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Para além dos anúncios: fugas e instabilidade política a partir do Jornal do

Commercio no Rio de Janeiro (1827-1888)


Alice Regina Maciel de Moura
Tema
Durante a maior parte do século XIX a escravidão no Brasil se expandiu, em
articulação ao crescimento das cidades e do tráfico de escravos. Foram nas lavouras de
café que a mão de obra escrava mais se desenvolveu, após tentativas frustradas de
utilização de trabalho de imigrantes. O cultivo permaneceu concentrado na região
sudeste, que na segunda metade do século já era a área com o maior número de
escravos.

A escravidão se desenvolveu praticamente em todas as atividades produtivas,


porém, o Rio de Janeiro chegou a ser a maior cidade com população escrava, tendo o
maior porto escravista do Atlântico. Na cidade, os cativos tinham diversas funções e era
comum ter-se pelo menos um escravo para serviços domésticos e de rua. Entre as
funções que os cativos eram encarregados, destacam-se o trabalho de escravo de ganho,
serviços de transporte de pessoas e cargas, os ofícios manuais e o serviço doméstico,
este último, realizado principalmente por mulheres.

Após a definitiva proibição em 1850, a mão de obra começava a ficar escassa,


tendo como consequência a elevação dos preços e a ressignificação da dinâmica interna
do tráfico interprovincial, retirando escravos de zonas menos produtivas do país e
concentrando na região cafeicultora. Além disso, houve um debate sobre a melhoria das
condições de vida e do tratamento dado aos cativos, como por exemplo, diminuição dos
castigos corporais, sendo uma forma de garantir a vida e o trabalho.

Nesse período, a transformação do mundo econômico criou condições para a


existência de um sistema escravista mais volátil e intenso que anteriormente – por vezes
mais brutal – e que utilizou os recursos do avanço capitalista em seu próprio benefício,
otimizando a produção, o tempo e criando novas formas de organização de trabalho,
gerando um aumento significativo da produção e tornando estas zonas ativas (quando
não coadjuvantes) no mercado mundial1.

No entanto, estas mesmas regiões escravistas remanescentes também estavam


vulneráveis ao perigo das revoltas liberais que “contaminavam” o mundo em um
contexto em que as forças/elites locais tiveram de medir esforços para contê-las,

1
Sobre o debate da Segunda Escravidão: TOMICH, Dale. Pelo prisma da escravidão. Trabalho, Capital e
Economia Mundial. São Paulo: Edusp, 2011 e SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo – Vassouras, século
XIX. Senhores e escravos no Coração do Império. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2008.
amedrontadas pelo pânico do avanço de ideias liberais, mas raramente prevendo que o
sistema escravista chegaria ao fim.

Em relação ao comportamento dos escravos e suas próprias perspectivas, há um


consenso entre os historiadores de que grande parte das revoltas não previa o fim do
regime escravocrata, salvo exceções, mas sim adotar “direitos” já reconhecidos
anteriormente. A esse respeito João José Reis e Eduardo Silva, em seu livro que trata
sobre resistência escrava, afirmam: “Existia em cada escravo ideias claras, baseadas nos
costumes e em conquistas individuais, do que seria, digamos, uma dominação aceitável.
” (REIS; SILVA; 1989, p.67).

O tema da resistência escrava é fruto de historiografia recente e este trabalho se


encaixa nessa perspectiva. Além de resgatar o pioneirismo dos cativos como sujeitos de
sua própria história e o seu papel na abolição, o estudo da resistência permite a
compreensão de que os escravos foram capazes de desenvolver uma visão crítica da
sociedade, da sua própria dominação, e elaborar os seus próprios conceitos de liberdade
(que, no geral, está ligado à “vontade de viver sobre si”), o oposto do que a Escola de
Sociologia Paulista afirmava. Apesar de terem poucos recursos políticos, os escravos
não eram totalmente alheios ao que se passava no “mundo dos homens livres”. Na
verdade, souberam utilizar alguns temas e ideias liberais, atribuindo significados
próprios para as reformas que desejaram.

