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DEBATE DEBATE 355

A questão ecológica: entre a ciência


e a ideologia/utopia de uma época

The ecological issue: science and ideology,


or the utopia of a time

Elmo Rodrigues da Silva 1


Fermin Roland Schramm 2

1 Universidade do Estado Abstract Our modern concern over the environment brings us to the historical discussion of
do Rio de Janeiro.
Scientific Rationalism, principally in contemporary western society, where the conflict between
Rua São Francisco Xavier 524,
5 o andar, bloco A, Man and the Natural World is at its greatest. In an attempt to solve this conflict, Ecology, a field
Rio de Janeiro, RJ of science, stands out riddled with problems, seeking to draw subjects from other fields into its
20559-900 Brasil.
2 Departamento de Ciências
own. Following an “ecologized world view” (Ecosystemics), some social currents denounce the en-
Sociais, Escola Nacional vironmental impact of, technological and industrial models, highly pollutant and dependent on
de Saúde Pública. natural resources, generating the contemporary disorder in our biosphere. These movements, fol-
Rua Leopoldo Bulhões 1480,
lowing different schools of thought, demand changes in society, taking into consideration the
Rio de Janeiro, RJ
21041-210 Brasil. present and future state of the environment.
Key words Ecology; Environment; Environmental Ethics

Resumo A problemática atual da questão ambiental remete-nos à discussão histórica da racio-


nalidade científica, sobretudo nas sociedades ocidentais contemporâneas, onde o conflito entre
a relação homem/meio natural fica evidenciado. Pretendendo dar conta deste conflito, a ecolo-
gia constituída como disciplina científica destaca-se como um campo problemático da ciência
que busca integrar diversas disciplinas em torno de si. Alguns movimentos sociais, orientando-se
por uma “visão ecologizada” (ecossistêmica) de mundo, partem para denunciar os impactos am-
bientais oriundos, dentre outros, do modelo tecno-industrial altamente poluidor, consumidor
dos recursos naturais e gerador da atual desordem global da biosfera. Esses movimentos, sendo
orientados por éticas diferenciadas, reivindicam mudanças do quadro social e ambiental da so-
ciedade atual a fim de garantir as necessidades das futuras gerações.
Palavras-chave Ecologia; Meio Ambiente; Ética Ambiental

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Introdução destacando que o mito tecnocientífico busca


se desenvolver de “forma absolutizada ou au-
O debate em torno da questão ambiental deve tonomizada”, fora de toda consideração antro-
ser compreendido através das relações e inter- pológica e, bem entendida, ética (Hottois,1994).
pretações que se estabeleceram historicamen- Deste modo, para tentar melhor compreen-
te entre o homem e a natureza, ou seja, entre der todas as rápidas transformações ocorridas
os processos artificial/cultural e o natural. Ros- nas relações homem/natureza e suas implica-
set (1989) argumenta que as filosofias (apesar ções ético-filosóficas, sociais, ambientais e po-
de um certo arbítrio) são classificáveis em ‘na- líticas, pode-se buscar na instauração do mun-
turalistas’ e ‘artificialistas’. O autor considera do moderno, ou seja, na passagem dos séculos
que, na história da filosofia ocidental, este é o XVI para o XVII, as bases do projeto atual de
caso de dois breves períodos, nos quais o pen- dominação da natureza pelo saber-fazer tecno-
samento artificialista representou oficialmente científico.
a filosofia, na ausência momentânea de qual- Longe de pretendermos organizar uma cro-
quer paisagem naturalista oferecida à crença nologia histórica deste processo, apontaremos
dos homens pela imaginação filosófica. Deste alguns momentos importantes na formação
modo, essas lacunas da paisagem naturalista desta cultura tecnocientífica e de seus desdo-
seriam suficientemente possantes para engen- bramentos até os dias atuais, ao desembocar
drar filosofias artificialistas, ou seja, haveria no campo da Ciência Ecológica e nos movi-
um momento de ‘depressão filosófica’ interca- mentos sociais a ele relacionado.
lando-se entre a derrocada de uma represen-
tação naturalista e a reorganização de uma no-
va, a qual estaria encarregada de assegurar a A ciência moderna:
importância dos temas naturalistas interrom- a natureza versus o artifício
pidos temporariamente. A história da filoso-
fia ocidental, segundo o autor, conheceu duas Com as descobertas do século XVI, um período
grandes depressões: a pré-socrática (após a ruí- de transformações profundas surge no Ociden-
na da representação animista e antes do natu- te. Como escreve Châtelet, “o recomeço da filo-
ralismo antigo de Platão e Aristóteles) e a pré- sofia nos séculos XVI e XVII está ligado ao apa-
cartesiana (após a ruína do aristotelismo e an- recimento de um outro contexto, o da ciência”
tes da reconstituição de um naturalismo mo- (Châtelet, 1994:53). Discursos inovadores são
derno por Descartes, Locke e Rosseau) (Rosset, elaborados então, num contexto científico in-
1989). cipiente, através de diversos pensadores, entre
A partir deste esquema de raciocínio, po- eles, Francis Bacon (1561-1626). Precocemen-
der-se-ia argumentar que o período atual esta- te, Bacon registrou o que seria marcado pelo
ria entrando em uma nova fase, também de de- século do ‘artificialismo’ (da metade do século
pressão, entre concepções artificialistas e na- XVI à metade do XVII), ao afirmar que: “um
turalistas. Isto é válido para o mundo ociden- preconceito (...) é olhar a arte como uma espécie
tal, onde a racionalidade científica passou a in- de apêndice da natureza, supondo que só lhe
termediar a relação sociedade/natureza. Ha- resta completá-la (...) ou corrigi-la (...), e de for-
bermas considera que a racionalização pro- ma alguma mudá-la (...), transformá-la e aba-
gressiva da sociedade está ligada à institucio- lá-la em seus fundamentos: isso tornou, antes
nalização do progresso científico e técnico, do tempo, os negócios humanos desesperados
através do qual as próprias instituições modifi- (...). As coisas artificiais não diferem das natu-
cam-se e antigas legitimações desmontam-se. rais nem pela forma nem pela essência, mas so-
Portanto, ‘secularização’ e ‘desenfeitiçamento’ mente pela causa eficiente (...). E quando as coi-
das imagens do mundo são a contrapartida de sas são dispostas para produzir um determina-
uma racionalidade crescente do agir social do efeito, pouco importa que isso se faça com ou
(Habermas, 1983). sem o homem” (Bacon, 1852 apud Rosset, 1989:
Ao se referir à ciência contemporânea, Hot- 64-65). Desta forma, estavam lançadas as ba-
tois prefere empregar o termo tecnociência ses científicas para a intervenção técnica sobre
pois este destaca a estreita ligação entre o téc- os processos naturais.
nico e o epistêmico, a ação e a cognição, assim A experiência e os sentidos passaram a ser
como a ruptura com o antigo projeto logoteó- utilizados na validação de hipóteses, consti-
rico e filosófico do saber. A tecnociência, para tuindo, deste modo, um marco na revolução
o autor, produziu um mito evolucionista que vê científica que separa a Idade Medieval do Mun-
a física, a biologia e as tecnologias da inteligên- do Moderno. Nicolau Copérnico (1473-1543) e
cia sob um ângulo sistemista e operacionalista, Andrès Vesalio (1514-1564), entre outros, ao

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utilizarem o método experimental e indutivo, antropocentrismo. Conseqüentemente, a na-


estão entre os pioneiros na aplicação do novo tureza dessacralizada pela separação homem-
método científico que irá revolucionar idéias e sujeito de um lado e natureza-objeto do outro,
comportamentos. Giordano Bruno (1562-1600) resultou em ‘novas’ possibilidades científicas e
demonstrou o significado que este método e a tecnológicas, libertando definitivamente a
cosmologia copernicana representaram para a ciência das concepções teológicas herdadas do
nova visão de mundo que se instaurava: “os mundo medieval. Abrem-se diferentes pers-
deuses deram ao homem o intelecto e as mãos pectivas no pensamento filosófico, político,
(...) outorgando-lhe poder sobre os demais ani- econômico e surge a industrialização que deu
mais. Eles supõem não só que o homem seja ca- origem a profundas transformações sociais na
paz de atuar conforme a sua própria natureza Europa.
(...) mas que também possa operar à margem A partir do século XVIII, elementos inova-
das leis naturais, para deste modo (...) triunfar dores são introduzidos, dentre estes, a concen-
mantendo-se como deus da terra” (Bruno, 1852 tração de capitais, a apropriação das forças
apud Edmunds & Letey, 1975:37). produtivas, as novas técnicas, máquinas e ma-
É deste período ‘revolucionário’ que a ima- térias-primas. As indústrias instalam-se, des-
gem do mundo, tal como a conhecemos hoje, truindo ou redefinindo o meio rural, produzin-
foi construída e deve-se, em grande parte, à do ou ampliando as aglomerações urbanas,
Galileu Galilei (1564-1642). Para ele, a realida- modificando as formas de apropriação dos re-
de sensível era inteligível, contanto que se rea- cursos naturais e os modos de relacionamento
lizassem as análises necessárias e se aperfei- com o ambiente natural original. Thomas afir-
çoasse o instrumento matemático, como ocor- ma que “ao final do século XVIII (...) não havia
reu em seguida, principalmente com os traba- precedentes para (...) as queixas (...) sobre o efei-
lhos do físico Isaac Newton (1643-1727). to desfigurador das novas edificações, estradas,
René Descartes (1596-1650) deu continui- canais; do turismo e da indústria” ( Thomas,
dade ao processo de mudanças iniciado por 1989:339). Deste modo, os impactos ambien-
Copérnico e Galileu, sendo considerado o filó- tais não devem ser associados exclusivamente
sofo fundador da modernidade (Châtelet, com a grande indústria, dominante a partir das
1994). A respeito do projeto moderno de domi- primeiras décadas deste século. Já no século
nação racional da natureza pelo homem, Des- XVIII, o seu modo de operar se fazia sentir, al-
cartes afirma: “... conhecendo a força e as ações terando a natureza, devido, principalmente, a
do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de dois elementos fundamentais do relaciona-
todos os outros corpos que nos cercam, tão dis- mento entre atividades produtivas e meio am-
tintamente como conhecemos os diversos miste- biente: a escala e a intensidade dos impactos
res de nossos artifícios, poderíamos empregá-los (Costa, 1989). É a partir deste período que ciên-
da mesma maneira em todos os usos para os cia e tecnologia tornam-se inseparáveis.
quais são próprios, e assim nos tornar como que No domínio específico da ciência, observa-
senhores e possuidores da natureza” (Descartes, se a continuidade da fragmentação do conhe-
1966:64). A partir do método cartesiano, a ci- cimento científico. Com a valorização da filo-
são entre homem/natureza, corpo/espírito pas- sofia positiva, no século XIX, a especialização
sou a ser ‘doutrinária’, ou seja, a visão de sepa- disciplinar vai se estabelecendo como paradig-
ração e dominação tornou-se predominante ma. Moscovici afirma que “a individualização
no mundo ocidental. dos atos, dos interesses e das relações humanas,
Chatêlet diz que “caso se aceite a verdade deram vigoroso impulso à oposição sociedade e
da nova física, não se pode mais trabalhar com natureza (...). Em física, em biologia, em econo-
a mesma ontologia, com a mesma concepção do mia, em filosofia, em toda parte o indivíduo é a
ser, do real (...). É preciso reformar (...) a repre- unidade de referência (...) [e] a sociedade só po-
sentação do real, operar um deslocamento deci- deria ser um estado antagonista (...). O princí-
sivo” (Chatêlet, 1994:63). Isto significa revolu- pio das instituições e das leis políticas que hoje
cionar os conceitos aceitos até então. Embora nos dirigem têm [aí], o seu firme alicerce” (Mos-
a pretensão de tornar o homem “senhor e pos- covici, 1977:75). Este constituiu o modelo do
suidor da natureza” tivesse se mostrado, nos projeto racional para o mundo, em que a ciên-
séculos seguintes, nem tão possível, nem tão cia e a técnica são identificadas como ideais de
boa, o pensamento cartesiano ficou profunda- progresso e felicidade.
mente enraizado na cultura ocidental, desde a Apesar da crença progressista na ciência e
sociedade iluminista até os tempos atuais. na tecnologia, a exploração predatória dos re-
Dois aspectos importantes destacam-se no cursos naturais era sentida e questionada por
pensamento cartesiano: a racionalidade e o alguns grupos. O movimento romântico euro-

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peu, por exemplo, possibilitou o surgimento de da botânica e da zoologia modernas, além dos
‘novas sensibilidades’ em relação ao mundo de outras ciências biológicas, foram estabeleci-
natural: “o início do período moderno de fato dos pelos trabalhos de naturalistas amadores
engendrou essa sensibilidade cindida, da qual nos séculos XVI, XVII e XVIII. McCormick co-
sofremos até hoje” (Thomas, 1989:339). menta ainda que as descobertas do naturalista
De certa maneira condicionada a esta he- John Ray e do botânico Carl von Linné (Lin-
rança, surge, no século XX, a crítica ao projeto naeus) – cujo trabalho em taxonomia botânica
moderno de compreensão e dominação da na- foi a infância da ecologia – estimularam as pes-
tureza. As incertezas, os paradoxos e a dificul- quisas em ciências naturais, culminando nas
dade para explicar os novos fenômenos vão teorias de Darwin e Wallace.
conduzindo a ciência a buscar novos rumos. A Historicamente, a ecologia como disciplina
‘nova física’, por exemplo, proposta por I. Pri- científica tem seus primeiros fundamentos de-
gogine, demonstra-nos que os fenômenos são finidos no século XIX e Acot diz que o termo
dependentes da historicidade, que há impreci- ecologia (Oekologie) foi citado em 1866, por Er-
são nos instrumentos e nas observações objeti- nest Haeckel (1834-1919). Numa nota de roda-
vas da ciência, causando perplexidades. Assim, pé de página de seu livro Generelle Morpholo-
Prigogine & Stengers consideram que “as des- gie der Organismen, a palavra biologia é substi-
cobertas experimentais inesperadas que marca- tuída por ecologia, sendo esta definida por
ram a física nos anos 50 [tais como]: instabili- Haeckel como a “ciência da economia, do modo
dade das partículas elementares, estruturas de de vida, das relações externas do organismo ...”
não-equilíbrio [e] evolução do universo (...) (Haeckel apud Acot, 1990:27). Contudo, somen-
apontam para a necessidade de ultrapassar a te na segunda metade do século XX é que a sín-
negação do tempo irreversível (...), herança dei- tese completa da ecologia foi constituída coe-
xada pela física clássica para a relatividade e a rentemente. No presente, define-se a ecologia
mecânica quântica” (Prigogine & Stengers, como “o estudo das relações dos organismos vi-
1992:13). Deste modo, busca-se compreender vos ao seu ambiente, ou a ciência das inter-rela-
a emergência dos sistemas evolutivos e uma ções que ligam os organismos vivos ao seu am-
nova visão de mundo vai se delineando. biente” (Odum, 1986:4).
O pensamento sistêmico tentava explicar a
vida numa perspectiva holística, não reducio-
Ecologia: entre a ciência e a visão nista e fragmentária, travando-se uma disputa
ambientalista de mundo entre as concepções vitalistas e organicistas,
num sinal precursor do reconhecimento da
Antes de possuir caráter científico stricto sen- complexidade (Fernandez, 1995). O biólogo
su, a idéia de equilíbrio da natureza teve uma Ludwig von Bertalanffy, nos anos 40, propôs a
base teológica. Assim, a crença na perfeição do construção de uma espécie de ‘metadisciplina’:
desígnio divino precedeu e sustentou o concei- a Teoria Geral dos Sistemas. Segundo o autor,
to de cadeia ecológica, o qual teve, inicialmen- “somos forçados a tratar com complexos, com
te, forte conotação conservacionista. No século ‘totalidades’ ou ‘sistemas’ em todos os campos do
XVIII, a maior parte dos cientistas e teólogos conhecimento. Isto implica uma fundamental
defendia que todas as espécies da criação ti- reorientação do pensamento científico” (Berta-
nham um papel necessário a desempenhar na lanffy, 1977:19-20). Assim, a visão sistêmica in-
economia da natureza (Thomas, 1989). A visão fluenciou o surgimento de novas áreas do co-
mítica de natureza não abandonou totalmente nhecimento, dentre elas, a ciência ecológica.
as representações sociais e, ainda hoje, é ado- Odum (1986) assinala que o termo ecossistema
tada por alguns grupos do movimento ambien- teria sido proposto pelo ecologista inglês A. G.
talista. Tansley, em 1935. Posteriormente, o mecanis-
Pode-se admitir que a origem da ciência mo ecossistêmico pôde ser compreendido
ecológica está associada ao estudo de história através da associação entre as bases termodi-
natural na Inglaterra do século XVI e, conforme nâmicas do ser vivo lançadas em 1945 pelo físi-
McCormick, “o crescimento do interesse pela co Schrödinger e o modelo cibernético desen-
história natural revelou (...) as conseqüências volvido por Norbert Wiener.
da relação de exploração do homem com a na- A formulação integrada da ecologia ocorreu
tureza. Isso levou inicialmente a um movimen- no decorrer dos anos 50 e 60 com os irmãos
to pela proteção da vida selvagem (...) [e] a pri- Odum. Através da publicação Fundamentals of
meira influência sobre o movimento ambienta- Ecology (Odum, 1971), utilizaram a linguagem
lista britânico [surgiu] do estudo da história na- da termodinâmica a fim de descrever o funcio-
tural” (McCormick, 1992:22). Os fundamentos namento dos sistemas ecológicos. Desta for-

