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Remediação do radiojornalismo na era da informação

Nelia R. Del Bianco∗

Índice delagem mútua. Tanto as mídias tradicionais


buscam se adaptar ao mundo digital, remo-
1 A remodelagem do radiojornalismo delando seus produtos com base na nova ló-
brasileiro 3 gica, como os meios emergentes remodelam
2 Radiojornalismo na era da informação 6 os antigos. Os autores citam exemplos re-
3 Bibliografia 10 gistrados ao longo da evolução dos media: a
fotografia remediou a pintura, a televisão fez
o mesmo em relação ao cinema e ao rádio.
Muito se discute sobre como devem ser as No presente, a Internet usa os testes padrões
novas mídias digitais. Os entusiastas defen- estabelecidos pela televisão a fim determi-
dem com freqüência que os meios digitais nar como trabalhar com a imagem na tela.
devem romper com as tradições estéticas e Isso acontece ao mesmo tempo em que a te-
culturais de seus predecessores. Os cautelo- levisão usa colocar várias janelas com ima-
sos entendem que os novos meios podem ser gens em movimento na mesma tela, ou põe
compreendidos examinando a maneira como o texto em desdobramento, correndo na parte
reformulam os velhos. Será que o processo de baixo da tela, remodelando o estilo da nar-
de mutação caminha nesses dois extremos ou rativa do online.
é mais complexo? Na raiz do conceito de remediação está o
David Bolter e Richard Grusin (1999) de- pensamento original de Marshall McLuhan
fendem que o processo de transformação é (2000). Ao compreender a transformação
por remediação, ou seja, por meio de remo- dos meios de comunicação na década de 60,

Professora da Faculdade de Comunicação da o pensador canadense verificou que o pro-
Universidade de Brasília, Doutora em Comunicação- cesso de mutação se dava por hibridização.
Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes Como afirmava, o híbrido ou o encontro de
da USP e Mestre em Comunicação pela UnB. nbi-
dois meios, libera grande força ou energia
anco@uol.com.br.
O presente texto é parte da tese de doutorado Radio- por fissão ou fusão, porque constitui o mo-
jornalismo em mutação – A influência cultural e tec- mento de verdade e revelação, do qual nasce
nológica da Internet na transformação da noticiabili- a forma nova.
dade no rádio, defendida no Programa de Pós Gra-
duação em Comunicação da USP em maio de 2004. “Isto porque o paralelo de dois meios nos
Texto apresentado no II Encontro Nacional de Pes-
mantém nas fronteiras entre formas que nos
quisadores em Jornalismo da SBPJor, Salvador-Ba,
2004.
despertam da narcose narcísica. O momento
do encontro dos meios é um momento de li-
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berdade, e libertação do entorpecimento e do os conceitos de co-evolução e coexistência,


