmente nada. É claro que para chegar no início da vida de Malzra, a
viagem de volta seria bem mais longa. O quão mais longa, Karn não conseguiria supor.
No caminho, ele veria o homem sendo desmontado peça por peça, assim como a máquina
do tempo diante dele. Ele veria cada componente ser removido de Malzra – sua mania,
sua paranoia, sua obsessão, seu brilho, seu constante arrependimento e infelicidade.
Talvez, parte disso fizesse parte do seu design original. Muito disso, talvez a maior
parte, deveria ter vindo dos séculos de sofrimento.
O laboratório ficou escuro. Barrin se recolheu. Ele desfez o encantamento de cada
orbe que a fazia brilhar. Ele se afastou a porta, fechou e a trancou. Então sobreveio um
período de profunda escuridão. Karn quase podia sentir o sol mergulhando
silenciosamente além do mundo, como um leviatã nadando de volta para as profundezas
do mar.
Já se passaram vinte e duas horas, a extensão da sua viagem anterior.
No cair daquela noite, alguém entrou no laboratório. Não era Barrin ou Malzra.
Quem quer que fosse não lançou feitiços de luz, nem acendeu as lamparinas de petróleo
ao redor das paredes. Havia trabalhadores designados para a limpeza dos laboratórios,
mas quem limparia no escuro? O intruso caminhou do lado da parede dos projetos,
estudando-os como se ele conseguisse enxergar sem luz. Ele separou alguns rapidamente
entre as pilhas e tirou de seus bolsos umas pedras cintilantes para colocar entre as outras.
Um ladrão.

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Karn quase pisou fora do círculo da luz, mas se lembrou das instruções de Malzra
– viajar de volta no tempo até que sua estrutura se aproximasse do ponto de fusão. Ele
estava longe disso acontecer, e em alguns instantes, a figura desapareceu. Ele teve a
impressão de ter visto, na cunha acinzentada da luz do corredor, cachos amarelos.
Chegou a noite, sob a forma de um amanhecer artificial. A regressão se acelerou.
Karn esperou pelo desenrolar das horas, enquanto alunos e tutores tremiam no espaço,
como abelhas em uma colmeia. Chegou a manhã. Sombras se alongaram e se reuniram
em grandes agrupamentos de escuridão. Era noite novamente.
A pele de Karn se aqueceu até fumegar.
O ladrão voltou.
Passaram-se quarenta e seis horas do passado. Já era tempo suficiente. Karn saiu
da luz rubi. Sua estrutura chiou bastante, assim que as placas de prata encontraram o ar
do passado. O homem que havia aberto a porta, a fechou. O golem de prata caminhou
rápido e silenciosamente para a porta e a abriu. Ele olhou para fora, vendo Kerrick se
retirar em um canto do corredor.
Kerrick. Jhoira o permitiu entrar na escola, e ele estava roubando do mestre
Malzra. Haveria mais powerstones, projetos ou partes em seus bolsos. Que uso teria a
tecnologia de artefatos para um náufrago? Ele devia entregar estes itens para outra
pessoa. Para quem?
Há seres malignos na porta, Karn, seres além de qualquer coisa que você possa
imaginar.
Karn o seguiu. Ele estava fora de fase e invisível por apenas algum tempo, e seus
passos metálicos logo o afastariam. Se ele não capturasse o ladrão logo, ele nunca mais
conseguiria.
Kerrick fugiu por uma série de corredores curvos. No fim da rota serpenteante
estava o Salão das Criaturas Artefatos. Talvez ele planejasse roubar um dos dispositivos
dele ou copiar seu design. Ele deslizou o trinco e entrou na câmara.
Karn se apressou a passar pela porta antes dela se fechar. Ele se jogou para dentro.
Sua presa se afastava de um grupo de guerreiros yotianos de cabeça de cachorro. O
homem de prata o seguia. Sua estrutura já estava escorregando para entrar em fase – ele
estava reaparecendo. Ele seguiu seu caminho, escondido no bestiário mecânico.

61
Ele se agachou ao lado de um investigador. Os ossos de suas costas eram um
grande transportador, projetado para carregar minérios das minas. Além dele havia um
cata-vento em cima de uma coleção de instrumentos – anemômetro, termômetro,
barômetro, ciclômetro. A próxima besta era rígida e parecia um cão de caça, com pernas
longas e finas, uma cabeça lustrosa e uma cauda semelhante a um chicote. Adjacente a
ele, levantadores su-chi se agachavam em seus joelhos virados ao contrário. Era
inquietante perseguir alguém entre aqueles irmãos metálicos, desativados e quase
descartados, feitos para ficar como estátuas naquele mausoléu. Karn se perguntou se um
dia ele estaria entre eles, quando a mania de Malzra se virasse para outra direção que não
incluísse viajar no tempo, ou quando ele criasse uma sonda melhor para fazê-lo.
Ele estava na metade da câmara quando Kerrick passou pela outra porta, em
direção à passagem secreta de Jhoira. Karn não poderia segui-lo pelo duto apertado, mas
talvez ele conseguisse interceptá-lo do outro lado da muralha.
Virando, Karn se dirigiu para uma porta diferente, uma que levava ao pátio. Ele
girou a maçaneta, facilmente aberta, e observou o jardim. Além dele, a noite estava
quente e ventosa. A Lua Tremeluzente parecia um olho com catarata, queimando atrás
das nuvens abafadas. Karn ainda estava aquecido, seu corpo dilatado com o estresse da
alta temperatura. Ele caminhou através do pátio. Malzra poderia reinvocá-lo a qualquer
instante. Karn chegou na muralha ocidental e subiu os esteios internos. Ele se ergueu
entre as ameias.
Ao lado das torres, os guardas estavam em grupos preguiçosos. Um par de
observadores empoleirados em torres adjacentes, suas lentes oculares girando lentamente
ao longo da muralha.
A escuridão profunda envolveu o pé da muralha. A grade no final da passagem de
Jhoira ficava na metade do caminho entre os guardas mecânicos, oculta pelas altas
gramíneas. O metal se camuflava facilmente no escuro. Os cabelos brilhantes como
moedas douradas se mostraram logo depois.
Acima, os guardas ainda descansavam, conversavam, em um grupo silencioso.
Kerrick escorregou pela grade. Ele revirou a obstrução de grama e atravessou a
espessa parede em direção à selva. Ele não tinha sido visto.
Com sua pele de prata crepitante pelo calor, Karn subiu para depois se agachar nas
ameias e pulou no ar serpenteante da noite. Ele fez um barulho ao cair, que chamou a

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atenção dos guardas. Karn se baixou, meio-visível na prateada luz da lua. Com o tempo,
a atenção dos guardas se virou para outro lugar. Mascarado por um vento crescente, Karn
caminhou tranquilo pela floresta, logo atrás de Kerrick.
Mais barulhos surgiram – o som das folhas, os galhos se quebrando, o som do
orvalho batendo na prata superaquecida. Karn temia alertar Kerrick, mas a pressa era
algo a ser considerada. O ladrão se movia pelo caminho de Jhoira, rapidamente e sem
emitir qualquer som, levando consigo os projetos, powerstones ou eventuais artefatos
que ele havia roubado.
Karn seguia. Suas reservas de energia estavam se esgotando pelos movimentos
rápidos. O estresse térmico triturava as suas articulações, mas a raiva lhe dava força. Ele
alcançou uma elevação, assim que a luz da Lua Tremeluzente atravessou uma nuvem.
Kerrick e dois estranhos estavam adiante. Karn parou, sintonizando seus ouvidos para a
conversa sussurrada.
O jovem de cabelos dourados segurava um grande rolo de papel e apontava,
dizendo: “A passagem está aqui. Traga todo o grupo de neutralizadores. Eu cuidarei para
que a passagem fique aberta. Eu me certificarei que os guardas da muralha estarão
mortos-”
Isso foi tudo o que Karn viu e ouviu.
A máquina de Malzra o alcançou através do tempo, o agarrou – cada fumegante
grão do seu ser – e o arrastou para frente. Em furiosos chicotes de energia, a luz irritante
mergulhou em um sólido cone de radiação. A encosta desapareceu e com ela Kerrick e
seus conspiradores. Apenas a luz lívida permaneceu. Rugindo em frustração, Karn
esperou para reaparecer no fluxo temporal. Eventualmente a cortina do futuro se formou
ao redor de Karn. O cone girou mais uma vez, piscou, então desapareceu.
Fumegando, Karn estava no meio do laboratório temporal de Malzra. O mestre
olhou para cima de seus controles. Ele e Barrin tinham expressões de admiração, seus
olhos traçavam as espirais de fumaça que serpenteavam do grande homem de metal
maciço e se enroscavam calorosamente ao redor da máquina do tempo. A fuselagem em
si derramava fuligem e cinzas à medida que ia esfriando.
Karn saiu do círculo de transporte. Era uma violação do protocolo: ele deveria
esperar até o mestre Malzra o convocar. Ele o violou novamente ao falar antes de ser
perguntado.

63
“Há uma invasão chegando.”
Barrin se aproximou e gesticulou para o homem prateado.
“Existe um perigo de contaminação se você sair do anel-”
“Que tipo de invasão?” Malzra perguntou, do controle.
“Eu não sei. Eu não vi com quem ele falou, mas ele falou sobre neutralizadores-”
“Phyrexianos,” Malzra respondeu com uma severa confirmação.
O mago perguntou: “Quem falou sobre neutralizadores?” “Kerrick,” disse Karn.
Naquele momento, ele percebeu que deveria trair o segredo de Jhoira, por sua segurança
e pela segurança de toda a academia. Ainda assim, a necessidade daquele crime não o
tornava mais fácil de cometê-lo. “Ele é um náufrago, jogado na costa há quase um ano.
Jhoira o encontrou e salvou sua vida. Ele descobriu um caminho para a academia e agora
entregou as plantas da academia para quem quer que seja responsável por esses
neutralizadores.”
Malzra começou a andar de novo, a velha fúria reaparecendo. “Eles devem ter um
barco, ou um portal para uma ilha ou um sargaço próximo. Eles sabiam que eu teria
defesas contra portais diretamente para Tolária. Eles estão reunidos em massa em algum
lugar para este ataque.”
“Como você sabe disso tudo?” Barrin perguntou a Karn.
“Eu o segui para fora da academia, para fora deste exato cômodo. Ele pegou os
esboços daqui,” reportou Karn. “Além da muralha, ele encontrou duas pessoas. Eles
falaram sobre neutralizadores.”
Malzra estava cambaleando, seu rosto lívido. “Maldição! Então eles sabem sobre
minhas manipulações do tempo. Eles não poderiam ter escolhido momento mais crucial
para atacar.”
“Quando esse Kerrick pegou os projetos? Quão longe você foi?”
“Quarenta e seis horas.”
“Eles podem chegar a qualquer momento,” disse Barrin. “Eu vou alertar os
guardas.” Ele correu para a porta e desceu o corredor.
“É tarde demais,” disse Malzra calmamente, respirando pela primeira vez, talvez
em horas. Ele sentiu um cheiro no ar que flutuava pela porta aberta. “Eles já estão aqui.”

64
Ainda abrasando, Karn correu para a porta e saiu pelo corredor. Estava vazio e
silencioso, mas um cheiro de óleo, metal e morte tingiam o ar. Ele pensou um pouco –
Jhoira – e se atirou no meio do salão. Malzra o chamou, mas Karn não prestou atenção.
Abaixo de um lance de escadas, ao redor de uma longa curva, e após uma rampa, ele
alcançou a pequena porta redonda do quarto de Jhoira.
Ele tentou a maçaneta, mas estava trancada. Ele bateu. A madeira tremeu em suas
dobradiças. Ele gritou, mas ninguém respondeu. Levantando um pé, Karn chutou a porta
e, virando de lado, a atravessou.
Havia sangue por todos os lados.
Jhoira havia lutado, isso estava claro. Agora, a luta havia acabado para sempre.
Ela estava deitada no centro do quarto, e uma poça vermelha se estendia de seus cabelos
enrolados até os cantos da parede. Seu manto encharcado descansava sobre um corpo que
era a metade do tamanho do que havia sido.
Havia pegadas no sangue, ferrões de aço e dedos espetados. Um ia para dentro do
guarda-roupas onde os mantos de Jhoira ficavam pendurados. A porta estava ligeiramente
entreaberta, e da escuridão de dentro, um olho febrilmente incandescente observava.

Monólogo

Ele não é louco. Eu nunca deveria ter duvidado dele . A loucura é o que

ele sabe que está chegando, é o que já está aqui . Ela me rodeia . Suas presas se

afundam em mim. Suas garras destroem minhas tripas. De alguma forma , eu

consigo sentir o calor deles sobre os meus pés, momentos antes de eu morrer.

– Barrin , mago mestre de Tolária

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Capítulo 06

A criatura arrancou as portas do guarda-roupa, puxando-as de suas dobradiças, e


saiu.
Era uma criatura enorme, em geral tinha características humanas, apesar dos
implantes de armadura, dos espinhos ósseos proeminentes e das pernas afiadas que se
assemelhavam às de um inseto. Uma estrutura de aço se estendia por sua mandíbula
inferior, em ambos os lados, e nas suas pontas havia presas de metal que pingavam o
sangue de Jhoira. O nariz havia sido substituído por outro espinho, e a função
respiratória era realizada por uma série de orifícios presentes no esterno da criatura que
eram ligados diretamente aos seus brônquios. Seus olhos pareciam brilhar, alinhados em
órbitas espelhadas, e suas sobrancelhas em forma de chifre se erguiam em uma crista
sagital, que também escorria sangue. Pontas de ossos afiados sobressaíam dos ombros,
cotovelos, dedos, joelhos e dedos dos pés.
A criatura disse, asperamente: “Desarme-se e desative-se, e, assim você ficará
ileso. Caso contrário, será destruído.”
Karn respondeu lançando-se para cima da criatura. Foi um movimento rápido,
jogando toda a sua massa com a velocidade do bote uma serpente. Karn agarrou um
ombro, mas a criatura se desvencilhou. De repente, ela estava em suas costas. Seus dedos
pontiagudos espetaram por baixo de seu capacete. Ele se lembrou quão facilmente
Malzra havia jogado seu crânio para trás e removido a powerstone de dentro.
Karn girou e ficou por cima, tentando esmagar o inseto entre o martelo que era o
seu corpo e a bigorna, que era o chão. O monstro desvencilhou novamente, esquivo como
água, e ficou em cima dele. Um borrifo vermelho se ergueu da poça de sangue onde Karn
estava parado. Sangue escorreu de sua pele quente. Ele juntou os punhos, agredindo as
costelas do invasor.
Com um rosnado e uma tremida, a besta alcançou o mecanismo na garganta de
Karn e jogou seu crânio para trás. Karn não podia ver mais nada, mover-se muito menos,
seus membros balançando ao seu redor, mas ele podia sentir os dedos pontiagudos em
torno da caixa de prata onde estava sua powerstone. Um puxão e toda a estrutura se
abriria, e a vida de Karn desapareceria – um frágil cristal nas garras de um assassino
phyrexiano.

66
Ele parou, seus dedos primeiro alcançaram um pequeno pingente pendurado no
pescoço do golem, o medalhão viashino.
A besta o ergueu, olhou e suavemente ronronou uma única palavra: “Thran”.
Karn falou uma palavra diferente: “Jhoira”.
Reunindo o que sobrou de sua força de vontade, Karn alcançou o pingente de
metal, quebrou a corrente de prata que o segurava e enfiou a bijuteria dentro do crânio
do phyrexiano. Um jorro quente de óleo e sangue verteu sobre ele.
Gritando, a criatura caiu para trás. Karn conseguiu fechar seu crânio e sentiu seu
poder, sua força de vontade, retornando dos pedaços no chão. Logo depois, ele se
levantou sobre o assassino agachado, o pingente viashino afundado em seu lobo frontal.
Ele jogou a besta no chão e com uma pisada de seu pé maciço, reduziu a cabeça da
criatura a uma pasta oleosa de pele, massa encefálica e farinha de osso. O corpo tremeu
por alguns instantes, mas Karn chutou o corpo para o lado e se ajoelhou ao lado de sua
amiga desfalecida.
Morta. Jhoira estava morta. A raiva que Karn havia sentido com essa descoberta
havia se transformado em angústia e tristeza. O homem de prata se ajoelhou diante dela.
Isso doía mais do que ter seu corpo superaquecido ou sua placa do crânio retirada,
descascada como a casca de um melão.
“Eles estão em toda parte,” veio uma voz severa da porta. “Eles estão matando
todos. Barrin já está morto. Teferi também.”
Karn olhou para cima e viu o mestre Malzra vestido em sua armadura de batalha,
que o deixava semelhante a um phyrexiano com implantes.
“É muito tarde para detê-los. Nós devemos cortar o mal pela raiz. Eu vou te enviar
de volta. Todo esse ataque pode ser evitado. Volte no tempo. Retorne quarenta e oito
horas. Intercepte Kerrick e mate-o antes que ele possa transmitir os planos. Eu protegerei
a máquina e lutarei contra todos que chegarem. Eu preciso do mago mestre Barrin de
volta. Deixe o portal se destruir, se for necessário. Deixe sua própria estrutura derreter,
mas pare Kerrick e seus neutralizadores.”

*****

67
Se eu matá-lo, pensou Karn enquanto o feixe esfumaçado do portal dançava ao seu
redor, ou se eu até mesmo atrasá-lo, prendê-lo, Jhoira viverá novamente.
Além do intermitente círculo de raio avermelhado, mestre Malzra trabalhava
febrilmente nos dois controles, seu colega estava morto em algum canto da escola
devastada.
Se eu matar Kerrick, pensou Karn, tudo será como era antes.
Um grupo de neutralizadores irrompeu pela porta. Apesar de enormes e protegidos
com armaduras de aço, semelhantes ao phyrexiano que Karn havia acabado de destruir,
cada um deles era único de certa forma. Um deles tinha cabeça e membros lupinos,
embora seus ombros e torso fossem humanos (ou eram, antes de serem perfurados em mil
lugares por tubos e conduítes). Um dos outros era um ogre agitado, com grandes
músculos expostos, olhos malignos e profundos, e braços tão grandes quanto as pernas
dos outros homens. O terceiro era fino e rápido como uma aranha. Esses três surgiram
entre as partes giratórias da porta despedaçada e iam na direção de Malzra.
Karn cambaleou, quase se afastando da luz, para enfrentar as criaturas.
Sem sequer olhar para cima, ainda trabalhando na máquina à sua frente, Malzra
levantou uma mão e emitiu uma explosão elétrica. Três parafusos se soltaram da
estrutura principal e acertaram os monstros no peito. Os relâmpagos explodiram os
buracos onde havia corações e se espalharam em fúria crepitante pelas placas de aço.
Olhos se acenderam por dentro. Presas dançaram com faíscas. Músculos brilharam
assustadoramente onde havia neurônios, mas, ainda assim, os phyrexianos caminhavam.
No próximo feitiço, Malzra nem sequer levantou sua mão. A mágica foi lançada
diretamente de sua mente, seus dedos ainda estavam firmes nos controles. Cada uma das
três criaturas abruptamente congelou, deu meio passo, e caiu no chão, despedaçadas
como gelo preto.
Karn não viu mais nada. No momento seguinte, o resto do mundo congelou.
Houve um momento de súbito estremecimento, como se prestes a rachar, então o tempo
começou a girar para trás. Phyrexianos quebrados deslizaram no chão, se remontaram no
meio do ar e recuaram em direção a porta. Uma mágica criou carne dos rastros de fumaça
e a empurrou para dentro de buracos no peito das criaturas. Elas correram para trás,
reconstruindo a porta com os fragmentos de madeira, antes de desaparecerem.

68
E então o tempo girou ainda mais rápido. O feixe de energia girava em ritmo
frenético. O mundo agitou e sacudiu. O mestre Malzra havia extraído todo o poder do
aparelho, de seus quatro vetores e de suas turbinas internas, para energizar essa
regressão. Karn poderia não sobreviver a essa viagem, e caso o fizesse, talvez a máquina
não conseguisse trazê-lo de volta. Mas Jhoira sobreviveria, e isso era suficiente. Jhoira,
Teferi, Barrin e a escola. Se salvá-los significasse perder a si mesmo, Karn não se
importava. Melhor terminar assim do que como uma estátua no Salão das Criaturas
Artefato.
A manhã trouxe a escuridão ao mundo; Kerrick entrou no laboratório em sua
última visita e se foi; e o entardecer trouxe a luz. Karn esperou ansiosamente pelo outro
dia, especialmente pelo crepúsculo do amanhecer. Ele já estava muito quente, seu corpo
soltando vapor e suas placas rangendo umas contra as outras, em dilatação. A noite se
aprofundou. A regressão diminuiu. A luz vacilou. Karn apertou as mãos em seus lados do
corpo e sentiu o estranho e forte impulso humano de rezar – para que deus ele não sabia,
talvez para a própria máquina do tempo.
Com uma luz mais bonita do que qualquer alvorada verdadeira, a porta do
laboratório lentamente se abriu, e o corredor cinzento brilhou logo atrás.
Karn se levantou da dissipante fonte de luz, seu próprio corpo argênteo emitindo
uma luz avermelhada, correspondendo à cor do raio. Sem hesitar, ele correu em direção à
porta, que agora estava se fechando, agarrou a maçaneta e saiu. Ele adentrou o salão,
logo atrás da cabeça dourada do phyrexiano adormecido.
Kerrick girou quando ouviu a porta bater freneticamente contra a parede do
corredor. Embora Karn ainda estivesse fora de fase, sua armadura superaquecida lançava
fios de fumaça no ar, formando uma aura ao redor do seu corpo, e Kerrick percebeu a
forma que o vazio formava.
Ele se virou e fugiu. Karn o seguiu. Ele não tinha sido construído para a
velocidade, e correr, marcava sua forma. Kerrick disparou pelo corredor, rapidamente se
afastando.
Talvez outra regressão, Karn pensou desesperadamente. Talvez eu devesse me
retirar para tentar outra regressão – exceto que a máquina pode ter se destruído para
conseguir fazer esta.

69
Karn não era tão rápido quanto o phyrexiano, mas ele conhecia a academia e sabia
para onde Kerrick se dirigia. Lançando-se a uma passagem lateral, Karn chegou ao Salão
das Criaturas Artefato. Ele entrou rapidamente, fechou e trancou a porta.
Karn observou as criaturas desativadas de duas a três vezes o seu tamanho –
mamutes mecânicos, andarilhos com a forma de gafanhotos de aço, aparelhos com
formas de aranha com mãos no final de cada perna. O assassino também estava lá.
Kerrick tinha entrado na câmara pela extremidade distante, e ele caminhava
cautelosamente para a frente. Ele estava a caminho dos laboratórios do oeste e precisaria
passar pela porta atrás de Karn. O homem de prata se posicionou em uma plataforma
próxima e agachou ao lado do esqueleto de metal de um guerreiro de argila. Ali,
camuflado entre criaturas mortas de metal, ele esperou.
Kerrick veio. Cauteloso e rápido, ele veio. Um sorriso sarcástico rasgou o seu
lábio quando colocou a mão na maçaneta da porta e puxou, certo de que havia despistado
seu perseguidor.
Karn caiu sobre ele.
Há um som inconfundível quando os ossos – sejam humanos ou phyrexianos – se
quebram. A canela direita se dobrou para trás do joelho. Gritando em agonia, o homem
caiu no chão.
Foi um ruído sofrível, e Karn, de punhos cerrados e pronto para terminar com o
homem, hesitou. Talvez quebrar a perna de Kerrick fosse o suficiente para pará-lo, para
impedi-lo de fugir da muralha e encontrar os phyrexianos. Ele seria encontrado aqui pelo
guarda e considerado um espião. Malzra e Barrin lidariam com ele, e talvez eles
aprenderiam com ele sobre quem eram, onde estavam e quantos eram os phyrexianos.
Matar esse homem garantiria que os phyrexianos viriam, em outro dia, mas deixá-lo vivo
para ser interrogado…
Apenas meio visível, por estar fora de fase, Karn ergueu o homem irritado em seus
ombros e caminhou pelo corredor de criaturas artefatos. Kerrick se afastava da pele
flamejante do homem argênteo e gritava de agonia. Apreensor e apreendido alcançaram a
porta distante, passaram por ela e caminharam pelo corredor.
“Eu tenho um espião, um espião phyrexiano!” Karn gritou. “Guardas, mago
Barrin, mestre Malzra!”

70
Antes que uma resposta surgisse, cada partícula de Karn foi agarrada pela mão
futura de Malzra. A máquina estava levando ele de volta. Havia algo diferente nessa
invocação – sua insistência dilacerante. O homem de prata se sacudiu sob o golpe e
quase caiu. Ele agarrou seu prisioneiro mais firmemente. Seu corpo se aqueceu. Kerrick
encostou nele e se contorceu. O longo corredor escuro girou.
Com um grito de fúria, o phyrexiano enfiou seus dedos sob a mandíbula de Karn,
procurando o mecanismo de liberação. Por reflexo, Karn agarrou a mão do homem e o
jogou violentamente para longe. O movimento acabou libertando Kerrick. Ele caiu no
chão de pedra do corredor, sentindo a perna quebrada. Karn cambaleou para trás.
O raio vermelho veio, uma luz caótica e certeira. O corredor começou a se
dissolver. Karn lançou a mão em direção ao phyrexiano, mas seus dedos se fecharam no
caos temporal e não alcançaram nada. Fragmentos de realidade deslizaram em momentos
espelhados. Karn mergulhou através do tempo emaranhado.
Algo estava errado com a máquina, algo terrivelmente errado.
Os pulsos chicoteadores de energia temporal formavam um vórtice ao redor dele,
puxando-o para baixo, para a frente, para a escuridão do futuro e seu mecanismo de
desintegração.
Do lado externo do cone, o laboratório estava com formato irregular. Ele piscava
dentro e fora da existência. Algumas formas caóticas e avermelhadas tombavam e
cresciam ao redor de Karn. Pela segunda vez naquele dia, ele sentiu o impulso de rezar.
O laboratório retornou. Os controles de Malzra piscaram através de uma nuvem de
fumaça. O mestre e Barrin trabalhavam ferozmente nos controles faiscantes. Sobre a
cabeça de Karn, a máquina do tempo balançava poderosamente, seus painéis laterais
jorrando fuligem no ar.
Estava se desintegrando.
O orbe de luz na base do dispositivo rachou, lançando raios vermelhos em todas as
direções. Onde os feixes batiam, paredes se tornavam pó e máquina se tornava sucata.
Cada raio cravava uma rachadura por onde passava, rasgando o laboratório e os
corredores detrás dele, os dormitórios e a própria muralha, alcançando toda a Tolária.
Karn estava no centro dele, protegido pelo ofuscante cone de luz.
Então veio a explosão.

71
De repente o vermelho desapareceu, o vermelho, as outras cores e toda a
escuridão. Houve apenas luz naquele momento, luz como se fosse o centro do sol. Ela
veio como um frágil fragmento, como se um cristal tivesse sido quebrado. Um som de
sino se seguiu, seguido pelo que poderia ser um trovão, caso um trovão pudesse ser
grande o suficiente para abranger um mundo inteiro.
O ar ficou sólido por um momento, um amálgama de gás e energia, e em seguida,
se espalhou para fora. Assim como a cor havia desaparecido, as paredes desapareceram.
O inferno que se precipitava saía de um anel incandescente localizado onde Karn estava,
pulverizando pedra, aço e vidro. Logo depois, o anel se transformou em linhas circulares
de explosão bruta. O holocausto obliterou partes inteiras da academia e arrancou a terra
até o subsolo. Algumas áreas permaneceram intocadas. Algumas construções foram
rasgadas de forma transversal.
Uma onda de choque disparou torrencialmente para fora. Ela carregava uma
tempestade de pedras estilhaçadas e metal quebrado, como um milhão de dentes
rangentes, consumindo qualquer coisa que alcançava. Árvores milenares foram
derrubadas. Pináculos pedregosos foram devorados completamente. Folhas verdes
explodiam em chamas. Nuvens de poeira e cinzas flutuavam sobre as florestas.
A chama alcançou inclusive o mar, e em várias milhas a água fervia a uma
profundidade de dez metros. Ela alcançou as nuvens acima do mar, afastando algumas de
lado e provocando chuva de granizo flamejante com outras. Sacudiu os oceanos,
despertou ondas de maré que destruíram aldeias a duzentas milhas de distância. Essa foi
uma explosão como ninguém havia sentido em Tolária desde os dias de trevas de Argoth.
Foi uma explosão provocada pelas mesmas loucuras do mesmo homem.

*****

Urza ficou imóvel diante de tudo isso. Ele esteve ao lado do portal temporal no
exato instante que ele explodiu. Ele usou cada grama de seu poder metafísico para juntar
as partículas de seu ser contra as maciças ondas de energia. À medida que os pedaços de
matéria eram retirados dele, ele lentamente se tornava um ser de pura energia. No
primeiro instante da tempestade de granizo, ele se transformou duas vezes.

72
No segundo instante, ele se arriscou ao se lançar além da tempestade de destruição
e resgatar, um por um – talvez não os melhores e mais brilhantes, mas aqueles mais
próximos, aqueles que poderiam ser salvos. O mago mestre Barrin foi o primeiro (sim, o
homem de prata, Karn fez o que ele foi enviado para fazer, evitou a invasão phyrexiana,
embora as consequências desse ato fossem tão difíceis de entender como o próprio corpo
de Urza), então cinco outros acadêmicos, e depois oito estudantes. Ele os levou para
cima, em uma súbita e espontânea transplanagem. Ele sabia que eles não sobreviveriam à
jornada na forma humana, então ele parou por um momento, para transformar todos em
pedra. Poderia ser desfeito depois, quando houvesse tempo, quando houvesse força…
Raios devoradores passaram na direção de Urza e seu grupo de estátuas. A
explosão mortal do último dínamo lançou pedaços de tudo o que era concebível: metal,
pedra, ossos, cérebros e até mesmo as mentes foram repetidamente rasgadas através
deles. Urza se manteve firme contra a tempestade. Ele se ergueu. Ele levou os outros
com ele.
Agora eles estavam… onde?
A encosta era ensolarada e verdejante. Um vento suave e quente passeou
facilmente pelas quatorze estátuas. Urza havia se salvado junto com quatorze outros – o
que significa que mais de duzentas pessoas foram abandonadas para morrer. Ele havia
salvado a si mesmo, Barrin e outros treze. Os neutralizadores poderiam ter feito menos
estrago, mas eles teriam matado Barrin, capturado todos os artefatos de Urza e a própria
máquina do tempo. Foi uma troca razoável. Urza salvou quinze, e manteve seu trabalho
longe das garras phyrexianas. Sim, foi uma boa troca.
Os sobreviventes tolarianos estavam paralisados e silentes sob o gentil vento.
Havia uma única árvore, de copa larga, no topo de uma colina gramada, que se movia
sozinha, respirando o ar agradável.
Urza lançou um último encantamento. Era o seu último ato de salvação naquela
tarde, pois ele estava exausto. Ele não seria capaz de manter sua coerência física por
mais tempo. Foi um feito de vontade lançar esse último feitiço, para transformar Barrin
em carne novamente. Pedra se tornou ossos, músculos e sangue. Barrin acordou.
Sobrancelhas se soltaram sobre seus intensos olhos amarronzados, o homem cambaleou
pela grama alta para alcançar Urza. “Onde nós estamos?”

73
Urza, dolorosamente balançou sua cabeça. “Eu não sei.” Assentindo, Barrin
respirou calmamente e olhou para as colinas esverdeadas, sob o céu de nuvens
desorganizadas. “Por que nós estamos aqui?”
Um pesar dominou as feições de Urza. “Tolária se foi. A máquina do tempo
explodiu. Nós somos os sobreviventes.”
A boca do jovem se abriu e ele olhou com irritação os outros treze, vestidos como
lápides em um cemitério esquecido. “Apenas nós? Apenas quatorze?”
“Quinze – corrigiu Urza solenemente. “Você e eu, cinco acadêmicos e oito
estudantes.”
Barrin agachou-se de repente, apertando os joelhos. “E o resto?”
Urza piscou. Ele não precisava piscar, mas era um velho hábito que vinha com
pensamentos perturbadores. “A maioria está morta. Alguns podem ter sobrevivido,
abrigados nos escombros, mas provavelmente não conseguiram.”
Seu assistente permaneceu agachado. Ele ofegou como um cachorro com medo de
trovões. “Nós temos que voltar. Nós temos que pegá-los.”
“Teleporte, se você tiver tal feitiço pronto. Eu não posso fazer mais nada por
enquanto,” Urza replicou sombriamente. “Eu estou exausto. Assim sendo, eu não posso
me ancorar aqui por muito tempo.”
“Eu não tenho feitiços de teleporte. Eu não imaginei que precisaria de um,” disse
Barrin. “Então um barco ou alguma coisa. Nós temos que voltar para salvar quem tiver
restado.”
A forma de Urza já havia se desvanecido, suas feições estavam mudando. As
gemas que haviam se tornado seus olhos cintilavam. A chama nelas estava perto da
morte. “Nós vamos encontrá-los em algum momento, aqueles que escaparam da ilha hoje
à noite. Qualquer um que não esteja morto pela manhã.”

*****

Karn puxou a laje oblíqua de calcário. Ela rangeu. Sua extremidade se chocou
fortemente contra as beiradas do monte de entulho. As vozes abaixo gritaram em
esperança e terror, assim que a luz apareceu – não a luz do sol, mas a luz das furiosas
chamas da explosão. Karn elevou a ponta da pedra um pé acima do chão, e dois jovens

74
estudantes fugiram. O homem de prata arrastou o bloco mais pra cima. Um acadêmico
sênior, com a cabeça ensanguentada, arrastou-se em seu caminho para a saída.
“Só éramos nós,” ofegou o homem esfarrapado.
“Vão para a selva,” ordenou Karn, assim que deixou a pedra deslizar de volta.
“Atravessem as ruínas, não vão pelas estradas. Movam-se para a floresta densa.
Cheguem no oceano. Fiquem longe das estradas. Elas são fendas temporais, e se vocês
entrarem nelas, elas matarão vocês.”
O sênior ainda estava de joelhos, embalando um braço quebrado. Seus dois jovens
estudantes se juntaram estremecendo ao lado dele. O homem olhou para a devastação.
Aqui e ali havia vestígios das construções tombadas. Entre pilhas de pedra em ruínas, o
chão tinha sido esfregado até alcançar o subsolo. Corpos espalhados pelos edifícios
esmagados, mas nas estradas nada havia permanecido, apenas rocha marcada pelo fogo.
O velho homem coçou seus cabelos brancos, logo abaixo de um corte recente. Ele
piscou, e gotas de sangue saltaram de seus cílios para suas bochechas.
“Quando chegarmos no mar, o que faremos?” – gritou o homem.
“Encontre outros”, aconselhou Karn enquanto se movia para onde havia mais
gritos. “Encontre algo que flutue. Malzra guardava barcos na costa leste.”
Era tudo o que ele tinha tempo para dizer. Ele já tinha resgatado dezessete
pessoas, embora a maioria já tivesse morrido pelas suas feridas ou por andar nas
tempestades temporais que estraçalhavam seus corpos. Karn já havia tocado algumas
regiões destrutivas, e mesmo seu corpo de prata, projetado para sobreviver aos fluxos
temporais, estava quase destruído. Qualquer criatura de carne que colocasse sua cabeça
em um tempo diferente do seu coração teria suas veias explodidas. Karn havia visto isso
acontecer muitas vezes hoje, vezes demais.
Os gritos vieram da frente. Karn encontrou um guarda preso em uma pedra. A
parte superior do corpo do homem tinha sido queimada até parecer carne estragada,
arroxeada. Sua parte inferior havia sido esmagada pela pedra gigante.
“Tire isso de mim, eu não posso sentir minhas pernas.”
Com um olhar sinistro, Karn ajoelhou-se embaixo da rocha, posicionou seus
ombros contra o peso e ergueu. No momento que a pedra foi erguida para longe da pélvis
do homem, uma grande onda de sangue escorreu de sua barriga, e ele afundou
imediatamente na morte.

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Karn deixou a rocha voltar para baixo. Ele ficou parado. Ele não podia imaginar
um destino pior para essas pessoas – metade deles eram apenas crianças e a outra metade
homens fragilizados e mulheres. Ele não podia imaginar como uma invasão phyrexiana
pudesse ser pior do que isso. Essa destruição foi uma segunda Argoth, e Malzra foi um
segundo Urza, preferindo destruir um mundo inteiro a deixar outra criatura governá-lo.
Se pelo menos Jhoira estivesse viva… isso poderia tornar essa carnificina menos
amarga. Se pelo menos… mas seu quarto estava enterrado sob toneladas de escombros, e
nenhum pedido de ajuda vinha de lá. Talvez ela tivesse escapado. Talvez ela ainda
estivesse lá, em algum lugar naquele local arruinado e ardente.
Outro grito veio logo adiante, onde uma torre tinha caído em cima do dormitório
norte. Karn marcou a tempestade temporal que rodopiava no espaço entre ele e o local, e
saiu em sua direção.
Talvez ela esteja ali.

*****

Era quase meia-noite quando o navio deslizou lentamente das docas para o oceano
escuro. Seus mastros haviam sido queimados junto com as velas. Cerca de três pés acima
da linha da água, a proa ostentava um buraco do tamanho de um homem, onde um pedaço
de ferro flamejante havia atravessado. O barco estava lentamente se enchendo de água,
mas Karn e alguns dos sobreviventes estavam suficientemente saudáveis para lidar com
as bombas manuais.
O restante – apenas trinta e três no total – reunidos no convés chamuscado,
observavam com medo enquanto a ilha incinerada se afastava silenciosamente atrás
deles. Chamas ardiam por toda a ilha, luzes estranhas dançavam nas sombras que se
formavam nas nuvens acima. As ondas aumentavam seus ataques contra as costas
rochosas e um gemido infernal dos ventos torturados fazia o local parecer assombrado
pelos fantasmas dos mortos. A lua tremeluzente, quase naufragando nas ondas famintas,
observava todo o cenário, com uma acusação direta.
Trinta e três sobreviventes, refletiu Karn, enquanto ele bombeava. A luz da ilha
ardente desvaneceu-se atrás deles, e somente a escuridão fria e túrgida à frente, o céu e o

76
mar indistinguíveis e ameaçadores. Trinta e três sobreviventes, e Jhoira não estava entre
eles. Como uma invasão phyrexiana poderia ter sido pior do que isso?
“Foi uma péssima troca,” disse Karn a si mesmo, “terrível e imperdoável”.

Monólogo

Urza disse que fez isso para me salvar. Ele disse que deixou a máquina do

tempo explodir para salvar a mim e alguns outros… e manter seus preciosos

artefatos longe das garras phyrexianas. Em outro continuum temporal , ele

narra , eu havia sido morto por neutralizadores phyrexianos e a escola havia

sido devastada . Urza mudou aquele fluxo temporal para que nós pudéssemos

terminar desse jeito, assim ele diz.

Ele não está completamente louco. Agora eu sei disso. Ele pode estar

mentindo – uma terrível possibilidade , mas por que motivo obscuro Urza

mentiria para mim? Ele pode estar dizendo a verdade – o que é mais

assustador. Mas ele não está completamente insano.

Tolária se foi , assim como Argoth . E por quê? Para me salvar? Claro que

não. Eu fui salvo de Tolária assim como Tawnos foi salvo de Argoth , como um

pensamento secundário.

Tolária se foi porque se Urza não pudesse tê-la , ninguém mais poderia .

Urza ainda é Urza . Eu duvido que ele vá voltar para a ilha que ele destruiu,

retornar para reconstruí-la , para se declarar pai dos acadêmicos que ele deixou

órfãos. Eu duvido.

Louco ou são, ele não aprende com seus erros.

– Barrin , mago mestre de Tolária

77
Parte II
TEMPO DE RETORNO

Capítulo 07

Karn estava na proa de um navio muito diferente – grande, dourado e suntuoso –


quando ele se aproximou de Tolária. A ilha era apenas um monte escuro acima do mar
agitado. Céu e água cintilavam com a vida e a luz do dia, mas aquele pedaço de terra no
horizonte estava tão morto e sem brilho quanto uma mancha seca de sangue. Karn
estremeceu. Ele se lembrou daquela terrível noite entre as chamas violentas, paredes
derrubadas e fissuras temporais.
Os arranhões que ele tinha sofrido naquela noite já haviam sido todos polidos.
Outras melhorias foram implementadas nos dez anos que se passaram desde a destruição
de Tolária. O mestre Malzra havia substituído completamente o mecanismo manual que
tinha sido reparado por Jhoira. Ele também redesenhou a trava e o dispositivo que
segurava o crânio de Karn, para que inimigos não aprendessem o truque tão facilmente
como Kerrick ou o neutralizador no quarto de Jhoira. Ao seu modo, Malzra reestruturou
a disposição dos conduítes de energia, deixando seus reflexos mais rápidos.
Aparentemente, Karn era uma nova criatura.
Interiormente ele se sentia muito velho. Seu córtex intelectual e afetivo – a matriz
de poder escura – permanecia, e com ele lembranças de seus primeiros amigos. Ele
pensava muitas vezes em Teferi, o mago jovem e brilhante. Ele pensava ainda mais em
Jhoira, a melhor e mais brilhante artífice de Malzra e sua única amiga. Todas as manhãs,
após aquela noite sem esperança, Karn se lembrava de sua amiga e lamentava por ela.
“O que você está pensando?” veio uma voz gentil no ombro do homem de prata.
Era Barrin. Ele apertou os olhos contra o mar e o céu brilhantes, fios de prata cintilavam
em seus cabelos. Seus olhos refletiam a paisagem escura de Tolária. “Você esteve aqui a
manhã toda.”
Karn se virou para encarar a ilha que se aproximava. “Eu estava pensando em
alguns amigos perdidos.”
A voz de Barrin amoleceu. “É um retorno difícil para todos nós. Mesmo após todo
esse tempo.”

78
“É um lugar de fantasmas,” observou Karn. Ele podia sentir a intensidade dos
olhos de Barrin focados em seu rosto, mas não olhou para ele.
“Você nunca deixa de me impressionar, Karn,” disse o mago mestre
incredulamente, “uma máquina que vê fantasmas.”
“Você não se lembra dos estudantes perdidos, dos amigos perdidos?” perguntou
Karn.
Barrin respirou fundo. “Ah sim, eu me lembro deles, e eu ficarei triste em voltar
ao lugar onde eles pereceram. Mas eu já guardei o meu luto. Já se passaram dez anos. Há
novas flores crescendo entre seus fantasmas.”
“Ainda sofro pelos meus amigos”, respondeu Karn. “E é tão brutal como no
primeiro dia.”
“Talvez seja algo relacionado à carne. O luto é cura. Você não pode ser curado.
Você não pode verdadeiramente guardar o luto. Você apenas sofrerá eternamente,”
pensou Barrin, em voz alta. “Nós temos que inventar algo para te afastar do sofrimento
eterno.”
Finalmente Karn virou-se para o homem. Além de Barrin, ele viu o navio dourado,
tripulado por um novo contingente de estudantes e acadêmicos. Trilhos pintados de ouro
reluziam no oceano brilhante, e velas brancas miravam ansiosamente na direção da ilha.
Ao leme estava o próprio Malzra, ancião e jovem ao mesmo tempo. O nome do navio já
contava a história – Nova Tolária – e pelos próximos oito anos, seria laboratório, sala de
aula e dormitório para todos eles, e ferramenta para todos os objetivos de Malzra.
Era da genialidade humana o hábito de descartar o velho e abraçar o novo, mas a
carne era maleável, a prata não.
“Como posso esquecer essa dor e ainda ser eu?”

*****

Jhoira estava em pé, na beira de seu mundo . Atrás dela estava Tolária, desolada
pela explosão da máquina do tempo do mestre Malzra. Diante dela estava o mar infinito.
Ela estava presa entre os dois. Seu local de encontro secreto havia se tornado sua casa.
Era um lugar pequeno, mas seco e limpo, decorado com móveis, livros e utensílios
retirados da academia.

79
A maior parte da velha escola estava em ruínas. As paredes que permaneciam
estavam quase cedendo. As paredes que haviam caído eram moledros para os mortos.
Muitos dos vivos haviam sido enterrados neles também.
A própria Jhoira teve que cavar por três dias para escapar da passagem secreta
onde ela estivera quando o inferno começou. Ela passou os outros dias desenterrando
alguns outros que foram enterrados vivos. Ela e outros oito – todos jovens estudantes,
resilientes, astutos e ágeis – se retiraram do lugar com cheiro de morte para o local
secreto de Jhoira. Eles, evidentemente, fizeram incursões de volta às ruínas para enterrar
os mortos, recuperar equipamentos e suprimentos. Essas incursões estavam longe de
serem seguras. Na primeira, o grupo perdeu quatro de seus membros, que pisaram na
extremidade das fendas temporais e foram despedaçados. Jhoira e os quatro
remanescentes aprenderam a desviar de tais fendas.
Algumas zonas eram escuras e secas, e sua flora havia murchado. Estas eram as
áreas de tempo acelerado, onde uma semana podia passar em um dia. Esses lugares
recebiam, talvez, um dia de luz solar e água da chuva, e em uma semana se tornavam
desertos congelantes. Nas zonas mais escuras e mais secas, quanto mais rápido fosse a
passagem do tempo, mais extrema era a diferença entre elas e o fluxo temporal do resto
da ilha. Outras zonas eram pântanos úmidos e brilhantes. Essas eram as áreas de tempo
lento, onde um dia demorava cerca de uma semana para passar. Em tais áreas, o sol era
intensamente brilhante, movendo-se visivelmente no céu, e a chuva caía fina e
constantemente. A maioria das áreas de tempo lento não tinha tempo para se ajustar às
novas condições climáticas, encharcando suas árvores e transbordando suas margens. Em
algumas outras, o tempo era tão lento que os fogos da explosão original ainda
queimavam como véus alaranjados.
Extraordinárias mudanças de tempo se revelaram intransponíveis para Jhoira e
seus companheiros. Cruzar essas margens fazia o sangue ferver e deixava a pele
enrugada, fazendo com que alguns membros necrosassem e se tornassem gangrenados,
enquanto outros inchavam até estourar os tecidos intersticiais. Esses foram os destinos
dos primeiros quatro que morreram. Os sobreviventes foram cuidadosos em mapear e
desviar das violentas fendas temporais. Eles se aventuraram com apreensão nas mais
moderadas fissuras temporais e perceberam que era difícil entrar e sair delas. Mudanças
na inércia transformavam a caminhada em uma área de tempo lento tão pesada quanto

80
cimento endurecido. Mudar do tempo lento para o tempo rápido resultava,
frequentemente, em tonturas e, às vezes, perda de consciência.
Ainda assim, o último sobrevivente da escola veio de uma fenda de tempo
extremamente rápido, que inexplicavelmente havia se fundido com uma de tempo lento
logo abaixo dela. Da zona de tempo normal emergiu um velho homem chamado Darrob.
Ele era apenas uma criança de doze anos durante a explosão, mas cinco anos depois, ele
era um louco de cabelos grisalhos.
Havia apenas um verdadeiro benefício que Jhoira e seus companheiros
descobriram nessas fendas temporais mutáveis: água. A água resistia à mudança
temporal, mantendo a sua velocidade antes de, gradualmente, iniciar um novo ritmo. A
água que fluía de uma certa zona de tempo lento mantinha suas qualidades, retardando e
até mesmo interrompendo o envelhecimento de quem bebia aquela solução grossa. Jhoira
não entendia como funcionava, mas ela sabia que funcionava, pelo menos em curto
prazo. Foi bebendo essa água das zonas de tempo lento que ela manteve a sua aparência
jovem, de vinte e dois anos.
Apesar dessa bebida rejuvenescedora, a morte assombrava os sobreviventes de
Tolária. No sexto ano, seus números foram reduzidos de seis para cinco. Enquanto
caçava cobras, um garoto de quinze anos caiu do penhasco, quebrou o pescoço e foi
arrastado para o mar, enquanto os outros nadavam impotentes atrás dele. Dois anos mais
tarde, um casal de namorados fez um pacto de suicídio, restando apenas Jhoira, o velho
Darrob e outra jovem mulher. Esta última morreu logo depois, por alguma doença
misteriosa. Suas cinzas nutriram as rosas que ela plantou, podou e cuidou com tanta
paciência durante anos. Dois anos após a sua morte, as rosas haviam crescido e se
espalhado pelos pedregulhos, em um grande cobertor perfumado.
O velho Darrob também estava morto. Três meses atrás, ele sucumbira ao aperto
que sobreveio em seu peito. Jhoira o enterrara ao lado da laje de granito onde Darrob
adorava ficar deitado, como um grande lagarto prateado tomando sol. Seus anos nas
escuras profundezas do tempo rápido haviam o ensinado a amar o sol. Ele tinha sido o
último companheiro de Jhoira e, embora louco, sua última ligação com a realidade.
Desde o dia de sua morte, Jhoira sentia sua própria alma se expandir selvagemente, como
a rosa espinhosa.
Ela estava sozinha agora, sim, mas ela sempre foi sozinha. Os nove que haviam
vivido com ela haviam sido seus companheiros, não eram seus amigos, nem seus

81
confidentes. O único amigo verdadeiro que ela havia tido era Karn, e ele nem era
humano. Jhoira, muitas vezes, se perguntava o que havia de errado com ela. Talvez ela
tivesse sido retirada de seu povo muito jovem. Entre os Ghitu, uma garota não era uma
mulher até que ela tivesse ido em uma busca visionária. Jhoira nunca havia ido. Ela tinha
vinte e oito anos cronológicos e aparentava vinte e dois, mas sua alma ainda tinha a
inocência e a fragilidade de uma criança. Aquela criança tinha dado um salto
desesperado rumo à vida adulta, havia aberto o segredo do seu coração a um homem,
acreditando que o amor não podia ser enganado. Ele podia. Ele sempre podia. O homem
provou ser um monstro. Agora, para sempre, Jhoira estaria sozinha. Era um modo
miserável de viver, mas, ainda assim, um modo de se viver.
A ilha se tornara sua. Em algum ponto das quarenta loucas estações desde a
explosão, seu desejo feroz de escapar da terra abandonada, se tornara um desejo feroz de
protegê-la de invasores. Inicialmente, ela se referia a essa nova mania como a doença de
Malzra – um medo de invasores, destruidores. Agora ela estava além da iluminação e
autoconsciência dos jogos de palavras. Agora ela era a protetora da ilha, seu espírito
guardião. Ela era a fantasma da costa oeste, eternamente projetando e construindo os
mecanismos que ela usaria para defender o território.
E agora, com uma intenção inconfundível, um veleiro de barriga branca deslizava
através das ondas, em direção aos portos orientais da ilha. Jhoira não tinha esquecido seu
sonho de vislumbrar sua alma gêmea em um navio daqueles, mas essas eram as fantasias
de uma criança. O amor podia, iria e sempre seria enganado.
Jhoira observou o navio mais um momento, antes de se retirar para o seu canto,
em busca de seu arco e uma aljava de flechas para interceptar o grupo que desembarcava.
Com toda a ilha entra ela e as docas, e centenas de fendas cortando do centro, Jhoira não
chegaria até a praia. Mas isso não importava, pois as defesas naturais da ilha eram
suficientemente formidáveis.

*****

Barrin inalou o cheiro salgado da baía oriental, lembrando o cheiro de relva e das
palmeiras. Ele não sentiu nada de morte ou de destruição e ficou contente. Talvez o

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tempo houvesse curado todas as feridas. Talvez Tolária houvesse perdoado – ou, pelo
menos, esquecido – seu destruidor.
Barrin olhou para Urza, que comandava o navio dourado Nova Tolária. Havia se
tornado sua oficina flutuante, móvel e elusiva, além do alcance de qualquer governo. A
partir do momento em que ele remodelara e renomeara a embarcação e ela flutuara para
fora da doca seca, Urza havia sido seu mestre inquestionável. Capitão Malzra, os
estudantes o chamavam assim, e ele se provara um hábil timoneiro. Em algum lugar dos
seus três milênios e meio, o homem havia aprendido a navegar. Melhor ainda, o talento
de Urza para ensinar sobre navegação se igualava ao seu talento para ensinar artifícios.
Ele não ensinou muito, mas demonstrou e inspirou. Os jovens acadêmicos só precisavam
assistir o mestre içar a principal ou escalar as enfrechates para que todos eles quisessem
fazer tão bem quanto ele.
Naturalmente, ser um imortal funcional com um corpo de pura energia pode fazer
até mesmo o mais antigo planinauta uma maravilha em feitos de força, agilidade e
velocidade.
À medida que a Nova Tolária circundava o cais de pedra na baía, Urza manobrou
o timão, e sua jovem equipe trabalhou em seus postos com uma facilidade que permitiu
que eles observassem a terra adiante. Barrin, também, estudou sua antiga casa.
As docas orientais permaneceram em grande parte intactas, porém as estacas
estavam estragadas pela falta de cuidados, e ervas daninhas espinhosas dominavam as
pranchas podres. Dois barcos da antiga Tolária estavam semissubmersos no cais, suas
partes superiores com marcas de incêndio, e suas partes inferiores pareciam feitas de
pedra em vez de madeira encharcada. À medida que as ondas rolavam sobre eles, longas
e constantes, eles balançavam indolentemente nas bacias que haviam sido cavadas por
eles mesmos.
Na margem oposta da baía, jazia um sinistro lamaçal de água escura, sua
superfície parecia ferver: uma fenda temporal, deduziu Barrin. Urza havia descrito tal
fenômeno após retornar de suas excursões transplanares. Ele havia falado profundamente
sobre a física das fissuras, mas não sabia responder nenhuma das questões importantes,
como: o que aconteceria se carne mortal encontrasse uma delas? A única resposta de
Urza para tais questionamentos era: “Nós temos que descobrir quando carne mortal
encontrar uma delas.” Barrin se assegurou de ensinar aos jovens estudantes como
reconhecer anomalias temporais e advertiu sobre os possíveis perigos ao redor delas. Ele

83
tinha inclusive criado modelos ilusórios e simulações mágicas para preparar os
exploradores, mas tudo o que ele podia fazer era supor. Os experimentos com carne
mortal ainda estavam por vir.
Urza se afastou da fenda temporal e dos outros perigos na baía e trouxe Nova
Tolária suavemente para a entrada das águas profundas. Ele bradou ordens, e uma a uma,
as últimas poucas velas foram recolhidas. Libertado do vento, o navio se aproximou dos
montes vítreos de água diante dele e foi parando aos poucos. Urza inclinou-se no leme, e
os estudantes se aglomeraram ansiosos, cada um deles querendo ser o primeiro a pular
para o cais e amarrar o navio. Duas jovens, com força e ousadia, foram as primeiras a
saltar, logo depois seguidas de três jovens. Seus companheiros sorridentes lançavam-lhes
espessas bobinas de linha, que rapidamente foram engatadas nas pilhas. O grande navio
embalou novamente, ante o último movimento preguiçoso da proa e depois instalou-se
em suas amarrações.
Mais estudantes subiram para a doca e receberam a prancha de içamento. Ela foi
posicionada enquanto os cinco alferes e seus grupos exploradores se formavam nas
docas. Os alferes eram os estudantes mais antigos – na metade dos seus vinte anos – que
haviam vindo da escola em Tolária, e seus grupos eram formados por adolescentes que
haviam se voluntariado, conhecendo os perigos que enfrentariam. Esses grupos
desembarcaram com os passos ávidos dos conquistadores. Os mantos brancos da antiga
academia haviam sido substituídos por mantos e capas de lona resistentes, calças de
couro e sapatos de ferro. Em poucos momentos, os exploradores saíram do cais e
reuniram seus grupos, recebendo ordens. Então, partiram para o norte, sul, oeste e para
as regiões adjacentes.
Barrin assistia a tudo, apreensão formando nós nos músculos de seu pescoço. Se
era a ilha de Urza e ele se sentia tão seguro estando lá, porque crianças foram enviadas
para explorá-la? O toque da mão de Urza em suas costas fez os nós redobrarem.
“Estamos em casa novamente, Barrin,” disse Urza, com profunda satisfação em
sua voz.
“Nós estamos à porta, batendo,” respondeu Barrin. “Nós ainda não entramos.”
Urza observou seu amigo e sócio de longa data. “Depois de todos os seus sermões
sobre assumir meus próprios erros, retornar para corrigir as falhas que eu cometi, como
você pode me criticar hoje?”

84
“Eles são apenas crianças, Urza-” começou Barrin.
“Eles são adultos, foram bem treinados. Eles sabem o que esperar. Eles sabem o
que estão arriscando,” Urza respondeu equilibradamente.
“Eles são apenas crianças. Não são adultos, não são sondas e nem máquinas,”
finalizou Barrin.
“Se algo der errado, estou ligado a eles e posso alcançá-los no mesmo momento.”
Urza parou, parecendo ouvir uma voz falar com ele, vindo do céu azul. “Na verdade, o
primeiro grupo de exploradores está nos chamando. Eles descobriram uma fenda
temporal.” Ele pegou a mão de Barrin, simplesmente dizendo, “Vamos.”
Barrin sentiu o mundo se dobrar ao redor dele e de Urza. Eles estavam
transplanando.
Após complicações com o truque de Urza em transformar mortais em pedra para
transplanar (quatro deles haviam rachado durante a viagem e sangraram massivamente
quando retornaram à forma de carne), ele desenvolveu mágicas melhores para manter a
carne mortal viva durante uma transplanação. O encantamento atual reduzia Barrin de
uma forma tridimensional para uma forma bidimensional. Nesta forma compactada, ele
estava protegido das provações do vácuo súbito, calor vulcânico e zero absoluto
experimentadas enquanto transplanavam. Os pulmões de Barrin não explodiriam porque
eles não eram nada além de simples rolo de papel. Urza o segurou ao seu lado,
segurando-o e levando-o para onde o mundo se abriria novamente.
Quando se abriu, os dois sábios pararam subitamente em uma porção de terra.
Diante deles, a terra mergulhava em uma valeta gramínea. Lá, três estudantes estavam
parados, olhando, com assombro, para uma ravina afiada. O ar na ravina parecia sombrio
e túrgido, pequenas manchas de pó pegando e espalhando os raios de sol. Além do sulco
profundo, havia uma floresta antiga, mas dentro dela, o solo tinha apenas plantas
pequenas, com flores roxas. Pequenas rochas brancas alinhavam-se à base do vale. Ao
lado do barranco estava a alferes do grupo, uma mulher loira e forte. Eles falavam entre
si com tons abafados e gesticulavam para a fenda boquiaberta, que emitia um som, como
um gigante respirando.
“Vamos ver o que eles encontraram,” sugeriu Urza.
Ele soltou a mão de Barrin e começou a descer a encosta. A cada passo, sopros de
poeira se erguiam de seus pés, como se ele andasse algumas polegadas acima do chão.

85
Esse era o jeito que ele preferia caminhar, refletiu Barrin enquanto o seguia. Os
dois acadêmicos passaram o grupo dos estudantes sussurrantes, que se assustaram,
esquecendo o tema de sua conversa, e recuaram em silêncio observador. Urza e Barrin
continuaram até que eles pararam logo atrás da alferes agachada e seu companheiro.
“Você me chamou?” Urza iniciou.
A alferes se levantou e respondeu, “Sim, capitão.”
“O que você encontrou, alferes Dreva?”
“Uma fenda temporal, capitão, assim como o mestre Barrin havia indicado em
seus relatos.” Os olhos de Dreva estavam um pouco mais abertos do que o normal, e ela
encarava o espaço vazio. “Uma fenda de tempo acelerado, eu sugiro, a julgar pela
aparente escuridão e pela falta de água. Nós realizamos algumas experiências. Eu posso
repeti-las. Rehad?”
Ela sinalizou para o jovem ao seu lado, gesticulando algo, e recebeu um longo e
frondoso ramo que ele havia encontrado na floresta próxima. Apesar de seu
comportamento formal, a afeição entre a alferes e o estudante era óbvia, visível na
maneira que o ramo foi repassado entre as mãos.
A alferes Dreva voltou sua atenção novamente para o capitão. “Observe a
folhagem no final deste galho.”
Ela ergueu o galho e balançou lentamente no ar acima da ravina. Algo invisível
pareceu se apoderar da extremidade suspensa, fazendo-a balançar e tremer, e a alferes
afundou seus pés, segurou o galho com força, para impedir que ele fosse arrancado de
suas mãos. As folhas cresceram rapidamente e se curvaram. No próximo instante, elas
caíram do galho para o chão da ravina, onde descansaram até virar poeira. Enquanto isso,
o ramo sem folhas, retorceu, perdeu sua casca, sua madeira rachou e escureceu, e todo o
galho se transformou em algo semelhante a uma garra de bruxa da floresta. A alferes
retirou o galho seco e jogou ao lado de dois outros, transformados de forma parecida.
O sorriso de Urza, pequeno e desacostumado, mostrou seu deleite a esses
resultados. “Excelente trabalho. Usar um galho vivo para sondar a fenda foi uma
inovação perspicaz.”
A alferes corou. “Obrigada, capitão Malzra.”
“Há alguns que duvidaram se você estaria apta a tal tarefa-” Urza virou seu sorriso
misterioso para Barrin “-mas eu estava confiante.”

86
“Obrigada novamente, capitão,” Dreva respondeu. “Eu sugiro que continuemos
sondando as bordas desta fenda temporal e posicionemos marcadores. Embora
provavelmente a explosão que criou a ravina também tenha criado a anomalia temporal,
nós não podemos assumir que o limite de um será a exata fronteira do outro.”
“Bem pensado, alferes,” disse Urza. “Continue. Reporte se você descobrir
qualquer outra coisa digna de nota.” Ele se virou, sinalizando a Barrin para a privacidade
de uma colina próxima, enquanto a alferes enviava Rehad e os outros estudantes para a
floresta, em busca de mais ramos. “Parece-me que essas crianças de que você fala estão
indo muito bem.”
Barrin encarou a grama emaranhada a seus pés. “Os perigos aqui foram causados
pelos meus e pelos seus atos, não por eles.”
“Se eles forem viver aqui conosco, construir e estudar aqui, eles devem herdar
todos os males do passado,” Urza replicou. “É responsabilidade de toda nova geração
entender o que veio antes, para então decidirem o que manter e o que descartar.”
O debate filosófico foi interrompido por um grito de aviso vindo da beirada da
floresta. Barrin e Urza se viraram. A alferes Dreva estava à beira da floresta, segurando
algo em seu braço e chamando urgentemente seus colegas com o outro. Os estudantes
jogaram fora os galhos que haviam arrancado e correram. Urza e Barrin também
correram.
Dreva puxava selvagemente um galho de árvore. Outros estudantes, dois rapazes e
uma mulher, chegaram a ela e acrescentaram suas forças àquela tarefa. Algumas ordens
gritadas e posições estabelecidas deram lugar a gemidos dos estudantes se esforçando
para puxar o galho.
Barrin correu na direção deles, imaginando o que poderia ser tão urgente sobre
puxar um galho de árvore, então ele viu.
Não era nenhum galho que estavam puxando, era Rehad, que estava dentro da
fenda da floresta. Uma mão estava sobre um grande tronco, exatamente ao lado de um
galho que ele pretendia cortar. Ele estava preso em uma fenda de tempo lento, um braço
estava do lado fora, e seus companheiros estavam fazendo tudo o que podiam para puxá-
lo de lá.
“Esperem!” ordenou Barrin. Ele se esforçou para formar um feitiço, mas já era
tarde.

87
O braço de Rehad, sem sangue, por estar num tempo descontínuo com o seu
coração, não conseguiu suportar a força dos puxões da alferes e dos outros três. Ele se
deslocou. Os tecidos que estavam presos na borda lacerante do fluxo temporal rasgaram
e cederam. O braço caiu durante o puxão. Nervos e músculos escorreram lentamente do
ombro destruído. A alferes Dreva e os alunos caíram em um monte de grama, o braço
decepado entre eles.
Barrin e Urza pararam imediatamente diante da fenda temporal.
O rosto de Rehad estava se retorcendo lentamente, assim que o choque inicial da
lesão ia se transformando em agonia dilacerante. Urza levantou uma de suas mãos e a
empurrou para dentro da fenda de tempo lento. Seus dedos tremeram assim que
afundavam no ar quente e espesso. Se ele tivesse sangue em seu corpo, seus dedos
poderiam ter ficados presos, como Rehad, mas o mestre habitava um corpo de energia
concentrada. Mesmo assim, a diferença de tempo se opunha a ele, na forma de fendas de
energia em espirais circulares na superfície da distorção. Com o esforço de sua vontade,
ele manteve o movimento de sua mão e lentamente agarrou o ombro ensanguentado.
Durante todo esse tempo, Rehad estava se contorcendo, olhos arregalados e boca
aberta em um grito. Ele recuou instintivamente da mão aberta de Urza, mas o mestre
antecipou o seu movimento. Ele apertou a articulação com força, estancando o fluxo
sanguíneo mortal, então com austeridade, lentamente atraiu o jovem para a sua direção.
Atrás de Urza, a alferes Dreva e os estudantes haviam se levantado. O braço
cortado estava no chão, aos seus pés. O sangue de Rehad havia manchado suas calças de
couro e suas capas de lona. Dois dos alunos estavam chorando e o terceiro boquiaberto
em terrível descrença. Dreva estava em silêncio, os olhos secos, rosto pálido. Ela
balançava sua cabeça em arrependimento.
Barrin se moveu para confortá-la.
Ela se afastou, agarrou o braço caído e empurrou para cima, ao lado de Urza.
“Coloque de volta, capitão. Você tem que colocá-lo de volta,” ela implorou,
empurrando o membro para ele.
Apertando os dentes, Urza gentilmente a empurrou de lado. Ele estava
controlando Rehad, gradativamente, para que o homem voltasse com o cérebro e o
coração alinhados nos mesmos batimentos, para que ele conseguisse escapar da
armadilha temporal.

88
Dreva cambaleou para trás. Ela piscou para a coisa ensanguentada em suas mãos e
beijou tenramente o dorso da mão. De seus lábios saíram apenas as seguintes palavras:
“Me perdoe, Rehad.” Ela deitou o braço a seus pés e, repentinamente, como um cervo em
pânico, saiu correndo.
“Alferes Dreva!” Barrin gritou, vendo para onde ela se dirigia. “Volte!”
Ela já não o ouvia, já se aproximando da beirada de uma ravina de tempo
acelerado. Então houve um esguicho de energia assim que ela mergulhou na fenda
temporal. Anéis de fluxo temporal giraram no ar, ao seu redor. Ondas a afundavam no
chão e a jogavam para o ar. Nesse movimento, o corpo de Dreva foi murchando. A carne
ficou enrugada e secou. Depois se tornou um músculo atrofiado e os ossos ficaram
expostos. Logo ela caiu subitamente e se perdeu de vista, além da beirada da ravina.
Barrin correu atrás dela, descendo a beirada da fenda de tempo acelerado. Então
ele cambaleou, parou e ficou boquiaberto.
Ela já estava morta, sua pele estava seca e cheia de vermes.
Barrin afastou-se, enjoado. Quando ele finalmente controlou seu intestino, não
havia mais nada da alferes Dreva além dos restos de lona, couro e um esqueleto
embranquecido.