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ma, os autores afirmam que tanto os organis- moradia [oikos] e ‘crise de valores’, uma vez
mos vivos e os ecossistemas, bem como toda a que, frente à situação de integração mundial
biosfera teriam a característica termodinâmica de nosso tempo, a cooperação é imprescindí-
essencial de serem capazes de criar e manter vel, mas seria necessário o estabelecimento de
um estado de ordem interna ou de baixa entro- novos valores para o enfrentamento de tão rá-
pia. No fim dos anos 60, as pesquisas estatísti- pida transformação. A questão ecológica refe-
cas das dinâmicas das populações conduziram re-se, portanto, a uma crise de conceito e uma
à elaboração de modelos matemáticos de evo- crise de projeto (Schramm, 1992).
lução dos ecossistemas, estes vistos como sis- A constatação da crise generalizada, identi-
temas complexos, onde o conjunto de equili- ficada na ciência e refletida na sociedade, pode
bração (homeostase) pôde ser descrito por me- ser percebida como risco ou como oportunida-
canismos de retroação (feedback), conceito de de se lançarem novas bases para mudanças.
central da cibernética proposto por Nobert Deste modo, a própria ciência hoje é colocada
Wiener, na década de 40. em questão, e segundo Acot: “... na sua essên-
Assim estavam dadas as bases para melhor cia, [ela] é atravessada pelas ideologias e mar-
explicar a inter-relação dos sistemas vivos com cada pelas mentalidades (...) [,] governada por
o ambiente. A partir destes modelos ecossistê- instituições e intervém em suas criações e trans-
micos foi possível compreender melhor os im- formações (...) [sendo] tanto oriunda, como ins-
pactos da poluição sobre os sistemas ecológi- piradora das demandas sociais” (Acot, 1990:
cos,os quais, ao serem associados aos graves 189), ou seja, ela dependeria de um novo ‘qua-
acidentes ambientais, tais como: a contamina- dro epistêmico’ (Piaget & Garcia, 1987).
ção da Baía de Minamata e Nagata ( Japão, dé- A ciência e, sobretudo, seu uso técnico-in-
cada de 50); o vazamento de gases tóxicos (Se- dustrial pode tanto estar a serviço da melhoria
veso – Itália, 1976/Bhopal – Índia, 1984); os aci- das condições ambientais e conseqüentemen-
dentes de usinas nucleares (Three Miles Island te sociais, como ser utilizada para fins não tão
– USA, 1978; Tchernobyl – URSS, 1986); as mu- nobres. Assim sendo, Hottois nos diz que “a
danças climáticas; a destruição de florestas ideologia do progresso valoriza o cientista e o
com a perda da biodiversidade; a poluição ge- técnico sem os responsabilizar, quer dizer, sem
neralizada dos rios, mares, solos e atmosfera, considerar a questão ética a propósito de suas
e, ainda, ao serem agravados pelos níveis de atividades. A atividade científica (...) é julgada
pobreza e miséria da maior parte da população sempre boa (...) pois ela é [o] progresso do co-
mundial, proporcionaram importantes argu- nhecimento (...). O risco de um mau uso da téc-
mentos para interrogar o poder e os rumos no nica, de uma má aplicação da ciência, está rela-
uso da tecnociência e impulsionar os diversos cionado aos decisores políticos e sociais (...).
movimentos contestatórios em todo o mundo. Responsabilizar a ciência (...) é colocar em dú-
Com base nos novos modelos científicos, vida sua neutralidade (...) é exigir dos técnicos –
tem-se uma visão integrada dos diversos ecos- os atores da tecnociência – mais do que a sim-
sistemas terrestres, e a questão ambiental pas- ples competência” (Hottois, 1994:72).
sa a ser tratada em nível global. Por questão Seguindo este mesmo ponto de vista, Bor-
ambiental pode-se entender a contradição nheim assinala que a técnica pode salvar, mas
fundamental que se estabeleceu entre os mo- representa também o perigo, sendo ela neces-
delos de desenvolvimento adotados pelo ho- sária para a salvação da Humanidade, escon-
mem, marcadamente a partir do século XVIII, dendo, entretanto, em seu bojo o perigo da
e a sustentação deste desenvolvimento pela destruição. De certo modo, ela passou a domi-
natureza. A partir da Revolução Industrial, a nar e decidir, revelando uma margem de irra-
velocidade de produção de rejeitos da socieda- cionalidade que a aproxima do incontrolável. A
de, o avanço do mundo urbanizado e a força ambigüidade presente na tecnologia e na polí-
poluidora das atividades bélicas e industriais tica terminam por entrecruzar-se, não signifi-
superaram em muito a capacidade regenerati- cando necessariamente uma solução, mas a
va dos ecossistemas e a reciclagem dos recur- abertura para o processo de responsabilidade
sos naturais renováveis, colocando em níveis do empenho político (Bornheim, 1989).
de exaustão os demais recursos naturais não Identificamos que o período de transição
renováveis (Toynbee, 1982). atual necessitaria de uma ampla operação de
Essa problemática ambiental apontaria pa- reconceituação onde o conhecimento deveria
ra a ‘crise da relação’ (eco-lógica) – crise da ser reestruturado através de instrumentos ino-
moradia na qual a vida se faz, crise da raciona- vadores e transdisciplinares. De certa maneira,
lidade das relações que os seres estabelecem a ciência ecológica, além de opor-se ao modelo
entre si, com outros seres vivos e com a própria mecanicista/reducionista nas ciências, busca a

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integração de diversas disciplinas e propõe a mento intelectual – talvez uma daquelas ‘fases
problemática visão holística (aqui entendida críticas’ da história em que muda-se a própria
como a impossibilidade de reduzir os fenôme- maneira de ‘conceitualizar’ os problemas ...”
nos em suas partes constituintes). A este res- (Mori, 1994:2).
peito Coutinho afirma que “inevitavelmente se
impõe de novo a questão tão controversa de ser
ou não, a Ecologia, uma disciplina que tenha A ecologia em ‘movimento’
transcendido as fronteiras da ciência moder-
na, sob o ponto de vista da sua racionalidade” Coutinho argumenta que o pensamento am-
(Coutinho, 1992:128). bientalista da década de 60, apesar de toda a
Odum considera que o aumento da atenção sua pluralidade, tomou a Ecologia como inter-
pública às questões ambientais afetou profun- locutora, ou seja, adotou uma unidade discur-
damente a ecologia acadêmica. Antes dos anos siva onde o modelo de representação de natu-
70, a ecologia era vista, em grande parte, como reza fosse compatível com sua consideração
uma subdivisão da biologia e, embora perma- como algo singular e original, e sua valorização,
neça radicada na biologia, ela teria ganho a como bem ético. Por outro lado, a importância
maioridade como uma disciplina integradora atribuída à integração, às totalidades e ao ho-
essencialmente nova, que une os processos fí- lismo pavimentou o caminho para a ressacrali-
sicos e biológicos e serve de ponte de ligação zação da natureza. Esta matriz disciplinar (ou
com as ciências sociais (Odum, 1986). Por ou- paradigma) – a Ecologia dos Ecossistemas –
tro lado, Cramer & Daele afirmam que a Ecolo- propiciou a interação entre uma disciplina
gia de Ecossistemas concebe a Natureza como científica e um pensamento, cujo eixo seria
um tipo de máquina, ainda que muito mais so- uma crítica racional da modernidade (Couti-
fisticada do que o universo mecânico da física nho, 1992).
clássica (Cramer & Daele, 1985). Deste modo, a Para isso, alguns grupos pacifistas/ecologis-
ecologia é vista como uma perspectiva que su- tas europeus e norte-americanos propuseram
gere uma atitude tecnológica sistêmica e por- uma profunda transformação nos valores sedi-
tadora de valores em relação à natureza. Assim, mentados pela sociedade ocidental através de
a moralização do ecossistema ou de suas pro- uma nova relação homem/natureza orientada
priedades – sua valorização como bens éticos – por uma ‘visão ecologizada de mundo’. Rosset
seria algo acrescentado e não implicado pelo critica esta idéia por considerá-la uma re-natu-
conhecimento ecológico. A causa ecológica ralização, seja ela conservadora ou revolucio-
busca, então, ultrapassar as incertezas e ambi- nária, que, desejando negar o presente (ou o
güidades existentes, sendo entendida como artifício), recusa o fabricado (o que existe). As-
um movimento mais profundo que coloca em sim, o autor apresenta o artifício como ‘ver-
questão o conjunto de valores da modernida- dade’ da existência, e a idéia de natureza, como
de. Dupuy identifica que “as respostas que a erro e fantasma ideológico (Rosset, 1989). Ao
ecologia não traz, é em outros lugares que de- contrário, pensamos que seria possível estabe-
vem ser procuradas, ou seja, na renovação da fi- lecer uma ponte entre passado e futuro, sem
losofia política, na emergência de uma nova fi- negar necessariamente o presente, nem o arti-
losofia da natureza, na eclosão de um novo pa- fício. Como escreve Morin, “... a ecologia geral
radigma científico” (Dupuy, 1980:89). suscita o problema (...) homem/natureza no seu
Diante da problemática ambiental viven- conjunto, na sua amplitude, na sua atualidade”
ciada pelas sociedades pós-industriais moder- (Morin, 1977:45).
nas, surge a politização das questões incorpo- O movimento ecológico foi bastante in-
radas a partir dos conceitos e representações fluenciado, entre outros, pelo pensamento de
da ecologia. Desta forma, o ‘ecologismo’, visto Aldo Leopold (1949). Este argumentava que a
como movimento político, surgiu, como suge- ética a qual havia regulamentado as relações
rem Lago & Pádua, “da percepção que a atual entre os humanos e, em seguida, aquelas entre
crise ecológica não se deve a ‘defeitos’ setoriais e o humano e as várias instituições sociais, por
ocasionais no sistema dominante mas é conse- fim abriu-se a uma terceira relação envolvendo
qüência direta de um modelo de civilização in- toda a biosfera, denominando-a como a Ética
sustentável do ponto de vista ecológico (...) e so- da Terra (The Land Ethic). Assim sendo, Mori
cialmente injusto ...” (Lago & Pádua, 1985:36). diz ser Leopold o ‘patrono da ética ambiental’
Para os autores, estamos diante de uma crise (Mori, 1994:4). Impulsionados pela gravidade
única na civilização e que exige a invenção de dos problemas sociais e ambientais contempo-
um novo caminho. Da mesma forma, Mori râneos, os ecologistas partiram, nos anos 70,
considera a “nossa época [como] de grande fer- para uma estratégia de ações locais e globais.

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A QUESTÃO ECOLÓGICA 361

Neste período, as pesquisas ambientais deli- co/ideológico não apenas um ator multidi-
neavam um perfil catastrófico sobre os ecossis- mensional, mas um ator ético-prático com ca-
temas terrestres e os estudos ecológicos passa- pacidades sinérgico-sincréticas. O ambienta-
ram a orientar os discursos, baseados, entre lismo seria, para os autores, o único movimen-
outros, nos conceitos prescritivos da Ecologia to contemporâneo em condições de desenvol-
Aplicada. Posteriormente, observou-se a assi- ver valores e conhecimentos do novo tipo. Mais
milação ampla nos discursos dos setores polí- do que produzir meios para uma maior acomo-
ticos convencionais, em escala mundial. dação e/ou tolerância das diferenças, ele signi-
A Conferência Científica da Onu sobre Con- fica gerir meios sincréticos para uma ativa coo-
servação e Utilização de Recursos Naturais peração sinérgica entre atores com interesses e
(UNSCCUR-USA, em 1949) foi “o primeiro mar- perspectivas diferentes, e até mesmo contradi-
co importante na ascensão do movimento am- tórias (Viola & Leis, 1995).
bientalista internacional” (McCormick, 1992: No campo filosófico, Mori constata que a
53). O relatório do Clube de Roma, sobre os ‘li- novidade do debate ético contemporâneo seria
mites do crescimento’ (Meadows, 1978), cau- a expansão do horizonte moral desenvolvido
sou uma grande controvérsia ao defender a pa- em três níveis: da bioética (iniciada no final
ralisação do crescimento populacional, econô- dos anos 60); do movimento pela libertação
mico e tecnológico. Com base em modelos animal e da ética ecologista, onde a natureza
computacionais que deram origem ao Relató- na sua totalidade, passa a ter um valor intrín-
rio Meadows, previa-se um futuro de catástro- seco, independente da valoração humana, rei-
fes ambientais, caso o processo de crescimento vindicando uma visão não antropocêntrica de
não fosse revertido. Embora o relatório tenha mundo (Mori, 1994).
sido muito criticado por sua inconsistência e Ferry (1994) classifica as diversas correntes
excessos nas previsões, isto é, pelo seu caráter ambientalistas como: a) movimento de liberta-
malthusiano ou neo-malthusiano, diversas ção animal, onde há uma expansão do univer-
questões foram trazidas para o debate poste- so moral para os seres sencientes, sendo esta
rior, como na Conferência das Nações Unidas uma ética baseada em interesses utilitaristas,
sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocol- como a defendida por Singer (1994); b) a ecolo-
mo (1972), sendo esta, sem dúvida, um marco gia superficial, de cunho instrumental, segun-
fundamental no crescimento do ambientalis- do o qual a natureza possui caráter humanista,
mo internacional que determinou uma transi- não é considerada sujeito de direito e sua pre-
ção do novo ambientalismo emocional e oca- servação constitui-se um meio para conseguir
sionalmente ingênuo dos anos 60, para uma o bem-estar do homem; c) a ecologia profunda,
perspectiva mais racional, política e global dos defendida por Naess (1973), a qual adota uma
anos 70 (McCormick, 1992). nova ética baseada em princípios preconizado-
Na década de 80, foi dada continuidade às res de que: a valorização ética da natureza in-
questões anteriores por meio do relatório Nos- depende da sua utilidade quanto às demandas
so Futuro Comum (Brundtland, 1991), que re- práticas da sociedade; os limites objetivos de
sultou na Conferência das Nações Unidas so- qualquer ser vivo devem ser respeitados; os va-
bre Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNU- lores humanos devem ser equivalentes aos dos
MAD – (Rio de Janeiro, 1992). Com uma visão demais seres da natureza; os homens não têm
crítica deste documento, Coutinho afirma que nenhum direito que lhes assegure dominação
a ciência seria a grande redentora, segundo o sobre as outras espécies (a relação deve ser ba-
relatório Brundtland, pois dependeria dela a seada no respeito e solidariedade com os de-
realização do potencial tecnológico na solução mais); a riqueza e a diversidade da vida devem
dos problemas ambientais. Na visão crítica da ser garantidas às gerações futuras.
autora, o relatório apontava o papel que a co- Oriundos das próprias contradições da
munidade científica e as organizações não go- época atual, os posicionamentos ideológicos
vernamentais tiveram num passado recente, no interior do próprio movimento ambienta-
recomendando manter esta aliança para a lista são bastante divergentes. Schwarz &
transição do desenvolvimento insustentável ao Schwarz dizem que os ambientalistas (vistos
sustentável. Assim, a Ecologia Aplicada tornar- como ecologistas superficiais) aceitam, em
se-ia a base do discurso tecnocrático que dife- princípio, a estrutura intelectual da sociedade
renciar-se-ia conceitualmente do discurso de industrial, tentando resolver os problemas am-
denúncia da década de 70 (Coutinho, 1992). bientais neste contexto; os ecologistas ditos
Por outro lado, Viola & Leis argumentam profundos acreditam não ser possível resolver
que a complexa dinâmica do ambientalismo tais problemas, caso não se mude radicalmen-
em nível global torna este movimento históri- te o sistema de valores atuais com profundas