transe que ele impões aos nossos sentidos” convergência e complexidade.
(2000: 75). Segundo Fidler (1997:1-29), tudo o que
forma o tecido do sistema de comunicação
McLuhan queria dizer que os meios como não existe independente da nossa cultura.
extensões do homem estabeleceram novos Assemelha-se ao desenvolvimento de toda
índices relacionais não apenas para os sen- forma de vida existente no planeta. Em lugar
tidos na medida em que se inter-relacionam: de evolução e subseqüente substituição, uma
nova forma coexiste e convive com a antiga
“O rádio alterou a forma das estórias notici-
para que a metamorfose possa acontecer. No
osas, bem como a imagem fílmica, como ad-
campo da comunicação, as inovações não te-
vento do sonoro. A televisão provocou mu-
riam sido possíveis se a cada nascimento de
danças drásticas na programação de rádio e
na forma das radionovelas”.(2000:72) um meio resultasse na morte de um mais ve-
lho. Cada nova forma de comunicação emer-
A partir dessa perspectiva, Roger Fidler gente se desenvolve influenciada, em graus
(1997)1 desenvolveu o conceito de media- variados, pela mídia existente. Da mesma
morfose, segundo o qual as novas mídias forma, as mídias existentes são impulsiona-
não surgem espontaneamente e independen- das a adaptarem-se para evoluir e sobreviver
tes, mas emergem gradualmente a partir da dentro de um ambiente variável. Se não hou-
metamorfose das velhas. O novo meio se ver adaptação, o meio tende a desaparecer.
apropria de traços dos existentes para depois No entanto, é preciso considerar que nem
encontrar sua própria identidade e lingua- todas as mídias sempre se adaptam para evo-
gem. Diante das novas mídias, as tradicio- luir. Eventualmente, algumas formas de co-
nais normalmente não morrem, ao contrário, municação, assim como as espécies vivas,
adaptam-se e continuam evoluindo. desaparecem. Mas isso não acontece ime-
Mediamorfose não é uma teoria, mas um diatamente ao aparecimento de uma nova
modo unificado de pensar a evolução tecno- forma.
lógica dos media que permite notar as seme- Os conceitos de hibridização e mediamor-
lhanças e relações existentes entre o passado, fose acrescentam à discussão sobre a muta-
o presente e as formas emergentes. O princí- ção dos media a idéia de não-linearidade do
pio é complexo e está fundamentado na hipó- processo. Há sempre que se olhar para o pre-
tese de que as forças que moldam o novo são, sente, sem esquecer o passado e projetar o
essencialmente, as mesmas forças que mol- futuro. O conceito de remediação adiciona
davam o passado. O princípio integra ainda a essa perspectiva o principio da mútua in-
fluência. O diferencial desse processo hoje
1
O pesquisador é coordenador do Institute for Cy- está no fato de a remodelagem operar na ló-
berinformation da School of Journalism and Massa
Communication da Kent State University e trabalhou
gica dupla da instantaneidade em tempo real
por mais de 30 anos como jornalista e designer em vá- e da hipermídia. A mídia digital constrói a
rios jornais americanos, tendo participado ativamente especificidade de sua linguagem e função so-
das mudanças no jornalismo em seu país provocadas cial exatamente mantendo-se fiel aos valores
pelas tecnologias da informação. culturais e estéticos dos meios tradicionais,

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porém agregando a eles os valores inerentes cia, copiava-se o que os outros produziram.
a imediaticidade do tempo real e a hipermí- A linguagem do radiojornalismo era pensada
dia. Embora a lógica da imediaticidade se como uma nova forma de apresentação da
manifeste desde o renascimento aos dias atu- mesma mensagem escrita. E como tal pouco
ais, em cada época teve significado diferente. se diferenciava do estilo narrativo dos jornais
Segundo Bolter e Grusin (1999), a diversi- da época, marcado por textos longos e proli-
dade é ainda maior para o hipermídia, que xos que misturavam relato do fato aconteci-
parece sempre oferecer um número de rea- mento com comentário ou opinião. O jornal
ções diferentes à lógica contemporânea do não era somente uma fonte de informação
imediatismo. para compor o noticiário de rádio, mas tam-
É na apropriação dessa lógica que o novo bém um modelo de narrativa que se julgava,
rivaliza com a mídia tradicional. Exemplo na época, apropriada para o meio falado (Or-
disso é a notícia na Internet. De acordo triwano, 1990).
com Bolter e Grusin, ao atuar no sentido Com a adoção do teletipo nas redações na
de levar a notícia mais rápida, a Internet já década de 40, o modo de produção do ra-
se transformou numa das mídias estabeleci- diojornalismo baseado na leitura dos jornais
das que rivaliza com a televisão, rádio e im- impressos ao microfone foi substituído por
prensa. Agora é um participante ativo in- um modelo calcado nos padrões estéticos das
corporado aos acontecimentos mais impor- agências internacionais de notícia. O noti-
tantes, a exemplo das eleições, escândalos, ciário Repórter Esso marcou essa mudança
desastres, entre outros. ao adotar como principal fonte de informa-
ção a agência de notícias United Press.
Como fonte para o radiojornalismo, a
1 A remodelagem do
agência de notícia é um exemplo de como
radiojornalismo brasileiro o uso de uma nova tecnologia está relacio-
Ao longo de sua história, o radiojornalismo nado à oportunidade e a necessidade de um
brasileiro passou por um processo de remo- momento histórico. Segundo o princípio da
delagem de linguagem, formato e processo mediamorfose, nem sempre uma tecnologia
produtivo influenciado pelas mutações das é adotada somente por seus méritos. Em
técnicas de produção. geral, há uma oportunidade, um motivo so-
Na década de 20 copiava os jornais tanto cial, político ou econômico sugerindo o de-
na forma como no conteúdo. O método con- senvolvimento da nova tecnologia. Neste
sistia em selecionar algumas notícias, grifar caso, a adoção desse modelo produção foi
o que era mais interessante e depois fazer um instrumento de construção da hegemo-
uma leitura ao microfone. O método resis- nia, num sentido grasmiciano, no contexto
tiu ao tempo a ponto de tornar-se uma prá- mundial e nacional em relação às disputas
tica comum no rádio conhecida como gilett políticas, ideológicas e culturais, especial-
press ou tesoura press. O sistema despre- mente no período da Segunda Guerra Mun-
zava as vantagens e potencialidades do meio. dial e da Guerra Fria. A notícia não servia
Ao invés de antecipar a divulgação da notí- apenas para informar, mas era instrumento
de propaganda política ideológica.