*****

Sentaram-se a bordo da Nova Tolária naquela noite. Urza havia planejado um


banquete para celebrar a recuperação da ilha. Costelas de porco cozidas no vapor,
grandes pães brancos e várias laranjas frescas.
O clima era qualquer coisa menos festivo. O dia tinha sido um fracasso punitivo.
Rehad estava abaixo do convés, cheio de bandagens e dormindo um sono
entorpecido. Recolocar seu braço era algo que estava além da habilidade dos melhores
curandeiros da tripulação e além do poder até mesmo do planinauta Urza. Ele estava
guardado em uma caixa de madeira, dentro um bolsão de tempo extremamente lento, na
esperança vã de que ele poderia ser recolocado no futuro. Enquanto isso, a líder de
Rehad, sua amante, repousava em um bolsão de tempo extremamente rápido, seu
esqueleto talvez estivesse espalhado pelos minúsculos carniceiros da ravina.

89
Esses dois não foram as únicas vítimas. Um grupo foi aniquilado e cada grupo de
exploradores perdeu, pelo menos, um membro. Urza realizou outros dois resgates como o
de Rehad, e Karn o ajudou retirando uma jovem mulher de um loop. Os únicos membros
não-orgânicos da tripulação fizeram o melhor que puderam para resistir às distorções
temporais, apesar de seus corpos estarem muito comprometidos por essas operações.
A tripulação não jantou na Antiga Tolária, como Urza havia planejado, mas em
Nova Tolária. Eles comeram praticamente em silêncio. As águas da baía lambiam, negras
e sedentas, a lateral do grande navio, e além do feixe das lanternas, a ilha e o céu
estavam negros com o anoitecer.
Da escuridão veio uma mulher. Ela era bronzeada, com olhos penetrantes e
misteriosos. Uma tira selvagem amarrava seus cabelos escuros em suas costas. Vestida
em roupas esfarrapadas, porém suntuosas, ela parecia um avatar da própria ilha –
desconhecida, furiosa e ameaçadora. Ela subiu a prancha e caminhou pelo convés,
empurrando os guardas atordoados.
Urza se levantou.
Barrin se levantou, boquiaberto com o reconhecimento.
Foi Karn, o homem de prata, que primeiro pronunciou seu nome, em uma voz
semelhante a uma cachoeira repleta de água – Jhoira!
“Mestre Barrin, mestre Malzra,” disse a mulher em uma saudação que combinava
temor e animosidade, “Eu pensei que vocês nunca retornariam. Eu preferia que vocês não
tivessem voltado. Depois de hoje, provavelmente vocês também preferirão não ter
voltado.”

Monólogo

Eu estava muito feliz por ver Jhoira . Sua morte tinha pesado muito em

mim e em Karn . Ela mudou muito, claro, músculos enrijecidos e expressão

endurecida . Os impulsos de admiração e perdão haviam sumido dela . Ela não

era mais uma estudante da academia , ela se tornara uma nativa da ilha .

90
Como advogada nativa da ilha , Jhoira falava fortemente em sua defesa .

Lá , diante do novo grupo de estudantes de Urza , ela expôs todos os pecados do

passado, plantados como ervas daninhas e crescidos na forma de grandes

florestas assassinas por toda a ilha .

Ela falou sobre os outros sobreviventes que haviam, um a um, perecido,

deixando-a sozinha .

Ainda mais fervorosamente , ela disse como a vida aqui havia continuado.

Florestas de tempo rápido haviam morrido e desaparecido, dando lugar a novas

plantas e novos animais, a uma tundra árida com o seu próprio ecossistema de

presas e predadores. Florestas de tempo lento haviam se tornado pântanos

alagados, quentes e úmidos – refúgio para centenas de criaturas que não teriam

sobrevivido na ilha antes. Em todos esses detalhes, eu percebi como os anos a

haviam mudado também.

“Nós somos, mestre Malzra-” ela disse ao final - “nós somos os seus filhos

da fúria , órfãos que cresceram com a sua ausência , porém não pertencemos mais

a você . Muitos de nós te odiamos, mestre Malzra .”

Ele ouviu tudo o que ela disse . Eu lhe dou crédito por isso. E então, após o

infeliz silêncio que se seguiu, Urza falou, e o que ele disse me encheu ainda

mais de admiração.

“Eu te entendo, mas eu me comprometi a retornar, e eu não quero brigar

com você , minha filha da fúria . Eu quero me reconciliar. Será um caminho

espinhoso, eu sei , cheio das ervas daninhas que eu mesmo plantei . Mas eu me

comprometi a retornar.”

“Você precisará de um conselheiro”, eu disse , “um guia . Jhoira , eu não

consigo pensar em ninguém melhor do que você para ajudar o mestre Malzra a

compreender os erros do passado e evitá-los no futuro.”

91
Houve um momento final , de ansiedade , e então algo nela se quebrou. O

brilho louco de provocação ruiu, e eu vi debaixo dele uma mulher solitária ,

receosa , mas precisando estar entre outros.

“Apenas porque , caso eu recusasse , cada um de vocês morreria .”

Eu tentei parecer severamente punido, mas eu estava exultante . Urza

também estava satisfeito. Os temerosos acadêmicos e estudantes estavam

aliviados. Alguém – mesmo essa mulher selvagem e assustadora – os guiaria

pelos terrores da antiga Tolária .

- Barrin , mago mestre de Tolária

92
Capítulo 08

Quando a maioria da tripulação acordou na manhã seguinte, Jhoira já estava no


convés. Ela tinha se afastado para conversar com Karn. Embora feroz e temível perto de
outros seres humanos, Jhoira ria e conversava facilmente com o golem. Eles formavam
um par surpreendente – a mulher selvagem e o homem prateado. O corpo dela era tão
suave e marrom quanto os ressaltos de arenito ao redor da baía, e o dele era tão brilhante
e reflexivo quanto o mar que tinham atravessado.
Karn contou a ela sobre todos os estudantes e acadêmicos que ele havia resgatado,
e como ele havia procurado até tarde da noite por ela, o que fez com que o navio de
refugiados partisse apenas quando a Lua Tremeluzente havia afundado no mar. Jhoira
contou suas próprias histórias de resgate e perda. Tudo isso se passou sem os longos e
desajeitados silêncios da noite anterior, como se nenhum momento tivesse passado entre
esses amigos há muito separados. Caminharam ao longo da costa e recordaram juntos,
pulando pedras nas ondas agitadas, até o convés estar lotado com a tripulação, e o cheiro
de chá recém-feito os trazer de volta a bordo.
Jhoira bebeu ansiosamente, queimando seu lábio com o material do copo. Ela
sorriu para Karn e disse, “Há certas desvantagens de ser uma ‘mulher selvagem’ e entre
elas está a renúncia ao verdadeiro chá em uma xícara de porcelana.”
A tripulação quebrou seu jejum com uma segunda refeição, sendo que aqueles que
estavam indo à praia sabiam que a refeição teria que durar até eles montarem
acampamento no centro da ilha. Jhoira previu que, com uma caravana de cinquenta,
levaria o dia todo para passar pelas fendas temporais mais difíceis e pelas mais suaves.
O tom de tristeza de Jhoira voltou ao descrever para a tripulação as distorções
temporais da ilha. Elas se assemelhavam à topografia física após a explosão. No ponto de
detonação havia uma larga bacia temporal como uma cratera detonada, onde a explosão
uniformemente havia arrancado o fluxo natural do tempo. Perto das bordas desta cratera
de tempo lento estava uma série de correntes concêntricas de tempo, firmemente
recheadas com zonas de tempo rápido. O centro estaria inacessível, exceto pelas estradas
que se irradiavam como raios a partir dele e uniam a parte exterior da ilha com a interior.
Muitas dessas vias eram brechas profundas de tempo lento, embora outras permitissem a
descida gradual na cratera. Outras ainda tinham se misturado com conchas de tempo

93
rápido próximas para fazer pontes de tempo normal. Além desses anéis concêntricos de
tempo rápido, havia regiões grandes e irregulares de mudanças extremas de tempo,
muitas milhas quadradas contíguas de território inacessível por aqueles platôs de tempo
fora da curva e cânions profundos de tempo. Nessas áreas, novos ecossistemas tinham
evoluído e novas culturas evoluíram com eles.
Tendo apenas as roupas nas costas e um bastão para longas caminhadas, Jhoira
liderou um cortejo carregado de estudantes e acadêmicos pelos sinuosos caminhos da
floresta entre os cânions temporais e os planaltos.
Urza seguia logo atrás dela. Ele carregava uma grande caixa de madeira com
entalhes ornamentados em latão e marfim. Parecia terrivelmente pesado, mas seus passos
eram sem peso, e suas perguntas vinham facilmente, apesar dos outros estarem ofegantes.
Talvez ele tivesse lançado um encantamento que deixasse seus pés deslizarem entre os
arbustos, ou talvez máquinas microscópicas fizessem a caminhada por ele.
Barrin vinha em seguida, carregando a barraca dobrada que acomodava Urza e o
próprio Barrin, além de tachos e uma variedade de pacotes balançantes.
Atrás dele, Karn carregava o fardo de dez homens. Ao longo da linha, outros
autômatos menores caminhavam sob embalagens pesadas. O resto da companhia
consistia em velhos acadêmicos e jovens estudantes, ao mesmo tempo ansiosos e
temerosos sobre o que estava por vir.
“Karn, venha aqui. Quero que você veja isso,” Jhoira disse.
Ela apontou para um pântano largo, desolado e reluzente, cheio de cadáveres
fantasmagóricos de árvores afogadas e queimadas. A água dele era negra e parecia
infinitamente profunda. Insetos se penduravam em suspensão estática acima das águas
espelhadas. Alguns estavam exatamente na mesma posição de antes de morrer, os olhos
esbugalhados e as bocas escancaradas dos peixes esticando a tensão superficial abaixo.
“Eu chamo este lugar de Águas Ardosianas. Aqui, as chamas da explosão original
se extinguiram apenas sete anos atrás, depois de pesadas chuvas. Antes disso, um pilar de
fumaça subia acima do local. Pelos meus cálculos, nas águas ardosianas o equivalente a
dez dias se passaram desde a explosão. Um passo lá, e você precisaria de uma máquina
do tempo para voltar.”
Karn olhou para o local. Ele refletia sombriamente em sua pele. “Meus dias de
viagem no tempo se foram. Mestre Malzra está em busca de outros objetivos. Eu não sou

94
muito necessário nestes dias.” As palavras pareciam, ao mesmo tempo, aliviadas e
desapontadas.
Jhoira estudou seu velho amigo. Os mantimentos se erguiam nos enormes ombros.
“Não se preocupe, velho amigo. Eu preciso de você.” Ela deu um tapinha em suas
costas e se virou. “Agora olhe para este lado do caminho. É um platô temporal. Eu os
chamo de Colmeias, devido ao formato das cabanas de lama que seus moradores
construíram por toda sua extensão.” Ela apontou para uma região que estava mergulhada
em uma névoa, eternamente na penumbra.
Algumas florestas de árvores pequenas e atrofiadas se agarravam às encostas,
formando um tecido rasgado e acinzentado que parecia ainda mais espectral por causa do
borrão de suas folhas agitadas pelo vento e ramos em rápido crescimento. Aqui e ali, nos
espaços limpos entre essas florestas de copa ressecada, as cabanas arredondadas
rapidamente se formavam, proliferando como câmaras num ninho de vespas-oleiras, até
que vilarejos inteiros pudessem ser discernidos em pontos, e longos caminhos marcavam
o terreno entre eles. Os próprios moradores moviam-se com uma velocidade
indescritível. O assentamento ganhava vida na mesma velocidade em que era
desmanchado, efêmero como bolhas sobre água fervente.
“Cinco gerações deles nascem e morrem a cada um dos nossos anos,” disse Jhoira
a Urza, que tinha aproveitado para parar e olhar.
Barrin, chegando atrás, perguntou sem fôlego, “Cinco gerações de quem? Não
havia nativos nesta ilha.”
Os olhos de Jhoira estavam firmemente fixados no rosto de Urza. “Eu presumo
que eles eram estudantes da academia, presos no tempo extremamente rápido, tão
incapazes de escapar da fenda quanto nós estamos de entrar nela. São cinquenta gerações
retiradas da tua escola. Eles viveram mil anos de história tribal desde então.”
Barrin ficou paralisado por um momento. Então ele disse: “Eles nos veem agora,
não é? A hora que nós gastaremos para caminhar pela terra deles serão quatro dias do
tempo deles. Nós somos estátuas para eles.”
“Sim. Estátuas inacessíveis, inexplicáveis, quase imobilizadas,” Jhoira afirmou.
“Eles também podem nos ouvir, mas nosso discurso é profundo, longo e sem sentido,
como a canção de uma baleia. Assombroso e sobrenatural. Eles se tornaram uma raça
diferente da nossa. Logo eles serão uma espécie diferente.” Ela começou a andar

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novamente, e a linha de estudantes e acadêmicos se estendeu atrás dela. “Há uma visão
ainda mais temível em outro platô de tempo à frente. Mas primeiro, o paraíso.”
Em todas as fileiras, acadêmicos e estudantes trocaram olhares intrigados e se
prepararam sob suas mochilas pesadas. Jhoira os conduziu até uma colina sinuosa,
passando por ciprestes e trepadeiras à esquerda e por desmoronamentos em um lugar
acinzentado à direita. Durante algum tempo, as colmeias de lama e cipós ainda eram
visíveis, ferventes e retrocedendo, entre as árvores.
Finalmente, o grupo alcançou um lugar novo, um monte com grama verdejante e
floresta densa. A flora nativa de Tolária prosperava nas encostas brilhantes. As árvores
tinham troncos grossos e eram verdes, desde as raízes até as copas. As vinhas, como
veias, se enrolavam em cada tronco. As folhas largas se estendiam em uma série de
densas copas acima.
“Esta é uma área de tempo lento mais suave, onde a luz solar e a água da chuva
são suavemente mais frequentes, onde criaturas e plantas vivem em abundância, onde o
calor das copas está em equilíbrio com a umidade do chão da floresta. As colinas
permitem o escoamento adequado para evitar que a terra fique inundada, e as depressões
onde a água se acumula são profundas, claras e frias. É o paraíso. Eu o chamo de Mata
Angelical por causa dos vaga-lumes que a iluminam à noite. Sempre que fico exausta da
minha vigília no penhasco, venho aqui para nadar, escalar e respirar novamente. Talvez
essa seja a melhor parte, respirar novamente.”
Todos os olhos do grupo se viraram famintos para o pomar. As sobrancelhas
pontilhadas de suor abrandaram.
Entre os vastos troncos de árvores, grandes pássaros brilhantes voavam
sonhadoramente através de cortinas de luz e sombra. Debaixo deles, a água era represada
por uma pedra e desembocava em um canal marrom claro. Depois de serpentear entre as
ávidas raízes da floresta, o canal deslizava em um vale próximo, formando uma lagoa
profunda e fria antes de desaguar em outro riacho do outro lado. Abaixo da superfície da
água, o brilho prateado dos peixes resplandecia.
“Por que você não mora aqui?” uma estudante perguntou, afastando os cabelos
castanhos dos seus olhos. “A caça é abundante, as noites são quentes, a água é pura, e
você viveria mais do que em qualquer outro lugar.”

96
Jhoira ficou sombria. “Você não pode viver no paraíso.” Ela partiu novamente. O
grupo atrás dela demorou um pouco mais, alguns bebendo de seus cantis, mas a maioria
apenas de pé, observando. Um estudante fez questão de rabiscar um mapa bruto em um
pedaço de papel, aparentemente planejando voltar a este local quando o tempo
permitisse.
Jhoira conduziu o grupo para um lugar amplo, onde um afloramento de granito
antigo estava desgastado como um dente. Além dos pináculos do leste, este cume era o
ponto mais elevado na ilha. Seu topo cinza estava limpo pela explosão e árvores mortas
se inclinavam em linhas paralelas por todo o pico. As novas árvores abrigadas pelos
troncos caídos se erguiam no meio da devastação, iniciando uma futura floresta. Do alto
da rocha, a vista era limpa desde os pináculos no leste até o refúgio de Jhoira no oeste.
Ali, em cima daquela pedra desgastada, o grupo de cinquenta pessoas fez uma
pausa para recuperar o fôlego e aliviar as pernas cansadas. As intimistas imagens da
Mata Angelical foram substituídas pelo panorama do que Jhoira chamava de Cabeça do
Gigante. Ao leste, o mar era uma cortina de mercúrio escorrendo do sol nascente. Nova
Tolária era uma silhueta escura e minúscula contra ele, a tripulação descansando sobre o
convés no silêncio da manhã. A costa era uma fita bege, sedosa e enrolada.
Dentro da ilha, a floresta e a urze; o pântano e o prado elaboravam padrões
oscilantes entre o verde e o cinzento, entre a penumbra e a luz do dia. Era uma terra
verdejante.
Não era assim no ocidente. A distante costa era uma brilhante pilha alaranjada de
rochas ulceradas, entre as quais se localizava o espaço de Jhoira. Mais perto da Cabeça
do Gigante, estavam as ruínas da antiga Tolária. Elas estavam cinzentas e destruídas. A
disposição anterior das muralhas e estradas ainda era evidente no labirinto de
construções, mas a maioria dos edifícios foi arrasada pela explosão. Aqui e ali, parte da
estrutura persistia, às vezes em torres evisceradas, não naturais, com os lados abertos e
decrépitos pilares de pedra. Embora não fosse uma cratera real, o campo de tempo lento
da antiga Tolária era visível no vislumbrante brilho do ar sobre aquelas ruínas e nas
águas atrasadas em porões e saídas inclinadas.
Perto da ofuscante seção em que estava a antiga Tolária havia outro distrito, um
lugar de profunda escuridão em um cânion literal. Ficava na sombra matutina da Cabeça
do Gigante, mas sua obscuridade era intensificada pelas paredes altas e inclinadas do

97
cânion e pela vasta mudança de tempo dentro dele. O piso do espaço era indistinguível, e
alguns dos estudantes sussurraram que era uma fenda para o submundo.
“Parece um bom lugar para fantasmas,” disse um deles.
“Se eu estivesse morto, eu escolheria uma casa assim,” outro respondeu
levemente.
“Parece uma cicatriz no mundo,” se aventurou um terceiro com temor, “uma
cicatriz ruim, uma que tentou se fechar e sarar, mas só infeccionou e ficou mais
profunda.”
“Você está mais certo do que imagina,” Jhoira disse. “Isso é um abismo muito
profundo e um precipício de tempo rápido. Mas há um fundo para ele, e há criaturas
presas lá.”
“Como as tribos nas Colmeias?”
“Não,” Jhoira disse sem rodeios. “Olhe ali. Você pode não ser capaz de vê-la
enquanto a Cabeça do Gigante lança suas sombras – às vezes ela não pode ser vista
mesmo no auge do meio-dia, mas há uma fortaleza lá embaixo.”
A testa de Urza franziu em preocupação. “Uma fortaleza?”
“Talvez seja apenas uma espécie de comunidade, mas o que eu vi aí parece
selvagem e protegido contra-ataques.”
“O que você viu?” perguntou Barrin.
“Ameias espinhosas, por exemplo, passadiços entre as altas torres de guarda,
contrafortes voadores que parecem feitos de ossos de dragão, janelas tão pretas e lisas
quanto ônix, adornos diabólicos e grossos ladrilhos de argila. Eu tenho a impressão que
eles prefeririam fazer tudo de aço, se eles pudessem, mas o ferro é o melhor que eles têm
e não tem muito dele. Levou muitas horas de distante observação para compor tudo isso.
Eu não sugeriria um exame minucioso: Eu vi arpões voarem daquele lugar, acertarem um
cervo, e arrastá-lo para dentro.”
Barrin piscou em confusão. “Esta cultura bárbara surgiu de refugiados da
academia? Alunos nossos?”
“Novamente, não,” Jhoira disse. “Você se lembra daquele homem, Kerrick, que
você encontrou com a perna quebrada, a quem você interrogou como um phyrexiano
adormecido? O homem que eu tinha deixado entrar na academia? Se lembra de que ele
escapou uma hora antes da explosão? Ele deve ter ficado preso naquela fenda de tempo

98
rápido, ele e quaisquer outros neutralizadores phyrexianos que ele tinha convocado para
Tolária.”

*****

Por uma janela de dois andares de obsidiana polida, K'rrik observava os recém-
chegados. Eles estavam em cima do pico brilhante na altura da ilha, um cume sempre
visível para K'rrik e seus aliados nas profundezas do abismo.
Jhoira estava entre eles. Parecia, na verdade, liderá-los. Durante o século de sua
prisão naquela fratura de tempo, ela tinha sido uma inimiga sagaz. Ela nunca entrava na
área de alcance das equipes de arpões – o que era de se lamentar. Ele tinha muito a se
vingar. A traição ao planinauta Urza era a principal entre as ofensas. Atravessar um arpão
em seus intestinos e puxá-la pela beirada do abismo para estourá-la como um punho
apertando um crânio, isso sim seria uma alegre compensação por suas dívidas.
Ela provavelmente ainda o chamava de Kerrick. Ela provavelmente ainda pensava
nele como um garoto de cabelos dourados, mas cem anos transformaram Kerrick em
K'rrik, moldaram o dormente phyrexiano de pele lisa em um respeitável guerreiro.
Se houvesse alguma maneira de atrair Jhoira viva, não mastigada como as
carcaças de cabras e cervos que eles apreciavam, K'rrik finalmente consumaria seu
“amor”. Essa era a outra grande ofensa dela, sua persistente honra diante dos avanços
dele. Era irritante que a frágil castidade se mantivesse contra o poder de Phyrexia.
Claro que, se ele pudesse arrastá-la inteira, ele próprio poderia ter escapado deste
abismo. Foi necessária a morte de metade de seus servos neutralizadores (doze dos vinte
e quatro) para finalmente convencer K'rrik a suspender as tentativas de fuga. Mesmo
assim, com cada nova geração decantada, ele enviava um em cada dez para tentar a fuga
– um dízimo para seu eventual retorno a Tolária, seu retorno a Dominária.
Este desgaste de dez por cento não era uma grande perda. Ele ainda comandava
uma poderosa nação de duzentos phyrexianos. Eles enchiam todos os cantos do abismo.
Gerações deles trabalhavam nas úmidas e profundas águas na base do cânion. Eles
incubavam, pescavam com redes e evisceravam as várias espécies de peixes escavadores
cegos que eram a principal dieta deles. Outros phyrexianos, por gerações, perfuravam
profundamente as paredes do abismo em busca de veios enterrados de obsidiana e de

99
pedras de basalto usadas na construção do palácio. Os recursos escassos eram o único
limite real para o gênio inventivo de K'rrik. Se ele pudesse fazer aço ou powerstones,
suas criaturas artefato teriam invadido a ilha oitenta anos atrás. Do jeito que estava, o
pouco ferro que os mineiros acharam era mais precioso que o ouro. Estava
constantemente lubrificado com sangue phyrexiano para prevenir a ferrugem. Uma
espada de ferro, como a de K'rrik, era uma proclamadora de reis. Ela o tornava imbatível
na arena e mantinha seu poder. Assim os mineiros que encontravam veios escassos de
ferro eram essenciais à sua base de poder, os figurativos soldados rasos de seu regime.
Com a distribuição cuidadosa desses fragmentos de ferro entre os verdadeiros soldados
de infantaria, K'rrik controlava um exército privado criado para ser leal apenas a ele.
Esses assassinos usavam o padrão draconiano para garantir a obediência de todos os
outros. K'rrik presidia o exército e a nação porque ele criara os dois e era o mais
inteligente, mais forte e mais cruel de todos.
A estes talentos natos, o phyrexiano adormecido acrescentou melhorias de osso e
aço para si mesmo e, eventualmente, até mesmo implantes de tecido. Ele era indomável
na arena. Seus ombros, anteriormente lisos, agora estavam adornados com presas ocas,
para injetar veneno de peixe-escorpião em qualquer um que lutasse contra ele. Espinhos
semelhantes saíam dos cotovelos e dos joelhos. Os espinhos eram retos como se fossem
flechas, de modo que assim que eles se enterrassem em carne, eles a rasgariam em
grandes pedaços. Seu torso era apoiado por uma estrutura de aço preto que impedia sua
espinha de ser quebrada e lhe permitia quebrar as espinhas de outros. Ele mesmo
empunhara o cutelo que removeu seus dois dedos externos de cada mão, abrindo espaço
para mais ferrões envenenados. O século de aprisionamento no abismo fez muito para
aperfeiçoar sua forma.
Agora, olhando através do espesso e escuro vidro de sua sala do trono, K'rrik via
os meios pelos quais ele finalmente escaparia de sua prisão – o poder de seu velho
inimigo, Urza planinauta.

*****

Aquele tinha sido um relato amargo para o mestre Malzra digerir, diria Jhoira. O
homem ficou ali de pé, olhando para aquele pedaço negro no chão. Seus olhos viram
muito mais do que a maioria dos olhos – eles brilhavam com um julgamento agudo e

100
penetrante. Seguramente eles viram além da escuridão envolvente até a colônia
phyrexiana que estava no interior dela. Certamente Malzra olhou para aquela pilha preta
de basalto e obsidiana e para a criatura miserável no coração dela: maliciosa e
meditativa, crescendo um ano em força para cada mês do lado fora.
Kerrick era o homem. Mesmo sem visão sobrenatural, Jhoira sabia disso. Claro,
ele não era um homem, mas um monstro vestindo a pele de um homem. Ela sabia que ele
estava no cerne daquela vasta infecção e que ele estaria poderoso agora, talvez igual ao
próprio Malzra, ou mesmo superior a ele.
Os olhos de Karn também enxergaram mais do que a maioria. Ele chamou Malzra,
Barrin e Jhoira para um ponto afastado dos outros.
“Não é segredo para qualquer um de vocês que eu fui criado para viajar pelas
gargantas do tempo. Talvez eu tenha encontrado meu novo propósito aqui, entrar naquele
lugar e destruí-los.” A sugestão foi feita com um tom ameno e objetivo, mas com uma
voz semelhante a uma miríade de sussurros de árvores antes de uma tempestade de verão.
Um olhar de conformidade passou entre Malzra e Barrin. O mago disse através de
um sorriso sombrio, “Isso me faz lembrar apenas de uma viagem parecida, retirada do
meu estudo da tradição arcana. Houve uma vez que um planinauta entrou em Phyrexia
para destruí-la. Ele estava blindado como você, Karn, mas foi quase destruído na
tentativa.”
Malzra assentiu. “É uma boa analogia. O que temos aqui é uma Phyrexia de bolso.
E em Tolária.” Seus olhos que tudo vêem de repente estavam encobertos sob as
sobrancelhas irritadas. “Jhoira, você me falou ontem à noite dos filhos da fúria que
deixei na minha trilha: os erros órfãos que, na minha ausência, cresceram para me
desafiar, me odiar, me perseguir e me matar se puderem. Vejo agora como são
verdadeiras suas palavras.” Ele piscou e respirou fundo, duas ações que sinalizavam uma
mudança poderosa na mente do homem. “Melhor não criar tais inimigos do que lutar para
sempre contra eles.”
Barrin olhou com admiração para ele.
O sol brilhava nos olhos erguidos de Malzra enquanto marcava sua marcha pelo
céu. “O sol já começa sua descida. Venha, leve-nos à velha Tolária, para um lugar onde
possamos montar acampamento com segurança. Em algum lugar fora do charco de tempo
lento no centro da explosão. De preferência em terreno elevado próximo, onde o tempo

101
segue seus cursos normais.” Um olhar solene atravessou o rosto de Jhoira. “Eu conheço
um lugar.” Ela se virou, liderando-os por um caminho que descia da Cabeça do Gigante
para a academia dizimada abaixo dela. Com os olhos cheios de espanto, os estudantes e
acadêmicos no topo da colina observaram-na partir. Muitos deles estavam exauridos de
olhar para a escuridão impenetrável da fenda phyrexiana e esgotados com a urticante
preocupação que a fissura havia despertado neles. Eles desembrulharam as refeições de
pão prensado e charque. Quando Jhoira avançou, eles expuseram a situação ao mestre
Malzra e Barrin. Os dois homens fizeram uma última sondagem no local e seguiram atrás
dela. Reluzindo na vertente da colina, Karn também pôs seus pés a caminho. Com
suspiros de raiva, os estudantes juntaram seus almoços meio-comidos em suas mochilas,
puxaram os pacotes para os ombros e seguiram a trilha.
Jhoira tomou um caminho que havia sido esculpido por seus próprios pés durante
seus passeios. Passou por várias outras fendas de tempo, essas pequenas e severas,
algumas tão estreitas quanto a largura de um braço, mas com uma milha de comprimento.
Jhoira chamava-as de Cortinas da Eternidade porque quem se aventurasse nelas seria
instantaneamente despedaçado. Não houve necessidade de explicar ao grupo que
permanecessem estritamente no caminho.
Além das construções despedaçadas, passaram pelo labirinto de prédios que uma
vez havia sido a Academia Tolariana. A fileira marchante se manteve em silêncio
enquanto se aproximavam da necrópole. Os membros mais velhos da companhia viveram
nesses prédios destruídos, tiveram amigos que morreram nas torres seccionadas
transversalmente e que repousavam agora, esqueléticos, debaixo das pilhas de pedras
cortadas. Ao pavor natural que veio sobre todos eles ao descer para aquele lugar morto,
foi acrescentada uma barreira de tempo lento em seus corações e pulmões. Pisar naquelas
ruas devastadas e cheias de entulhos era afundar em um pesadelo feito de pedra, ossos e
cinzas. Assustadoramente, o sol brilhava resplandecente e impiedoso naquele lugar
debilitado. Aqueles que olharam para ele viram a bola ardente visivelmente fugindo para
o horizonte.
Durante o passeio pela antiga cidade, Jhoira levou o grupo a uma visão
particularmente perturbadora. Era a estátua de um jovem correndo. Ambos os pés
pairavam impossivelmente acima do solo. Sua boca estava larga em desespero. Seus
olhos estavam cerrados rigidamente. Suas mãos tateavam loucamente. Suas vestes
brancas estavam inflamadas com um brilho alaranjado difuso que o envolvia e se

102
levantava em uma cúpula em forma de cebola sobre sua cabeça. O jovem estava ocultado
por um pilar que brilhava com uma luz ardente. Logo acima dele, ainda flutuando no ar,
havia uma capa pesada, alcançada no instante antes de descer para envolvê-lo.
Jhoira observou os rostos de Malzra, Barrin, Karn e os alunos mais velhos e
acadêmicos, procurando ver se eles o reconheciam. Ficaram olhando fixamente durante
algum tempo, suas mentes desvendando o mistério diante deles.
Por fim, Karn suspirou o nome: “Teferi.”
“Sim. Ele foi alcançado pelas chamas quando a explosão ocorreu. Somente um
momento de tempo se passou para ele nestes dez anos. Quando o descobri aqui, há sete
anos, peguei uma capa pesada, mergulhei em água e atirei-a ao ar para engolfá-lo. Em
mais alguns anos – uma fração de segundo de seu tempo – ele será envolto nela, as
chamas de suas vestes serão apagadas. Talvez alguns anos mais tarde, ele cairá no chão.
Talvez em dez anos, ele veja a Nova Tolária e se esforce para alcançá-la. Então, é claro,
ele será despedaçado.” Seu rosto endureceu. Ela mordiscou um lábio. “Esse maldito
manto é tudo o que posso fazer por ele. Eu estudei a fissura do tempo, realizei
experimentos, tentei tudo que eu podia imaginar, mas ele está preso e não pode ser
salvo.”
Um atordoante silêncio se seguiu a essa revelação. Cinquenta grupos de olhos
esboçavam a figura condenada, congelada no fogo, inacessível, mas apenas a um braço
de distância.
Por fim, Malzra proferiu palavras que os consolaram. “A primeira área de estudo
da nossa nova academia será sobre técnicas para resgatar este jovem.”
Jhoira apresentou uma expressão sombria enquanto se afastava. Ela seguiu em
frente em um ritmo rigoroso. Os jovens estudantes, alguns sendo crianças de apenas doze
ou treze anos, seguiram de perto. Os caminhantes mais velhos fizeram uma pausa no
Santuário de Teferi, como alguns já estavam chamando. O mestre Malzra, Barrin e Karn
ancoraram a parte de trás da procissão.
Os caminhantes sentiram seus espíritos enterrados e corações pesarosos
novamente se erguerem enquanto subiam as elevações da margem sul das ruínas. Além
deles, se assentava um lugar grande e plano, coberto de grama alta e seca. As folhas
secas faziam um ruído familiar e suave nos ventos quentes da tarde.

103
Apesar do ritmo constante de Jhoira, a noite se aprofundou no morro quando
Malzra, Barrin e Karn chegaram ao cume. Lá o mestre olhou ao redor com seus olhos
perfurantes. Ele marcou as posições da velha Tolária, das Cortinas da Eternidade, e, além
delas, o cânion phyrexiano onde seus inimigos, mesmo agora, se multiplicavam.
“Você tinha razão, Jhoira,” ele simplesmente disse. “Este é o lugar.” Caminhou até
a mochila de um de seus excursionistas jovens e cansados, puxou uma estaca da tenda do
equipamento ali guardado e, com a força de sua mão, apontou-a para o fundo do chão
seco. “Exatamente aqui, vamos construir nossa nova academia.”

Monólogo

Eu estava com o corpo e a alma cansados naquela primeira noite , quando,

sob a luz das lanternas, erguemos nossa cidade de barracas. Fizemos círculos de

fogo, colocamos pedras para margeá-los, recolhemos lenha e água para a noite e

nos sentamos para comer carne seca , pão prensado e um pouco de caldo quente .

Eu fui o único do grupo a dizer a Urza que ele deveria retornar a Tolária ,

deveria retificar seus erros passados e abraçar os filhos da fúria . Mas, ao

vislumbrar aqueles filhos pela primeira vez – seja o povo tribal da Colmeia , as

invisíveis hordas de phyrexianos no desfiladeiro, ou os fantasmas dos mortos

que quase palpavelmente assombram as ruínas da academia – temo que talvez

eu estivesse errado.

Esquecendo o passado, fugindo da morte , ignorando as feridas – é assim

que os mortais vivem. Os dias passados devem permanecer mortos. É o presente

do tempo. Supõe-se que cada nova geração nasça sem saber sobre os horrores que

lhe antecederam. De que outra forma qualquer um de nós pode viver?

E, mesmo assim, afinal de contas, talvez eu tivesse razão. Urza não é

mortal . Ele não pode se dar ao luxo de esquecer, mais do que o tempo pode se

dar ao luxo de esquecer. O mundo não é grande o suficiente para deixá-lo ir de

erro em erro, deixando a destruição em seu caminho. Ele deve limpar sua

104
própria sujeira . De certa forma , sua mania de retornar no tempo era um desejo

de lembrar, de se confessar ao passado. Ele provavelmente teria chegado a essa

conclusão com ou sem mim. Evidentemente , agora que Urza se decidiu, nós

também temos que assisti-lo em suas empreitadas, pois ele não mudará de ideia

pelo próximo milênio.

Eu só espero, depois de todas essas desordens temporais, poder morrer após

um período de vida humano normal – não antes e certamente não depois.

– Barrin , mago mestre de Tolária

105
Capítulo 09

A pesada caixa de madeira que Malzra levava nas costas se tornou uma elaborada
mesa. Ele a montou na manhã seguinte para a surpresa e satisfação dos alunos que
estavam tomando café. A superfície era de ébano liso composto de vários painéis. Cada
painel de madeira preta deslizou dos compartimentos principais por meio de junções
escondidas e fundiu-se sem nenhuma emenda visível com as outras partes. O resultado
final foi uma mesa extensa e lisa, tão larga quanto o braço de Malzra e duas vezes mais
longa. A superfície de trabalho repousava sobre armários com muitas gavetas e
compartimentos pequenos. Por meio de algum truque engenhoso, tudo – armários,
gavetas e o resto – cabia facilmente em uma caixa compacta. Algo mais maravilhoso
ainda estaria por vir: mal a mesa ficou totalmente montada, Malzra abriu uma gaveta
atrás da outra, encontrando estiletes, chaves, réguas, bússolas, transferidores, um
conjunto de cantos angulares e vários rolos de projetos. Ele esticou o último sobre a
mesa, lutando para fazê-lo ficar esticado, até que Barrin colocou uma pedra em cada
canto das folhas.
Barrin e Malzra deram um passo para trás, permitindo que a multidão de
estudantes contemplasse os grandes panoramas em chumbo e tinta. Havia um salão
central, com espaço para acomodar quatrocentos alunos e acadêmicos, uma série de
sacadas com vista para o grande espaço e uma abóbada empírea aberta de um lado para
mostrar as densas copas da floresta. Havia torres estupendas, arredondadas e esguias
como abóboras exóticas, algumas cobertas com postos de guarda, outras com torres de
fogo e outras ainda com observatórios que se eriçavam com parafernália ótica. A muralha
externa era um baluarte enorme de terra e pedra, com uma notável ausência de grades de
esgoto e sistema de dutos. Corredores longos e curvos, grandes bancos de janelas com
vitrais, um aviário, docas aéreas, um ginásio, uma grande lagoa repleta de rochas, jardins
e bosques. Os dormitórios ofereciam quartos particulares que eram iluminados e abertos
– não mais como os cubículos da escola anterior. Cada aspecto do design estava marcado
com ornamentação imaginativa – figuras octópodes, camarões marinhos fantásticos,
inspirações nas cabeças dos dragonetes tolarianos, temas dos quatro ventos, dispositivos
extraídos da arquitetura naval de Nova Tolária, gaivotas e martins-pescadores, nuvens
tempestuosas em forma de cabeça de bigorna, tridentes, corais e conchas de nautilus.

106
Esta não era a rigorosa enfermaria da Tolária anterior. Esta não era uma prisão. O
ascetismo dera lugar ao esteticismo, ao estrito artifício da arte fantástica.
“Naturalmente,” Malzra disse a ninguém em especial e a todos de uma só vez,
“teremos que mover o portão oriental de lá…” ele apontou para um lugar sobre os
projetos, e a localização correspondente na topografia diante deles, “…para lá,
permitindo acesso mais fácil para um caminho seguro e para além da Mata Angelical.”
Barrin avaliou seu amigo. “Estou feliz em ver que você não transformou a escola
em uma fortificação depois de ver a fenda phyrexiana.”
Malzra sorriu firmemente, puxando um novo projeto para cima. “São eles que
estão encarcerados, não nós. Olhe, aqui. Este é o primeiro prédio. Ele terá tudo para nós
começarmos – um grande salão, dormitórios e espaço para aula. Com o tempo, será meu
laboratório particular.” Ele indicou um grande alojamento com paredes de pedras
trituradas e um telhado pontudo sustentado por troncos cortados e amarrados. De acordo
com os esquemas, o telhado inicial seria de palha, mas com o tempo ele poderia ser
convertido para telhado de madeira e eventualmente para ardósia. “Ficará ali, naquela
crista rochosa à beira da cidade de barracas. Começamos a construí-lo hoje.”
O café da manhã foi esquecido nas visões embaladas por pergaminhos e tinta de
um futuro brilhante e ousado. Todo o acampamento se reuniu para ouvir suas tarefas.
Um alferes e seu contingente receberam a guarda do campo, encarregados de
montar postos, construir paliçadas, organizar um horário de patrulha de dia e de noite e
montar um arsenal. Os deveres do grupo de guarda incluiriam a investigação e marcação
de zonas de perigo temporal, bem como a exploração de técnicas para resgatar Teferi do
seu pilar de tempo congelado.
Outra alferes e sua equipe foram enviados para examinar completamente as ruínas
da antiga academia, catalogando tudo o que pudesse ser recuperado – blocos e tijolos,
madeira e aço, mobílias e artefatos. Ela também ficou encarregada de recomendar um
local e montar uma estrutura que seria um memorial para os estudantes e acadêmicos que
morreram na explosão. Barrin se ofereceu para se juntar a este grupo, já que ele estava
profundamente interessado na destinação correta de quaisquer restos que o grupo
pudesse encontrar.
Um terceiro grupo, chamado de comissão de alimentos, foi enviado com Jhoira.
Eles buscaram clareiras onde pudessem estabelecer armadilhas para coelhos, lagoas nas

107
quais pudessem dispor anzóis para peixes, e campos verdes para plantio. Malzra instigou
Jhoira a fazer o melhor uso de áreas de tempo rápido leve, onde lebres, peixes e
plantações podem amadurecer em semanas, em vez de meses.
Outra equipe pegou picaretas, pás, grades, estacas e fios. Eles começaram a limpar
a localização da nova sede e a escavar uma fundação para os planos e elevações de
Malzra. Karn acompanhou este grupo, com a intenção de emprestar sua força às tarefas
de movimentação de terra.
O último grupo acompanhou o próprio Malzra em uma viagem de regresso à
Cabeça do Gigante. Ali iniciaram um estudo mais aprofundado do desfiladeiro
phyrexiano e sugeriram estratégias e dispositivos para o extermínio de seus centenários
inimigos. Malzra falou sobre um antigo e pequeno dispositivo, um minúsculo cristal
sincronizado com a Lua Tremeluzente e suspenso como uma magnetita em uma gota de
água. Quando a lua se erguia, os cristais eram esticados verticalmente e emitiam um som
agudo que desfazia o sangue phyrexiano, separando os componentes do óleo brilhante.
Produzindo em massa essas “aranhas”, como ele as chamava, e introduzindo-as no
desfiladeiro por um dos rios que corriam por dentro dele, eles poderiam matar todo o
exército de phyrexianos antes mesmo que eles soubessem o que havia acontecido.
Com a quieta e determinada eficiência de formigas refugiadas escavando uma
nova colina, a companhia de Malzra marchou pelas encostas estranhas e hostis da velha
Tolária. As barracas que os abrigaram na noite anterior esvoaçavam, vazias e limpas, no
ar quente e variável do verão. As colunas de fogo que iluminaram a negra noite, agora
fumegavam um sono cinzento. Havia uma sensação de esperançosa expectativa no ar.
Perto dos braços que empunhavam machados, dos ombros dobrados e das mãos que
empunhavam pás, estava a visão arejada de uma nova academia tomando forma ao redor
deles.

*****

Assim que os últimos troncos afiados foram postos nos seus lugares, entre o
acampamento e os alicerces da nova sede, uma brisa se moveu pela floresta circundante.
Os trabalhos do verão estavam finalizados. O outono tinha chegado. Os trabalhadores
fizeram uma pausa. Respiraram profundamente, endireitaram suas costas cansadas, e

108
levantaram as caras sujas e escorrendo suor para o sol. A vida no mar não fora fácil para
a tripulação de Nova Tolária, mas, pelo menos, não realizavam as pesadas tarefas diárias
de trabalhar duramente na terra, perfurando-a, cavando-a, levantando-a, arrastando-a,
despejando-a, compactando-a. Os grãos da areia do mar eram, em grande parte, de puro
sal, que eram facilmente lavados e davam à pele certas proteções naturais contra insetos.
Aqui, os grãos eram da areia preta. Ela cobria tudo, nunca era totalmente lavada, e
sujava os livros e pergaminhos que os acadêmicos e estudantes examinavam em suas
horas de folga. Após os longos meses de trabalho, eles se tornaram um grupo de homens
musculosos, bronzeados e trabalhadores, começando a se parecer com Jhoira, como os
nativos da ilha.
A brisa revirou as barracas onde os estudantes descansavam ou estudavam. Ela
atirou chamas onde um ensopado feito de peixes de água doce fervia. Ela levantou poeira
das liteiras que arrastavam os galhos de árvores para a abóbada quase completa da sede.
Agitou o rolo de peles de animais que, quando completo, se tornaria um grande balão
dirigível para levantar a máquina de guerra phyrexiana de Malzra. As brisas pareciam
muito ansiosas para levar a máquina desmontada pelo ar. Acima de tudo, o vento
refrescante aliviava os trabalhadores cansados do calor, prometendo dias mais frios e
mais chuva.
Barrin sentiu a brisa enquanto subia a colina que levava às paliçadas. O outono
significaria vegetação alta e seca, pronta para ser cortada e enrolada, para cobrir um
telhado para a sede. O lugar seria mais quente e mais seco do que as tendas e mais
resistente a mosquitos e cobras. A perspectiva de camas e paletes verdadeiros também
era sedutora.
Mesmo assim, o humor animado de Barrin não veio com as esperanças de um
futuro confortável, mas com a conclusão dos longos trabalhos. As ruínas foram
completamente eliminadas. Cada pedaço de pedra utilizável foi levado para o local da
nova academia, muitas das peças mais ásperas já incorporadas nas rebocadas paredes
inferiores da sede. A equipe de Barrin também descobriu os destroços do Salão das
Criaturas Artefato e resgatou desse lugar destruído muitas peças operáveis de máquinas.
Essas peças foram usadas por Urza para construir cinco levantadores su-chi, unidades
projetadas para executar as tarefas pesadas dos projetos de construção.

109
O resultado mais importante desses esforços de limpeza, porém, havia sido
concluído hoje, e Barrin subiu até o acampamento para reunir Urza, Karn, Jhoira e
quaisquer outros que não estivessem imediatamente ocupados para vir ver o resultado.
“Está concluído,” disse Barrin, limpando a poeira de suas mãos, enquanto se
colocava diante de Urza.
O planinauta levantou os olhos distraidamente dos projetos de sua máquina de
guerra, assentiu e fez um gesto para que um grupo de estudantes retirasse a placa frontal
que eles haviam anexado à estrutura de metal. Um dos jovens deu-lhe um olhar de
consternação, ao que Urza respondeu severamente: “Temos que inserir mais
profundamente o ventre da peça ou os dispositivos incendiários não deslizarão
suavemente da câmara de carga. Eles podem ficar presos, e podem explodir dentro da
superestrutura. Agora faça isso!”
Enquanto os alunos se preparavam para trabalhar, Barrin repetiu, “Está concluído.
Eu gostaria que você viesse vê-lo.”
Urza voltou-se para seus projetos, que mostravam uma fuselagem de metal
finamente moldada. O dispositivo, em forma de caranguejo-ferradura, pendia sob um
grande saco de gases aquecidos.
“Estou no meio de um algo. Não pode esperar? Programe uma cerimônia formal.
Vou assistir.”
Os olhos de Barrin endureceram-se ligeiramente. “Duzentos estudantes e
acadêmicos morreram nessa explosão, Urza. Outros vinte trabalharam de forma longa e
cansativa entre os fantasmas desses duzentos, tentando encontrar uma forma de honrá-los
e lembrá-los. Se você não vier por mim, venha por eles.”
“Enquanto você está falando sobre o passado,” Urza estalou, lançando a mão
sobre a máquina de guerra semi-construída, “eu estou planejando um meio de salvar o
futuro. Só hoje de manhã entendemos por que as aranhas não funcionam – não há luz da
lua suficiente na fenda para ativá-las. Esta é a nossa única esperança. Eu tenho que
terminar esta máquina, ou seu monumento pode ser para todos nós. Estou pensando no
nosso futuro.”
Em um gesto que raramente fazia, Barrin agarrou o braço do mestre. Ele sentiu a
onda quente de poder sob a pele do homem. “Venha ver o memorial. É por isso que
estamos trabalhando para o futuro.”

110
Urza olhou de novo para a fuselagem, onde os estudantes discretamente
resmungavam enquanto manuseavam suas chaves. Ele acenou para eles.
“Venham, vocês dois. Ponham essas ferramentas de lado, e venham junto. Vamos
olhar para o passado.”
Eles olharam para Urza com um instante de incerteza antes que as agitadas
sobrancelhas dele os convencessem a deixar cair suas chaves no chão e se levantassem
para segui-lo.
Urza emitiu um comando semelhante a todos os estudantes e acadêmicos que ele e
Barrin encontraram no seu caminho durante a saída do acampamento. Dezenas de tarefas
foram abandonadas pela metade, e o povo de Tolária reuniu-se atrás de seus dois mestres.
Eles haviam se especializado naqueles longos e quentes meses de verão: os guardas
tinham trajes e comportamentos diferentes dos jardineiros e caçadores, que, por sua vez,
eram diferentes dos artífices que trabalhavam na máquina de guerra de Urza, e assim por
diante. Naquela procissão espontânea no atoleiro de tempo da antiga Tolária, todos os
acadêmicos e estudantes eram um grupo novamente, como no dia em que caminharam
pela ilha. Piadas e risos fluíram com a cara séria do mestre, o som delas não desaparecia
e nem diminuía com o passar do tempo.
Barrin se perguntava sobre esse espírito feliz. Ele e seus escavadores sempre
adotaram um comportamento solene entre as ruínas, entretanto não havia restado muito
delas. Apesar dos dias curtos naquele local de tempo lento – Barrin e sua tripulação
tinham apenas dez horas de sol durante o verão com dias de dezesseis horas – eles foram
dedicados. As fundações da maioria dos edifícios ainda estavam lá, dobras retilíneas de
pedra se movendo pela terra densamente compactada. A água da chuva fora coletada nos
porões expostos de vários prédios. Relvas cresciam espontaneamente em muitas das
áreas limpas. Algumas paredes baixas permaneceram intactas, mas a maioria das
estruturas sobreviventes foram reverentemente derrubadas. As pedras cortadas foram
cuidadosamente ordenadas e empilhadas para uso nos novos edifícios. Até mesmo os
entulhos de pedra de campo estavam empilhados no novo acampamento. A velha escola
agora parecia quase uma área de parque, com prados calmos, caminhos errantes de pedra
e piscinas plácidas. As ruínas já não eram ruínas. O humor de Barrin também melhorou
assim que ele sentiu o último nível da descida temporal, e todos chegaram no centro do
lugar.

111
Uma praça fora assentada, pedras ornamentadas colocadas em um mosaico
uniforme entre duas impressionantes vistas. De um lado estava Teferi, com a boca ainda
aberta e os olhos ainda apertados, as chamas eternas de suas vestes o envolvendo, e o
manto molhado tendo descido apenas um dedo. O canto inclinado de um edifício
permanecia atrás de Teferi, ajudando a protegê-lo da luz intensa do sol.
Enquanto Urza e Barrin pararam ao lado deste santuário vivo, Jhoira emergiu da
multidão. Ela se aproximou deles e olhou triste para seu amigo aprisionado.
“Ele está preso, como eu. Sozinho. Abandonado. Nem morto, nem vivo.”
“Vamos salvá-lo, Jhoira,” garantiu Barrin. “Vamos encontrar uma maneira.”
“Ele não pode nos alcançar. Não podemos alcançá-lo.” A voz dela tinha uma raiva
desesperada. “Se ele tentar sair, ele morrerá.”
“Sim. Devemos salvá-lo antes disso,” Barrin respondeu.
“Toda noite, eu quebro minha cabeça. Não consigo dormir, pensando nele. Deve
haver uma maneira,” ela insistiu. A mão trêmula percorreu seu queixo.
Barrin pegou sua mão e a levou para longe do grupo. “Venha. Tenho outra coisa
para te mostrar.”
Do lado oposto do pátio estava o memorial aos outros mortos na explosão. A base
do monumento era a velha pedra de fundação da academia anterior. Urza queria que a
pedra fosse trazida para a nova escola, mas Barrin foi inflexível. Ele disse que ela
deveria marcar o começo e o fim do que veio antes. O lado do bloco da pedra gigante
carregava sua inscrição original: Academia Tolariana, Estabelecida em 3285 AR, e uma
inscrição nova: Destruída em 3307 AR. A frente do bloco exibia os nomes dos mortos.
Do outro lado havia uma inscrição na antiga língua de Yotia, o que traduzindo
significava:
As almas de um homem que morre
Em frente aos dentes do destino
São as almas de todos os homens,
Que se foram para que pudéssemos continuar.

O interior oco da pedra continha todos os ossos desenterrados por Barrin e sua
equipe, enterrados da forma como eles viveram e morreram… juntos.
Sobre a pedra havia uma escultura retirada do caderno de desenho do velho
Darrob – companheiro de Jhoira nos meses anteriores ao retorno de Urza. Embora sua

112
mente estivesse muito fragmentada para permitir que ele se comunicasse bem com
palavras, Darrob era um artista muito talentoso. Talvez a imagem mais comum em seus
desenhos era a de uma figura perscrutadora, magra e devastada pelo vento, segurando
uma lanterna e olhando para o futuro com olhos como as órbitas gêmeas e
desesperançosas de um crânio. Barrin pegou os restos metálicos de criaturas artefatos
destruídas e as soldou, uma na outra, numa estátua daquela alma sombria e inquiridora,
eternamente inclinada contra um vendaval incessante e silencioso.
Jhoira olhou tristemente. Barrin estava ao lado dela, segurando sua mão. Urza
observava tudo de uma só vez. A longa caravana atrás deles se espalhou em um
semicírculo de cada lado. Todos eles, estudantes e acadêmicos, artífices e guardas,
ficaram calados enquanto estudavam o memorial. Em pouco tempo, apenas o vento
falava.
Barrin permanecia em um silêncio que o impregnava e sentia uma emoção crescer
dentro ele, algo que era ao mesmo tempo alegria e desespero, algo que escurecia seus
olhos e fazia seus lábios se prenderem em uma linha apertada.
“Em nome de todos nós que permanecemos aqui após a explosão, mestre Malzra,”
Jhoira disse finalmente, “eu quero te agradecer por isso. É certo que esta é a primeira
construção concluída da nova escola.”
“Sim,” respondeu Urza com um aceno decisivo, “sim, está certa.”

*****

A nova sede foi concluída pouco antes da triste chuva de inverno, e as brasas em
suas duas grandes lareiras não se foram até a primavera estar quente nas encostas.
Embora melhor do que as barracas, as acomodações ainda eram apertadas. A fuselagem
terminada do motor de guerra voador de Urza ocupava um canto, assentando-se sobre um
balão de pele de animal enrolado que serviria para transportá-lo para o céu. À noite, o
chão ficava com seus cantos preenchidos com colchonetes de dormir e, durante o dia,
com mesas de alimentos sendo preparados e comidos. Livros e projetos estavam
amontoados em um canto, e experimentos com artefatos se aglomeravam em outro. As
acomodações eram tão apertadas, que Jhoira e seus coletores de comida escolheram
dormir e comer em Nova Tolária, onde as redes e as refeições pareciam ser quase

113
luxuosas. A bordo do navio, ela também tinha mais espaço para trabalhar noite adentro,
criando e descartando meios de salvar Teferi. Foi um inverno longo e úmido, e a única
graça salvadora disso foi o impulso de Urza e Barrin de fazer avançar todos os projetos
iniciados.
Nas primeiras brisas da primavera, um segundo edifício estava meio completo –
um dormitório de paredes redondas, com a entrada de cada quarto se abrindo para os
esplendores da floresta de Tolária e para dentro de um pátio central. Mesmo sem portas
nos quartos e persianas nas janelas, muitos acadêmicos e estudantes optaram por entrar
na estrutura e enfrentar os primeiros dias da primavera. No meio daquela estação, a
maioria dos estudos sobre os artefatos havia migrado para o pátio central do dormitório,
e houve espaço para todos na sede.
Hoje os ventos estavam perfeitos. Leves e uniformes, eles fluíam do leste,
passavam pela aportada Nova Tolária até o caminho que levava de volta a Tolária. As
brisas percorriam a Cabeça do Gigante e saíam logo acima do desfiladeiro phyrexiano.
“Dez anos se passaram naquela garganta desde que nossos inimigos nos viram
pela primeira vez, desde viram nosso retorno,” disse Urza, cheirando a brisa do mar
enquanto ela soprava através da nova academia. “Certamente eles não ficaram ociosos
nesse tempo. Eles estão dez vezes mais fortes do que estavam naquele primeiro dia e
talvez duas vezes mais numerosos. Cada dia que nós esperamos, dá a eles mais uma
semana para se prepararem. Está na hora.”
Ele falou estas palavras a Barrin, mas todos aqueles que tomavam o café da manhã
na sede naquela manhã o ouviram, e todos sabiam o que ele queria dizer.
“Hoje, nós atacamos,” disse Urza.
A maioria daqueles cafés não foram terminados. Os estudantes correram para seus
postos, excitados e aterrorizados com o que o dia poderia trazer.
Momentos após este anúncio, os grupos içaram o balão de pele de animal e a
fuselagem de metal do canto e os levantaram acima da crista da Cabeça do Gigante.
Atrás deles estavam mais trabalhadores com grandes foles presos a forjas especialmente
concebidas para aquecer o ar. Cordas emprestadas da ancorada Nova Tolária seguiram
por sua vez, e caixas de esferas escuras foram levadas cautelosamente por pares de
trabalhadores.

114
“É grosseiro, eu sei,” Urza disse com desgosto enquanto se sentava do outro lado
de Barrin, que estava rapidamente enchendo a boca com colheradas muito quentes de
ovos de mergulhão fritos, “mas até que nós estejamos operando o laboratório com
capacidade total, eu não estou disposto a montar um ornitóptero. Além disso, este
gigante flutuante pode levar cem vezes o número de bombas de pólvora que um
ornitóptero conseguiria.”
“Mesmo quatro mil bombas podem não ser suficientes para destruí-los. E se algum
phyrexiano permanecer no desfiladeiro, nós estaremos em grave perigo,” Barrin apontou,
assoprando entre goles escaldantes de chá. “Eles estão trabalhando em algo, Barrin, uma
maneira de escapar,” Urza respondeu. “Eles estão procurando por uma saída há cem
décadas do seu tempo. Eles não devem ter metais ou powerstones para qualquer coisa
além de algumas rústicas criaturas artefato, senão eles as estariam enviando atrás de nós.
Eles devem estar desenvolvendo alguma nova mutação, uma nova variedade phyrexiana
que consegue escapar da sua fenda de tempo. Se uma das quatro mil bombas penetrar em
seus laboratórios biológicos e destruir as gerações de pesquisa, teremos ganhado alguns
anos a mais.”
“Sim,” Barrin concordou. Ele limpou suas mãos e se levantou. “Sim, hoje é um
bom dia para isso. Vou falar com a equipe de voo.”
Urza agarrou o ombro do homem e sacudiu a cabeça. “Não, deixe que eu faço isso.
Eu serei um dos que estarão a bordo com eles.”

*****

No meio da manhã, a grande máquina de guerra de pele e metal estava


completamente inflada, no topo da Cabeça do Gigante. Sua bolsa de ar brilhava à luz do
dourado e castanho sol, cruzado em mil lugares pelas emendas costuradas. Abaixo, a
fuselagem metálica brilhava, sua base manchada de orvalho da sua caminhada do início
da manhã. Ventos fortes da baía puxavam e provocavam o dirigível, e as cordas das suas
âncoras gemiam. A equipe de solo trabalhou ativamente nestas cordas, bem como nas três
longas amarras que guiariam a máquina para passar sobre a fenda. Barrin conduziu a
equipe pelos controles dos cabrestantes aparafusados na pedra. Karn estava lá também,
preparado para emprestar sua força titânica para puxar as cordas.

115
Enquanto isso, os cinco da equipe de voo estavam recebendo as instruções finais
do mestre Malzra. Um membro da equipe foi designado para cada vetor de movimento do
balão – um oficial de altitude, outro de raio e um terceiro de tangente. Através de um
sistema de sinais, estes oficiais instruiriam a equipe de terra para realizar o movimento
desejado através de uma combinação de cordas trançadas e da utilização do vento. Como
a mais bem-sucedida artífice de Malzra, Jhoira se tornou oficial de altitude, encarregada
do elaborado fole de forja a bordo, que proporcionava à máquina sua elevação. Os dois
últimos pilotos, um acadêmico e seu protegido, eram os melhores cartógrafos da escola.
Eles ficariam deitados de barriga para baixo em extremidades opostas do dispositivo e
cada um faria mapas do que vissem. Seu trabalho seria inestimável na determinação de
quais lugares bombardear, quais recursos os phyrexianos provavelmente teriam, e qual
estratégia usar em futuros ataques contra a fortaleza. Malzra, o último membro da
equipe, era o capitão. Recebendo informações dos cartógrafos, ele enviaria instruções
aos oficiais de voo para posicionar a máquina e, no momento preciso, liberar as salvas de
dispositivos incendiários.
“O sexto compartimento está cheio, mestre Malzra,” relatou uma jovem de cabelos
escuros, interrompendo as instruções do mestre Malzra. “Quinhentas bombas de pólvora.
Mais dois compartimentos, e o complemento total de quatro mil estará carregado.”
“Bom,” Malzra respondeu. Seus olhos pareciam especialmente escuros sob a luz
brilhante desta manhã. Com um aceno de cabeça, ele dispensou a mulher e voltou-se para
sua equipe ansiosa. “Jhoira, lembre-se, em todos os momentos temos que permanecer
pelo menos mil pés acima do topo do desfiladeiro – a mesma altura da Cabeça do
Gigante. Mesmo aí alguns projéteis phyrexianos podem ser capazes de nos alcançar. Mil
e quinhentos pés serão mais seguros. Os compartimentos de bombas e compartimentos
dos cartógrafos estão protegidos, mas uma penetração de projétil é possível e poderia
causar uma série de explosões que destruiria a máquina.”
A tripulação já conhecia todos esses fatos antes, mas sua repetição na sombra do
dispositivo inclinado e trêmulo inquietou os olhos e fez alguns engolirem em seco,
desconfortáveis.
“Se um projétil perfurar o envelope de ar, nós soltaremos todas as bombas, os
lastros e sinalizaremos para sermos trazidos de volta. A fuga será impossível até que
cheguemos à Cabeça do Gigante. Qualquer um que cair sobre a fenda do tempo morrerá
imediatamente. A escarpa abaixo da Cabeça do Gigante é muito íngreme e cheia de

116
árvores caídas para permitir qualquer pouso seguro,” disse Malzra. Ele estudou os rostos
jovens sérios dispostos em torno dele. “Espero que tenham se despedido, caso não
retornemos. Se não, eu trouxe uma mensageira.” Ele indicou uma garota rápida, que
gentilmente tirava de uma bolsa do ombro, penas e pergaminhos. “Aproveitem os
próximos momentos. Nós devemos estar a bordo assim que os últimos compartimentos
de bombas estiverem cheios.”
Quatro dos cinco membros da tripulação se voltaram rapidamente para a garota,
selecionando pontas de penas e começando a rabiscar o que poderiam ser suas últimas
palavras.
Somente Jhoira se levantou, resoluta e preparada. “Karn está aqui, e já nos
falamos,” ela disse como uma explicação a Malzra. “A única pessoa para quem eu
gostaria de enviar um bilhete é Teferi. Claro, qualquer bilhete para ele queimaria antes
que ele pudesse lê-lo.”
Malzra estreitou os olhos avaliando a jovem mulher. “Você deve se concentrar na
tarefa em suas mãos, Jhoira.”
“Teferi nunca sai da minha mente,” ela respondeu. “Se eu pudesse trocar de lugar
com ele, eu o faria. Nós dois não precisamos estar sempre sozinhos. Você sabia que ele
me salvou uma vez?”
“Eu não sabia. Mas se você não puder manter o foco, eu terei que encontrar outro
oficial de altitude-”
Ela baixou o olhar. “Eu lutarei mais duramente, pensando nele.”
“Bom,” ele respondeu. “Vamos nos posicionar.”
Malzra colocou levemente uma mão em seu ombro, conduzindo-a consigo para a
embarcação em espera. Seu toque parecia quase ardente.
Jhoira caminhou ao seu lado.
Luminosa e incandescente na parte da manhã, a embarcação surgiu diante deles.
Ela balançava ligeiramente sob os ventos inquietos.
Alcançando a máquina, Malzra retirou uma corda pendurada na entrada. Ele
gesticulou para dentro da embarcação e se curvou gentilmente.
Jhoira o precedeu no navio. Ela agachou-se enquanto atravessava a passagem
apertada. Seus pés faziam pequenos zunidos na placa blindada abaixo. Os
compartimentos de bombas se aglomeravam em ambos os lados da passagem. À frente,

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os passadiços baixos do oficial de tangente cruzavam o corredor principal. O oficial de
raio permaneceria em um assento de um lado da embarcação, monitorando o
comprimento das cordas que os ancoravam à Cabeça do Gigante. O posto de Jhoira
estava no exato centro da embarcação, na junção entre a fuselagem e o balão. Ela tinha a
visão de todas as direções e tinha memorizado a altura de vários pontos de referência.
Ela também tinha um poço aberto no piso para uma verificação visual da posição do
solo. Um cinto de linho mantinha-a suspensa nesta coluna vazia de ar. O equipamento foi
projetado para girar em um círculo completo, mas, ainda assim, fornecer uma base
estável. De um lado estava o fole de forja que Jhoira alimentava e tratava de manter a
máquina no alto. Do outro lado havia um conjunto de instrumentos – anemômetros,
barômetros, bússolas, lunetas… Jhoira subiu no banco e se amarrou.
Malzra, em uma plataforma semelhante no ventre da embarcação, ordenou através
de tubos comunicadores, “Alimente a forja para a decolagem.”
“Sim.” Jhoira concordou, sentindo pequenos tremores na fuselagem enquanto os
outros membros da equipe assumiam suas posições.
Ela mal ouviu as instruções ditas em tubos que estavam em todos os lugares. Além
da superestrutura, as cordas das âncoras estavam soltas e a tripulação de terra pegou as
três cordas que serpenteavam em torno dos cabrestantes.
“Solte-as,” veio a ordem em todos os tubos comunicadores.
A embarcação decolou da rocha. O chilreio nervoso do metal contra a pedra se foi,
levando a resistência chacoalhante com ele. Jhoira bombeou o fole diante dela,
alimentando o fogo na caixa-preta. Um silvo de ar vermelho surgiu da forja. O balão se
elevou ainda mais, afastando-se da pedra. Além das linhas estalando e das peles
esticadas, a testa brilhante da colina recuava. As pessoas que se aglomeravam sobre ela,
trabalhando nos cabrestantes, diminuíam. Logo seus rostos eram apenas pontos difusos.
Então não restou nenhuma característica, somente costas curvadas e braços nervosos
como extensões das próprias cordas robustas. Uma face de pedra coberta pela sombra
deslizou por baixo, descendo de repente nas vastas distâncias. Uma enorme tigela de
terra se formou. A Cabeça do Gigante tornou-se apenas uma proeminência no chão em
uma borda do vale. Linhas que antes pareciam maciças agora pareciam muito finas,
esticadas nos desmoronantes espaços.
“Leve-nos de trezentos pés para mil e trezentos,” a voz de Malzra apareceu.
“Vamos entrar por cima, nos dê tempo para examinar o poço e escolher nossos alvos.”

