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Ficha de trabalho Domínio Educação Literária

O Ano da Morte de Ricardo Reis

Lê atentamente o excerto de O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Ricardo Reis, um dia que está dormitando, na entremanhã, cedíssimo para os seus novos
hábitos de indolência, ouve salvarem1 os navios de guerra no Tejo, vinte e um espaçados e
solenes tiros que faziam vibrar as vidraças, julgou que era a nova guerra que começava, mas
depois lembrou-se de notícias que lera no dia anterior, este é o Dez de Junho, a Festa da Raça,
5 para recordação dos nossos maiores e consagração destes que somos, em tamanho e número,
às tarefas do futuro. Meio sonolento, consultou as suas energias, se as teria suficientes para de
golpe se levantar dos lençóis murchos, abrir de par em par as janelas para que pudessem
entrar sem peias2 os últimos ecos da salva e heroicamente espavorissem as sombras da casa, os
bolores escondidos, o cheiro insidioso3 do mofo, mas, enquanto isto pensava e consigo mesmo
deliberava, calaram-se as derradeiras vibrações do espaço, tornou a descer sobre o Alto de
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Santa Catarina um grande silêncio, nem Ricardo Reis deu por que tornara a fechar os olhos e
adormecera, é assim a vida quando errada4, dormimos quando deveríamos vigiar, vamos
quando deveríamos vir, fechámos a janela quando a devíamos ter aberta. À tarde, ao regressar
do almoço, reparou que havia ramos de flores nos degraus da estátua de Camões, homenagem
das associações de patriotas ao épico, ao cantor sublime das virtudes da raça, para que se
15 entenda bem que não temos mais que ver com a apagada e vil tristeza de que padecíamos no
século dezasseis, hoje somos um povo muito contente, acredite, logo à noite acenderemos
aqui na praça uns projetores, o senhor Camões terá toda a sua figura iluminada, que digo eu,
transfigurada pelo deslumbrante esplendor, bem sabemos que é cego do olho direito, deixe
lá, ainda lhe ficou o esquerdo para nos ver, se achar que a luz é forte de mais para si, diga, não
nos custa nada baixá-la até à penumbra, à escuridão total, às trevas originais, já estamos
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habituados.

SARAMAGO, José, 2016. O Ano da Morte de Ricardo Reis. 22.ª ed. Porto: Porto Editora
(Capítulo 16, pp. 416-417) (1.ª ed. 1984)

1. saudarem com salvas de artilharia; 2. obstáculos, estorvos, 3. pérfido, dissimulado; 4. vivida sem destino certo.

Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas ao questionário.

1. Localiza o excerto na globalidade da obra.

2. Identifica e explicita o valor do recurso expressivo presente na passagem: “para que se entenda
bem que não temos mais que ver com a apagada e vil tristeza de que padecíamos no século
dezasseis, hoje somos um povo muito contente” (ll. 15-17).

3. Interpreta o valor simbólico das referências a Camões ao longo do excerto, relacionando-o com
o tempo histórico do romance.

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