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Ainda na década de 40, o rádio remodela era necessária a presença de um técnico. As


o formato de noticiário ao criar o jornal fa- limitações técnicas do aparelho dificultavam
lado. O noticiário era semelhante a modelo a mobilidade e a agilidade do repórter no
de organização da informação no impresso. campo do acontecimento. O gravador cas-
Na abertura as manchetes, o número da edi- sete portátil alterou esse quadro. O repór-
ção e data da emissão. A seguir as notícias ter podia colher o depoimento da fonte não
eram organizadas em seções (nacional, inter- apenas para repassar a informação em ou-
nacional e local). A metáfora do jornal fa- tras palavras, mas para gravar a entrevista e
lado ajudou o ouvinte de rádio a compreen- retransmiti-la aos ouvintes com mais agili-
der melhor o noticiário de rádio, porque fazia dade.
referência a algo com o qual já estava fami- A inovação técnica, sem dúvida, modifi-
liarizado de alguma forma. cou o conteúdo da informação radiofônica e
Com o advento da TV, na década de 50, trouxe para a cena de significação a valoriza-
o rádio perde prestígio junto aos patrocina- ção do testemunho sonoro, a entrevista. As
dores. Sem dinheiro, não havia como inves- declarações, em alguns casos, passaram a ter
tir na renovação técnica de equipamentos, e um status de fato. Na década de 70, esse
menos ainda manter um cast profissional for- modo de produção foi bastante favorável à
mado por cantores, músicos, comediantes e situação política. Era época da censura, pe-
animadores. A saída foi remodelar a pro- ríodo em que o “jornalismo de verificação”
gramação adotando a veiculação de música ficara reduzido a divulgar a “versão oficial”
gravada, notícia, esportes e prestação de ser- dos acontecimentos. O ponto de vista de
viços – informação sobre condições do trân- uma autoridade militar passou a valer como
sito, polícia, tempo etc. se fosse o fato em si, sobre o qual não ha-
Nas décadas de 60 e 70, a programação via espaço para investigação. Predominava o
jornalística consolida-se no rádio por meio jornalismo de “afirmação” em detrimento ao
de emissoras especializadas em notícias. A de “verificação”.
fase é caracterizada por estruturas de pro- Paralelamente aos eventos ligados à cen-
dução jornalística próprias, com autonomia sura, nas décadas de 60 e 70 começa a ser
para levantar conteúdo próprio, diminuindo formar consenso quanto à importância do
a dependência de outros veículos para levar jornalismo local. Frente à TV, o rádio perdia
a notícia ao ar. Para expressar voz própria no a centralidade conquistada no passado. Fato
relato dos acontecimentos, a reportagem de que naturalmente impôs uma espécie de re-
rua conquista lugar de destaque nos jornais divisão territorial das transmissões dentro do
falados. processo de remodelagem, onde cada meio
Um dispositivo técnico contribuiu para descobre seu papel e função para coexistir
essa mudança: o gravador portátil que subs- e conviver. A televisão formava cadeias na-
titui o gravador de rolo usado em de externas. cionais e comandava a cobertura dos gran-
O jornalista João Batista de Abreu (2000: des acontecimentos, enquanto o rádio deli-
133-134) lembra que, na década de 50, os mitava sua influência na cidade ou na região,
gravadores de fita rolo eram grandes, pesa- dirigindo-se à comunidade. Por estabelecer
dos e movidos à bateria. Para manuseá-los vínculo com a realidade local, a informação