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“Sim,” Jhoira respondeu.
Ela deslizou de volta pela porta para a caldeira de carvão, liberando alguns
fragmentos a mais na câmara de fogo. Uma alavanca espalhou as pedras pretas sobre as
brasas. Ela bombeou o fole repetidamente. O ar quente jorrou no vasto saco de ar acima,
e um ar mais tépido derramou das bordas do balão. Impaciente, a máquina ganhou altura,
suas cordas puxando-a de volta em um arco para a Cabeça do Gigante.
Malzra fez ajustes de percurso, sinalizados para as tripulações de terra pelos
oficiais de tangente e de raio. As amarras afrouxaram-se, e a máquina precipitou-se em
ventos novos sobre a ferida preta do poço phyrexiano.
“Estamos obtendo imagens claras,” disse o acadêmico do mapa em seu tubo de
comunicação. “Uma fortificação principal no centro da fenda, talvez uma centena de
metros quadrados, com muitas torres, grandes e pequenas, parapeitos elevados, e dezenas
de balistas pesadas, cada uma apontando para a borda do desfiladeiro.”
“Trinta e três balistas, pelas minhas contas,” interferiu o estudante.
Jhoira olhou para baixo. Ela podia distinguir a forma preta da estrutura principal e
o arranjo eriçado com atiradores de lanças sobre as torres e telhados. Mesmo enquanto
observava, as longas hastes encurtavam.
“Eles estão redirecionando-as para nós,” ela notou urgentemente.
“Mantenha a altitude,” ordenou Malzra. “Lembre-se, eles têm dez segundos para
cada um segundo nosso. Eles podem responder, reagrupar e se equipar rapidamente.”
“A fortaleza principal parece estar empoleirada na proeminência de uma rocha no
centro de um lago profundo. Não consigo distinguir os contornos do fundo,” relatou o
cartógrafo-chefe. “Estou surpreso com toda aquela água. As fendas rápidas tendem a ter
pouca água. Parece que há inúmeros córregos vazios no desfiladeiro.”
“Algum sinal de estruturas que possam ser laboratórios?” Urza perguntou. “Eu
estou procurando especificamente por instalações de reprodução.”
“Parece haver incubadoras de peixes em vários lugares no lago,” respondeu o
cartógrafo. “Posso distinguir figuras movendo-se entre as comportas e as redes. Quanto
às estruturas de laboratório, eu não poderia dar um palpite.”
O cartógrafo assistente disse, “há várias cavernas e o que poderiam ser minas nas
paredes do desfiladeiro -”

119
Ele parou quando as balistas inclinadas na extremidade oscilaram em um
movimento súbito e violento. Antes que qualquer membro da tripulação pudesse piscar,
um grupo de trinta e três lanças maciças voadoras saltou a mil e duzentos pés abaixo.
Elas correram com velocidade sobrenatural, se transformando de pequenas pontas de
dentes farpados para algo tão grande quanto relâmpagos. Eles subiram a menos de cem
pés da barriga do navio antes de diminuir a velocidade e curvar-se para o solo. Os arpões
das balistas permaneceram um momento no ar e depois caíram. Suas pontas pesadas os
empurraram rapidamente para baixo, e eles afundaram em direção ao envelope temporal
onde os phyrexianos estavam presos. Atravessando a fronteira do desfiladeiro de tempo
rápido, os arpões aceleraram a uma velocidade cegante.
O estalo daquelas trinta e três lanças esmagando os telhados era como múltiplos
trovões. Uma comemoração se iniciou nas tripulações de voo e de terra.
“Excelente,” Malzra disse. “Mantenha tangente, raio e altitude. Fique diretamente
acima deles. Eles vão pensar duas vezes antes de enviar outra saraivada. Estou soltando a
carga de bombas do compartimento cinco.”
Ouviu-se um grande som de catraca quando as portas do compartimento
deslizaram lentamente para baixo. Lá fora as bombas de pólvora caíam. Esses mesmos
dispositivos foram empregados com efeito devastador em Korlis, três milênios antes,
embora tivessem sido jogados às dezenas em tropas marchando em vez de às centenas em
uma fortificação estática. Agora os objetos negros, que pareciam apenas pedras soltas,
rolavam lentamente em seu enxame, ganharam velocidade e caíram na fenda de tempo
rápido. Eles atingiram as tropas em massa, produzindo um distante e ameaçador
estrondo. Acelerados pela velocidade da fenda, eles acertaram.
Luz saltou da fenda. Centenas de labaredas laranjas iluminaram as profundezas
veladas. Linhas do telhado e parapeitos irregulares brilharam em súbito alívio. Os
cartógrafos rabiscavam freneticamente. Então a fumaça obscureceu tudo em um manto
mais profundo, e a escuridão voltou a se assentar.
O som do ataque surgiu um momento depois deste breve e puro brilho, mas
quando chegou, o rugido foi amplificado pelo forte de basalto, a água vítrea embaixo, e
todas as faces do penhasco rochoso. Parecia que uma grande besta tinha despertado,
furiosa, do sono. O barulho encheu o ar por alguns momentos, e então tudo ficou em
silêncio. Fumaça – cinza, branca e preta em pequenas correntes coaguladas – sangrou do
fosso.

120
“Isso chamou a atenção deles,” Jhoira gritou.
“Cartógrafos,” veio a chamada de Malzra, “conquistamos o alvo?”
“Muita fumaça,” respondeu o acadêmico. “Espere alguns minutos para clarear.”
“Isso lhes dará algumas horas para se reagruparem,” Malzra respondeu. “Altitude,
raio, tangente – a nossa posição está mantida?”
“Nós ganhamos altura,” disse Jhoira, “depois que as bombas caíram. Estamos a
mil e setecentos pés de altura.”
“Traga-nos para mil e duzentos,” Urza comandou, “e antecipe a queda da carga
seguinte.”
“O raio está estável.”
“Tangente está estável.”
“Descendo para mil e duzentos pés.”
“Soltando carga seis.”

*****

A primeira onda de ataques matou mais de cento e cinquenta asseclas de K'rrik,


derrubou três torres, explodiu o telhado da sala superior do trono e, o pior de tudo,
trouxe uma morte flamejante para o laboratório de reprodução. Os frascos com cérebros
e placentas estouraram e espalharam-se, as matrizes de recombinação terminaram em
farrapos no chão, as cubas de óleo brilhante acenderam-se em jatos enormes, o estoque
mutante queimou até as cinzas e os assassinos decantados e semi-maduros que K'rrik
criara para sobreviver à fenda do tempo foram torrados vivos. A destruição foi quase
total. Quase.
Fora do caos veio a ordem. Os incêndios do ataque inicial já estavam extintos, os
mortos e agonizantes foram jogados para os peixes, e as balistas foram recalibradas para
alcançarem maior distância. K'rrik ordenou a todas as bestas fisicamente aptas para
salvarem os espécimes, equipamentos e planos que sobreviveram em seus laboratórios de
procriação. Os restos foram levados para baixo do castelo, nas cavernas. As bombas de
Urza poderiam ter explodido buracos em telhados e paredes, mas eles não quebrariam a
extrusão de basalto em que o castelo se assentava e não destruiriam completamente um

121
século de pesquisa. Todas as esperanças de fuga e vitória descansavam nesses detritos
esfarrapados, nos frascos meio cheios de vidro rachado com seus inconstantes habitantes
placentários. Algumas das criaturas sobreviveriam, e os horrores com tentáculos e garras
de K'rrik os carregavam tão ternamente quanto mães humanas com seus bebês.
Tudo isso aconteceu na primeira hora após o primeiro ataque. Quando a fumaça se
dissipou o suficiente para distinguir a linha escura da embarcação de ar acima, os
guardas avistaram mais bombas descansando no ar logo abaixo dela. Elas pareciam
pimenta em um pedaço de papel branco. Era fácil prever onde elas acertariam e evacuar
as áreas.
K'rrik ficou de pé, furioso e humilhado, entre seu povo. Porções de chilreantes
fogos atingiram o telhado de uma torre de guarda e a seção adjacente da parede. O coro
resultante das chamas e explosões sacudiu o resto da fortaleza e ecoou pelo abismo.
Pedaços de pedra atingiram o espaço externo e caíram como chuva sobre a tropa
phyrexiana, que recuou. A torre despedaçou-se, pulverizada pelo ataque. A parede
enfraquecida desmoronou, esmagando um depósito de armas mais baixo. Chamas
começavam onde quer que houvesse madeira, pano ou pele para queimar, e o depósito de
armas inflamou-se. Uma nuvem de chamas e fuligem jorrou em uma vasta coluna, seu
topo rolando e fervendo.
K'rrik observou. Os dentes lixados em sua mandíbula reforçada se amolavam em
suas gengivas opostas, produzindo cortes sangrentos na carne.
“O que você vai fazer?” Ladrou uma criatura ao lado dele. Parecia mais uma pulga
gigante do que um homem, com sua cabeça três vezes o tamanho da de K'rrik e seu
pálido corpo nu corcoveado e torcido. “Você não pode deixar isso continuar!”
“Sim,” K'rrik respondeu sombriamente. Sangue de cor púrpura saiu
repentinamente das costas cortadas da criatura quando K'rrik retirou sua espada. O
monstro caiu do muro onde estavam, seu corpo quicando duas vezes ao longo dos
contrafortes antes de bater nas fundações negras da fortaleza e explodir em uma massa
branca. “Sim, eu não posso deixar você questionar minha autoridade.”
K'rrik virou-se para outro phyrexiano, este mais parecido com um homem, embora
tivesse a cabeça infernal de uma cabra abatida. O comandante ordenou, “Diga a duas
equipes de balista que disparem três rodadas a cada meia hora, disparos menos inclinadas
cairão mais devagar. Tenha equipes prontas na água para recuperarem os arpões. Cubram
o resto das balistas com cadáveres. Quero que Urza pense que ele destruiu a maioria de

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nossas balistas e quase incapacitou aquelas que ficaram. Quero atraí-lo para baixo.
Assim que eles estiverem no raio de alcance, retirem os mortos das balistas e disparem
todas simultaneamente. Mirem nos compartimentos de bombas da máquina voadora.”
Acenando com a cabeça, o homem de cabeça de cabra saiu em sua missão.
K'rrik rosnou para os asseclas ao seu redor, “Quanto ao resto de vocês, apaguem
esses incêndios. E se preparem para mais ataques. Todos os feridos serão mortos. Todos
os mortos serão profanados. É seu dever lutar e viver.”

*****

O terceiro, quarto e quinto lançamentos foram tão bem-sucedidos quanto o


primeiro. Bombas detonaram. Fogo e fumaça surgiram. O som de torres caindo e animais
gritando ergueu-se até encontrá-los. No segundo lançamento, Jhoira aprendeu a técnica
de retirar o calor do envelope de ar no momento em que as bombas eram liberadas,
impedindo assim a máquina de escapar para o alto. Esta técnica permitia ataques em
sequência mais rápidos, maior precisão e menos tempo gasto no enrolamento das cordas.
Até o sexto lançamento. O desfiladeiro abaixo era uma cicatriz cinzenta, tão cheia
de fumaça que nenhuma fortificação ali dentro estava clara. Ainda assim, os cartógrafos
haviam escolhido pontos de referência nas margens do penhasco e, pela memória,
podiam identificar locais importantes para atacar. Estavam acima de um lugar – o que
parecia uma sala do trono ou um grande salão – e Malzra emitiu o agora familiar aviso.
“Eu estou abrindo o compartimento dois.”
Jhoira fez uma pausa e depois retirou o ar da forja. Ela soube imediatamente que
algo estava errado. Não houve nenhum rangido da catraca. Não houve nenhum som de
bombas caindo. Houve apenas a súbita perda de altura enquanto o ar quente era liberado
do envelope de ar.
“O mecanismo está preso,” veio um grito do tubo de comunicação.
Jhoira apertou os dentes enquanto lutava para desligar o vazamento e bombear o
fole. O dirigível se inclinou sobre suas cordas, mergulhando para a direção da crista da
Cabeça do Gigante. O balão desinflado sacudiu de repente. Jhoira levantou os foles e
jatos de ar vermelho entraram no saco. Começou a reinflar.

123
Ruidosos gritos de metal vieram de baixo, tiros de balistas martelavam a
fuselagem. Os tubos de comunicação foram inundados com gritos. Então veio outra onda
de tiros de balistas apenas um instante após a primeira. Elas penetraram. As pontas dos
arpões golpearam as bombas de pólvora. Com um rugido surdo, elas acenderam. A
explosão se espalhou. O compartimento de bombas explodiu. A fuselagem de metal se
fragmentou. A máquina se tornou uma onda de fogo. O que restou da fuselagem arrastou
o envelope de ar.
Jhoira estava de repente dentro do balão, o ar em volta dela assando sua pele e
queimando seus pulmões. Ela estava ciente do grande vazio debaixo dela. Metade da
fuselagem havia se perdido. O resto dela foi enfiado em um emaranhado de cordas para
dentro do envelope de pele. Os outros membros da tripulação estavam mortos – os
oficiais de tangente e raio, os cartógrafos, até o mestre Malzra. Ela estava prestes a
morrer também.
“Sinto muito, Teferi,” foi tudo que ela pensou em dizer.
A fuselagem metálica destroçada caiu da bolsa de ar e se inclinou lateralmente.
Ela puxou o dirigível vazio na direção oposta. O resto despencou em direção ao
desfiladeiro phyrexiano.
O carvão da forja se espalhou ao redor de Jhoira. Xingando, ela se livrou do cinto
e subiu no emaranhado de cordas. Ela escalou, vendo através de sua teia enquanto o
vasto desfiladeiro cinzento se apressava em engoli-la. Uma das cordas era mais grossa do
que as outras e mais apertada. Ela agarrou-a e sentiu o insistente puxão de vida do outro
lado.
“Karn está lá em cima,” ela suspirou para si mesma. Karn e o resto da tripulação
terrestre.
Ela lutou para sair das dobras de pele e da rede esticada de cordas e escalou
aquela corda grossa, a que pulsava com vida. Uma mão de cada vez, ela se arrastou
subindo a corda, em direção à Cabeça do Gigante e para longe da fortaleza phyrexiana.
Havia muita corda, muito pouco ar, e muita pedra.
O mundo rugiu com peso esmagador. Ela subiu.
O dirigível destruído estava a cerca de cem metros atrás dela. Ele atingiu a fenda
de tempo rápido. Ondas de distorção temporal sopraram ao redor dela. A máquina de
guerra despencou em uma súbita corrida sobrenatural. A corda estalou forte. Ela

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arremessou Jhoira para longe dali. O cabrestante foi arrancado de sua base e voou pelo
ar. Houve uma explosão branca dentro da fenda. O céu e o chão se fundiram em uma
única camada.
“Sinto muito, Teferi.” Jhoira atingiu o solo, e tudo ficou preto.

Monólogo

Agora eu entendo, nós não criamos máquinas. Criamos apenas fogo e

morte .

A explosão surpreendeu a todos nós, mesmo Urza . Ele sobreviveu através

de uma grande concentração de vontade , mantendo sua forma corpórea

incólume , mas ao contrário da explosão que destruiu Tolária , ou a que destruiu

Argoth , Urza não tinha se antecipado a esta . Ele estava lutando para manter seu

corpo sólido, mesmo que os membros de sua tripulação não fossem mais do que

partículas vermelhas ao vento.

E não há máquina do tempo para trazê-los de volta .

A explosão surpreendeu a todos nós. Eu invoquei uma muralha de ar,

tentando segurar a embarcação que caía , mas isso só diminuiu sua descida . No

meio do embaraçoso desespero, eu vi Jhoira cambaleando como uma aranha

acima da linha principal em direção à segurança . Essa foi a maior surpresa de

todas, embora não devesse ser. A força de vontade de Jhoira é igual à de Urza .

– Barrin , mago mestre de Tolária

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Capítulo 10

Sentaram-se ao lado da cama de Jhoira, na enfermaria improvisada. Nada de


palete, nada de catre – ela estava em uma cama de verdade – a de Barrin, oferecida por
ele mesmo. A enfermaria era para ser uma cozinha, na extremidade de um grande
corredor, mas agora, em meio a lareiras recentemente apagadas, pilhas de ferro, grades e
potes, ela estava em coma. Ela era a única ferida do acidente com o dirigível. Todos os
outros foram mortos.
Exceto Urza. Ele e Barrin sentaram-se nos bancos de cozinha, próximos à cama, e
falavam em voz baixa:
“Ela se tornou outro Teferi,” Barrin disse com tristeza. “Três meses, e ainda sem
nenhuma resposta. Deitada ali, a um braço de distância, porém inalcançável.”
Urza observou a mulher imóvel, seus olhos cintilando sombriamente.
“Fisicamente, ela está bem. Você me viu colocar as mãos nela. Você viu as feridas se
fecharem e a respiração voltar. Ela ficou inteira no momento em que coloquei as mãos
sobre ela. Eu não consigo entender por que ela não acorda”.
“Suas feridas são mais profundas do que você pode alcançar, meu amigo”, Barrin
respondeu.
Ele tirou o cabelo de sua testa. Seu rosto estava perdendo sua cor após todo esse
tempo embaixo de telhados e cobertores. Seu cabelo estava com as raízes escuras. Era
como se ela estivesse perdendo os anos passados, um por um, e voltasse a ser uma mera
criança.
“Ela sobreviveu à antiga Tolária, por dez anos de abandono, isolamento e desejo.
Então nós voltamos e pensamos que ela retornaria para nós. Mas ela não o fez. Karn era
seu único amigo. Ela estava retraída e assombrada. Cada vez que ela via Teferi – falava
dele, pensava nele – o horror daqueles dez anos voltava. Ela se sentia presa, como ele. A
um braço de distância de nós, porém sempre sozinha.”
“Talvez ela fique em coma para sempre,” disse Urza.
“Não. Ela está lutando. Ela vai ganhar ou perder. Não será para sempre, mas pode
ser um longo período de tempo. Da última vez, ela lutou por uma década inteira”.

126
Urza ergueu os olhos, parecendo enxergar diretamente através do muro e, ainda,
em uma curva oblíqua do mundo para algum lugar deslumbrante que estava além de tudo
aquilo.
“O Reino de Serra já restaurou minha saúde uma vez. Eu a levaria para lá, se Serra
ainda permanecesse lá, se o lugar não estivesse desaparecendo, se eu não tivesse
conduzido Phyrexia até ele…” Uma lembrança passou sobre sua expressão e ela se
endureceu. “Nós temos que continuar essa luta. Em todos os lugares que eu fui, esses
monstros me seguiram. Todos que se tornaram meus amigos foram feridos ou mortos por
eles. Eu me destruiria se soubesse que iria pará-los, mas eles nunca vão parar. Devo lutar
contra eles enquanto eu viver.”
“E se você morrer antes deles serem derrotados?” Barrin perguntou, com
sobriedade. “Então quem vai lutar contra eles?”
Toda a luz fugiu do rosto de Urza, e ele se tornou tão escuro quanto uma máscara.
“Sim, quem então?”

*****

Karn levantou a maciça pedra angular no topo da abóboda. A pedra se esfregou


nas outras colunas. Um pouco de areia escorreu da grande estrutura. As mãos de prata
seguraram incertamente o enorme bloco.
“Está reta?”
Atrás dele, Barrin ergueu os olhos da mesa de Malzra e apertou os olhos ao longo
de uma linha de visão. A pedra brilhava como uma joia no sol da manhã, suas bordas
polidas refletindo a Torre do Artífice e a Torre de Mana em segundo plano.
“Sim, Karn. Parece que está reto.”
O golem de prata concordou e depois perguntou: “Será que vai ficar certa?”
Desta vez, Barrin estava muito ocupado com seus esboços para olhar para cima.
“Claro que vai ficar”.
Ele suspirou. A pilha de projetos e elevações diante dele eram as últimas criações
de Urza para a sua nova academia. Após cinco anos de intenso trabalho, durante o ano
inteiro, a escola já era quase tão extensa como tinha sido em sua versão anterior:
dormitórios, salas de aula, laboratórios, grandes salões, torres de guarda, divisórias,

127
portões, jardins, e agora uma nova enfermaria. Não eram muitos dos cento e noventa
alunos da academia que estavam doentes ou feridos. A maioria era jovem demais para ter
algum problema de saúde sério, além da saudade de casa. Quaisquer feridas ou doenças
eram tratadas com pílulas placebo, gaze e o toque curativo de Urza. Na verdade, esta
nova e grande enfermaria de dois andares era menos uma necessidade e mais um
monumento para a perpétua paciente da escola.
Jhoira não tinha acordado. Ela realmente se tornou outro Teferi. Por sua vez, o
jovem agora estava envolvido na capa úmida e começava uma queda que levaria outro
punhado de anos para completar. Jhoira entretanto estava pálida, seu cabelo marrom
estava escuro novamente. Ela não despertou. Barrin descobriu que a água das fendas de
tempo lento ajudava a sustentar sua saúde, e Urza fornecia seu toque de cura
diariamente. Nada melhorava. Urza inventou uma máquina que liquefazia qualquer
comida oferecida nos grandes salões e bombeava em seu estômago. Karn, por sua vez,
desenvolveu o hábito de escolher flores silvestres para ela das encostas da Mata
Angelical e levava-as para a cama dela. Muitas vezes ele ficou de vigília lá, preferindo
passar as noites ao lado dela em vez de ficar desativado.
O peso da situação caía fortemente sobre Barrin e Karn enquanto eles trabalhavam
na nova construção. Ambos se movimentavam tristes e vagarosos, como se estivessem
construindo um necrotério em vez de uma enfermaria. Eles também carregavam raiva e
frustração pela incapacidade de conseguir salvá-la.
Karn subiu ao lado da mesa e ficou de pé, refletindo o sol brilhante e quente.
Barrin protegeu os olhos do brilho e disse, com irritação: “Você não consegue ser
um pouco mais opaco?”
“O mestre Malzra proíbe isso,” respondeu Karn com sinceridade. Então, com um
tom de sarcasmo, que ele esteve lentamente desenvolvendo nos últimos quinze anos, ele
disse: “Incomodaria menos se você usasse um saco sobre sua cabeça.”
Barrin lançou um olhar de reprovação ao golem. “Eu acho que talvez seja hora de
criar um novo ajudante – um com uma pele mais espessa, se possível.”
“Se você está procurando compatibilidade, experimente um ajudante com uma
cabeça maior.” “Maior do que Arty-Cabeça-de-Pá?” “Teferi era um companheiro melhor
do que você…” “Um sapato velho é melhor companheiro do que você-” Um súbito
zumbido rasgou o ar entre os dois. Eles se voltaram instintivamente para trás,

128
boquiabertos. Alguma coisa havia sido disparada, tinha o tamanho e a velocidade de um
falcão, acima das copas das árvores. Aquilo circulou e mergulhou em direção a eles
novamente. Tinha um brilho metálico.
Barrin xingou, se aproximou da mesa e puxou uma espada dela. Quando a coisa
voltou novamente, ele balançou a lâmina. Ele acertou no ombro da máquina prateada,
mas o pássaro de metal voltou a subir, arrancando folhas dos ramos das árvores enquanto
disparava pela floresta. O som de sua passagem desapareceu brevemente e depois
retornou em uma velocidade crescente. Rosnando, Barrin ergueu sua lâmina novamente e
observou o mecanismo gritar internamente.
Karn entrou no caminho do atacante. Ele se levantou, fechou um punho e
esmurrou a coisa voadora. Ela se quebrou no meio da selva de escoras rompidas e molas
desenroladas. A criatura metálica caiu no lixo. Suas asas metálicas resplandeciam,
estremecendo em ambos os lados. Espetos se projetaram dos dois lados. Uma grande
variedade de lâminas surgiu, girando violentamente.
Surpreendidos, Barrin e Karn observaram como o dispositivo quebrado gemia
furiosamente. Ficaram tão impressionados com a exibição que nem perceberam que o
mestre Malzra se aproximava por trás. O artífice observava com divertido interesse. Foi
só quando o mecanismo quase se desgastou e ficou parado que o mestre falou.
“É apenas um protótipo. Os falcões finais alcançarão centenas de milhas por hora
na descida do desfiladeiro, chegando antes mesmo do som que eles fazem. Eles vão
sentir o cheiro do óleo brilhante phyrexiano, voar em sua direção, penetrar no interior da
besta e iniciar um procedimento de trituração.”
Arfando fortemente, Barrin virou-se para o homem. “Quantos deles você vai
construir?”
“Tantos quanto eu puder, considerando a nossa quantidade de powerstones Thran.
Se eu pudesse projetar e construir minhas próprias powerstones, eu preencheria os céus
com essas criaturas, talvez pudesse proteger o mundo inteiro. Com as pedras que temos –
e as que eu espero descobrir em três sítios Thran que encontrei – talvez eu consiga fazer
mil.”
“Três sítios Thran?” Barrin perguntou, com uma sobrancelha inclinada. “Você está
planejando enviar estudantes para escavar?”

129
“Sim”, respondeu Malzra. “Eles serão levados a bordo da Nova Tolária, e o navio
retornará com uma nova carga de estudantes, os quais eu escolhi entre os melhores e
mais brilhantes que o mundo tem para oferecer. Eu estou com o itinerário aqui. E já que
eu, eu mesmo, preciso permanecer aqui para a pesquisa-”
“Sim, sim,” respondeu Barrin com irritação. “Quantos anos eu ficarei longe desta
vez?”

*****

“Agora, Teferi está coberto com o seu manto,” disse Karn suavemente. Ele sentou-
se junto à cama de Jhoira na, agora completa, enfermaria. “Ele não está mais se
queimando. Você o salvou.” Ele não acrescentou que agora o rapaz poderia se levantar e
caminhar para o mundo exterior e ser morto na cortina do tempo.
Jhoira estava muito frágil para suportar esse tipo de notícia. Ela parecia pálida e
pequena na cama. Seus braços e pernas estavam fracos pelos anos parados, seus olhos se
perderam embaixo das pálpebras sempre fechadas, sua boca estava vermelha, onde descia
o tubo de alimentação de Malzra.
“Os novos alunos estão chegando hoje,” disse Karn, mudando o assunto. “Barrin
esteve fora os escolhendo nos últimos três anos.”
Karn olhou para as vigas do prédio. A academia estava finalmente completa.
Malzra havia concluído seus projetos de construção. Agora ele gastava toda a sua energia
no arsenal que estava criando para erradicar os phyrexianos do desfiladeiro. Ele falou da
batalha como um “ensaio geral para a conflagração global.” É a sua nova mania. As
mentes de todos os acadêmicos e estudantes eram treinadas para aquela tarefa. Uma
equipe desenvolveu uma bateria de balistas de longo alcance, que estavam estacionadas
em um círculo ao redor do local, armadas dia e noite ao redor da fortaleza. Outro grupo
havia criado um conjunto de catapultas, que lançavam bombas de pólvora, tão
rapidamente quanto podiam ser produzidas. Os rios foram represados e desviados do
desfiladeiro para esvaziar o criadouro de peixes de Phyrexia e deixá-los sem ter o que
comer. Enquanto isso, cada um dos estudantes passava horas do dia montando os
delicados e complexos falcões que Malzra havia inventado. Ele faria qualquer coisa para
destruir os phyrexianos.

130
Por outro lado, nesses dez anos, o que ele havia feito para salvar Teferi ou Jhoira?
Delicadamente, Karn agarrou o tubo que conectava o aparelho de alimentação de
Malzra ao estômago de Jhoira. Lentamente, o homem de prata retirou a mangueira. Ela
emergiu com uma sacudida e um movimento de sucção.
Karn colocou o tubo de lado e disse gentilmente: “Venha comigo.” Ele levantou
sua forma flácida em seus braços e, com um passo firme, levou-a pela porta.
Foi uma longa caminhada pelos altos edifícios da nova academia e através do
portão ocidental. Ninguém o parou, embora todos olhassem. Karn era bem conhecido
entre os estudantes e os acadêmicos, o guardião e o construtor sempre presente. Jhoira
também era conhecida, a fantasma nunca presente da antiga ilha. Para todos, eles eram
queridos amigos, e metade daqueles que vislumbraram os dois acreditavam que ela tinha
morrido, e ele a levava para ser enterrada. A outra metade presumiu que Karn estava
obedecendo algum comando do inescrutável mestre.
Karn a levou por sua própria escolha, e por escolha dela. Ignorando os poços e
pináculos assassinos de tempo, o homem de prata levou Jhoira através das densas
florestas de Tolária, de densos blocos de arenito, ao lugar secreto que ela havia mantido
no lado ocidental da ilha. Suas coisas ainda estavam lá, do jeito que ela deixara há dez
anos, assim como ela deixara Tolária dez anos atrás.
“É hora de você voltar”, disse Karn fortemente.
Ele a levou para a borda ensolarada de arenito, onde ela adorava ficar de pé e
olhar para o mar. Ele subiu na pedra e se sentou. Jhoira estava pequena e fria, enrolada
em seu colo. Ar salgado se erguia calorosamente entre eles, levantando e movimentando
suavemente o cabelo de Jhoira. As fortes ondas abaixo transformavam pedras em
pedregulhos e pedregulhos em areia. O céu era infinitamente azul. Nuvens deslizavam
lentamente através dele. No horizonte do vasto oceano, uma pequena vela brilhava –
Nova Tolária estava retornando.
“Você sempre disse que estaria aqui, nesta pedra, quando sua alma gêmea
chegasse.” Ele olhou para ela, imóvel, uma tristeza desesperada em sua voz. “Acorde,
Jhoira. Você já dormiu muito.”
Apenas seu cabelo se mexeu, levantado pela brisa acariciadora.
“Você tem que voltar, Jhoira. Apesar das suas melhores intenções, o mestre Malzra
transformou a escola em uma fortificação, os estudantes em um jovem exército. Ele está

131
trazendo mais alunos, para fazer o mesmo com eles.” Karn olhou desoladamente para o
barulho das ondas. “Você não teria permitido isso. Você era a alma desse lugar. Você se
lembra de como eu era antes do mestre Malzra me dar aquele cristal escuro – o que ele
chamou de córtex intelectual e afetivo? Você se lembra do que eu era antes de ter uma
alma? Assim é a ilha sem você.”
Ainda assim, houve apenas a lenta mudança de respiração nela, os braços e as
pernas em um repouso lânguido.
“Olhe para esse enorme mar escuro. Você vê aquele pedaço de branco. É a
esperança de Tolária retornando. Eu sei que você esteve tão distante. Eu sei que sua alma
se sente pequena, perdida em meio a grandes ondas e ventos fortes, mas é a nossa melhor
esperança. Volte.”
Então houve um piscar em suas pálpebras. Karn ficou imóvel, não ousando
acreditar. A respiração de Jhoira ficou mais profunda, e ela parecia se mexer contra ele.
Seus olhos novamente estavam fechados.
“Se você não acordar agora, poderá perder sua alma gêmea.”
“Eu… sonhei-” veio uma voz, tão rápida e evasiva quanto o vento, “Eu…
busquei… Eu sei como atravessar…”
“O quê?” Karn disse, estupidamente. Ele olhou para ela, mas ela estava novamente
inconsciente, seu corpo tão macio quanto a capa molhada que ela tinha jogado sobre
Teferi.
Karn se levantou, a mulher em seus braços. Ele sentiu como se tivesse um coração
em seu peito, por toda a dor que ele sentia. Ela estava despertando, ou era apenas a
ilusão de um homem prateado entregue à fantasia? Sentindo como se o seu peso tivesse
dobrado, ele cambaleou de volta para a distante academia. Qual curandeiro saberia como
acordá-la novamente? E se ela nunca acordasse novamente? Como ele viveu esses dez
anos sem ela?

*****

K'rrik estava no meio do seu profundo laboratório de mutantes, enterrado na base


do seu castelo, sem qualquer iluminação. Há vinte anos o local havia sido exposto, não
era mais protegido por água – desde que o planinauta Urza desviara os rios do

132
desfiladeiro para matar os peixes que eles comiam. K'rrik tinha represado a extremidade
do desfiladeiro, criando um lago raso e estagnado, onde pelo menos peixes-pescadores
poderiam ser criados a partir dos resíduos derramados na água. Há quarenta anos,
bombas de pólvora e arpões de balista choveram sobre suas cabeças. Urza deve ter
limpado as florestas da ilha tão rapidamente quanto ele havia limpado Argoth. Se não
fosse por ele, nenhum relâmpago, granizo, inundação ou fome teria chegado a esta
profunda caverna e seu precioso conteúdo.
Em grandes barris de obsidiana, derretida e criada com esse objetivo, a última
geração de neutralizadores de K'rrik estava gestando, amadurecendo. Cabeças grandes e
pulposas, corpos horrivelmente distorcidos, braços tão afiados e finos como espadas,
pernas que poderiam vencer a velocidade de chacais, pés com garras que poderiam
esmagar o crânio de um homem como se fosse apenas um melão. Em dois anos, esse
sexto lote de neutralizadores modificados estaria pronto para sair de seus barris,
totalmente formados, prontos para escalar as paredes do desfiladeiro e para lutar na
enorme cortina de tempo que os cercava. Talvez eles morressem, como as cinco colheitas
anteriores. Talvez eles vencessem, fracos demais para subjugar o homem no coração
atormentado de K'rrik.
O homem? O Deus!
Independente do que acontecesse, K'rrik já havia ceifado suas carnes, testado,
melhorado. O sétimo lote seria mais forte ainda e estaria pronto em outra década. Em
nada mais do que vinte anos do tempo de Urza, sua bela academia ajardinada seria
invadida por phyrexianos, criados para andar ilesos através da pior das tempestades
temporais, e – esta era a melhor parte – criados para serem absolutamente fiéis ao seu
mestre, K'rrik. Para eles, ele era mais do que um antigo adormecido, mais do que um
inabalável e indomável líder de guerra. Para eles, ele era um deus. Ele era Yawgmoth
encarnado.

*****

Passaram-se seis meses desde que Jhoira despertara pela primeira vez nos braços
de prata de seu velho amigo. Os curandeiros e o próprio Malzra não tinham sido capazes
de revivê-la, apesar de suas intervenções intensas e às vezes rigorosas.

133
O toque de Karn havia funcionado onde a mágica das mãos não haviam
conseguido, trazendo-a de volta mais vez uma semana depois da primeira ocasião. O
momento de lucidez foi breve e febril, mas Jhoira novamente disse que ela estava em
uma busca visionária e havia encontrado uma maneira de “atravessar”. A esta revelação
enigmática, ela acrescentou que sabia como se salvar – e salvar Teferi – então ela voltou
para a inconsciência.
Desde então, Karn se recusara a ajudar em quaisquer trabalhos de guerra. Ele
passara o tempo sentado ao seu lado, gentilmente falando com ela durante as longas
horas da noite, dizendo a ela qualquer coisa em que ele pudesse pensar, até mesmo lendo
histórias de Shiv da biblioteca da academia. Era como nos velhos tempos, os dois
estavam servindo de casa um para o outro, retirando-se do ignorante mundo externo que
não reconhecia e nem acolhia nenhum deles. Jhoira respondera. Logo, ela começara a
acordar a cada hora, ou mais, e chegara a permanecer acordada durante alguns minutos.
Karn a forçara a tomar caldo e comer pão nessas ocasiões, recusando-se a colocar o tubo
de Malzra em sua garganta. Um mês depois, ela estava apta a se sentar, e seus braços e
pernas estavam mais fortes. Nesse ponto, ela pedira papel e ferramentas para escrever.
Ela esboçara uma máquina complexa que nem mesmo Malzra conseguia visualizar
completamente: os tubos longos e câmaras de bombeamento, com grandes engrenagens
movimentando enormes velas de tecido, uma grande turbina conduzida por equipes de
trabalhadores… Quando Barrin e outros acadêmicos expuseram suas reservas sobre o
grande e dispendioso projeto, nenhum deles falara sobre sonho ou delírio, mas este
pensamento se encontrava em suas palavras.
Karn reuniu um grupo de jovens e brilhantes estudantes do novo grupo que havia
chegado à ilha. Ele os levou até a enfermaria e os equipou com quaisquer ferramentas e
recursos que Jhoira indicasse. Eles trabalharam incessantemente, aquelas crianças,
sempre guiadas por Jhoira e sua visão.
Três meses depois, sua criação foi levada para o centro do charco temporal, onde
estava o monumento de Teferi. A criadora também foi levada para o local, em um
carrinho que Jhoira tinha modificado para a situação. Toda a academia se reunia
enquanto os jovens protegidos da mulher rolavam longos e flexíveis tubos para fora da
área de tempo lento, além das montanhas, para uma fenda de tempo extremamente
rápido. Enquanto eles trabalhavam, discretos rumores de dúvida circulavam entre a
multidão.

134
Jhoira ergueu-se ao lado da máquina que ela vislumbrara durante o seu coma. Ela
bateu no lado de um reservatório de metal. O som estrondoso chamou a atenção do
grupo.
Assim que eles se acalmaram, ela começou a falar: “A ideia é simples. A água
resiste às mudanças de tempo. Nós já testemunhamos isso. Nós, sobreviventes da
primeira academia, usamos as propriedades de água lenta para parar de envelhecer.
Assim, também, a água do tempo rápido é relutante em desistir da sua velocidade. Esta
máquina retira água de uma fonte subterrânea de uma fenda de tempo rápido. Essas
bombas enchem os reservatórios com água. Então, esses conjuntos de manivelas
energizam a turbina de vento e o tecido das velas. As lâminas giratórias mergulham no
reservatório, jogando água nas velas de algodão. O vento da turbina sopra através do
tecido de algodão e produz um nevoeiro espesso de água de tempo rápido. A nuvem
saturada de tempo rápido criará um corredor seguro para passagem até a fenda de tempo
onde Teferi está, e para sair de lá.
Em silêncio, a dúvida se tornou admiração.
“Alguma criatura orgânica passou com sucesso por essa nuvem de tempo rápido?”
Barrin perguntou com sensatez.
O semblante de Jhoira caiu. “Esta máquina é o resultado não apenas de artifício,
mas de uma visão – a visão de Ghitu. Nós não testamos o aparelho em criaturas vivas.”
“Eu vou entrar”, disse Karn, sua voz era como o estrondo de cascalho se
quebrando por uma onda. “Eu fui feito para suportar distorções temporais que matariam
qualquer coisa viva, e eu acredito na visão de Ghitu.”
Barrin, parecendo decepcionado, continuou suas objeções. “Sim, Karn, mas
apenas porque você pode caminhar seguramente no bolso que contém Teferi não significa
que ele poderia sair de lá em segurança.”
Foi a vez de Karn olhar para baixo, derrotado.
“Eu irei com ele,” veio outra voz baixa e todos voltaram suas atenções para o
interlocutor de barba e olhos brilhantes.
“Mestre Malzra?” Barrin protestou. “Está fora de questão. Precisamos de testes
adicionais, testes em animais, antes de qualquer um de nós entrar na nuvem -”
“Eu acredito nesta máquina,” Malzra respondeu. “É um bom projeto. É a primeira
ideia que qualquer um de nós teve sobre cruzar fendas severas. Eu acredito nesta

135
máquina e…” ele fez uma pausa para dar uma piscada para Barrin “…já que eu sou o
culpado por Teferi estar preso ali, eu lhe devo ajuda para libertá-lo.” Ele gesticulou para
os discípulos de Jhoira, um grupo ansioso ao lado da válvula de bombeamento: “Encham
o reservatório.”
Radiante, Jhoira assentiu com os alunos, que começaram a acionar as bombas com
todas as suas forças. Os tubos sibilaram e gaguejaram por um tempo até que os primeiros
salpicos de água marrom caíram no reservatório. O líquido se espalhou pela base da
calha e evaporou-se imediatamente, deixando um resíduo de pó seco.
Jhoira ficou angustiada ao ver isso, mas Malzra foi em sua direção e acariciou seu
ombro. “Isso mostra que a água mantém suas propriedades de tempo rápido. Seja
paciente. As bombas farão o seu trabalho. É um excelente projeto.”
A água inundou os tubos da bomba e escorreu ao longo da base da calha. Ela
brilhava e salpicava com velocidade sobrenatural, ondas retangulares percorrendo sua
superfície. Os alunos continuaram seu trabalho nas manivelas. O nível da água
aumentou. Parecia estar cheia de peixes, tão enérgica era a sua superfície. Chegou na
metade do reservatório e continuou subindo. A multidão ao redor do tanque assistia
ansiosamente.
Malzra estava ao lado de Karn quando as lâminas cobertas de algodão começaram
a girar dentro da calha. Após uma volta completa, os trabalhadores da turbina começaram
a girar as manivelas. Um vento quente e não-natural começou a soprar da extremidade de
um dispositivo para outra, acertando o algodão umedecido e produzindo uma leve
borrifada. O vento soprava o vapor, manchando o chão entre a máquina e a alcova onde
Teferi estava, sob seu manto encharcado. O borrifo entrou no poço lento e se arrastou
lentamente sobre ele. Aqueles que estavam próximos ao santuário se esforçaram para não
fazer nenhum movimento em direção à figura agachada – o giro do tecido molhado, a
aceleração das gotas. Quando as equipes da manivela estabeleceram um forte ritmo, a
névoa engrossou e se tornou uma parede branca, opaca e cintilante, na luz solar.
Jhoira sinalizou para Malzra.
Ele estudou a parede de névoa diante dele. Ela se movimentava em uma dança
vertiginosa, as partículas suspensas de água eram tão importantes quanto haviam sido na
calha.

136
“Bem, Karn, parece que a criatura e o criador entrarão juntos nesta máquina do
tempo.”
O homem de prata olhou para a névoa túrgida. “Posso ir na frente e fazer um
relatório.”
Malzra negou a sugestão com uma simples sacudida de cabeça. “Nós vamos, lado
a lado”. Assim, os dois caminharam para a borda do nevoeiro e entraram.
A névoa envolveu Karn com força súbita. Ele sentiu como a puxada do mar
quando caiu do seu cone, em uma viagem no tempo. Ele conseguia sentir as lajes
molhadas abaixo de seus pés, mas a névoa passava sobre ele como um vendaval. Se
mantendo firme contra as rajadas giratórias, Karn colocou uma mão para frente, para
garantir que Malzra estava ao seu lado dele. Através do impenetrável ar branco, grosso
como tinta, era impossível enxergar o homem. As lufadas de vento circundavam algo
sólido. Karn balançou a mão e a atingiu outra mão. Malzra alcançou os dedos do homem
de prata e se agarrou firmemente.
Os ventos diminuíram. As forças violentas que destruiriam a armadura de Karn se
tornaram uma torrente e, em seguida, uma brisa.
A voz de Malzra parecia comprimida, como se tivesse sido apertada em uma
grande prensa. “A diferença de tempo… está nivelando…”
Karn respondeu facilmente: “Você está tendo problemas para respirar.”
“Eu não preciso… respirar,” ele respondeu. Novamente os ventos suavizaram.
“Devemos caminhar. Estamos quase… agora o tempo se ajustou. A cada minuto que
passamos aqui, passam horas… lá fora”
De ombro a ombro, eles caminharam para frente, alinhados com o nevoeiro.
Embora o tempo no nevoeiro estivesse compactado, o espaço permanecia constante. Em
apenas cinco passos, a névoa branca voltou a ser cinza, e eles podiam sentir o iminente
local atrás do santuário de Teferi. O próprio menino estava em um distinguível canto,
coberto, no chão. Karn ficou satisfeito por não ter pisado nele. Ou talvez não importasse,
pois Teferi não parecia se mexer embaixo do manto molhado.
Exceto que ele estava ofegante…
“Teferi”, disse Malzra, a completude de volta à sua voz, “levante-se.” Nós temos
que tirar você daqui.

137
Um pequeno arrepio se moveu através do manto e uma voz jovem e sem ar surgiu:
“Quem são vocês? Anjos?”
Malzra riu, mas foi Karn quem respondeu: “Sou eu, Teferi. O Arty Cabeça-de-Pá.
Estou aqui com o Mestre Malzra.”
O menino tirou o manto de sua cabeça e olhou fixamente na escuridão espessa.
Ele não poderia ter enxergado nada além de duas figuras imponentes enroladas em um
nevoeiro denso.
“O que está acontecendo? Tinha um grande raio lá fora e um trovão tão alto que
eu não conseguia ouvir nada, então tudo estava voando e queimando, inclusive eu. Assim
que eu consegui colocar meus pés no chão, eu corri. Tudo estava ferventemente quente, e
então, de repente, veio essa escuridão e vocês dois.”
“Nós viemos tirar você daqui,” repetiu Malzra.
A nuvem cinzenta que os rodeava de repente escureceu e cresceu. A noite havia
caído no mundo externo. Somente a Lua Tremeluzente, brilhando além do nevoeiro,
iluminava o caminho.
Sentindo uma nova urgência, Karn abaixou, tirou o manto e ergueu Teferi pela
mão. “Venha. Apresse-se. Jhoira está esperando.”
“Jhoira?”, disse o menino enquanto tropeçava em seus próprios pés. “Eu ficarei
feliz em vê-la.”
“Venha.”

Monólogo

Após a primeira hora de partida , eu caminhei entre a multidão,

organizando os alunos em grupos que ficariam em turnos, alimentando as

bombas, os moinhos de vento e as turbinas. Se o fluxo de névoa de tempo rápido

parasse por apenas um segundo, Urza , Karn e Teferi poderiam ser despedaçados

em seu fosso temporal . As equipes trabalharam durante toda a noite . Eu os

fortaleci com uma série de feitiços de mana branca que eu conhecia . Enquanto

isso, Jhoira e eu ficamos ao lado da máquina monitorando-a para possíveis

138
tensões e colapsos. Não houve nenhuma crise – como Urza disse , era um

excelente projeto.

A crise real era a de esperança . Me ocorreu, após a primeira hora , que

Urza e Karn poderiam ter sido rasgados em pedaços, momentos após terem

entrado nela . Eles poderiam estar mortos dentro da muralha de vapor,

invisíveis para nós. Quanto tempo nós deveríamos manter nossos trabalhos?

Dias? Semanas? Meses? Eu poderia dizer que essas mesmas reflexões sombrias

estavam assolando Jhoira , apesar de nenhum de nós expressar aquelas

preocupações. Era a metade da manhã do outro dia , quando eu comecei a ouvir

essas perguntas murmurarem entre as equipes da manivela . Havia sido uma

noite cansativa e sem sono para todos nós – a fadiga do labor coberta pela

fadiga da crescente dúvida .

“Por quanto tempo manteremos isso?” Perguntei a Jhoira calmamente ,

durante a tarde ardente .

“Continuaremos até a máquina quebrar ou o mestre e Karn emergirem.”

Fiquei animado com as palavras dela . Ali estava uma mulher que tinha

lutado contra um coma durante dez anos, para projetar uma máquina digna do

próprio Urza .

Uma rápida caminhada pela colina me disse que nossos trabalhos

acabariam em breve . A água na fenda rápida não duraria a noite toda .

Eu estava descendo a encosta para informar esta grave notícia a Jhoira

quando tive uma visão aterrorizante . O moinho de vento parou, as turbinas

cessaram seu lamento, e as grossas paredes de névoa se dissiparam ao vento. Eu

comecei a correr até que vi Urza , Karn e Teferi de pé , eles haviam acabado de

emergir, vivos, do poço do tempo. A multidão de estudantes soltou um grito

espontâneo e rodearam os três refugiados. Eu me apressei em direção a eles até

que vi outro grupo de jovens, reunindo-se discretamente ao redor do carrinho de

139
rodas de Jhoira . Em alguns instantes eu cheguei ao seu lado. Seus olhos estavam

fechados, as mãos em suas coxas, mas a respiração fluía levemente em seu peito.

“Ela ficou acordada até que eles emergiram,” disse um dos alunos com

uma quieta reverência , “e então, logo depois-”

“Descanse , querida menina ,” eu disse com carinho, acariciando o suado

cabelo de sua testa . “Durma um pouco mais. Nós te acordaremos de novo. Nós

sempre vamos te acordar.”

– Barrin , mago mestre da Tolária

140
Capítulo 11

Teferi não se adaptou bem aos meses que se seguiram ao seu resgate. A explosão e
o fogo em seguida foram horríveis, é claro, mas ele ficou intensamente devastado pelo
fato de que o mundo e todos os seus antigos amigos estavam quase vinte e cinco anos
mais velhos. Equipes de curandeiros aconselharam cuidadosamente a vítima sobre o seu
infortúnio, com foco no seu isolamento na fenda de tempo lento.
“Que isolamento?” ele perguntou. “Eu fiquei sozinho por três segundos! Quando
você está pegando fogo, você não se preocupa se está sozinho. Os catorze anos antes da
explosão foram mais traumáticos. Aquilo sim era isolamento! Eu não tinha colegas da
minha idade. Todos eram cinco anos mais velhos do que eu. Agora eles têm quase três
vezes a minha idade! Jhoira tem quarenta. Malzra provavelmente tem quinhentos e
quarenta. E quanto a Teferi? Ah, ele ainda tem quatorze!”
Era outra ferida que Urza não poderia curar.
Aparentemente, nem Teferi poderia. Após semanas de acompanhamento, Teferi
pediu aos curandeiros que desistissem. Quando não o fizeram, lançou um encantamento
que provocava coceira neles. Eles lutaram para manter sua compostura, mas logo
estavam se coçando como um bando de vira-latas. Eles fugiram.
Teferi saiu da enfermaria. Ele caminhou pela finalizada academia.
“Aquele muro não estava aqui antes,” ele rosnou, e lançou um feitiço sobre ele.
Espirais verdes de energia saltaram de seus dedos e açoitaram a grama na base da parede.
Hera cresceu desenfreadamente do chão, esmagando a parede de pedra calcária. Em
instantes, o reduto foi enterrado profundamente sob um exacerbado monte verde. “Olhe
para essas adoráveis torres.” Sua mão se moveu novamente. Musgo brotou pelos telhados
de ardósia azul e se pendurou em barbas cinzentas.
A birra de Teferi começou a atrair uma multidão de estudantes. Cabeças passavam
por trás das persianas. Faces apareciam nas portas. Alunos emergiam para seguir o
tempestuoso rapaz. Todos o conheciam do monumento de Teferi e estavam
entusiasmadamente agrupados para ver o eremita adolescente em ação.
Teferi se virou. “Saiam daqui. Estou cansado de ser encarado! Vocês têm quase
quinze anos! Olhem para outra coisa!”

141
Os estudantes se afastaram dele, mas no momento em que Teferi avançou, eles o
seguiram.
Respirando profundamente, Teferi berrou. “Então, vejam isso!”
As vestes do estudante da velha Tolária abriram-se de forma constrangedora na
parte de trás, tornando possíveis diversas funções necessárias – e essa desnecessária.
Uma nova geração de estudantes vislumbrou a infame “Violação de Etiqueta” de
Teferi. Muitos se viraram com repulsa. Outros riram, alguns até conferindo se seus trajes
de trabalho permitiriam uma exibição semelhante.
Teferi ficou aparentemente insatisfeito com essa resposta e adicionou à sua
exibição visual uma olfativa. Ele lançou um feitiço que espalhou uma nuvem fedorenta
por toda a academia. A multidão cobriu a boca, fechou os olhos e correu. As portas e as
persianas se fecharam. A comunidade que tinha encarado Teferi continuamente por mais
de uma década finalmente fechou os olhos para ele.
E ele desapareceu.
Finalmente, a nuvem esmagadora se dissipou o suficiente para que estudantes e
acadêmicos se aventurassem nas ruas.
Barrin e Malzra ficaram furiosos, uma experiência de uma semana de duração
arruinada. A raiva deles só aumentou quando ninguém conseguiu encontrar o brincalhão.
“Procurem em todos os lugares,” Barrin ordenou aos estudantes nas ruas. Ele
chiou para Malzra. “Não o salvamos do fogo e do tempo apenas para perdê-lo para a
estupidez.”
Toda a escola foi mobilizada. Parecia que eles estavam sofrendo uma invasão. Era
uma pena que Teferi tivesse desaparecido, pois ele adoraria ter aquela visão.
Jhoira surgiu no barulho. Estudantes e acadêmicos enxameavam como um exército
de formigas por toda a academia, abrindo todas as portas, olhando sob cada cama,
cutucando cada cortina e tapeçaria. A testa dela estava enrubescida de consternação.
“Teferi, onde você está se escondendo?”
Um sorriso surgiu em seu rosto. Era como se ela pudesse ler a mente dele.

*****

142
“Eu sabia que iria encontrá-lo aqui,” disse Jhoira calmamente enquanto se
aproximava de seu lugar, no extremo oeste da ilha.
Teferi não se virou. Ele se sentou num ensolarado declive de arenito e olhou para
o mar brilhante. Ele viera a esse lugar uma vez antes, anos atrás, e descobrira Kerrick e
Jhoira em um encontro amoroso. Teferi deve ter ficado de coração partido, mas ele não
havia traído o segredo dela, mesmo diante das perguntas de Malzra.
Jhoira lembrou-se do tempo. Para ela, tinha sido há eras, mas, para Teferi, tinha
sido apenas uma questão de meses. Eras. Meses. O que eles significavam para Tolária? A
própria Jhoira parecia só um pouco mais velha do que naqueles dias. A água do tempo
lento manteve sua idade externa em torno de vinte e dois, e o coma a deixara ainda mais
jovem. Sua interior busca visionária a restaurara. A busca salvara a ela e também a
Teferi. Ela descobrira uma forma de atravessar a barreira temporal que o isolara e a
barreira social que a isolara. Eles talvez não fossem almas gêmeas, ela e Teferi, mas
eram gêmeos metafísicos.
Jhoira aproximou-se da rocha e se sentou ao lado dele. Era como se ela estivesse
retomando aquele triste momento de anos atrás, embora agora Kerrick tivesse
desaparecido. Parecia certo se sentar ao lado de Teferi.
“Fico feliz que você esteja aqui. É um bom lugar para ficar, quando você se sente
encurralado entre Tolária e o mundo.”
Os músculos da mandíbula de Teferi apertaram. Ele olhou para o mar.
“Se você precisa estar sozinho, é o melhor lugar do mundo.”
“Você não entende”, Teferi interrompeu.
“Sim, eu entendo”, disse ela. “Sim, eu entendo.” Ela estendeu a mão para ele.
Ele não a pegou. “Estamos mais distantes do que nunca. Quando você tinha
dezoito anos, você sempre me disse para crescer. Bem, olhe, agora você tem quarenta
anos e ainda não aceitei seu conselho.”
“Esta é Tolária,” disse Jhoira, filosoficamente. “O tempo não importa. Você verá.
Em alguns anos, teremos a mesma idade.”
Ele respirou fundo. “Alguns anos… uma eternidade, uma terrível eternidade.”
“Não é tão terrível”, disse Jhoira, “quando você tem amigos.”
Finalmente, ele pegou sua mão. “Obrigado, Jhoira. Obrigado.”

143
*****

Sete anos se passaram desde que Teferi fora libertado de sua prisão temporal.
Durante esse período, ele finalmente se tornou um homem: um jovem, com certeza, mas
aos vinte e um, ele e Jhoira pareciam ter a mesma idade. Ela havia bebido da água de
tempo lento durante duas décadas. A maioria dos acadêmicos e estudantes com idade
superior a trinta também tinham permissão para beber a água de tempo lento uma vez por
ano – a frequência necessária para parar o envelhecimento. Beber a água com mais
frequência causava doenças estranhas. Como ninguém entendia os efeitos a longo prazo
da coisa, seu uso foi estritamente regulamentado. Aqueles com menos de trinta foram
proibidos de beber. Teferi, a certa altura, teve que ser repreendido por Barrin por beber
água de tempo rápido, na esperança de crescer mais depressa.
Nos sete anos em que esteve livre, o jovem Teferi se destacou entre os alunos e
mostrou uma nova maturidade. Sua natureza arteira finalmente se desenvolveu, embora
ainda tivesse uma sagacidade afiada e, esporadicamente, uma língua afiada.
Entre as inovações mais engenhosas de Teferi, foi organizada uma equipe de
“espeleólogos temporais” – estudantes interessados em estudar os efeitos do movimento
de entrada e saída de gradientes de tempo mais acentuados. Eles modificaram a máquina
de Jhoira para criar pontes artificiais duradouras em transições de tempo mais drásticas.
Teferi até mesmo foi pioneiro no uso de rios existentes para atravessar cortinas
temporais. Ao submergir-se completamente na água e segurar um grande jarro de vidro
com ar invertido sobre a cabeça, um espeleólogo poderia ser carregado pela corrente e,
amortecido pela água, se reajustar lentamente a um tempo diferente. Através de tais
descobertas, a academia conseguiu estabelecer laboratórios em áreas de tempo rápido
moderado, onde um mês de experimentação poderia ocorrer em uma semana.
O efeito mais visível desses laboratórios acelerados foi a rápida proliferação de
falcões de ataque de Malzra. Seus mecanismos intrincados eram fabricados com mais
rapidez do que as powerstones podiam ser encontradas. Os cristais chegavam a bordo da
Nova Tolária apenas em números esporádicos, pois ela fazia suas viagens de um sítio
Thran para outro.
Enquanto isso, Malzra estava ocupado projetando outro grupo de guardiões. Ele
pegou os sistemas de sensores dos guardas que ele havia construído para as paredes da
velha Tolária e os mesclou com vários aparelhos locomotores – estruturas bípedes

144
inspiradas em rápidas emas de pernas longas, carcaças preferencialmente quadrúpedes
baseadas na fisiologia felina de guerreiros-pantera, e até dispositivos octópodes feitos
para circular sobre qualquer tipo de terreno e até mesmo nas superfícies mais
translúcidas. Cada um desses dispositivos estava armado com pinças e lâminas
especialmente concebidas para perfurar a carne phyrexiana, uma série de atiradores de
flechas com miras e um núcleo recheado com pó explosivo, para ser ativado quando
todos os outros sistemas tivessem sido usados e um eventual inimigo incapacitasse os
sistemas sensoriais ou locomotores.
As máquinas resultantes eram coletivamente conhecidas como a classe Guardião –
uma variedade temível de artefatos. A variedade de duas pernas eram os corredores
tolarianos, capazes de grandes velocidades e saltos, os seus torsos semelhantes a
espelhos carregando oito porta-virotes de cada lado. Onde asas emergiriam em emas,
surgiam lâminas falciformes, que golpeavam à frente deles. Essas criaturas artefatos
foram criadas para lutar em campos abertos. As máquinas de quatro patas eram
conhecidas como pumas, graciosos perseguidores que patrulhavam as florestas das copas
das árvores e caíam silenciosamente sobre qualquer intruso. Suas garras em forma de
punhal poderiam lidar agilmente até mesmo com troncos de árvores e poderiam arrancar
a cabeça de um homem com um golpe, cortando o pescoço em três fatias iguais. Essas
garras eram afiadas toda vez que eram retiradas das patas das máquinas. O tipo final –
bestas de oito patas – era chamado de escorpiões, com pinças na parte dianteira e traseira
e a destreza de uma aranha. Até agora, apenas uma meia dúzia de cada um desses animais
existia, mas as suas peles brilhantes e os olhos de pedras preciosas escuras eram
suficientes para assustar até os alunos mais velhos. Dada a necessidade – e considerando
os laboratórios rápidos de Teferi – exércitos dessas criaturas poderiam ser criados em
apenas um ano.
Com patrulhas de corredores, pumas e escorpiões no chão e bandos de falcões no
céu, Malzra sentiu que poderia garantir a segurança de sua ilha. Além dessas forças,
Malzra instruiu estudantes sobre a criação de ornitópteros. Cinco estavam atualmente em
construção.
A academia tornou-se uma fortificação armada, apesar dos esforços de Barrin e
Jhoira. Eles tinham garantido, no entanto, que ainda era um lugar humano. Eles
enfatizaram o aprendizado e a experimentação sobre a produção de armas e agendaram
celebrações e festivais para ajudar a quebrar o tédio do trabalho. Mesmo assim, a praga

145
negra do desfiladeiro phyrexiano nunca foi embora, e todas as coisas ternas que surgiram
nos muros da nova academia foram feitas à sombra dessa terrível ameaça.
Então eles o encontraram – o phyrexiano morto, deitado no alto do desfiladeiro,
tinha escalado o seu caminho pelo penhasco. Ele havia usado as propriedades da água do
rio de tempo normal para ajudar a amortecer sua passagem, escalando uma fina
cachoeira. Mesmo assim, a besta foi macerada do topo de sua cabeça óssea até o último
espinho de sua atormentadora cauda. A pele rosa do demônio foi rasgada, revelando
montes de músculos cinzentos sobre um desajeitado esqueleto. Suas garras, que já foram
longas, haviam sido desgastadas até os cernes sangrentos em sua torturante escalada até
o topo do abismo. Havia passado pelas lâminas de trituração do tempo e, de alguma
forma, sobrevivera para alcançar o topo. Após duzentos anos de experimentação e
mutação, os phyrexianos criaram uma besta resistente o suficiente para enfrentar a
mudança de tempo e escalar cinco mil metros através da cortina de tempo rápido. Em
mais duas gerações, eles seriam fortes o suficiente para escapar do desfiladeiro e lutar.
Em mais quatro gerações, haveria centenas deles. Com suas vantagens de tempo rápido,
os phyrexianos poderiam produzir quatro gerações de híbridos em oito anos do tempo do
lado de fora.
Foi por isso que Malzra planejou o Dia dos Falcões. Mesmo quando se preparava
para a guerra total, ele criou um ataque aéreo rápido e preventivo. O ataque tinha dois
cenários. No pior cenário, mataria phyrexianos, talvez até as novas gerações, e ganharia
tempo para Malzra completar seu arsenal. No melhor deles, poderia exterminar até a
última besta no desfiladeiro e assim acabar com sua ameaça para sempre. Barrin aprovou
o plano, que não oferecia risco para estudantes ou acadêmicos e utilizara os setecentos e
cinquenta falcões já criados.
Por fim, chegou o Dia dos Falcões.

*****

Em cima da Cabeça do Gigante, Barrin e Karn viram Malzra entrar na estrutura de


seu ornitóptero recém-finalizado. Este mecanismo de classe de comando carregava
sensores remotos que estavam ligados aos protótipos dos corredores, pumas e escorpiões
instalados em um círculo ao redor do desfiladeiro. Também carregava uma carga útil de

146
cinquenta bombas de pólvora, um complemento de dezesseis porta-virotes e asas capazes
de serem recolhidas para o lado dos suportes principais, permitindo um mergulho rápido.
Deste assento de comando aéreo, Malzra monitoraria e dirigiria o próximo ataque.
Barrin apertou os olhos ao sol desnudo da manhã. Ele colocou a mão para cobrir
os olhos e espreitou as extremidades da ilha a partir da Cabeça do Gigante. Espirais finas
de fumaça vermelha apareciam na borda ocidental e desmanchavam nos ventos do mar.
“Jhoira e seus três esquadrões chegaram à costa e estão a postos. Eles são os
últimos dos trinta e oito esquadrões de lançamento. A frota de falcões está pronta para
ser utilizada.”
Urza colocou-se no assento de comando. Suas usuais túnicas azuis foram
substituídas por uma roupa cinza-carvão repleta de bolsos, um cinto de ferramentas e
armaduras nos ombros. Ele usava botas amarradas ao joelho, e seus olhos de pedras
preciosas estavam protegidos por uma obsidiana polida, em forma de meia-lua.
“Se isso funcionar hoje, talvez possamos enviar milhões dessas bestas para a
própria Phyrexia, e nenhum dominariano terá que lutar.”
“E você?” Barrin perguntou firmemente. “Você é um dominariano.”
“Você nunca deixa de se preocupar?” Malzra perguntou. “Eu vou voar sobre o
desfiladeiro, soltar minha carga de bombas, e sair do alcance de qualquer coisa que possa
ficar no meu caminho. Será como voar sobre os desertos dos Fallaji. Além disso, eu sou
apenas uma distração, uma cortina de fumaça para esconder o ataque.”
“Os falcões esconderão o próprio ataque. É por isso que estamos tendo o trabalho
de lançá-los da borda da ilha. Eles vão ultrapassar o próprio som durante o seu mergulho.
Os phyrexianos não irão ouvi-los e nem vê-los, até que sejam despedaçados por eles. A
sua saraivada de bombas só colocará você e seu novo ornitóptero em risco.”
“Nós dois sabemos que eu provavelmente sobreviveria a uma queda na bolha
temporal ao redor dos phyrexianos…”
“Você sobreviveria aos momentos seguintes, cercado por centenas, talvez
milhares, de bestas? Caminhar nos planos não pode salvá-lo quando as distâncias são
temporais.”
Com um resmungo, Malzra ativou o grande dispositivo Thran. Ele estremeceu
para a vida. Suas asas sanfonaram e começaram a bater. A máquina subiu, lenta e
desperta, nos céus.

147
“Esta é uma batalha que eu preciso lutar e vencer.” Malzra se afastou da Cabeça
do Gigante.
Pouco antes do zumbido das asas se sobrepor a todo o som, Barrin gritou: “Há
outra batalha, uma batalha muito maior, que você deve lutar e vencer.”
Karn assistiu a máquina subir ao céu, além do alcance das palavras. O homem de
prata disse: “As equipes prepararam seu ornitóptero, mago mestre, como você pediu.
Eles incluíram um carregamento de cinquenta bombas.”
Depois de um longo suspiro, Barrin disse: “Espero não precisar dele. O mestre
Malzra pode sobreviver a uma queda na bolha do tempo, mas estou certo de que…” ele
parou, como se pensasse melhor sobre o que ia dizer.
“Você é bastante humano, sim,” concordou Karn, seus olhos ainda atentos à
embarcação que encolhia, “e eu estive perto dele tempo suficiente para saber que o
mestre Malzra não é.”
O “não-humano” em seu “não-pássaro” subiu em uma espiral acima de suas
cabeças em uma manobra projetada para chamar a atenção de cada besta no desfiladeiro
e para sinalizar às hordas de falcões nas margens da ilha.

*****

“É o sinal”, disse Jhoira a si mesma. Ela olhou para o sol nascente, onde Malzra
voava em espirais ousadas. “Ele começará o seu bombardeio a qualquer momento.”
Virando-se, ela chamou seus três capitães de esquadrão, “Falcões prontos?”
“Décimo quinto esquadrão, pronto,” respondeu Teferi, que estava ao lado de uma
série de vinte falcões.
Cada pássaro ocupava uma pequena plataforma metálica de lançamento, ancorada
por uma estaca de trinta centímetros de comprimento presa na areia molhada. As
pequenas criaturas brilhavam na luz da manhã, suas pinças de metal dobradas contra as
pernas e os olhos brilhando com fome predatória.
“Décimo sexto esquadrão, pronto,” veio o relatório de seu capitão.
“Décimo sétimo esquadrão, pronto.”