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362 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

substituições nos códigos culturais (Schwarz & ficiências do mercado para atingir o ponto óti-
Schwarz, 1990). Na prática, verifica-se (como mo de eficiência alocativa da economia, [defi-
mostra Coutinho) ser muito difícil analisar as ne] as bases das políticas do meio ambiente”
diferenças dos discursos no interior dos movi- (Comune, 1994:51). Nas análises econômicas
mentos ambientalistas. convencionais, as externalidades e os bens pú-
Neste contexto, o setor empresarial estaria blicos nem sempre são levados em considera-
assumindo um papel de destaque nesta nova ção e, para a eficiência de um mercado perfei-
fase do debate ambientalista. Schmidheiny – o tamente competitivo, não se contabilizam es-
principal conselheiro para Negócios e Indús- tes fenômenos por constituírem fontes de ine-
tria do secretário-geral da Conferência das Na- ficiências.
ções Unidas para Meio Ambiente e Desenvolvi- Ainda sob o ponto de vista da economia,
mento – defende que “parte da ‘sanidade am- Anderson & Leal (1992) afirmam que a ecologia
biental’ só será alcançada através da moderni- de livre mercado enfatiza a importância dos
zação dos meios de produção, sob uma ótica de processos de mercado na determinação de
custo/benefício” (Schmidheiny, 1992:35). Ao cri- quantidades ótimas da utilização de recursos.
ticar tal argumento, Tauk-Tornisielo afirma que Somente quando os direitos forem bem defini-
ele é “motivado (...) mais pela necessidade de dos, garantidos e transferíveis, é que os indiví-
racionalizar custos do que desenvolver cuida- duos com interesses próprios irão confrontar
dos com o ambiente, [refletindo ...] o novo posi- as concessões mútuas inerentes a um mundo
cionamento das indústrias diante da (...) nova de escassez. Tais autores criticam os adeptos
ordem econômica mundial, onde o aumento do desenvolvimento sustentável e consideram
sensível da competitividade passa (...) pela re- que este seria demasiadamente centrado na
dução de custos, sem a qual as empresas esta- administração científica do ambiente e basea-
rão à margem dos mercados” (Tauk-Tornisielo, do em políticas coercitivo-disciplinadoras, sob
1995:11). o controle do Estado. Dizem, fazendo apologia
Assim, a autora considera que a primeira ao mercado, que “ao contrário das soluções por
fase ecológica foi caracterizada por um certo regulamentações para os problemas do meio
‘romantismo naturalista’ que lutava pela into- ambiente, [as quais exigem dos] especialistas
cabilidade da natureza. A segunda refletia um uma postura onisciente e benévola, (...) o am-
período de informação, onde a junção da mí- bientalismo de livre mercado descentraliza o
dia com a ecologia, por um lado, e a emergên- poder e atrela os interesses próprios através de
cia de movimentos de defesa do meio ambien- incentivos de mercado” (Anderson & Leal, 1992:
te, por outro, permitiram o surgimento do 167).
‘marketing ecológico’, que causou transforma- Como podemos observar, existem posicio-
ções nas formas de percepção das questões namentos bastante controvertidos em relação
ambientais pela população. Na terceira fase da à questão do desenvolvimento sustentável e
ecologia (a da década de 90), a proteção am- Viola diferencia três posições divergentes neste
biental passa a ser vista como ‘sub-produto da debate: a) a estatista, que, através de mecanis-
racionalização de custos’, garantindo, portan- mos normativos, reguladores e promotores, vê
to, a ‘oxigenação’ dos processos produtivos no Estado o locus privilegiado do desenvolvi-
( Tauk-Tornisielo, 1995). mento social e ambientalmente sustentável; b)
Neste embate ressurgiu, a partir dos traba- a comunitária, que, por meio dos movimentos
lhos em ecodesenvolvimento na década de 60, sociais e das organizações não governamentais
o conceito de ‘desenvolvimento sustentável’, – vistos como promotores de um novo sistema
visto como “um processo de transformação no de valores, fundado na solidariedade – identifi-
qual a exploração dos recursos, a direção dos in- ca na comunidade esse lócus privilegiado; c) a
vestimentos, a orientação do desenvolvimento do mercado, que, mediante taxas/tarifas, tanto
tecnológico e a mudança institucional se har- da poluição, como do uso de recursos naturais
monizam e reforçam o potencial presente e fu- e de concessões comercializáveis de taxas de
turo, a fim de atender às necessidades e aspira- poluição, prioriza o critério da eficiência sobre
ções humanas” (Carvalho, 1991 apud Ribeiro, o da eqüidade (Viola, 1992).
1992:21). Assim, a idéia de sustentabilidade do Apesar dos confrontos entre as diferentes
ambiente e do desenvolvimento passou a ser correntes de pensamento atual, Fucks argu-
fundamental no interior das discussões da menta que as grandes questões ambientais pa-
CNUMAD/92. recem tender a um posicionamento consen-
Na visão economicista, diz Comune, “o sual entre os atores. Para o autor, este é o pro-
ponto central da teoria econômica do meio am- cesso de todos os fenômenos sociais significa-
biente [diz que] a maneira de [se] tratar as ine- tivos em que, inicialmente, tem-se a pujança, a

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A QUESTÃO ECOLÓGICA 363

pura expressão das formas de ser emergentes, portamentais, incorporando todos os setores
não codificáveis e, ao final, observa-se a assi- envolvidos com as questões sociais e ambien-
milação pelas estruturas vigentes, com o arre- tais emergentes. Para enfrentar tais desafios,
fecimento e esforço de enquadramento insti- concordamos com Jonas (1973) ao afirmar que
tucional (e cognitivo) de aspectos do fenôme- não há uma receita única, mas somente muitos
no (Fucks,1992). Contudo, consideramos que, caminhos como compromissos que, caso a ca-
a despeito da aparente acomodação dos posi- so, deverão hoje e sempre ser procurados em
cionamentos divergentes, os problemas e con- uma vigilância a cada instante.
flitos continuam em aberto, provocando mu- Quanto à viabilização de uma nova prática
danças nas configurações e ações dos movi- para o desenvolvimento, Brüseke indica a ne-
mentos sociais. cessidade de aprimoramento das teorias, con-
De acordo com Viola & Leis, ao final da dé- siderando-se a pluridimensionalidade da so-
cada de 80, o movimento ambientalista possuía ciedade global no seu contexto natural. As pro-
duas posições distintas: a) uma minoritária, postas para um desenvolvimento sustentável,
que não assumia nem as características, nem embora não consensual entre diversos autores,
as regras da dimensão política, enfatizando ati- apontam nesta direção. Na visão do autor, a in-
tudes éticas e espirituais de tendência biocên- trodução de elementos das discussões sobre
trica; b) uma majoritária, que assumia plena- sistemas dinâmicos não lineares parece opor-
mente a dimensão política, sendo esta subdi- tuna, pois, antes de antecipar a contribuição
vidida em uma subclasse minoritária, a qual desta nova teoria (agora sustentável), há que se
achava necessária uma rápida e intensa disse- elaborar melhor a capacidade de interpreta-
minação de valores ecológicos, com redistribui- ção, na tentativa de se preverem os riscos de
ção do poder político-econômico em níveis lo- fracasso de novas propostas de desenvolvi-
cal e global e em uma subclasse majoritária, de mento, mesmo que estas levem em conta as li-
caráter reformista, que apontava para a neces- mitações ecológicas e sociais em seu bojo (Brü-
sidade da adoção gradual de um novo modelo seke, 1993). Dito de outra forma, teremos que
de desenvolvimento o qual, baseado na racio- realizar previsões e tomar decisões num con-
nalidade científica, interiorizasse a sustentabi- texto de incertezas, de riscos tecnológicos, am-
lidade social e ambiental (Viola & Leis (1992). bientais estruturais e de proporções globais.
Quanto aos desdobramentos futuros para a
humanidade de questões como a desordem
Considerações finais global da biosfera, podem-se vislumbrar al-
guns cenários possíveis, tais como, continuida-
A ciência se move do conhecido para o desco- de desequilibrante; eco-autoritarismo; centra-
nhecido, tentando revelar as regularidades, as lismo ecológico global com auto-organização
leis, os processos que se acham escondidos nas democrática local e auto-eco-organização glo-
aparências, em que o método significa o cami- bal ( Viola & Leis, 1991). Contudo, para evitar
nho a ser seguido. Atualmente, por meio das que os embates produzam decisões autoritá-
Ciências da Complexidade, buscam-se teorias rias, faz-se mister a construção de uma ética
que possibilitem decifrar a linguagem univer- que possibilite orientar os rumos da tecnociên-
sal dos padrões evolutivos para os quais todos cia e da política em nível mundial.
os sistemas se dirigem. Partindo das desco- Neste sentido, Hottois propõe uma ética de
bertas da termodinâmica, da física quântica, solidariedade para a era da tecnociência, sen-
transportando-as para a biologia evolucionária do baseada, entre outros, no diálogo aberto,
dos sistemas vivos, as ciências encontram seus que implica o confronto pluralista e interdisci-
limites onde a relação entre o particular e o plinar; na ética reguladora; no pragmatismo;
universal continua um desafio e, portanto, em na não-exclusão do sentimento – a expressão
aberto. afetiva do julgamento – do conjunto de ele-
Deste modo, a complexidade poderia ser mentos que cooperam na tomada de decisão
útil para uma melhor compreensão da realida- ética; na ética da ambivalência, no sentido de
de social e ambiental que vivenciamos, indi- ser esta uma escolha, e não uma conclusão ló-
cando a necessária integração, mediante uma gica, ou um resultado mecânico; na ética evo-
Ecologia Complexa, dos pontos de vista que lutiva e da reversibilidade dos princípios; na
permaneceram durante tanto tempo fraciona- ética da co-responsabilidade (Hottois, 1994).
dos e internalizados, tanto nos indivíduos, Para Ferry, à margem do cartesianismo, do
quanto nas instituições, sendo preciso buscar utilitarismo, assim como da ecologia funda-
alternativas metodológicas, técnico-científi- mentalista, é que se deveria elaborar uma teo-
cas, político-institucionais, industriais e com- ria dos deveres com a natureza, sendo impor-

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364 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

tante realizar uma fenomenologia dos sinais do complexidade), a saber: integrar os esforços,
humano na natureza para se ter acesso à cons- superar os conflitos, tomar consciência de nos-
ciência clara do que pode e deve ser nela valo- sas responsabilidades para que se possa agir
rizado. A partir de tal base e impondo limites conseqüentemente. A tecnociência opera sal-
ao intervencionismo da tecnociência, é que a tos cada vez mais rápidos e, antes mesmo de
ecologia democrática poderia responder ao de- ser absorvida, ela nos escapa. Vislumbram-se
safio lançado, tanto na ordem política, quanto as seguintes questões: será possível indentifi-
na esfera metafísica, à sua concorrente inte- car e evitar os impactos dela resultantes? Será
grista/fundamentalista (Ferry, 1994). factível limitá-la, evitá-la, ou não? Este, con-
Acreditamos que, no contexto transitório cordamos com Ladrière, constitui um “apelo à
atual, há uma enorme tarefa para identificar inventividade ética, ao exercício da razão práti-
corretamente os problemas (sem reduzir a ca” (Ladrière, s/d:152).

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366 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

Debate sobre o artigo de Elmo Rodrigues da Silva das sobre percepção, conhecimento e uso dos
& Fermin Roland Schramm recursos naturais, que incluem a etnossistemá-
tica e etnobiologia.
Debate on the paper by Elmo Rodrigues da Silva
& Fermin Roland Schramm A noção de equilíbrio em ecologia

No artigo, cita-se em ecologia a noção de equi-


líbrio da natureza e de processos de homeosta-
se. A idéia de equilíbrio em ecologia evoluiu
bastante desde os anos 60. Como interpretam
Alpina Begossi O artigo acima reflete polêmicas sobre a ques- esse conceito os autores? Como falar em equilí-
tão ambiental, oriundas particularmente das brio sem mencionar ciclos, flutuações, estabili-
Núcleo de Estudos e áreas de ciências sociais. O assunto é sem dú- dade? Um influente ecólogo, como C. Holling,
Pesquisas Ambientais,
vida relevante, não só pela importância da área analisou em 1992 esse conceito, dentre outros
Universidade Estadual
de Campinas, ambiental, como também pela inclusão das associados, em artigo na Ecological Mono-
Campinas, Brasil. ciências sociais no debate. graphs. Então, equilíbrio em ecologia deve ser
Entretanto, gostaria de chamar a atenção usado associado a alguma definição atualizada.
para cinco assuntos que poderiam ser mais de-
finidos ou ainda elaborados: a relação entre as A ecologia de sistemas como parte
ciências sociais e a natureza; a noção de equilí- da disciplina Ecologia
brio em ecologia; a ecologia de sistemas, como
parte da disciplina Ecologia; a relação ecologia Os autores apenas citam a ecologia de sistemas
e ciências ambientais; o conceito de sustenta- de Odum, como se a ecologia como um todo
bilidade. fosse sistêmica. Essa é uma visão reducionista
da disciplina. Ou seja, a ecologia analítica, evo-
A relação entre as ciências sociais lutiva, de populações e comunidades, que ana-
e a natureza lisa as interações entre os organismos (como
competição e mutualismo, por exemplo) foi ig-
De acordo com os autores, a cisão homem/na- norada. A ecologia dos clássicos R. MacArthur,
tureza tornou-se predominante no mundo oci- E. Pianka, J. Roughgarden, D. Simberloff e T.
dental. Essa parece ser mais uma visão disci- Schoener, só para citar alguns, sequer foi men-
plinar que geral: a realidade das ciências so- cionada no artigo.
ciais não deve ser transplantada para as outras
ciências. Ou seja, a visão antropocêntrica, que A relação ecologia e ciências ambientais
exclui a humanidade da natureza, foi (é) essen-
cialmente predominante nas ciências sociais e Da ecologia de Odum, os autores saltam para
não é observada nas ciências naturais. Toman- problemas ambientais (contaminação de Mi-
do como exemplo a antropologia, houve histo- namata, usinas nucleares), citando então a
ricamente a divisão entre antropologia biológi- questão ambiental. Aqui talvez se localize a
ca (física) e cultural/social (dentre outras). Ain- origem, ou a causa, das indefinições encontra-
da em 1952, A. Kroeber (The Nature of Culture) das no artigo. A ecologia não se transformou
revelou e sustentou a dicotomia homem/natu- em ciências ambientais. É uma disciplina com
reza na análise sobre o superorgânico/orgâni- perguntas definidas, metodologias próprias e
co. Na biologia, e ecologia, a humanidade faz limitações claras dentro das ciências naturais.
parte da natureza, em todas as escalas: dos As chamadas ciências ambientais englobam
gens aos indivíduos e às comunidades. Em ou- diferentes disciplinas que se aglutinam para
tras palavras, a etologia clássica, a sócio-biolo- analisar problemas ou questões do meio am-
gia, a partir dos anos 70, e a área de modela- biente. A antropologia, ecologia, economia, en-
gem de transmissão cultural, a partir da déca- genharia, sociologia, dentre outras, de forma
da de 80, sempre incorporaram, cada uma a interdisciplinar, podem ser aglutinadas, sem
seu modo, a relação gens-cultura (natureza- perda de identidade, para enfrentar tais ques-
cultura) na análise do comportamento huma- tões, como a contaminação por mercúrio, o
no. Em outra escala, indivíduos e comunidades impacto de hidrelétricas ou ainda os proble-
humanas são analisados em relação às intera- mas da manutenção da biodiversidade na Ma-
ções com os recursos naturais: seja através de ta Atlântica. Exemplos são encontrados em
modelos evolutivos, os modelos para avaliar universidades brasileiras e do exterior: há pós-
estratégias de subsistência (como forragea- graduações e grupos de pesquisa em ecologia
mento ótimo), seja mediante análises detalha- no Brasil e em ciências ambientais (esses, in-