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de serviço (previsão do tempo, trânsito, situ- Porém, ainda assim, correspondia à notícia
ação das estradas) conquista espaço por ter do dia, diferentemente do jornal que trazia a
interesse coletivo. notícia do dia anterior.
Outra inovação tecnológica, no entanto, Nos anos 80, o radiojornalismo no Bra-
contribuiu para tornar o radiojornalismo sil revitaliza, tudo por conta da adoção de
cada vez mais próximo da audiência: o tran- quatro recursos técnicos que contribuíram
sistor. Embora a invenção seja da década de para melhorar a qualidade sonora do rádio:
40, a popularização dos aparelhos portáteis o transmissor-receptor (sistema de áudio em
transistorizados no Brasil somente aconteceu duas vias, que permite ao repórter entrar no
nas décadas de 60 e 70. Com o transistor, ar ao vivo ou conversar com âncoras e en-
o rádio ganhou portabilidade, permitindo a trevistados); a extensão da baixa freqüência
individualização da audiência. A dissemina- para telefone (acoplada ao telefone, aumen-
ção do invento assegurava o caráter de inti- tava a potência de transmissão e permitia que
midade dor rádio, a identidade afetiva com o o sinal chegasse mais forte ao estúdio); os sa-
ouvinte. télites (usados cada vez mais para transmis-
O radiojornalismo dessa fase foi perme- são em redes); e o CD que substituiu as fitas
ado pelos valores inerentes aos recursos tec- magnéticas e os discos de vinil, contribuindo
nológicos incorporados ao processo produ- para a melhoria da qualidade do som da mú-
tivo da notícia. Entre eles estavam o de atu- sica no rádio (Moreira, 2002:97).
alidade (noticiar o que acontece no presente Os dispositivos técnicos, especialmente os
e não no dia anterior), imediatismo (os fatos que facilitavam a transmissão ao vivo, le-
podem ser transmitidos no momento em que varam o repórter a participar intensivamente
ocorrem) e instantaneidade (a notícia pre- da programação, direto da cena do aconte-
cisa ser recebida no momento em que foi cimento O que contribuiu para aprofundar e
emitida). Diante desses valores, a idéia de explorar a característica do imediatismo ine-
um jornalismo baseado em notícias do dia rente à natureza tecnológica do rádio. O
anterior, publicadas pelo jornal, tornara-se tempo entre o acontecimento e a veiculação
sem sentido, além do que não atendida mais da notícia foi encurtado. A cobertura ao vivo
às exigências da audiência, em especial nas criou uma sensação de participação do ou-
grandes cidades, de divulgação imediata dos vinte no cenário dos principais acontecimen-
acontecimentos que influenciam o cotidiano. tos políticos da época. A população estava
Embora os avanços tenham sido significa- ávida por notícias a respeito das mudanças
tivos, no sentido de colocar em prática os va- políticas com o fim de vinte anos de dita-
lores inerentes à natureza tecnológica do rá- dura militar: eleição direta para governador,
dio, muito do material jornalístico levado ao retorno dos exilados ao Brasil e eleição in-
ar ainda era baseado em entrevista editada. direta do primeiro Presidente da República
A reportagem ou participação ao vivo não civil.
era uma prática freqüente em todas as emis- Nesse período, a apresentação das notícias
soras do país. É certo afirmar que decorria passou a contar intensamente com a voz dos
um tempo entre os procedimentos de capta- próprios repórteres que colhiam a informa-
ção e edição da entrevista e sua veiculação. ção no local do acontecimento. Sendo fa-