148
Jhoira parou por um momento, examinando as fileiras das brilhantes criaturas
acipitrinas, quinze fileiras com quatro em cada. Eles e seus seiscentos e noventa
companheiros poderiam salvar a ilha. “Soltem os falcões!”
Sessenta pares de asas reluziram. Sessenta criaturas artefatos se agacharam por um
momento, se preparando para saltarem no ar. Então o vento foi preenchido com o estalar
afiado de asas metálicas. Os falcões se levantaram em uma grande nuvem brilhante,
camuflada contra o movimento prateado do mar. O grande barulho deles voando para o
alto, misturado aos sons das asas, engrenagens e sondas de busca, era algo terrível.
Jhoira vislumbrou outra massa de asas cintilantes ao longo da costa em todas as
direções. Em poucos momentos, até mesmo os seus próprios três esquadrões deixaram de
ser pássaros individuais e se tornaram um enxame contorcido, um monstro giratório
amorfo, e, então, este também desapareceu, no topo das nuvens. Por toda a ilha, não
havia mais sinais do bando de aves assassinas.
“Boa viagem” disse Jhoira ao céu desordenado. “Boa viagem.”
Urza alcançou o topo de sua espiral no céu. Ele dobrou as asas de seu ornitóptero
de volta para os suportes. O nariz do veículo perdeu altura e caiu em direção à fenda
negra abaixo. Urza piscou tranquilamente atrás das obsidianas que obscureciam seus
olhos de pedras preciosas. O vento chiou sobre as asas triangulares. A ilha se apressou a
encontrá-lo. Liberando os aerofólios externos, ele ganhou altura e rodopiou rente à fenda
negra. O veículo se tornou um furioso bombardeio em movimento.
Virotes e arpões de balistas negras surgiram de toda a floresta espinhosa ao seu
redor.
Urza acionou o compartimento de carga, jogando bombas de pólvora sobre a já
intensamente açoitada fortificação abaixo. Cada dispositivo incendiário mergulhava na
cortina de tempo rápido e acelerava ferozmente até o impacto. Os estilhaços e a fumaça
se espalharam até quase alcançarem Urza. Ele se inclinou, afastando-se de outra
saraivada e olhou com prazer para a fervilhante nuvem de destruição. Eles não veriam o
tormento que se erguia nas bordas da ilha, que ganhava altura para descer e atravessar as
paredes da prisão de tempo e destruí-los.
Nem ele viu o arpão que subiu com diabólica velocidade e atravessou a asa do
compartimento de carga e o arrastou para dentro do poço phyrexiano.

149
*****

Em meio a nuvens de fumaça, surgiram gritos de alegria. Cada garganta, pulmão e


probóscide na fenda phyrexiana chiou quando o virote da balista transfixou a máquina
voadora do planinauta Urza. Ele o arrastou pela asa. O ornitóptero cedeu com lentidão
agonizante. O homem teria tempo e concentração para transplanar para longe dos
destroços que caíam? A fumaça engrossou, obscurecendo a visão de todos os animais
abaixo.
K'rrik subiu para o parapeito de sua torre de observação e se segurou. Enquanto
agarrava o metal, ele viu uma asa da máquina mergulhar na cortina de tempo rápido e
enviar anéis de distorção rasgando a cortina. A súbita mudança de inércia derrubou o
resto do ornitóptero, piloto e tudo, no desfiladeiro. E isso foi tudo o que ele viu, a
fumaça fervilhante obscurecia qualquer outra coisa.
K'rrik se virou para gritar para a desordem de phyrexianos moribundos e
construções fumegantes: “Para a muralha do sul! Capturem o planinauta!”

*****

Atordoados, Barrin e Karn viram o arpão da balista ser lançado do desfiladeiro


escuro, como um peixe dardejante, espetar a asa do ornitóptero de Urza e arrastar a sua
presa para as chicoteantes correntes de tempo rápido. A máquina voadora girou uma vez,
se pendurou na superfície da cortina, e então, antes que Barrin pudesse jogar um feitiço
para salvá-lo, deslizou para a enorme escuridão do desfiladeiro. A fumaça e a escuridão
ocultaram o resto.
Barrin virou-se, descendo a encosta da Cabeça do Gigante.
Karn perguntou, seguindo-o: “Para onde você está indo?”
“Você disse que meu ornitóptero estava preparado,” veio a resposta gritada,
jogada sobre o ombro de Barrin enquanto ele corria.
“O que eu devo fazer?” Karn perguntou.
“Faça o que puder, mas seja rápido. Minutos são horas.”

150
O homem de prata de repente desejou ter os controles que invocariam os
corredores, pumas e escorpiões.
Esse pensamento inútil foi varrido por um repentino rugido estridente, descendo
de todos os lugares e de nenhum ao mesmo tempo. Karn mal tinha levantado a
sobrancelha quando, de cada canto dos céus, estrelas cadentes desciam em um grande
anel convergente. O assobio do voo delas chacoalhava as placas de prata do corpo de
Karn. Com uma série de estrondos tão próximos um do outro que pareciam um incessante
rugido de trovão, as criaturas rápidas como um relâmpago se lançaram do céu.
Elas perfuraram a cobertura do tempo e aceleraram a uma velocidade cegante.
Elas pareciam ricochetear entre as paredes rochosas do desfiladeiro.
Faça o que puder. As palavras ecoavam no ar ressonante.
Karn deslocou sua estrutura de prata. Ele levantou o medalhão da sorte viashino
até sua boca em um beijo estranho, e disparou para a encosta íngreme de árvores caídas
entre a Cabeça do Gigante e o desfiladeiro. Em desajeitados instantes, ele alcançou o
lábio escuro do espaço. Sem hesitar, ele se lançou lá dentro.

*****

Aconteceu tudo muito rápido, o impossível arpão atravessando a asa, a súbita


haste impassível, a rápida manobra, o puxão do tempo rápido, engolfando Urza e sua
máquina na redoma. Antes que pudesse pensar em transplanar, ele estava imerso no vasto
e agitado campo do desfiladeiro. Então todo o seu pensamento, a sua vontade e o seu
poder foram canalizados para mantê-lo íntegro contra a dilacerante e dispersante
distorção.
Suas mãos se tornaram uma papa protoplasmática. Seus pés se evaporaram. A
onda de destruição subiu para as suas pernas, dali para os joelhos e cotovelos, quadris e
ombros, até que o coração e a cabeça começaram a dissolver no ar. O campo temporal
não o rasgava partícula por partícula, mas em forma de ondas. O núcleo do seu ser se
dissolveu. Urza teve que pensar em seu corpo, em sua mente e em sua alma, teve que
recriá-los contemplando as suas imutáveis configurações, para poder forçar o caos de
volta à ordem. Repetidas vezes ele se refez, enquanto nuvens vermelhas de carne
pulverizada iam se acumulando na silhueta amarrada no assento do ornitóptero. Durante

151
todo esse tempo, a máquina-pássaro danificada e o homem, também danificado,
brigavam no emaranhado entre os mundos de luz e escuridão.
De repente, ele estava livre e caindo. As últimas torrentes de carne inflamadas se
recombinaram, e ele caiu. O ar era escuro, úmido e sujo. O cheiro de óleo brilhante era
esmagador. Fumaça sulfúrica saltava das bombas que ele mesmo acabara de jogar, e,
debaixo dessas colunas pegajosas, exércitos de monstros se agrupavam. Eles deslizavam
sobre massas de pele acinzentada, limo, ossos e chifres, escalando uns sobre os outros,
como baratas.
Urza caiu.
Não havia força suficiente para transplanar. Mesmo que houvesse, seus poderes
não permitiriam que ele passasse pelos portões do tempo. Porém, ainda havia feitiços.
Com um pensamento cansado, Urza lançou um encantamento de voo sobre si
mesmo e parou sua queda. Esfarrapado, ofegante – um lembrete da forma física que ele
havia criado, Urza ficou pendurado por um momento no ar. Com outro esforço de
vontade, ele começou a subir em direção à superfície do desfiladeiro. Era como subir por
grandes profundidades pressurizadas em direção ao ar e à luz acima.
O primeiro arpão da balista foi uma surpresa, rasgando seu fígado e arrancando
seu pulmão direito antes de estraçalhar seu esterno e perfurar sua caixa torácica. A dor
era uma sensação como qualquer outra, útil para orientá-lo na sua forma física, mas
aquela dor lancinante e impiedosa quebrou sua concentração por um momento. Ele
desligou o alarme da agonia, remodelou seu corpo com um pensamento, deixando a carne
contrair para longe do eixo até o arpão se soltar. Ele criou um novo fígado e um novo
pulmão da pasta moída dos antigos órgãos.
Mas isso deu trabalho, o que o distraiu por alguns instantes. Ele caiu novamente.
O ar que se precipitava ao seu redor era uma brilhante mistura de fumaça, óleo fedorento
e flechas negras. Mais dois arpões o acertaram durante sua queda. Quando eles foram
arrancados, e os órgãos que eles perfuraram recriados, o planinauta Urza estava
mergulhado em um metro e meio de água imunda.
Vindo de um calçamento de basalto esculpido, hordas de monstros algazarrentos
com olhos em forma de estrela, grandes emaranhados de cabelo farpado, garras e dentes
curvados, indistinguíveis um do outro em sua dilacerante selvageria, arremessaram-se na
água. A terrível pancada na água de seus corpos deformados parecia o golpe das caudas

152
de tubarões em frenesi. Em poucos momentos, phyrexianos cercaram Urza e o atacaram,
arrancando grandes pedaços dele.
Ele contra-atacou. Raios rugiram de suas mãos por debaixo d’água. Phyrexianos
morriam aos montes, porém mais ainda chegavam.
Sempre que ele se livrava deles e começava a subir no ar, flechas e arpões de
balistas o atravessavam, e ele afundava novamente na inundação agitada.
Eles não o matariam, embora eles pudessem. Eles só o irritariam até que todos os
feitiços fossem gastos, até que o último truque fosse usado, então eles o apanhariam
como um de seus peixes-escavadores e o levariam para ser esfolado vivo pelo homem
parado ali naquela ponte coberta de fumaça.
K’rrik.

*****

A enorme tropa de K'rrik se reuniu na arena no centro da cidade. Era um círculo


elevado de basalto preto, esculpido como um funil gigante, com anéis em forma de
bancadas e assentos convergindo para a pequena plataforma central. Embora fosse usado
na maioria das vezes para disputas de gladiadores – muitos dos quais eram apresentados
pelo próprio K'rrik – o espaço central não era delimitado por parapeitos, paredes ou
portões que pudessem conter os guerreiros. As batalhas começavam neste palco, mas
percorriam toda a arena. Além do comportamento esperado, os competidores eram
incentivados a usar a topografia, o armamento e até mesmo as pessoas da arena em sua
luta. Na borda lateral do estádio, enfileiradas, havia uma variedade de armas farpadas e
perfurantes, fornecidas pelo público – osso, pedra e chifre, mas, claro, sem ferro. Para
obter uma arma de metal, um gladiador teria que arrancá-la das garras de um espectador.
Muitas vezes, detestáveis membros da multidão perdiam os braços ou as caudas, tomados
como clavas improvisadas e chicotes, e às vezes criaturas pequenas eram usadas por
inteiro.
No entanto, não havia uma batalha de gladiadores agendada para hoje. Essa
multidão havia se reunido para uma execução pública. Eles ainda trouxeram suas armas
na esperança de poder ter a chance de participar da diversão.

153
No centro da arena, o planinauta Urza pendia, preso a uma coluna surrada de
obsidiana. O pilar era tradicionalmente usado para executar traidores, que eram
maltratados até a morte por horrores barulhentos. Com Urza, as violentas hordas eram
necessárias para mantê-lo fraco e indefeso enquanto K'rrik exibia seu novo prêmio. O
maior de seus três carrascos era pouco mais do que um enorme punho de carne, com dois
pequenos olhos posicionados sob um par de pinças irregulares. Em intervalos, a besta
pulava e eviscerava Urza, arrastando suas entranhas fumegantes para o basalto polido. As
outras duas bestas eram aranhas com cabeça de chacal, esperando para saltar, se Urza
dominasse a outra criatura.
K'rrik andou compassadamente diante das tropas, chiando com gargalhadas.
Apesar das excitadas ovações sempre que o planinauta era açoitado, a multidão de bestas
reunidas ficava silenciosa, esforçando-se para ouvir cada palavra de seu governante, seu
deus. Ele não falava com o tom suave que usara para assediar Jhoira tantos anos atrás.
Ele não falava em nenhuma linguagem humana, mas sim na língua rosnada e crepitante
de Phyrexia.
Urza, que podia sorver línguas como água, sabia o que ele dizia.
“Filhos de Phyrexia, herdeiros do deus maior Yawgmoth e seu filho K'rrik, newts,
neutralizadores e prole do tempo, eis o homem que nos trouxe aqui. Eis o homem que
nos abriu o portal para este novo paraíso, para Dominária-”
Esta declaração foi pontuada por uma investida brutal da besta com pinças. Uma
víscera lacerada escorreu em um fluxo fétido no chão. Um uivo gutural irrompeu da
multidão reunida. Mesmo depois do monstro se retirar e K'rrik começar a falar de novo,
as entranhas de Urza ainda se contorciam no chão. Com a força de sua vontade, elas
voltaram ao corpo do homem mutilado.
“Ele tem uma longa e honrosa história de ajuda à nossa esperada dominação. Nas
cavernas de Koilos, ele e seu irmão Mishra desfizeram o poder que nos impedia de
retornar a Dominária, abrindo assim o caminho para nós. Durante a guerra subsequente
de Urza contra seu irmão Mishra, seguidores de nosso patriarca Gix foram recebidos em
ambos os exércitos, e Gix até converteu Mishra em um phyrexiano. Quando Urza soube
da conversão de seu irmão, ele ficou tão encantado que liberou uma catástrofe em
Dominária para destruir seus maiores exércitos, afundar as nações mais poderosas, e
facilitar o caminho para a nossa invasão. Ele abandonou seu mundo, seu confiável
parceiro Tawnos, e até mesmo seu próprio filho, Harbin, os quais, todos herdamos.”

154
“Harbin!” Urza gritou em desespero, logo antes de suas vísceras serem abertas
novamente e não haver mais fôlego para gritar.
“Aliando-se com a nossa companheira – a newt Xantcha – Urza viajou para
Phyrexia sob o pretexto da guerra. Na verdade, ele foi atraído até nós como um mosquito
para uma grande lanterna. Ele desejou se juntar a nós, se tornar um de nós. Para mostrar
sua boa fé, ele conduziu um dos nossos exércitos ao Reino de Serra, onde iniciamos uma
guerra de conquista que prostrou o reino dos anjos, que permanece prostrado até agora.
Ele traiu a mulher que o curou e nos deu seu plano como troféu.”
Os chiados e gemidos de prazer quase abafaram o som de sangue derramando.
“Agora, nosso eterno campeão, nosso espião em Dominária e em todos os planos
veio até nós. Ele veio homenagear Yawgmoth e o filho de Yawgmoth – K'rrik. Ele veio
nos conceder o mundo! Ele nos deu seu irmão, seu parceiro, seu filho, seu melhor amigo,
e agora, ele nos dá a si mesmo. Assim que ele estiver morto, ninguém em Dominária
poderá se levantar contra nós.”
Na estrondosa ovação houve o som de um apito agudo. A intensidade era
ensurdecedora e vinha de todas as direções. Os phyrexianos que tinham orelhas, as
cobriram em rápidos reflexos. Aqueles com joelhos, se dobraram neles. Até a besta com
pinças caiu para trás, sua cabeça se apertando e flexionando sob o ataque. Apenas duas
criaturas permaneceram em pé – K'rrik e seu prisioneiro. Juntos, eles viram uma enorme
corona de prata partir a cortina do tempo e bradar em direção à extremidade da arena.
Por um rápido momento, as máquinas ficaram vividamente entalhadas no céu – um
círculo de bicos navalhados, garras de raptores e asas que brilhavam como relâmpagos.
Eles cruzaram todo o caminho em uma enorme espiral e, em precisa sucessão, golpearam
as bestas na base da arena, um após o outro.
O crânio de uma polegada de espessura de um monstro se quebrou como vidro
quando um falcão o esmagou. Outro foi dividido entre o pescoço e o umbigo e espalhou
órgãos cinza-azulados sobre o seu ventre peludo. Ao lado daquela criatura, um monstro
de pescoço comprido foi destroçado quando um falcão atravessou seu pescoço em uma
estrondosa queda. Os olhos da criatura escureceram, sua cabeça inclinou e caiu como a
copa de uma árvore derrubada.
Sempre que um falcão rasgava de forma limpa uma besta, ele continuava a atacar
a próxima, matando dois ou três em sequência. Sempre que um falcão ficava preso em

155
uma bola de músculos ou em uma gaiola de costelas particularmente resistente, suas asas
atacavam o seu redor. Lâminas giratórias emergiam de sua estrutura para triturar
qualquer carne que os estivesse prendendo. Phyrexianos penetrados por falcões tremiam
em espasmos mortais, seus intestinos ou tórax ou crânios fervendo com terríveis
movimentos.
Em um instante, os trezentos monstros nos assentos inferiores estavam mortos.
Eles se dobraram, tremeram e tombaram em uma onda de morte que se espalhou
visivelmente até a arena. Falcões se lançaram como descargas elétricas de besta a besta,
alcançando-as onde quer que estivessem. Mais pássaros metálicos rugiram e impactaram.
No segundo instante, os setecentos phyrexianos restantes trataram de fazer sua
própria defesa. Eles balançaram lâminas e clavas para acertar os pássaros dos céus. A
maré de abate diminuiu o ritmo, mas não parou. O grito de asas prateadas foi
acompanhado por um múltiplo rugido de phyrexianos que lutavam e morriam.
Enquanto isso, amarrado ao poste de obsidiana, Urza finalmente se recuperou por
completo dos ataques da besta com pinças. O seu abdômen foi novamente reconstituído.
Sua carne se uniu em uma saúde brilhante. Ele ergueu a cabeça. As aranhas com cabeça
de chacal se esconderam do ciclone prateado que assolava tudo ao redor. Concentrando a
sua força de vontade, Urza alcançou as montanhas de Tolária e retirou delas o poder para
quatro feitiços. Uma luz vermelha arqueou de Urza, queimando suas vestes e atingindo o
animal com pinças. Ele amplificou a inflamada explosão com sua própria fúria. O
monstro maciço foi reduzido a um pedaço de carne diante dele, o próprio sangue
apagando as chamas.
As aranhas-chacais giraram em uma surpresa repentina.
Urza lançou dois outros feitiços, bolas de fogo engolfando-as e arremessando-as
ruidosamente para longe. Com seu próprio corpo fumegando com a fúria do momento,
Urza caminhou sobre as pilhas ardentes de seus atacantes, procurando o phyrexiano no
centro de tudo isso.
Mas K'rrik já havia desaparecido.

*****
Karn se jogou.

156
Ele ultrapassou a devoradora cortina do tempo. Ela destruiu futilmente seus fios e
conduítes. O calor se espalhou por sua estrutura. Seus medidores de orientação se
descontrolaram, e ele não conseguia distinguir cima de baixo, passado de futuro. Então,
em uma doentia corrida, ele passou e mergulhou no desfiladeiro de tempo rápido.
Essa foi a pior sensação de todas. Algo em Karn respondia a esse lugar, algo no
centro de seu ser. Embora ele sentisse o cheiro de podridão e sangue oleoso no ar,
embora ele visse o contorno perverso da cidade monstruosa abaixo e soubesse que Urza
estava lá em algum lugar, preso ou morto – ainda havia uma certa justiça em tudo aquilo.
Era uma vasta e desolada beleza para a qual ele não podia evitar ser atraído.
Inicialmente, ele não podia imaginar de onde o nocivo sentimento surgira, mas então ele
percebeu. Era o núcleo do seu ser. A powerstone que lhe proporcionava uma mente,
coração e alma, tinha vindo dessas monstruosas criaturas. Karn tinha vindo daqui.
Karn caiu em um lago salobro. A água suja entrou em cada emenda e vão de seu
corpo. Ele bateu a bacia no lodo e se estatelou sobre o rochedo. Inclinando-se para cima,
Karn levantou-se e descobriu que sua cabeça alcançava a superfície. A parede rochosa do
desfiladeiro se elevava diante dele. Ele se virou, e pela primeira vez viu claramente a
cidade demoníaca que Kerrick havia construído.
De um afloramento vulcânico na base do cânion, havia um conjunto eriçado de
torres, muralhas, pontas e parapeitos. As paredes do desfiladeiro ao redor da cidade a
admiravam com minas profundas e negras, como faces fúnebres, torcidas e gotejantes. As
águas onde Karn caminhava com dificuldade estavam repletas de criaturas vorazes,
muitas das quais agora convergiam e beliscavam sua estrutura de prata. Acima da cidade,
nuvens de falcões mecânicos circulavam em uma grande tempestade.
Urza estaria no centro daquela tempestade.
Ignorando as crepitantes mandíbulas e as caudas agressoras, Karn caminhou em
direção à cidade.

*****

A maré virou. A maioria dos falcões foi utilizada. Muitos neutralizadores


phyrexianos permaneceram. Os encantamentos de Urza foram consumidos. As criaturas
artefatos que ele havia invocado estavam sendo desmanteladas pelas garras e presas de

157
seus inimigos. Sobre terríveis estepes de mortos, a nação de K'rrik se movia para o
centro da arena para matar Urza.
Talvez ele pudesse reunir a força para caminhar entre os planos, embora a viagem
simplesmente o levasse para algum outro canto escuro da fenda de tempo. Lá ele
morreria quando K'rrik voltasse. Era melhor lutar agora e dizimar suas forças.
De repente, na sangrenta e negra arena, surgiu uma figura de prata – Karn. Ele
avançou de maneira lenta e incansável, despreocupadamente destruindo braços, ferrões e
caudas de seus assaltantes e prosseguindo. Eles se amontoaram em cima de Karn, mas ele
abria caminho por entre as hordas. Empilharam-se sobre ele, mas ele escavava uma
saída.
Um cortejo infernal chegou com ele. Bombas de fumaça atingiram o círculo
avançado de phyrexianos. Estilhaços se espalharam em um anel mortal. Mais óleo
brilhante se misturou com o que já havia manchado os assentos, e aqui e ali ele pegou
fogo.
Urza olhou através do anel ascendente de fumaça sulfúrica. Lá, congelado no
tempo acima do desfiladeiro, estava a figura de um ornitóptero. Ele pairava rente à
cortina temporal. Urza pensou que poderia distinguir a figura sombria de seu piloto.
Melhor ainda, desenrolando-se como uma promessa prateada, um delgado cabo de metal
descia da embarcação. Ele se curvou na malha de tempo, desembrulhou e balançou a
poucos passos de Urza.
De repente, o homem de prata também estava lá. Ele apertou o cabo com um
poderoso braço e pegou seu mestre com o outro.
E lentamente eles se ergueram acima das berrantes hordas. As foices e as flechas
zuniam na pele de Karn ou se enterravam em Urza até que ele conseguisse retirá-las
novamente. Logo, porém, eles estavam além do alcance de qualquer arma jogada e,
então, até mesmo das poucas balistas que ainda estavam operacionais. Eles lançaram um
último olhar para a comprimida cidade dos demônios, repleta dos restos de seus falcões
mecânicos.
“Eu só lhes dei mais metal… mais powerstones… para nos enfrentar,” Urza
ofegou severamente.
Então, a borda fulgurante da fenda os envolveu.

158
Monólogo

Mesmo enquanto eu os tirava daquele vil desfiladeiro, eu sabia que aquilo

significava guerra em grande escala . Teríamos dez ou vinte anos para preparar

nosso arsenal . K'rrik teria um ou dois séculos. Mas a guerra total certamente

viria .

E desta vez, o campo de batalha seria toda Tolária .

– Barrin , mago mestre de Tolária

159
Parte III
VIAGENS

Capítulo 12

Uma década havia se passado no dia em que Malzra reuniu todos no novo Salão
das Criaturas Artefato.
Este salão não era nem um mausoléu e nem um simples museu. Era um laboratório
de trabalho, uma enfermaria robótica, uma linha de montagem, um campo de treinamento
militar e um espaço de tutoria que oferecia informações para humanos e artefatos.
Aparentemente, o toque de Karn estava em todos os lugares. Nenhuma máquina estava
enterrada aqui. As exposições continham apenas mecanismos vivos, ativos, que passavam
os períodos de desativação voluntária à mostra. Os projetos das várias invenções estavam
armazenados em um arquivo, em uma extremidade da enorme câmara, disponível para
acadêmicos, estudantes e para os próprios artefatos.
O centro de comando de defesa da ilha de Malzra também estava aqui. O resultado
disso é que o lugar era movimentado, mesmo nas profundezas da noite. Alguns dos
corredores e escorpiões de Malzra estavam permanentemente estacionados ali, e um
puma reportava a cada tarde, mas a grande massa de defensores mecânicos estava
remotamente posicionada ao redor da ilha. Uma centena de tropas foi colocada em
espaços de tempo rápido ao redor da academia. Eles poderiam mudar de posição e dar
cobertura, antes mesmo do ataque começar. Essas máquinas eram colocadas em serviço
em dias alternados, devido aos estragos causados pelo tempo acelerado. Outras cem
serviam em espaços de tempo lento – as defesas de longo prazo. Elas mudavam de
serviço duas vezes por ano.
“Com eles e com a nossa infantaria de feiticeiros, liderados pelo mago mestre
Barrin, as defesas da ilha estão completas,” Malzra disse enquanto passava diante da
parede dos projetos. Tropas mecânicas e biológicas estavam colocadas em tinta e papel
naquele canto particular do Salão dos Artefatos. “Quinhentas criaturas artefatos de
grande escala, setecentos e cinquenta novos falcões mecânicos, uma frota de trinta
ornitópteros e até um novo dirigível.”

160
Barrin, Jhoira, Teferi, um punhado de acadêmicos sêniores e Karn sentaram-se no
espaço tutorial e estudaram os layouts, embora os sistemas defensivos da ilha fossem
bem conhecidos por todos eles. A apresentação de Malzra rapidamente se tornou uma
revisão tediosa.
“Nos últimos cinco anos, repelimos cinco incursões phyrexianas e matamos mais
de mil neutralizadores.”
“Nós sabemos,” Jhoira lembrou-o com impaciência. “Fomos nós que lutamos
essas batalhas.”
Malzra mudou sua dinâmica e olhou para cima, piscando.
“Haverá mais. As criaturas serão mais mortíferas e mais numerosas. Com
engenhosidade, antecipação e coragem, os sistemas que nós desenvolvemos devem ser
suficientes para repelir esses ataques. Por enquanto, a ilha está segura -”
“Mestre Malzra”, interrompeu Jhoira, “nós já sabemos de tudo isso.”
“Espero que sim, já que estou indo embora”, disse o homem quietamente.
Isso chamou a atenção de todos, exceto de Barrin. O mago mestre se recostou em
seu assento, assistindo e avaliando a resposta dos outros.
Jhoira ficou de pé, sua voz e seu rosto alarmados.
“Você está indo embora? Mais uma vez? E o desfiladeiro phyrexiano? E a
conclusão de todos os objetivos da academia?”
Barrin também se levantou. “Ele está indo a negócios da academia. Quanto ao
desfiladeiro phyrexiano, Malzra passou a última meia hora revisando as defesas e nossas
tarefas na manutenção e atualização delas.”
“Não é disso do que estou falando,” disse Jhoira, cruzando os braços sobre o
peito. “Ele tem negócios inacabados.”
“Nossa aluna mais antiga está me lembrando dos ‘filhos da fúria’”, disse Malzra,
interrompendo as objeções de Jhoira e as desculpas de Barrin. “Ela está me lembrando da
minha promessa de limpar as desordens do meu passado, entre elas o fato da ilha ser
devastada pelo tempo e pelos monstros que eu trouxe para cá -”
“E as crianças que você trouxe para cá.”
“E”, acrescentou Karn calmamente, “as máquinas que você trouxe para cá-”

161
“Obrigado”, disse Malzra sem ser rude aos comentários acrescentados, “mas como
dizem os jovens, você subestima minha capacidade de nefasta destruição. Não, os males
que eu causei aqui não são nada perto dos males que eu tenho causado em outros lugares,
ao redor do mundo inteiro.”
Ele voltou para os desenhos, estendeu as mãos que pareciam brilhar naquele canto
escuro do Salão dos Artefatos, e retirou uma grande paleta. Atrás dela, havia um mapa do
desfiladeiro phyrexiano. Linhas de chumbo detalhavam a fissura escura e estreita,
invadida pelo mal.
“Esta é a nossa versão mais recente do desfiladeiro.” Com um ponteiro de
tamanho de uma espada, Malzra apontou para o desenho. “Aqui está a arena de
gladiadores, e aqui, o palácio de K'rrik, e aqui, os laboratórios de criação. Nessas casas
ao lado e sob a água, moram os quase mil asseclas de K'rrik, fortes e aumentando em
uma dezena a cada dia que se passa. A menos que sejam extintos, estarão fomentando
uma ameaça que um dia dominará toda a ilha.”
Com um gesto rápido e feroz, Malzra derrubou o mapa, revelando abaixo um
esquema muito maior – o que parecia uma série de bonecos amontoadas em um corte
transversal.
“Essa é Phyrexia – nove esferas empilhadas, uma dentro da outra. Esta camada
superior é a única em que um ser humano pode sobreviver por algumas horas. É habitada
por dragões mecânicos de cerca de quinhentos metros de comprimento, e criaturas
descartadas como inúteis, que fariam nossos corredores, pumas e escorpiões parecem
pulgas mecânicas. As densas florestas dessa região são constituídas por plantas
semimetálicas – venenosas, com folhas afiadas – que crescem à luz das incessantes
tempestades de relâmpago que enchem o céu preto de fuligem. Cada camada abaixo se
torna muito pior – acólitos mutilados, hordas demoníacas, máquinas de magias, vermes
titânicos, veneno, ácido e fogo. No centro de tudo isso, há uma figura mais obscura, mais
sombria, mais horrível do que qualquer coisa que Dominária já conheceu.”
Para si mesmo, Barrin sussurrou um nome. Ninguém o ouviu falar, mas o olhar de
pavor solene no seu rosto fez os outros estremecerem.
“Eu despertei essa criatura. Eu trouxe ele até aqui. Isso é o quanto meus erros são
profundos e ancestrais. Eu sou responsável pela praga da Tolária, sim, mas também pelo
colapso gradual de um santuário de anjos, pela longa era glacial deste mundo, pela
destruição de Argoth, e pela própria introdução do mal no mundo. Esse é o nível das

162
minhas falhas. Tudo isso é o que eu luto para desfazer. K'rrik é um pesadelo, sim, mas o
pesadelo de um homem. O senhor de K'rrik é o pesadelo de um mundo inteiro – um
terror coletivo, inconsciente e universal. Tão certo quanto K'rrik está se armando para
dominar essa ilha, a criatura que não nomearei está se armando para dominar todo o
nosso mundo.”
Não houve interrupções, apenas olhares sérios.
“Para lutar contra essa criatura e seus milhões de asseclas, eu preciso… nós
precisamos de um arsenal muito diferente. Vou começar a trabalhar nisso,” disse Malzra.
Por fim, Jhoira recuperou a voz. “Como você pode ser responsável por tudo isso?
Como alguém pode ser responsável por tudo isso? Mesmo se você fosse responsável,
como você – ou qualquer homem mortal – esperaria desfazer todos esses males? Você
teria que ser o planinauta Urza para ter alguma esperança de…” Ela interrompeu sua
frase na metade, seu olhar horrorizado de súbita compreensão paralisando todo o seu ser.
“No entanto, devo ir,” disse Malzra, “e eu vou sozinho, por enquanto. É um lugar
muito perigoso. Com o tempo, se eu for bem-sucedido, trarei todos vocês comigo para
me ajudarem.”
Tremendo, Jhoira sentou-se novamente. “Você não está indo… você não vai para
Phyrexia.”
“Não,” disse Malzra carinhosamente.
Ele foi em direção a Karn e estendeu a mão ao seu pescoço. Por um instante, o
homem de prata se esquivou, temendo que o mestre destravasse seu crânio e o
desativasse. Em vez disso, Malzra levantou o pingente do pescoço do golem e segurou
diante dele. Um pingente em forma de lagarto, feito de um metal muito resistente,
pendia, brilhando, no ar escuro.
“Phyrexia não. Vou para sua terra natal, Jhoira. Estou indo para Shiv.”

*****

Urza desceu. Era bom não ter que caminhar. Era bom se permitir aos luxos de ser
um planinauta, de poder esquecer as preocupações de fingir respiração, de piscar os
olhos, de ser convidado para jantares. Para ele, comer era apenas um incômodo. Apesar
de seus poderes quase ilimitados – andar de plano em plano com pouco mais do que um

163
pensamento, usar todas as cores de magia em altos níveis, viver além dos terrores da
passagem do tempo, ver a essência das coisas, cheirar o sangue phyrexiano a centenas de
passos – retratar um humano convincente era uma tarefa que era ao mesmo tempo
irritante em suas minúcias e cansativa em suas limitações. Era uma tarefa pequena e
tediosa, mas uma tarefa necessária.
Exceto em momentos como esses.
Urza desceu, passando por grandes agrupamentos de nuvens sulfúricas e bancos de
vapor enferrujado. Suas vestes cerimoniais se encolheram e se tornaram uma roupa
forrada com penas de dragão para desviar o calor vulcânico do local. Suas sandálias se
transformaram em espessas botas de couro que alcançavam o joelho. Seu cabelo trançou-
se firmemente na cabeça, à prova de quaisquer chamas. Ele não precisava entrar naquele
cenário desse jeito, caindo de toda aquela altura, mas ele queria examinar o território
antes de descer sobre ele. E, francamente, ele gostou do passeio.
Urza já havia descido dessa maneira uma vez antes, voltando para o antigo e
destruído deserto onde ele e Mishra descobriram o sítio Thran de Koilos. Aquela
paisagem, explodida por uma força que afundou continentes e trouxe um inverno milenar
para o mundo, não poderia ser mais torturante do que esta.
As montanhas iluminadas formavam um anel diabólico contra o horizonte de
fuligem. Nas partes superiores, lagos fumegantes brilhavam malignamente como auréolas
de enxofre. Pilhas retorcidas de pedra caíam pelos lados daquelas sentinelas silenciosas e
rios de pedra pulsavam e brilhavam como artérias. Entre eles, linhas negras formavam
ligações de veias ressecadas. Negros e vermelhos, os rios mergulhavam em um grande
oceano fumegante de lava borbulhante, ao lado de colunas de pedra retorcidas, como
estátuas abatidas. O magma expelia os gases em jatos gigantes, coronas cuspidoras de
rochas espumantes, que escaldavam grosseiramente por toda a margem.
Urza desceu. Ele parou no topo de uma rocha que havia sobrevivido a este mar de
fogo fervilhante. Debaixo de seus pés, a rocha era quente, amarronzada e enrugada,
como uma massa de pudim de sangue. Ao seu redor, o ar era quente e engrossado com
vapores nocivos. Urza respirou e se lembrou de que era bom ser imortal.
Ele levantou o olhar. Lá, acima dele, magnífica no brilho morto do lugar e na
escuridão do céu, estava o que ele tinha vindo ver: a plataforma de mana.

164
Posta em um basalto maciço, com um aspecto predador advindo das grandes
garras de pedra e barro fundido. Na ponta destas garras, havia infinitas garras menores
que formavam uma rede que passava pela rocha e se conectavam com a caldeira em
ebulição logo abaixo. O processo de extrusão era semelhante a um grande coração e,
inclusive, funcionava da mesma forma. Em tempos ancestrais, os tubos que a
atravessavam retiravam lava do poço de ebulição e bombeavam para a gigante instalação
acima.
A plataforma era algo digno de ser contemplado. Em cada uma de suas
extremidades, havia um par de blindagens térmicas em forma de tigela que mantinham
suspensa uma grande cidade. Uma delas, mais afastada do oceano de fogo, era um antigo
mosteiro, suas torres e seus templos cônicos empilhados como uma colmeia decorada no
céu. A outra, pendurada sobre o mar de enxofre, era uma forja colossal com design
Thran. Foi ali que o metal Thran incrivelmente resistente havia sido produzido. Urza
veio até Shiv para explorar essa instalação. Entre as duas cidades se estendia uma longa
instalação de armazenamento e produção, com paredes altas e arcos pontiagudos
semelhantes aos de catedrais. Nesse lugar, Urza começaria a montar a arma que
derrotaria os phyrexianos para sempre.
Escritos entalhados se espalhavam na base das blindagens em forma de tigela.
Dentro da estrutura haveria mais escritos, talvez bibliotecas conservadas deles. Os
quartos e salões, os aparelhos e as próprias paredes seriam as crônicas de metal e pedra
das mentes dos construtores. Ele aprenderia a forjar o metal Thran, sim, porém mais do
que isso, ele examinaria os segredos dos maiores artífices que o mundo já conheceu –
segredos que criaram os vários inimigos que ele agora enfrentava.
Urza saiu do calor da pedra, caminhando por trilhas de magma resfriado. Seus
olhos de pedras preciosas verificaram as bordas erodidas do vulcão. Ele teria que circular
o norte e o leste, passar por uma fissura gigante de vapor e um par de penhascos
destroçados por ondas de rocha superaquecida. Isso seria uma caminhada de cinco milhas
para alcançar a estrutura que estava a uma milha de distância. Ele era imune aos danos
causados pelo fogo e pelo envenenamento, mas não à dor que eles causariam.
Sobre sua roupa, Urza imaginou um roupão de prata que repelia o calor em todas
as direções. A roupa criou forma e o envolveu, então ele sentiu as outras roupas se
refrescarem e suspirarem em alívio, expelindo o calor. Um véu de malha de metal fino se
formou diante de seu rosto. Assim vestido, Urza escalou as dificultosas montanhas.

165
Claro, ele poderia simplesmente ter desejado estar dentro da estrutura, mas ele
caminhava no território para conhecê-lo. A geografia o forçaria a seguir os mesmos
caminhos trilhados por outras gerações, talvez até pelos próprios Thran. Ele se
aproximaria da plataforma do mesmo modo que outros haviam se aproximado. Era como
segurar um livro de cabeça para cima quando se está aprendendo a ler, embora seja
perfeitamente possível lê-lo de cabeça para baixo e de trás para frente.
A escrita desconhecida estava começando a formar palavras com significado.
Havia algumas trilhas – largas, suaves e calmas. A pedra, sobre a qual elas foram feitas,
estava gravada com marcas de garras. Os caminhos levavam a vários proeminentes
postos de observação. Se eles estavam atualmente ocupados, Urza não conseguiu ver
nenhum sinal disso. Quem usou essas trilhas movimentava-se em campo aberto e em um
ritmo compassado. Elas eram criaturas do tamanho de homens. Elas governavam esse
lugar e sistematicamente o defendiam. Urza levantou o pingente do seu pescoço e olhou
para o lagarto pendurado que ali estava.
Outras criaturas também frequentavam essas encostas. Elas tinham feito vários
ninhos entre as pedras inclinadas e os tubos de lava. Apesar de escondidos da vista,
aqueles pontos cheiravam a movimentos furtivos, apreensão e morte rápida. Espiões.
Alguns dos lugares eram queimados por dentro. Os ossos de seus habitantes estavam nas
entradas, advertindo os outros. Outros lugares, invisíveis aos olhos mortais, mas claros
aos olhos de Urza, também estavam ocupados. Olhos minúsculos brilharam, semelhantes
aos de ratos piscando, embaixo das sobrancelhas escuras de pedra.
Goblins. Urza sorriu gentilmente. Pobres e miseráveis monstros, mais
amaldiçoados do que ratos. Assim que tomasse conta de toda a estrutura, ele poderia
trazer algumas dúzias de máquinas-escorpião para limpar aquela infestação.
Até então, ele estava tendo uma longa caminhada. A menos que surgisse um goblin
para bloquear seu caminho – e o fato dele descer das nuvens provavelmente convencera
muitos observadores a continuar apenas assistindo – Urza não provocaria nenhuma das
feras.
Ele entrou em um grande desfiladeiro e imaginou o tamanho da sua extensão. Em
bocas de cavernas escuras, goblins se escondiam. Eles sussurravam uns aos outros e
piscavam em ressentimento, mas não saíram. A parte instintiva da mente de Urza marcou
suas posições enquanto a parte racional analisou a estrutura que pendia sobre suas
cabeças.

166
Uma terceira parte de sua psiquê percorreu um desfiladeiro diferente, um
vislumbre de vários anos anteriores. Nele, dois grandes exércitos participaram de uma
luta mortal. Urza havia acreditado na visão que mostrava os Thran expulsando os
phyrexianos para outro mundo. Demorou milênios para ele perceber que os Thran haviam
se tornado os phyrexianos voluntariamente, que Mishra também havia se transformado
voluntariamente. Apenas com aquela amarga descoberta, Urza começara a recobrar sua
sanidade, a reconhecer o inimigo.
Alguma coisa emergiu da borda de pedra, na entrada do canyon. Muitas coisas.
Suas vestes vermelho-ferrugem se camuflavam tão naturalmente com as bordas da
montanha que Urza não havia os visto até que eles se levantaram de cada fenda e saída
de vapor existente na pedra. Eles se moveram com uma graça silenciosa e vigorosa.
Alguns deslizaram para fora a quatro patas, agarrando o chão com as mãos e os pés.
Outros caminhavam com as pernas traseiras e brandiam alabardas finas e perversas. Eles
se colocaram no caminho de Urza, com as caudas musculosas atrás de si. Os mais
próximos retiraram os capuzes de suas cabeças. Eles eram répteis, homens-lagartos, com
focinhos curtos, porém cheios de dentes, olhos pequenos e brilhantes, e crânios oblíquos.
Sua pela escamosa cintilava uma luz verde-acinzentada e vermelha na luz ardente da
caldeira.
Jhoira os chamava de viashinos.
O maior viashino no grupo de mais ou menos trinta, aproximou-se de Urza. Ele
manteve a alabarda afiada diante dele. A criatura olhou nos olhos do planinauta. As
pupilas verticais o encararam, sem piscar. Havia inteligência naquele olhar alienígena,
mas também medo e ressentimento. Ele silvou furiosamente.
A mente de Urza percorreu todas as línguas que ele tinha aprendido em três
milênios, muitas delas apenas escritas, nunca faladas. Esta língua não estava entre as que
ele ouvira antes, mas para Urza conhecer um idioma ele precisava apenas respirar.
“Ghitus são proibidos nestas alturas”, sibilou a criatura líder.
Compreender uma linguagem alienígena era uma coisa; enquadrar uma resposta
nela era outra coisa. Urza se perguntou se ele deveria ter trazido Jhoira consigo como
uma ligação nativa. Ele poderia transplanar e trazê-la agora, mas o som do chocalho de
pontas na alabarda batendo sua extremidade no chão vulcânico o convenceu a não
colocá-la em perigo. Ele optou por construções simples.

167
“Eu pareço Ghitu?”
“Então quem é você?”
“Eu sou Malzra de Tolária. Eu vim para ver a plataforma.”
“É proibido.”
“Eu preciso ver a plataforma. Você não pode me impedir.”
“Talvez eu não possa,” disse o guerreiro, seus olhos brilhando como o metal, “mas
o nosso campeão pode.”
Das fileiras traseiras dos viashinos, oito homens lagartos surgiram – não oito, mas
um do tamanho de oito. Porém não era um viashino, era um jovem dragão de Shiv. A
enorme criatura deslizou para frente sobre suas patas, a cauda se movendo
traiçoeiramente atrás de si. Um sorriso predatório definido por dentes afiados como
navalha se mostrava. Os pequenos olhos da coisa estavam sob sobrancelhas com chifres.
Espinhos de escamas se erguiam de seus ombros. No lugar de vestes, como os outros,
essa criatura usava uma correia de couro, como se fosse usado frequentemente para
transportar maquinário pesado.
Provando não ser uma besta estúpida, o dragão se ergueu e bufou: “Eu sou
Rhammidarigaaz, campeão dos viashinos. Ainda se sente tão arrogante?”
Urza inclinou a cabeça em concordância. Fosse ele um simples homem, ficaria
aterrorizado com as perspectivas da batalha, mas Urza poderia se desviar dos golpes
mais rápidos da criatura, poderia eletrocutá-la sem piedade, até que ela caísse morta,
poderia enervá-la até que ela não conseguisse atacar, poderia convocar exércitos de
criaturas artefatos para encher a encosta e desmembrar esses seres. A sutileza em lidar
com essas criaturas foi uma lição que ele aprendera nos últimos mil anos. Não foi o
medo que dirigiu suas ações, mas a preocupação de não revelar muito sobre os seus
poderes – por enquanto.
“Arrogante? Não. Confiante? Sim.” Urza chamou o monstro para frente.
Rhammidarigaaz veio. O poder da força do dragão era como o de uma montanha
se movendo. Urza não se esquivou. Sem mudar de aparência, suas vestes se endureceram
em uma armadura que se dobraria apenas com a sua vontade. A criatura o prendeu em
uma garra, as unhas o apertando. Urza não resistiu. Rhammidarigaaz o elevou no ar e
expeliu ar quente sobre ele.

168
Ele encarou o homem implacável. “Devo te levar para as masmorras ou te matar
agora?”
“Você vai me soltar,” respondeu Urza com calma, “e me levar para o seu rei.”
“Nosso bei não perde tempo com vagabundos,” zombou Rhammidarigaaz, “e eu
não posso deixar você ir. Você viu nossa pátria. Você ficará em cativeiro ou morrerá.”
“Eu prevejo um futuro diferente.”
A besta apertou sua garra. As vestes de Urza se amassaram lentamente ao redor
dele, mas ele não deu nenhum suspiro de dor. O viashino assistia com admiração,
esperando o sangue escorrer dos lábios e dos olhos do homem.
Em vez disso, Urza repetiu seu pedido. “Liberte-me, e me leve ao seu bei.”
Furioso, Rhammidarigaaz abriu os maxilares em um rugido e levantou Urza no
espaço. Dentes gotejavam saliva quente sobre sua cabeça. O monstro o empurrou para
dentro.
Tranquilo como nunca, Urza alcançou a mandíbula cheia de saliva. Uma mão
segurou um dente grande e pegajoso que estava acima dele, e a outra um dente abaixo.
Ele flexionou seus ombros.
O maxilar do dragão se distendeu. Como um cachorro com uma vara presa em sua
boca, Rhammidarigaaz engasgou e virou a sua cabeça. Ele tossiu uma nuvem de sopro
ácido. Os homens-lagarto se espalharam, mas o homem na boca não caiu.
Rhammidarigaaz tentou travar as mandíbulas. A resposta foi um grande estalo. Ele uivou
com a dor. Puxando Urza de sua boca, ele jogou o homem no chão. A fera apertou uma
mandíbula com uma garra trêmula.
Urza rolou pela sujeira vulcânica e se levantou. Ele segurava em sua mão um
dente de dragão pingando.
“Agora você vai me levar para o seu bei.” O olhar de Urza não admitia discussão.
Rhammidarigaaz tirou a garra de sua boca. Escamas se eriçaram em seus ombros
arqueados. Jatos quentes e mortais brotaram de suas narinas. Chamas duplas varreram
Urza.
Ele ficou no meio delas. Veneno e pedra pulverizada passaram por ele. Em alguns
instantes, ele havia se perdido na densa labareda.

169
Os viashinos que haviam fugido, fugiram novamente, ficando mais longe da
batalha. Rhammidarigaaz ventilou sua fúria até que os pulmões estivessem vazios e a
garganta seca. Com o desfazer da fumaça, não havia sinal do invasor.
Os homens-lagarto saíram timidamente dos montes onde eles tinham se protegido.
Um rosnado ronronante que deve ter sido uma risada circulou entre as criaturas.
Como se estivesse em um canto no espaço, Urza de repente apareceu. O dente
sangrento do dragonete ainda estava pendurado em suas mãos.
“Chega de bravatas. Agora me leve ao seu bei.”
A raiva floresceu vermelho-sangue nos olhos do dragonete. Suas garras se
afundaram profundamente na terra vulcânica. Seu quadril se posicionou para inspirar.
Enquanto sua mandíbula se abria, Rhammidarigaaz deu um bote para engolir Urza
inteiro.
O planinauta fez uma careta. Com um gesto improvisado, ele lançou um arco de
magia na besta.
Ela se transformou em pedra. Rhammidarigaaz, o campeão dos viashinos, tornou-
se uma estátua em uma pose extraordinária. Ele parecia ainda maior e mais temível
daquele jeito. Seus maxilares ficaram abertos. Seus olhos cegamente fixados. Todo o
movimento foi capturado no início de um salto que ele nunca concluiria.
Urza encolheu os ombros. O dente pulposo balançava em sua mão. “Bem, agora
em vez de um campeão, vocês têm uma gárgula.” Sua voz se tornou pesada. “Levem-me
ao bei.”
Embora nenhum dos guerreiros viashinos tenha se aproximado, o maior deles saiu
de um abrigo em uma rocha próxima. “Não. Se você fez isso com nosso campeão, o que
você fará com nosso bei?”
Era uma observação sensata e, portanto, por extensão, estes deveriam ser sensatos
homens-lagarto.
Urza se aproximou da estátua do dragão. Ele tirou algumas medidas visuais.
Posicionando-se cuidadosamente fora da linha de ataque, Urza colocou o dente do dragão
de volta ao local que ele tinha ocupado. Assim que ele tocou na criatura, se fundiu à sua
boca. Urza deu um passo para trás. No próximo instante, a aparência pedregosa do
dragonete desvaneceu.

170
Rhammidarigaaz saltou em seu ataque. Ele passou por Urza e caiu no chão diante
de uma pilha de magma resfriado. O peso do seu corpo quebrou uma estrutura de pedra.
Pedaços de pedra se soltaram. Viashinos se espalharam mais longe. A cauda do dragonete
bateu no chão. Ele rolou duas vezes e bateu numa rocha mais distante. Lá ele ficou
deitado, miserável, uma forma retorcida de asa, garras e escamas.
Urza olhou embaraçado para a criatura. Ele se dirigiu a todos os homens-lagarto.
“Eu poderia ir ao bei sem vocês para me guiarem, mas pode haver mais confusão.”
O dragão se levantou. Ele sondou sua mandíbula e ofegou em admiração. “Meu
dente. Está de volta!”
“Eu posso matar, ou posso curar,” disse Urza claramente. “Você decide.”
Viashinos e dragonete trocaram olhares taciturnos. O líder dos homens-lagarto
assentiu significativamente para o campeão.
“Eu me arrependo das minhas atitudes,” balbuciou Rhammidarigaaz com
ressentimento. “A violência não é o caminho.”
“Tudo está perdoado. Esta é uma lição que eu demorei anos para aprender
também,” disse Urza. Ele gesticulou para a trilha em direção à plataforma de mana.
“Vamos prosseguir?”
Com uma magoada reverência – não tão cortês, mas sem zombaria, o dragão
liderou Urza pelo caminho. Os guerreiros viashinos acompanhavam em uma fila atrás
deles.

*****

Jhoira ficou de guarda na torre que ficava entre o porto e a floresta que levava até
a academia. Era uma remota e pequena torre, com provisões para três guardas, com uma
tenda que permitia apenas um turno de descanso. Hoje à noite, as ameias e as muralhas
eram mantidas por apenas dois, mas Karn não precisava dormir. Ele ficou embaixo, ao
lado do portão de ferro trancado, e observava através de uma fresta em uma das paredes.
Nada passaria por ele. Nada sequer tentou.
Na extremidade de uma das muralhas estava uma fenda de tempo rápido, onde um
contingente de oitenta corredores e escorpiões estavam posicionados. Qualquer coisa
viva seria morta pela cortina temporal, e qualquer coisa que não fosse viva seria engolida

171
pelas máquinas da academia. A Lua Tremeluzente brilhava sobre os ombros prateados e
olhos atentos. A outra extremidade da muralha era um penhasco íngreme, na fronteira da
Mata Angelical. As patrulhas de pumas matariam monstros que se movessem pela
floresta, e os falcões, quaisquer monstros que sobrevoassem o ar logo acima.
Já haviam se passado dez anos desde que Jhoira havia descansado nas piscinas
aquecidas da Mata Angelical. Ela não parecia mais velha por fora, mas por dentro ela se
sentia anciã. A água de tempo lento que sustentava Jhoira e todos os outros acadêmicos e
estudantes preservava seu corpo, mas seu espírito não era mais de uma criança. Ela havia
tido sua busca visionária. Ela havia aprendido como “atravessar” não apenas para salvar
Teferi de seu isolamento, mas também para se salvar. Ela não havia encontrado uma alma
gêmea, mas um espírito idêntico e ela percebeu que havia descoberto seu destino. No
entanto, não era uma vida de mares brilhantes e praias distantes. Era uma vida de
phyrexianos, eternamente borbulhando do reino sombrio de K'rrik.
Esta noite não seria uma exceção.
“Tudo certo por aí, Karn?” Jhoira perguntou, passando por cima da muralha.
“Tudo certo, Jhoira,” veio a resposta em uma voz semelhante a um trovão distante.
“Temos um agrupamento completo de corredores esta noite?”
“Sim,” ele respondeu calmamente.
Jhoira suspirou. Enquanto estava atento, Karn não era muito conversador. Com
toda a sua instrução, formada na academia e posicionada entre os estudiosos mais
convictos, Jhoira já estava cheia de todas as palestras, demonstrações, experimentos e
projetos. Ela gostaria de conversar um pouco.
“Quantos neutralizadores você acha que vamos ver hoje à noite?”
“O número médio neste local é um para cada vigília do dia e três para cada vigília
da noite,” observou Karn.
“Esse número pode mudar agora que Malzra se foi – foi para Shiv,” disse Jhoira
com tristeza. “Eu não sei se eu mesma reconheceria o lugar. Eu tinha onze anos quando o
deixei. Isso foi há mais de quarenta anos.”
Ela balançou a cabeça, pegou um pedaço de pedra do topo das ameias e atirou
para a floresta. A pedra ricocheteou em um par de árvores, fazendo um profundo e triste
eco pela Mata Angelical.
“Provavelmente nunca mais verei o lugar novamente.”

172
“Malzra disse que voltaria para buscá-la, assim que ele preparasse o caminho,”
observou Karn.
“Quando ele fizer isso, eu certamente não reconhecerei o lugar,” murmurou
Jhoira, amargamente. “Os viashinos e os goblins serão massacrados, os dragões serão
escravizados e as montanhas serão niveladas em campos de vidro.”
Ao longo dos anos, Karn havia desenvolvido um crescente senso de humor,
baseado fortemente na ironia: “Você acredita tanto assim no mestre Malzra.”
“Mestre Malzra? Você sabe quem é o mestre Malzra? Ele é Urza, o Planinauta! Ele
causou todos os grandes desastres nos últimos três mil anos.”
“Sim, eu sei,” disse Karn calmamente. “Ouvi Barrin e Urza em várias ocasiões
quando eles pensaram que eu estava desativado.”
Jhoira rosnou, lançou as mãos no ar e olhou fixamente para o ser prateado logo
abaixo. “Você poderia ter mencionado isso.”
“Urza parecia querer manter o segredo.”
“Não chocou você? Não parecia impossível o homem ser uma lenda de três mil
anos?”
A cabeça prateada de Karn estremeceu lentamente. “Eu sou um homem feito de
prata. Minha melhor amiga é uma gênia de Ghitu que tem cinquenta anos, mas parece ter
vinte. Eu habito uma ilha onde um dia pode passar em minutos ou em anos. Não, a
identidade real de Malzra não me chocou em nada.”
“Você não ficou indignado? Aqui está o único homem responsável por todas as
coisas perversas que já aconteceram ao nosso mundo. Ele causa todos os problemas e
deixa-”
“Ele deu um sinalizador para Barrin,” disse Karn.
O discurso de Jhoira foi suspenso por um curto momento curto. “Ele o quê?”
“Barrin tem um sinalizador, uma adaga com uma joia encrustada, que é
magicamente ligada a um pingente ao redor do pescoço de Urza. Barrin pode convocá-lo
no momento em que ele perceber que a guerra será perdida. Ele pode aparecer tão rápido
quanto os defensores nativos da ilha.”
Jhoira balançou a cabeça. “Você está defendendo ele. Você não está vendo?” Urza
deveria ter ficado aqui até que os phyrexianos deixassem de ser uma ameaça. Ele é a
razão pela qual os phyrexianos estão aqui -”

173
“Nós somos a razão pela qual os phyrexianos estão aqui,” corrigiu Karn. “Você e
eu somos o motivo pelo qual K'rrik está aqui. Urza pode ser o motivo pelo qual eles
vieram, mas nós somos a razão pela qual K'rrik entrou. Cabe a todos nós nos livrarmos
deles.”
Enquanto essas palavras eram digeridas, Jhoira vislumbrou, à longa distância, o
movimento de algo grande e com várias pernas, correndo como uma pulga gigante. Karn
acionou o alarme.
Um grupo de cinco corredores saiu da fenda de tempo rápido ao lado da muralha.
Eles avançaram pelas trilhas. Suas pernas catracavam na escuridão.
O distante monstro sobre rodas começou a recuar.
Em instantes, os corredores o fecharam. Eles brilhavam na luz prateada da Lua
Tremeluzente. O pequeno estalar da luta perturbou a noite na floresta.
O phyrexiano gritou, mas caiu. Era pequeno e monstrengo entre as árvores
solenes.
O som da cimitarra dos corredores terminou em cinco golpes suculentos. Um a
um, seus mecanismos internos foram desligados. Pedaços de carne, sangue e
aparelhagem saltaram no ar. Em alguns instantes, havia apenas fumaça e um emaranhado
de patas, monstro e máquina.
“Nós trouxemos K'rrik para cá, Jhoira,” repetiu Karn, no silêncio que se seguiu.
“Sim,” ela concordou, “e precisamos nos livrar dele.”

*****

“Sim, Majestade,” disse Urza com gratidão enquanto se curvava diante do senhor
lagarto: “Eu sou um planinauta. Eu, e toda Dominária, precisamos de sua forja.”
Urza fez um amplo gesto, incluindo o alto salão, suas sacadas circulares e sua
câmara cônica. Ele observara bastante a instalação durante o trajeto – as câmaras de
coque e os altos-fornos, as salas dos moldes e os cilindros, as antigas engrenagens e as
correntes. Ele havia visto o suficiente para saber que a forja era capaz de produzir muito
mais do que quinquilharias – se fosse entregue às mãos corretas.

174
O bei era um velho viashino. Um papo cinzento pendurado em seu pescoço e uma
crista vermelha se erguia em sua cabeça. Vestido em roxo, o Bei Olho Incandescente
estava em um trilho ornamentado, o equivalente a um trono para uma espécie que não
tinha a fisiologia e nem a necessidade de se sentar. O trilho era uma haste gigante
cravada na parede. O espaço circular tinha se tornado um púlpito, protegido contra
ataques pelos três lados. O simbolismo era claro – aquele que estivesse dentro da haste
ancestral incorporava o poder de todo o maquinário arcano. Seus olhos eram pequenos e
implacáveis à medida que se movimentavam pela multidão reunida na sua sala de
audiências. Eles brilharam especialmente ao jovem dragão que havia sido enviado para
deter Urza.
Por fim, Olho Incandescente falou, “O que você criaria com essa forja?”
Urza piscou, sorrindo por um momento. “Máquinas. Máquinas vivas, como essa.”
Ele posicionou as mãos em um espaço vazio, e em sua mão apareceu uma grande folha
de papel – o projeto do homem de prata, Karn – que se espalhou pelo chão diante do bei.
“Homens como este. Eu os criarei do seu metal. Eu os criarei para defender nosso
mundo.”
O bei olhou por um tempo para os projetos antes de sibilar sua resposta. “Esta
máquina funcionará?”
“Eu vou te mostrar que sim,” disse Urza enfaticamente. “Eu trarei um protótipo de
metal. Um modelo antigo – muito leve. Você verá. Ele funciona bem.”
Mais uma vez, o silêncio. Urza não estava acostumado a esperar as decisões dos
outros, mas ele precisava dessas criaturas. Eles sabiam mais sobre a plataforma do que
qualquer outro ser no planeta. Eles conheciam os segredos sobre fazer metal Thran.
Por fim, o bei falou novamente: “Você pode fazer seus homens de metal com
nossa forja, mas com duas condições.”
“Sim?” incitou Urza.
“Primeiro, há um certo antigo inimigo nosso-”
“Os goblins?” Urza tentou adivinhar.
“Não. Os goblins são uma ameaça, sim, mas nossas patrulhas são mais do que
capazes de detê-los. O inimigo de que falo é a Dragoa Gherridarigaaz, mãe do nosso
campeão. Ela tem nos atormentado desde que seu filho se juntou a nós,” disse o Bei.
“Você deve interromper seus ataques.”

175
“Será feito,” respondeu Urza, “e a outra condição?”
“Em segundo lugar, nos conceda a propriedade perpétua da criatura protótipo de
que você falou.”
Urza olhou um longo tempo para o senhor lagarto, sentado ali entronizado na
haste maciça. Seus preciosos olhos se levantaram, alcançando as sacadas escuras, como
se ali repousasse uma resposta. “O que você pede é um grande sacrifício.”
O bei balançou a cabeça calmamente. “Entre nosso povo, se sacrificar pela tribo é
a maior honra.”
Havia sabedoria naquele ditado. Urza pensou em todos os sacrifícios feitos até
agora nesta guerra. Como sempre, a ameaça phyrexiana gritava novamente em sua mente.
“Sim,” disse Urza Planinauta, “você pode ficar com ele.”

Monólogo

Com a saída de Urza , as coisas ficaram quietas aqui na academia . Nós

tivemos as usuais invasões phyrexianas nas fronteiras. Eles são apenas testes, é

claro, e matando cada uma dessas bestas, estamos apenas ajudando K'rrik a

aperfeiçoar suas forças invasoras para o dia em que todos se reunirão. Mas, por

enquanto, estamos seguros e construindo mais máquinas.

Só me resta imaginar o que Urza está fazendo do outro lado do mundo. Eu

tenho esperança de que as lições que ele aprendeu aqui em Tolária o tenham

feito mais humano novamente . Humano ou não, eu torço pra que ele seja bem-

sucedido. Caso contrário, nós estamos condenados.

– Barrin , mago mestre de Tolária

176
Capítulo 13

A linha de corredores tolarianos atravessou o bosque, suas longas pernas


refletindo como espadas. A luz do sol se inclinava por ambos os lados da floresta. A
máquina que liderava percorreu o rastro de cervos, se inclinou suavemente e emergiu na
crista de um pico, onde parou. Os outros se abaixaram ao seu lado. Gemidos hidráulicos
eram ouvidos, enquanto as máquinas se movimentavam, examinando as planícies abaixo.
Na extremidade dos campos, a Mata Angelical se eriçava com as criaturas se
movimentando – phyrexianos. Presas, garras e caudas brilhavam entre as copas das
árvores e a mata rasteira. A pele, pálida como ossos, brilhava adoecida. Pele de camadas
de couro, ombros pontiagudos, escamas dentadas, crinas farpadas, e olhos como
fragmentos da meia-noite… eles eram monstros mutantes. Agora, alguns pedaços de
metal retirados de falcões, corredores e pumas estavam no corpo das bestas. Não era
apenas uma armadura de guerra, e nem armamento corporal, esses pedaços de metal eram
insígnias de valor. Eles eram troféus, reutilizados de máquinas destruídas.
Nos campos à frente, as tropas de metal se reuniam para se opor a esses monstros.
Corredores inundaram o ventre da terra, às centenas. Pumas se afastavam das clareiras e
observavam através da alta vegetação próxima da Mata Angelical. Uma grande falange
de escorpiões preenchia o centro do exército.
Os corredores no topo rangeram e se afastaram, abrindo espaço para uma nova
chegada. Um grande corredor, equipado com uma sela e painel de controle, adentrou o
espaço. Sua cavaleira ergueu-se na sela e levou uma mão suja de óleo à sua testa,
observando a batalha.
“Karn, venha até aqui”, gritou a piloto.
Uma figura reluzente apontou na trilha dos cervos, atrás dela, e parou.
“Eu não fui construído para correr, Jhoira,” disse o golem.
Ignorando o comentário, Jhoira disse: “O ataque principal está vindo diretamente
da Mata Angelical, como os falcões observadores relataram. Eles devem ter escavado seu
caminho pelo complexo de cavernas do lado sul da floresta. Ainda bem. A Mata
Angelical é um espaço de tempo suave. Como a maioria das nossas forças já parou de
avançar, nós conseguiremos passar pela beirada da floresta e alcançar a boca da caverna
de onde eles estão saindo. Vamos parar o avanço deles e depois martelá-los pelas costas.”