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A QUESTÃO ECOLÓGICA 367

terdisciplinares). Nos Estados Unidos, existem citam esses agrupamentos tanto para as cor-
cursos/grupos de pesquisa em ecologia, mui- rentes ambientalistas, como também para os
tos desses fazendo parte de institutos/divi- tópicos relacionados ao desenvolvimento sus-
sões/centros de ciências ambientais. Esses tentável.
centros em geral aglutinam equipes interdisci- No cenário ambientalista, convém lembrar
plinares (veja os diversos campi da Universida- o impacto do livro Primavera Silenciosa, no
de da Califórnia, por exemplo). A idéia de que qual Rachel Carson (1987), na década de 60, fez
as ciências ambientais são ou devem ser um um longo ensaio em linguagem acessível para
novo paradigma, holístico e transdisciplinar foi amplo público sobre os possíveis percursos e
assunto de muitos debates nos anos 60/70, in- danos de alguns dos milhares de produtos quí-
clusive no Brasil. Vale a pena analisar a evolu- micos produzidos, utilizados e despejados no
ção desse pensamento ou proposta. ambiente. Um grande público foi atingido com
esse livro, apesar de alguns erros e exageros ne-
O conceito de sustentabilidade le contidos. A toxicologia ambiental, uma rele-
vante disciplina da ciência ambiental, pode ser
Diante das inúmeras definições (ou indefini- considerada a versão acadêmica do conteúdo
ções?) do que é ou deve ser ‘sustentável’, sugiro desse livro de cunho ambientalista.
que os autores comentem sobre conceitos de No cenário acadêmico, os autores citam os
sustentabilidade. Muitas definições são citadas modelos ecológicos propostos por Odum (1985)
em artigos relativamente recentes, como em na década de 70, como forma de entender a
Gatto, 1995 (Sustainability: it is a well definid nossa casa. Nesse caso, a entropia (tendência
concept? Ecological Applications, 5:1181-1183); ao caos, dispersão) deve ser considerada nos
Goldman, 1995 (Threats to sustainbility in afri- modelos propostos. Utilizar modelos para en-
can agriculture – searching for appropriate pa- tender e predizer tendências foi um avanço
radigms. Human Ecology, 23:291-334) e Goo- significativo em ciência. Em momento poste-
dland, 1995 ( The concpet of environmental rior, Lovelock (1989) propõe um modelo globa-
sustainbility. Annual Review of Ecology and lizado na forma de Terra viva. A hipótese de
Systematics, 26:1-24). Gaia trata o planeta Terra como um único or-
Vale salientar a relevância atual do assunto, ganismo, possuindo, desta forma, vários meca-
especialmente para as ciências sociais e am- nismos de homeostase, resiliência, ou também
bientais, de uma maneira geral. É então funda- o caos, que regulam as muitas taxas metabóli-
mental que conceitos e disciplinas menciona- cas, importantes aspectos da vida, também
dos no texto estejam bem descritos, explicita- mérito de discussão. A idéia de Gaia é contro-
dos e fundamentados. versa quanto à questão capacidade de suporte
de poluição no planeta. Alguns grupos am-
bientalistas consideraram “que a idéia de Gaia
dá à indústria o direito de poluir o quanto qui-
ser ...” (Lovelock, 1989), o que obviamente o
autor defende como sem fundamento, enfati-
zando justamente a perspectiva contrária.
Nas políticas públicas pode-se discutir a
questão do desenvolvimento sustentável, que,
Ana Amélia Os autores abordam primeiramente uma pers- no contexto democrático, deve convergir ciên-
Boischio pectiva histórica das várias etapas do pensa- cia (enquanto ecologia) e qualidade de vida
mento acadêmico, especialmente o filosófico, das populações humanas. O desenvolvimento
Departamento de Ciências sobre as relações sociedade-natureza. A abran- sustentável é um termo amplo que abriga vá-
Biomédicas, Universidade
gência do tema permite-nos acrescentar inú- rias definições em torno de “...garantir a dispo-
Federal de Rondônia,
Porto Velho, Brasil. meros desdobramentos e discussões. Por nibilidade de recursos para gerações futuras...”.
exemplo, vale lembrar que o arcabouço institu- No entanto, tal desenvolvimento impõe políti-
cional contextualiza a racionalidade científica, cas públicas de questionável praticabilidade
que varia de acordo com os cenários. Podemos nas circunstâncias vigentes, especialmente nos
considerar o cenário acadêmico (através da países do Terceiro Mundo. Mais recentemente,
ecologia enquanto ciência), o ambientalista as ações comunitárias têm ganho significativa
(através dos movimentos contestatórios, asso- atenção. A sociedade civil mobilizada através
ciações comunitárias) e o de políticas públicas de organizações não governamentais (ONGs) é
(via ações governamentais). Dentro de cada ce- um encaminhamento para a democratização
nário existem várias formas de agrupar as dife- dos processos decisórios pelas comunidades
rentes tendências e muitas ligações. Os autores habitantes das muitas aldeias do mundo. Mui-

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368 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

tos dos caminhos percorridos pela questão


ambiental, via quaisquer dos cenários conside-
rados, deve ser associado ao papel da mídia na Dennis Werner O ensaio de Silva e Schramm apresenta muitos
projeção dessas questões sobre o público. temas interessantes e importantes para deba-
Em todos esses cenários apontados, preva- Departamento de te: história da ciência, critérios para definir éti-
Antropologia,
lece o privilégio da nossa geração: podemos ca, características de movimentos sociais, rela-
Universidade Federal
gerenciar uma enorme quantidade de informa- de Santa Catarina, ções do ser humano com o seu meio ambiente.
ções, que permitem desenvolver uma ciência Florianópolis, Brasil. Poderia questionar alguns detalhes na argu-
complexa de aspecto interdisciplinar, sem mentação, como, por exemplo, a afirmação ci-
comprometer a profundidade necessária da tada pelos autores de que “estamos diante de
mesma. A quantidade de arquivos que podem uma crise única na civilização”, que se deve ao
ser ativados para redesenhar modelos e utilizar modelo de civilização insustentável do ponto
os mesmos como base para análises, discus- de vista ecológico (em outro trabalho – Werner,
sões e decisões torna a questão ambiental, co- 1987 – argumentei que a queda de muitas civi-
mo também muitas outras, objeto de uma épo- lizações antigas na Mesopotâmia, Egito, Méxi-
ca informatizada, que possibilita o desenvolvi- co e Estados Unidos deviam-se a crises ecoló-
mento de uma Ecologia Complexa, como a su- gicas decorrentes dos modelos insustentáveis
gerida pelos autores. destas sociedades). Mas gostaria de dedicar es-
É também importante incluir a questão éti- tes comentários a algumas questões que per-
ca como parte da proposta de Ecologia Com- meiam a discussão e que, ao meu ver, merecem
plexa. A ética da solidariedade, diferente da éti- uma reconsideração.
ca competitiva, deve permanecer. A qualidade É quase automático hoje em dia reclamar-
de vida eqüitativa atual e futura em todas as al- se de três características dos trabalhos científi-
deias deve ser a prioridade do percurso huma- cos dos nossos antepassados, que agora são
no na Terra. Alguns autores (Katz & Oechsli, consideradas ultrapassadas – o determinismo,
1993) discutem também a perspectiva da ética o reducionismo e o simplismo. Gostaria de
antropocêntrica. Esses autores sugerem que adotar o papel do advogado do diabo aqui e ar-
existe uma obrigação moral à natureza e aos gumentar que ainda precisamos destas três
ecossistemas, propondo portanto uma visão maneiras de pensar.
não antropocêntrica nas ações ambientais, o Os autores deste ensaio não reclamam do
que não combina muito com a questão de de- determinismo, mas os seus questionamentos a
senvolvimento sustentável por parte das políti- respeito do mecanicismo talvez não sejam tão
cas públicas. distantes. Por determinismo podemos adotar a
O texto manifesta a utopia mencionada no definição mais ampla de Bunge (Bunge, 1979:
título ao indicar alguns aspectos da impratica- 13) – a manutenção da “hipótese de que eventos
bilidade do paraíso! ocorrem em uma ou mais maneiras definidas,
que as maneiras de vir a ser não são arbitrárias,
CARSON, R., 1987. Silent Spring. Boston: Houghton mas obedecem a leis, e que os processos pelos
Mifflin Company.
quais o objeto adquire as suas características se
LOVELOCK, J., 1989. The Ages of Gaia. Oxford: Oxford
University Press.
desenvolvem a partir de condições pré-existen-
KATZ, E. & OECHSLI, L., 1993. Moving beyond an- tes”. Desde que obedecesse a algumas leis, até
thropocentrism: environmental, ethics, develop- o acaso poderia ser considerado determinado.
ment, and the Amazon. Environmental Ethics, 15: Neste sentido, não importa muito se God plays
49-59. dice (ou talvez, melhor, se Dice play God) para
as nossas noções de determinismo. Mesmo se
aceitamos um ‘indeterminismo’ (ou casualida-
de) no nível quântico, podemos continuar a
trabalhar com determinismos probabilísticos.
De toda maneira, o comportamento dos quan-
ta não implica um indeterminismo em outros
níveis de análise (tal conclusão seria reducio-
nista). Hoje, com as revelações da matemática
do caos, muitos duvidam até do indeterminis-
mo quântico (Davies & Brown, 1993). É possí-
vel, por exemplo, que o que vemos como inde-
terminismo seja simplesmente a nossa impos-
sibilidade em conhecer suficientemente bem
as condições iniciais de um processo (Stewart,

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A QUESTÃO ECOLÓGICA 369

1995). Mas, mesmo se nós nunca podemos ter tra é a idéia de uma “linguagem universal dos
certeza das coisas, isto não implica necessaria- padrões evolutivos para os quais todos os siste-
mente que a própria realidade seja casuística, mas se dirigem”. Esta maneira de pensar lem-
e o fato de precisarmos lidar com incertezas bra muito a teologia natural da Inglaterra dos
não invalida a procura para regularidades. séculos passados. “For there is a language of
Os autores são mais enfáticos quanto ao flowers, and the flowers are peculiarly the poetry
problema do reducionismo, vendo com bons of Christ”, escrevia o letrista louco dos hinos
olhos uma diminuição nesta questão nas últi- anglicanos, Christopher Smart. Naquela época,
mas décadas. Reducionismo geralmente refe- a perfeição das adaptações de plantas e ani-
re-se à explicação de um fenômeno em termos mais servia para demonstrar a existência de
de outros fenômenos num nível mais baixo. um desenhista maior – Deus. Tenho a impres-
Por exemplo, descobertas químicas são expli- são que alguns matemáticos querem ressusci-
cadas em termos da física (o que marcou mui- tar o Deus de Spinoza (Deus = leis da Nature-
to da história da química – Atkins, 1995); fenô- za), ou outras filosofias idealistas. Respeito o
menos biológicos são exemplificados em ter- empenho dos matemáticos em tentar entender
mos da química (os avanços atuais na área de o desenvolvimento de conjunturas complexas
biologia molecular são neste sentido). Embora estáveis, mas questiono o alcance destas teo-
os autores afirmem que o reducionismo está rias em explicar tudo que precisamos saber so-
diminuindo na ciência, há muita evidência de bre o ser humano e os ecossistemas. O proble-
que está acontecendo o contrário. Como argu- ma é que a seleção natural é oportunista. Junta
menta Dennett (Dennett, 1991:455), sólidos, lí- peças disponíveis num ato de ‘bricolagem’ pa-
quidos e gases podem ser explicados em ter- ra construir algo que funciona no momento. Is-
mos de coisas que não são conscientes. to implica imperfeições. Com efeito, Darwin
Esta observação não nega a importância de teve que passar muito tempo demonstrando a
análises independentes feitas em diferentes ní- imperfeição das adaptações para se defender
veis. Podemos explicar muitos aspectos de pro- contra os teólogos naturais.
gramas de computador, como o Word, inde- Os adeptos da teoria da complexidade po-
pendentemente de funcionarem num Apple ou dem achar que vestígios desta ‘bricolagem’ (co-
num IBM, embora saibamos que no nível da mo o nosso apêndice, ou ponto cego dos nos-
programação de máquina os programas são di- sos olhos) são ‘meros detalhes’ sem importân-
ferentes. Da mesma maneira, Durkheim argu- cia no caminho “para os padrões evolutivos pa-
mentou (e Radcliffe-Brown e Murdock demos- ra os quais todos os sistemas se dirigem”. No en-
traram) que alguns aspectos de uma sociedade tanto, nós precisamos conviver com estes e ou-
podem ser analisados sem referência à psico- tros ‘acidentes’ que encontramos neste cami-
logia ou simbologia dos indivíduos que a com- nho. Em outro trabalho (Werner, no prelo), ar-
põem. Nem a análise logística do trânsito pre- gumentei que uma visão da realidade mais
cisa levar em conta as particularidades de to- darwinista ajudaria a evitar os problemas do
dos os veículos. No entanto, uma análise ver- idealismo e o desespero dos fenomenalistas.
dadeiramente holística teria que pensar nos di- Uma maior atenção à idéia de seleção natural
ferentes níveis da realidade e lidar com as co- já tem ajudado a entender processos tão varia-
nexões entre eles. No mínimo, a análise de um dos como a imunologia, a computação (Cziko,
nível deve evitar pressupostos claramente erra- 1995), a psicologia e a aprendizagem (Cziko,
dos quanto ao nível imediatamente abaixo. 1995; Barkow et al., 1992), a moralidade (Wright,
Uma análise do trânsito não deve pressupor 1996; Rachels, 1991), a cooperação (Axelrod,
que veículos podem parar num segundo, e uma 1990) e a própria origem das leis do universo
análise de sociedades humanas não deve pres- (Dennett, 1995). Acho que reflexões sobre as
supor que as pessoas obedecem cegamente às relações entre o ser humano e seu meio am-
autoridades ou aos apelos à solidariedade. biente beneficiam-se muito destas idéias. Tal-
A atitude dos autores quanto ao simplismo vez os movimentos percam um pouco o seu sa-
vê-se no seu endosso entusiasta para as teorias bor místico. Ou, quem sabe, talvez, aprenda-se
da complexidade, atribuindo a estas idéias melhor a direcionar este misticismo para fins
uma ressacralização da natureza. Suspeito que mais justos e ecológicos.
há várias reflexões metafísicas envolvidas aqui.
Uma é o pressuposto de que “tudo está relacio- ATKINS, P. W., 1995. The Periodic Kingdom: A Journey
into the Chemical Elements. New York: Basic
nado com tudo”, uma idéia que filósofos como
Books.
Bunge (1979) rejeitam, preferindo imaginar a AXELROD, R., 1990. The Evolution of Cooperation.
realidade como existindo em módulos de ne- New York: Penguin.
xos causais relativamente independentes. Ou-

Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 13(3):355-382, jul-set, 1997