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tor de credibilidade, a reportagem em tempo cobertura do Governo Federal em Brasília,


real de grandes eventos políticos e sociais da com equipes próprias de reportagem, além
época, a exemplo da campanha das Diretas de investir em comentaristas de peso que pu-
Já, facilitou a identificação do meio com a dessem dar sentido e significado aos aconte-
audiência. O vivo trouxe para o campo da cimentos.
produção jornalística do rádio o “momento”
como valor-notícia, segundo Eduardo Me-
2 Radiojornalismo na era da
ditsch:
informação
“O conhecimento do absolutamente efêmero,
até então desprezado por uma tradição le-
No início da década de 90, o radiojornalismo
trada que possuía como principal parâmetro passa por mudanças provocadas pela subs-
de validação a posteridade, revela-se cada tituição dos meios técnicos analógicos pe-
vez mais fundamental para a sobrevivência los digitais. Um dos mais importantes foi
numa sociedade que se move em velocidade o uso do celular pelos jornalistas para trans-
crescente. O rádio foi o primeiro meio de co- missão de notícias a partir do local do acon-
municação de massa a operar em tempo real”. tecimento. Com o celular, o repórter ga-
(1999a:125) nha agilidade para realizar entrevistas ou fa-
zer participação ao vivo de qualquer lugar.
O tempo real do rádio passou a estar afi- Conquista mobilidade muito superior ao te-
nado com a rotatividade da audiência. Na lefone sem fio utilizado nas unidades móveis
década de 80, configura-se o conceito de re- de freqüência modulada.
petição de notícias com o objetivo de atender Essa tecnologia contribuiu para alterar o
a rotatividade da audiência móvel diante do conceito de velocidade e instantaneidade na
aparelho de rádio transistorizado, disponível divulgação da informação. Tornou o jorna-
em qualquer lugar, especialmente nos auto- lismo de rádio diário “mais quente” em rela-
móveis. ção aos demais. A cultura do “ao vivo”, pre-
A proximidade conquistada nesse período sente na era analógica, agora foi reforçada.
passa a conviver com a transmissão por sa- Trouxe o caráter de antecipação da informa-
télite, uma das estratégias das emissoras es- ção rivalizando com a cobertura do jornal e
pecializadas para ampliar a área de cobertura da TV. Por outro lado, fortaleceu o formato
territorial e conquistar maior parcela do pú- de radiojornalismo calcado nos gêneros no-
blico e o interesse de grandes patrocinadores. tícia, reportagem e entrevista.
Diferentemente da TV, que na década de 60 O processo de digitalização dos equipa-
soube aproveitar o potencial do satélite para mentos de áudio também afetou a produção
retransmitir sua programação, o rádio se be- do radiojornalismo. Um dos principais avan-
neficiou tardiamente desse sistema. Acostu- ços foi a invenção mini-disc (MD), um apa-
madas à seleção de notícia numa dimensão relho que mudou a perfomance do armaze-
local, as emissoras tiveram de redimensio- namento e edição do registro sonoro. O MD
nar seu processo de produção para compor flexibilizou o processo de edição ao permi-
um noticiário realmente de interesse nacio- tir mover, excluir, editar e combinar dife-
nal. Neste caso, a estratégia foi intensificar a