177
“Como seis corredores, uma jovem e um golem de prata vão parar um exército de
phyrexianos?” Karn perguntou, sua estrutura de metal reclamava, cheia de dúvidas.
Jhoira lançou um sorriso sobre o ombro e mandou seu corredor seguir pela encosta
abaixo. “Você verá.”
Os outros corredores seguiram. Eles eram rápidos, marchavam como avestruzes.
Seus pés de três pontas destruíam as pedras soltas enquanto passavam com seu
movimento meio-corrida, meio-deslizamento por toda a encosta até a beirada da floresta.
Eles caminharam entre as grandes copas escuras e entraram na umidade da mata inferior.
De um lado, a cúpula escura do desfiladeiro phyrexiano. Do outro lado, a Mata Angelical
brilhava, infestada por centenas de lentos monstros devastadores. Adiante, havia um
morro de pedra e musgo. Era uma extrusão vulcânica, uma ferida na terra, repleta de
cavernas. Foi através dessas milhares de catacumbas que as tropas demoníacas surgiram
na floresta.
Jhoira guiou sua montaria para o antigo veio que ficava dentro da fenda de tempo
lento da Mata Angelical. Ela avançou para a pilha de pedra, mesmo sabendo que as
hordas demoníacas se moviam nas cavernas embaixo dela. Os outros cinco corredores se
alinharam atrás dela. Karn se manteve na beirada da floresta. O corredor de Jhoira saltou
um amontoado de pedra e escalou para o outro lado. Antes que eles se aproximassem,
avistaram uma descida íngreme na grande caverna. Jhoira parou. Os cinco outros
corredores ficaram em posição ao lado dela, com as pernas rangendo.
Um fluxo constante de phyrexianos emergia da boca da caverna, caminhando lado
a lado em grupos de quatro, em direção à quente vegetação rasteira. Aquele fluxo poderia
ser estancado agora.
Desejando que Karn fosse mais rápido, Jhoira reposicionou sua montaria para o
lado de uma rocha de sustentação e direcionou a máquina contra ela. Os servos se
realinharam e os propulsores modificados dos corredores se flexionaram. A grande pedra
se esfarelou e começou a inclinar. Areia fina começou a chover sobre a entrada da
caverna. Com mais um empurrão, o corredor derrubaria a pedra. Freneticamente, Jhoira
recuou sua montaria. Ela recuperou seu equilíbrio já à beira do penhasco.
A rocha rolou, desabou por um instante com um maciço silêncio no ar e esmagou
um trio de brutamontes phyrexianos. A pedra se dividiu como uma laranja descascada.
Óleo-sangue dourado, ossos quebrados e pedaços de músculos se misturaram com blocos

178
de pedra e areia. A coluna de monstros que vinha atrás recuou em reflexo. Eles se
agruparam com o líder do exército. Era agora ou nunca.
Jhoira galopou em seu corredor por toda a superfície solta do penhasco. Ele caiu
sobre os escombros oleosos do penhasco e das bestas. Cinco outros corredores pularam e
caíram sobre suas pernas rangentes e pivotantes. Virotes de bestas, dezesseis de cada
corredor, acertaram os phyrexianos reunidos na caverna. As noventa e seis lâminas
atingiram a carne e os ossos. A vanguarda da linha phyrexiana desmoronou e aqueles
atrás dela recuaram mais alguns passos. Era o suficiente.
Jhoira liderou a investida na caverna com seu corredor. Ela subiu sobre os pedaços
de rocha e os corpos dos phyrexianos. Os outros cinco a seguiram. Ela empunhou a
espada fina que estava em sua cintura e cortou a cabeça de carapaça de um neutralizador.
Ele gorgolejou, porém lançou seus braços à frente, na tentativa de puxá-la para baixo.
Deixando a lâmina na cabeça da coisa, Jhoira pulou da sela. Sua montaria partiu em
investida e desferiu suas lâminas falciformes para acertar o demônio. De ambos os lados,
os outros corredores travaram suas presas. Dez lâminas foram expostas e estraçalharam
cinco bestas.
Jhoira, enquanto isso, correu em direção à entrada da caverna. Demoraria apenas
alguns instantes até que os mecanismos de autodestruição fossem ativados…
O primeiro, a maior explosão, veio da sua própria montaria. Ela macerou a presa
que prendia e jogou a espada de Jhoira para o teto da caverna. Pedaços de tripas se
espalharam nas paredes. A explosão libertou Jhoira. Ela caiu entre as folhas úmidas
enquanto as outras cinco bombas explodiram.
Fogo e fumaça, ossos e pedras, ondas de enxofre… seguidos de um grande rugido,
o topo da caverna caiu em pedaços. Colapsou, lenta e magnificamente, em cima do
exército de demônios, esmagando-os. O entulho selou a passagem, rebocando-a com óleo
brilhante. A encosta se despedaçou em um vasto deslizamento de terra, e como um
personagem saído de um sonho, o homem de prata solenemente apareceu e deslizou para
baixo, no chão.
Ele escalou as pedras caídas e foi para o lado de Jhoira, preocupado. “Você está
bem?”
A mulher sorriu com dificuldade, sangue escorrendo de seu rosto. “Bem, nós
bloqueamos a saída.”

179
Karn ergueu sua cabeça e olhou cautelosamente para a floresta.
Muitos dos enormes monstros que haviam emergido além da explosão se viraram
para a origem do som. Eles convergiram em um semicírculo feroz entre o homem de
prata e sua amiga.
“Sim, nós fechamos a saída. Agora podemos atacá-los por trás, como você disse.”
Jhoira se ergueu cambaleando fracamente e viu as hordas se aproximando. Ela
suspirou em resignação. “Eu imagino que você não conseguiria me levantar e fugir
deles-”
“Eu não fui construído para correr,” respondeu Karn, sensatamente.
Um aceno solene foi a resposta de Jhoira. “Nós não nos livramos de K'rrik.”
Karn parecia ponderar. “Nós lutamos. Isso é tudo que qualquer um poderia
esperar.”
Jhoira olhou tristemente para o golem e viu refletindo em sua pele prateada as
centenas de demônios apertando o círculo. Alguns tinham dentes tão grandes como
espadas. Outros se movimentavam com membros tão numerosos, retorcidos e fortes
como raízes de manguezais. Cabeças de lobo e pelos farpados, ferrões retraídos e
mandíbulas ósseas, ancas expostas e cascos fendidos, sacos de veneno pulsantes, sacos
de cérebros pulsantes…
“Foi um prazer ser seu amigo, Jhoira de Ghitu,” disse Karn com elaborada
solenidade.
Ela sorriu luminosamente. “Se eu tiver que morrer – e todos nós teremos – eu
estarei feliz de morrer ao seu lado.”
Com um grito ululante, os monstros se precipitaram sobre os dois. Uma floresta de
presas, garras e ferrões convergiu. Karn protegeu Jhoira com seu corpo prateado.
Então houve gritos, sangue e membros arrancados atravessando as árvores. No
meio das garras e dentes, sobressaíam chamas azuis de magia. Algumas se uniam e
formavam enxames de adagas que zumbiam como abelhas. Outras salpicavam os olhos e
despertavam uma fúria canibal. Outras, ainda, transformavam dentes e ossos em farelos.
Rugidos e gorgolejos. Sangue e queimaduras. Morte e desmembramento. Em pouco
tempo, a furiosa carnifica havia se dissipado. A floresta estava quieta novamente.
Karn se virou, confuso. Jhoira emergiu da segurança dos seus braços. De repente,
havia alguém ao lado deles, um homem de túnica azul com cabelos grisalhos. Ele

180
esfregou as mãos como se tivesse acabado de fechar uma porta bastante empoeirada e
depois retirou seus dedos das luvas que haviam sido projetadas para batalhas mágicas.
“Ah, você está aqui,” disse Barrin, com naturalidade. “A batalha central está indo
bem. Quando eu ouvi a explosão aqui, imaginei que seria o trabalho de vocês dois.”
Jhoira examinou sem fôlego os campos após a matança. A floresta fedia como um
matadouro. “Os demônios. Você matou eles. Você lançou um feitiço.”
“Uma série de feitiços,” respondeu Barrin. “Algumas das minhas melhores
convocações e encantamentos. Eles foram todos bem gastos, no entanto, eu posso
recuperá-los. É para isso que existem as bibliotecas. Já vocês dois, eu não conseguiria
recuperar.”
“Nos recuperar…” Jhoira repetiu distraidamente.
“Urza precisa de você em Shiv,” disse Barrin.
O mestre havia partido há alguns meses, e na progressiva guerra phyrexiana,
Jhoira e Karn não tiveram muito tempo para se perguntar sobre o sucesso da missão em
busca de metal Thran.
“Eu o invoquei para ajudar na batalha – uma das razões por estar indo bem. De
qualquer forma, ele diz que entrou em acordo com os viashinos. Ele precisa de você para
fazer uma ponte entre eles. Ele precisa de você, de Teferi e de vários outros acadêmicos
para ajudar a gerir as coisas com os homens-lagarto. Eu ficarei aqui com a maior parte da
academia. Nós cuidaremos dessa guerra até o retorno de vocês.”
“E eu?” perguntou Karn. “Ele precisa de mim?”
“Sim,” disse Barrin, com sua expressão se entristecendo. “Sim, Karn, talvez ele
precise de você mais do que dos outros.”

*****

“Não, a alavanca cinza, não a vermelha,” gritou Jhoira na linha de tubulação


fumegante. Recordando-se, ela repetiu a instrução em viashino.
Seu dialeto do idioma era, evidentemente, Ghitu e, portanto, um pouco difícil para
os homens-lagarto compreenderem. Mesmo assim, após a metade de um ano de trabalho
diário com os homens-lagarto, Jhoira era a única humana que conseguia falar viashino.

181
Urza não podia ser exatamente chamado de humano. Mesmo agora, as criaturas com as
quais ela havia falado, lançavam olhares curiosos para a nebulosa tubulação.
“Cinza, a cor do seu sangue. O vermelho é a cor do meu.” Jhoira estava quase
frustrada o suficiente para morder sua própria mão para demonstrar o que ela queria
dizer.
Um dos lagartos mais jovens, Diago Deerv, gesticulou enfaticamente para a
alavanca apropriada. O imbecil escamoso à esquerda acabou agarrando a alavanca
vermelha. Diago deu uma bofetada com sua mão membranosa – um jeito disciplinar
usado por muitos membros da sociedade viashina – e alcançou, ele mesmo, a alavanca
correta.
Uma explosão de vapor veio da tubulação atrás de Jhoira, saindo do mais alto tubo
escuro para o cômodo cavernoso. O cheiro de enxofre e de rocha superaquecida
permeava o lugar. Ele era aquecido dentro da cripta invisível, se condensava, e ali se
fixava.
Gotas quentes pingavam em suas costas suadas. Jhoira projetou um manto de
penas de dragão, que se tornou um padrão para os trabalhadores nos poços de lava. As
penas eram à prova das maiores temperaturas e, ainda, elas impediam o suor e o calor de
se aproximarem da pele. Sob o manto, ela usava apenas um macacão leve, de linho,
semelhante a uma pantalona. Seus pés estavam calçados com chinelos de penas de
dragão, e ela tinha um par de luvas idênticas, no caso de ela precisar lidar com qualquer
um dos controles superaquecidos.
Os tubos vítreos começaram a brilhar quando a lava passou a ser bombeada por
eles. O calor da câmara redobrou. Em alguns minutos, seria um verdadeiro forno.
“Vamos subir para os altos-fornos,” instruiu Jhoira.
As escamas dos homens-lagarto se eriçavam pelos rostos, braços e caudas, lutando
para expelir calor no ar. Com os olhos arregalados e ofegantes, os viashinos concordaram
com a cabeça, entusiasticamente. Era um gesto que eles haviam aprendido de seus
colegas humanos.
“Bom. Sigam-me.”
Escalando um emaranhado de tubos escuros, rachados e sem uso após séculos de
negligência, Jhoira liderou seu contingente para a escada de madeira. Os trilhos de ferro
estavam muito quentes para serem tocados, e até mesmo a madeira era suportável apenas

182
com luvas de penas de dragão. Jhoira subiu. Diago Deerv a seguiu. Seus companheiros
foram logo atrás. Jhoira alcançou a escotilha acima, girou a espessa roda de metal que
desengatou o mecanismo de bloqueio e empurrou o ferrolho. O ar quente rugiu ao redor
dela enquanto ela escalava pelo eixo.
Aqueles que estavam na câmara acima – um espaço luminoso, arejado, cheio de
fornalhas gigantes com paredes grossas e grandes calhas de escória - viraram-se para ver
surgir as criaturas cobertas de fuligem e suadas do seu submundo infernal.
Entre os trabalhadores na sala dos fornos estava Teferi. O jovem havia substituído
as brincadeiras travessas por uma ardente força de vontade e uma busca implacável pelo
conhecimento. Alto, magro, rijo e com os olhos claros, Teferi era bonito. Sua pele escura
ainda não havia sido marcada pelas rugas de idade, e seus olhos castanhos tinham um
foco incrivelmente intenso. Embora cronologicamente ele tivesse um terço da idade de
Jhoira, agora, eles pareciam gêmeos, física e metafisicamente.
“Jhoira,” ele disse, aproximando-se dela. O mago e a artífice eram parceiros neste
empreendimento, supervisionando toda a implantação da plataforma de mana. “Quantos
conduítes já estão em atividade?”
“Vinte e cinco, se esse continuar,” respondeu Jhoira.
“Isso deve ser suficiente para aquecer todas as cinco fornalhas”, observou Teferi
com aprovação. Ele sorriu agradecido e deslumbrante.
“É apenas um décimo das tubulações grandes”, respondeu Jhoira. “Eu ainda não
tirei da cabeça a ideia de que este lugar era usado para muito mais do que apenas
produzir metal. A energia que esse lugar consegue retirar do vulcão seria suficiente para
ligar cinquenta fornalhas, mas não há cinquenta aqui. Eles devem ter usado o poder do
vulcão para outra coisa.”
Teferi se aproximou dela e um pouco de seus velhos caprichos brilhou em seus
olhos. Ele ainda era arrogante o suficiente para usar a magia para aumentar o brilho dos
seus olhos.
“Eu te disse, a resposta está nos salões dos tabus. Eu estou te implorando há
meses para você explorar o lugar comigo…”
“E comprometer a aliança?” sibilou Jhoira.
“Enquanto a dragoa Gherridarigaaz estiver viva, a aliança não será quebrada,”
disse Teferi. “Vamos lá. Diga que você virá comigo.”

183
Jhoira suspirou com resignação. “Assim que a produção de metal estiver
totalmente operacional. Até lá, nós não temos tempo para ficar andando por aí.”
“Isso pode demorar anos,” pressionou Teferi.
“Bem, faça anos se tornarem meses, e você não terá que esperar tanto tempo.”

*****

A aproximação ao ninho de Gherridarigaaz era terminantemente proibida. As


terras em um raio de dez milhas eram território goblin, e nelas as criaturas eram tão
vorazes como larvas em carcaça. Em um raio de duas milhas, o ninho da dragoa estava
cercado por um mar de lava em ebulição. O ninho, em si, estava em cima de um pináculo
de pedra irregular que se erguia como um dedo torto no centro da caldeira. Outros
monólitos se inclinavam na bacia borbulhante. Eles estavam distantes uns dos outros o
suficiente para que nenhuma criatura terrestre em sã consciência tentasse pular de pedra
em pedra para alcançar o ninho.
Nem Urza e nem Karn eram conhecidos por suas sãs consciências. Nem por serem
exatamente terrestres. Eles permaneceram em silêncio na beira rochosa do poço de
magma. Eles estavam em Shiv há mais de um ano e ainda sentiam que caminhavam na
superfície de um mundo alienígena. A vibração audível dos pés dos goblins, furtivos e
ferozes, nas terras ermas atrás deles, apenas aumentava essa impressão.
Urza olhou por algum tempo para o distante ninho da dragoa, uma enorme
incrustação de ramo de árvore, entrelaçada com piche e argila aquecida. Ele se curvou,
pegou uma pedra grande e atirou com uma força incrível para o outro lado da caldeira. A
pedra saltou doze vezes antes de derreter no meio do nada.
“Nós somos capazes de pular pedra sobre pedra para chegar lá,” disse Urza
calmamente.
“Sim,” respondeu Karn.
Urza concordou, suas narinas queimavam. Qualquer criatura viva teria sido
envenenada pelos gases expelidos pelos lugares que eles passaram.
“Eu posso lançar uma mágica que nos permita caminhar sobre a lava ou voar.”
“Sim,” disse Karn.

184
Urza inclinou-se para pegar outra pedra, mas pensou melhor e agachou-se por
algum tempo, observando fantasmas de vapor passeando pela lava.
“Eu poderia conjurar meus próprios dragões de fogo e enviá-los para matá-la.”
“Sim,” disse Karn laconicamente. “Você é Urza, o Planinauta. Você pode fazer
qualquer coisa. Você pode desejar que nós apareçamos no ninho e pode desejar que
Gherridarigaaz desapareça da existência. Você pode fazer tudo o que quiser. Você é Urza,
o Planinauta.”
Era a vez de Urza ser lacônico. “Sim.”
Karn virou-se para o homem cintilante. “Se você pode fazer qualquer coisa, então,
por que você me trocou por um exército de artefatos de metal Thran?”
Os olhos do planinauta se endureceram. “Você respondeu à sua pergunta. Por que
eu não trocaria um golem de prata por um exército de homens de metal Thran? Há uma
grande guerra chegando. Nós devemos fazer sacrifícios.”
“Mas você me sacrificou.”
Ele mal havia proferido as palavras quando, com um súbito e vertiginoso zumbido
de movimento, o topo do penhasco derreteu. O oceano escarlate e o céu fulminante
também haviam desaparecido.
Karn ficou imóvel. Urza os estava transplanando para o ninho. Um ser humano
poderia sobreviver à viagem apenas se fosse carregado em uma embolia protetora, ou
transformado em pedra, ou tornado uma criatura plena de geometria imutável. Karn
simplesmente se manteve como ele era. Urza já havia o enviado em viagens mais
perigosas.
Eles chegaram. O céu fuliginoso permanecia sobre eles. O resto do mundo foi
substituído por uma vasta circunferência de madeira e argila, o covil da dragoa de fogo.
Um canto estava cheio de pedaços de ossos, brancos e descarnados pelos vapores de
enxofre. Ao lado, estava uma carcaça meio-comida de uma pequena baleia.
Aparentemente, havia sido arrancada da água como um arenque capturado por um
martim-pescador. O mau cheiro da criatura do mar apodrecendo atraía nuvens de moscas.
Misturava-se com o fedor de enxofre e outro cheiro – selvagem, salgado e agudo – como
fumaça de madeira…
Gherridarigaaz. A grande dragoa estava deitada no canto oposto do ninho. No
momento, ela era apenas uma enorme pilha de pele vermelha, escamas, penas e pelos.

185
Seus grandes focinhos exalavam apenas fluxos de fumaça. Fuligem se emaranhava
languidamente entre suas sobrancelhas espetadas e as pálpebras delgadas. Um par de
grandes garras repousava ao lado de seu rosto. Asas de pele dobravam-se sobre seus
flancos. A cauda escamosa da criatura estava enrolada na endurecida base do ninho.
Urza avançou em direção à criatura e disse, sem preâmbulo: “Eu sou Urza, o
Planinauta. Eu posso te matar com um pensamento. Eu vou te matar com um pensamento
se você fizer qualquer movimento para nos ferir, e eu vou te matar a menos que você
cesse seus ataques contra o assentamento dos viashinos.”
A dragoa levantou lentamente a cabeça. As pálpebras gigantes recuaram dos olhos
de pupilas cortadas, cheios de estrias pretas e douradas. A besta falou. Sua voz era ampla
e ronronante. “Você não gosta muito de negociar, não é?”
“Nossa mensagem foi entendida,” disse Urza categoricamente.
“Entendida, sim,” respondeu a dragoa. “Obedecida, não.”
“Você não tem alternativa,” disse Urza.
“Eu tenho uma alternativa,” corrigiu Gherridarigaaz. “A morte é uma alternativa.”
“Qual criatura escolheria a morte ao invés da vida?”
“Uma mãe escolheria,” veio a imediata resposta. “Claramente você nunca foi pai.”
Urza lançou um longo olhar para o homem de prata ao seu lado. “Eu já fui pai.”
“Ah, sim,” ronronou a dragoa em recordação. “Urza Planinauta. Eu estou bem
ciente sobre a mitologia humana. Sim, você teve um filho. Harbin era o nome dele. Você
o cegou quando destruiu Argoth. Alguns dizem que você afundou seu barco e o matou.”
“Eu tentei mantê-lo longe da guerra,” replicou Urza, em reflexo. “O que eu fiz, eu
fiz para salvar toda Dominária.”
“Você sacrificou seu filho para salvar o mundo,” disse a dragoa. “Essa é a
diferença entre nós, planinauta. Eu sacrificaria o mundo para salvar meu filho. Eu não
vou desistir da luta para libertá-lo.”
“Rhammidarigaaz escolheu te deixar. Ele escolheu se juntar aos viashinos,”
apontou Urza.
“Seu filho escolheu se juntar à guerra.”
As feições de Urza demonstravam irritação. “Eu poderia te matar agora.”

186
“Sim, você poderia, planinauta. A história diz que você conseguiria, mas por que,
então, ainda estou viva?”
Urza lançou um último e ferrenho olhar para a criatura. “Você foi avisada.” Com
um pensamento, ele e o homem prata partiram do ninho flamejante.

*****

Barrin corria. Os ramos das árvores o golpeavam. Ele se manteve agachado.


A coisa atrás dele era grande e sinuosa. Ela deslizava em seu rastro – uma
serpente gigante, musculosa, silenciosa e de sangue frio. Sua cabeça cheia de chifres era
tão grande quanto o próprio mago. Se ela estendesse toda a sua mandíbula, conseguiria
engoli-lo inteiro. Dois volumes do tamanho de um homem já haviam dilatado seu
intestino.
“Tem que haver algum feitiço para derrotar isso. Eu sei centenas deles. É apenas
uma questão de pensar… Alguma coisa sobre travessia de pântano?”
O mago mestre corria. Ele estava no calor do combate quando a coisa irrompeu
em sua direção. O aparecimento da besta interrompeu uma complexa conjuração. A
queima de mana açoitou Barrin. Ele recuou. Desconcentrado, ele vasculhou seu cérebro
por uma defesa, mas não encontrou, então correu.
Essa coisa não era phyrexiana. Ela havia sido conjurada. A píton havia sido
conjurada por um phyrexiano capaz de lançar mágicas. Isso era novidade. Aparentemente
K'rrik esteve decantando mutantes resistentes ao tempo o suficiente para erguer um
feiticeiro de seu exército – um, dois, ou talvez um pequeno exército deles. A serpente
gigante atrás dele não era apenas uma aterrorizante comedora de homens, era também o
prenúncio de que males piores estavam por vir.
O ar serrava a garganta de Barrin. Vinhas agarravam seus braços. A respiração fria
da criatura o acompanhava, quase o alcançando. Ele redobrou sua velocidade. Pense!
Pense! O chão traiçoeiro roubou seu equilíbrio. Com um xingamento, Barrin tropeçou. A
vegetação rasteira diminuiu a velocidade do tombo e ele bateu em uma árvore.
A serpente se enrolou à sua frente. Seu ventre cintilava com o brilho das escamas.
Sua boca cheia de dentes brilhantes. Sua mandíbula bocejando e se deslocando.

187
Barrin agarrou-se atrás do tronco da árvore. Instintivamente ele sibilou e olhou
para os olhos da coisa.
“Qual é aquela mágica de convocação em que Teferi estava trabalhando? Uma
criatura que podia atravessar as fendas temporais… Não eram os diabretes, era outro –
Pato de Teferi? Não, também não era esse.”
O monstro se enrolou rapidamente ao redor do mago. Ela contornou a árvore e deu
o bote.
“Dragonete de Teferi!”
Um dragão de pele amarela apareceu ao lado de Barrin. Ele abriu suas asas no
espaço apertado da selva, e sua cabeça se levantou furiosamente. Embora a píton fosse
gigantesca, na sombra do dragonete, parecia apenas um verme ao lado de uma galinha. O
dragonete abaixou sua cabeça. Sua boca agarrou a píton.
A serpente se debateu na boca do monstro. Um dos volumes dentro da serpente
também começou a se mexer, ou porque estava brigando ou porque estava sendo
digerido, Barrin não sabia dizer. Arqueando o pescoço para trás, o dragonete amarelo
sugou a serpente e a engoliu de uma vez.
Barrin deslizou para trás ao lado da árvore, ofegante. Se ele tivesse sido morto por
aquela píton, não haveria ninguém para invocar Urza, ninguém para liderar os alunos. E
haveria mais serpentes gigantes, mais asseclas do mal. Mais feiticeiros phyrexianos…
Mais quantos feiticeiros K'rrik teria?
Entre suas reflexões veio a percepção aguda de que o dragonete convocado estava
olhando para ele. Seus olhos eram vazios e acusadores, como os olhos de Karn. Então,
tão rapidamente como chegou, ele saiu de fase.
Essa era a falha no feitiço de Teferi. Até então, as criaturas que ele convocava
poderiam atravessar fendas temporais, mas permaneciam existindo apenas alguns
minutos. Barrin sabia desse efeito colateral, mas ele estava desesperado. O dragonete
tinha sido criado apenas para lutar, descartável.
Como Karn…

*****

188
Karn sentou-se numa escarpa de pedra na montanha ao lado da plataforma de
mana. As artérias cerâmicas sob a estrutura brilhavam com lava pulsante, bombeada pela
caldeira abaixo. No interior da fábrica, braços maciços articulados estavam girando
grandes manivelas. Grandes colunas de vapor eram expelidas do topo da plataforma. A
coisa toda retumbava e rugia em uma fúria imprevisível. A plataforma parecia uma
grande besta, agachada no pôr-do-sol vermelho e negro, uivando para o céu, sorvendo do
poço de lava.
Eles a trouxeram à vida. Após um ano e meio de trabalho, Jhoira, Teferi e Urza
trouxeram-na à vida. Jhoira provou-se novamente a conexão necessária entre Urza e o
povo sob seu comando. Teferi havia se tornado um mago e um líder criativo. Juntos, eles
conseguiram forjar uma difícil aliança entre os estudantes humanos e os trabalhadores
viashinos. Urza, por sua vez, conseguiu fazer a dragoa Gherridarigaaz parar de atacar a
instalação. A sua presença foi suficiente para tornar as constantes batalhas por fronteiras
entre os goblins em esporádicos incidentes. O topo da montanha era governado com mão
de ferro em uma luva de veludo. Tudo estava progredindo de acordo com o planejado, e
as primeiras novas moldagens de metal Thran estavam a apenas alguns momentos de
serem derramadas.
Eles trouxeram-na à vida, porém Karn sentia-se morto.
Talvez isso tenha acontecido porque Teferi o substituíra como o companheiro mais
próximo de Jhoira. O trabalho deles era de vivificar a instalação, tornando necessário o
estreitamento do contato. A espécie deles recebia bem a ideia de estreitamento de
contato. Karn não sentia ciúmes sobre esse crescente relacionamento e até estava feliz
por Jhoira ter um amigo de carne e osso. Mas entre seu trabalho e Teferi, Jhoira já não
tinha mais tempo para longos passeios ou conversas à tarde com o homem de prata. Ele
sentia saudades daqueles sombrios dias que passavam juntos nas torres de guarda de
Tolária, mas não era isso que entristecia Karn.
O sentimento de medo e morte provinha da decisão dada em sua vida. Quando
tudo estivesse dito e feito, ele pertenceria aos homens-lagarto. Urza sugeriu mover seu
córtex intelecto-emocional para uma nova carcaça de metal Thran, porém o homem não
podia prometer que a mente de Karn migraria junto.
Com um rugido súbito, a instalação entrou em movimento. Embora as seções
proibidas da plataforma permanecessem escuras, as janelas do restante resplandeceram
com o brilho da luz. As paredes da grande máquina chiavam e brilhavam. Os pacientes

189
rolos e pistões das manivelas se aceleraram e iniciaram um profundo e tremulante
zunido. Os jatos de vapor expelidos acima da instalação se juntaram a uma grande nuvem
de fuligem que apagou o sol e o céu, envolvendo a plataforma e o homem de prata em
uma névoa asfixiante.
Ele ficou sentado um pouco mais, envolto em escuridão. As forjas estavam
queimando, os metais se formando, os moldes se enchendo. Dentro da plataforma, um
novo exército de homens de metal estava nascendo. Do lado de fora, um velho homem de
metal estava morrendo.
Ao seu redor, pequenos olhos vermelhos emergiram das cavernas e fendas
próximas. Despercebidos pelo desanimado golem, goblins se aventuraram até os limites
da plataforma, subiram uns nos ombros dos outros para espiarem as janelas, e deixaram
centenas de garras nas placas soltas ou nas aberturas das portas.
Em um determinado lugar, centenas deles encontraram um caminho para dentro.

Monólogo

Sinto falta de Urza , Jhoira , Karn e … sim, eu admitirei … até de Teferi .

Seus trabalhos na ilha antes de saírem nos deram uma defesa sólida contra a

incursão phyrexiana . Eu só espero que seus trabalhos em Shiv façam o mesmo

para o mundo.

As manobras de K'rrik avançam exponencialmente . O fato de que nossas

máquinas artefato conseguem repelir a atual geração de neutralizadores não

significa que elas impedirão aquelas que emergirão em alguns meses – muito

menos outros feiticeiros neutralizadores. Nós rastreamos e matamos aquele que

conjurou a píton , mas haverá outros.

Os alunos, colegas e eu trabalhamos duro para melhorar e adaptar nossos

projetos, sugerir novas máquinas e criar novos feitiços, mas até mesmo nossos

laboratórios de tempo rápido mais rápidos correm em metade da velocidade dos

de K'rrik .

190
Chegará um conflito final – tanto aqui em Tolária quanto lá em

Dominária . Para vencer nossa pequena guerra aqui , nós precisaremos de Urza ,

Jhoira e todos os outros. Para vencer o iminente conflito, nós precisamos de uma

nova máquina , uma criada pelo próprio Urza , uma que possa se adaptar a

qualquer coisa , uma com poder de fogo maior do que a própria ilha .

Urza começou um esboço antes de sair. Talvez agora ele já tenha

concluído.

– Barrin , mago mestre da Tolária

191
Capítulo 14

“Esta é a nossa salvação,” disse Urza.


Ele caminhou compassadamente diante da série de projetos. Eles preenchiam a
parede semicircular de sua grande sala, na plataforma de mana. A sala se assemelhava à
sua antiga biblioteca em Tolária, embora os livros que alinhavam-se nas prateleiras aqui
fossem em grande parte Thran, ilegíveis para qualquer um além de Urza. Nesta noite, as
prateleiras serviam para manter os projetos alinhados, as mais recentes fantasias
selvagens do genial artífice. Com um fino ponteiro, fundido com o novo metal Thran,
Urza indicou a sofisticada estrutura do dispositivo.
“É uma máquina voadora, feita inteiramente de metal Thran. É conduzida por uma
matriz de powerstones, que ocupa grande parte do casco. Com essas pedras, ela é capaz
de viajar mais rápido do que o som. A energia pode ser redirecionada dos sistemas de
propulsão para várias baterias de armas-”
“Para que serve?” perguntou Jhoira.
Entre o grupo reunido, incluindo Teferi, Karn, e um apanhado dos melhores
acadêmicos, a mulher Ghitu parecia a única disposta a questionar o mestre.
Urza girou no meio da frase e olhou para ela, piscando. “Para quê? É para a
guerra, a guerra contra Phyrexia.”
As sobrancelhas de Jhoira enrugaram. A mão de Teferi apertou seu braço, mas ela
falou mesmo assim.
“O metal e as powerstones necessárias para construir esse navio poderiam ser
usados para fazer exércitos de guerreiros, que seriam mais eficazes contra os exércitos de
demônios.”
“Os exércitos são lentos,” respondeu Urza. A lanterna da sombria sala brilhava em
seus estranhos olhos. “Esta máquina poderá se mover como um raio, para ataques
rápidos, contra alvos específicos – alvos como dragões mecânicos e desembarcadouros.”
“Quantas dessas máquinas você suspeita que os phyrexianos terão?”
“Talvez centenas,” disse Urza sombriamente, “talvez milhares.”
“Não deveríamos planejar a construção de centenas ou milhares de máquinas
como esta?” Jhoira perguntou sensatamente.

192
Urza parecia aborrecido. “Não há powerstones ativas suficientes em Dominária
para construir dois desses dispositivos e qualquer outra defesa mecânica.”
Jhoira suspirou, cruzando os braços. “Apesar de ser uma ideia atraente e
fantástica, parece ser extremamente impraticável. A menos que encontremos algum
tesouro subterrâneo, cheio de powerstones, devemos aproveitar ao máximo as poucas que
temos.”
Uma luz ardente brilhava nos olhos de Urza, e ele parecia estar sem fôlego. Ele
colocou a ponta do apontador de metal Thran sobre a mesa e pressionou-o. A haste
estremeceu com a raiva do mestre. Em vez de quebrar, o metal só produziu uma linha
irregular no topo da obsidiana. Girando, Urza rasgou os projetos da parede, amassou-os e
jogou-os furiosamente no canto.
“Sem mais atrasos. Eu quero o protótipo do homem de metal Thran finalizado este
mês.”

*****

Teferi terminou de desatar o último parafuso, afastou a grade envelhecida cheia de


crostas e fez um gesto para Jhoira no escuro caminho do percurso.
“Os esboços dizem que este espaço leva ao centro da zona proibida.” Os olhos
dele brilhavam com maldade. “Os segredos da plataforma de mana nos aguardam.”
Jhoira olhou de novo, tentando garantir que nenhuma patrulha viashina estivesse
descendo pela passagem. “Eu acho que isso é um erro. Se os lagartos descobrirem-”
“A lei tribal proíbe viashinos de entrarem na zona proibida. Ela não diz nada sobre
humanos,” disse Teferi, e seu sorriso brilhou no espaço escuro. “Além disso, você
prometeu. As forjas de metal têm funcionado em plena capacidade há um ano. Estou bem
atrasado.”
Um riso de resignação veio de Jhoira. Ela balançou a cabeça, espantando o
admirado jovem. “Sim, Teferi, você está bem atrasado.” Ela fez uma pausa. A nuvem dos
dias passados cruzou seus olhos. “Você já me seguiu por outra passagem assim, uma
vez.”
Teferi apenas sorriu.
“Algumas coisas nunca mudam.”

193
Assim que falou, ela tirou uma powerstone incrivelmente brilhante do bolso e
balançou-a no túnel cheio de teias de aranha diante de si. Respirando profundamente, ela
entrou.
Teferi a seguiu de perto. O espaço era apertado, sua altura ligeiramente menor do
que a coxa de Jhoira, sua largura ligeiramente mais fina do que os ombros de Teferi. O
local era claustrofóbico. Em vez de realmente rastejar, os dois exploradores tiveram que
avançar como um movimento de minhoca. Ainda por cima, o local não cruzava um duto
de ar. O chão era muito duro, as paredes eram flanqueadas com moldagens, e em alguns
lugares, ganchos com bordas pontiagudas despontavam das paredes, restringindo ainda
mais o espaço.
Após ficar presa em um desses ganchos pela terceira vez, Jhoira parou. Ela ficou
meio torcida, ofegante, e deixou que o brilho da luz da sua powerstone alcançasse o
caminho à frente. As paredes, o teto e o piso conduziam a um espaço quadrado preto-
acinzentado. Uma brisa úmida e refrescante vinha de lá.
“Tem que haver um motivo para ser proibido,” sussurrou Jhoira, enviando ecos
sussurrantes para todos os lados.
“Sim, porque o que quer que esteja lá é valioso, precioso…”
“Talvez até mortal,” Jhoira concluiu para ele. “Me ocorreu agora que, como essa
ideia é sua, você é quem deveria liderar.”
Teferi não respondeu imediatamente. O repentino silêncio deixou Jhoira nervosa.
Ela esticou o pescoço para vislumbrar o homem. Sua powerstone cintilava, e cargas de
luz dançavam vagamente sobre eles.
“Jhoira,” ele disse, finalmente, com uma voz surpresa, “esses ganchos na parede.
Você sabe o que são?”
“Disparadores de armadilhas,” ela arriscou ironicamente, “ou dardos venenosos?”
“Lanternas,” disse Teferi, respondendo a sua própria pergunta. “Estas são as
arandelas das lanternas. Olhe.”
Ele ergueu a powerstone para a pequena ondulação saliente de metal perto do alto
da parede. A pedra pulsou mais brilhante à medida que foi levantada, mostrando uma
parábola pequena e brilhante, e, na frente dela, um grampo em uma arandela. Teferi
colocou a pedra brilhante no grampo, e de repente ele acendeu.

194
Os exploradores retrocederam, cobrindo os olhos. Faixas brilhantes de luz caíram
ao redor deles. Logo seus olhos se ajustaram ao que antes parecia um brilho cegante, e
eles claramente viram o corredor.
Aquilo era o que parecia ser, um corredor feito para criaturas muito mais baixas
do que os dois humanos. O chão era composto de mármore com nervuras, as paredes de
metal rebitado e, em intervalos regulares ao longo do caminho, arandelas de lanternas
pendiam.
“Para quem foi feito? Viashinos?” Jhoira se perguntou em voz alta. “Eles teriam
tantos problemas quanto nós para descer por esta passagem.”
“Talvez os antigos Thran fossem pequenos,” especulou Teferi.
Jhoira balançou a cabeça. “Você não se lembra das histórias de Urza e Mishra
encontrando o primeiro ornitóptero? O assento e os controles deles eram de tamanho
humano. Não, isso deve ter sido para outra raça”.
“Você quer dizer que alguém, além dos Thran, construiu este lugar?”
“Não,” respondeu Jhoira, “quero dizer que os Thran construíram este lugar para
que alguém conduzisse.”
“Uma raça escrava?”
“Possivelmente.” Jhoira articulou. “Eu vejo algo à frente, do lado. Parece uma
porta.”
“Vá na frente, mas tenha cuidado. Alguns dos escravos Thran ainda podem estar
por perto.” Teferi retirou a powerstone da arandela, e imediatamente o corredor foi
mergulhado na escuridão. Demorou algum tempo para que seus olhos acostumados à luz
se adaptassem às trevas.
Respirando profundamente, Jhoira avançou até alcançar a entrada. Era uma
abertura curta e estreita. O espaço adiante expeliu um ar quente e seco sobre ela.
Cuidadosamente, ela estendeu a powerstone para a envolvente escuridão. Ela enxergou
um conjunto de tubos de cerâmica, condutos que rastejavam uns sobre os outros como as
vísceras de algum grande leviatã. À medida que seus olhos se acostumaram com a
escuridão, ela pôde distinguir, abaixo do emaranhado de tubos, alguns tubos maiores
brilhando levemente com o calor da lava que eles conduziam.
Teferi ficou ao lado dela e confirmou seus pensamentos. “É aí onde aqueles outros
canais esvaziam. Eles são feitos para alimentar o maquinário na zona proibida.”

195
“Nós contabilizamos apenas trinta por cento dos tubos de lava. Se os outros
setenta por cento forem usados para esses outros dispositivos-”
“O que usaria esse tipo de poder? E se fosse uma pesquisa mutagênica, do tipo de
coisa que K'rrik tem feito?” Teferi se ofereceu.
Jhoira ficou na dúvida. “Eu não consigo imaginar o uso de energia térmica para
criar clones de criaturas. K'rrik certamente não possui esse tipo de poder. Mutagênicos
resultam da manipulação da energia com o poder de coisas em crescimento. Lembra das
histórias de Ashnod? Barris, produtos químicos e fusão muscular-”
A resposta de Teferi foi questionadora. “Você realmente ouviu todas as palestras
de Urza?”
Se empurrando para dentro do corredor, Jhoira disse: “O ar frio e úmido vem da
frente. Deve haver uma grande sala aqui em cima.”
Rastejando, eles chegaram a uma curva apertada na passagem – uma dobra, como
Teferi chamou. Mais à frente, a passagem se alargou e mergulhou em uma
desembocadura com duas portas abertas. O frio no ar era inegável aqui. O ruído das
roupas escorregando no silêncio ecoava atrás deles.
Jhoira estendeu o braço, a powerstone firme em sua palma aberta. A luz era muito
fraca para mostrar qualquer coisa. Mesmo com o cristal brilhante de Teferi ao lado dela,
o espaço comia a luz.
“Bem,” especulou Jhoira, “ou nos aventuramos cegamente para frente…”
“Para cair em um poço aberto ou outra coisa…”
“…ou nós tentamos encontrar outra arandela, ou duas.”
“Aqui está uma,” disse Teferi, enfiando sua powerstone no suporte. Assim que a
luz saltou cegamente da arandela, Jhoira encaixou sua pedra de energia em um espaço no
lado oposto da sala.
O brilho resultante encheu a vasta câmara, afastando as sombras além de uma
abóbada de arestas rebitadas. Suportes e escoras de metal enchiam as paredes e o teto,
através de mais emaranhados de tubos. Os incontáveis tubos – eriçados aqui e ali com
válvulas, medidores de pressão, bombas e válvulas de escape – entravam na sala pelas
paredes e pelo chão, serpenteavam em retorcidas pilhas de tubos ao redor da câmara e
convergiam para uma grande massa central envolvida por andaimes, com muitos andares
de altura. Comparar a rede de tubos com os vasos que cercam um coração gigante seria

196
subestimar o número de canais emaranhados. Eles formavam um verdadeiro matagal,
através do qual o mecanismo central mal era distinguível.
“O que é isso?” Teferi perguntou, cambaleando diante da enorme máquina.
Jhoira também se levantou. “Talvez você esteja certo sobre as experiências
mutagênicas.”
“Vamos ver.”
Teferi bateu a poeira de seu sobretudo e começou a avançar. Ele atravessou um
tubo de distribuição coberto de poeira, observando as pequenas escadas e passadiços que
davam acesso à parte superior.
Jhoira o seguiu. Cada passo levantava poeira para o ar. “Parece que realmente tem
muito tempo que a zona proibida está vazia.”
“Inutilizada, mas não vazia,” Teferi arriscou, apontando para uma pequena pegada
de três dedos no lado oposto de um conjunto de tubos.
Um canal adjacente mantinha uma marca de uma mão de três dedos. Mais rastros
se afastavam do local, para as sombras escondidas atrás do mecanismo principal.
“É como se alguém tivesse observado a nossa aproximação e se afastou quando
iluminamos o lugar.”
Um olhar cauteloso atravessou o rosto de Jhoira. “Já vimos o suficiente para fazer
um significativo relatório para Urza.”
Teferi ignorou a sugestão. “Há uma portinhola ao lado da máquina principal. Ela
está apenas dez passos à frente.”
Sem esperar pela aprovação dela, o jovem avançou. Suas pisadas destruíram os
rastros que haviam descoberto. Jhoira deu um passo atrás dele. As sombras se
aprofundaram. A luz foi reduzida a triangulares manchas brilhantes espalhadas em
caleidoscópio sobre um grande mecanismo de placas de metal. Teferi e Jhoira chegaram
à portinhola. Teferi limpou séculos de poeira do vidro.
Um fio de luz acertou o vidro e brilhou sobre algo lá dentro. Os exploradores se
juntaram na janela e olharam.
“Pelas pedras de Koilos!” Jhoira arfou.
Aquela enorme gema – a powerstone que havia se separado ao toque de Urza e
Mishra, conduzido os dois para a guerra fratricida e abrido a porta para Phyrexia – não

197
poderia ser um cristal maior e mais perfeitamente formado do que a pedra no centro da
câmara escura. Atrás dela, brilhando às centenas, estavam mais gemas, do tamanho de
um punho até o dobro dele, todas postas em uma pilha escura. Se carregadas, qualquer
uma delas poderia ter alimentado um dragão mecânico.
“É por isso que este lugar é proibido,” disse Teferi com admiração. “É um tesouro
de powerstones.”
“Não é um tesouro,” disse Jhoira. “Esta é uma máquina que fabrica powerstones.”
No momento dessa impressionante descoberta, Jhoira fez uma segunda. Ela murmurou,
“Teferi, não estamos sozinhos.”
Os dois se viraram para encarar uma agressiva muralha de lanças curtas,
apontadas para eles. Atrás das selvagens hastes, pequenos olhos vermelhos piscavam nas
pequenas faces malvadas. As lanternas da parede delineavam as sobrancelhas franzidas
das criaturas, suas orelhas pontudas, seus contornos rígidos e a obscena proliferação de
cabelos eriçados das orelhas, verrugas e ombros. “Goblins,” disse Jhoira.
Teferi ergueu as mãos para lançar um feitiço, mas uma rede esfarrapada caiu sobre
eles, interrompendo o encantamento.
A rede se fechou de forma apertada. As lanternas da parede ficaram escuras. As
lanças convergiram.

*****

Eles vieram de todos os lugares. Eles vieram das cavernas onde haviam se
escondido das patrulhas viashinas. Eles vieram das fendas que cortavam seus viveiros
subterrâneos. Eles vieram até mesmo das zonas proibidas da própria plataforma de mana.
Goblins.
Eles vieram de todos os lugares, e vieram aos milhares. Muitos dos invasores de
anca-alta eram os escamas-vermelhas do clã Destrou, que habitavam as encostas
próximas. Eles carregavam lanças adornadas por chifres de carneiros afiados, que se
curvavam tão perto de suas cabeças, que deixavam cortes irregulares nos crânios das
criaturas. Suas longas orelhas estavam presas atrás – um sinal de guerra total – e seus
narizes proeminentes estavam enfurecidos com os uivos da batalha.

198
Alguns outros eram goblins de pele cinza, os Grabbit, um pouco menores do que
os Destrou, porém mais desagradáveis em combate devido à tendência deles de morder
com os dentes pequenos, serrilhados e invariavelmente imundos. Eles também se
jogavam sobre os inimigos, enquanto vestiam jaquetas e calças de couro cobertas com
cravos e betume. Atirando-se aos gritos na batalha, Grabbits amontoavam-se em suas
vítimas, mordendo e torcendo, rasgando com dentes, garras e pedaços de metal, ossos e
pedras presos em suas roupas. Eles eram inimigos selvagens, implacáveis e formidáveis
– mas normalmente não eram aliados dos Destrou.
Nem o terceiro grupo de invasores, os goblins de escama de prata, os Tristou.
Altos e magros, os Tristou ocupavam os distantes cumes da caldeira. Não sendo
normalmente uma raça guerreira, os Tristou eram os oráculos da leitura de ossos e
goblins visionários dados a transes que duravam até uma semana e que rendiam longas e,
na maioria das vezes, ininteligíveis previsões de desgraças. Desde a chegada de Urza, os
profetas Tristou previram uma iminente guerra que uniria as tribos goblin. Seria uma
batalha total contra os viashinos.
O dia daquela guerra havia chegado.
Os viashinos e seus aliados humanos haviam profanado a necrópole sagrada.
Sentinelas Destrou capturaram dois humanos espiando o túmulo das gemas. Em dez
milênios, nenhum goblin tinha profanado esse lugar sagrado por medo de que fosse
morto pelos espíritos ancestrais que habitavam o interior das pedras. Estes dois humanos
não só contemplaram o interior, mas também o iluminaram e nem sequer tiveram a
cortesia de caírem mortos.
As tribos unidas determinaram que os violadores deveriam cair mortos – os
infratores e seus aliados viashinos. Notícias sobre a atrocidade se espalharam como um
incêndio, partindo das patrulhas Destrou na necrópole, para os viveiros Grabbit que
esburacavam as encostas vulcânicas ao redor, alcançando os túneis de vapor e os postos
de guarda estacionados na entrada dos bueiros de vapor sulfúrico, e as cavernas distantes
dos oráculos Tristou. Uma onda de sussurros irritados caiu sobre essas costas distantes e
depois retornou, trazendo com ela um exército unificado de milhares de goblins. Eles
carregavam tochas e açoites, martelos de guerra, espadas dentadas, zarabatanas, bexigas
ácidas, redes, adagas, dentes, garras e a vontade de usá-los em uma guerra com seus
vizinhos.
Eles lutariam até a morte e os dois reféns humanos garantiriam a vitória deles.

199
*****

Urza estava trabalhando em seu protótipo de metal Thran quando o alarme


disparou. Ele olhou para cima, seus olhos de pedras preciosas brilhando em frustração.
Sempre que Jhoira e Teferi estavam de folga, os alarmes soavam quase que
continuamente. Ao fechar os olhos, Urza esfregou as têmporas. Os lugares eram apenas
projeções mentais, é claro, mas, ainda assim, eram mais suscetíveis a doenças
psicossomáticas, como a tensão muscular e os espasmos nervosos. Ele abriu os olhos
novamente. O homem de metal meio montado o encarava.
Não estava funcionando. O metal Thran crescia. Ele não havia notado esse fato
antes. Ele apenas presumiu que os pingentes dos colares de Jhoira eram feitos em vários
tamanhos. Agora ele sabia que os grandes pingentes dos lagartos haviam crescidos dos
pequenos.
As peças do homem de metal Thran também estavam crescendo. Suas placas
peitorais já estavam raspando entre si e limitando as articulações do ombro. Pior ainda,
as engrenagens mecânicas travavam juntas, rompendo rodas dentadas, dobrando eixos,
estilhaçando volantes. Mesmo quando Urza sentou-se, examinando a deformação lenta
do mecanismo, um grande tinido anunciou a súbita e catastrófica falha de um suporte na
pelve da criatura, e uma placa da virilha caiu ignominiosamente.
Urza recuou em seu assento, perguntando-se por quanto tempo aquele alarme
retumbaria. A plataforma de mana era como um balde gigante, amplificando o clamor até
que fosse insuportável. Ao redor das estrondosas quinas de sua mente, Urza perseguiu
um pensamento evasivo… algo sobre o alinhamento de partes crescentes de acordo com a
geometria da vida, de modo que as peças pudessem se expandir em harmonia em vez de
se oporem… Uma forma de esfera ou uma ovoide tridimensional, com mecanismos
internos organizados em cascas encaixadas, que permitiria o crescimento de cada nível e
do todo. Mesmo com aquele som guinchante, ele reconheceu a ironia de projetar uma
máquina com placas encaixadas e sobrepostas, justamente após ir ao plano de Phyrexia.
Seu olhar se virou para os projetos abandonados do navio de metal Thran – ele era
ovoide. Talvez ele pudesse usar o projeto organizacional concêntrico para estruturar…
para permitir a organização… do metal Thran com o… para um crescimento –
“Já chega-!” gritou Urza para o teto vacilante.

200
De repente, o alarme ficou mais alto, ressoando para dentro da sala depois que
uma porta se abriu. Urza se virou furioso, vendo o homem de prata se agachando naquele
espaço tão pequeno.
“O que é isso?”
“Goblins. Goblins em todos os lugares. Três tribos. Os viashinos estão perdendo,”
disse Karn apressadamente.
“Então é isso,” Urza rosnou, parando e fazendo crescer um manto de guerra sobre
os ombros.
O estilete que ele estava segurando cresceu em um bastão cintilante, e ele passou
pelo golem de prata, pela porta e em direção à batalha.

*****

A forja estava um caos. Os trabalhadores viashinos, em seus sobretudos de couro,


lutavam lado a lado com desgrenhados estudantes humanos. As chaves de mão e chaves
inglesas brilhavam entre as armas de duas lâminas, adagas de mão e machadinhas com
cabeça de dragão. Os homens-lagarto lutavam em grupos irregulares, de costas para os
grandes fornos brilhantes que guardavam. Com golpes desesperados e ritmos
desequilibrados, eles mantiveram afastada a lamaçenta onda de goblins.
Eles estavam em toda parte. Grabbits cinzas enxameavam na frente. Eles cortavam
e roíam as pernas. Destrou de escama vermelha se aglomeravam atrás de seus
companheiros menores e giravam lanças com pontas de chifre acima de suas cabeças.
Aqui e ali, alguns ganchos acertavam mangas ou barbilhões dos homens-lagarto e
arrastavam as vítimas para serem empaladas pelos chifres cinza. Atrás dessa linha,
alguns Tristou de pele prateada ficavam no centro do local e lançavam fogos e
relâmpagos nas fileiras dos defensores.
Os viashinos estavam perdendo. Dezessete trabalhadores e quatro guerreiros
jaziam em poças de sangue acinzentado entre os goblins que avançavam. Grabbits se
alimentavam violentamente dessas carcaças mortas. Mais dois guerreiros lagartos
pendiam em chamas ao lado dos fornos. Eles foram empurrados contra o metal abrasador
e sua pele se aderiu. Uns poucos minutos agitados se seguiram, e então os répteis cozidos
tornaram-se carvão. Dois estudantes humanos também morreram, um empalado no final

201
de uma arma roubada e o outro debaixo da maré de dentes dos Grabbits. O resto dos
defensores, em número menor, mal armados e superaquecidos, definhavam entre o fogo e
as lanças.
Diago Deerv acertou uma grande chave ajustável na cabeça de um Grabbit que
estava à sua frente. Ela afundou o crânio da besta. Ele chutou o corpo para seus
companheiros, dando-lhes algo para comer, que não fosse a si mesmo.
“Onde está Jhoira?” Ele ofegou para os trabalhadores ao seu redor. “Ela teria
alguma ideia.”
“Alguma ideia?” rugiu um mecânico próximo. Uma tocha goblin acertou o seu
peito. O homem lagarto se apoiou em sua cauda e chutou o monstro da tocha de fogo
para cima de seus companheiros. A tocha caiu sobre outro grupo de Grabbits em chamas.
“Precisamos de um exército, não de uma ideia.”
Diago olhou para os Grabbits ardentes. “Às vezes, uma ideia vale um exército.”
Ele girou, puxou um bastão de forja do suporte que estava ao seu lado, e enfiou a
extremidade com um gancho em uma grande trava ao lado da forja.
“O que você está fazendo? Estamos lutando contra goblins, não contra forjas.”
“Voltem!” Diago gritou com força.
Seus companheiros retrocederam, e no momento seguinte ele abriu um portão de
escória do lado da forja. Foi derramado um rio de metal derretido, espalhando-se pelas
hordas goblin. Mesmo os ignorantes e insensatos Grabbits fugiram da intensa inundação.
Muitos não foram rápidos o suficiente, varridos sob a onda e explodindo assim que cada
líquido de seus corpos instantaneamente se transformava em gás. Essas pequenas
explosões jogavam pedaços de metal-avermelhado que queimaram outros goblins.
Ofegante, atrás da inundação, Diago arquejou, “Pelo menos nos deu um momento
para respirar.”
O guerreiro ao lado dele estava todo eriçado, suas escamas sobressaindo por todo
o corpo. “Eu prefiro morrer pelas lanças do que pelo fogo.”
Diago olhou para cima, em direção à ampla escada que levava até a forja. “Talvez
não tenhamos que morrer.”
Outra onda desceu as escadas – guerreiros viashinos, totalmente armados e
blindados, com suas armas brilhando num emaranhado enquanto caminhavam para a
batalha. Acima da onda de guerreiros, outra figura veio, flutuando, adornado pela luz

202
ardente. Urza Planinauta desceu, um segundo sol acima de seu exército. Da ponta de seus
dedos, raios de força se projetavam. Onde os raios vermelhos atingiam, corpos de
goblins eram lançados no ar. Eles rolavam como brinquedos carbonizados antes de
baterem no chão.
Os dispersos defensores soltaram um grito de alegria.
Urza pairava no centro da sala da forja. Ele levantou as mãos juntas acima da
cabeça. Uma luz branca despertou entre os dedos. Ela irradiou através dos suportes e
armações de metal que não tinham sido iluminados há milênios e então pulsou em
deslumbrantes ondas. Círculos de luz moveram-se sobre os grupos de monstros,
imobilizando-os no meio da batalha. Foices levantadas não caíram, ficaram congeladas
no ar. Chicotes deram um último golpe antes de ficarem flácidos nas mãos de seus
detentores. Os bastões mágicos dos Tristou se incendiaram e tornaram-se varas de fogo
antes de se desfazerem em leques de cinzas. Em sua última ação antes das ondas de
magia o alcançar, Diago puxou com força o seu bastão com ganchos na ponta, fechando a
comporta de escória e parando a inundação de metal.
No momento seguinte, até os gritos de guerra desapareceram. Todos os olhos se
voltaram para a figura flutuante.
Urza gritou sobre a multidão. Sua voz era gutural, um conjunto de grunhidos e
ladrados ásperos. As palavras, absurdas para os humanos, faziam sentido para os goblins
e seus antigos inimigos lagartos.
“Entreguem-se, todos da raça goblin. Baixem todas as armas ou enfrentem a
destruição imediata.”
Ele fez um sinal, e três figuras goblins – mais altas e com mantos mais elaborados
do que seus companheiros – se ergueram no ar. Os três chefes lutavam contra as garras
invisíveis que os agarravam. Eles se dirigiram para a figura imperiosa.
Abaixo deles, entre as fileiras de goblins, garras nervosas se abriram, deixando
foices e machados caírem no chão. Grabbits se retiraram de cima dos cadáveres, com as
bocas cheias de sangue. Destrous caíram de joelhos em sinal de rendição. Tristous
ficaram de pé, magias esquecidas nos lábios trêmulos. Mesmo depois de se entregarem,
as ondas pacificadoras de energia branca ainda circulavam suavemente entre eles.
“Vou falar com seus chefes sobre os termos de rendição,” anunciou Urza na sala.

203
Ele fez um gesto final, fazendo com que as criaturas flutuantes parassem diante
dele. Eles ficaram pendurados desconfortavelmente no ar, suas vestes de chefe em trapos
sangrentos.
Urza os examinou. Seus estranhos olhos descansavam em cada um deles. O chefe
dos Tristou era uma criatura idosa, com os olhos grandes e solenes atrás de um nariz tão
seco e escuro quanto uma tâmara. Suas vestes já foram finas – azul noturno com fios de
prata, porém uma marca de queimadura mostrava onde seu bastão tinha acertado. Uma
garra tinha sido brutalmente queimada. Ao lado dele, o chefe dos Destrou era uma fêmea
guerreira, vestida com uma armadura de couro cinza, de onde sobressaltavam os braços e
pernas vermelhos. Ela ostentava uma careta de quem não reconhecia a amarga derrota e
mantinha os olhos desafiadoramente levantados na presença de seu inimigo. O terceiro
chefe era um diabrete louco, seu pequeno corpo envolto em uma armadura
ensanguentada, cheia de dentes e fragmentos de metal. Ele lutava furiosamente contra o
seu aprisionamento.
“Eu sou o senhor desta plataforma,” disse Urza com uma expressão contundente.
“Vocês e seu povo irão se retirar. Nenhum de vocês permanecerá dentro de cinco
milhas.”
“Estas são nossas terras ancestrais,” objetou o Tristou prateado.
“Vocês tinham permissão para viver aqui até quando nos atacaram,” apontou Urza.
“Vocês causaram seu próprio exílio.”
“Nosso ataque foi provocado,” disse a chefe guerreira Destrou. “Dois dos seus
tenentes profanaram a nossa necrópole sagrada.”
“Isso não importa,” disse Urza com desdém. “Vocês foram completamente
derrotados. Retirem-se desta instalação e das terras ao redor, ou vou matar os últimos
que permanecerem.”
“Nós estamos com esses tenentes presos”, continuou a Destrou. “Nós os mantemos
em uma gaiola da morte. Ela está ligada a mim. De imediato, eu posso fazer a gaiola
colapsar com eles dentro, matando-os instantaneamente. Se eu morrer, eles morrem.”
Urza estudou a fêmea guerreira. “Você está mentindo.”
“Seus nomes são Jhoira e Teferi,” respondeu a chefe guerreira.
Urza começou uma resposta, mas as palavras se enrolaram em sua língua, e ele se
acalmou. Ele respirou, talvez pela primeira vez desde que entrou na sala da forja.

204
“Leve-me até eles. Quero ver se eles estão vivos.”
“Não,” respondeu a chefe Destrou. Um sorriso cheio de dentes se espalhou no seu
rosto. O jogo virou e ela saboreou a mudança. “Mas você pode falar com eles.” Ela
assentiu para o oráculo Tristou, que usou sua garra carbonizada para desenhar um círculo
preto no ar.
Ruídos vieram do círculo – o tagarelar de goblins, o crepitar do fogo, a mudança
dos ventos da meia-noite.
“Teferi, Jhoira,” Urza chamou, “vocês podem me ouvir?”
Surgiu um som diferente, e o ruído de metal. “Quem é?” veio uma voz de mulher.
“É Urza. Onde você está?”
“Nós não sabemos. Uma caverna escura. Eles nos prenderam em uma gaiola
estranha.”
“Teferi está com você?”
A voz do jovem respondeu: “Sim”.
As feições de Urza endureceram. “Que história é essa que eles me falaram, sobre
vocês profanarem a necrópole sagrada deles?”
Teferi suspirou. “Nós fomos às zonas proibidas. Deve ser isso o que eles queriam
dizer.”
Urza virou-se para o oráculo prateado. “Sua necrópole sagrada está dentro da
plataforma?”
“É sagrada para os nossos antepassados. Eles moravam nela, muito antes dos
homens-lagarto”, respondeu o Tristou com uma contração de seu nariz de ameixa. “Eles
moravam nela com os antigos mestres.”
Antes que Urza pudesse responder, Teferi ofereceu: “Parece que ela foi projetada
para eles. Tudo é do tamanho de goblins – corredores, escadas e controles. Viashinos não
poderiam ter operado ou mantido nenhuma das máquinas que vimos.”
O oráculo prateado piscou calmamente de volta a Urza.
“Você está dizendo que os antepassados deles serviram os Thran?” Urza perguntou
em um tom abafado.
“E tem mais,” interrompeu Jhoira. “Aquele setor da plataforma – o maior setor – é
dedicado à fabricação de powerstones.”

205
O planinauta, a contragosto, ficou branco.
O oráculo falou, no silêncio que se seguiu: “Agora, nós nos rendemos a você, ou
você se rende a nós?”

Monólogo

Urza chegou hoje com notícias estranhas e maravilhosas. Ele acabou de

negociar um acordo de paz entre cinco raças.

Sim, Urza Planinauta – profanador de Argoth , flagelo de Terisíare ,

ruína do Reino de Serra , destruidor de Tolária , aquele cujo nome se tornou

sinônimo de guerra louca e selvagem – Urza negociou a paz. Viashinos, Tristou,

Destrou, Grabbit e humanos agora trabalham de mãos (e garras) dadas dentro da

plataforma de mana . Para tornar as coisas ainda mais incríveis, os dois

humanos prisioneiros de guerra capturados profanando a necrópole sagrada dos

goblins, foram os responsáveis por devolver aos goblins suas antigas terras na

plataforma e treiná-los novamente para operar as maquinarias de lá . E, o mais

incrível de tudo, o que Jhoira , Teferi e suas hordas de goblins produzirão são

powerstones – grandes e perfeitamente projetadas para qualquer tarefa que Urza

desejar.

Ele pareceu louco de novo, relatando todas essas coisas pra mim. Ele

parecia tão encantado como se tivesse acabado de criar alguma máquina grande ,

improvável e poderosa . De certa forma , é exatamente isso que ele acabou de

fazer.

Fiquei triste ao reportar resultados menos estelares dos meus próprios

esforços. Os neutralizadores de K'rrik estão ficando mais poderosos a cada

semana . Nossos laboratórios dificilmente podem acompanhar os antigos projetos.

As novas versões de nossos corredores ainda estão longe dos testes iniciais. Os

feitiços que organizamos conseguiram bloquear as criaturas e artefatos invocados

206
pelos magos phyrexianos, mas não podemos acompanhar os estudos deles. Eu

percebo um conflito final chegando. Mesmo que as forças de K'rrik não nos

ultrapassem rapidamente , nós esgotaremos nossos recursos e força de trabalho.

Seja em um momento, ou em um milhão de momentos, eles vão vencer.

Foi com essa análise que pleiteei a Urza o seu retorno e que trouxesse

Jhoira e Teferi com ele . Ele ignorou o pedido, dizendo que tinha total confiança

em mim. Ele me lembrou do sinalizador, dizendo que eu poderia chamá-lo de

imediato, e esse foi o fim do assunto. Ele não podia esperar para retornar à sua

plataforma de mana e às maravilhosas máquinas que ela produziria .

Não posso deixar de me sentir abandonado. Urza aprendeu muito, de fato

– ele não esquece mais suas obrigações passadas, ele apenas as ignora .

– Barrin , mago mestre de Tolária

207
Capítulo 15

“Esta é a nossa salvação,” disse Urza.


Ele incluiu o mesmo grupo de acadêmicos – Jhoira, Teferi e Karn na liderança do
grupo – no mesmo estudo onde havia apresentado o projeto pela primeira vez. Os
projetos pendurados atrás do animado mestre, entretanto, foram completamente
repensados. Metal Thran foi usado apenas em lugares-chave. O resto da estrutura era de
madeira.
“Será capaz de viajar mais rápido que o som, será capaz de transplanar, será
equipado com poderosas armas ofensivas e será projetado para levar sua tripulação aos
mais hostis ambientes phyrexianos. Será a arma de ataque definitiva, disposta de modo a
penetrar as defesas do inimigo e destruir o núcleo do ataque deles.”
Urza fez uma pausa, como se estivesse à espera das objeções de Jhoira. Ela tossiu
discretamente na mão, mas não fez nenhum comentário.
“Uma das principais mudanças neste projeto, vocês podem notar, é o seu casco de
madeira. Dadas as propriedades do metal Thran – especificamente a sua tendência a
crescer – determinei que seu melhor uso é em conjunto com materiais vivos, neste caso,
madeira – um tipo específico de madeira.” Urza abaixou o apontador que estava usando.
“Dado o excelente progresso que vocês fizeram na nova aliança, sinto que a hora é agora
para eu me ausentar brevemente para garantir os componentes de madeira.”
A multidão, que estava silenciosa, de repente se levantou, os protestos vindo de
todos eles.
“Do que você está falando…”
“… nos traz para este inferno e então desaparece…”
“… como é que devemos impedir que eles se matem…”
A voz de Jhoira se elevou acima dos outros. “…a única razão do acordo ter
funcionado tão bem é porque você está aqui, o inimigo sempre presente e imprevisível.”
“Deixem-nos pensar que eu ainda estou aqui,” disse Urza. “Se quiserem, eu
consigo, inclusive, providenciar algumas aparições ilusórias durante a minha ausência.
Estou falando de apenas alguns dias.”
Essa garantia acalmou grande parte dos que tinham objeção. Jhoira ainda estava
receosa: “E se demorar mais?”

208
Urza pareceu considerar, seus olhos cintilando, e então encolheu sutilmente os
ombros. “Você vai gerenciar. Você sempre consegue. Enquanto isso, eu tenho algumas
especificações novas para algumas peças de metal Thran – os acessórios para o navio. Eu
quero que você comece por eles. Além disso, eu tenho essas especificações sobre o
tamanho e a forma da powerstone que preciso para os motores do navio. Jhoira, eu quero
você e Teferi pessoalmente na supervisão dessa criação.”

*****

Urza desceu no coração de uma densa selva, no coração de um sonho antigo.