370 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

BARKOW, J.; COSMIDES, L. & TOOBY, J., 1992. The


Adapted Mind: Evolutionary Psychology and the
profundidade desconhece. Fala da filosofia oci-
Generation of Culture. New York: Oxford Univer- dental como se fosse a única, da história me-
sity Press. dieval como se fosse a pródiga, passa pela eco-
BUNGE, M., 1979. Casuality and Modern Science. logia como se fosse um pássaro, pela proposta
New York: Dover Publications. de um desenvolvimento sustentável como se
CZIKO, G., 1995. Without Miracles: Universal Selec- fosse sólida, para acabar vazio como um paco-
tion Theory and the Second Darwinian Revolu-
te flácido. Termina por reconhecer que: “Par-
tion. Cambridge: MIT Press.
DAVIES, P. C. W. & BROWN, J. R., 1986. The Ghost in tindo das descobertas da termodinâmica, da fí-
the Atom. New York: Cambridge University Press. sica quântica, transportando-as para a biologia
DENNETT, D., 1991. Consciousness Explained. Boston: evolucionária dos sistemas vivos, as ciências en-
Little Brown and Co. contram seus limites onde a relação entre o par-
DENNETT, D., 1995. Darwin’s Dangerous Idea: Evolu- ticular e o universal continua um desafio e, por-
tion and the Meaning of Life. New York: Simon
tanto, em aberto”.
and Scuster.
Deixo de lado algumas distorções factuais e
RACHELS, J., 1991. Created from Animals: The Moral
Implications of Darwinism. New York: Oxford cronológicas, como a de mencionar que Co-
University Press. pérnico e Vesálio teriam utilizado o método ex-
STEWART, I., 1995. Nature’s Numbers: The Unreal Re- perimental e indutivo. Dupla falta, primeiro
ality of Mathematical Imagination. New York: Ba- porque a indução, em ciência, é devida a Fran-
sic Books. cis Bacon, que tinha três anos quando morreu
WERNER, D., 1987. Uma Introdução às Culturas Hu-
Vesálio, e as obras do astrônomo, como as do
manas: Comida, Sexo, Magia e Outros Assuntos
Antropológicos. Petrópolis: Vozes
anatomista, são bons exemplos do exercício da
WERNER, D. Epistemologia Darwinista: Evolução e o observação e da dedução, mas não da experi-
Pensamento de Animais, Humanos, Intelectuais e mentação.
Antropólogos. Florianópolis: Editora da UFSC, Passo a analisar o texto em sua essência e
(no prelo). não em seus detalhes.
WRIGHT, R., 1996. O Animal Moral: Porque Somos co- Muito tem-se escrito sobre a eclosão, nas
mo Somos. A Nova Ciência da Psicologia Evolu-
duas últimas décadas, do interesse popular pe-
cionista. Rio de Janeiro: Campus.
las questões relativas ao uso racional dos re-
cursos naturais e sobre o ambientalismo como
movimento político. Boa parte dessa literatura
pretende estabelecer uma ponte entre a ciên-
cia ecológica e as questões sociais e políticas
relativas ao uso dos recursos, à poluição e às
mudanças globais. A maior parte falha frente à
falta de conhecimentos de ecologia, errada-
mente subordinada à biologia, e, em boa medi-
Fernando Dias Ecologia, meio ambiente, holismo e ética são da, devido à amplitude e generalidade dos ob-
de Ávila-Pires palavras da moda. A chamada questão ecológi- jetivos temáticos pretendidos. Espera-se da
ca certamente é importante, mas, como bem ciência ecológica respostas que devem ser bus-
Departamento de definiu L. V. Bertalanffy, citado em outro con- cadas na ecologia política e a solução de pro-
Medicina Tropical,
texto pelos autores do artigo aqui comentado, blemas para os quais ela não dispõe de meto-
Instituto Oswaldo Cruz,
Fundação Oswaldo Cruz, “... doubtless there is a new compass of thought dologia.
Rio de Janeiro. but it is difficult to steer between the Scylla of Alguns aspectos formais precisam ser avalia-
the trivial and the Charybdis of mistaking neo- dos para que se possam abordar tais proble-
logisms for explanation”. mas.
A leitura do texto deixou-me frustrado e O modelo de ecossistema geralmente cita-
preocupado. Constitui um exemplo perfeito do do é um modelo didático, destinado a ilustrar a
estilo de certa literatura moderna sobre am- circulação de nutrientes e a transferência de
bientalismo e ecologismo, temas de importân- energia nos sistemas ecológicos. Não se aplica
cia atual indiscutível, freqüentemente tratados literalmente às comunidades bióticas na natu-
de forma incorreta. Cobre um extenso leque de reza e, muito menos, àquelas caracterizadas
temas, que são abordados com uma superficia- pela presença humana, atualmente denomina-
lidade que contrasta com afirmativas generali- das geossistemas. Existe uma extensa literatura
zantes e categóricas, apoiadas em uma biblio- sobre ecologia humana, usualmente ignorada
grafia parcial, insuficiente para permitir a dis- nessas discussões.
cussão aprofundada dos assuntos tratados. Um longo caminho teve que ser percorrido
Passa pela filosofia e pela história com o des- antes que fosse possível chegarmos ao concei-
cuido de quem brinca ao lado de um poço cuja to de ecossistema, passando, por exemplo, pe-

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A QUESTÃO ECOLÓGICA 371

las contribuições pioneiras à química de Lavoi- conservacionista, desenvolvimento econômico


sier, à nutrição vegetal de Liebig, à fermenta- e relações internacionais, envolvendo o uso
ção, putrefação e decomposição de Pasteur, compartido de recursos naturais, não são ime-
pela elucidação dos processos de síntese das diatas, nem diretas, nem singelas. Não é o ecó-
substâncias orgânicas, pelas filosofias vitalis- logo, como tal, que vai decidir sobre questões
tas, e pela natureza dos mecanismos da sele- políticas, econômicas ou éticas. A ecologia não
ção, competição e evolução, de Darwin e Wal- possui instrumental técnico ou metodológico
lace. que o permita.
A idéia de que a ecologia é um ramo da bio- Quem pretende entrar em uma discussão
logia constitui uma distorção comumente en- que se propõe a abordar as relações entre a
contrada na literatura leiga. Se suas raízes pio- ciência ecológica e a ideologia de uma época
neiras vêm da fitogeografia e da botânica, sua apoiado, apenas, nas obras (traduzidas) cita-
natureza complexa e multidisciplinar foi moti- das (Acot, Lago & Padua e uma edição antiga
vo de um comentário pertinente de Clements e do livro-texto de Odum), não pode esperar
Shelford em uma obra que marcou época (Bio- atingir seus objetivos. Seria o mesmo que en-
ecology, John Wiley, 1939): “... students of eco- frentar uma discussão sobre a crise religiosa no
logy will continue to be trained primarily as bo- mundo moderno apoiado em um catecismo
tanists, zoologists, sociologists, or economists for escolar, ou discutir o desenvolvimento da ciên-
some time to come – probably indeed as long as cia e tecnologia em relação aos impactos am-
university depertments are organized on the bientais nos países de primeiro e terceiro mun-
present basis”. Solo, clima e os demais fatores dos sem o recurso da moderna historiografia e
do ambiente abiótico fazem parte das análises da perspectiva histórica, que não se encontram
ecológicas, tanto quanto sua componente bió- nos livros escolares.
tica. No caso da ecologia humana, métodos e Não acredito no resultado de discussões
conceitos das ciências sociais fazem parte do que não partam da definição exata dos objeti-
instrumental de pesquisa. Aliás, a ‘formulação vos, dos termos utilizados, da solidez e corre-
integrada’ (p. 9) não ocorreu com os irmãos ção dos fundamentos históricos em que se
Odum, mas no início do século. apóiam os argumentos e da precisão dos fatos
Entretanto, não reside apenas aí a fonte dos científicos alegados em suporte às idéias de-
problemas detectados na literatura ecologicis- fendidas. E, nos escritos, impressiona-me mal
ta atual. Reside também no tipo de confusão o excesso de aspas, que significam que o autor
conceitual que se faz entre religião e igreja, não se deu ao trabalho de buscar uma palavra
educação e ensino, política e ação partidária, ou expressão que exprima exatamente o que
ciência econômica e economia política, ecolo- pretende dizer.
gia e meio ambiente ou natureza. Freqüente- Acredito, porém, que cabe-nos como pes-
mente confunde-se instituição com ação, a dis- quisadores e professores um papel importante
cussão teórica com a análise de casos, a norma no questionamento sério e na análise aprofun-
estabelecida com a contravenção praticada, a dada de questões fundamentais. Questiona-
regra com a distorção. Para muitos, a ecologia mento baseado em bibliografia apropriada e
constitui a moderna encarnação da própria na- no conhecimento aprofundado dos temas ana-
tureza e defender a ecologia é sinônimo de pre- lisados, transmitido em terminologia precisa e
servar o meio ambiente – como se defender a com definições claras. Desta responsabilidade
etnologia significasse a defesa das etnias mino- lembrou-nos Ruy Barbosa ao reconhecer que:
ritárias. “O vício essencial entre nós /é que/ o pouco de
A ciência ecológica busca elucidar a trama ciência que se ensina segue métodos que levam
de relações existentes entre organismos e os fa- a decorar e repetir e nunca a desenvolver a ca-
tores bióticos e abióticos do meio. Seu conhe- pacidade de pensar e analisar. Estas faculdades
cimento é indispensável à compreensão dos vão produzir, então, doutores incapazes de ver a
problemas da produção primária, da conserva- natureza presente, mas capazes de sustentar,
ção dos recursos renováveis e não renováveis, com todas as pompas da retórica, as hipóteses
do controle de pragas, parasitos vetores e hos- mais inverificáveis sobre a existência do incog-
pedeiros não humanos de certas enfermidades. noscível” (Ruy Barbosa, 1882).
A análise da capacidade de resposta à explora-
ção ou de absorção de resíduos deve ser feita à
luz das teorias ecológicas e com o auxílio de
metodologias desenvolvidas por ecólogos.
Mas as relações entre ciência ecológica e
política ambiental, economia política, política

Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 13(3):355-382, jul-set, 1997


372 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

É certo que a sociedade não deve, e jamais


ficará passiva diante do egoísmo de alguns.
Jorge Campos É importantíssimo ressaltar de início que o Mas parece, diante do fracasso de certos pro-
Valadares trabalho examina, de maneira praticamente cessos didáticos, de certos planos urbanos, re-
exaustiva, o pensamento mais substancioso gionais e globais, e também daqueles de pre-
Escola Nacional de sobre o tema da ecologia que possa interessar servação do ambiente em geral, que a ‘vigi-
Saúde Pública,
a cogitação de nossa época. É, por isso, um do- lância’ não deve ocupar lugar privilegiado nos
Fundação Oswaldo
Cruz, Rio de Janeiro, cumento de muito grande valor. processos educativos. Assim, parece central
Brasil. Os comentários feitos a seguir serão mais que algum método de formação deixe de lado
relacionados com o que diz respeito às formu- perspectivas mais ideais de controle, com rela-
lações vinculadas à condição humana dos ‘su- ção à não-‘con-sider-ação’ dos sujeitos, os
jeitos’, relativa aos indivíduos, os quais são quais não se submetem e que a qualquer mo-
sempre descentrados, pelo simples fato de se- mento podem se fazer presentes, com o retor-
rem, em sua mais profunda (sub)essência, lan- no do que lhes foi imposto esquecer, mesmo
çados (jectum) de um lugar, do qual quase por um ‘bom comportamento’ sempre espera-
sempre não se lembram, de algo central, mas do. A ecologia e seus limites são um campo pri-
esquecido, por razão de ‘con-veniências’, sem- vilegiado para essa formação, que teria, a nos-
pre pessoais. Nessa perspectiva, examinaremos so ver, o sentido dado no trabalho de preparo
dois significantes considerados no texto: a vigi- da militância do Movimento dos Trabalhadores
lância e a solidariedade. Rurais Sem Terra, e da formação de psicanalis-
A maior ou menor artificialidade ou natu- tas. Aí, o que foi esquecido é continuamente
ralidade que sujeito humano consegue admi- revisitado, pois o central a ser construído, for-
tir, colocar diante de si, dependerá, se marca- mado é uma nova imagem (building) da vida,
mos nossa reflexão pelo percurso do pensa- sempre em tempo de formação (building) e,
mento freudiano, do movimento, sempre pes- então, os ressentimentos pelas privações não
soal, a partir de uma cisão interna definitiva, seriam colados ao que é necessário faltar, nu-
entre natural e cultural, moduladora do mun- ma perspectiva do bem comum, sem o qual os
do emocional, que é eixo para a hominização. próprios sujeitos não existem. O que a psica-
Note-se que, assim pensando, a essência do nálise tenta mostrar é que uma regressão, ou
humano é a artificialidade, a modelagem e a um ‘re-voltar’ da ordem do rancor, acionada
modulação, a simulação, ou mesmo a dissimu- por uma necessidade vivida no presente, pode
lação. levar os sujeitos a uma passagem ao ato, onde
O cuidado necessário manifestar-se-ia, por gestos impensados, impedem a evolução do
isso, inicialmente, com uma visão mítica da pensamento, a única chance para a evolução
natureza, e haveria a possibilidade, neste caso, da cultura, pois a reflexão parte da contínua
de um equilíbrio que, em nossa visão, somente ‘re-con-sider-ação’ do egoísmo.
seria possível na ordem do divino. Essa postura O trabalho com a ecologia, pelas metáforas
é aquela que parece nortear, também, a visão que possibilita, pode ser um recurso útil não
dos teóricos que olham para os grupos, vendo somente no trato de fontes naturais limitadas,
sujeitos aí envolvidos, sempre em conflitos ín- mas também no desenvolvimento da cons-
timos e tomados, cada um, por diferentes arti- ciência do que seja o caminho do humano.
fícios do viver, e, com isso, não teriam jamais, Neste aspecto, é central a aceitação da carên-
acesso a uma homeostase do corporal. Esta, cia, a consideração da cárie, como centro da
em uma visão bastante ideal, poderia ser, em constituição humana, onde algo de início está
alguma situação, ligada àquele ‘equilíbrio definitivamente perdido e onde o precário ins-
ecológico’ que, por sua vez, estaria, paradoxal- tala-se como fundador.
mente, à prova das emoções que o fizeram co- Nessa perspectiva, qualquer solidariedade
mover-se com a natureza, ou seja, à prova da somente seria possível na medida em que não
necessidade ou do interesse (Freud, 1974b,c) mais houvesse a necessidade de uma urgente
que, mais profundamente, aciona-os. obturação de faltas, que, vistas como falhas, ra-
Movidos por essa forma de análise, não te- teios, poderiam ser consideradas justamente
ríamos, por exemplo, por que nos admirar com como o lugar de encontro do humano. A falha,
a posição do Brasil em Estocolmo em 72, nem esse espaço de desamparo e de abandono (Hil-
com os pescadores famintos que não respei- flosigkeit, Freud, 1974), ocasionado por uma
tam a regulamentação da periodicidade da prematuridade sempre presente no momento
pesca, muito menos com a mortalidade ou da enunciação, que parte do sujeito, impedirá a
morbidade elevadas, sobretudo quando se tra- eficácia de discursos plenos, complementares,
ta da infância. próprios da repetição de enunciados de outros.

Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 13(3):355-382, jul-set, 1997


A QUESTÃO ECOLÓGICA 373

Do centro da solidão que sempre evoca es-


se lugar, próprio do sujeito, e somente de onde
ele poderá escrever seu nome próprio, que não José Maria G. de Sobreviver ou não sobreviver. Eis a questão!
é um ato cartorial, é que nascerá alguma possi- Almeida Jr. Mais do que uma mera paráfrase, essas são as
bilidade para o gesto solidário. A capacidade alternativas – cruciais! – que se colocam para a
de solidão está imediatamente ligada à capaci- Instituto de Ciências humanidade nesta transição de século. Por
Biológicas, Universidade
dade de preocupação (concern) ( Winnicott, quê?
de Brasília, Brasília,
1982). Por isso, defendemos a idéia de que esse Brasil. Porque evidências cotidianas inquestioná-
espaço, quer do ponto de vista ambiental mais veis do mundo contemporâneo mostram-nos
amplo, quer do ponto de vista da arquitetura o planeta no seu ponto crítico (Brown et al.,
mais imediata e dos dispositivos institucionais, 1984-86), o que nos leva a dois axiomas inexo-
no lugar de fortificar uma vigilância, deve in- ráveis (Almeida Jr., 1994):
centivar práticas de desenvolvimento de ima- 1) A Terra depende de certos arranjos nas con-
ginário onde os movimentos relativos ‘peque- dições físicas, biológicas e culturais, numa es-
nos grupos’ (Valadares, 1994) devem ser inten- cala espaço-temporal, para sua conservação
samente independentes do número de pessoas em equilíbrio dinâmico (sustentabilidade evo-
– as árvores telemáticas ou o grupo momentâ- lucionária). Assim, a prevalecerem os modelos
neo ‘da copa’ de um departamento podem ser de desenvolvimento da ordem mundial vigen-
exemplos – e onde o murmúrio possa exercer te, que se caracterizam por romper constante-
sua função de elaboração da dor e de elevação mente o equilíbrio dinâmico desses arranjos, o
do protesto contra a repetição. planeta é insustentável a longo prazo – tempo
O fenômeno do consumo tem elevado o ní- entre 100 e 1.000 anos aproximadamente.
vel do mal-estar, pela pobreza psíquica que 2) Os modelos de desenvolvimento refletem
acarreta, a partir de artifícios do mascaramen- os paradigmas de percepção, pensamento e
to da repetição, inclusive com a internacionali- ação (cosmologias) da humanidade como um
dade editorial, com mecanismos de racionali- todo e de cada sociedade e cultura humana em
zação que chegam a exasperar, pela total frieza particular. Portanto, a sustentabilidade evolu-
diante do outro que, no caso, não merece a mí- cionária futura da Terra depende de profundas
nima comoção. Com a informática, todos so- mudanças nos paradigmas cosmológicos pós-
mos autores e editores. Isso traz para a indús- industriais que levem a modelos de desenvol-
tria editorial uma fúria divulgadora sem prece- vimento ecologicamente auto-sustentáveis e,
dentes. A informação toma, então, o lugar da desse modo, a uma nova ordem mundial.
formação e os sujeitos usam as modas edito- Assim, aceita-se como factual o estarmos
riais como espaço de camuflagem de seu aban- diante do sobreviver ou não sobreviver – lem-
dono e da voracidade correspondente, especu- bre-se aqui, nesse sentido, que no ano de 1996
larizada na tensão de uma ecologia de ideais morreram de fome, no planeta, 76 pessoas por
que pode ser devastadora. minuto, 50% crianças, e que o homem extin-
gue, direta ou indiretamente, 72 espécies de se-
FREUD, S., 1974a. O futuro de uma ilusão. In: Obras res vivos por dia, três por hora (Myers, 1993) –,
Completas, vol. 21, pp. 13-71.
não nos deve escapar o caráter moral inerente
FRUD, S., 1974b. Sobre o narcisismo. In: Obras Com-
pletas, vol. 10, pp. 89-119.
às escolhas suscitadas por essas alternativas;
FREUD, S., 1974c. A concepção psicanalítica dos tampouco deve-nos escapar a natureza com-
problemas psicogênicos da visão. In: Obras Com- plexa, multidimensional, da questão.
pletas, vol. 11, pp. 193-203. De fato, a questão em pauta é ecológica,
VALADARES, J. C., 1994. Espaço, Ambiente e Situação porque diz respeito às relações interdependen-
do Sujeito. Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: Es- tes da espécie humana e do planeta como um
cola Nacional de Saúde Pública, Fundação Os-
todo; é política e, como tal, estratégica, social,
waldo Cruz.
WINNICOTT, D. W., 1982. O Ambiente e os Processos econômica e cultural, porque remete-nos ao
de Maturação. Porto Alegre: Editora Artes Médi- compromisso com a ação visando à sobrevi-
cas. vência do homem e da Terra e é ética, porque
encerra valores morais diante de um bem juri-
dicamente protegido – a vida, em todas as suas
formas, manifestações e relações.
Posto isso, quero dizer que concordo, de
um modo geral, com os autores Elmo Rodri-
gues da Silva & Fermin Roland Schramm no
seu artigo A questão ecológica: entre a ciência e
a ideologia/utopia de uma época. Mas desejo

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374 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

que essa concordância seja entendida à luz do & S postulam que racionalidade, antropocen-
que exponho nestes comentários. trismo, industrialização etc. engendram a crise
É conservador ter e procurar passar uma ambiental. Ora, problemas ambientais são um
percepção da questão ecológica como um elo pouquinho anteriores a Descartes. Crises sé-
comum entre ciência e ideologia, entre racio- rias de sobre exploração e salinização de solos
nalismo e ‘emocionalismo’. cultivados ocorrem na Mesopotâmia (1700
Por outro lado, é revolucionário ter e passar a.C.); desflorestamento predatório leva a crises
uma percepção da questão ecológica como um de construção e combustíveis na Babilônia
elo singular entre os paradigmas cosmológicos (2000 a. C.); a demanda de lenha e carvão para
da ordem mundial vigente e os que se pretende metalurgia fazem de Creta e Grécia terras arra-
para uma nova ordem. sadas; o cipreste, hoje árvore típica da paisa-
Creio ser esse – o segundo posicionamento gem do Mediterrâneo, torna-se dominante em
– o que permite escolher o pensar e o agir a fim função do desmatamento da região por uma
de tornar possível tudo aquilo que é necessário sucessão de civilizações clássicas ‘florescentes’;
à sobrevivência humana e planetária, num a substituição de florestas pela agricultura leva
mundo que seja marcado pela solidariedade, à erosão tão violenta que importantes portos
dignidade, eqüidade, paz e liberdade. Uma da Ásia Menor e Grécia são perdidos por total
utopia de uma época – a do nosso tempo? Sim, assoreamento – alguns são abandonados por
uma utopia. E o que é mais humano do que so- se tornarem zonas endêmicas de mosquitos e
nhar, almejar, buscar e, quem sabe, alcançar o malária. Tudo isto entre 700 a.C. e 200 d.C.
sublime? (Perlin, 1989). A poluição dos rios em cujas
margens surgem as grandes cidades européias
ALMEIDA JR., J. M. G., 1994. Desenvolvimento eco- é tão séria que obrigam-nas a trazer água de
logicamente auto-sustentável: conceitos, princí-
longe para seu abastecimento: isto em Roma
pios e implicações. Humanidades 10(4/38):284-
299.
desde 300 a.C., em Londres desde 1236, em
BROWN, L. R. et al., 1984-86. State of the World (1984- Breslau desde 1479 (Pontig, 1991).
96) – A Worldwatch Institute Report on Progress Perante tais crises, a consciência ecológica
Toward a Sustainable Society. New York: W. W. antecede bastante Aldo Leopold e o século XX,
Norton & Co. seja como ética (desde os mitos de Gilgamesh,
MYERS, N., 1993. Gaia: An Atlas of Planet Manage- na Suméria), seja pela percepção crítica de
ment. New York: Anchor Books.
conseqüência do desflorestamento, erosão e
poluição, seja por inovações tecnológicas de
baixo impacto. A arquitetura prioriza eficiên-
cia de aquecimento solar tanto em Roma co-
mo na Grécia antiga, onde cidades como Prie-
ne têm seu traçado inteiro dirigido para au-
mentar tal eficiência. Substituem-se materia-
is e técnicas de construção e metalurgia, para
maior eficiência, e nem mesmo a reciclagem
Thomas Michael Comentar o artigo de Silva & Schramm (dora- de lixo é tão recente – em Roma, coletava-se vi-
Lewinsohn vante S & S) em três laudas é uma tarefa espi- dro para a reciclagem já no século I (Perlin,
nhosa. Em seu breve texto, os autores vão da 1989).
Laboratório de evolução da filosofia à história da técnica, da Estes exemplos avulsos não significam que
Interações Insetos-
lógica da produção industrial à história do mo- os problemas ambientais tenham sido inteira-
Plantas, Instituto de
Biologia, Universidade vimento ambientalista, da ética ao utilitarismo, mente compreendidos a seu tempo, nem que
Estadual de Campinas, dos pré-socráticos aos reflexos da Eco-92. Nes- as soluções tenham sido suficientes. O que es-
Campinas, São Paulo.
ta mistura, há idéias estimulantes e provoca- panta é que civilização após civilização caia em
doras, mas há muito mais a que objetar. Ate- armadilhas semelhantes, experimente crises
nho-me a dois dos temas que demandam um parecidas e tente lidar com elas tardiamente e
comentário mais detalhado. por soluções técnicas parciais.
Entretanto, esta perspectiva extrapola o
Racionalismo filosófico e tecnocientífico texto de S & S, que atrelam as crises de hoje à
como origem da crise ambiental moderna industrialização, à ciência e à tecno-
logia contemporâneas, e estas, por sua vez, a
“Os impactos ambientais não devem ser asso- uma filosofia racionalista e reducionista. Como
ciados exclusivamente com a grande indústria tentei mostrar, tal esquema explicativo não dá
[...]. Já no século XVIII, o seu modo de operar se conta de uma história ambiental muito mais
fazia sentir ...”. Para construir seu argumento, S longa, e mais complexa, do que apresentam.

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A QUESTÃO ECOLÓGICA 375

Antes de prosseguir a outro tema, será que de campo e em experimentos controlados nas
o próprio “projeto atual de dominação da na- décadas de 1930 a 1950.
tureza pelo saber-fazer tecnocientífico” começa A visão ecossistêmica toma forma na mes-
de fato com a instauração do mundo moderno, ma época. O sistema dinâmico de organismos
quando se rompem as relações homem/natu- vivos e seu ambiente físico é chamado de ecos-
reza? Aqui parece-me haver igualmente uma sistema por Tansley em 1935. Seis anos depois,
visão ingênua do mundo antigo e medieval. Ve- R. Lindeman desenvolve uma abordagem dinâ-
ja-se, a propósito, o trabalho clássico de White mica para a questão da eficiência energética
(1967), que encontra na teologia judaico-cristã destes sistemas, apontada originalmente por
bases para o distanciamento e dominação des- Elton e delineada por Hutchinson (Lindeman,
trutiva da natureza pelo homem. 1942). A estes trabalhos é que se agregam as
pesquisas mais importantes dos irmãos Odum
Ciência ecológica e programas holísticos (Odum & Odum, 1955).
A ciência ecológica consolidou sua identi-
A origem e a construção da ciência ecológica dade institucional como área de pesquisa pró-
são representados de maneira equivocada por pria nas últimas quatro décadas, mas sempre
S & S. As contribuições dos naturalistas ingle- conservou uma diversidade de linhas de pes-
ses e da sistemática de Lineu para o surgimen- quisa e aplicação tão grande como mostra o es-
to de uma ciência da Ecologia são reais, mas boço acima. O interesse recente na história
incluem-se entre muitos aportes importantes. desta ciência tende a superar uma visão sim-
A ciência ecológica tem outras raízes, em que plificada, que divide a ecologia simplesmente
sobressaem a geografia de organismos e comu- em ecologia de ecossistemas e ecologia de sis-
nidades de Humboldt; questões sobre relações temas, por um lado, e em ecologia evolutiva e
organismo-meio, tratadas por cientistas como ecologia de populações, por outro. Na verdade,
Lamark e de Candolle, desde o século XVIII; a estas duas vertentes não são nem internamen-
demografia iniciada no século XVII (ver, entre te homogêneas, nem tão autônomas entre si
outros, Hutchinson, 1978; Mcintosh, 1985; (McIntosh, 1985; Golley, 1993).
Drouin, 1991). Entretanto, destaca-se a contri- A ciência ecológica, portanto, antecede e
buição de Darwin. A Origem das Espécies con- vai além do programa ecossistêmico desenvol-
tém, entre outras coisas, um tratamento exten- vido pelos irmãos Odum e seus colaboradores.
so de questões ecológicas, enfeixando dinâmi- Ao contrário do que indicam S & S, este progra-
ca de populações, interações intra e interespe- ma está longe de ser a ‘síntese completa da
cíficas, respostas a pressões e modificações do ecologia’. Mais que isto: embora E. e H. Odum
ambiente, e organização e dinâmica de comu- definam sua abordagem como completamente
nidades (Darwin, 1859). O conhecimento evo- holista, sob exame mais cuidadoso, a ecologia
lutivo e ecológico não avançaram de forma de ecossistemas mostra-se tão reducionista co-
concordante e mais de uma vez estiveram em mo outras abordagens da biologia e ecologia.
oposição (McIntosh, 1985; Drouin, 1991), mas a Mesmo a historicidade da ‘nova física’ de Ilia
influência darwiniana sobre o desenvolvimen- Prigogine, que para S & S exemplifica os novos
to conceitual da ecologia do século XX é nítida. rumos que a ciência deve buscar, é objeto ex-
A ciência ecológica construiu-se por muitas plícito de investigação da atual ecologia de po-
vertentes. A caracterização e necessidade de pulações e de comunidades, mas não cabe no
explicar padrões de diversidade de espécies em quadro da ecologia de ecossistemas.
diferentes ambientes e regiões geográficas é Há outras razões para reconsiderar critica-
uma das primeiras (Lewinsohn et al., 1991). A mente a identificação da ciência holística odu-
ecologia vegetal de Warming (1895), entre ou- miana com as reações sociais à ciência indivi-
tros, investigou respostas morfológicas e fisio- dualista e a soluções tecnocráticas. Duas delas
lógicas de plantas ao ambiente, tanto como merecem ao menos menção. As relações entre
processo adaptativo como em suas conseqüên- o trabalho dos irmãos Odum e o establishment
cias biogeográficas. Warming representa um governamental e militar norte-americano são
marco na organização da ecologia como cam- bastante complexas; sua pesquisa teve uma ní-
po de investigação (Goodland, 1975). A ecolo- tida função validadora para o uso da energia
gia animal segue outros caminhos, centrados nuclear após a Segunda Guerra (Hagen, 1992;
na formalização da dinâmica de populações, Taylor, 1988) e os modelos de ecossistemas que
em modos de interações interespecíficas e na produzem são a mais acabada representação
organização trófica de comunidades naturais da natureza ao modus da engenharia.
(Elton, 1927). Dinâmicas de conjuntos interati- Não há espaço para abordar outros impor-
vos de populações são abordados em estudos tantes temas de que S & S tratam, como os mo-

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376 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