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rentes trechos de gravação num mesmo su- vas informações, ou mesmo editar, cortar,
porte tangível. Para o jornalismo represen- emendar sonoras de matérias de repórteres
tou a aposentadoria dos inflexíveis aparelhos ou entrevistas ao vivo com ajuda do pro-
de reprodução de cartuchos de fita magnética grama Sound Forge. Os repórteres na rua não
(cartucheiras). têm acesso remoto a esse dispositivo, por-
O segundo avanço rumo à digitalização fo- que nenhuma emissora especializada dispõe
ram os softwares de operação de áudio para atualmente de laptops. De qualquer modo,
programação ao vivo que permitiram a au- a participação ao vivo deles é gravada pela
tomatização na reprodução de músicas, co- central técnica que, por sua vez, a disponibi-
merciais, chamadas e locução gravada (Mo- liza o arquivo em formato wave.
reira, 2002:133). O terceiro passo impor- A integração da rede local à Internet
tante foi a adoção dos softwares de edição trouxe mudanças na forma de processar a
de som para PC e das estações de áudio in- informação. Os jornalistas de rádio passa-
formatizadas que funcionavam como sistema ram a ter acesso gratuito às principais agên-
de edição não-linear. cias de noticias e aos jornais online nacio-
Nesse sentido, a informatização da reda- nais e internacionais. À primeira vista essa
ção influenciou novos modos de produção. facilidade ampliou o olhar sobre os aconte-
Na primeira metade década de 90, os com- cimentos diante da multiplicidade de assun-
putadores eram utilizados na redação como tos disponíveis para seleção. Situação bem
processador de texto e terminal de recepção diferente das condições de produção da era
das agências de notícias. Mas tarde, numa analógica. O acesso às agências de notícias
segunda geração, os computadores passaram somente era possível mediante assinatura do
a fazer parte de uma rede local, servindo serviço. Emissoras como Jovem Pan e Ban-
de unidades de edição não-linear (Meditsch, deirantes assinavam, no máximo, uma agên-
1999:110). cia internacional e duas nacionais. Antes os
Na segunda metade da década de 90, a jornalistas tinham acesso às fontes por meio
redação de emissoras especializadas em jor- de diferentes suportes físicos, como material
nalismo passou por uma terceira fase da in- impresso, carta, áudio, telefone, teletipo, fax.
formatização com a constituição de rede de Outro modo era buscar pessoalmente a infor-
computadores local, integrando a redação e mação no local do acontecimento.
edição de noticiários à central técnica e com Essa vantagem, no entanto, deve ser vista
conexão à Internet. No âmbito local, a rede com cautela. Na verdade, tem-se acesso ao
garante o livre tráfego de informação, tanto conteúdo parcial de jornais online, portais e
em forma de texto como em áudio. Graças a agências de notícias, portanto, nem sempre
um software de gerenciamento de produção, é o material jornalístico integral disponível
os jornalistas agora têm acesso ao espelho de apenas para os assinantes. Trata-se de mate-
programas e às matérias levadas ao ar em to- rial de segunda ou terceira mão, submetido
dos os noticiários por meio do terminal de a critérios prévios de seleção, portanto, fil-
seu computador. trado pelos valores inerentes àquela publica-
Editores e redatores podem copiar notí- ção. Mesmo quando os jornalistas vão dire-
cias disponíveis, reescrevê-las agregando no- tamente ao site das agências internacionais

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para complementar informação, ainda assim mação livre de limitações temporais benefi-
acessam resumos e não as matérias integrais ciou a manutenção do fluxo contínuo infor-
disponíveis somente para assinantes. mativo no rádio. Primeiro porque oferece
A Internet também contribuiu para mol- uma noção orientativa sobre o que é atual,
dar um novo comportamento dos jornalistas ajudando a redação a se posicionar no ciclo
em relação à busca de notícias. Nas décadas produtivo da notícia. Quem chega à tarde
de 60 e 70, época marcada pela valorização para trabalhar, por exemplo, consegue sa-
da reportagem no local do acontecimento, os ber exatamente que notícias foram destaques
jornalistas ficavam à procura de notícias. Pa- pela manhã numa rápida consulta aos sites
ralelamente a essa posição, o profissional na de jornais e agências de notícias online. Se-
redação ficava à espera de despachos envia- gundo porque é um modo de conseguir, re-
dos pelo teletipo para alimentar o fluxo con- ceber e trocar informação de forma rápida e
tínuo de redação de boletins e noticiários de ágil. Terceiro porque a Internet é uma forma
hora em hora. de acesso às fontes de notícia de alta pro-
Na década de 80, as notícias “procura- dutividade e renovação constante. E quarto
vam” os jornalistas. Com a profissionaliza- pela vantagem de ter a memória acumulada
ção das assessorias de comunicação de em- e armazenada dos acontecimentos, recuperá-
presas, órgãos públicos, sindicatos, entida- vel a qualquer tempo, tanto nas publicações
des de classe e organismos não governamen- digitais online como por meio de sistemas de
tais cresceu a oferta de material informativo busca em qualquer site.
pronto para ser utilizado à disposição da re- Além do mais, a Internet é referência
dação, sem contar com as sugestões de entre- na redação para avaliar os acontecimentos
vistas ao vivo, coletivas de imprensa, entre quanto à atualidade, novidade, interesse e
outros. importância. O valor de atualidade passou
Com a Internet, os jornalistas abandona- a corresponder ao tempo real, ou seja, o pro-
ram a posição passiva de ficarem à espera de cessamento da informação se dá num ambi-
despachos e informes de agências de notícias ente onde não há diferenciação do tempo. O
e releases para assumirem a postura “ativa” reflexo disso é o aumento do índice de atuali-
na recolha de assuntos, porém dentro do am- dade na redação. Em conseqüência, as fron-
biente online. Hoje fazem uma “busca ori- teiras dos dealines tornaram-se mais elásti-
entada” por informação na rede guiada pe- cas. Houve um encurtamento do ciclo da
los valores e critérios definidos pela política informação no radiojornalismo que na era
editorial da emissora. O intuito é recolher analógica já era considerado elevado e agora
notícias atuais e de interesse. O trabalho do ganha maior aceleração. O ritmo da infor-
jornalista não é apenas ler o material para se mação com o tempo real muda a lógica do
informar e constituir seu próprio relato dos tempo informativo no rádio para entrar numa
acontecimentos. A leitura é confundida com era de quase “imediaticidade absoluta” (No-
a busca de notícia pronta. Obter o material gueira, 2003) uma vez que os ciclos estão
de divulgação acabou por se converter num cada vez mais curtos. As decisões sobre o
fim em si mesmo. que entra ou não no noticiário da emissora
Sem dúvida, o acesso a fontes de infor- são tomadas cada vez mais em tempo real.