Era chamada Yavimaya. Suas árvores antigas atingiam mil metros em direção ao
céu, mil metros para dentro do solo e três mil anos no passado. Logo abaixo dos pés de
Urza – calçados em sandálias douradas, adequadas ao seu papel como embaixador de
toda a Dominária – se espalhava a paisagem caída dos topos das árvores. As copas
multidirecionadas assentiam com sabedoria aos ventos fortes. Entre suas formas
variáveis, membros gigantes torciam-se, tão grandes e castanhos quanto as encostas
inteiras de outro lugar.
Nas cavidades de alguns dos maciços galhos, águas claras brilhavam em lagos
largos e tortuosos, a uma altura de trinta metros acima da casca lisa. As chuvas diárias
preenchiam esses lagos suspensos. As suas bordas pendiam com cortinas de musgo e
assentamentos de elfos se escondiam em suas margens. Cachoeiras cascateavam dos
lagos, caindo em arcos ou no ar vazio para a floresta sombria abaixo.
Urza não parou entre os povos élficos. Ele não procurou nenhum dos habitantes da
floresta individualmente, mas todos eles coletivamente. Ele buscou o espírito da própria
floresta: Yavimaya.
Em alguns lugares, uma árvore magnífica havia finalmente sucumbido às colônias
de vermes e térmitas que esburacavam o tronco do tamanho de uma cidade, ou ao
apodrecimento das raízes profundas no limo sem luz, ou ao implacável avanço do tempo,
e tombara. Muitos gigantes mortos inclinavam-se sobre seus vizinhos, formando vastas
rampas em decomposição que penetravam a escuridão. Em tais declives, novas ecologias
inteiras de vegetação subterrânea, bestas pastejantes e caçadores de olhos afiados se
desenvolviam. Outras árvores, as titânicas que não podiam ser mantidas em pé, em seu
despencar estridente em direção ao solo, abriam vastos poços no dossel da floresta,

209
dando a visão de milhares de metros abaixo, passando pelos troncos altos e grossos das
árvores do mundo até o emaranhado de raízes em sua base.
Urza entrou em um desses troncos vazios. Ele observou com satisfação que as
cúpulas das árvores se expandiram até cobrir o céu. Apenas um grande buraco irregular
permaneceu acima dele. Ao seu redor, as florestas de uma única árvore estremeciam em
verde brilhante contra o céu azul e suas nuvens rolantes. As altas folhagens de galhos e
flores deram lugar a fileiras mais baixas de vinhas enroladas e liquens ornamentados.
Eles, com o passar do tempo, se renderam às profundidades escuras, frias e úmidas,
alcançadas apenas por diversas cachoeiras e a luz solar cada vez mais fraca. O ar ficou
frio, úmido e mordaz.
Urza formou um espesso manto de lã sobre suas roupas de seda. Os tecidos se
espalhavam pelo vento frio, fazendo com que ele parecesse uma grande aranha negra que
descia um fio invisível.
Com o tempo, seus olhos de pedras preciosas se ajustaram à penumbra. Ele viu
mundos completamente novos à sua volta. Os galhos curvos estavam habitados. Criaturas
parecidas com formigas gigantes enxameavam sobre um nó de uma das árvores anciãs. O
centro apodrecido do nó formava um grande arco que dava em uma enorme câmara
interior. Quando Urza deslizou pela câmara, ele examinou as formigas de guarda
posicionadas na entrada da colônia e viu a completa escuridão lá dentro. Pedaços de
frutas, vários segmentos de folhas e carcaças mortas de cabras-escaladoras eram
transportados em caravanas para estocagem. Translúcidas larvas brancas repousavam em
cuidadosos ninhos protegidas por trabalhadores incansáveis. Uma rainha, que era do
tamanho de um cortejo de elefantes, arrastava seu corpo laboriosamente, deixando uma
trilha de globos úmidos em seu caminho. Logo abaixo da colônia, calmas manadas de
gado de chifres longos pastoreavam nas plataformas das cascas das árvores. Essas bestas
eram protegidas pelas criaturas formigas como se fossem meros pulgões em um jardim.
Um enorme penhasco estava debaixo dos campos dos gados. Algumas centenas de
metros mais adiante, pendiam teias de aranha gigantes. Elas mantinham alguns volumes
brancos enrolados – alguns vagamente em forma de vaca, outros em forma de formigas e,
ainda outros, com forma humana ou élfica. Urza teve o cuidado de afastar-se dos fios
pegajosos da rede em seu caminho em direção ao fundo.
Onde quer que a vida pudesse se fixar, ela se fixava. Vilas de elfos se assentavam
em ladeiras rasas das cascas de árvore. Sílfides da floresta viviam em beleza cintilante

210
entre os campos profundos de orvalho. Dríades olhavam com desconfiança para ele das
dobras das cascas, e náiades olhavam das cascatas prateadas que caíam dos lagos aéreos.
As cabras-escaladoras uniam seus rostos aos troncos das árvores. Felinos de pele negra e
dourada espreitavam por entre os campos de musgo. Por baixo de tudo isso, nas raízes
emaranhadas na base das árvores, druidas apareciam de vez em quando. Eles encaravam
Urza com uma resistência feroz antes de desaparecerem sob o solo.
Ele olhou para o aglomerado de raízes. Tão vastas quanto os galhos acima, as
raízes das árvores se amontoavam umas por cima das outras em uma mistura muscular.
Em alguns lugares, as estruturas bem atadas mantinham piscinas escuras de água ou
bancos pequenos de crescimento de árvores novas. Porém, onde as raízes não se
conectavam, estavam poços triangulares de escuridão. Durante milênios de crescimento,
as árvores haviam esgotado toda a terra debaixo delas, extraindo-a para seus troncos. O
resultado era um grande vazio sob o aglomerado de raízes, quebrado apenas por mais
cachoeiras e raízes primárias. Na base distante dessas trevas, as águas escorriam em
escuridão perpétua. Este era o reino dos druidas da floresta, entrecruzado por milhares de
passagens, escadas e cavernas.
Eles resistiriam ferozmente a qualquer projeto que Urza sugerisse. Eles saberiam
sobre Argoth.
Quando Urza assentou seus pés dourados na raiz de uma árvore maciça, um pavor
repentino passou por ele. Este lugar se parecia estranhamente com Argoth. Seus elfos
descendiam daqueles que fugiram da floresta que ele e Mishra haviam destruído. Havia
fantasmas aqui, os fantasmas do passado de Urza, mas ele não havia vindo para
comungar com fantasmas. Ele havia descoberto o futuro.
Urza levantou as mãos em chamado. “Eu sou Urza Planinauta. Venho para uma
audiência com Yavimaya. Devemos discutir a próxima guerra. Desejo me aliar a vocês.
Devemos debater sobre o destino do nosso mundo.”

*****

Multani já sabia quem era o invasor mesmo antes de ele falar seu nome. A floresta
reconheceu o monstro como um corpo reconhece uma doença já sofrida.
Profanador de Argoth, Destruidor de Elfos, Gêmeo do Terror, o Homem do Fim,
Assassino dos Povos do Mundo: Urza Planinauta.

211
Enquanto o homem descia através da folhagem da floresta superior, Multani subiu
até o tronco de uma grande árvore magnigote. Ele transformou-se em uma miríade de
seiva e pulsos de madeira verde. Das raízes desse antigo colosso até a sua irradiante
coroa milhares de metros acima, o magnigote ganhou uma vida diferenciada. A alma da
floresta acelerou cada galho, folha e gavinha. Multani poderia ter flexionado as raízes
maciças como os tentáculos de uma lula e marchado com a enorme árvore através de
Yavimaya. Ele poderia ter estendido a mão com qualquer um dos cem mil ramos do
magnigote, agarrado Urza e o esmagado. Ele poderia ter matado o homem dez mil vezes,
em nuvens de pó de mofo, enxames de aranhas arbóreas ou tempestades de ramos de
galhos, mas ele não fez nada disso, por enquanto.
Este homem não era um mero homem. Ele havia se tornado uma força desde
Argoth. Ele havia drenado o poder da terra para si e talvez fosse um adversário para
Multani e Yavimaya. Tornou-se um planinauta e poderia piscar para dentro e para fora da
existência com um pensamento. Seria preciso uma armadilha cuidadosa para capturá-lo.
Demandaria toda a força hipnotizante da mente da floresta para inibir qualquer
pensamento de fuga do planinauta. Só então ele poderia ser contido. Só então Argoth
teria sua vingança.
Até então, porém, Multani poderia seduzir o planinauta para uma armadilha. Ele
observou pacientemente, seguindo Urza no tronco da grande árvore. Ele guiaria o poder
de Yavimaya e levaria Urza à desgraça, tão seguramente quanto Urza levara Argoth à
destruição.
Uma aflição passou por Multani. O homem estava conjurando algo sobre a terra.
Ele estava invocando seu poder como tinha feito em Argoth. Ele ousava coagir a floresta
que disse que tinha vindo consultar.
Multani permeou o caminho mais rápido para descer, apressando-se em alcançar o
local onde o homem estava parado. Não importava quantas criaturas Urza invocasse, esta
era a floresta de Multani. Ele iria levá-las de volta, libertá-las do apoderamento do
Profanador.
Para lidar com Yavimaya, Multani pensou amargamente, você deve lidar comigo.
Urza terminou seu chamado, mas a floresta não respondeu. Ele ficou parado por
algum tempo, deixando o ar verdejante verter sobre e ao redor dele. Ele poderia esperar,
é claro. A floresta sabia que ele estava ali, ela sentia o poder dele tanto quanto ele sentia

212
o dela, mas Urza nunca se contentou em esperar. Ele sempre se sentia melhor quando
podia mexer em algo.
Ele acessou suas vastas reservas de feitiços e invocou um enxame de sílfides.
Uma nuvem fluida de ouro e prata abria caminho acima das copas das árvores e
dançava na brisa em sua direção. Urza olhou com espanto silencioso. Embora a nuvem
ainda estivesse a centenas de metros acima, seus olhos de pedras preciosas decifraram as
pequenas criaturas que se divertiam dentro dela. Aladas e delicadas, as sílfides se
aproximaram, uma música alta em suas gargantas minúsculas. A melodia variou
hipnoticamente através de muitas estruturas tonais, sinuosas e indescritíveis. Em pouco
tempo, Urza pôde distinguir palavras na música.

Volte para nós, filho das eras


Cante a canção da reconciliação
Queime as páginas onde antes
Os sábios te condenaram.
Cante, esquecido, cante
Sobre amenidades e arrependimentos
Diante da concordância da floresta.
Deixe os mortos enterrarem os mortos
Então levante-se para cantar novamente.

As palavras penetraram estranhamente na mente de Urza. Ele se lembrou daquelas


vozes, pequenas e harmônicas contra o rugido de cachoeira do vento nas folhas,
lembrou-se dos espíritos que lutaram entre os druidas e arqueiros élficos, suas vozes
levantadas com fúria e condenação. Em vez disso, essas criaturas cantavam sobre
reconciliação. Elas cantavam como se fossem Barrins em miniatura.
Encantado, Urza moveu-se para lançar um segundo feitiço de invocação. O feitiço
não se completou. A floresta já havia respondido. Novos embaixadores surgiram.
Do rufar convoluto da música dos pequenos seres veio também um som lento,
baixo e engasgado. Ele veio por entre as raízes das árvores oriatórpicas – gnomos
sombrios em suas tocas. Seus tons fizeram um contraponto baixo para a aguda melodia
assobiada.

213
Oh, nações, ergam-se na luz do amanhecer
Onde, brilhante,
chega a luz das nossas gerações

Fale, oh, mudo, e dance, oh, coxo


A noite de culpa
avança em direção ao sol
E a manhã chegará novamente.

Urza estava no meio dos acordes crescentes, ousando esperar que esta antiga
floresta tivesse crescido fora da mortalha lançada pela destruição de Argoth. Devido à
sua vida curta, talvez as sílfides e os gnomos simplesmente não se lembrassem daquele
tempo. Os povos que não esqueceriam, nunca poderiam esquecer, seriam os elfos. Urza
precisava conhecer a mente deles.
Como se tivessem sido convocados, eles vieram – elfos da alta floresta. Eles
vieram de trás de cada árvore, de dentro de cada dobra de raiz atrás de raiz. Seus olhos
eram brilhantes e largos no crepúsculo cinza do lugar e brilhavam luminosos e
esverdeados. Eles também vieram cantando, e suas vozes, finalmente, forneceram o
corpo principal para o conjunto de cantos das outras criaturas:

Olá, Urza, nós te conhecemos


Das sombrias épocas do passado
Que quase nos dizimou, cada um dos filhos da Mãe
E partiu nossos corpos, membro após membro.
Aquela guerra foi odiosa, é verdade, mas agora nós vivemos
Em saúde e paz.
Nós te daremos tudo o que você pedir
Para salvar nosso mundo da sepultura
Que um dia você cavou, naquele terrível dia

Os três grupos de cantores convergiram em torno de Urza. Sílfides dançavam em


correntes de margaridas brilhantes no ar ao redor dele. Os gnomos das sombras corriam
de suas tocas para se agacharem como sapos nos tapetes de musgos. Os elfos

214
caminhavam com pegadas sobrenaturais de luz entre as raízes. Urza ouvia seus cantos –
sua mente podia ouvir cada variedade separadamente e todas juntas. Seu pé bateu
levemente na bola de raiz onde ele estava.
Ele ouviu outra voz, um profundo estrondo mais maciço, oco e triste que o de
Karn. O som veio de todos os lados, como se o próprio ar falasse, porém, a respiração
úmida, veio de trás de Urza. Ele girou, vendo apenas uma grande ferida na base da
árvore. A fissura tinha três vezes a sua altura. Cascas tinham se esforçado para fechar o
corte. Grandes lábios de madeira enrolados ainda se esforçavam para se manterem
unidos. No momento seguinte, esses mesmos lábios de casca se separaram e rasgos
menores do lado da árvore se abriram na parte superior. Nós se soltaram por baixo. A
ferida falou:
“Bem-vindo, Urza Planinauta. Somos Multani, espírito de Yavimaya.” O rosto na
madeira estava completamente triste, a máscara da tragédia com apenas sombras no lugar
dos olhos. “Nós nos lembramos de você.”
O planinauta curvou a cabeça e realmente se ajoelhou no aglomerado de raízes.
“Perdoe-me. O que eu fiz três milênios atrás, fiz para salvar Dominária de terríveis
invasores.”
“Para Argoth, você e seu irmão eram os terríveis invasores,” respondeu a voz, tão
assombrosa quanto um coral de mortos.
“Eu tive que sacrificar Argoth ou sacrificaria o mundo inteiro,” disse Urza, quase
implorando. “Não duvido que Titânia de Argoth tivesse feito a mesma escolha se ela
fosse forte o suficiente.”
“Titânia era forte o suficiente antes de ter sido saqueada,” respondeu o espírito da
árvore.
“Como eu disse antes, perdoe-me.”
“Nós não somos Titânia. Não somos Argoth. Somos Multani de Yavimaya. Nós te
desejamos boas-vindas,” disse a voz, e o remanescente coral de sílfides, gnomos e elfos
prosseguiu.
A melodia fluiu, tímida e, de alguma forma, nauseante, através de Urza, como o
vento úmido que se movia por suas vestes. Havia uma geometria selvagem nos tons
enquanto eles se torciam um por cima do outro. As notas gotejavam sobre Urza. Ondas
de som se assentaram ao lado de ondas de energia, empurrando-as conforme seu ritmo.
Ele fechou os olhos por um momento, lutando para organizar uma resposta a Multani.

215
Sempre que um par de palavras se conectava em sua mente, elas eram absorvidas pelo
suave toque da canção.
“Nós íamos falar sobre a extensão dessa invasão que se aproxima.”
Urza assentiu, com os olhos abertos. Ele ficou um pouco assustado ao perceber
que estava de pé. Quando ele se levantara? A questão se derreteu na canção pulsante.
Essas questões não eram importantes. Havia aliados aqui. Havia música. Pela primeira
vez desde sua ascensão, Urza sentiu a verdadeira alegria. A caixa afiada de seu intelecto
suavizou-se em um toque quente e nebuloso, como um enxame de abelhas – ou um
enxame de sílfides.
“Primeiro, nós te convidamos para um jantar festivo em comemoração à nossa
nova associação.”
Sim, pensou Urza, estou com fome.
Havia algo de errado com esse pensamento, algo que Urza não conseguia
identificar. Ele não conseguiu se lembrar da última vez que havia comido. Claro que ele
estava com fome. Se a comida da floresta fosse tão suntuosa quanto sua música, ele
comeria até enjoar. Certamente haveria vinho e outras delícias para apreciar. Urza se
entregaria a todas.
Havia algo de errado com esse pensamento também. As incômodas objeções
borbulharam e se afundaram no fluxo da música:

Volte para nós, filho das eras


Cante a canção da reconciliação
Queime as páginas onde antes
Os sábios te condenaram.
Cante, esquecido, cante
Sobre amenidades e arrependimentos
Diante da concordância da floresta.
Deixe os mortos se enterrarem com os mortos
Cante, esquecido, cante.

Quando ele havia começado a cantar? Será que ele já deixara de cantar algum dia?
A voz de Urza, profunda e ressonante na construção do som, movia-se entre os tons
sorridentes das sílfides, gnomos e elfos. A boca da árvore se abriu largamente. O cortejo

216
do povo feérico guiou Urza adiante. Ele caminhou, solene e feliz, para o imenso espaço e
para a garganta da enorme árvore. Haveria um banquete nessas profundezas. Haveria
mais música, luzes e festividades.
Exceto que tudo isso estava atrás dele agora. Escuridão, madeira e o irresistível
poder de Yavimaya pulsavam no coração da gigantesca árvore. Então, essas coisas
estavam por toda parte. A boca falou uma última vez.
“Nós também íamos falar sobre a última invasão.” Com isso, a boca da árvore se
fechou. Sua garganta também. Urza, capturado na madeira e na espessa escuridão, mal
imaginava onde estava, como ele era, e quem ele era. Ele até conseguiria pensar, se não
fosse a impregnante mente da floresta, defumando-o como fumaça de cedro, mudando-o,
matendo-o no lugar.
Mas ela não o preservava. Urza sentiu seu corpo se dissolver na madeira. Seus
dedos foram os primeiros a partir, cada um queimando em incandescente agonia. Cada
nervo chiou sob a pele. Seus ossos se tornaram pó e foram esfregados nas paredes
corrosivas do cerne ao redor dele. Os dedos das mãos e dos pés, ceifados lentamente pela
enorme árvore, foram transformados em meros minerais.
“Quando Harbin, filho de Urza Planinauta, aterrissou em Argoth, ele procurou um
galho verde para substituir um mastro em sua máquina voadora. Na sua misericórdia, a
floresta mostrou-lhe um galho caído que se adequava às suas necessidades. Em
retribuição, o homem retornou ao coração de Argive trazendo os exércitos de
devastadores para se aproveitar da floresta. Homens e máquinas derrubaram árvores
antigas, mataram druidas, caçaram criaturas até a extinção, saquearam, queimaram,
estupraram, destruíram, tudo para a glória de Urza e seu irmão Mishra. Lentamente, eles
corroeram Argoth, matando Titânia, seu espírito.”
As palavras não eram necessárias. Urza tornou-se Titânia. Seu corpo tornou-se
uma vasta floresta. Ele sentiu em cada tecido de seu ser a obra destruidora e saqueadora
de seus próprios exércitos. Minúsculas criaturas invadiam seu corpo e, pedaço por
pedaço, o transformavam em meros minerais, meros recursos.
Urza teria gritado, mas ele não era mais Urza. Ele teria transplanado do local, mas
isso significaria deixar seu corpo, a floresta, para trás. Ele só podia ficar ali, pendurado,
envolto em madeira, e resistir.

217
Monólogo

Urza está chegando em Yavimaya , no momento em que escrevo isso.

Conheço a posição da floresta , tão inalcançável e proibida quanto Shiv. Ele

espera retornar dentro de dois dias. Conhecendo o senso de tempo de Urza – e

adivinhando como será a recepção que Yavimaya dará a ele – vou dar uma

semana antes de me sentir preocupado.

Este poderia ser o ponto central para Urza . Ele mostrou que é capaz de

construir alianças humanas, e mais do que isso – construir coalizões entre

muitas raças. Talvez criando uma aliança com Yavimaya , ele possa fazer uma

compensação por Argoth . Talvez nenhuma quantidade de penitência possa

compensar aquela atrocidade .

Temos nossas próprias atrocidades acontecendo em Tolária . Hoje , eu

liderei uma investida de escorpiões contra trincheiras phyrexianas na fronteira

das Águas Ardosianas. Dada a fisiologia das minhas forças mecânicas, um

ataque de pinças era o esperado. Nós flanqueamos o corpo principal de

phyrexianos da esquerda para a direita e os prendemos nas trincheiras. Eles

ficaram presos entre nós e a cortina temporal . Eu enviei unidades escorpião que

inundaram seus covis. Enquanto isso, invoquei uma muralha de vento para

descer no meio. Sem qualquer cobertura , as bestas retrocederam para a cortina

de tempo na beirada daquele pântano carbonizado. Ordenei a investida . Nós os

arremessamos para a fenda .

Aquela passagem teria matado qualquer humano. Ela fez pouco mais do

que apenas barulho para aqueles demônios. Mas ainda assim, o tempo

extremamente lento de Águas Ardosianas deteve os phyrexianos em uma parede

grossa . Eu ordenei que os escorpiões atacassem. Flechas dispararam em um

vendaval assassino. A linha de frente phyrexiana foi quase cortada pela metade .

Eles estavam vomitando um óleo brilhante em uma nuvem diante de si quando

um contingente humano chegou para nos reforçar.

218
Uma jovem mulher rasgou um pedaço de pano debaixo de sua armadura

de cota e o embebedou com óleo de um escorpião caído. Ela enfiou o pano em

uma flecha , ateou fogo a ele e lançou a coisa pelo ar. A flecha alcançou uma

poça de óleo brilhante . Um opaco brilho laranja se espalhou do local . A flecha

ardente pendia estranhamente no ar enquanto a lenta chama rolava

lateralmente pelas fileiras phyrexianas.

Paramos de disparar. Ficamos de pé , encarando em uma mistura de

exultação e medo. Lânguidas espirais de chamas se enrolaram em torno de

braços e pernas demoníacas. Nós assistimos enquanto nossos inimigos se

incendiavam. A euforia que partiu de nós enquanto cabelos e carapaças eram

cobertos pelas chamas rapidamente se transformou em um lamento. Globos

oculares estouraram com o calor. Os membros foram explodidos. O profundo e

horrível rugido dos monstros moribundos nos atingiu.

“Voltem!” Eu gritei .

Até eu estava plantado no chão quando a chama se tornou crítica . Branca

e quente , o clarão foi cegante . Nós recuamos então, unicamente por instinto.

Cobrindo nossos olhos, passamos por escorpiões paralisados e mortos soterrados

para escapar do incêndio que viria . Quando a explosão finalmente emergiu das

Águas Ardosianas, a maioria de nós estava a mais de oitocentos metros para

dentro da floresta . Mesmo assim, ela nos arremessou e , como os guerreiros de

Argoth de antigamente , nós só podíamos rezar para que aquela explosão, tão

brilhante quanto sol , um dia acabasse .

Esse conflito será outra Argoth . Os phyrexianos nos pressionam dia e

noite . Seus números crescem cada vez mais a cada investida . O poder mágico

deles em breve será igual ao meu. Os alunos estão cansados de lutar e , apesar de

eu ter empregado meus feitiços de batalha mais inspiradores, não sou um líder

carismático. Jhoira e Teferi eram mais adequados a isso. Urza , apesar de toda a

sua falta de humanidade , talvez seja o melhor líder de todos.

– Barrin , mago mestre de Tolária

219
Capítulo 16

Jhoira estava na plataforma de controle suspensa, no nexo da plataforma de mana.


Em pé, ao seu lado, estava Teferi e do outro, Karn.
Teferi observava seus trabalhadores – as hordas goblins que cuidavam da ala de
fabricação de cristais da fábrica. Quase dois anos haviam se passado desde a conclusão
da guerra viashino-goblin, e as zonas proibidas agora estavam totalmente funcionais.
Cada um dos três clãs de goblins – o prateado Tristou, o vermelho Destrou e até mesmo
os irrepreensíveis Grabbits cinzentos – ajudou na limpeza e reparação da instalação.
Fazendo isso, eles aumentaram seus níveis de habilidades individuais. O Chefe
Glosstongue Crackcrest, dos Tristou, tornou-se o líder nominal dos três clãs, mas um
certo maquinista grabbit, agitado, conquistou as massas com suas artimanhas, seus
discursos absurdos e inconstantes, e seu instintivo e incessante aperto de mão
interesseiro. Embora todas as decisões fossem feitas pelo Chefe Crackcrest, elas tinham
que ser aprovadas pelo maquinista Terd.
Agora, a criatura cinza subia até a plataforma de observação. Ele subiu uma
escada projetada para goblins consideravelmente maiores do que ele. Seu macacão,
muito surrado, balançava com pequenas ferramentas brilhantes que ninguém jamais havia
visto o goblin usar – pedaços de metal que Terd usava como talismãs ou prêmios. Apesar
da sua incapacidade de fazer trabalho real, a criatura estava em constante movimento.
Suas sobrancelhas – grandes tufos de cabelos que eram ainda mais proeminentes do que
o nariz – estavam derramando suor em seu queixo. Quando ele agarrou os trilhos da
plataforma de controle e jogou-se para cima, ao lado de Teferi, Terd deu um sorriso
brilhante e afiado. Essa era uma das características de que ele mais se orgulhava. Um
goblin com um conjunto completo de dentes era uma raridade. Um com dentes brancos
era um mensageiro dos deuses.
Terd curvou-se obscenamente, derrubando um pequeno pedaço de feltro, que ele
considerava um chapéu. “As coisinhas de pedra tudo pronto.” Os relatórios de Terd não
eram mais explícitos do que seus discursos. Interpretá-los normalmente era um tedioso
jogo de charadas.
Teferi deu um longo suspiro. “Os transportadores de minério?”

220
Terd sacudiu a cabeça tão abruptamente, que um guarda-chuva de suor se
desdobrou dele em direção àqueles que estavam por perto.
“O cristal prensou?” Teferi tentou adivinhar.
Terd apertou os lábios escabrosos enquanto pensava e depois chicoteou sua cabeça
como se estivesse tentando rasgar a sugestão com os dentes.
“Os moldes de metal Thran?”
Extasiado, Terd tocou um dedo murcho no seu nariz. “Sim, sim. Nós fazer rochas
hoje? Sim?”
Teferi balançou a cabeça. “Não, até os transportadores de minério e as prensas de
cristal estarem prontos.”
“Você faz Terd uma grande rocha.”
“Sim,” assegurou Teferi.
Um dos incentivos para os trabalhadores goblins era que, uma vez por mês,
quando o equipamento estivesse em operação, cada um receberia um cristal pequeno – na
verdade, apenas um fragmento de uma pedra. Mesmo que acontecesse de um goblin
receber uma pedra maior, nenhum dos cristais da plataforma estaria imbuído de poder até
ser carregado com mana. Mesmo a menor das pedras drenaria permanentemente a mana
de uma grande área de terra. Para energizar uma pedra do tamanho da que Urza havia
desenhado para sua nave voadora, era necessário a destruição da mana de um mundo
inteiro.
“Terd usa sua pedra para ser um grande homem mágico. Terd torna grande rei dos
goblins.”
“Sim,” Teferi achou graça, “e esse será um dia brilhante para todos nós.”
“Tenho ir falar pra ralé dos goblin: ‘trabalhe mais rápido, trabalhe mais rápido!'
Então ele ser rei mais cedo.”
“Faça isso.”
Assim que o pequeno homem irascível escorreu para baixo da escada e gritou
comandos aos de sua raça, um oficial bem diferente subiu a escada oposta. Diago Deerv
tinha se provado um homem-lagarto de cabeça centrada e capaz de reaparelhar as forjas
Thran. Agora, com os antigos inimigos dos viashinos ocupando metade da plataforma,
apenas alguns como Diago e o próprio Bei Olho Incandescente conseguiam conter uma

221
revolta generalizada – Diago, o bei e os contínuos lembretes de Jhoira de que Urza
retornaria a qualquer momento.
Jhoira não era a gerente oficial das forjas Thran. Essa função caiu sobre Karn, a
criatura que havia sido prometida aos homens-lagarto em pagamento por seus serviços.
Diago ficou completamente ereto na plataforma – ele havia crescido nos últimos
quatro anos – e olhou diretamente para os olhos de Karn. “Nós terminamos as fundições
que o mestre Malzra requisitou. Queremos que você venha aprová-las.”
Karn assentiu. “Estou aguardando um relatório das baterias de lava. Então, eu
poderei te acompanhar.”
Diago respirou fundo e falou com uma voz tensa. “Com a conclusão dessas
fundições, nós teremos cumprido os termos do nosso acordo. Queremos o pagamento do
que nos foi prometido.”
Antes que Karn pudesse responder, Jhoira interrompeu: “Na verdade, nós ainda
não tivemos sucesso em criar um homem de metal Thran.” Ela olhou cautelosamente
entre os olhos de réptil e os de prata. “Esses foram os termos do nosso acordo.”
“Você abandonou esse projeto,” objetou Diago.
“Na verdade, não,” disse Jhoira rapidamente. “Nós temos um novo design, que
leva em consideração o padrão de crescimento do metal.”
“Posso ver esses projetos?” Perguntou Diago.
“Amanhã”, disse Jhoira. “Vou providenciá-los amanhã. Então poderemos iniciar as
fundições.”
Diago tinha uma expressão de suspeita. “E uma vez que essas novas máquinas
forem moldadas-”
“Sim,” disse Jhoira, “então você terá seu pagamento. Você terá o homem de
prata.”
Diago curvou-se e desceu a escada.
Jhoira, Karn e Teferi trocaram olhares sérios.
“Você não tem nenhum projeto novo, não é?” Teferi perguntou.
Jhoira encolheu os ombros. “Tenho projetos antigos – dos corredores tolarianos.
Eu vou modificá-los esta noite, considerando os padrões do manequim de crescimento

222
criado por Urza. Isso os segurará um pouco mais. Pode até ser um lutador útil nas
guerras phyrexianas.”
Aquela menção lembrou a todos sobre Barrin e sobre Tolária sitiada.
Jhoira falou por todos eles. “Espero que Urza volte logo.”

*****

Cada golpe de machado que havia atingido as árvores de Argoth mordia os


membros do homem. Cada fogo que havia envolvido as árvores magnigotes incendiava
suas veias. Cada explosão e deslizamento de terra o enfraquecia.
Urza estava na ilha. Urza e Mishra. Seus nomes eram praga e fome, fogo e
inundação. Das extremidades opostas da terra, eles se destruíam. Eles convergiram, e o
que estava entre eles foi destruído por sua fúria.
O homem na floresta assistia, enquanto as árvores anciãs se inclinavam, estalavam
e caíam. Seus troncos nem descansavam sobre as raízes, logo as grandes máquinas
puxavam, cortavam e recortavam em vigas e pranchas – mas a maior parte era apenas
serragem. Cascas e pequenos galhos, folhas e botões tornavam-se apenas montes de
detrito sobre os quais as máquinas assassinas rolavam. Fumaças negras serpenteavam e
se enrolavam no céu turbulento. Lá elas se juntavam às grandes montanhas de escuridão,
como se estivessem de luto.
O que guiava aqueles irmãos assassinos? Quais paixões?
E, no entanto, a pergunta parecia errada. Ela era forçada para o homem na
floresta. Ele sabia exatamente o que os conduzia – ambição, curiosidade, competição,
vitalidade e tudo isso enrolado em um cobertor fino e trágico de desconfiança. O que os
levou? As mais altas intenções e esperanças. O que os guiou? A menor das emoções – o
medo. Eles eram monstros, sim, mas apenas por causa de seu poder. Se não fosse por
suas máquinas e seus exércitos, eles não seriam monstros, seriam apenas meninos.
Aquele pensamento trouxe uma onda de raiva ao redor do homem. Ele explodiu.
Tão forte e tenaz quanto a resina, a reprovação fluiu para dentro dele. Urza e Mishra
eram verdadeiros monstros. Eles despojaram tudo o que tocaram. Sua própria carne era
corrupção. Suas únicas motivações eram o ódio puro.

223
O homem na floresta resistiu à inundação de raiva, segurando sua respiração. Ele
recuou de seus pensamentos. De qualquer modo, eles o alcançaram e mergulharam em
cada um dos seus poros e se derramaram em seus pulmões – pois todo homem tem que
respirar.
Havia algo errado nesse pensamento, mas a reflexão se afastou em uma nova onda
de agonia. Naquele espaço gritante, não havia lugar para qualquer desculpa, qualquer
perdão, mas apenas para a inegável sentença de culpa.
Na garganta do homem, havia outro som de gritos e mais visões. Agora não havia
árvores queimando, mas pessoas – estudantes vestidos de branco. Não havia máquinas e
nem niveladores, mas criaturas artefatos, algumas como emas sem cabeça, algumas como
pumas rabazes, outras como escorpiões gigantes. Nenhum exército de argivianos e de
fallaji, mas exércitos de demônios e neutralizadores, de monstros assassinos. Eles
destruíram outra ilha, bem distante, não era Argoth, mas…, o nome não se formava em
sua mente.
Diante desse novo e horrível ataque, os exércitos de Urza e Mishra pareciam
civilizados e nobres. Derrubar árvores não era nada diante de crianças em chamas. Uma
ideia espreitava, algo sobre ser a melhor guerra para lutar, uma guerra que poderia
impedir o apocalipse.
Esse pensamento também foi espremido para fora do seu ser, no furioso punho de
madeira ao redor do homem. Se, pelo menos, ele pudesse pensar. Se, pelo menos, ele
pudesse concentrar um pensamento em sua mente – um pensamento seu… mas então,
houve apenas dor.

*****

Barrin assistia da torre do desfiladeiro. Era o local mais alto da academia.


Posicionada além do alcance das armas phyrexianas, ela se curvava sobre a muralha para
espreitar os campos escuros. Este lugar era ocupado dia e noite e, até a madrugada,
principalmente por Barrin. Dali, ele poderia avaliar o movimento das forças de K'rrik
para qualquer uma das quatro pontes saindo do fosso do tempo. Dali, Barrin derrubava as
marés demoníacas, com feitiços e encantamentos de longo alcance. A informação reunida
ali permitia que ele enviasse suas máquinas e forças humanas para interceptar os

224
atacantes. E ali, talvez o mais importante de tudo, estava o mecanismo de ativação para o
sinalizador do pingente que Urza usava.
Barrin acabara de ativar o sinalizador.
Fazia quase três anos que Urza tinha ido para Yavimaya, e ninguém tinha ouvido
falar dele. Barrin sabia que ele poderia estar morto. Embora os planinautas fossem
extremamente longevos, eles poderiam ser mortos, especialmente se sua força vital fosse
desfocada ou dissipada. Ainda assim, matar um planinauta era uma coisa muito difícil,
porém não era tão difícil aprisionar um deles. Um planinauta poderia ficar preso na
própria decepção. Se Urza pensasse que não poderia escapar, ele não poderia. Se ele se
esquecesse de que poderia transplanar, poderia ficar preso indefinidamente. Com a frágil
sanidade de Urza e sua grande psiquê, tais truques poderiam ser facilmente realizados.
Se ele sobreviveu, deveria estar preso.
Talvez, no entanto, o sinalizador tocando na mente de Urza o despertasse de
qualquer tipo de indisposição que o estivesse acometendo.
Claro, havia uma terceira possibilidade. Talvez Urza tivesse seguido em frente.
Talvez ele tivesse obtido o que queria de Tolária, de Shiv e de Yavimaya e foi para um
quarto lugar para juntar tudo.
Fosse qual fosse a causa da ausência de Urza, o sinalizador o invocou. Ele deveria
retornar a Tolária durante o próximo ano, ou então não haveria Tolária para retornar.
Os phyrexianos acabaram de descobrir uma nova saída do seu poço: uma profunda
fonte que alimentava os poços da academia. Numa noite sem lua, eles se derramaram
através de cada poço e cisterna da academia. As forças de Tolária reagiram e fizeram os
intrusos monstruosos retrocederem, lutando em sua própria casa como eles haviam lutado
além de suas paredes. As bestas foram mortas, grades foram fixadas sobre qualquer
acesso às águas subterrâneas e novos postos de guarda foram criados. Porém, os
phyrexianos ainda estavam por infligir seu golpe mais mortal. Seus cadáveres
envenenaram a água. Qualquer um que bebesse do abastecimento de água da escola nos
próximos dias desenvolvia uma doença que se alimentava da própria carne,
transformando seus músculos em uma papa ensanguentada e tornando os ossos tão
quebradiços quanto bolachas. Vinte e três estudantes e acadêmicos morreram antes que a
fonte do contágio fosse descoberta.

225
Toda a água para beber ou lavar teve que ser trazida de poços distantes, além das
muralhas da escola. Agora, phyrexianos poderiam se erguer no meio da academia.
A fortaleza tolariana havia desaparecido abaixo de Barrin. O cerco, de repente, se
transformou em uma batalha na floresta – escura, desesperada, caótica, e desesperançosa.
A mão de Barrin apertou a adaga de joias, ativando o sinalizador. O item
encantado transmitiria a Urza o que Barrin enxergava e pensava: imagens da carne de
amigos e de inimigos sendo devorada. Barrin fez uma oração silenciosa para que Urza
estivesse vivo e que o ouvisse.

*****

Jhoira caminhava inquieta diante da linha de defensores de metal Thran. Logo


atrás dela, Diago Deerv marchava. Sua pele escamosa se eriçava enquanto ela olhava as
máquinas. Eles eram impecáveis. O esquema original do corredor tolariano sofreu
numerosas mudanças, incluindo um corpo mais ovoide, uma curvatura mais profunda
para as pernas e mais capacidade de armamento. Jhoira havia superado as dificuldades
quanto ao crescimento do metal neste projeto, e esses doze lutadores, se chegassem a
Tolária, poderiam muito bem se tornar indispensáveis na sua defesa.
Se eles chegassem a Tolária… ela havia enrolado os homens lagartos por mais
dois anos, esperando que Urza retornasse e negociasse a liberdade de Karn. O homem
não havia voltado. Jhoira presumiu que ele havia morrido. Assim que as tribos viashino e
goblin presumissem o mesmo, a tênue paz da plataforma chegaria ao fim.
Pior ainda, as notícias da longa ausência de Urza chegaram aos ouvidos da dragoa
Gherridarigaaz. Ela retomou seus ataques contra as patrulhas de viashinos, acabou com
as rotas comerciais marítimas para as tribos Ghitu, e jogou vários pedregulhos nos poços
de ventilação acima da cidade. Seu filho, que de bom grado havia desertado para os
viashinos, decidiu que queria voltar para ela. Aparentemente, ele era um típico
adolescente em fuga, mais interessado em provar um ponto do que em ganhar sua
verdadeira independência. Os viashinos, inflexíveis, o forçaram a manter sua parte no
acordo. A jovem criatura passou de campeão para traidor, acorrentado e enjaulado.

226
O que eles fariam sobre o acordo da Urza? Com o retorno da dragoa de fogo,
metade da barganha que Urza oferecera tinha caído por terra. Nesta manhã, a outra
metade estava em perigo.
O que importa? Jhoira perguntou a si mesma. Se Urza estiver morto, Tolária será
destruída, não haverá navio voador, e não haverá esperança de libertar Dominária de
Phyrexia. Se Urza estiver morto, Shiv pode muito bem ser o melhor lugar para Karn e o
resto deles viverem o que sobrou de suas vidas.
As palavras que ela disse foram um pouco diferentes. “Excelente trabalho, como
sempre, Diago. Você e seus trabalhadores são extraordinários artesãos.”
“A julgar pelo seu tom, você não tem mais motivos para atrasar o nosso
pagamento,” disse Diago, enquanto dois homens-lagarto chegavam ao fim da linha, onde
Karn estava parado.
O maxilar de Jhoira apertou. Os músculos em suas têmporas endureceram. “Não,
Diago. Não vou demorar mais, mas eu te ofereço uma proposta diferente. Em vez de
tomar esse golem de prata, com quase meio século, gasto e cheio de todo tipo de
confusões emocionais – eu te ofereço estes doze guerreiros de metal Thran.”
Uma expressão áspera apareceu nos olhos de Diago. “O acordo foi para o homem
de prata.”
“Sim,” Jhoira concordou, “e agora estou propondo a você um acordo diferente.”
Um silvo metálico veio dos dentes dos lagartos. “Não. Nós já sabemos como
construir essas criaturas. Elas não são inteligentes. Queremos o homem de prata para
aprender a construir uma criatura inteligente.”
“Mas, ele não é apenas um homem de prata, Diago,” disse Jhoira. “Ele é Karn. Ele
trabalhou ao seu lado todos esses anos. Você não se importa com o que ele quer? Não te
incomoda tornar ele sua propriedade, seu escravo?”
“Todos somos escravos da tribo. Servir sem interesse é a maior das honras,” disse
Diago. “Sim, ele é Karn, um companheiro. Quando ele for entregue a nós, ele será parte
da nossa tribo. Ele será nosso maior defensor. Ele nos ensinará como fazer exércitos de
máquinas inteligentes.”
“Karn não pode te ensinar isso,” disse Jhoira. “Eu sei mais sobre sua construção
do que ele. Mestre Malzra é o único que realmente entende suas habilidades intelectuais
e emocionais. Você me aprisionaria? Você aprisionaria Malzra?”

227
“Nós não aprisionamos criaturas.”
“E quanto ao Rhammidarigaaz?”
“Ele concordou em se juntar a nós. E, quanto a Karn, Malzra concordou em
concedê-lo a nós,” disse Diago. “E Karn pode nos ensinar como construir uma máquina
inteligente. Os segredos estão dentro dele. Nós os ganharemos…”
“Chega”, disse Karn a Jhoira, cortando sua resposta. “Eu irei com eles. Vou lhes
ensinar o que eu puder. Servir é a maior honra.”
De boca aberta, Jhoira assistiu o homem-lagarto e o homem de prata se virarem e
caminharem para dentro das profundezas zumbidoras da plataforma de mana.

Monólogo

Eles estão em toda parte . Não podemos suportar. Não vamos durar o resto

dia . Tudo estará morto. Eu apertei o sinalizador, porém Urza não veio. Todos nós

morreremos.

– Barrin , mago mestre da Tolária

228
Capítulo 17

Barrin estava de pé, apreensivo e de olhos arregalados, na torre do desfiladeiro.


Ele apertou a adaga sinalizadora em sua mão e ficou boquiaberto ao ver que o mundo se
desintegrava ao seu redor.
Uma grande e estrondosa maré de phyrexianos varria o espaço em direção às
muralhas.
Enquanto exército, eles eram a personificação do terror. Enquanto criaturas
individuais, eram ainda piores. Muitas das bestas eram gigantescas – brancas e carnudas,
parecendo ter tomado a forma das larvas de camarão que infestavam o lago do
desfiladeiro. Elas corriam sobre pernas afiadas e retilíneas, suas costas revestidas de
escamas eram curvadas com intenções hediondas sobre minúsculos olhos protuberantes.
As antenas farpadas saboreavam o ar. A salmoura morna do sangue humano os atraía.
Outras tinham características de lobo, todas distorcidas e elefantinas, com uma crina de
sarna sobre a pele de couro, manchada de preto e rosa. Somente suas cabeças se
diferenciavam das características lupinas, pequenas, amarelas, inchadas e retraídas, como
cabeças de bebês com icterícia. Um grande número do grupo era de humanos ou semi-
humanos, embora seus corpos tivessem sido torqueados e torturados em formas
irreconhecíveis – maliciosas máscaras de morte em músculos esfolados, patas de aranha
com tendões realinhados, de modo que o rádio e a ulna se tornaram pinças opostas,
clavículas enxertadas com espinhos de metal ou pedra, barrigas implantadas com bexigas
de veneno que lançavam ácido nos inimigos, quadris que eram meros ossos aleatórios e
ligamentos envolvidos em alcatrão, e pernas com pontas de osso afiado. A maioria das
bestas possuía armas arrancadas de corredores ou falcões destruídos. Em alguns lugares,
máquinas projetadas pelo próprio K'rrik se misturavam entre as hordas monstruosas.
“Nós mesmos os armamos,” murmurou Barrin.
Contra essa investida de horrores vieram os defensores de Tolária. Barrin acionou
uma série de powerstones, ligadas a mecanismos em toda a ilha. Os falcões
remanescentes mergulharam em um voo furioso. O vapor branco ficava atrás deles,
traçando uma linha convergente no céu. Impactando na crescente frente de batalha em
sua direção, os falcões pareciam ser relâmpagos aliados. Eles trouxeram um grande
tremor consigo. Os demônios foram jogados de volta, para as mandíbulas afiadas de seus

229
companheiros. A chegada incandescente dos falcões foi seguida pelas catracas e sons de
seus mecanismos de trituração. Sangue-óleo brilhante e alguma substância meio preta-
insetívora, verde-pegajosa, com um tom de lavanda que até poderia ser bonita, se não
estivesse fumegando e derramando ácido entre os pedaços de carne e osso.
A satisfação de Barrin com esse terrível ataque durou pouco. As hordas mais atrás
foram apenas salpicadas pelos restos de seus companheiros e empurraram os entulhos.
Barrin apertou o cabo da adaga e simultaneamente sinalizou para a segunda onda de
defensores.
Centenas de corredores de Tolária saíram de suas trincheiras na base da muralha.
As máquinas entraram em combate, suas asas falciformes preparadas para atacar. Eles
correram, pernas longas e sem medo. Durante as lutas, os sons “twang” e “whoosh” eram
ouvidos após os cortes das barrrigas; eixos embebidos em anti-óleo – um veneno
biológico projetado para separar o sangue phyrexiano em postas de monstros.
Os phyrexianos soltaram um grito coletivo que chacoalhou as pedras e cortou as
folhas de seus galhos. Outra linha de mortos e moribundos caiu, não por terem
escorregado em algum lamaçal, mas pelos tremores dos seus próprios músculos e ossos.
A investida monstruosa prosseguia, passando por cima dos mortos.
Os corredores de Tolária se encontraram com eles, atacando com suas lâminas
duplas. Algumas das bestas foram cortadas pela metade. Outras foram abertas na barriga
e andaram alguns poucos passos antes que a luz fugisse de seus olhos e eles rolassem
ensopados na terra. Porém, alguns eram imparáveis. Embora os corredores tivessem
enfiado as foices em suas barrigas, as bestas avançavam, intrépidas. Estas, e uma horda
intacta de demônios, foram em direção à falange de escorpiões mecânicos.
Os escorpiões de Urza não foram projetados para serem velozes. Com seis pernas,
pinças maciças e caudas pontiagudas, foram feitos para ficar e lutar. Eles mantiveram sua
posição quando o exército das bestas caiu sobre eles. Os primeiros monstros literalmente
caíram, suas pernas foram arrancadas. Seus corpos ensanguentados caíram sobre os
ombros dos escorpiões, que simplesmente os balançavam para fora e impediam os
próximos atacantes. Mais phyrexianos perderam as pernas. Uma terceira onda saltou nas
costas das bestas apenas para serem destruídos pelas picadas das caudas pontiagudas.
Os mortos se empilhavam. Com o tempo, as pinças das máquinas ficaram presas
sob toneladas de carne gotejante. Durante todo o tempo, demônios lutavam contra
saraivadas de lanças dos guardas humanos nas muralhas.

230
Então, o primeiro phyrexiano atravessou. Era uma criatura gigante, com o corpo e
a cabeça tão bulboso e esburacado quanto uma velha abóbora. Ele passou furiosamente
pelas caudas ardentes, rolou pela muralha dos mortos e bateu pesadamente na muralha de
pedra que circulava a escola. Flechas brancas acertavam a criatura, mas elas não se
fixavam. A coisa pulou novamente, esmagando a parede. Uma rachadura se abriu das
ameias às bases. Mais monstros caminharam pelos escorpiões soterrados e alcançaram a
muralha. Eles somaram seus corpos aos ataques do gigante, subiram nas pedras
quebradas ou jogaram seus tentáculos sobre elas.
Barrin percebeu que, em alguns momentos, as muralhas seriam derrubadas. Elas já
tinham sido violadas. Os poços e as cisternas derramavam monstros no meio da escola. A
frente de batalha estava quebrada em mil pedaços, e cada acadêmico e estudante lutaria
contra as legiões do inferno sozinho.
Não completamente sozinho – os dedos de Barrin dançaram pelas gemas
brilhantes. Ele chamou todos os pumas restantes de seus postos na floresta para a escola.
Ele acordou cada máquina no Salão das Criaturas Artefatos – guerreitos yotianos,
homens de barro de Tawnos, os carregadores su-chi, até os transportadores e máquinas de
extração de madeira. Todos lutariam hoje – neste último dia de Tolária.
Após suas invocações serem feitas, Barrin se virou e desceu a espiral escura que
levava para o pátio abaixo. Ele também lutaria, com feitiços, bastões e com essa adaga,
que se provou ser de nenhuma utilidade – e até mesmo com suas unhas, dentes e ossos,
se fosse necessário. Quando fosse necessário.
Urza estava morto, e logo toda Tolária também estaria.

*****

No meio de todos os gritos dos incêndios na floresta, animais presos e elfos


torturados, o homem na árvore ouviu um conflito maior: gritos phyrexianos, máquinas
macerantes, flechas assobiando, homens gritando, crianças morrendo, e, na garganta de
todos eles, um nome ecoava:
Urza! Urza! Urza!
Ele conhecia o nome do Profanador. Ele conhecia a Ruína de Argoth, mas este
Urza era diferente – uma criatura benevolente, de grande poder, um mentor, um

231
advogado, um protetor. Essas vozes não gritaram com ódio e raiva, mas com necessidade
e esperança, em súplica. Elas gritavam para um Urza diferente.
Elas gritavam para ele.
No clamor ensurdecedor de suas vozes, Urza se lembrou de quem ele era.
A mente da floresta o pressionou com repentina violência, esforçando-se para
suprimir o pensamento. Após cinco anos de tortura e penitência, a fúria de Yavimaya já
havia acabado. A floresta conheceu o homem que tanto odiava. Ela havia o integrado a
sua rede vital. Na verdade, a fúria de Yavimaya já havia acabado, mas seu ódio não era
nada comparável ao ódio da batalha que invocou Urza.
Ele forçou a retirada da mente da floresta. Ele recompôs seu ser dos fragmentos à
deriva, dentro da enorme árvore. Ele deixou sua mente subitamente e intensamente
focada.
Yavimaya tentou agarrá-lo uma última vez. Multani, a alma de Yavimaya, impeliu-
se no corpo do planinauta que estava recobrando a consciência. Ele se fundiu com a
figura que se formava, lutando para enraizá-lo no local, mas já era tarde demais.
Urza desapareceu do centro da árvore. Ele esteve suspenso por apenas uma fração
de tempo na dobra entre os mundos, mas durante aquele momento ele pôde sentir uma
presença aprisionada dentro dele: Multani. Em um único instante, seu captor tornou-se
seu cativo.
Não havia tempo para pensar em Multani. Urza pisou fora da roda das eternidades
em um momento específico, em um espaço específico. Muralhas de um metal antigo e
cinzento se formaram ao seu redor. Grandes janelas de vidro escuro, alavancas e
engrenagens, jatos de fogo das forjas incandescentes. Tudo começou a existir. Nada
daquelas coisas importava; apenas a mulher Ghitu de olhos afiados e pele morena.
Quando Urza chegou, ela estava agachada sobre um conjunto de esquemas,
argumentando com um goblin que gesticulava. Jhoira se virou, boquiaberta.
“Reúna seus melhores lutadores. Tolária está sendo dominada. Eu voltarei para te
buscar.”
Ele já estava desaparecendo, antes mesmo de suas ordens se completarem. O olhar
chocado de Jhoira seguiu Urza no espaço vazio. Ele sentiu um espanto semelhante em
Multani. Esse espanto redobrou no próximo instante, assim que Urza pisou no caos de
Tolária.

232
As muralhas estavam quebradas. Os guardas que ficavam sobre elas, agora eram
apenas montes desossados ou esguichos vermelhos em pedra branca. Os phyrexianos se
derramavam como baratas através das frestas. Eles se enxamearam pelas grades
quebradas e desceram pelos corredores de pedra. Eles lutavam contra aqueles que
conseguiram resistir e abocanhavam aqueles que não conseguiram. Em todo o campo de
visão de Urza, monstros jogavam estudantes e acadêmicos como trapos brancos. Urza se
levantou da sujeira onde seus pés tinham baixado por um momento. Ele flutuou para o
meio do local e soltou raios vermelhos nas manilhas dos poços, no pátio principal. As
explosões de energia percorreram as tubulações dos canais. Elas brilharam através das
formas sombrias que se arrastavam para cima. Na linha da água, um súbito inferno
entrou em erupção.
Água vermelha e corpos carbonizados esguicharam dos poços. O solo ao redor de
cada poço agonizava pela pressão do volume. Instantes depois, pedra, cimento e lixo
cascatearam como pedaços de fogo fundido. Os poços foram lacrados. Os phyrexianos lá
embaixo morreriam afogados.
Urza se virou e lançou outro feitiço. Feixes vermelhos miraram cada brecha
entalhada nas muralhas. Calcário começou a derreter e se dobrar sobre as criaturas que
lutavam nas frestas. Então, ele se solidificou e a muralha ficou inteira novamente.
Urza continuou subindo mais alto. Ele atirou mais fogo, anéis de fogo. O poder
sibilava de suas mãos em forma de arcos de vapor e coalescia sobre as muralhas,
varrendo as multidões furiosas. A vanguarda dos atacantes se transformou em estátuas
negras e depois em cinzas. Chamas alaranjadas cintilavam pela onda negra e dirigiam-se
para as margens da floresta.
Ainda é o assassino, não é? disse uma consciência dentro de Urza. Você mataria
todos os pássaros e animais para matar as criaturas que se opõem a você.
A muralha de fogo rodopiou uma última vez antes de se dissipar, sem chamuscar
nem uma ponta de folha. O acusador interno ficou conspicuamente silencioso. Urza se
permitiu um pequeno sorriso – até que a próxima onda de monstros surgiu da beirada dos
bosques e avançou sobre os corpos retorcidos e pilhas de poeira.
“Este é o horror que eu tentei impedir em Argoth, há todos aqueles anos,” Urza
explicou à presença dentro dele. “Este é o horror que eu ainda tenho que enfrentar, mas
não haverá outra Argoth.”

233
Mais uma vez, a resposta foi apenas o silêncio.
Os olhos de Urza brilhavam em seu aspecto de pedras preciosas. Estendendo uma
mão, ele fez um certo sinal. Uma asa de um phyrexiano se aproximou de outra.
Demônios saltaram em cima de demônios, atravessando seus cérebros, cortando suas
cabeças. Com outro sinal de suas mãos, Urza arrastou as bestas caídas na pilha de mortos
perto da muralha, libertando seus escorpiões. As máquinas saíram da viscosa escuridão
onde estavam enterradas, e escalaram em direção a uma nova linha de avanço.
“Isso deve segurá-los por um momento,” disse o planinauta a si mesmo. Ele se
voltou para dentro das muralhas.
Abaixo dele, dezenas de máquinas, estudantes e acadêmicos lutavam contra o
inimigo onipresente. Entre eles, um homem de cabelos cinza lutava com uma fúria
especial. Ele carrega apenas uma adaga, mas a usava como se fosse uma espada:
cortando, golpeando, esquivando, perfurando. Ao seu redor, no chão empoeirado,
monstros jaziam em pilhas. A adaga que ele segurava chamava o pingente ao redor do
pescoço de Urza. Mais ainda, pensou, o homem o invocava. Ele afundou um golpe fatal
no olho – em forma de prato – da criatura que ele enfrentava, e ela caiu desajeitadamente
para longe do seu caminho. Urza desceu onde a besta estava e, ao fazer isso, recebeu um
golpe de adaga em seu estômago.
Ele sorriu, apertado, “Barrin, é bom te ver também.”
Ficando branco, Barrin tirou a lâmina da barriga do mestre. Ela saiu, sem sangue,
e a barriga e a camisa do homem se reconstituíram logo que a faca foi retirada.
“Urza, eu pensei que você estivesse morto,” ele gritou estupidamente.
“Ainda não. Eu reparei a muralha e contive o ataque principal,” disse Urza, com
urgência. “Mas isso tem que acabar hoje. Eu tenho que matar K'rrik.”
“Não vamos conseguir,” Barrin ofegou, quase implorando, “poucos números,
poucas estratégias … sem fôlego.”
“Vou trazer reforços.” Então, dizendo isso, Urza piscou da existência. Como um
homem atravessando um corredor de uma sala para outra, Urza atravessou o corredor dos
mundos e entrou na forja de Shiv.
Uma grande reunião o aguardava. Jhoira estava na frente do grupo, com uma linha
de doze corredores tolarianos modificados atrás dela – criaturas de metal Thran. O
pelotão de humanos tinha trinta e cinco pessoas, incluindo Teferi e todos os outros

234
acadêmicos e estudantes trazidos há quase uma década. Eles estavam muito mais sérios
agora, crescidos e endurecidos pelo fogo, assim como o metal que criaram tão
habilidosamente. Ao lado deles havia um contingente de quarenta homens-lagarto,
incluindo Diago Deerv e os guerreiros escolhidos pelo guarda-costas pessoal do bei. O
jovem dragão de fogo Rhammidarigaaz os acompanhava, juntamente a Karn, o homem de
prata. Ao lado destas tropas, limpas e organizadas, um desorganizado grupo de goblins,
vestidos de macacão, se agrupava. Muitos carregavam as armas tribais cruas que haviam
trazido para a plataforma cinco anos atrás. Outros carregavam apenas o maior, o mais
pesado, o mais afiado ou o mais terrível dos itens de suas caixas de ferramentas.
Jhoira deu um passo à frente com uma precisão militar, acompanhada por Diago
Deerv e um pequeno goblin obstinado com sobrancelhas que ultrapassavam o nariz. Esse
guerreiro deu o que era considerado uma saudação rígida. Jhoira dirigiu-se a Urza.
“Seus soldados estão reunidos. Seus aliados providenciaram mais do que apenas
forças simbólicas.”
“Estou vendo,” disse Urza, com os olhos brilhando para Rhammidarigaaz e Karn.
Ele apontou para eles e se virou para Diago. “É claro que você sabe que esses seus dois
prêmios podem ser sacrificados na batalha que se aproxima.”
“O sacrifício para a tribo é nossa maior honra,” respondeu Diago, com severa
sinceridade.
Os olhos de Urza passaram mais uma vez sobre as forças. Apesar de seus números
e sua determinação, eles não seriam suficientes. Ele respirou profundamente e disse
simplesmente: “Venham comigo.”
A onda de transplanação que saiu dele, englobou a todos com um piscar de olhos.
Ela veio com o último encantamento de Urza – um feitiço de efeito em massa, que
transformava as tropas em duas dimensões enquanto estivessem no espaço entre mundo.
As muralhas de metal Thran se desfizeram no caos giratório. Inimigos ancestrais –
viashinos, goblins, dragonetes de fogo, humanos e máquinas, se reuniram no vazio, então
o grupo se percebeu no calor da batalha em ebulição no pátio de Tolária.
Não houve tempo para ordens. Não havia esquadrões marchando para a batalha.
Houve apenas tempo para respirar, girar sobre o calcanhar e golpear qualquer criatura
enegrecida e horrível para fora da batalha. O som do metal Thran das armas de lâmina
dupla se juntaram ao som estridente dos machados goblins nas carapaças. O homem de

235
prata lutava desarmado e com uma força gigantesca. O dragão de fogo, a única besta
condizente com o tamanho dos monstros, atacava com a cauda, garras, dentes e baforada
– com tudo.
Os defensores de Tolária emitiam desconcertados sons de satisfação quando os
monstros caíam.
Mas ainda não seria suficiente.
Urza transplanou novamente. Ele deixou Tolária para o ninho suspenso da antiga
dragoa, Gherridarigaaz. Em momentos, ela apareceu no ninho como havia feito antes –
repentinamente, impressionante e prática.
“Sou eu, Urza Planinauta,” anunciou.
A dragoa era vermelha e enorme, vista contra os grandes fios de ramo de árvore e
alcatrão. Ela levantou a cabeça grisalha e considerou Urza, raivosamente. “Eu pensei que
você estivesse morto.”
“Eu posso recuperar seu filho, Grande Gherridarigaaz.”
Sua cabeça se manteve ereta. “Diga.”
“Você terá que lutar por mim. Você terá que lutar por mim, pelos viashinos e pelos
goblins. Seu filho está lutando por nós, exatamente agora. Vou levá-la para o lugar onde
está Rhammidarigaaz, e você deve lutar lado a lado com ele, alie-se conosco e salve-nos
na batalha, e seu filho será devolvido a você.”
Um olhar desconfiado apareceu no olho estreito do animal.
“Lutar contra quem?”
Os olhos de Urza eram um espelho afiado da dragoa. “Você deve combater o
inimigo de todos nós, as criaturas que matariam cada um de nós, os monstros que batem
à porta.”
“Ah, sim,” disse a dragoa dissimuladamente. “Urza e seus phyrexianos.”
“Não tenho tempo para jogos,” disse Urza severamente. “Venha comigo agora e
lute para recuperar seu filho ou não venha.”
A dragoa levantou-se até a sua máxima e impressionante altura. Ela abriu as asas
com força sobre os ombros escamosos e lançou sua enorme cabeça ao lado do planinauta.
“Eu vou.”

236
Urza segurou a crina desgrenhada da fera e escalou seu pescoço longo. “Recolha
suas asas,” ele ordenou, “e prepare uma baforada de fogo.”
A dragoa obedeceu. Suas asas coriáceas se estenderam por toda a sua extensão.
“Já vamos,” disse Urza.
Com um pensamento, a ação foi feita. Urza e a dragoa, dobrados em imutável
geometria. Criaturas planas, eles atravessaram o corredor do espaço. Em instantes, o véu
daquele lugar caiu e foi substituído por copas de árvores caindo e um céu brilhante e
cheio de nuvens. Urza e sua dragoa recuperaram suas terceiras e quartas dimensões. Asas
se desdobraram no ar impetuoso.
Adiante, a academia tolariana se encolhia na encosta. Colunas negras e viscosas
de fumaça subiam dela. Gherridarigaaz deu um magnífico rasante com suas asas.
Pedaços de árvores rolaram. A dragoa explodiu sobre o campo de batalha. Abaixo,
criaturas monstruosas corriam às centenas, em direção às muralhas.
Respirando fundo, ela atirou fogo nos phyrexianos. Eles queimaram até se
tornarem manchas negras e oleosas na terra carbonizada.
Um grito de comemoração se ergueu atrás do muro da academia. A grande dragoa
subiu e saltou sobre o desfiladeiro de Phyrexia. Arpões de balista foram atirados e
passaram por suas asas. Com apenas uma batida de asas, ela subiu para longe do seu
alcance.
“Sim,” Urza gritou para a criatura entre os ventos circulares. “Lute ao nosso lado,
e você terá seu filho de volta.” Então ele se foi.
Ele saiu das costas da besta. No próximo segundo ele apareceu em outro lugar, em
um canto tranquilo de Tolária.
Seus pés descansaram em uma barragem feita de entulho e argamassa. A poderosa
barreira desviava a água do desfiladeiro de Phyrexia. De um lado do grande pedaço de
pedra estava a abóbada escura de tempo rápido de K'rrik. Do outro lado, ficava um
reservatório vasto, azul, de água retirada das profundidades úmidas do desfiladeiro. O
lago era manso e transparente, longe da loucura da batalha. Peixes atravessavam suas
profundezas. Árvores ao redor de suas margens lançavam suas almas em sua superfície.
“Me perdoem,” disse Urza, apenas.
Energia explodiu da ponta dos seus dedos apontados para baixo. Ela pulverizou a
barragem e lançou Urza ao ar. Rochas se partiram. A água explodiu. A inundação

237
subitamente embranqueceu ao encontrar pedaços de pedra e cal. Rugiu sobre o precipício
e golpeou o desfiladeiro. A barriga do lago caiu bruscamente e fluiu. Urza mergulhou na
muralha de água azul. Ela o sustentaria. Ela o camuflaria.
Ela o protegeria.
Ele não seria dilacerado pelas linhas cruzadas do tempo.
Ele não seria empalado pelos tiros de balistas.
Ele nem sequer seria visto na inundação.
E uma vez dentro da fenda temporal, ele destruiria os campos de procriação onde
aquelas monstruosidades phyrexianas eram criadas, perseguiria e mataria K'rrik e
limparia Tolária, para sempre, da ameaça phyrexiana.

*****

Jhoira enfiou sua espada de metal Thran na cabeça de um demônio gigantesco. Ela
separou o crânio da criatura, derrubando-a na parede quebrada da enfermaria. A cabeça
arrancada da besta caiu na soleira de uma janela do segundo andar. Dentro daquela
janela, mais monstros atacavam os pacientes acamados. Rugindo, Jhoira subiu sobre o
cadáver de seu inimigo como se fosse uma escada. Sua espada destruiu as janelas e
produziu uma onda de vidros. Houve uma explosão de gritos e gemidos. Outro deslizar
de sua lâmina retirou os restos de vidro da janela. Ela subiu o parapeito.
Muitos dos pacientes já estavam mortos. O resto havia reunido suas últimas forças
usando muletas e bastões como armas. Um dos alunos com talento para a alquimia fez
impressionante uso de vários compostos anestésicos. Ele também inventou um pó
explosivo em pequenos frascos e manteve três phyrexianos à distância, jogando os
frascos explosivos nos pés dos atacantes.
Chegando por trás deles, Jhoira girou a espada no pescoço grosso e reptiliano de
um dos monstros. A lâmina de metal Thran atravessou a carne e o osso como uma faca
atravessaria a água. A cabeça se soltou e caiu em direção a Jhoira, seus olhos rolando e
os dentes triangulares estalando. Por instinto, ela pegou a coisa por uma orelha pontuda e
jogou para longe.
Um dos aliados da besta – um gigante com um barbilhão de carne eriçada – se
virou para alcançá-la. Seus maxilares se abriram para uma mordida que poderia cortá-la

238
pela metade. Novamente, por reflexo, Jhoira golpeou a cabeça na altura dos dentes. A
cabeça apertou sua mordida mortal na sua própria língua. Jhoira quase não conseguiu
retirar a mão antes da mastigada forçada da cabeça rompida. Ossos e dentes se chocaram
e se quebraram, emaranhando-se com os nervos que fixavam o barbilhão do gigante. Ele
ofegou e caiu de lado, vomitando. Jhoira terminou sua agonia com um golpe dentro de
sua narina, acertando o lóbulo frontal da criatura. Ela caiu com um rugido doentio,
arrancando a lâmina da mão de Jhoira e prendendo-a debaixo de seu corpo.
Uma dor aguda explodiu em seu lado. Jhoira voou flacidamente para o outro lado
da sala e foi esmagada contra a parede. Alguma coisa havia lhe espreitado, uma coisa
enorme de pele cinzenta, pequenos olhos de inseto e orelhas com pontas de espinhos
venenosos. Empurrou as camas com a mesma facilidade que tinha a empurrara. Jhoira
saltou para trás, mas ficou presa em um monte de lona e madeira quebrada. A fera
avançou. Suas garras se abriram.
Abruptamente, contra o seu corpo acinzentado, surgiu uma figura de branco. Com
uma mão levantada, a figura segurava uma caixa de metal cheia de frascos com um pó
amarelado. Logo depois, frascos e caixa haviam desaparecido, jogados entre os dentes. A
cabeça do monstro explodiu, enchendo o quarto com seus pedaços. O cadáver inerte caiu
pesadamente sobre Jhoira.
“Você está bem?” Jhoira gritou, na súbita calma.
Seu salvador falou exatamente as mesmas palavras. Ele rolou a massa morta da
besta para longe dela, afastando-se, e tirou a espada do outro corpo.
“Estou bem,” eles se asseguraram, novamente em uníssono.
Jhoira recebeu com prazer a lâmina. Ela agradeceu ao jovem que lhe entregou.
“Você acha que consegue manter esse posto? Você consegue segurar a porta e
manter essas coisas do lado de fora?”
“Sim,” o jovem disse bravamente. “Sim, se ninguém subir do jeito que você fez.”
Jhoira esforçou-se e cambaleou até a janela. O espaço entre a enfermaria e a
muralha da academia estava quase deserto, ocupado apenas por centenas dos mortos:
phyrexianos, humanos, viashinos e goblins. Até mesmo Rhammidarigaaz tinha deixado o
pátio, voando com a mãe. Juntos, para além dos muros, eles rugiam nos céus, lançando
fogo e enxofre nos hospedeiros.