vimentos ambientalistas, a eventual cooptação


de suas causas, ou as bases para uma ética am-
biental. Porém, antes de erigir uma nova ‘Eco- Wilmar do Valle Não resta a menor dúvida de que a chamada
logia Complexa’, é necessário aprofundar-se e Barbosa questão ecológica, bem como a crise ecológica
entender melhor sobre a efetiva construção, as constituem um dos problemas teóricos e práti-
limitações e, principalmente, o próprio con- Instituto de Filosofia e cos mais agudos deste século. E quando fala-
teúdo do conhecimento científico e sua inser- Ciências Sociais, mos em questão ecológica, estamos necessa-
Universidade Federal do
ção na sociedade. Para alicerçar um programa Rio de Janeiro,
riamente referindo-nos, de modo implícito ou
renovador e abrangente valendo-se da história Rio de Janeiro, Brasil. não, à nossa relação com a natureza, que, co-
ambiental e a ciência ecológica, há que conhe- mo bem indicam Silva & Schramm, dá-se sob o
cê-las a ambas mais de perto. signo da história. Da mesma forma como a
questão política foi, digamos, uma espécie de
DARWIN, C. R., 1859. On the Origin of Species by epicentro do século XVIII – século das resolu-
Means of Natural Selection, or the Preservation of
ções – e a questão social, epicentro do século
Favored Races in the Struggle for Life. 6a ed., Lon-
don: John Murray.
XIX – século da discussão sobre direitos políti-
DROUIN, J. M., 1991. Réinventer la Nature; l’Écologie cos, sobre reforma e justiça social –, o nosso sé-
et son Historie. Paris: Desdrée de Brouwer. culo parece ter elegido o problema da natureza
ELTON, C., 1927. Animal Ecology. London: Sidgwick como a sua questão. E com ela, os problemas
and Jackson. referentes ao que os autores do artigo em dis-
GOLLEY, F. B., 1993. A History of the Ecosystem Con- cussão chamam de “projeto atual de domina-
cept in Ecology. New Heaven: Yale University.
ção da natureza pelo saber técnico científico”.
GOODLAND, R. J., 1975. The tropical origins of ecolo-
gy: Eugen Warming’s jubilee. Oikos, 26:240-245. Mas o que é que se pretende dizer com esta
HAGEN, J. B., 1992. An Entengled Bank; the Origins of proposição? Dito de outra maneira: o que é a
Ecosystem Ecology. New Brunswick: Rutgers Uni- natureza que se pretende dominar quando se
versity Press. fala em ‘projeto atual de dominação’?
HUTCHINSON, G. E., 1978. An Introduction to Pop- Na nossa avaliação, se as culturas humanas
ulation Ecology. New Heaven: Yale University
conseguiram elaborar um termo, um conceito,
Press.
uma representação, em nada unívoco, comple-
LEWINSOHN, T. M.; FERNANDES, G. W.; BENSON, W.
W. & PRICE, P. W., 1991. Introduction: historical tamente polissêmico, este é o de natureza. No
roots and current issues in tropical evolutionary âmbito mesmo da cultura ocidental antiga, por
ecology. In: Plant-Animal Interaction; Evolution- exemplo, os termos physis (grego) e natura (la-
ary Ecologyin Tropical and Temperate Regions (P. tino) possuíam significados diferentes e, con-
W. Price; T. M. Lewinsohn; G. W. Fernandes & W. seqüentemente, sugeriam relações diferencia-
W. Benson, eds.), pp. 1-21, New York: John Wiley.
das – inclusive as cognitivas – com o que gre-
LINDEMAN, R. L., 1942. The trophic-dynamic aspect
of ecology. Ecology, 23:399-418.
gos e romanos entendiam ser a natureza. Igual-
McINTOSH, R. P., 1985. The Background of Ecology. mente, a natureza, tal como concebida pelos fi-
Cambridge: Cambridge University Press. lósofos e teólogos medievais, difere substanti-
ODUM, H. T. & ODUM, E. P., 1955. Trophic structure vamente daquela concebida pelos modernos, e
and productivity of a windward coral reef com- esta última, por sua vez, já não mais corres-
munity on Eniwetok Atoll. Ecological Mono- ponde às demandas da sensibilidade contem-
graphs, 25:391-320.
porânea. Se estas rapidíssimas observações fo-
PERLIN, J., 1989. A Forest Journey: The Role of Wood in
the Development of Civilization. Cambridge: Har- rem consistentes, poderemos então afirmar
vard University Press. que a implicação fundamental de toda a ques-
PONTIG, C., 1991. A Green History of the World. Lon- tão ambiental deverá advir de uma renovada
don: Penguin. relação com a natureza; deveremos também
TANSLEY, A. G., 1935. The use and abuse of vegeta- nos perguntar (e tentar responder!) “com que
tional concepts and terms. Ecology, 16:284-307.
natureza?” É nesse sentido que entendemos a
TAYLOR, P. J., 1988. Technocratic optimism, H. T.
demanda de François Chatêlet por uma nova
Odum and the partial transformation of ecologi-
cal metaphor after World War II. Journal of the ontologia, uma nova representação do real,
History of Biology, 21:212-244. compreendendo, ao mesmo tempo, que o des-
WARMING, E., 1895. Plantesamfund: Grundtraes af locamento decisivo que ele busca encontra-se
den Oekologiska Plantegeografi. Copenhagen: na renovação da filosofia política e na emer-
Philipsen. (Tradução: 1909. Oecology of Plants. gência de uma nova filosofia da natureza, tal
Oxford: Clarendon.)
como sugere J. P. Dupuy.
WHITE JR, L., 1967. The historical roots of our eco-
logical crisis. Science, 155:1203-1206.
Quais poderiam ser as eventuais caracterís-
ticas desta nova filosofia da natureza, parece-
nos algo ainda difícil de se estabelecer com se-
gurança. Uma coisa, porém, afigura-se-nos co-

Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 13(3):355-382, jul-set, 1997


A QUESTÃO ECOLÓGICA 377

mo certa. Se é correto afirmar que as tendên-


cias naturalistas pautaram-se tradicionalmen-
te pela elaboração de uma representação da Emílio F. Moran O artigo coloca uma série de preocupações de
natureza que constituísse uma verdade absolu- forma breve e estimulante perante a comuni-
ta e universal, esta nova filosofia deve abando- Anthropological Center dade científica. A discussão histórica de nossos
nar de vez este propósito. A polissemia e a plu- for Training and interesses ambientalistas é completa e sur-
Research on Global
rivocidade do termo natureza e daquilo que ele Environmental Change, preendentemente crítica, uma vez que o texto
designa não estariam a indicar a impossibili- Indiana University, em questão não é extenso. Sem dúvida, esta
Bloomington, U.S.A.
dade do naturalismo enquanto verdade da evolução nos tem trazido desde um período
existência humana? Impõe-se, assim, com- naturalista para um período científico ao pre-
preender que a natureza precisa ser pensada sente, no qual temos quase uma guerra virtual
como uma extensão do humano artifício, como entre estas duas visões do homem na natureza.
uma construção; impõe-se compreender que O dualismo cultural da cultura greco-romana
ela, tal como a experimentamos, é sempre influi sobre todos nós até hoje, de forma que os
construída no âmbito de nossas referências debates requerem-nos escolher entre uma das
simbólico-culturais, é, rigorosamente falando, duas caras dessa dualidade – em vez de procu-
inventada. Só assim poderemos superar a po- rar uma nova síntese que incorpore os aspec-
lêmica entre naturalistas e artificialistas, quase tos positivos de cada e rejeitar os que não ser-
tão antiga quanto a filosofia. vem no momento atual. A ciência de hoje pre-
Do nosso ponto de vista, a questão ecológi- cisa de uma base cada vez mais exata e quanti-
ca está processando a invenção de um novo tativa – sem entrar na visão de túnel que nos
sentido de natureza. E a invenção de um novo amarra às ideologias ultrapassadas. A comple-
sentido é invenção de uma nova relação, onde xidade de ecossistemas humanos requer uma
os elementos relacionados são também resig- visão humanista do comportamento destes sis-
nificados. Por isto é que a sensibilidade con- temas tão complexos, que seu comportamento
temporânea permite que se comece a reinven- é cada vez mais imprevisível com teorias e mo-
tar o homem, concebendo-o, desta feita, como delos deterministas. A ética da solidariedade é
fator de continuidade da natureza e redefinin- uma de muitas soluções, o ecosofismo é outra,
do a essência da própria responsabilidade hu- oferecidas no momento atual para enfrentar
mana relativamente ao não humano. Da mes- nossas crises do meio ambiente e do desenvol-
ma forma, permite que se reinvente a nature- vimento. Uma pena que os autores não entra-
za, na medida em que deixa de vê-la predomi- ram na discussão da nova economia ecológica,
nantemente como máquina. Porém, se por um a qual parece ter interesses e teorias em desen-
lado a questão ecológica constitui um dos ele- volvimento para tratar de nossos deveres para
mentos que definem os contornos desta sensi- com a natureza, por exemplo, usando mecanis-
bilidade, por outro a tecnociência é um dos mos quantitativos, como os preços, para nos
elementos que a desafiam. Por quê? Porque a levar a uma consciência da natureza dentro
tecnociência é a reinvenção em ato da nature- dos constrangimentos de nosso mundo mate-
za e do homem, e assim sendo faz-nos perce- rialista.
ber a potência que talvez sejamos, bem como a
fragilidade e a fugacidade daquilo que consti-
tuímos. Ao tentar reinventar o naturalismo, a
sensibilidade contemporânea procura reeditar
a ‘verdade absoluta’ que ela mesma contribuiu
para destronar. E o faz porque na dialética que
se instaura entre sentimentos e idéias, normal-
mente aqueles tendem a não progredir com a
mesma rapidez destas. Neste sentido, o cabo-
de-guerra entre naturalistas e artificialistas tal-
vez nos impeça de ver a real dimensão do mun-
do que se descortina para as gerações futuras:
mundo transitório, feito de transitoriedades,
onde, porém, os deuses não transitarão, nem
tampouco servirão para consolar.

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378 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

Os autores respondem jetos e seus contextos, e é isso que faz com que
The authors reply um objeto seja percebido como mais escuro ou
mais claro dependendo do fundo, respectiva-
mente mais claro ou mais escuro. Em suma, a
própria percepção é um processo ativo da
mente, uma construção a partir de hipóteses e
teorias a priori, sem as quais não é possível
perceber realmente.
Mas a questão ecológica, por tratar-se de
uma questão (ou problema), é necessariamen-
Fermin Roland Como sintetizou Ferdinand de Saussure no seu te polêmica. Não somente porque tem a ver
Schramm Cours de Linguistique Générale (1916), “é o com pontos de vista diferentes sobre as rela-
ponto de vista que cria o objeto”. Este princípio ções pertinentes e significativas entre indiví-
Elmo Rodrigues
(que tem suas raízes filosóficas longínquas na duos da espécie homo sapiens sapiens e seu
da Silva
sofística grega: Protágoras afirmara “de todas ambiente natural (de fato natural-cultural),
as coisas medida é o homem ...”) passa pela mas também porque se refere a valores em
epistemologia kantiana, funda o método das conflito, muitas vezes incomensuráveis entre
Ciências do Espírito (Geisteswissenschaften) si, e que determinam a eticidade (ou moralida-
com W. Dilthey, para atingir as próprias Ciên- de) da problemática ambiental, estudada pela
cias Naturais (Naturwissenschaften), inclusive ética ambiental.
uma ‘ciência dura’ como a física, no século XX, Assim sendo, nosso objetivo não era tanto o
delineando aquela que será conhecida como de analisar o surgimento da ecologia per se –
epistemologia construtivista, um dos princi- que surge enquanto ciência, como bem fazem
pais métodos da abordagem do real, aplicado notar vários dos interlocutores, no final do sé-
pelo saber científico contemporâneo no Oci- culo XIX – mas o de apresentar as implicações
dente. éticas resultantes de transformações culturais
Existem, evidentemente, outros pontos de mais amplas, sintetizáveis pelo fato de que a
vista sobre a pertinência do ponto de vista (que problemática ecológica se torna uma preocu-
nos seja permitido este jogo de palavras) no sa- pação leiga (não só de especialistas portanto),
ber-fazer da tecnociência contemporânea, e no contexto daquela mudança paradigmática
todo o debate acerca do realismo está aí para que apresentamos como a passagem de um pa-
demonstrá-lo, dentro e fora da cultura ociden- radigma dicotômico (imputável ao cartesianis-
tal. Entretanto, foi esta a opção escolhida para mo) para um paradigma complexo, preocupa-
nossa apresentação da questão ecológica. do com as relações viáveis entre biosfera e tec-
Esta premissa é indispensável para enten- nosfera.
der corretamente o enfoque dado aqui, que, É para dar conta dessa mudança que abor-
como todos os enfoques, é circunstancial e li- damos a transformação das representações
mitado, ou ‘arbitrário’ (como diria ainda Saus- acerca de um operador culturalmente impor-
sure) no sentido de não implicado necessaria- tante, o conceito de natureza, que – como jus-
mente por uma suposta essência das coisas, in- tamente sublinha Wilmar do Valle Barbosa no
dependente da interpretação. Ou seja, um pon- seu comentário – deve ser considerado como
to de vista, como parecem confirmar também um conceito ‘polissêmico e plurívoco’, resulta-
as neurociências atuais, nada mais é do que do da criatividade humana. Neste sentido, a
uma construção perceptiva dotada de sentido, questão ecológica dá novo sentido ao conceito
num mecanismo complexo em que inputs são de natureza, sobretudo se levarmos em conta a
selecionados conforme interesses, necessida- vigência, a partir da Época Moderna, do para-
des, desejos do observador. Assim sendo, um digma tecnocientífico (essencialmente racio-
ponto de vista é falível e refutável (como diria nal e operacional), fato que coloca a questão,
Popper) porque não percebemos a realidade moralmente relevante, de como aliar princí-
como ela é em si, mas tão somente como ela é pios termodinâmicos e ecológicos, por um la-
para sujeitos epistêmicos detentores de pontos do, e bem-estar humano, por outro.
de vista. É por isso que somos também sempre Surge então uma primeira pergunta relativa
vítimas potenciais de falsas percepções quan- aos assim chamados direitos da natureza, pois,
do confrontadas, por exemplo, com os resulta- neste caso, deveríamos antes decidir qual na-
dos obtidos de instrumentos de medida, apa- tureza teria eventualmente direitos: Aquela do
rentemente mais objetivos. Por exemplo, na furacão ou aquela da floresta destruída pelo fu-
percepção da cor não lidamos com objetos iso- racão? Aquela natural, responsável pelas mal-
lados, mas somente com relações entre os ob- formações de um feto ou aquela natural-cultu-

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A QUESTÃO ECOLÓGICA 379

ral do ‘saber-fazer’ biomédico, capaz de corri- preocupados em dar conta, do seu ponto de
gir os efeitos da primeira? A questão dos direi- vista particular e legítimo, daquele que, para-
tos da natureza, de fato, não faz muito sentido. fraseando Freud, pode ser chamado de um ver-
O que faz sentido é uma outra, consistente em dadeiro ‘mal-estar ecológico’ na experiência
reconhecer o direito à nossa exigência de pro- individual e coletiva. Este mal-estar expressa-
teger alguma forma de equilíbrio natural-cul- se no nosso texto pela oposição entre um fun-
tural, pois dependemos ainda do meio (como damentalismo ecologista (ou ecologia profun-
bem demonstra a experiência fracassada da da) e um ecologismo humanista (ou superfi-
Biosphere Two norte-americana), mas depen- cial), que, ao invés de submeter stricto sensu o
demos também, cada vez mais, das transfor- humano à natureza (como fazem os funda-
mações artificiais deste meio (como demons- mentalistas), tenta ampliar progressivamente
tra, por exemplo, a luta acirrada contra os no- o campo das considerações morais a outros su-
vos microorganismos). jeitos (como animais e ambientes naturais). Só
É neste ponto que se insere a outra questão que esta extensão é problemática, porque, ri-
abordada no texto: a do antropocentrismo. Es- gorosamente falando, somente os humanos
ta questão é relevante do ponto de vista moral podem atribuir tais direitos, ou seja, reconhe-
porque somente os humanos são, no atual es- cer que o ponto de vista será de qualquer for-
tágio evolutivo, entes capazes de refletir sobre ma sempre antropocêntrico, mesmo quando se
o mundo e sobre si, inclusive sobre os valores afirma não sê-lo, postulando, por exemplo, a
que orientam (ou deveriam orientar) o agir eti- existência de pontos de vistas diferentes, atri-
camente correto numa situação determinada. buídos a animais, em virtude do fato de que
Ou seja, só os humanos podem, por enquanto, eles sofrem ou simplesmente porque fazem
ser considerados detentores da inteligência parte da grande Cadeia do Ser e participam,
abstrata, da consciência auto-reflexiva e da li- portanto, de uma mesma comunidade e desti-
berdade, que os torna propriamente sujeitos no (como julgam determinadas concepções
autônomos ou ‘pessoas’ (como diria Kant), ti- místicas ou religiosas). A questão ecológica es-
tulares de direitos e deveres correspondentes. tá tão presente no imaginário contemporâneo,
Assim sendo, a questão do antropocentrismo é que um autor chegou a afirmar que ela ter-se-
filosoficamente incontornável, mesmo quando ia tornado o ‘novo paradigma da política’ (Hös-
se adota um ponto de vista biocêntrico ou cos- le, 1991), afirmação evidentemente apressada,
mocêntrico (como pretendem alguns defenso- pois não dá conta nem do retorno dos funda-
res dos direitos naturais), pois, em última ins- mentalismos e das novas formas de nacionalis-
tância, tudo depende do ponto de vista adota- mo no cenário político mundial, nem da per-
do, que só pode ser construído e enunciado sistência de antigos problemas ético-políticos,
por algum representante da espécie homo sa- como a injustiça social.
piens sapiens, que tenha atingido a faculdade Feita esta longa mise au point, considera-
de pensar, de agir e de refletir sobre as suas im- mos que, pelas críticas recebidas, atingimos
plicações morais. É por isso que concordamos um dos objetivos a que se visava dentro do es-
com Barbosa – quando afirma que a única ma- pírito da seção Debate desta revista, ou seja,
neira de superar a polêmica entre ‘naturalistas’ discutir entre especialistas vindos de vários ho-
e ‘artificialistas’ consiste em pensar a própria rizontes disciplinares uma das questões mais
natureza como uma ‘extensão do humano polêmicas da atualidade. Agradecemos, por-
artifício’ –, ou com Jorge de Campos Valadares tanto, a todos os participantes nesta ‘logo-
– quando afirma que a essência do humano é a maquia’ por terem apontado erros e simplifi-
artificialidade. cações; por terem exigido esclarecimentos e
Se o nosso objetivo não ficou muito claro, aprofundamentos, e destacamos humildemen-
isto deve-se, a além das nossas falhas devida- te (nunca faz mal) que aprendemos muito das
mente apontadas pelos debatedores, provavel- críticas, mesmo das mais contundentes, pois
mente também ao fato de que a questão ecoló- elas permitem integrar outros olhares ao nos-
gica é complexa e polêmica, pois remete – para so, que, repetimos, é necessariamente parcial e
citar ainda Valadares – à ‘carência’ da humana incompleto, logo refutável.
condição, quer dizer, para “onde algo de início Infelizmente, não será possível responder a
está definitivamente perdido e onde o precário todas as perguntas e críticas de modo exausti-
se instala como fundador”. De forma mais ge- vo, considerando o espaço aqui concedido.
ral, a questão ecológica é complexa porque im- Muitas questões ficarão, portanto, em aberto.
plica vários tipos de saberes, não somente pro- Dennis Werner coloca-se na posição de ad-
priamente científicos, mas ainda culturais no vogado do diabo, defendendo as ferramentas
sentido amplo, inclusive morais, todos eles do ‘reducionismo’, do ‘determinismo’ e da ‘sim-