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Nesse processo de mutação houve uma jornalismo poderá parecer o mesmo para o
apropriação de valores típicos da Internet na ouvinte, ou seja, mantendo-se fiel aos valo-
produção do radiojornalismo. Entre eles, a res estéticos e culturais de sua origem: atual,
cooperação entre usuários, comunicação ho- instantâneo, simultâneo, focado no interesse
rizontal, sem hierarquias, entre os integran- social e na prestação de serviço. Ocorre que
tes da rede local; interatividade e informa- as mudanças no fazer não alteraram as velhas
lidade nas relações entre membros da rede formas de apresentação da notícia. Quando
(chefes, editores, redatores e repórteres); li- um redator noticiarista entra ao vivo lendo
vre fluxo de informação produzida dentro da uma nota extraída da Internet dá a impressão
redação; participação e intervenção dos inte- ao público de que se trata de matéria apurada
grantes da rede no conteúdo; acessibilidade a por ele. A narrativa falada transfere credibi-
conteúdo próprio e de outros em tempo real; lidade para o conteúdo da notícia como uma
personalização do acesso ao conteúdo; e in- qualidade do discurso radiofônico. No en-
teratividade entre membros da redação como tanto, a matéria pode ser resultado da conso-
também entre eles e a audiência seja via e- lidação de informação extraída da Internet e,
mail ou site da emissora. muitas vezes, confundida com conteúdo pró-
Diante dessas mudanças, prevê-se que o prio ao ser apresentada na linguagem do rá-
radiojornalismo será cada vez mais factual dio e focada na política editorial da emissora.
na tentativa de rivalizar com a Internet, em- A reportagem de rua tende a ser comple-
bora se aproprie dela para construir parte sig- mentada com informes das agências de notí-
nificativa do seu noticiário. Consolidará na cia. O olhar do repórter no local parece não
redação o habitus de atribuir valor de atu- ser mais o bastante. Será preciso buscar ou-
alidade, importância e interesse para o que tros pontos de vistas para complementar. A
é destacado na Internet, algo que, no limite, idéia de radiojornalismo original, segundo o
poderá influenciar na redução de modalida- qual o repórter oferece uma visão própria dos
des próprias de apuração da informação até acontecimentos, será cada vez mais ampli-
mesmo pelas vantagens oferecidas como re- ada pelo conteúdo da Internet.
dução de custos e de pessoal. O indicador A noção de local no rádio também passa
dessa mudança está na redução do quadro de por um processo de ampliação, ou seja, é
repórteres verificado nas emissoras especia- transversalmente cortada pela noção de glo-
lizadas se comparado com a era analógica. bal. A cobertura de assuntos importantes no
As emissoras tendem a investir em ferra- nível global também interessa às emissoras.
mentas que possibilitam acessar informação No caso de eventos globais, procura-se dar a
sem demandar o deslocamento de pessoal até eles um toque local no rádio, repercutindo-
o local do acontecimento. Essa estratégia ga- os com especialistas, parentes de vítimas,
nha força devido ao fácil acesso a informa- jornalistas brasileiros no exterior de outras
ção gratuita disponível na rede. No limite, agências de notícias.
a estratégia adotada resultará num noticiário A informação de serviço tende a ser pre-
cada vez mais dependente das agências e jor- ponderante na programação e apurada pela
nais online. própria equipe de reportagem. Nesse as-
Agravante dessa situação é que o radio- pecto, o rádio supera os demais meios por