239
“Não deve haver mais ataques nesse espaço, a menos que eles derrubem a muralha
novamente,” supôs Jhoira. Ela avançou em direção à porta da enfermaria. “A batalha se
movimentou para dentro. Será de sala em sala. Você consegue manter essa?”
“Sim,” repetiu o homem.
“Ótimo,” disse Jhoira, e saiu para o corredor.
Um grande tumulto veio do Salão das Criaturas Artefato, logo à frente. Com um
suspiro cansado, Jhoira correu em direção ao som.
Uma batalha ocorria dentro das salas, com seus amigos – Karn no observatório,
Teferi no grande salão, Diago na sala de estudos do mestre, Terd nos porões, Barrin na
reitoria e Jhoira no Salão das Criaturas Artefatos. Um pequeno sorriso apareceu sobre
seus lábios. Qual invasor phyrexiano seria páreo para um grupo como aquele? Ela teria
que lembrar Urza, assim que ele construísse sua nave voadora, de que se certificasse de
ter a melhor tripulação.
Seu rosto escureceu. Ela lembraria a Urza se ambos sobrevivessem àquele dia.

*****

Urza se levantou da lama vil na base do canyon. Com a força de sua vontade, ele
retirou a sujeira de peixe morto e algas tenazes de suas vestes. O lago raso se agitava
com a inundação que se derramava no desfiladeiro. No entanto, na cidade phyrexiana,
tudo estava parado. Barrin estava certo. K'rrik enviou toda criatura apta para o ataque,
querendo erradicar a escola. Os únicos phyrexianos que permaneceram eram os que
tripulavam as balistas, sentinelas e os incapazes de passar a barreira temporal. Chefiando
todos eles, é claro, K'rrik.
Também haveria uma outra safra de monstros crescidos em barris, mas Urza não
partiria até que todos estivessem mortos. Após décadas de observação, Urza sabia onde
os profundos laboratórios mutagênicos ficavam dentro da extrusão basáltica em que a
cidade fora construída. Com um pensamento, ele estava numa caverna escura e profunda.
Um corredor de barris estendia-se à frente e atrás dele. Pilares de pedra estavam
entre painéis de obsidiana esfumaçada. Atrás desses painéis havia baías de petróleo
brilhante – sangue phyrexiano e líquido placentário. K'rrik provavelmente havia
preenchido estas células drenando milhares de seus cidadãos. As carcaças vazias teriam

240
sido cortadas em cubos e mergulhadas para servir de comida para as criaturas que se
desenvolviam nos tanques. Os phyrexianos mudaram os meios de reprodução de naturais
para artificiais quando as placentas, no útero, começaram a consumir suas mães de
dentro para fora.
As figuras grotescas dentro daqueles tanques pareciam totalmente capazes de
matricídio. Embora imaturas, a maioria era do tamanho de um humano adulto, com
membranas nictitantes sobre grandes e esponjosos olhos, ombros salientes, garras
macias, pulmões inspiradores de óleo e uma série de pernas, algumas com a espessura de
membros verdadeiros e outras definhando e caindo, restando apenas os quadris. Em
vários daqueles tanques escuros, ossos vestigiais das pernas pendiam na dentição
malformada das bestas cegas: um pequeno lanche entre as refeições.
Urza estava enojado. Ele se levantou em direção ao teto da caverna, longe do
corredor dos barris. Debaixo dele, uma nova fileira de barris se revelou. Cem,
quinhentos, dois mil e quinhentos… Uma rede de passarelas de ossos sobre cada linha.
Atrás da passarela de marfim, máquinas submergiam, mergulhando sondas no óleo
brilhante, despejando pedaços de carne seca nas cabeças das criaturas famintas e
retirando detritos. Urza reconheceu pedaços de seus falcões mecânicos no design
daquelas babás mecânicas. Não era uma surpresa K'rrik ter enviado toda a cidade no
ataque. Em alguns meses no seu tempo, meras semanas lá fora, K'rrik teria uma cidade
completamente nova, um novo exército.
Não por muito tempo. Urza flutuou na câmara escura da caverna, abaixou as mãos,
estendeu os dedos e soltou grandes clarões de relâmpagos azuis para dentro dos barris.
Quando os raios atingiam óleo brilhante, maciças línguas de fogo se erguiam. As
criaturas dentro do óleo se contorciam. Faíscas branco-azuladas corriam por suas presas
curtas até as glândulas de veneno em suas gargantas. Arcos de energia pulavam de um
dedo para o outro. As criaturas convulsionavam, agitando o óleo, alimentando o fogo.
Em instantes, as chamas atingiram suas cabeças expostas, então seus ombros e depois os
quadris. A pele grossa se queimou, quebrou, se soltou e depois se enrugou, parecendo
uma casca. Os músculos fritaram. Os ossos estouraram. Um por um, o exército de apoio
de K'rrik cozinhou exatamente onde estava. Por último, com todo aquele óleo brilhante
flutuando no ar, a súbita e intensa mudança de temperatura estilhaçou as estruturas de
obsidiana. Fragmentos de vidro e pedaços de phyrexianos queimados se espalharam
pelos corredores.

241
Mais relâmpagos fulguraram; mais tanques entraram em erupção. Metade deles se
foi. Urza ofegou, sentindo a drenagem de seu poder. Ele se recuperaria rapidamente, é
claro, e precisava apenas de um feitiço para matar K'rrik. Enquanto todos os outros não
fossem destruídos, Tolária não estaria segura. A energia azul saltou de seus dedos.
Colunas de fogo laranja ardiam na noite da caverna. Nuvens negras de fuligem e fumaça
eram expelidas no alto da câmara. Tonto pelo esforço, Urza explodiu o último dos
tanques e assistiu enquanto seus habitantes queimavam em piras pútridas.
Isso obrigaria K'rrik a aparecer.
Urza parou de respirar. O ar no local parecia ser puro veneno. Ele ergueu os olhos
cansados pela câmara. Havia uma fumaça negra enrolada na escuridão mais profunda da
caverna. Algo a mais se movia lá, também, algo prateado e flutuante e…
O som agudo do falcão mecânico cortou a fumaça, o fogo e o óleo. Urza ergueu
seu olhar a tempo de ver os olhos ferozes da criatura brilhando sobre seu bico em forma
de lâmina.
Impacto.
Urza caiu, caiu do céu como um pardal. Ele caiu entre os pedaços de vidro que
escorriam óleo. Eles eram as suas menores preocupações. Sua barriga era uma mistura de
aço quebrado, fígado macerado e pedaços de osso. A criatura cadente havia se quebrado e
se aberto dentro dele. O zunido dos mecanismos de retalhamento eram inconfundíveis.
Rasgou músculos e vísceras. Quebrou costelas e deslocou a espinha dorsal.
Com um supremo esforço de vontade, Urza estancou o fluxo sanguíneo, refez
tecidos e órgãos, reconstruiu a si mesmo a partir de suas recordações, mas a máquina era
muito rápida. Ela destruía cada tecido que ele reconstruía.
Urza estava morrendo por sua própria invenção, reprogramada não mais para ver
óleo brilhante, mas sim para sentir o cheiro do sangue do próprio Urza.
Era sua vez de se contorcer. Ele tremia sobre os fragmentos de vidro. A cada
momento, sua mente ameaçava apagar. Não havia o suficiente da sua forma física para
sustentar alguma convicção, para energizar o pensamento que lhe permitiria transplanar e
escapar daquele horror. Talvez se ele não tivesse gastado tanta energia destruindo o
exército phyrexiano, poderia concentrar suas forças. Agora, porém, ele estava preso
como uma mosca alfinetada. Seus olhos de pedras preciosas manchados com os seus
próprios esguichos de sangue. Ele lutou para se refazer, para voltar cada gota de sangue

242
para as suas respectivas veias. A tarefa era quase impossível. Ele não escaparia da
máquina, nem poderia se permitir morrer. Ele apenas poderia sentir eternamente os
dentes famintos da máquina.
Se ele não conseguisse destruir K'rrik, pelo menos ele havia destruído o exército.
Como que convocado pelo pensamento, o homem apareceu, porém o termo “homem”
pouco se aplicaria a ele agora. K'rrik era pouco mais do que um esqueleto animado. Sua
carne, vulnerável ao tempo, havia sido mortificada em seu corpo durante os séculos de
seu aprisionamento. Ela foi pacientemente substituída por enxertos de carne, a cada nova
geração de neutralizadores. Ele estava lentamente se reconstituindo, esperando algum dia
escapar do desfiladeiro onde estava preso. Agora, seu corpo tinha uma aparência
musculosa, como se ele não fosse apenas um homem, mas uma série de enguias
costuradas juntas, na forma de um homem. Nas extremidades de seu corpo – dedos das
mãos e dos pés, joelhos, cotovelos e testa – brotavam espinhos, a maioria deles de ponta-
oca e gotejando veneno. Apenas o rosto do homem permanecia, grosseiramente, com a
forma humana, e seus olhos… eles eram brilhantes, azuis e humanos.
“Após sua última visita, Urza, eu conheci sua fraqueza. Mantendo você próximo
da morte, você não consegue escapar. Porém, arpões de balista e golpes de espada são
muitos desajeitados. Eles permitem momentos de lucidez, e um momento é tudo o que
você precisa,” ronronou K'rrik enquanto se aproximava. Suas pisadas de ferro rachavam
os pedaços de vidro enquanto ele caminhava. “Esta solução é muito mais segura – e um
tanto poética. Obrigado pelos falcões mecânicos. Eu tenho mais quarenta, pousados ao
redor do desfiladeiro, caso você tenha sucesso em transplanar.”
Urza, incapaz até de respirar para responder, pôde apenas olhar em uma agonia
atordoada para seu inimigo. Enquanto ele focava seus pensamentos em sua cura interna,
uma onda de sua mente maravilhou-se com o fato de que aquele monstro falava tão bem
a língua dos homens.
“Esse foi seu grande erro, Urza, vir aqui naquela primeira vez. Isso nos ensinou
tudo o que precisávamos saber. Esse sempre foi seu grande erro, Urza, tropeçar em nosso
reino, deixar-nos vê-lo e, em seguida, recuar enquanto preparamos o necessário para te
matar. Primeiro você fez isso em Koilos, e nós te seguimos. Você fez isso novamente em
Phyrexia, e nós te seguimos. Você sabe que nos levou ao Reino de Serra. Nós atacamos e
invadimos. Eles pensam que nos derrotaram, mas nós ainda estamos lá. Nós nunca
saímos. Nunca deixamos um lugar ao qual você nos conduziu. Nós estamos engendrando

243
a transformação do reino de Serra. Os anjos acham que ainda governam, mas já é nosso.
É um dos nossos territórios para a completa invasão do seu mundo. Nós também nunca
abandonamos esse lugar, e agora, hoje, nós tomaremos essa ilha de você.”
Urza desejava poder cuspir àquele desafio. Ele queria poder lembrar K'rrik que
seu exército mutante estava morto, tanto dentro quanto fora do desfiladeiro. Ele ficou
apenas com um punhado de guardas, e não importava quantas modificações ele fizesse,
K'rrik nunca seria capaz de espremer seu cérebro para fora da gaiola do tempo onde ele
estava preso. Urza queria dizer tudo aquilo, mas ele não pôde fazer nada além de se
manter consciente enquanto estremecia no chão de vidro quebrado.
Ele não precisava dizer nada disso. K'rrik parecia saber. “Por sinal, você não
destruiu todos os tanques. Essa era apenas a menor câmara. Eu tenho outras três. Eu
tenho oito mil guerreiros lá. Eu tenho dois mil prontos para emergir.”
Então era isso. K'rrik provocaria Urza mais um pouco, então tiraria sua espada e
arrancaria sua cabeça. Mesmo que Urza pudesse, de alguma forma, reunir força
suficiente para transplanar – ele não conseguiria escapar do fosso temporal, nem mesmo
sair daquela câmara de morte. Três outros falcões circulavam dentro da fumaça preta
sobre sua cabeça. Era isso. Urza morreria; K'rrik viveria. Mais dois mil phyrexianos
emergiriam para varrer a resistência final. Seis mil mais se ergueriam para transformar
Tolária em uma fortaleza phyrexiana em Dominária. A invasão para a qual Urza estava
apenas começando a se preparar, seria totalmente concluída. Era isso. Tudo estava
perdido.
“Eu vejo pelo olhar em seus… olhos notáveis, que você finalmente abraçou sua
derrota, Urza Planinauta. A semente dela foi plantada naqueles primeiros momentos em
Koilos. Desde o início, você perdeu tudo.” K'rrik avançou, puxando uma cimitarra,
saboreando lentamente o momento. “Eu estava esperando assistir um pouco mais do seu
tormento, mas só teve graça até você se quebrar.”
Urza estremeceu com o movimento profano daquela coisa destruindo suas
entranhas. Ele quase desistiu naquele momento, apenas para roubar a vitória final de
K'rrik, mas um impulso de permanecer um pouco mais se levantou nele.
K'rrik se debruçou sobre ele e levantou sua cimitarra. “Boa noite, Planinauta.” A
lâmina desceu.

244
No segundo anterior a atingi-lo, uma súbita onda de poder preencheu Urza – uma
força dentro dele, mas uma força que não era dele. Multani. Era a força suficiente para
uma transplanagem. Com aquela energia, houve uma palavra sussurrada, o único lugar
para onde Urza poderia transplanar que o esconderia dos falcões e lhe daria a vitória
final. K'rrik.
Com um pensamento, Urza saiu do espaço. Ele desapareceu do chão e da criatura
falante. Por um segundo, ele não estava em lugar nenhum, mas ele não ficaria lá, para
que o phyrexiano não conseguisse entender. Com um segundo pensamento, Urza voltou à
realidade.
Ele emergiu no exato núcleo do corpo de K'rrik. O corpo de energia cintilante de
Urza se inchou dentro do ser que estava naquele mesmo lugar, explodindo o corpo do
phyrexiano em uma chuva de carne e óleo brilhante. K'rrik explodiu, e em seu lugar
ficou um planinauta encharcado de óleo. Pedaços de couro de enguia espalhados em cima
dos tanques destruídos
Urza ficou quieto, não ousava piscar ou respirar.
O falcão que há alguns momentos o rasgava, estremecia no chão coberto de vidro.
Ele pegou as asas com as engrenagens trituradoras, virou de um lado para o outro, e
virou a cabeça com curiosidade. A máquina parecia cheirar o ar. Trotou para frente
alguns passos e picou experimentalmente os pedaços de vidro. Então, com uma batida
apressada de suas asas, a coisa se ergueu no ar e subiu para as nuvens de fumaça, para se
juntar às suas sósias.
Mova-se em silêncio, veio a voz de Multani dentro de Urza. Nós temos mais três
câmaras para limpar.
Urza consentiu. Ele se levantou silenciosamente no ar, procurou uma porta que
conduzia para fora da caverna e deslizou pelo ar em direção a ela. Enquanto ele vagava
suavemente, Urza enviou um pensamento para dentro, em direção ao espírito da floresta
que o habitava. Então, nós somos aliados?
A resposta de Multani veio sem pausa. Você conheceu a agonia de Argoth. Nós
conhecemos a agonia de Phyrexia. E se estas são as criaturas contras as quais você
luta, então somos aliados.
Um suspiro escapou de Urza. Ele observou nervosamente para ver se algum dos
falcões capturava o cheiro da sua respiração. Quando nenhum deles o fez, Urza

245
respondeu: Estou satisfeito em saber. Eu precisarei de sua força para terminar de limpar
o desfiladeiro.
Multani respondeu: Quando estivermos fora desse fosso e de volta às florestas da
ilha, eu posso acabar com essa batalha para você.

*****

Jhoira se reuniu com seus antigos companheiros, enquanto eles purgavam a


academia dos phyrexianos. Eles haviam perseguido as bestas em cada uma das salas e
corredores, até que encurralaram um grupo de doze monstros no pátio. Ali, porém, a
maré virou.
Os defensores de Tolária perceberam-se lutando pela própria vida.
A situação era a mesma em qualquer lugar. Os phyrexianos eram expulsos do
campo de batalha pelos dragões, corredores, escorpiões e guerreiros humanos, mas assim
que chegavam às florestas, eles mantinham sua posição, destruindo quaisquer pumas que
pulassem das árvores sobre eles. Eles poderiam matar milhares de phyrexianos, mas se
alguma centena deles sobrevivesse, eles retornariam para a fenda de tempo rápido e se
ergueriam novamente.
Os defensores se desesperaram.
Então, as próprias florestas se levantaram. Os troncos das árvores golpearam os
rostos dos phyrexianos e os ramos os estrangularam. Vinhas se prenderam ao redor de
seus membros e os arrancaram de seus corpos. Mosquitos, insetos e moscas se agruparam
sobre os monstros e os esfolaram vivos. As folhas, endurecidas por alguma energia
estranha, cortavam como adagas as pernas daqueles que fugiam.
Dentro do pátio, a própria grama sob os pés dos doze phyrexianos teve uma
injeção súbita de vida, perfurando os pés, cortando as pernas e arrastando os monstros
para seus túmulos.
O grito que surgiu naquele momento foi cansado e espalhado, mas foi um grito de
vitória.

246
Monólogo

Acabou. A invasão de Tolária acabou. Nunca na minha vida , eu me senti

tão cansado, incapaz até mesmo do feitiço mais simples, incapaz de soltar essa

adaga que eu agarrei com tanta força .

Mas eu não salvei a ilha . Ela foi salva por Urza e sua aliança de seis

partes, e se ele conseguiu reunir o povo de Dominária daquela forma , talvez ele

realmente consiga salvar o mundo.

– Barrin , mago mestre da Tolária

247
Capítulo 18

“Eles estão no reino de Serra, Barrin,” disse Urza nervosamente. Barrin estava
endireitando as vestes cerimoniais brancas e douradas do mestre e aquela inquietante
atenção irritava Urza. “Eles estão planejando o declínio de todo o plano, preparando-o
como base para a invasão de Dominária. Você não está nem ouvindo.”
Barrin soltou um longo suspiro quente que só conseguiu tornar a pequena tenda
mais desconfortável. “Mais tarde, teremos tempo para conselhos de guerra. Hoje é um
dia de alianças.” Ele pontuou seu discurso com um puxão na estola de Urza.
O mestre soltou seu próprio suspiro. Suor escorria de suas têmporas, na barraca
quente. Ele estava tão distraído com pensamentos sobre os demônios entre os anjos de
Serra que ele nem pensou em ajustar a sua própria temperatura interna para ficar mais
confortável.
“Eles me seguiram em todos os lugares que eu fui. Quando Xantcha e eu viajamos
pelos planos, exterminando phyrexianos, nós estávamos jogando-os como sementes
através dos mundos. Eu estou te dizendo, a batalha que nós acabamos de lutar é apenas o
mais ameno dos prelúdios da guerra que está por vir.”
“Sim,” Barrin concordou serenamente, tirando uns fios de cabelo errantes da testa
do homem, “e nós acabamos de ganhar o prelúdio. É hora de celebrar a nossa vitória com
nossos aliados.” Ele recuou, olhou o homem da cabeça aos pés e assentiu. “Você é um
herói conquistador, em cada centímetro.”
“Eu me sinto derrotado. Não há tempo a perder em cerimônias-” Barrin se tornou
subitamente impassível. “Para vencer a batalha de Tolária, você precisou da ajuda de
estudantes e acadêmicos, viashinos, goblins, dragões de fogo e até o espírito de uma
floresta antiga e distante. Para ganhar a guerra de Dominária, você precisará da ajuda do
mundo inteiro. O discurso que você fará nos próximos momentos cimentará a atual
aliança e será a pedra fundamental para as suas defesas planetárias. Pelo menos uma vez,
Urza, não fuja das consequências. Pelo menos uma vez, Urza, seja o estadista, fale com
essas delegações que você reuniu. Recompense-os pela batalha ganha e prepare-os para a
guerra que virá. Depois, podemos resolver as coisas no Reino de Serra.”
Os olhos do planinauta brilharam com algo entre mágoa e ressentimento. Naquele
momento, Barrin se lembrou por que esse era um grande homem, esse semi-deus, tão

248
rotineiramente acompanhado por suas máquinas: entre outros humanos, ele era, de fato,
um homem tímido e frágil.
“Como eu estou, Barrin?” perguntou Urza. Barrin travou sua cabeça. “Você está
pronto.” Tomando uma respiração profunda e consciente, Urza apertou os punhos dentro
de suas mangas e caminhou em direção à entrada estreita e brilhante na frente da tenda
do pavilhão. Ele emergiu do recinto fechado e escuro para um campo inundado de luz e
ar. As delegações reunidas aplaudiram.
Urza sorriu. Ele não pôde se conter. Ali, dispostos diante dele, na luz brilhante,
estavam os selecionados representantes de sua aliança: Jhoira, Teferi e um contingente
de estudantes de Shiv; Karn, Bei Olho Incandescente, Diago Derro, e o guarda-costas
pessoal do Bei; Glosstongue Crackcrest, o maquinista Terd e o chefe Destrou;
Gherridarigaaz e Rhammidarigaaz; Multani e um grupo de fadas das florestas tolarianas;
e, claro, Barrin com dois outros acadêmicos tolarianos e um grupo de estudantes de elite.
Juramentados quanto ao sigilo da localização daquela clareira e sobre o que eles veriam,
a assembleia foi reunida para que todos os povos testemunhassem a salvação que Urza
iniciou para Dominária. Eles representavam o exército dos sobreviventes, mas eles eram
mais do que sobreviventes, eles eram vencedores.
Há apenas uma semana, incêndios e phyrexianos – mortos e moribundos enchiam
a ilha. Os defensores de Tolária haviam vencido a batalha. Eles então se viraram com
igual vigor para limpar as pedras e reconstruir as muralhas. Os mortos honrados de
Tolária agora estavam em santuários decorados, próximos ao antigo monumento de
Teferi. Os phyrexianos mortos produziram uma pilha que queimou por três dias, um fogo
alto e azul, ao lado do desfiladeiro de onde eles vieram. Nem mesmo os ossos ou as
carapaças sobreviveram àquela chama alimentada com óleo. Milhares de aranhas
artefatos, criadas por Urza e seus associados em fendas de tempo rápido espalhadas por
toda a ilha, foram enviadas para garantir que nunca mais os phyrexianos flagelariam a
ilha, nunca mais sobreviveriam ao nascer da lua tremeluzente. Tudo o que restou de
K'rrik e seus neutralizadores era o desfiladeiro vazio e um fedor, que desapareceu assim
que a última brasa da pira funerária se apagou.
Não havia nenhum cheiro de morte nesta clareira. O ar da manhã circulava
luminosamente. A floresta estava verdejante, intocada por batalhas. Árvores centenárias
pendiam bandeiras de folhas verdes sobre o espaço silencioso. A natureza estava na sua
melhor forma.

249
As pessoas também. As roupas de trabalho e de luto se foram, substituídas por
vestimentas resplandecentes. As túnicas de seda e linho dos estudantes e dos acadêmicos
brilhavam em uma panóplia de postos e cores. Enquanto eles aplaudiam, os tecidos
flutuavam como bandeiras em saudação. Os corpos dos humanos de Shiv estavam
vestidos com macacões limpos, vermelhos e tinham expressões que eram tanto de alegria
quanto de preocupação. Os guerreiros-lagarto do bei Olho Incandescente estavam
vestidos em peles brilhantemente tingidas e carregavam os totens de suas casas. Até
mesmo Terd havia se submetido a um banho e a uma sessão com os alfaiates tolarianos.
No fundo do grupo, os dragões de fogo ornavam armaduras vermelhas, surreais contra o
verde da selva. Fumaça flutuava como doloroso incenso de seus focinhos.
Quando os aplausos acabaram, Urza encontrou-se sorrindo novamente. Ele notou
que o suor havia desaparecido de suas têmporas e respirou fundo.
“Filhos de Dominária, sejam bem-vindos a este novo amanhecer. Durante um
tempo, nós estivemos na profunda escuridão, mas agora estamos na luz. E eu sou grato
pela escuridão, pois somente ela nos tornou aliados. Eu escondi essa ilha do mundo. Eu
ainda a escondo, para que as forças malignas que nós enfrentamos não nos encontrem
novamente. Mas para vocês, meus amigos, ela está aberta. Os conhecimentos dessas
terras – o artifício e as mágicas – estão abertos a vocês, aos viahinos, ghitus, grabbits,
destrous, tristous e a vocês, Gherridarigaaz e Rhammidarigaaz. As máquinas que
construímos defenderão vocês, assim como nós. O conhecimento que obtivemos será
compartilhado entre todos nós.”
Aplausos responderam a este pronunciamento, acompanhados de gargalhadas
ansiosas de Terd.
“Nos reunindo – cessando nossas guerras e enterrando nosso passado – nós nos
armaremos para o futuro. Gherridarigaaz recuperou seu filho não foi matando os
viashinos, mas se aliando a eles.”
A anciã dragoa de fogo inclinou a cabeça em reconhecimento, e algo semelhante a
um sorriso se espalhou por seu rosto e temíveis dentes.
“O golem de prata Karn – uma vez de minha propriedade e depois dos homens
lagartos – ganhou sua liberdade, provando-se na batalha e servindo a todos nós.”
Karn acenou seus agradecimentos para o viashino bei parado perto dele. Urza
abriu as mãos em um grande sinal. “Os viashinos, durante uma década de aliança e com a

250
orientação de Jhoira e Teferi, produziram esse magnífico presente para a defesa do nosso
mundo.”
Ele piscou na existência por um instante. Um murmúrio de incerteza se iniciou
entre os viashinos e goblins, mas Teferi e Jhoira sorriam, por saber o que tinha
acontecido.
No tempo de um longo suspiro, Urza reapareceu, as mãos ainda levantadas. Diante
dele, pendurado no ar, estava um navio etéreo. Pequenos pontos brilhantes de magia azul
delineavam sua extensão, quilha profunda, as lustrosas trincanizes, os mastros laterais,
as vergas semelhantes a asas e as cordas entrelaçadas. No entanto, o navio era formado
por peças de metal sólido que cintilavam como grafite, mas pareciam mais rígidas que o
aço. Um aríete reluzente em frente à proa, seguido por uma série de portinholas
flutuantes, placas de viga, mastros montados, longarinas fixadas, coberturas, dobradiças,
chapas, maçanetas e rebites. Uma grande âncora e uma corrente descansavam na frente,
logo atrás do aríete. Um par de velas laterais estendidas de boreste. No coração do navio
pairava um núcleo de metal maciço que só poderia ser um motor.
Não houve aplausos agora, apenas suspiros maravilhados e olhares fixos,
boquiabertos.
“O formato desses enquadramentos é excelente. Eles durarão uma eternidade.
Como eles crescerão para sempre, foi projetado para atingir a perfeita forma final desde
o começo. Eles vão se remodelar e se tornar o que for necessário para nos salvar, para
salvar nosso mundo. Mas, é claro, este grande navio está incompleto. E não é só pelo
artifício que nosso mundo será salvo. Também será pela vida, pela mana verde. Nosso
mais novo aliado, Multani, espírito da grande e distante floresta de Yavimaya, trouxe
com ele um presente para Dominária.” Urza ergueu um pedaço de madeira, uma grande
semente. “Esta é a Semente dos Ventos, do coração da mais antiga árvore magnigote em
Yavimaya, uma árvore que lembra o mundo antes da Guerra dos Irmãos, antes dos
phyrexianos. Ela carrega a essência da floresta antiga. É o coração da floresta.”
Uma luz estranha entrou nos olhos de Karn. Ele olhou para a Semente dos Ventos
como se fosse seu próprio córtex afetivo. De certo modo, o coração de Xantcha e o
coração de Yavimaya eram mesmo parecidos. Eles dariam vida à máquina de Urza.
O mestre manteve elevada a Semente dos Ventos e caminhou para um oval limpo
de grama. “A partir desta semente, com a ajuda de Multani, o casco do navio crescerá.”

251
Dizendo isso, Urza conduziu a semente para baixo, na terra macia. Seu braço
desapareceu até o cotovelo. Quando ele puxou sua mão de volta, a terra preta que tinha
se agarrado, caiu ao redor. Ele olhou para o buraco na grama e enxergou o espírito da
floresta se movimentando para cingir a ferida no solo. Urza recuou quando uma nuvem
luminosa de criaturas cintilantes se aproximou. Fadas. Elas saíram da floresta, sua
simples presença provocou um zumbido no ar. Elas carregavam folhas dobradas em
formas de pequenos copos. Gotas eram reunidas em cada copo. À medida que as fadas
atravessavam o lugar, elas derramavam a água fresca no chão. As criaturas com os copos
vazios voltavam para a floresta, enquanto o fluxo contínuo de suas companheiras seguia
com mais água.
Assim que a linha de copos parou, outras fadas saíram das florestas. Equipadas
com finas lâminas de batalha e armaduras de carapaça, essas tinham olhos rígidos e
marciais. Elas cercaram o local onde a Semente dos Ventos foi plantada, atentas ao
exterior, lâminas preparadas.
Perplexo, Terd observou as criaturas sobrenaturais marcharem até suas posições.
O goblin tinha um sorriso beatífico no rosto. Suas garras grisalhas se contraíam, como se
ele quisesse arrancar as asas das fadas, mas ele resistiu. Os viashinos, entretanto, ficaram
observando o chão onde a semente havia desaparecido. Fino e silencioso, um tronco já
havia brotado do buraco remendado. Ele se espiralava em direção à luz, enviando folhas
amarelas para absorver a luz do sol. Em poucos momentos, as folhas se escureceram para
o verde e proliferaram. Galhos brotaram, engrossando para ramos. A pequena árvore
estremeceu em uma brisa que apenas ela sentiu e se elevou.
Urza fez um gesto. Com lenta magnificência, o navio etéreo se inclinou, sua proa
se ergueu no ar e sua popa balançou para baixo, sobre a árvore em crescimento. Logo, o
grande navio estava parado. Os questionadores ramos da árvore chegaram até ele,
correndo pelas placas de metal e cabos de força, como ramos de rosas em uma treliça.
Eles se espalharam por toda a estrutura encantada, inspirando-se em seu design e se
fundindo sem qualquer ajuste.
Durante todo o tempo, o silêncio permanecia na clareira. Os passos de Urza
pareceram muito barulhentos quando ele se retirou em direção à tenda. Ninguém olhou
para ele, seus olhos, mentes e corações absorvidos pelo espetáculo do navio tomando
forma diante deles – a união do mecanismo e da florescência, do artifício e da natureza,
da história e do destino.

252
“Mesmo agora, as tribos goblins, anteriormente em guerra com viashinos, ghitus e
dragões…-”
“E umas com as outras!” – gritou Terd. O grupo respondeu com risos.
“E umas com as outras – essas criaturas estão trabalhando na matriz de uma
powerstone que conduzirá esta máquina incrível, salvadora.”
Terd soltou um brado de animação, que foi seguido por Glosstongue e o chefe
Destrou, que depois se espalhou pelo resto da multidão. Havia uma harmonia naquele
som. Por um instante, eles deixaram de ser viashinos, goblins, humanos e máquinas. Por
um instante, eles se tornaram a voz de Dominária. O brado avançou pela floresta e
assustou os pássaros que estavam tranquilos em seus galhos.
O som desapareceu, e Urza falou novamente. “Para completar esta grande
embarcação, vou precisar de todos vocês, meus aliados, meus amigos. Os phyrexianos se
foram de Tolária para sempre, mas eles não se foram do nosso mundo. Agora, inclusive,
eles estão assumindo um mundo conectado ao nosso, um passo de distância do nosso. Eu
preciso da ajuda de vocês para construir essa embarcação, mas eu também preciso de
ajuda para salvar outro reino, pois se ele cair, nós também cairemos.”

Monólogo

Bem, imagino que eu já devia esperar. Fui eu quem colocou essa bola em

movimento. Eu que insisti para que Urza recuperasse seu passado.

Ele começou a estrada de volta à sanidade quando Xantcha lhe forneceu

uma cópia de seu irmão – Ratepe . Foi quando esse segundo Mishra morreu,

novamente em uma tentativa de livrar o mundo dos phyrexianos, que Urza

finalmente aceitou a verdade da morte do seu irmão. Ele começou a recuperar

sua sanidade .

Então veio a explosão da máquina de viagem no tempo. Aquela explosão

fez para Tolária o que a Guerra dos Irmãos fez para Terisíare . Nas horas escuras

após a explosão, eu pensei que Urza havia se perdido para sempre , mas a morte

de Tolária em suas mãos teve o mesmo impacto nele que a morte de Ratepe .

253
Agora , no microcosmo atual , ele tem uma cópia do seu erro macrocósmico do

passado. Com a destruição da primeira academia em Tolária , Urza começou a

entender a destruição de Argoth provocada pelo sylex e pelas décadas da guerra

que fizeram o sylex ser necessário. Urza retornou a Tolária para reconstruí-la ,

para enfrentar os filhos da fúria . Ele estava cada vez mais próximo da

sanidade .

Havia mais penitências a fazer. Com a sua destruição e ressurreição,

Tolária permitiu a Urza que ele reatasse com o mundo humano, pelos crimes

cometidos contra Argoth . Ele ainda precisava se reconciliar com o mundo

natural .

Então veio Yavimaya . Urza foi lá para procurar o avatar da floresta , uma

entidade que poderia fazer crescer o casco de seu navio voador. Em vez disso,

ele recebeu uma penitência de cinco anos pela agonia de Argoth . Yavimaya se

lembrava de Argoth . Multani se lembrava de Titânia . Ele reconheceu Urza e fez

com que ele pagasse por seu passado. Ao purgar a culpa de Argoth , Multani

recuperou a sanidade de Urza . Com sua sanidade recuperada , Urza pôde ,

finalmente , destruir os filhos da fúria phyrexianos em seu caminho.

Eu tentei lhe dizer que agora ele está bem. Eu tentei lhe dizer que não há

mais necessidade de se aventurar no passado, que agora é a hora de se

concentrar no futuro. Ele apenas balançou a cabeça e falou sobre ter levado os

phyrexianos até o reino de Serra .

Essa será a próxima jornada de Urza , talvez a última . E se K'rrik merece

que acreditem nele , os phyrexianos estão entre os anjos. Não consigo imaginar

como Urza vai sobreviver, preso entre anjos e demônios.

– Barrin , mago mestre da Tolária

254
Parte IV
ENTRE ANJOS E DEMÔNIOS

Capítulo 19

Mais uma vez, Urza desceu. Era sua aproximação preferida ao chegar em território
desconhecido e hostil, e o reino de Serra, com o passar dos últimos séculos, havia se
tornado desconhecido e hostil.
Ainda era um cenário de paz empíreo, um firmamento de arcos empilhados com
balsas e montanhas de nuvens. Agora, entretanto, o anterior céu azul estava tingido de
amarelo e cinza. O fedor de enxofre do óleo phyrexiano enchia o ar, e a ilusão de
infinitude do reino havia caído como uma roupa rasgada. O céu parecia apertado. A linha
da borda era perceptível. O reino dos anjos era um lugar de nuvens brancas, com grandes
bermas de jardins placidamente à deriva entre elas. Agora, as grandes bermas se
desintegraram em pequenos torrões, algumas apenas do tamanho de barracas, e as
sublimes montanhas se tornaram pessimistas colinas. As cores também estavam mais
enlameadas, como se estivessem perdendo sua quintessência e se transformando em lixo.
Todas as linhas ficaram embaçadas. Cada estrutura havia sido diluída. Cada ideal havia
sido degradado.
Phyrexianos estavam aqui. Eles se destacavam naquelas transformações.
Urza descia como uma espiral lenta. Os olhos de pedras preciosas marcavam
sinais de residências. Antigamente, o reino não precisava de residências, pois não havia
frio, chuva, noite e nem predadores, e o próprio ar alimentava quem o respirasse. Por
isso, as únicas estruturas eram construídas por arte ou para contemplação filosófica –
jardins suspensos, anfiteatros cobertos por heras, bosques de pedras de mana, galerias
sob o céu giratório. Agora, a maioria daquelas construções eram ruínas agarradas a
camadas de chão se desintegrando. As estruturas que não estavam fortemente fixadas se
foram no caos que resvalava. Suas fundações se erguiam como dentes quebrados dos
pedaços rolantes de solo. Entre essas fundações, novas estruturas haviam sido moldadas,
porém elas pareciam mais colmeias de vespas do que casas de anjos. Elas eram
enrijecidas por fora, e por dentro mergulhadas na profunda escuridão – entrincheiradas

255
contra inclemências climáticas, noites repentinas e predadores saqueadores. Phyrexianos
estavam aqui.
A fumaça que surgia de alguns daqueles casebres denunciava o fogo que era usado
para aquecer e secar os espaços frios e escuros. O cheiro de carne naquela fumaça
contava sobre criaturas sendo caçadas, dilaceradas e comidas. Respirar não era mais
suficiente para sustentar a vida. Agora, a vida tinha que ser roubada de outros. Anjos
viviam sobre carne mortal. O plano, antes uma criatura viva a seu próprio modo, havia
morrido. Cada tecido e glóbulo do seu ser lutava para sobreviver – caçando células
vizinhas, se alimentando dos corpos desfalecidos ao seu redor.
Os phyrexianos estavam aqui. Eles mataram o plano e ensinaram os moribundos a
comerem os mortos.
Apenas uma bela estrutura permaneceu, o Palácio de Serra. Urza vislumbrou o
palácio, flutuando distante e sombrio, dentro do cinzento mar celeste. Parecia um ponto
de interrogação invertido, um fato que parecia adequado quando Serra residia no aviário
de cristal em seu pináculo. Ela e seu reino haviam se devotado ao constante debate sobre
a sociedade perfeita, a virtude perfeita, a beleza perfeita. Questionamentos e discussões
eram uma parte inescapável de seu reino. Agora, entretanto, o invertido ponto de
interrogação do palácio simbolizava um lugar à deriva, o constante questionamento
tornou-se uma dúvida eterna. Já não significava debate, mas confusão.
Em direção a esse sinal de confusão, Urza flutuou. À medida que ele se
aproximava do ponto, observou que ele brilhava mais com aço enferrujado do que com
prata. Suas grandes bordas de vidro dourado estavam envoltas em uma grade alaranjada,
com espetos ameaçadores. As pilastras de marfim estavam amareladas e entalhadas. As
janelas das fantásticas torres foram retiradas, para criar espaço para os conjuntos de
balistas e para aquartelar os anjos guerreiros.
Estes últimos, inclusive, inundaram o ar acre, aproximando-se do invasor.
Eles eram liderados por três arcanjos. Gigantescas asas de águias erguiam as
criaturas que avançavam. Em suas mãos, portavam espadas magnas brilhantes. Com uma
lâmina afiada e curvada na ponta, as espadas estavam entre cimitarras e machados. Uma
armadura de prata maciça cobria cada um deles, e uma saia de malha de metal se seguia
atrás. Máscaras de prata escondiam seus rostos. Seguidos a esses três ferozes defensores,
vinha um grupo de aproximadamente trinta anjos guerreiros. Menores e mais levemente

256
armados do que os arcanjos, aquelas criaturas usavam lanças com pontas grosseiras,
braçadeiras redondas e expressões de fanática lealdade.
Urza observou enquanto eles chegavam. Ele preparou suas defesas sobrenaturais.
Ele não lutaria contra estas criaturas, mas elas poderiam querer lutar contra ele. Mesmo
que ele pudesse sobreviver a tal conflito, haveria mais forças no palácio – arcanjos,
anjos, a Irmandade de Serra, guerreiros humanos e os cidadãos do reino. Ele teria que
vencer todos eles e fazê-lo sem mortes e bolas de fogo, para conseguir alcançar a criatura
sitiada no centro deste plano em colapso. Ele não veio para conquistar, mas para se aliar.
Eles se espalharam ao redor dele. As asas batiam o ar amarelo. Os três arcanjos
formaram um triângulo que o cercou, e os guerreiros angelicais orbitavam em uma
grande esfera ao redor. As batidas das asas quase abafaram o comando retumbante do
arcanjo líder.
“Não se aproxime mais,” disse o arcanjo por detrás da máscara. Fria, implacável e
quase metálica, a voz não era nem masculina e nem feminina. “Você não foi convidado.”
“Eu sou o Planinauta Urza,” o homem respondeu, suas vestes brancas oficiais,
rígidas contras as nuvens amarronzadas e os ventos fétidos.
“Nós sabemos,” respondeu o arcanjo. “Nós nos lembramos do seu cheiro.” O
comentário foi dito com naturalidade, sem humor ou malícia.
Os lábios de Urza se apertaram. “Sim, mas eu não reconheço o cheiro desse
lugar.”
“Muito aconteceu desde que você veio. Muito aconteceu porque você veio.” Com
ou sem inflexão, a implicação desta afirmação foi clara.
“É por isso que retornei,” respondeu Urza. “Eu vim para ajudar o reino a restaurar
seu antigo esplendor.”
“Isto não é uma preocupação sua, planinauta,” disse o arcanjo. “Não é sua
guerra.”
“Será, se eu me tornar seu aliado.”
“A senhora Radiante não precisa de aliados.”
“Radiante? Ah sim, eu me lembro dela. Então, Radiante está no comando agora?”
“Sim.”
“E ela não precisa de aliados?”

257
“Sim.”
Urza lançou um olhar irônico para os arredores do reino. “Me parece que ela pode
usar qualquer ajuda que ela conseguir.”
“Não cabe a você decidir.”
“Nem a você. Leve-me até ela,” disse Urza, em um inesperado comando.
“Você não foi convidado.”
“Eu poderia simplesmente caminhar até lá.” Urza ergueu as mãos
ameaçadoramente para os dois lados, e o círculo dos anjos se alargou perceptivelmente.
“Eu sou Urza Planinauta.”
O zumbido furioso das asas se aprofundou. Nervosamente, os anjos apontaram
suas lanças. O arcanjo líder se direcionou para Urza. Por trás de sua máscara, ar emergia,
quente e férreo.
“Venha conosco.” A criatura se afastou do planinauta, seus olhos invisíveis
permaneciam sobre ele.
Sem mais palavras, Urza seguiu o fluxo do ar. Sobre ele, anjos pairavam em
ameaça estática. Suas sombras, pálidas e difusas no incandescente brilho do céu,
passavam languidamente sobre Urza enquanto eles seguiam.
À frente, o escuro e invertido ponto de interrogação crescia. A cada momento, sua
transformação era mais aparente. Os arcos principais, acima das plataformas de chegada,
tinham portões elevadiços, semelhantes a falsos dentes de ferro. Os finos traçados foram
removidos para gerar espaço para grandes grades. Os coletores de cristais de mana foram
substituídos aqui e ali por chaminés fumegantes. Linhas de fuligem estavam traçadas ao
redor dos contrafortes e pontos de explosão mostravam onde o palácio havia sofrido
ataques.
“Seu palácio se tornou uma fortaleza,” observou Urza, e ele se lembrou de uma
transformação semelhante em sua academia.
“Apenas uma medida temporária,” disse o arcanjo líder, mantendo o seu voo na
costas, “mas, como você pode ver, as defesas estão firmes.”
Urza podia ver. Ele imaginou os phyrexianos invadindo o palácio, montados em
suas naus malignas ou voando com asas de aço. Ele podia imaginar saraivadas de arpões
arqueando das máquinas e esmagando a cidade flutuante, podia imaginar anjos como

258
aqueles sendo jogados das janelas quebradas e das paredes destroçadas. Havia guerra no
céu, e ele a havia trazido.
“Sim. Estão firmes. É por isso que quero falar com a senhora Radiante. Os
inimigos dela também são meus inimigos. Eu conheço os monstros que estão espreitando
aqui e tenho exércitos para ajudar a destruí-los.”
Por trás de sua máscara mercurial, o arcanjo não respondeu. Ele simplesmente
flutuou para trás, sem aparente esforço, em direção a uma grande plataforma de
aterragem, na base do ponto de interrogação invertido.
A plataforma parecia uma mandíbula irritada, embaixo de um arco escuro. Sua
borda estava cercada com chifres curvos, os dentes de um grande carnívoro. Algumas
máquinas voadoras estavam flutuando ao redor da plataforma, em uma doca. Grupos de
silhuetas estavam parados no meio. Havia três arcanjos e um grupo de anjos guerreiros.
A maioria dos que estavam na doca aérea, entretanto, eram trabalhadores – anjos e
humanos. Eles se agrupavam como ovelhas assustadas. Guardas caminhavam entre eles,
golpeando-os com a ponta traseira de suas lanças. Alguns dos humanos, com mochilas
em suas costas, cambaleavam em uma prancha vacilante, para dentro de um bote voador.
Enquanto isso, em tristes grupos, anjos eram apartados dos outros, para trabalharem.
“Quem são eles?” perguntou Urza, na última aproximação antes da aterrissagem.
O arcanjo à frente dele pousou levemente para ficar de pé na plataforma
amontoada. Outros anjos ao redor fizeram o mesmo. “A maioria é de refugiados, fugindo
dos rebeldes dos lugares mais distantes. Eles vieram para a cidade em busca de proteção,
mas nós não temos espaço para todos eles. Os outros são dissidentes, indo para o exílio.”
Urza assentiu, colocando os pés no chão. O piso de mármore parecia áspero, cheio
de pedaços de pedras quebradas em algum ataque recente. “Para qual plano eles serão
exilados?”
“Eles permanecerão neste plano. Ninguém deixa o reino, nem mesmo os
dissidentes.”
“E o que acontece com os visitantes transplanantes?” Urza alfinetou.
“Radiante espera logo acima,” declarou o arcanjo.
Caminhando para trás da multidão, o anjo guiou Urza na outrora grande cidade. A
criatura divina se movia com facilidade, como se seus pés ainda não estivessem tocando

259
o chão. Ele flutuava debaixo de cavidades bocejantes, onde refugiados e dissidentes se
amontoavam e brisas sulfúreas sopravam.
As áreas internas eram grandes, tornando menor até mesmo a multidão de anjos ao
redor de Urza. Colunas altas e esbeltas firmavam abóbadas de pedra. Da última vez que
Urza andara nesses salões, essas abóbodas ressoavam com músicas líricas e o som de
animados debates. Agora, elas rugiam com os gritos dos soldados treinando. Ao longo
das paredes, fileiras atrás de fileiras de golens de pedra, parados em silêncio insolente,
prontos para matar qualquer exército que conseguisse pousar na plataforma. As janelas
atrás deles foram cobertas com ferro escuro, dando ao lugar uma aparência de caverna.
No centro da praça principal, havia uma grande fonte, cinco andares de altura e
ornamentadamente esculpida com figuras angelicais. Se Urza se lembrava bem da sua
última visita, o escultor havia retratado as grandes virtudes do reino de Serra: Arte,
Oratória, Liberdade e Paz. Nenhuma água fluía mais daquela fonte, e as imagens que
representavam aquelas virtudes fixavam seu olhar embaixo de grandes trapos
empoeirados. Aos seus pés, montarias de guerra – grifos e pégasos – bebiam de sua
reserva de água parada e cheia pela metade.
Além da fonte, um grande anfiteatro se afundava no chão. Urza se lembrou da
gloriosa parede de vidro dourado que havia atrás dele. Um baluarte de escombros e
cimento agora selava a parte traseira do teatro, protegendo seus usuários de ataques
aéreos. Um pelotão de humanos, guerreiros sagrados, usavam a estrutura. Diante deles
passeava um arcanjo, sua voz assexuada os instruindo sobre técnicas de purificação e
vedação das complexas catacumbas phyrexianas.
“- deve ter certeza de que nenhum deles sobreviva. Não presumam que qualquer
quantidade de explosões mágicas purificará um viveiro. Entrem, mas façam isso com
cautela e em grupos. Uma vez dentro, haverá corpos queimados. Certifiquem-se de que
eles estão mortos. Decapitem-nos. Não permitam que um único pescoço permaneça
intacto. Os feitiços de mana preta podem trazê-los de volta. Eles se curam com facilidade
sobrenatural. Não assumam que um viveiro esteja purificado apenas porque todos os
inimigos visíveis estão mortos e silenciosos. Procurem em todos os espaços. Eles se
escondem como ratos. Procurem por câmaras secretas. Procurem especialmente por sua
prole. Estes serão os mais escondidos. Matem-nos. Decapitem-nos. Não deixem um único
sobreviver, ou eles se tornaram vinte e voltarão para destruir vocês. Usem suas tochas
anímicas para garantir que o trabalho foi concluído…”

260
Urza refletiu severamente sobre aquele conselho, o mesmo que ele teria dado a
qualquer um que o tivesse acompanhado no desfiladeiro de tempo rápido de K'rrik – se
alguém estivesse apto a acompanhá-lo.
O arcanjo que o guiava olhou para cima. O grupo acabara de chegar a uma larga
coluna que alcançava centenas de andares, varandas e passarelas. Mesmo em sua forma
decadente, o lugar era inspirador, desaparecendo em um céu azul após quase dois
quilômetros de distância.
“Ela aguarda, lá em cima.”
Os anjos, como um grupo de pombas assutadas, de repente pularam no ar.
Urza os acompanhou. Assim que eles se ergueram, ele viu a cidade
transversalmente. As ruas estavam desertas, as praças públicas tomadas por
acampamentos de guerra, as janelas escurecidas por placas ou lacradas com grades de
ferro. Gemidos vazios se moviam por toda a arquitetura mal assombrada. Fumaça saía
das forjas. Passos de botas ecoavam dos arsenais. O Palácio de Serra não era mais como
uma caixa de joias, ele havia se tornado uma arma. Era uma cidade sitiada.
Urza pensou em sua distante Tolária. Já parecera tão perdida quanto este lugar.
Agora era o nexo de uma nova aliança que se espalhava por toda Dominária. Foi
necessária uma grande batalha para salvar a ilha. Seria uma batalha mais longa ainda
para salvar o reino de Serra, mas seria uma batalha que ele lutaria voluntariamente.
Eles chegaram. Urza saiu da coluna e foi para um enorme espaço, um círculo de
mármore de milhares de metros de diâmetro. Um enorme buraco no centro do espaço se
abria para uma profunda floresta verdejante, literalmente um jardim suspenso, em que
exóticos pássaros voavam e cantavam. Acima do círculo de mármore, erguiam-se
elevados vitrais. Ao longo das paredes externas da torre aviária, plataformas e poleiros
pendiam, onde a senhora Radiante conversava, planejava ou discutia. Estandartes de
estados, alguns com a heráldica de Serra (sol e asa) e outros com o design da própria
Radiante (uma lanterna na escuridão), flutuavam em cabos pelo centro da torre.
O mais impressionante de tudo era que o fedor de óleo brilhante, que contaminava
o ar em todos os lugares, havia sumido. Urza sentiu no ar o trabalho de filtragem feito
por grande magia.

261
Ele exalou com admiração. O aviário era o único lugar prístino no reino – uma
grande exorbitância, considerando o exército que seria necessário para proteger o lugar.
Um anjo o cutucou com seu cajado e gesticulou em direção ao pináculo do aviário.
O arcanjo à frente do grupo subiu para o ar. “Suba.”
Enquanto o grupo subia a torre cônica, os espaços ao redor deles se fechavam. O
calor aumentou. Em alguns momentos, as passarelas palacianas deram lugar a grandes
varandas. Janelas douradas se estreitaram. Elas também mudaram. À medida que subiam,
simples triângulos de vidro deram lugar a poderosas lentes. Encantamentos que
manipulavam a luz engrossavam as vidraças. Algumas davam vistas fragmentárias de
outros quartos do palácio. Outras mostravam jardins destruídos próximos da linha do
plano. Outras, ainda, seguiam um ou outro anjo. Cada continente flutuante, cada monte
caído, cada parede estilhaçada do lugar tinha sua própria janela. Figuras – angelicais e
mortais – se moviam caleidoscopicamente através dos painéis de vidro.
Para onde quer que Urza olhasse, os guerreiros angelicais desviavam seus olhos
do mosaico de imagens. Para eles, aquela visão deveria ser deslumbrante e absurda. Mas
para o olhar multifacetado de Urza poderia fazer sentido. Neste ponto, ele conseguia ver
todos os cantos do reino. Se ficasse aqui por tempo suficiente, ele poderia perscrutar
cada mente e cada coração do céu. Essa câmara onipresente tinha sido a ferramenta mais
importante à disposição de Serra. Dentro dela, ela ou outro planinauta, seria onisciente.
No meio das janelas brilhantes pendia o seu trono. O assento era grande, um pêndulo
balançando no vértice do aviário. Seu encosto era feito de ouro e pérolas. Estava envolto
em samito 1 vermelho que o cobria naquele espaço quente. Ele poderia girar
completamente ao seu redor e, assim, proporcionar uma visão fácil de cada painel de
vidro. O trono também estava politicamente bem posicionado, requerendo que todos os
suplicantes flutuassem no ar e erguessem seus pescoços em direção a quem estivesse
sentado ali.
A planinauta Serra não ocupava mais o trono. Agora, o assento era mantido por
um mero anjo – Radiante.
A mulher sentava no trono como se fosse uma eterna punição. Uma miríade de
imagens brilhava das janelas e nadava como uma doença sobre ela. Ela suportava sua
incessante carícia, mas seus olhos não mostravam sinais de estarem decifrando as
imagens. Para ela, o trono não era um assento onipresente, mas uma cadeira de tortura
1
Tecido pesado de seda entrelaçado com fios de ouro ou prata (usado na Idade Média). Nt

262
balançando no meio de um carrossel desequilibrado. Seus olhos estavam vitrificados
devido à longa exposição, e as mãos apertavam o trono como um par de garras. Ela se
sentou com a expressão de alguém que tinha medo de alturas e não se dignava a olhar
para quem estivesse abaixo dela. Cabelos dourados e asas brancas drapejavam
majestosamente sobre ela, mas seu rosto não mostrava nada semelhante à indulgência
real – apenas uma determinação desesperada. Ela nunca foi adequada para governar o
reino, nem mesmo no ápice do seu poder. Desde então, ela continuou caindo. A guerra
tinha começado e o reino havia apodrecido ao redor dela. Ela parecia sombriamente
determinada a ver o que aconteceria após o amargo final.
Embora não tenha olhado para baixo, a Senhora Radiante reconheceu o
prisioneiro. “Ah, Urza Planinauta, finalmente voltou à cena do crime?”
“Saudações, Senhora Radiante,” disse Urza formalmente. Ele se curvou em pleno
ar. “De certa forma, eu voltei. Voltei para uma aliança. Voltei para salvá-la de seus
inimigos.”
“Inimigos que você trouxe para esse lugar,” pontuou Radiante. “inimigos como
sua consorte, Xantcha.”
“Xantcha era uma amiga, não uma consorte,” corrigiu Urza serenamente, “e ela
não trouxe os phyrexianos aqui. Eu o fiz. Eles me seguiram.”
“Eles o seguiram e nos arruinaram,” disse Radiante. “Nós os expulsamos uma vez,
mas sua mácula nunca nos deixou.”
Urza concordou com a cabeça. “Sim. O cheiro de Phyrexia está no ar. Percebi no
momento em que cheguei, fraco, mas onipresente. Está no ar, no vento, nas asas dos
anjos, até mesmo na parte inferior do palácio. Somente aqui, neste aviário, o mau cheiro
desapareceu.”
A voz de Radiante estava forte. “É preciso grandes feitos de magia para tornar
este ar puro.”
“Mas você não consegue limpar todo o reino. Por isso, você nunca conseguirá
restaurar sua grandeza. Com ou sem os phyrexianos, todos os planos artificiais colapsam
com o tempo. Esse não é uma exceção. Mas eu te ofereço a salvação. Eu tirarei você e
todo o seu povo desse lugar e te darei um novo lar, em Dominária. Será tão bonito e
grandioso quanto esse lugar. E ele será seu. Em retorno, você apenas precisará jurar que
se aliará para lutar ao meu lado contra Phyrexia. Não se desespere por esse plano ou pela

263
visão de Serra. Uma vez que o plano estiver vazio, ele pode se tornar parte da nossa
maior arma. Ele poderá carregar a powerstone, que estará no centro de um dirigível que
defenderá o nosso mundo.”
“Nosso mundo,” perguntou Radiante. Seus olhos brilharam com malícia. “Não.
Dominária não é nosso mundo. É o seu mundo. Este plano é o nosso mundo. Está em
colapso por causa dos demônios que você trouxe para cá. Eu estou guerreando contra
esses demônios. Como você ousa sugerir que nós abandonemos o nosso mundo? Você
abandonaria o seu? Sua antiga arrogância permanece.”
“Perdoe-me, Senhora,” disse Urza, curvando-se. “Muito da minha velha
arrogância permanece. Eu não percebi o quanto você estava comprometida com essa
batalha. Eu deveria ter notado. Eu acabei de concluir a minha própria guerra contra
Phyrexia. Eles podem se esconder em campo aberto. Eles tomam a forma humana, talvez
até a forma de anjos. Não há inimigo mais insidioso. Em desculpas pela minha
presunção, gostaria de compartilhar com você as tecnologias que eu criei e as mágicas
que meu mago mestre idealizou para destruí-los. Se você não for se aliar a mim em
Dominária, pelo menos deixe-me aliar a você aqui. Eu ofereço a mim, minhas máquinas
e meus encantamentos para te ajudar nessa sua guerra privada.”
“É exatamente isso,” disse uma nova voz, a voz de um homem, vindo de uma
plataforma atrás de Urza. Ele girou no ar para ver um homem alto e magro, com um
cavanhaque preto e olhos tão finos e amarelados quanto fatias de limão. “É uma guerra
privada.”
“Permita-me apresentar o meu ministro da guerra, Gorig,” disse Radiante,
regiamente.
O barbicha fez uma curta saudação, porém sem nunca retirar os olhos do
planinauta. Ele gesticulou para si mesmo. “Como você pode ver, eu sou exímio usuário
de mana. Eu também sou um general competente. A guerra está em nossas mãos, e ela é
privada.”
Urza discordou com um pequeno sorriso. “Eu aprendi que nenhuma guerra está
realmente nas mãos de ninguém.”
Apesar de não ter dito nada, de repente Radiante atraiu todos os olhares. Sua face
tinha uma intensidade estranha e refulgente. “Quando nós soubemos que você havia

264
retornado, Urza, esperávamos que você tivesse vindo para lutar. Você deve nos desculpar
por estarmos tão surpresos com suas ofertas de paz.”
“É um novo homem que se levanta – que flutua, diante de você,” explicou Urza.
“Sim,” concordou Radiante, ligeiramente desdenhando. “Antes de comprometer a
si mesmo e a seus exércitos a este conflito, talvez você gostaria de nos acompanhar no
nosso próximo ataque. Nós também gostaríamos de ver suas estratégias de combate.
Nossa próxima ofensiva será lançada em algumas semanas. Fique e banqueteie conosco
até lá. Assim que lutarmos, escudo com escudo, como diz o ditado, nós saberemos se
essa aliança beneficiará ambos.”
Urza assentiu. “É uma sugestão bastante razoável.” Ele se curvou. “Aceito o seu
convite com gratidão.”
Com um gesto de Radiante, a revoada de arcanjos e anjos se dissipou abaixo
deles, ficando apenas o planinauta, o anjo governante do reino de Serra e o homem de
barba escura, Gorig.

*****

Em uma ala barulhenta da plataforma de mana em Shiv, Jhoira e Karn olhavam


através de uma porta de vidro no lado da câmara da matriz do cristal. Abaixo do chão,
motores de magma canalizavam o calor abrasador em um feixe concentrado de luz rubi.
Ele provinha de um conjunto de tubos, refletidos dos painéis de vidro prateado
posicionados no alinhamento exato, e lançados na câmara da matriz. Lá, o feixe era
dividido por grandes lentes, depois subdivididos, então os quatro raios de luz resultantes
ricocheteavam no espaço, formando no ar as exatas dimensões e linhas da powerstone da
embarcação.
“Uma pedra etérea para um barco etéreo,” comentou Jhoira, azedamente.
Karn olhou brevemente para ela, imaginando a causa do seu humor. “Na
velocidade que Multani está fazendo o casco crescer, o navio já é bem mais do que éter
agora. Já faz mais de um mês.”
“Eu sei,” disse Jhoira. Ela subiu na superestrutura rebitada, limpou suas mãos e
assobiou para as equipes de goblins, sinalizando para que acelerassem as bombas de
magma. “Quase dois. Urza está longe, em outra de suas intermináveis jornadas.”

265
Um brilho interrogatório apareceu nos olhos do homem prateado. “Ele salvou
Tolária. Ele fez alianças com Yavimaya. Ele inventou um grande barco para salvar o
mundo. Agora ele procura conduzir os phyrexianos para outro lugar. Você não pode
culpá-lo por isso.”
“Eu não o culpo,” disse Jhoira com impaciência. Ela se curvou ao lado de um par
de goblins que estavam discutindo, entrou na discussão em seu próprio dialeto, apontou
para um esquema que um deles segurava, deu algumas batidas em suas cabeças e os
mandou seguirem seus caminhos. “É que Teferi se foi.”
“Ele o quê?” perguntou Karn.
“Quando nós estávamos saindo, ele disse que estava indo para sua terra natal,
Zhalfir. Eles estavam em guerra, e eles poderiam usar um mago do seu calibre. Ele
queria se despedir há três semanas, mas eu o impedi, dizendo que teríamos tempo quando
eu voltasse de Shiv. Eu pensei que nós ficaríamos aqui apenas por duas semanas.”
“Talvez ele ainda esteja em Tolária,” disse Karn. “Talvez ele esteja esperando o
nosso retorno. Que diferença algumas semanas fariam?”
“Muita diferença, em tempos de guerra,” disse Jhoira. Com raiva, ela puxou uma
grande alavanca, jorrando lava para os dutos ao redor da câmara da matriz. Aqueles
canais rochosos se solidificariam ao redor do centro ionizado da joia matriz,
proporcionando um molde de compressão. “Agora, ele já foi. Ele não esperaria por mim.
Ele não poderia esperar por Urza. Da última vez que Urza saiu por uma semana, ficou
longe por cinco anos.”
“Ele mudou, Jhoira,” respondeu Karn. “Antes daquela viagem, ele me trocou com
os viashinos. Depois, ele negociou para me ter de volta.”
Jhoira finalmente parou de trabalhar, deixando o serviço pesar menos em seus
ombros. “Isso não é sobre Urza, é sobre Teferi.”
Parando ao lado dela, o homem de prata continuou de pé, estranhamente. Há muito
tempo ele havia aprendido a não consolar Jhoira colocando seus maciços braços sobre
ela, senão ele a esmagaria.
“Nós éramos melhores amigos antes de Teferi. Nós podemos ser melhores amigos
novamente.”

266
Ela se virou para ele, um sorriso trêmulo em seus lábios e lágrimas brilhando em
seus olhos. “Você está certo, Karn. Nós sempre fomos melhores amigos. Eu fui boba em
pensar que precisava de mais.” Um tremor de incerteza sustentava suas palavras.
Hesitantemente, Karn estendeu a mão para pegar sua mão. “Urza me teve de volta,
e agora você também.”
“Sim,” disse Jhoira. Ela se derreteu tristemente sobre ele.
Karn ficou ali, ainda mais solitário do que antes. Ele era a única máquina pensante
e sensitiva entre as criaturas artefatos de Urza, e por isso, Urza não sabia lidar com ele.
Karn não era um colega, mas também não era uma mera criação. Ele havia sido projetado
para viajar em uma máquina do tempo que nem existia mais. Ele estivera ocupado com
mil tarefas, mas não tinha nenhum propósito. Fosse ele qualquer outra criatura artefato,
Urza já o teria descartado, fundido suas partes e feito novas máquinas.
Agora, embora Jhoira o chamasse de “melhor amigo”, sua voz falava sobre
decepção e resignação.
Ali, em pé, Karn imaginou se juntar-se à pilha de lixo não seria um ato de
piedade.

Monólogo

Teferi saiu esta manhã . Ele pegou o reformado Nova Tolária e um pequeno

exército de corredores, pumas e escorpiões. Eu fiquei com metade da força –

cerca de quinhentas unidades – mas provavelmente não era necessário. A ilha

foi limpa de phyrexianos. As aranhas com cristais cobriam todo o terreno.

Zhalfir precisava dos guerreiros mecânicos mais do que nós, mas o barco de

Teferi não suportava mais. Como esperado, eu tive que discutir um bom tempo

para que o jovem mago aceitasse a ajuda mecânica . Eu não o culpo. Embora

minha associação com Urza tenha tornado o artif ício um estudo necessário, eu

prefiro as batalhas mágicas do que as mecanizadas. Claro, se alguém quer

vencer, ele deve utilizar ambas.

267
Ultimamente , estou vendo a necessidade dessas conexões em todos os

lugares. O casco do navio está tomando forma , dia após dia . Fusíveis de metal

com madeira crescendo juntos. Eu passei muitas noites com Multani . Fatigados,

nas noites de espera , ele me relata tudo o que ele aprendeu das nossas florestas

de tempo rápido e lento. Ele fala sobre os jovens e velhos mundos, dos ciclos de

crescimento e de deterioração. Ele conta sobre a explosão que rasgou Tolária ,

trazendo morte logo nos primeiros momentos, e depois sobre as novas e diversas

formas de vida após esse acontecimento. Ele diz que se não fosse pela destruição

de Argoth e o naufrágio de Terisíare , Yavimaya nunca teria nascido. A vida e a

morte são opostas, sim, mas é somente nessa oposição que elas conseguem existir.

Não há morte sem vida , e não há vida sem morte .

Magia e máquina , metal e madeira , vida e morte , dragões de fogo de Shiv

e dragonetes do mar de Tolária , de alguma forma , Urza conseguiu trazer todos

para uma aliança . De algum modo, nas palavras do próprio Multani , Urza

encarna cada um deles. Eu nunca tive tanta esperança para o nosso mundo como

tenho agora .

Urza já passou muito tempo no reino de Serra . Aparentemente , ele pensava

que poderia falar rapidamente aos anjos sobre os demônios. Eu fico imaginando:

se fogo e água podem se tornar aliados, talvez o bem e o mal também possam.