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380 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

plificação’, forjadas a partir da epistemologia mática esta relação homem-natureza, devido


cartesiana. De maneira geral, concordamos ao fato de que os impactos sobre o meio am-
com ele, pois efetivamente não precisamos in- biente mudaram de escala, fato este que apro-
comodar a teoria da complexidade para dar funda radicalmente o nível, o grau e o alcance
conta de fenômenos para os quais a epistemo- da transformação (como afirma Hans Jonas no
logia clássica é suficiente. Neste sentido, vale o seu livro O Princípio de Responsabilidade). De-
princípio metodológico conhecido como nava- limitamos propositalmente nossa apresenta-
lha de Occam, que prescreve a economia de ção ao Renascimento Europeu, pois é aí que se
meios conforme os fins almejados. De forma dão as condições para o surgimento da ciência
mais específica, consideramos que cada mode- moderna que mutatis mutandi é ainda a ciên-
lo de investigação é pertinente em contextos cia vigente no mundo contemporâneo. Igual-
específicos, dentro dos recortes e simplifica- mente, não desconhecemos a influência do
ções feitos, necessários à modelização, sem a pensamento judaico-cristão acerca da legiti-
qual é praticamente impossível qualquer tipo mação da dominação do homem sobre a natu-
de conhecimento. Assim, uma compreensão reza. Contudo, não foi nossa intenção, neste
‘total’ dos fenômenos constituiria uma busca breve ensaio, ser completos. Concordamos que
incansável e desesperada de um método uni- a ecologia de ecossistemas e a de populações
versalizante, bem diferente do método da com- são, sob certos aspectos, complementares. Po-
plexidade, assim como foi desenvolvido por rém, parece-nos que há, atualmente, uma ten-
Morin, Prigogine e muitos outros. De fato, a dência a considerar a ecologia de ecossistemas
ciência, como a história, são construtos huma- como uma importante interlocutora do movi-
nos sujeitos às limitações e aos erros dos seus mento ambientalista, e é por isso que insisti-
atores, não existindo nenhum ponto de vista mos nela. Neste sentido, Coutinho (autora ci-
absoluto (ou ‘olho de sírio’, como dizia Nietzs- tada) traz uma importante contribuição ao re-
che), capaz de dirimir de uma vez por todas as fletir sobre idéias e conceitos que transitam
questões polêmicas. Neste sentido, a palavra por tal movimento. Em suma, a ecologia possui
imperfeição, utilizada por D. Werner, parece mais de um referencial teórico (como a maio-
um tanto arriscada, pois pressupõe a elimina- ria dos debatedores justamente sublinha) e ho-
ção daquilo que é imperfeito – talvez o autor je, como no passado, as relações entre tais refe-
pudesse substituir o termo imperfeição por renciais continuam em conflito, sobretudo no
inadaptabilidade dentro do processo de sele- que diz respeito à conceituação do objeto na-
ção natural. Mas, por outro lado, concordamos tureza. Assim , por exemplo, a ecologia das po-
quando ele aponta os riscos implícitos nas vi- pulações (surgida na década de 20 e que teve
sões de tipo holístico, consistentes numa res- como um dos seus propositores, H. A. Gleason)
sacralização da natureza e presentes, por possui uma representação de natureza total-
exemplo, nas visões místicas adotadas por al- mente distinta da ecossistêmica. Os adeptos da
guns grupos ambientalistas de tipo fundamen- abordagem individualista rejeitam a visão ho-
talista. Esta não é a posição defendida aqui, lística, por estar associada à corrente ecossistê-
nem pela maioria dos cientistas que sustentam mica, apontando para os riscos de um retorno
o ponto de vista complexo; o paradigma da ao vitalismo e de perspectivas anticientíficas.
complexidade implica o estudo não tanto dos Assim sendo, cabe esclarecer que não ousaría-
objetos em si (como no reducionismo clássi- mos (sic) erigir nenhuma ‘nova ciência eco-
co), mas das relações entre objetos, e, sobretu- lógica’ (como parece sugerir o debatedor), mas
do (distinguindo-se claramente do holismo), o tão somente discutir alguns aspectos relevan-
respeito dos vários níveis hierárquicos perti- tes do debate ético em torno das decisões
nentes de cada análise. Contudo, querendo as- atuais com relação à ‘tutela da natureza’. Uma
sumir, por nossa vez, a postura do advogado do última observação: se é verdade que a cons-
diabo, podemos reconhecer que os mitos fa- ciência ecológica antecede a obra de Aldo Leo-
zem parte de todas as culturas e de todas as pold (cuja primeira versão é de 1933), é correto
épocas e, portanto, não podem ser ignorados. historicamente afirmar, como fizemos, que ele
As críticas feitas por Thomas Michael Le- pode ser considerado o fundador da ética na-
winsohn são particularmente instigantes. Cabe turalista, ou ambiental, assim como é entendi-
esclarecer que não desconhecemos que a con- da pela ética contemporânea.
quista da natureza pelo homem não surge com Sem entrar no mérito do tom adotado pelas
as sociedades industriais e que, de forma mais críticas feitas por Fernando Dias de Avila-Pires,
geral, a conquista do meio constitui uma espe- reconhecemos seu largo conhecimento e eru-
cificidade de todo ser vivo. Consideramos ape- dição em campo ambiental (e até na MPB), que
nas que a industrialização tornou mais proble- nos ajudou a esclarecer melhor algumas ques-

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A QUESTÃO ECOLÓGICA 381

tões propriamente atinentes à ciência ecológi- tentes da ecologia citadas pela autora, nem,
ca. Entretanto, cabe-nos responder que, apesar evidentemente, a relação com as ciências so-
dos limites conceituais e metodológicos disci- ciais pertinentemente destacada por ela. Preci-
plinares existentes, buscam-se, no campo cien- samos apenas que o ponto de vista em questão
tífico, filosófico e na práxis, referenciais que no nosso trabalho não é especificamente o das
possam responder às questões levantadas pelo Ciências Sociais, mas o das Ciências Morais. É
‘mal-estar ecológico’ atual. Neste sentido, a por isso que destacamos a relação da questão
ciência ecológica é apenas mais uma destas re- ecológica com a filosofia, em particular, com o
ferências. Concordamos com o autor que pre- campo interdisciplinar da ética aplicada, co-
cisamos de ‘pesquisadores e professores sérios’ nhecido como ética ambiental. No que diz res-
mas, acrescentaríamos, sobretudo ‘éticos’, quer peito ao ponto de vista não antropocêntrico,
dizer, preocupados com os desdobramentos supostamente adotado pelas ciências naturais,
morais resultantes da produção e aplicação do valem as considerações feitas acima. Mas, por
‘saber-fazer’ tecnocientífico em prol de uma outro lado, concordamos com a autora quando
sociedade menos injusta, mais autônoma e distingue ecologia e ciências ambientais, des-
pluralista. Concordamos ainda sobre a neces- tacando-se que o saber do ecólogo (especialis-
sidade de se distinguir ciência ecológica e eco- ta na ciência ecológica) distingue-se daquele
logia política para não ir buscar arbitrariamen- do ecologista (defensor da causa ecológica).
te as soluções desta naquela. Com efeito, isso Uma importante sugestão nos vem do co-
implicaria incorrer naquela que, em ética, é co- mentário ‘telegráfico’ (mas nem por isso me-
nhecida como falácia naturalista e num retor- nos interessante) de Emílio F. Moran, que la-
no a posições de tipo jusnaturalista, impropo- menta não termos incluído a discussão sobre a
níveis num mundo secularizado e tecnocientí- economia ecológica (recente disciplina que in-
fico como é o nosso. Neste sentido, o jusnatu- corpora conceitos derivados da ecologia e uma
ralismo pode ser considerado como um verda- das correntes econômicas que tratam das in-
deiro freio à própria cultura tecnocientífica, ter-relações entre economia e meio ambiente).
pois consiste em avaliar a legitimidade da or- A este respeito, podemos sucintamente citar
dem social conforme sua adequação a uma su- algumas das correntes existentes: a Economia
posta ordem natural das coisas que, como vi- Ambiental (título de um livro de David Pearce,
mos, é indefensável nas sociedades seculariza- de 1976), que é a mais próxima da teoria eco-
das e democráticas contemporâneas. Esta ob- nômica neoclássica ao utilizar técnicas de aná-
servação é relevante, pois a tendência em com- lise de custo/benefício e insumo/produto e/ou
parar a ordem social à ordem natural (tendo contabilização, tanto nas políticas ambientais,
como modelo o corpo humano ou o meio am- como nas questões ligadas à poluição e aos re-
biente) é uma tendência antiga do pensamen- cursos naturais; as abordagens desenvolvi-
to, que não está prestes a desaparecer. De fato, mentistas da economia do meio ambiente, que
ela legitima, de regra, posições conservadoras, tratam, principalmente, da análise dos estilos
mas não podemos esquecer que foi utilizada ou modelos de desenvolvimento, procurando
também pelo pensamento progressista, a co- produzir propostas alternativas para os países
meçar pelos revolucionários jacobinos (que ditos dependentes – dentre os adeptos desta
declararam os direitos humanos como inalie- corrente, destaca-se Ignacy Sachs e a proposi-
náveis porque naturais), e pelo socialismo ção do ‘modelo de ecodesenvolvimento’ –; a
marxista (que se legitimou pela sua cientifici- economia ecológica propriamente dita, que
dade, isto é, pela conformidade da ordem so- busca conciliar métodos quantitativos como os
cial ao decorrer natural e inevitável do proces- formulados dentro da economia ambiental,
so histórico rumo ao progresso). mas apresenta uma proposta mais abrangente
Neste sentido, é importante a observação ao ampliar o conceito de sustentabilidade e ao
de José Maria de Almeida Jr. quando, depois de aplicar o conceito termodinâmico de entropia
ter lembrado os vínculos existentes entre di- para análises econômicas, como consta no tra-
mensão política e dimensão ética na questão balho pioneiro desenvolvido por N. Georges-
ecológica, aponta para a necessidade de se cu-Roegen.
pensar a dimensão da singularidade dentro da Moran lembra-nos que a quantificação e a
própria questão ecológica. taxação ambientais podem, dentre outras al-
As críticas de Alpina Begossi parecem diri- ternativas, ser utilizadas como instrumento
gir-se também à ênfase dada à ecologia de complementar para orientar o uso dos recur-
ecossistemas, sobre a qual tentamos nos expli- sos ambientais. A França, por exemplo, desde a
car anteriormente. Mesmo neste caso, cabe res- década de 60, instituiu a cobrança de taxas (re-
saltar que não desconhecemos as outras ver- devances) baseadas no princípio conhecido co-

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382 SILVA, E. R. & SCHRAMM, F. R.

mo poluidor-usuário-pagador, aplicado ao uso mente, as sociedades secularizadas e comple-


dos recursos hídricos, e, recentemente, no Bra- xas renunciarão. Como resultado, surge a ne-
sil, foi aprovado um projeto de lei semelhante cessidade de se tomar um posicionamento crí-
ao sistema francês. Este exemplo introduz-nos tico e imparcial em face dos riscos e potencia-
mais especificamente à vertente relacionada lidades que surgem, adotando uma atitude eti-
com nosso enfoque, quer dizer, à vertente que camente responsável, propiciada pelo paradig-
utiliza os instrumentos da ética para criticar a ma bioético, visto como referencial para a pon-
economia ambiental. A este respeito podem-se deração dos problemas morais resultantes dos
citar alguns ‘clássicos’ como Kelman (1981), novos poderes (ou ‘biopoderes’ como sugeriu
Kneese & Schulze (1985) e Sagoff (1988). Con- Foucault) do saber-fazer na época de vigência
tudo, esta vertente já tem um campo discipli- do paradigma biotecnocientífico.
nar relativamente consolidado, conhecido co- Para concluir, gostaríamos de destacar o
mo ética dos negócios (business ethics), razão olhar ‘clínico’ de Jorge Valadares, que aponta
pela qual não entramos nela, apesar do seu para a possibilidade do “desenvolvimento da
inegável interesse para a própria ética ambien- consciência do que seja o caminho do humano”
tal. e para os riscos de uma “re-volta da ordem do
Na contribuição de Ana Amélia P. Boischio, rancor, acionada por uma necessidade vivida
destacamos sua distinção em três dimensões no presente [que] pode levar os sujeitos a uma
da questão ecológica (a acadêmica, a ambien- passagem ao ato, onde gestos impensados (...)
talista e a governamental), assim como o fato podem ser, às vezes, violentos, impedindo a evo-
de ter lembrado os aportes da informática, que lução do pensamento”.
abre novas possibilidades para uma aborda-
gem complexa da questão. Contudo, ao co- HÖSLE, V., 1991. Philosophie der Ökologischen Krise.
München: Beck Verlag.
mentar as teses de Katz e Oechsli, que permiti-
KELMAN, S., 1981. What Price Incentives? Economists
riam supostamente ultrapassar o ponto de vis- and the Environment. Boston: Auburn House
ta antropocêntrico (ou ‘androcêntrico’, como KNEESE, A. V. & SCHULZE, W. D., 1985. Ethics and en-
parece sugerir a referência ao best-seller de Ra- vironmental economics. In: Handbook of Natural
chel Carson?) pela obrigação moral para com a Resource and Energy Economics (A. V. Kneese & J.
natureza e os ecossistemas, não fica muito cla- L. Sweeney, eds.), vol. 1, pp. 191-220, Amsterdam:
ro como este ponto de vista poderia ser cons- North Holland.
SAGOFF, M., 1988. The Economy of the Earth: Philoso-
truído sem o concurso, mesmo descentrado e
phy, Law and the Environment. Cambridge: Cam-
‘generoso’, do humano. Acreditamos que uma bridge University Press.
ética não antropocêntrica pode decidir não sê- SCHRAMM, F. R., 1996. Paradigma Biotecnocientífico
la, mas este é ainda, rigorosamente falando, e Paradigma Bioético. In: Biosafety of transgenic
um ponto de vista antropocêntrico. organisms in human health products (L. M. Oda,
Resumindo, no que diz respeito às explica- ed.), pp. 109-127, Rio de Janeiro: FIOCRUZ.
ções e conceitos de natureza, estes estão sem-
pre associados às visões de mundo e sujeitos
aos desejos e vicissitudes da condição huma-
na. Ou seja, como comenta Barbosa, a polisse-
mia do termo natureza deve-se ao fato de este
ser um ‘construto humano’; do ser humano
conceber-se como ser natural; como criador de
instrumentos e artifícios; como ser de lingua-
gem e cultura. Em suma, um ser em constru-
ção de si mesmo e do mundo (como diria Pia-
get).
Neste sentido, num futuro próximo, o ad-
vento da biotecnociência (com o surgimento
das biotecnologias de segunda geração asso-
ciadas às ciências da informação) (Schramm,
1996) pode modificar ainda mais a idéia de na-
tureza, reinventando o seu sentido e o da pró-
pria natureza humana. Como afirma justamen-
te Barbosa, “a tecnociência [ou a biotecnociên-
cia] é a reinvenção em ato da natureza e do ho-
mem”. Assim, podemos intuir que talvez este-
jamos entrando nesta nova fase, à qual, dificil-

Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 13(3):355-382, jul-set, 1997