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ter se especializado, ao longo dos anos, em dação dispositivo técnico de acesso à infor-
fornecer informação em primeira mão sobre mação em estado bruto como também aos
trânsito, acidentes, estradas e tempo. Ao en- dados de segunda ou terceira mão. Diante
focar a prestação de serviço, sobrarão pou- desse fenômeno, a visão de mundo natural
cos jornalistas para cobertura de outros as- confronta com a intencionalidade. As no-
suntos. Vários fatores favorecem para esta tícias não aparecem de forma natural, mas
situação, entre eles a dificuldade de locomo- se fazem como conseqüência da vontade hu-
ção numa grande cidade. O que representa mana, da história, das circunstâncias sociais
selecionar antecipadamente os assuntos que das instituições e das convenções da profis-
vão demandar a reportagem de rua a partir são, e agora também sob influência das tec-
da agenda de serviço e do sistema interno de nologias da informação. A Internet, com
apuração. É uma combinação entre os acon- seus valores e lógica comunicativa, se no-
tecimentos importantes que emergem do so- tabiliza por ser uma das formas de conheci-
cial e os interesses editoriais das emissoras. mento da realidade para o jornalismo.
A mobilização de equipes de reportagem de- Desse ponto de vista, a Internet molda
penderá sempre da abrangência do assunto. crescentemente as experiências nas múlti-
Muda, portanto, o conceito de seguir as pau- plas formas do ser e de estar do homem no
tas do dia e passa a ser condicionada pelos mundo. É o mesmo homem que vê, ouve
casos de excepcionalidade. e sente o mundo, sem a mediação de meios
Mas por outro lado, esse procedimento instrumentais, é o mesmo que sente através
traz implícito a padronização do conteúdo de meios técnicos digitais. O que mudou fo-
porque é comum o uso freqüente das mes- ram os horizontes desse mundo e os paradig-
mas fontes. Todos bebem da mesma fonte mas da sua experiência (Fidalgo, 2002).
na hora de compor seu noticiário, reprodu-
zindo as mesmas fontes e o mesmo discurso.
3 Bibliografia
Muito da tendência à homogeneização deve-
se ao comportamento dos jornalistas de atri- ABREU, João Batista de. Faca de dois gu-
buírem maior grau de credibilidade às agên- mes. In MOREIRA, Sonia V. e BI-
cias de noticias oriundas da mídia tradicio- ANCO, Nelia R. Del. (orgs.) Desafios
nal. A concentração da informação nas mãos do rádio no século XXI. São Paulo: In-
de poucos persiste até mesmo num campo de tercom; Rio de Janeiro: UERJ, 2001.
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e plural. BIANCO, Nelia R. Del. Radiojornalismo
O fundamento histórico do jornalismo está em mutação – A influência tecnológica
no conhecimento da realidade, na apuração e cultural da Internet na transformação
dos fatos e na apresentação de narrativa cor- da noticiabilidade no rádio. Tese (Dou-
reta, crível, isenta de opinião e de parcia- torado em Comunicação). São Paulo:
lidades. Cabe aos jornalistas a verificação ECA-USP, 2004.
dos fatos por meio de levantamento de da- BOLTER, Jay David e GRUSIN Richard.
dos junto às fontes. No entanto, cada vez
mais adquire importância no cotidiano da re-

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