– Barrin , mago mestre da Tolária

268
Capítulo 20

Urza voava entre os escalões do exército de purificação de Radiante. Ele usava


uma armadura de batalha, parecida com aquela que havia projetado para seu próprio
combate contra Phyrexia. A armadura mecanizada tinha proteções especiais contra
veneno e fogo – ele se lembrava bem da conflagração do óleo brilhante no desfiladeiro.
Ela também era à prova de arpões de balistas. Ele usava uma grande lança negra com
várias lâminas na ponta, incluindo um machado estreito e pontas de lanças curvadas. Das
orelhas aos pés, ele estava coberto por metal negro, brunea e condutores de energia. Ele
percebeu, com uma certa ironia, que para destruir phyrexianos adormecidos hoje, ele se
pareceria mais com os monstros e eles com os humanos.
À frente de Urza, à sua esquerda, voava o comandante deste escalão, um arcanjo
sem rosto e sem gênero como os outros, seu nome era desconhecido para Urza, mas seus
comandos eram inquestionáveis. Ele portava uma espada magna que poderia decepar a
cabeça de um touro com um golpe. Atrás do arcanjo, em um grande cone, voava um
contingente de cinquenta anjos guerreiros, alguns armados com chicotes e redes, outros
com tochas encantadas com uma chama azul-esbranquiçada que, lhe disseram, tornava
amarela a pele dos newts phyrexianos. O restante carregava espadas para execuções
sumárias e sacos para as cabeças que permitiriam que os mortos fossem contados e os
crânios imolados, evitando que magias necromânticas os revivessem. Na parte de trás do
grupo, navegava uma aeronave carregada de amurada a amurada com guerreiros
sagrados, que vestiam túnicas brancas. Aqueles humanos ficavam parados, mesmo
enquanto a embarcação subia. Seus olhos dourados e mortos. A justiça esteve presente no
comportamento desses guerreiros desde quando eles chegaram ao reino de Serra, mas a
crueldade foi aprendida ao longo do caminho.
A revoada dos anjos e vingadores avistou seu alvo à frente – um desabamento de
terra pulverizada. O que anteriormente tinha sido um arquipélago de ilhas aéreas havia se
estilhaçado em fragmentos de rochas e grama. Os planetoides remanescentes giravam
indiferentemente no ar. Alguns deles expeliam espirais disformes de fuligem das cabanas
escavadas em suas laterais.
“Os Amontoados contém a maior infestação de phyrexianos no reino,” Radiante
explicara há alguns dias durante um chá. As porcelanas tremiam com as perfurações
abaixo do castelo. “Eles se disfarçaram como anjos e como humanos refugiados – e para

269
ter certeza, havia assentamentos de cada um entre eles – mas ele eram lobos escondidos
entre os cães. Você os conhecerá por seu brilho verde-amarelo na luz das tochas
anímicas.”
Urza ergueu uma dessas tochas agora. Outros fizeram o mesmo. Entretanto, a luz
das marcas arcanas estava muito turva e distante para acertar quaisquer criaturas nas
pedras rolantes e pedaços de chão. Eles veriam em breve. Anjos investiram para baixo,
velozes como relâmpagos.
O arcanjo comandante fez uma série de concisos sinais com as mãos. As asas
externas das colunas de ataque se separaram e fizeram rasantes laterais de patrulha. Urza
ficou com o líder, sua revoada central de vinte lutadores e a barca aérea. As outras duas
unidades – quinzes anjos cada uma – subiram por fora, para convergirem em seu alvo
como um par de martelos. A revoada principal se ergueu, seguindo o arcanjo.
O campo de pedras circulares caiu abaixo, revelando, pela primeira vez o seu
núcleo, uma série de ilhas aéreas maiores. A força central pousaria na maior delas,
purificaria, e colocaria um contingente lá para mantê-la, prosseguindo para a segunda
maior. As colmeias dos refugiados – de lama e muco – já estavam visíveis. A colônia se
iniciava em um buraco de pedra ao lado de uma floresta morta, de tocos queimados. Os
refugiados deveriam ter destruído a floresta para conseguir lenha.
Outro sinal da mão do arcanjo indicou uma rocha plana, logo abaixo do viveiro.
Eles aterrissariam lá. Como falcões mecânicos zunindo, os anjos desceram do céu. Suas
tochas encantadas queimaram tudo o que brilhava por onde passavam . De baixo, a visão
deve ter sido horripilante – duas luzes, brilhantes como sóis, caindo como cometas,
trazendo com elas uma horda de guerreiros angelicais e um barco cheio de humanos
furiosos. A visão deve ter sido como um apocalipse.
Os anjos chegaram à terra já correndo. Eles correram para a entrada aberta, para
os viveiros.
Dentro, os rostos brilhavam, verde-amarelo e olhos arregalados. Eles fugiram para
dentro das sombras.
Os guerreiros angelicais adentraram o local, em busca dos rostos que fugiam. Seus
passos aumentaram. Suas lâminas se ergueram. Não houve grito de fúria ou de terror,
como são comuns em ataques de exércitos mortais. Apenas o crepitar das tochas e as
botas implacáveis anunciavam sua chegada. A luz azul-esbranquiçada alvejava a

270
paisagem suavemente giratória. Círculos resplandecentes iluminavam a desgastada
entrada dos viveiros.
Enquanto o cerco se fechava, um forte baque ressoou atrás. O chão saltou. A barca
dos guerreiros sagrados havia aportado. Um tinido e um estrondo anunciaram a queda do
portão das tropas. Então veio o rugido de fúria e medo dos humanos.
Enquanto isso, Urza e seu arcanjo comandante alcançaram a entrada do viveiro.
Eles entraram e circularam um canto. Um par de lâminas desesperadas girou fracamente
na direção deles. A primeira atingiu a grande placa no ombro do arcanjo. A segunda
raspou devagar no flanco blindado de Urza antes de bater no chão. Seus portadores –
dois jovens de aparência humana – cambalearam após o ataque e levantaram as mãos
para afastar a tocha-clava do arcanjo. No brilho azul-esbranquiçado da tocha, os jovens
brilhavam em uma horripilante sombra esverdeada.
Um feitiço surgiu da mão enluvada do anjo, arrancando os membros de ambos
com golpes elétricos. Eles pararam por um instante, então explodiram em uma chuva de
carne carbonizada. Flashes brancos de energia vital chamejavam nos corpos e foram
absorvidos violentamente pelas tochas. Sem pausa, o arcanjo atravessou as formas
ardentes e adentrou a passagem estreita à sua frente. Era uma descida espiralada, que
levava ao coração da ilha aérea. Urza seguiu. Atrás deles, a infantaria de anjos e
guerreiros humanos entrou. Dois guerreiros se posicionaram na entrada da caverna.
“Eles vivem na escuridão fria e miserável lá embaixo, com medo da luz, da
verdade,” disse Radiante enquanto mordia o canto de uma torrada. Ela seguiu o
comentário com um suspiro melancólico. “É como se o ar, que uma vez nutria a todos
nós, fosse veneno para eles.”
O arcanjo liderou Urza e o resto do grupo de purificação pela passagem em
espiral. Ela levava a uma grande câmara central. Estava deserta. Cinco pequenas chamas
exalavam fumaça nos buracos do teto. Alguns montes de ossos e lixo estavam próximos
das desarrumadas esteiras de dormir. Dessa câmara central, muitas passagens obscuras se
abriam.
O arcanjo flutuou regiamente no meio da caverna. Ele sinalizou para que as tropas
atrás explorassem as passagens. Dois a dois, os guerreiros se pressionaram contra as
trevas. Tochas inflamaram. Vozes gritaram em terror. Raios estalaram. As duplas
voltaram.

271
Eficientes, rápidas e implacáveis.
Exceto que algo estava muito errado. Enquanto eles desciam na caverna, o fedor
phyrexiano no ar foi diminuindo, até desaparecer.
Urza fez uma rápida varredura dentro de uma passagem escura, antes dos
esquadrões brutos. Seus olhos preciosos destrancaram a escuridão, e então ele viu: uma
família muito humana se encolhia naquela pequena alcova – mãe, pai e filho.
Phyrexianos não criavam adormecidos parecidos com crianças. Essas criaturas se
abraçavam, cobriam-se para se proteger da pedra implacável. Através da escuridão, eles
encararam a enorme figura de Urza. Eles murmuraram preces para seus anjos.
Então os assassinos chegaram. Eles passaram por Urza. Suas tochas lançaram o
brilho azul e branco espelhado, dispersando-se em toda a parede. Urza viu sua própria
sombra se lançar, grande e malevolente, sobre família.
Então a luz das tochas os alcançou e suas peles brilharam em verde e amarelo.
Um machado decepou a cabeça do pai e uma lança empalou a mãe e o filho juntos.
Sangue vermelho verteu deles, momentos antes da explosão incineradora. O fogo branco
deu lugar à fumaça preta e olhos vermelhos. No meio disso, fantasmas saíam das figuras
partidas e eram sugados para dentro das tochas brilhantes.
Um anjo lançou outro feitiço. Ciscos de areia incandescente seguiam os contornos
internos da parede, procurando passagens secretas. Quando nenhuma foi encontrada, o
grupo da morte emitiu um assobio sinalizando que estava tudo limpo, colocaram as
armas nos ombros e marcharam para fora, passando pelos guerreiros sagrados que
guardavam a entrada.
Urza os seguiu. Ele se aproximou do arcanjo que pairava no meio da caverna.
Chegando ao lado do comandante, Urza falou rapidamente.
“Essas tochas não funcionam. Elas também mostram a pele humana como verde e
amarela.”
A resposta do arcanjo foi indiferente. “Nós não temos maneira melhor de
prosseguir.”
“Você está matando seu próprio povo. Você está matando seres humanos e anjos, e
não phyrexianos!” Urza insistiu.
“Esta é uma guerra privada,” respondeu o arcanjo, objetivamente.
“Eu posso sentir o cheiro do sangue deles.”

272
“Não podemos enviá-lo como um cão farejador em cada toca-”
“Você não pode continuar matando pessoas inocentes -”
“Você fez isso…”
“Eu fiz isso para combater Phyrexia!”
“Phyrexia está aqui. Você mesmo disse isso!”
“O fedor não está aqui. Está no Palácio-”
E então ele percebeu que havia falado demais.
Enquanto o raio saía dos dedos do arcanjo, Urza entrou no espaço entre mundos e
caminhou pelos corredores do caos.
Urza surgiu no topo do aviário. Ele estava sozinho. O trono de Radiante estava
vazio. Os anjos ou guardas mais próximos estavam a centenas de pés abaixo. Ele estava
sozinho, exceto por centenas de gatilhos mágicos, disparando silenciosamente, um atrás
do outro. Ele sentia os ganchos mágicos se virando para ele e se retraindo para dentro
das paredes. Ele esperou – por Radiante, por sua guarda pessoal, por quem quer que
respondesse aos alarmes. Nas vidraças onipresentes ao seu redor, Urza vislumbrava
imagens de massacre e morte. Os esquadrões de purificação não cessaram seu trabalho.
Um globo de luz surgiu ao seu redor. Sua superfície envolta em chamas. Um grupo
de anjos ferozes formou um círculo e, em instantes, o circundou com lanças.
Ela chegou. Independente dos outros encantamentos postos naquele lugar,
aparentemente Radiante tinha seu próprio alarme de convocação. Ela apareceu, sentada
em seu trono punitivo, asas e cabelos se jogando sobre seus lados. Enquanto suas vestes
formais se espalhavam sobre o alto trono, uma presença obscura tomou forma logo atrás
de Urza. O Ministro da Guerra Gorig criou sua forma alta e magra do ar e caminhou até a
beira da plataforma. Seus olhos de fatias de limão olhavam com fúria para o planinauta.
“A que devemos essa intrusão?” perguntou a Senhora Radiante, do seu trono
flutuante.
“Perdoe a minha afronta,” disse Urza, formando uma elaborada reverência. “mas a
situação é urgente.”
“Você deveria acompanhar o nosso exército de purificação nos Amontoados,” ela
disse. “Você foi provisionado e informado. Essa batalha está em andamento nesse exato
momento. Por que você está aqui?”

273
“Seu exército de purificação está matando não apenas phyrexianos, mas também
humanos e anjos.” Urza disse com urgência. Ele ergueu uma mão em direção às imagens
nas janelas. “Olhe, veja você mesma!”
Radiante involuntariamente olhou para as cenas e, em seguida vacilou, seus olhos
nadando em imagens violentas.
Gorig piscou, irritado. “Sempre haverá vítimas civis em tais operações. Há ervas
daninhas entre os grãos. Para erradicar as ervas daninhas, algumas cabeças de grãos
serão perdidas. Mas ao deixar as ervas daninhas, tudo estará perdido.”
“Eu não senti nenhum phyrexiano na caverna principal que nós entramos, e ainda
assim, toda criatura viva lá dentro estava sendo abatida. Eles eram humanos. Eles eram
anjos. Eles não eram phyrexianos, e ainda assim morreram do mesmo jeito.”
A resposta de Gorig pareceu um grunhido na garganta. “Eles eram dissidentes.
Eles eram traidores do Estado. Eles estavam coligados com Phyrexia em todos os
aspectos, exceto na fisiologia phyrexiana. Você não sabe sobre os crimes que eles
cometeram contra o Estado e não pode julgar seus destinos. Essa guerra é um assunto
privado.”
“Se você quer se livrar desses refugiados-”
“Desses dissidentes,” corrigiu Radiante, serenamente.
“-desses dissidentes, eu preparei um lugar para eles em Dominária.”
As simétricas feições de Radiante se contaminaram com aversão. “Você os levaria
ao seu mundo, mesmo sabendo que phyrexianos adormecidos se escondem entre eles?”
“Sim,” disse Urza sem nenhuma pausa. A resposta pareceu surpreender até mesmo
ele. “Eu faria o meu melhor para erradicar quaisquer phyrexianos entre eles, pois é
melhor uma multidão de mortais sobreviver camuflando um bocado de monstros, do que
todos eles morrerem para eliminá-los.”
Radiante, com o olhar, lançou uma pergunta a seu ministro de guerra.
A fúria entalhava as feições de Gorig. “Como é possível você propor isso? Se
mesmo uma das bestas sobreviver, seu mundo inteiro poderia ser destruído.”
“Eu sei disso muito bem,” replicou Urza, severamente, “e ainda assim, a proposta
está feita. Senhora Radiante, você me concede autorização para resolver o seu problema
com os refugiados?”

274
A face da mulher voltou à sua compostura plácida. “Eu suponho que pouparíamos
os armamentos e as casualidades, apenas enviando os dissidentes-”
“Não,” interrompeu Gorig. “Ninguém sai. As portas do reino estão fechadas e
continuarão fechadas. Ninguém sai.”
Um protesto se formou nos lábios de Urza, mas nunca foi proferido. Subitamente,
Urza entendeu. “Ninguém sai, exceto eu.”
Mesmo enquanto ele atravessava o limiar dimensional entre os mundos, o rugido
de Gorig o seguia, “Volte e você será morto. Você é um inimigo do Estado, planinauta.
Você é um phyrexiano!”

*****

“Phyrexianos adormecidos estão, de fato, no reino de Serra,” Urza disse enquanto


caminhava em sua sala de estudos, “e eles estão transformando-o e usando-o para
preparar sua invasão a Dominária, mas não como nós havíamos pensado.”
O mago mestre Barrin sentou-se sombriamente na mesa de acácia-negra. As
sombras do alto conhecimento se reuniam sobre seus ombros. Atrás da janela, em uma
clareira distante, o quase completo casco da aeronave rangia em seu crescimento lento e
final.
“Os adormecidos fomentaram rebeliões no reino. Eles iniciaram uma guerra civil.
Eles não fizeram isso movimentando dissidentes entre os cidadãos, mas enchendo o
palácio de medo. O líder deles é o ministro de guerra Gorig, que acabou com os
discursos e com os debates que anteriormente preenchiam os terraços e os jardins do
reino e os substituiu por tribunal e terror. Todos os dias ele declara que mais cidadãos
são traidores do Estado e os expulsa do palácio. Porém eles não podem deixar o reino,
então fogem para campos de refugiados em ilhas destruídas nas fronteiras do plano. Lá
eles são caçados como que por esporte. Enquanto isso acontece, o reino encolhe.”
Barrin estava irritado. Ele passou a mão por seu cabelo despenteado. “E como isso
avança a invasão phyrexiana?”
“Mana branca,” disse Urza. “Phyrexia descobriu uma maneira de decantá-la,
extraí-la e convertê-la em mana preta. Ao matar os refugiados, eles estão colhendo mana
branca, drenando-as em tochas mágicas que armazenam o poder até que possam ser

275
levadas para Phyrexia. Entre os ataques, Gorig deve esvaziar as tochas em uma bateria
de almas. Enquanto isso, o reino de Serra está encolhendo e o alcance de Phyrexia está
crescendo. Gorig não permitirá que ninguém saia, porque ele está colhendo suas almas.”
Um espectro cruzou os olhos de Barrin. “Colhendo-as…” Ele balançou a cabeça,
estupefato. “Quanto o reino encolheu?”
Urza coçou sua mandíbula em consideração. “Já estava abaixo de sua massa
crítica. O colapso é inevitável.”
“Se toda essa mana branca que foi colhida por Gorig chegar a Phyrexia-”
“Estamos condenados,” completou Urza.
Barrin não podia mais se sentar. Ele se pôs de pé, o encosto da cadeira atrás de si.
Ele caminhou febrilmente.
“Se nós pudéssemos encontrar as reservas de mana branca de Gorig e desviá-las
para energizar a powerstone do seu navio voador…”
Um olhar atônito atravessou o rosto de Urza. “Eu não posso acreditar no que você
está sugerindo. É Argoth novamente – usar as almas dos outros para energizar minha
própria guerra.”
“Não,” disse Barrin. “Não, isso é diferente. Isso não é mais uma guerra privada,
Urza. E você não estaria colhendo almas. Você ressuscitaria elas. Elas já se foram. Você
traria elas de volta, salvando-as de Phyrexia, e dando nova vida a elas no coração da sua
embarcação. Você daria a elas a chance de vingar suas mortes.”
“Talvez,” permitiu Urza. Seus olhos brilhavam com as atrocidades recordadas.
“Talvez.”
“Isto não é Argoth, Urza,” garantiu Barrin. “Nós estamos muito atrasados para
salvar o reino de Serra. Os phyrexianos já o destruíram, mas você ainda pode salvar o
seu povo.”
Quando ele continuou aquele pensamento, a voz de Urza estava fervorosa. “Eu
vou encontrar onde Gorig está armazenando as almas – elas devem estar no reino de
Serra, talvez no palácio. Mas ele saberá que eu voltei. Ele saberá o que eu estou
procurando. Ele fortalecerá suas defesas. Eu terei apenas algumas chances. Talvez eu
possa trazer alguns refugiados de cada vez. Eu posso trazer uma centena por vez, se eles
estiverem reunidos – mas eles são milhares.” Ele olhou para cima. Seus olhos brilhavam
intensamente. “Nós precisamos do navio, Barrin. Assim que eu encontrar a bateria das

276
almas, nós precisaremos do navio para pegar o resto deles. Quanto tempo para ficar
pronto?”
“O casco está quase completo. O motor e as peças de metal já estão no lugar. As
equipes das velas terminaram meses atrás. A esta altura, Jhoira e Karn já terão
completado o núcleo da powerstone. Temos de treinar uma tripulação, é claro.
Encontrando a bateria das almas, eu diria que poderíamos voar em um mês. Três
semanas, se trabalharmos dia e noite.”
“Eu vou encontrar a bateria… e salvar aqueles que eu puder… e reunir o resto.”
Barrin sorriu amplamente, esfregando as mãos, surpreso. “Eu pensei que nossa
vitória sobre os monstros no desfiladeiro tinha sido o seu momento de coroação, meu
amigo. Mas você já tinha guerreado antes, e não é necessário ser um grande homem para
matar. É necessário ser um grande homem para salvar, Urza. É preciso ser um grande
homem.”

*****

As gruas estavam posicionadas ao redor do dirigível suspenso, fechadas e


guinchadas por grandes cabos de metal. Terd chutou a base de um dos pilares, arranhou
sua cabeça com vergonha, e gritou instruções para seus companheiros de pele cinza. Eles
correram até ele e olharam perplexos na parte inferior da viga metálica. Estava quase,
mas não em cima da pedra que deveria estar. Enquanto os trabalhadores olhavam para o
local, Terd aproveitou a ocasião para movimentar o eixo de sustentação, balançando
todos eles. Mais gritos se seguiram, e os trabalhadores viraram um conjunto de cordas
para estabilizar a grande máquina.
Enquanto isso, Diago Deerv e Barrin consultavam diagramas espalhados pela
mesa de campo. Eles discutiram o torque e as tensões aplicados pela carga. Diago
garantiu ao mago mestre que os metais transversais poderiam suportar até dois navios
voadores. Se algum aspecto do arranjo fosse insuficiente, ele insistiu, era por causa da
rede de cordas. Com um lábio curvado, Barrin garantiu ao engenheiro viashino que o
cânhamo tolariano era extraordinariamente forte em todas as suas aplicações.
Ali por perto havia outra mesa. Era resistente, de pedra. Quatro corredores a
cercavam, um escorpião vigilante estava parado embaixo dela, e falcões a circulavam nos

277
céus. Em cima da mesa havia um tecido preto, que estava acorrentado a um objeto do
tamanho e do formato de um homem. De um lado da mesa estava Karn. Embora ele
estivesse parado, o foco dos seus olhos mudava nervosamente entre a multidão de
estudantes, homens lagartos e goblins reunidos além das cordas.
Jhoira sentiu a tensão em seu amigo. “Relaxe, Karn. Não há phyrexianos entre nós
hoje.”
“A pedra tem valor inestimável,” disse Karn. “Não precisaria ser um phyrexiano
para tentar roubá-la.”
“Seria preciso ser um mamute,” apontou Jhoira.
“Eu vou me sentir melhor quando a pedra estiver no motor,” ele disse.
Jhoira balançou a cabeça pensativamente e provocou: “Você está sempre
reclamando sobre ter um propósito no grande projeto das coisas, mas assim que você tem
um propósito, tudo o que você faz é se preocupar.”
“Talvez minha matriz afetiva seja defeituosa”, disse Karn em impressionante
cinismo.
Um grito veio da linha dos operários goblins. Cordas que estavam frouxas, de
repente se tensionaram. O grande casco do navio rangia, enquanto as cordas o puxavam
em direções opostas. Longo e delgado, o navio estremecia dentro do seu porto seco. Seu
gurupés vacilou, trezentos pés acima no céu azul, e, com um tremendo gemido, a proa se
inclinou em direção ao horizonte. Mais gritos vieram dos goblins, e as cordas
estremeceram com a tensão. Os batentes superiores de metal curvo se inclinaram
ligeiramente devido ao peso da extremidade.
O mestre Barrin lançou fitas de magia azul para se envolverem nos pontos de
tensão. Poder cintilante penetrou no metal e no cânhamo, adicionando força mágica.
A popa cônica do dirigível, antes repousada no chão, inclinou-se para cima,
mostrando uma fileira de janelas e uma insígnia na forma de uma grande semente.
“A Semente dos Ventos”, disse Jhoira, apontando para o local.
“Sim,” concordou Karn.
“Multani diz que o navio está completo, mas inacabado,” disse Jhoira. “Ainda está
vivo, ainda está crescendo. Ainda é tanto uma criatura quanto uma máquina.”
Karn ficou em silêncio.

278
Jhoira apertou. “Você não está mais sozinho, Karn. Urza projetou e construiu sua
segunda máquina viva.”
“Não, Jhoira, você está errada,” disse Karn. “Eu sou uma máquina pensante e
sensitiva, mas não estou vivo. Esta é a única máquina viva de Urza. Ela está sempre
crescendo, integrando novas partes à sua estrutura. Eu não estou crescendo, eu estou
desintegrando.”
Jhoira suspirou pesadamente. “Desintegrando – não estamos todos nós?” Mastros
e vergas que durante longos meses estiveram lado a lado, ergueram-se no navio
levantado e foram em direção ao céu. Com um baque e um estremecer final, o navio se
assentou acima da coluna de pouso. As cordas se afrouxaram. As equipes que estavam
segurando-as se inclinaram para frente e deixaram-nas caírem no chão. Houve um
suspiro de alívio dos operários, dos artífices e até mesmo do próprio navio. No ar pela
primeira vez, a lustrosa embarcação parecia maior e mais musculosa nas florestas
sussurrantes de Tolária. As equipes reverentemente se aproximaram dela, olhando com
admiração para suas portinholas brilhantes e suas elegantes cordas interligadas.
Então as ordens começaram novamente. Os operários posicionaram escadas aos
lados da embarcação e subiram a bordo. Rampas foram colocadas para facilitar o
carregamento. As equipes das armas encheram a proa e as amuradas com vários canhões
a laser. O mago mestre Barrin levitou-se e flutuou por todas as amuradas da embarcação,
examinando-a em todos os níveis. “Bem, Karn, vamos levar essa pedra pra dentro,” disse
Jhoira. Ela puxou o tecido preto, revelando uma pedra enorme e lindamente moldada, na
forma de um longo losango, como a própria Semente dos Ventos. Ela absorvia a luz do
sol, amplificava-a e a refletia em uma penetrante coroa ofuscante. Karn se inclinou,
segurou a gema pesada contra as placas brilhantes do seu peito, e levantou no ar. A
combinação de prata e cristal foi deslumbrante. Karn estava transfigurado, era um
homem feito de relâmpagos. Ele caminhou reverentemente em direção à rampa que
conduzia ao navio, e uma guarnição de quatro corredores o cercava.
Jhoira recuou, maravilhada com o brilhante espetáculo. Subitamente lhe pareceu
que Karn e a nave eram um só. Eles não eram duas diferentes gerações de invenção, mas
um continuum. Talvez Karn não tenha percebido isso – talvez nem Urza tivesse
percebido isso – mas o homem de prata e a nau voadora estariam juntos através dos
tempos, partes de um único legado.

279
*****

Urza se agachou em uma câmara escura no Palácio de Serra. As forças de Gorig o


localizaram e estavam se fechando sobre ele. Os passos de suas botas ressoavam no
corredor. Ele ainda não tinha encontrado a bateria das almas. Ele nem sequer descobrira
onde Gorig mantinha as tochas anímicas carregadas. O tempo foi curto.
Com violência súbita, as botas dos soldados bateram contra a porta trancada.
Urza se afastou. Ele atravessou o espaço entre mundos e emergiu nas áreas
empíreas do reino de Serra. Aqui o palácio era apenas uma mancha escura distante
derivando no horizonte. À frente dele, os Amontoados formavam um mar caótico de
pedras giratórias.
Uma regata dourada de infantaria e de asas de anjo brilhava sobre uma das
maiores formações rochosas. Eles desciam em direção a uma colmeia de refugiados. Suas
tochas branco-azuladas deixando rastros esfumaçados no ar. Ali, logo abaixo de uma
cordilheira esverdeada, onde as ervas se agarravam a um templo destruído, estava a
entrada.
Com um mero pensamento, Urza desapareceu do local onde ele pairava. Em um
instante, ele pisou na entrada da colmeia.
Um punhado de jovens guardas observou seu aparecimento e empunhou suas
lanças. Um homem tropeçou em um emaranhado de roupas sujas. Quatro outros
conseguiram enviar suas lanças em direção à Urza.
O planinauta movimentou uma mão em um arco diante dele, e as lanças se
quebraram em uma barreira repentina e invisível. Elas caíram no chão da caverna.
“Guarde-as para o exército de purificação,” aconselhou Urza. “Goste ou não, eu
sou seu aliado contra eles. Estou entrando para pegar qualquer um que desejar escapar
comigo para um lugar diferente.” Ele recuou rapidamente para a passagem, enquanto as
sentinelas o olhavam fixamente, atordoadas.
Uma deles, uma jovem guerreira angelical, levantou-se sobre suas asas e o seguiu.
Urza acelerou o passo. Ela gritou ao vê-lo se movimentar: “Quem é você?”
“Eu sou Urza, o planinauta.” A amplitude das paredes da caverna apreendeu o
anúncio, levando-o para dentro, para as pessoas reunidas ao redor das chamas. Sem

280
pausa, Urza continuou sua frase, “Os exércitos de Radiante estão chegando. Eles matarão
qualquer um que encontrarem aqui. Quem quiser escapar, reúna-se aqui, ao meu lado.”
Sua convocação encontrou apenas olhares apáticos.
“Não há tempo. Se vocês quiserem viver, reúnam-se aqui.”
Embora a maioria das pessoas ao lado das chamas – homens sujos e mulheres e
anjos desanimados – tenhma ficado onde estavam, alguns jovens se levantaram, tentados,
e abriram caminho até Urza. Atrás dele, vários ruídos metálicos ressoaram, e depois veio
o distante rugido de ataque dos guerreiros. Mais dos habitantes da caverna se reuniram
ao lado do estranho, um grupo de quase vinte. Os flashes e os gritos ecoavam da entrada
da caverna. Agora, ninguém mais ficou perto das chamas: ou fugiram para perto de Urza,
ou fugiram para as profundezas da caverna.
“Aqueles que não vieram,” gritou Urza enquanto focava sua mente no transplanar
que se aproximava, “se vocês sobreviverem, vão para a colônia mais distante do palácio
– a colônia de Arizon, na ilha aérea chamada Jobboc. Eu vou para lá em duas semanas,
para salvar vocês e quem mais vocês puderem levar.”
Gesticulando para o grupo temeroso e faminto se apertar em um lugar, Urza
estendeu sua consciência até envolvê-los. Assim que o ar começou a se inflamar e faiscar
com os raios, Urza os dobrou em duas dimensões e caminhou com eles para outro
mundo.

*****

Radiante sentou-se em seu trono no topo do aviário. Nas últimas semanas, havia
se tornado um lugar muito mais tranquilo.
Após Urza se juntar à causa rebelde, Gorig finalmente conseguiu convencer
Radiante a fortificar o aviário. Ela o deixou cercar a torre de vidro com uma rede de
grades de aço. Entretanto, aquela medida não era suficiente para Gorig. Ele pontuou que
qualquer criatura voadora, usando uma besta, poderia matá-la em seu trono, apenas
lançando um virote através do vidro. Radiante cedeu. Ela permitiu que Gorig prendesse
grossas chapas de aço em cima das grades. Evidentemente, o aviário ficou escuro. As
plantas morreram. As aves caíram em um sobrenatural sono profundo, do qual elas nunca
acordaram. O lugar ficou frio e úmido, mas, pelo menos, estava seguro – exceto por

281
aquelas malditas janelas e suas violentas imagens. Por fim, Gorig convenceu Radiante a
deixá-lo dissipar os encantamentos de onipresença e transformar todas as vidraças do
aviário em espelhos.
Agora, Radiante sentava-se em um aviário escuro e seguro. A única luz vinha da
sua presença brilhante. Os espelhos ao redor dela cintilavam com a sua imagem. Pela
primeira vez em séculos, ela se sentia em casa no trono de Serra. Aqui ela se sentava,
enxergando os olhos de uma multidão, os olhos de Radiante.
“Senhora Radiante,” veio uma voz de baixo. Era Gorig. Ele emergiu em sua
plataforma de audiência. O rangido das placas dizia que ele ainda usava sua armadura de
batalha. Havia outro som também, o sussurro desajeitado de um saco grande e pesado
sendo arrastado pelo mármore. “Eu tenho algo para te mostrar. Algo que vai te agradar
muito.”
“Agora não, Gorig,” ela disse, distraidamente. “Eu estou vendo o futuro. Eu estou
olhando para os meus próprios olhos.”
Sua voz era impaciente, mas tão maliciosa quanto uma serpente. “Olhe para baixo
por um instante e você verá o futuro.”
“Não. O futuro está aqui. Está nos meus olhos. É onde Urza Planinauta encontrará
seu destino. Ele olhará dentro dos meus olhos. Essa guerra chegará até nós. Eu mesma
lutarei contra ele. Ele olhará nos meus olhos, enxergará a beleza, e se lembrará de como
era esse lugar quando Serra sentava neste trono, como era esse lugar antes dele trazer a
morte-”
“Nós tivemos uma colheita bem sucedida hoje-”
“Eu vou olhar em seus olhos e entender finalmente que tipo de loucura faz um
homem trazer demônios para os céus e então retornar para ajudá-los.”
A voz de Gorig, de repente, estava hesitante. “Eu aconselharia você a não olhar
diretamente nos olhos de Urza Planinauta, minha senhora. Eles são coisas sobrenaturais
– como os olhos de um inseto. Eles te hipnotizarão.”
“Não, Gorig,” Radiante disse com um sorriso amargo. “Eu vou olhar nos seus
olhos, e ele nos meus, e nós saberemos qual de nós está certo e qual está louco.”
“Por favor, querida senhora,” implorou Gorig, “esqueça Urza um momento. Olhe
para baixo e veja o que eu trouxe para você.” Sua súplica foi seguida por um som

282
estrondoso, como se a sacola que ele segurasse tivesse soltado centenas de grandes bolas
de madeira.
Sua curiosidade venceu, Radiante finalmente olhou para baixo. Seus olhos se
iluminaram com prazer. “Oh, cabeças! Deve ter umas duzentas cabeças! Ah, que bonitas,
Gorig. Que bonitas!”

Monólogo

Nas últimas três semanas, Urza trouxe quatrocentos e vinte e três

refugiados do reino de Serra . Ele estima que , pelo menos esse número foi abatido

pelo exército de purificação de Radiante . Ele também acredita que cada uma de

suas intrusões no plano sitiado apenas acelera a guerra genocida de Radiante .

Todas as grandes concentrações de refugiados foram colhidas, exceto a colônia de

Arizon , em Jabboc. Há milhares de refugiados nela .

Para eles, há apenas uma esperança – a nave . Assim que ela estiver

totalmente operacional , deverá ser capaz de transportar a maior parte dos

rebeldes remanescentes dos serranos. O problema é que a nave só estará

totalmente operacional quando encontrarmos a bateria das almas.

Urza ainda não a encontrou. Ele procurou nas câmaras secretas de Gorig.

Ele penetrou nos cofres mais profundos do palácio. Ele lutou na entrada e na

saída contra os melhores setores de defesa do reino. Ainda assim, não encontrou

nada .

Em uma de suas viagens, Urza foi forçado a se confrontar com um

contingente de anjos. Após a fumaça se dissipar e os corpos caírem, ele

recuperou doze tochas de almas carregadas. Uma semana de estudo, noite e dia ,

revelou o truque delas. Elas mantinham mana branca suficiente para carregar

provisoriamente a powerstone da nave . Nós estimamos que a nave estará apta a

283
voar, transplanar uma vez, disparar alguns raios dos canhões de energia

instalados no convés e manobrar até o acampamento dos refugiados.

As doze tochas vazias estavam agora postas ao longo das cordas do casco,

conduítes de força saindo delas para o núcleo do navio.

Urza espera que elas absorvam suficiente mana branca do ar do reino de

Serra para recarregar a pedra para outra transplanagem – com os refugiados a

bordo. É claro que a energia não se manteria . Nós precisaríamos da bateria das

almas para carregar a pedra permanentemente . Mas Urza está mais preocupado

em resgatar os refugiados do que em completar sua nave .

Ele age como se essas pessoas fossem embaixadoras dos dias atuais,

representando os milhares e milhares de mortos em suas guerras. Talvez elas

sejam. Talvez, ao salvá-las, ele esteja salvando a si mesmo.

– Barrin , mago mestre da Tolária

284
Capítulo 21

Chegou o dia do lançamento. Uma grande multidão lotou a clareira tolariana –


acadêmicos, estudantes, elfos e máquinas, viashinos e goblins, anjos e humanos. Metade
deles eram refugiados do reino de Serra. Eles depositavam todas as suas esperanças na
força de resgate que estava no centro da clareira. A outra metade da multidão havia
trabalhado por anos para produzir aquela força. Agora, o trabalho estava concluído. Era
só esperar e assistir. A multidão se empurrava para frente, para longe do alcance dos
dragões de guerra, mas o mais perto possível do grande barco voador.
A bordo do navio, o Mestre das Máquinas Karn fazia suas rondas de preparação
para o lançamento. Ele olhou para a escotilha aberta. As criaturas artefatos se agrupavam
no porão, ombro a ombro: duzentos corredores, doze pumas, duzentos escorpiões e cem
guerreiros yotianos modificados. Essas criaturas formavam as defesas planares,
destinadas a proteger os refugiados enquanto eles embarcassem no navio. Os homens
mecânicos estavam ali perto, alguns deles colocados tão apertados, que não conseguiam
ficar em pé. Karn sabia que não haveria espaço para eles na viagem de volta. Eles seriam
deixados para trás, explodidos ou capturados e dissecados e depois derretidos. Barrin
pareceu impressionado com a disposição de Urza em sacrificar as criaturas artefatos,
comentando sobre a sua humanidade recuperada. Karn ficou triste por isso.
Desintegração.
Ele puxou a escotilha fechada sobre o controle principal e se afastou, atravessando
o estreito convés para os lugares onde os trezentos falcões mecânicos aguardavam
lançamento. Eles realizariam uma tarefa diferente, fornecendo cobertura aérea para os
refugiados fugitivos. Além dessa função, eles procurariam por sangue phyrexiano,
empalando os alvos e triturando as criaturas de dentro para fora. Eles também lutariam
contra qualquer alvo que ameaçasse os refugiados. Apenas no caso dos falcões não
limparem o plano, Urza havia preenchido as bombardas com cápsulas aracnídeas
modificadas, que ressoariam na presença de fortes fontes de mana branca.
Ele falou sobre salvar os refugiados e de limpar o plano.
Evidentemente, pensou Karn sombriamente, nem os falcões e nem as aranhas
retornariam também.

285
Ele caminhou pela amurada em direção ao primeiro conjunto de lanternas
antinevoeiro postas ao longo da proa. Estavam equipadas com lentes focais e parábolas
que transformavam a luz em poderosos raios. Em testes, essas armas de raios poderiam
inflamar roupas a dois mil metros de distância, conseguiam fazer mortos explodirem em
chamas e até gravar pedra. As equipes das lanternas eram goblins, selecionados devido à
sua familiaridade com a tecnologia de raios Thran utilizadas nas forjas de cristal. Terd e
outros dois grabbits cinzentos e atarracados manejavam a lanterna que Karn foi verificar.
“Tudo em ordem aqui, mestre,” Terd declarou com uma saudação, tão rápida que
as pontas dos dedos deixaram marcas de óleo em sua testa.
Karn apenas assentiu, continuando sua inspeção sobre o dispositivo. “O
mecanismo de observação está sujo.”
Os olhos se arregalaram em pires no rosto de Terd. Em uma língua balbuciante,
ele repreendeu seus companheiros. Ele pisoteou no pé de um e torceu a orelha do outro
antes de retornar sua atenção para Karn. Um sorriso cheio de dentes cruzou seus lábios.
“Está tão limpo, que você vê o seu rosto nele-” o pensamento reluzente em seus
olhos ficou um pouco nublado. Ele piscou desconfortavelmente “- ou não. Nós não
brilhar raios em seu rosto. Você brilhante suficiente, reflete tudo de qualquer jeito! Mas
pode matar tudo. Nós não brihar raios em seu rosto. Malzra diz anjos tem rostos
brilhantes também. Nós atiramos no branco dos olhos. Espera, nós não ver branco dos
olhos-”
Karn deixou a criatura no meio da frase, seguindo os trilhos para o cuspidor de
vidro – uma invenção de Jhoira. Ela havia se inspirado nos borrifos mortais de metal
derretido que surgiram um dia, quando a água caiu em uma fornalha em explosão. As
bombardas lançavam esferas de energia cobertas de vidro para cima dos inimigos. Onde
as bolas explodissem, os estilhaços derretidos seriam jogados em cima. Seu projeto foi
concluído e apresentado a Urza antes que ela refletisse sobre as consequências letais.
Antes de permitir que os dispositivos fossem construídos, ela fez que com que Urza
prometesse que eles seriam usados apenas contra inimigos terríveis e alvos que
merecessem. Ela recebeu o seu desejo – e o comando do navio voador.
Agora, Jhoira se agachava na proa, ao lado da última arma de longo alcance do
navio – um atomizador ácido. O dispositivo usava um campo de energia instável para
pulverizar ácido cáustico nos inimigos. Karn se aproximou dela.

286
“O atomizador está funcionando, capitã?” perguntou Karn.
Jhoira se assustou. Ela olhou para Karn, piscando desatentamente por um
momento, antes de afastar as imagens de seus olhos. “Desculpe, eu estava me preparando
mentalmente para a próxima batalha. O que você disse?”
“O atomizador ácido, capitã,” repetiu Karn, “está pronto?”
Jhoira assentiu, cruzando os braços sobre o peito. “Sim, mas não me chame de
capitã. Me chame apenas de Jhoira. Só porque me foi dado o comando deste navio e da
sua tripulação, isso não faz de mim uma capitã. Quanto ao atomizador – a nuvem lançada
dessa coisa será tão destrutiva quanto uma explosão de fogo da baforada dos dragões.”
Ambos, reflexivamente, olharam para Gherridarigaaz e Rhammidarigaaz,
posicionados em cada um dos lados, do longo e delgado navio. Os dragões de fogo
forneceriam uma defesa aérea para o navio e para os refugiados. As bestas seriam
transplanadas para o reino de Serra pelo próprio Urza.
Agora, Urza estava a estibordo apertando as alças dos arreios na dragoa anciã. A
bombordo, Barrin embalava varinhas e tomos nas bolsas da sela do jovem dragão.
Embora Jhoira estivesse no comando da nave, Urza e Barrin direcionariam toda a
operação, empregando um arsenal de magias de mana branca das costas dos dragões de
fogo.
Urza, ainda na sela da dragoa, fez um gesto para silenciar as multidões. “Eles nos
chamarão de invasores,” disse Urza, sua voz ampliada por um feitiço rápido do mago
mestre. “Eles nos chamarão de invasores, assim como chamaram seus próprios cidadãos
de traidores. Eles nos chamarão até mesmo de phyrexianos, tão poderosa é a rede de
desilusão que os envolve. Nós não ouviremos do que eles nos chamam. Nós ouviremos
do que a história nos chamará. Nós os salvaremos, apesar do seu menosprezo.”
Uma ovação suave respondeu àquelas palavras.
“Nós não somos invasores. Somos defensores. Nós somos a aliança de Dominária.
Somos humanos e divinos, viashinos e goblins. Somos construtores e encantadores. Nós
somos o poder da floresta e do mar, das montanhas e da própria vida. Nós limpamos
nossa própria ilha das hordas phyrexianas, e também limparemos o reino de Serra.
Porém, mais do que isso, nós retornaremos e traremos conosco o resto dos refugiados,
um novo exército de aliados.”

287
Um rugido de alegria começou entre os humanos e os anjos ali reunidos. Ele se
espalhou pelas fileiras de homens-lagarto e goblins, elfos e criaturas artefato, estudantes
e acadêmicos, até que as próprias florestas e os oceanos ecoaram o grito.
Quando o som aumentou, Jhoira acenou para Karn. “Ativar a sequência de
inicialização, mestre das máquinas.”
“Sim, capitã,” respondeu Karn.
Ele atravessou o convés estreito para alcançar o anteparo onde as escadas desciam
para o casco do navio. Em poucos momentos, ele chegou à sala das máquinas. Diago
Deerv e outros três viashinos, de escama vermelha, olharam estranhamente assim que
Karn entrou.
“Ativar a sequência de inicialização,” ordenou o homem de prata.
Os viashinos interromperam as saudações e se aproximaram dos seus postos. Os
interruptores foram invertidos, as alavancas ajustadas e os giroscópios colocados em
movimento. Gemidos vieram do enorme motor. Uma tagarelice de comandos e
verificações se iniciou entre os homens-lagarto.
Karn, entretanto, movimentou-se para o banco no centro do terminal curvado,
abaixo de um ornamentado tubo de comunicação que levava diretamente à ponte. Diante
dele, um par de encaixes profundos mergulhava nas profundezas internas do motor. Karn
inseriu suas mãos nos buracos, sentindo as barras gêmeas nas suas bases. Ele as
encontrou e apertou suas mãos. Quando giradas, as barras provocariam o arranque do
motor.
“Abram as tubulações dos superfluidos”, ordenou Karn.
Ele girou ambas as alças para dentro e sentiu os mecanismos engatarem e
travarem. Um grande calor cresceu abruptamente dentro do motor. Em instantes, ele
sobrepôs o som da ovação lá fora.
Antes que Karn pudesse retirar os braços, braçadeiras emergiram do fundo da
máquina e se prenderam sobre seus pulsos. Pequenos fios de sonda se deslizaram
lentamente para as articulações dos seus pulsos. Magníficos surtos de energia estalaram
ao longo de suas mãos. Os choques se moveram para os braços e ombros, convergindo
para o peito do homem de prata e sorvendo da powerstone no centro de sua cabeça.
De repente, Karn sentiu os superfluidos verdes através do grande bloco mecânico
diante dele. Ele podia sentir a onda de calor ao redor da powerstone brilhante no coração

288
da máquina. Ele podia ver as lanternas do navio, da dianteira e da popa, estibordo e
bombordo. Ele podia sentir o peso e o alinhamento do casco do navio, suas velas, suas
linhas, mesmo sua jovem e forte capitã enquanto ela estivesse ao leme do barco. A nau se
tornou um segundo corpo para ele. Seus motores, controles e defesas, de repente, eram
parte dele.
Integração.
Para comemoração de todos, Karn ergueu a grande nave no ar. Ela se levantou
entre o bater das asas dos dragões de fogo. Ela ascendeu aos céus brilhantes de Tolária,
aos céus brilhantes de Dominária.

*****

Jhoira sentia-se pequena e atormentada enquanto estava na ponte do dirigível. Até


o momento, não havia necessidade de guiar. O navio estava simplesmente subindo no céu
azul de Tolária. Não era necessário até que ele avançasse e o desenrolar das velas e a
curvatura dos aerofólios fizessem alguma diferença no movimento da nave. Mas agarrar
o leme nesse momento fazia uma grande diferença para a posição de Jhoira: permitia que
ela se mantivesse de pé.
Sob seus pés, motores quentes e enormes trabalhavam. Eles arrastavam pelo ar
uma carga de quinhentas máquinas de guerra e uma tripulação de trinta. Ela tentou
esquecer que o navio carregado pesava quatro mil toneladas. Ela tentou esquecer que
esta era a primeira vez que a embarcação estava no alto – que era a sua viagem de teste.
Ela tentou esquecer que estava navegando nesse barco para guerrear contra anjos.
Alguma coisa enorme e vermelha se moveu com uma súbita violência por cima da
amurada do navio, e então desapareceu. Então reapareceu, um monte de couro e ossos
translúcidos – os ossos visíveis de um grande dragão. A asa imergiu novamente. Quando
reapareceu, estava a cabeça vermelha de Gherridarigaaz. Uma rajada cinza escapava de
uma narina escarpada, enquanto a dragoa subia mais alto no céu. Urza apareceu, montado
em sua sela. Ele segurava algo em sua mão, algo que parecia um bastão, mas cintilava
como uma varinha. Seu rosto estava cerrado pelo esforço que estava sendo feito, e ele
guiava o dragão em direção à proa do navio.

289
Alguma coisa está errada, pensou Jhoira, agarrando-se ao leme. Alguma coisa se
perdeu, ou algo que deveria ter se soltado, não se soltou.
Gherridarigaaz subiu em direção ao arco do navio. Urza se inclinou tão próximo
da ponta da sela que pareceria que estava prestes a cair. Ele balançou a varinha brilhante
em direção a alguma coisa agarrada na proa. Houve um som grosseiro, e então o som de
algo se quebrando.
“Eu te nomeio, Bons Ventos,” declarou Urza, segurando o gargalo quebrado da
garrafa para o alto. Sua montaria se elevou acima das copas das árvores.
Jhoira riu. Não havia nenhum monstro, não havia nada de errado. O planinauta
estava apenas abençoando e nomeando o barco em sua viagem inaugural. Jhoira sentiu o
peso do medo e os futuros impossíveis se afastarem dela e caírem entre as folhas abaixo.
Ela riu.
“Em frente! Sigam aquele dragão,” o primeiro comando da capitã do Bons Ventos.
Gherridarigaaz lançou-se sobre as florestas de Tolária. Rhammidarigaaz deslizava
em seu rastro. O Bons Ventos seguia ambos. O vento percorria toda a proa e voltava para
alcançar Jhoira. Ela puxou o ar fresco para seus pulmões e lembrou-se de outro lugar que
ela costuma ficar – na beirada do seu mundo. Ela se lembrou de um tempo atrás, quando
uma jovem coragem enchia seu coração e ela sonhava com uma alma gêmea. O homem
nunca chegara, mas ela tinha vivido uma vida plena sem ele, e agora, a jovem coragem
voltou a entrar no seu coração.
Gherridarigaaz era apenas uma mancha vermelha no horizonte. Rhammidarigaaz
estava logo atrás dela. O Bons Ventos ganhava de ambos. O leme estava ativo nas mãos
de Jhoira, puxando-a como um cavalo ansioso puxava as rédeas. Ela continha aquele
desejo vigoroso, segurando a embarcação contra os ventos.
“Abram as velas,” Jhoira comandou a equipe de humanos. Eles correram para os
grampos e puxaram as linhas. “Reconfigurem as hélices de bombordo e estibordo para os
aerofólios.” Mais trabalhadores subiram nas plataformas laterais para reajustar as lonas.
A cada puxada nas linhas folgadas e a cada mudança de vela, o navio ganhava
velocidade. Percorreu o mar verde das árvores com maior velocidade do que qualquer
embarcação sobre a água. Um túrgido rastro era deixado pela popa nas copas das árvores.
As rajadas de vento no convés ameaçavam derrubar os membros mais leves da equipe.
Terd e seus diminutos companheiros se agacharam ao lado da balaustrada. As linhas

290
zumbiam por toda a plataforma. O casco do navio rangia enquanto se acomodava em sua
nova disposição.
Jhoira sorriu. Ela quase alcançou Urza e Barrin. Na costa de Tolária, os cavaleiros
dos dragões provocaram suas montarias para disputarem com a velocidade da nave.
Gherridarigaaz e Rhammidarigaaz voavam asa a asa. Tempestades agitadas de ar se
espalhavam como cones gêmeos atrás deles. Jhoira manobrou o navio, passou a costa e
entrou nas ventanias duplas. O vento bateu brutalmente no convés.
“Segurem-se!” Jhoira gritou para sua equipe. “Nós vamos diminuir a velocidade
assim que entrarmos no reino de Serra.”
Até aquele momento, eles tiveram que voar em formação fechada. A
transplanagem de Urza quase não abrangia ambos os dragões, e ela só poderia ser
rastreada pela aparelhagem do Bons Ventos se os efeitos se sobrepusessem. Ondas
trovejavam embaixo e nuvens acinzentadas trovejavam acima. O próprio ar parecia ter se
solidificado, rasgando a lona e as cordas, o casco de madeira e os acessórios de metal.
Ele também agarrava a capitã em seu leme, mas agora ela sentia apenas alegria.
Uma bolha de energia mágica se espalhou de Urza. Em uma pulsação, ela se
expandiu para envolver os dois dragões. Logo eles brilharam, perfurando o portal.
“Transplanando!” – gritou Jhoira.
Outra bolha nasceu do coração do próprio navio. A cortina de magia estalou,
ricocheteou e escureceu o mar e o céu. O azul de Dominária brilhou por mais um rápido
momento, então se foi. O rugido também se foi. O caos escuro substituiu tudo. Além das
balaustradas do barco, havia apenas um mundo vazio e as asas esforçadas de dois
grandes dragões.
E então, o azul e preto se foram. Em seu lugar veio uma vasta paisagem de luz
tingida, nuvens sulfúricas e pedaços de terra revoltos e rolantes.
“O reino de Serra,” disse Jhoira ao repentino rugido do vento, na margem do reino
de Serra. Ela alcançou uma gaveta no convés e tirou um mapa de vidro dos Amontoados.
A cartografia era, sem dúvida, de Urza – detalhada, turbulenta, sobrecarregada. Ela
mostrava três ilhas de referência. Uma tinha a forma de pera, e girava muito
rapidamente. Outra era maior e plana, como uma grande faca de pedra. A terceira, logo
abaixo do cume que descia do céu, na extremidade máxima do reino de Serra, era a rocha
chamada Jobboc.

291
Lá, naquele mundo distante e devastado, em uma colônia chamada Arizon,
milhares de almas esperavam.
“Iniciar uma manobra rápida para estibordo nas coordenadas noventa e cinco, três,
vinte e oito, oito. Nós estamos indo para Jobboc.” Timoneiros direcionaram os aerofólios
e Karn, abaixo, canalizava o que havia sobrado da energia do barco. “Soltar as aranhas
das bombardas, em lados alternados, a cada trinta segundos, iniciando com o meu sinal.”
As equipes das bombardas se mexeram para carregar suas primeiras salvas.
Enquanto isso, Terd subiu a escada até o convés principal e agarrou a manga de
Jhoira. “Eles já estão aqui, Senhora. Vagalumes!”
Jhoira olhou para fora, na direção da linha traçada pelo dedo do goblin. A
bombordo, ela teve uma bela e terrível visão. Brilhando no ar, como ouro em pó, estavam
os exércitos de purificação de Radiante.
“Atirem!”
“Eles já lançaram a primeira salva de aranhas,” gritou Barrin. Ele levou
Rhammidarigaaz, após uma mudança de direção, para o lado de Urza.
“Bom,” Urza respondeu em cima de Gherridarigaaz. “Nós sabemos com quem
estamos lutando.” Ele olhou para a sua esquerda, onde o exército de purificação de
Radiante se aglomerava. Suas asas formavam um distante drone no ar.
“Você acha que são quantos?”
“Centenas,” disse Urza, “talvez milhares. Nós precisaremos de todas as
vantagens.”
Urza soltou as mãos, puxando para si a mana branca dos vários lugares pelos quais
viajara pelo reino. Ele carregou duas mágicas poderosas. Um raio branco estalou de seus
dedos e se espalhou pelos dragões, envolvendo-os em milhares de linhas trêmulas. Um
surto de poder surgiu neles. O encantamento deixou as escamas parecendo penas
translúcidas, fez com que os mantos vermelhos parecessem coroas arco-íris.
Subitamente, eles foram transformados em figuras divinas, aterrorizantes em sua beleza e
poder. Com outra concentração de mana branca, Urza lançou uma aura cintilante ao redor
de cada cavaleiro, um círculo giratório do que parecia ser neve.
“Isso nos protegerá das criaturas e dos feitiços de mana branca,” explicou Urza.
Barrin, que não era familiarizado com o reino, canalizou magia azul em vez de
branca. Ele invocou um par de dragonetes tolarianos. Filhotes gigantes dos dragões de

292
fogo, esses dois dragões tinham pele tão lisa e translúcida como a água do recife. Suas
asas brilhavam azuis contra as nuvens amareladas. Suas crinas espetadas, farpadas como
tridentes, oscilaram no vento estrondoso. Barrin alcançou o núcleo de suas memórias,
revivendo lembranças das florestas de Tolária. Ele pensou na mata angelical de Jhoira,
nas regiões do oeste e nas muitas florestas e matagais subárticos de tempo rápido, e usou
um encantamento nas duas criaturas. Escamas verdes brotaram nas barrigas e nas costas
dos dragonetes invocados, proporcionando uma proteção adicional contra ataques,
mágicos ou mundanos.
“Impressionante,” gritou Urza sobre o crescente zumbido das asas dos anjos se
aproximando.
“Eu tenho um leviatã na minha manga, se as coisas ficarem realmente
desesperadoras, porém invocá-lo gastaria todas as minhas reservas.”
Não houve tempo para mais discussões. A aproximação do exército se tornou um
rugido. Eles cresceram de agrupamentos dourados para flechas de fogo.
O exército de anjos de Radiante chegou.
Eles se aproximaram na velocidade dos falcões. Dois arcanjos lideravam a
vanguarda, cada um com uma espada magna, larga como um machado e longa como uma
lança. Os arcanjos vieram em um círculo vertical e empunhavam suas lâminas para
dentro, como um anel de presas. Atrás deles, formando uma garganta mortal, estavam
centenas de anjos segurando lanças. Seu próprio grande leviatã, o exército purificador de
Radiante, abriu sua boca cheia de dentes para engolir os dragões e seus cavaleiros.
“Eu te encontro do outro lado!” Urza gritou enquanto mergulhava na saraivada de
presas brancas, máscaras de prata e aço reluzente.
“O outro lado do quê?” Barrin se perguntou.
O círculo de anjos se fechou ao redor dele.
As espadas magnas atingiram a ponta do focinho do dragão de fogo e geraram
fagulhas seu pescoço escamoso. Os encantamentos estavam firmes, repelindo o aço.
Mesmo assim, as lâminas convergiam na direção do cavaleiro.
Barrin puxou forte as rédeas do dragão. Rhammidarigaaz se virou de lado, na
direção dos anjos velozes. Seu flanco o afastou do ataque, e se tornou uma barreira
impenetrável contra a qual arcanjos e anjos golpeavam em uma fúria sanguinolenta.

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Barrin instigou Rhammidarigaaz a voltar a atacar. A besta se ergueu sobre suas
asas, se desviando de alguns anjos que haviam se aglomerado atrás dele, então abaixou
profundamente sua garganta para o ataque. Ele exalou uma grande onda de fogo na
investida, e anjos caíram do céu como pombos incinerados. Rhammidarigaaz se moveu
para o espaço livre.
A lateral do dragão estava pontilhada de sangue, a maior parte angelical, embora
houvesse algumas feridas, onde as espadas conseguiram passar pelos encantamentos.
Instantaneamente, Barrin usou uma mágica de cura no dragão e os cortes ensanguentados
foram costurados com fios de energia branca.
Outra explosão de fogo emergiu da besta. Mais anjos caíram numa fumaça negra e
penas derretidas. Máscaras de prata se rachavam, mostrando rostos gritando. Espadas
magnas fundidas com esqueletos.
Do lado distante da luta, as chamas de Gherridarigaaz formavam uma trilha
igualmente infernal no amontoado de anjos.
Os dragonetes azuis duraram bem menos. A sua baforada matou muitos, mas a
pressão dos corpos e os golpes de lâminas rasgaram as criaturas em pedaços. Um raio de
cura saiu de Urza em direção aos dragonetes cercados, mas uma outra mágica – lançada
por um guerreiro arcanjo – defletiu o raio durante o seu percurso.
Barrin estava começando seu próprio encantamento de cura quando um coro
angelical gritou e se debruçou sobre ele com suas espadas. Uma mágica familiar saltou
da ponta de seus dedos. A chama instigante cruzou o ar e acertou o rosto de um anjo
guerreiro, incinerando sua boca e seus olhos. Ele soltou uma segunda mágica do mesmo
tipo, absorvendo uma força adicional da primeira. Uma terceira conflagração flamejou
para acertar um arcanjo, explodindo e criando um buraco em sua armadura e saindo pelo
outro lado. Três corpos caíram, mas outros vinte se agarraram nas costas do dragão e o
atacaram com espadas e chicotes farpados.
Enormes lâminas desceram. Elas atingiram Barrin na cabeça, no pescoço, na
barriga e nas costas. As espadas magnas ricocheteavam de sua carne, como se tivessem
atingido pedra.
Barrin manobrou Rhammidarigaaz para um súbito mergulho, arremessando os
atacantes e direcionando a baforada da besta contra novas nuvens inimigas. Uma euforia

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tomava conta do mago mestre de Tolária – até que ele viu as carcaças dos dragonetes
tolarianos sagrando.
Eles estavam abaixo e atrás, os encantamentos de suas carapaças haviam se
dissipado e seus couros azuis estavam marcados com cortes tão numerosos e sinistros
quanto hieróglifos. Os anjos assassinos ainda se agarravam às bestas, como larvas em
cadáveres, até que suas asas finalmente desistiram. Rapidamente, as bestas invocadas
caíram dos céus. Anjos começaram a se desprender das criaturas em queda.
Vingativo, Barrin guiou Rhammidarigaaz de volta à briga, chamas ardentes e asas
duras como aço destruindo anjos às centenas. O mago mestre começou a lançar feitiços e
a morte floresceu ao seu redor. Ele mataria o máximo que pudesse, tão rápido quanto
conseguisse, na esperança de mantê-los afastados dos refugiados.
De repente, preta e grotesca no meio daquela multidão de anjos, veio uma besta
que poderia ultrapassar as proteções de mana branca de Barrin. Phyrexiano, alado e com
grandes presas, o monstro caiu como a noite no céu, em direção ao pescoço de
Rhammidarigaaz. Ele se empinou, e Barrin reconheceu os olhos de fatias de limão que
Urza havia descrito.
Exceto que o homem estava transformado – sua forma gigante e musculosa
equipada com inúmeros implantes e braços de alabarda, pés com pontas de adaga e foices
em seus cotovelos. Porém, a maior arma de todas estava posicionada no torso da besta –
um canalizador negro que ardia em doze lugares com as chamas azuis-esbranquiçadas
que roubavam as almas. Ele absorvia a mana branca para dentro do seu próprio corpo,
armazenando-a, utilizando parte dela para se transformar. Ele ficava mais poderoso a
cada criatura que matava.
Gorig era a bateria de mana.
Barrin não teve tempo para ver mais nada. Gorig pulou sobre ele.

*****

Karn sentia o enfraquecimento de poder do Bons Ventos como um torpor no seu


próprio corpo. As tochas da alma não estavam reunindo a mana branca suficiente do ar
para recarregar a pedra. Ela apenas brilhava fracamente dentro do seu líquido

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superfluido. O navio tinha energia suficiente para voar, talvez o suficiente para algumas
breves rajadas de suas armas de raio, mas o navio não transplanaria novamente.
“Nós precisamos de mais tochas, Jhoira,” ele falou no tubo de comunicação sobre
sua cabeça. O som de sua voz estava vazio e cansado, mais ainda pelo trajeto do tubo de
metal. “Nós precisaremos da energia de mais tochas, nem que seja apenas para
transportar os refugiados.”
“Sim,” veio a resposta recortada de cima. “Preparar para aterrissagem.”
Abaixo do navio – Karn ainda via todo o mundo através das armas de raio na proa
e na popa – a ilha aérea chamada Jabboc flutuava escura e proibida contra a cúpula
decrescente do reino de Serra. Era um lugar escuro. A luz eterna de Serra estava falhando
naqueles lugares. O ar vital estava diluído e maculado. A extremidade do plano pairava a
apenas alguns quilômetros além da rocha negra. Na formação inconstante, seu tecido
desgastado mostrava o caos cizento que se encontrava entre os mundos.
“Reduzir velocidade,” chegou a ordem de Jhoira.
Agradecidamente, Karn reduziu o fluxo de energia do cristal tépido.
“Diminuir a altitude.”
As velas mudaram, a proa subiu ligeiramente, e a quilha foi aliviada para baixo. A
enorme ilha aérea preencheu o campo de visão de Karn. Lá ele viu uma penumbra
desordenada de colinas e rochas. Campos mortos acinzentados repousavam na escuridão
perpétua. Árvores emaranhadas caídas em florestas mortas por toda a ilha. Parecia Hades
ou Sheol, um lugar de sombras, uma terra dos mortos, sem sol.
“Lanternas adiante! Aterrissem o navio ao lado daquelas luzes.”
Através dos olhos do navio, Karn viu o cintilante brilho das lanternas, óleo e
pavio repelindo a escuridão. A luz morna desenhava arcos contra a escuridão – a entrada
para a colônia de Arizon. A luz era refletida em pequenos brilhos de alguma coisa que
estava reunida. Elas pareciam ovos de vespa, empilhados em ninhos, mas, com um certo
espanto e terror, Karn percebeu o que eles eram – rostos, milhares de rostos, esperando e
torcendo por salvação.
Karn utilizou a força de sua própria matriz energética para transportar o navio
pelas regiões frias até a caverna. Um vale escuro abaixo levava até um campo de
escombros e uma floresta morta. O Bons Ventos atravessou o emaranhado de árvores e
pousou, logo abaixo da caverna. Plataformas de pouso emergiram da parte inferior do

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casco. Soltando a nave lentamente, Karn sentiu em seu próprio ser o grande tremor do
casco da nave pousando.
“Abrir escotilhas! Libertar falcões! Soltar corredores, pumas e escorpiões!
Preparar para carregar! Preparar armas de raios!” Havia uma nova urgência na voz de
Jhoira.
Quando Karn olhou através das lanternas da popa, ele viu o motivo.
Os exércitos de anjos desciam sobre eles na forma de um ciclone dourado.

*****

Urza estava na sela de Gherridarigaaz. Os dragonetes tolarianos haviam se


retirado da batalha naquele lugar, onde o enxame estava mais esparso. Eles caíram nas
profundezas acinzentadas e, alguns quilômetros abaixo, deixaram de existir
completamente.
Apenas alguns quilômetros abaixo…
O plano havia encolhido consideravelmente antes da chegada deles, mas estava se
dissipando ainda mais rapidamente. Urza segurou forte nas rédeas, enviando
Gherridarigaaz para um ataque chamejante. Anjos caíam pelo ataque ardente do dragão,
brancos e insignificantes como o milho estourando no vapor de uma panela. Eles também
caíam e desapareciam na beirada daquele mundo inconstante.
Com a morte de cada anjo, o plano desmoronava. Quanto mais ferozmente os
dragões batalhavam contra o exército, menos tempo eles tinham. Logo o esgotamento de
mana atingiria um limite crítico, e então o colapso aconteceria em poucos instantes.
Qualquer coisa viva no plano seria destruída.
“Cessar fogo!” Urza ordenou para a dragoa. Ele abriu sua rédea em um grande
círculo. “Para Rhammidarigaaz, para Barrin!”
A dragoa fez um mergulho raso que aumentaria sua velocidade em direção ao filho
e ao seu cavaleiro. Anjos se lançaram em nuvens densas sobre ela, mas ela segurou sua
baforada mortal. Espadas magnas acertaram sua pele blindada. Algumas atravessaram os
encantamentos e abriram grandes fendas. A magia de Urza as curava no mesmo instante,
não permitindo que nenhum sussurro de ar se perdesse das asas da dragoa.

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Mesmo assim, a dor ganhava. Gherridarigaaz rugia, a fumaça escapava de suas
narinas. Ela mal continha as chamas que coçavam para serem vomitadas. Em vez disso,
ela concentrou sua fúria na batalha à frente, e em Rhammidarigaaz. Outros três grupos de
alados obrigaram-na a subir, quando já estava próximo dele.
Urza gritou para Barrin, selado logo acima, “Recuar! Para o Bons Ventos.”
Em um instante, eles passaram. A dragoa deslizava pelo ar e os anjos os seguiam.
O ar fazia pequenos estampidos nas pontas das asas da dragoa. O maior grupo de
guerreiros caiu. Gherridarigaaz perfurou a última muralha deles e se lançou no espaço
adiante. À frente estavam os Amontoados. Na extremidade distante, pendia uma grande
ilha flutuante, e nela brilhavam as luzes do Bons Ventos. Essas luzes estavam turvas
diante do brilho branco e dourado dos anjos guerreiros e das tochas anímicas.
Outro exército.
Urza ins