Essa ideia de resistência é utilizada pelos historiadores e analisada no presente


trabalho para produzir uma compreensão do comportamento desses protagonistas que
sempre foram silenciados ou abordados de uma forma parcial.

***

Periódicos como o Jornal do Commercio, fundado em 1827, com sua


importância significativa no século XIX e sua grande circulação, acompanhou
momentos decisivos do Império. Apesar de buscar sempre imparcialidade, tentando se
distanciar do debate político, acaba lucrando com a instituição escravista com a seção de
anúncios de venda e captura de escravos.

Pretendemos trabalhar com a imprensa do século XIX, mais especificamente da


fundação do Jornal do Commercio em 1827 até a abolição em 1888 no Rio de Janeiro.
Nossa intenção é verificar os períodos de crescimento de anúncios de escravos fugidos;
identificar quais os contextos político e social da ocorrência desse fenômeno e a partir
desses dados, estabelecer possíveis conexões.

No geral, os trabalhos produzidos sobre anúncios de fugas, visam levantar


informações para a análise da população escrava, tais como, características físicas, faixa
etária, doenças e etnias dos cativos, mas raramente pensam em estabelecer relações
entre a maior ou menor ocorrência das fugas e o contexto político-social.

Discussão historiográfica

Na década de 1930, o sociólogo Gilberto Freyre2 difundiu a ideia de que a


escravidão brasileira era paternalista em comparação com a escravidão americana.
Segundo ele, no Brasil a escravidão se estruturava principalmente a partir das práticas
paternalistas e sem definições rígidas sobre as raças, enquanto nos Estados Unidos
existiam leis segregacionistas.

Dessa forma, Freyre tenta confrontar uma visão depreciativa da formação do


Brasil, mostrando a miscigenação como um aspecto positivo. Essa mistura seria a prova
de que o país vivia sob uma democracia racial, onde os brasileiros seriam superiores em
relação à sociabilidade.

Na tentativa de denunciar esse mito, Fernando Henrique Cardoso3 apresenta a


ideia de que a escravidão só conseguia se sustentar porque fazia o uso da violência.
Segundo ele, os cativos perderiam a humanidade nas relações escravistas e as práticas
brutais do sistema coisificavam os escravos a ponto dos mesmos serem meros sujeitos
passivos de sua história, como se a violência e a dominação de seus senhores tivessem
feito com que incorporassem completamente esse mundo e assim teriam perdido a
noção de família, a capacidade de resistência e a consciência de si.

Nesse sentido, a formação de quilombos ou atos de revolta contra o sistema


escravista, seriam apenas “reações”, sem nenhum tipo de articulação ou racionalidade,
contra o cativeiro.

Uma outra historiografia tenta apresentar formas de resistência por parte dos
escravos e os recursos que tinham para influenciar o ritmo de suas vidas, agindo de
acordo com lógicas e experiências particulares.
2
FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. Rio de Janeiro: Coleção Documentos Brasileiros, 1952
3
CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1977.
O historiador João José Reis4 também tenta compreender a ação dos escravos
contra a instituição escravista. O autor apresenta como as ações escravas são
completamente heterogêneas em seus objetivos, tamanhos e relações, tentando mostrar a
complexidade destes. Além disso, mostra que depois de Palmares, o termo quilombo
passou a ser utilizado para definir o reduto de escravo fugido, substituindo a expressão
anterior “mocambo”. Esclarece como os escravos, através de práticas sincréticas, não se
tornam o que os senhores desejavam, interpretando a mescla de cultura como ato de
resistência.

Para ele, após Palmares, o que impossibilitou a existência de uma rebelião de


grande porte foi a instalação de agentes repressores e leis, aumentando a coerção.

Para o historiador Rafael Marquese, em seu artigo “Resistência, tráfico negreiro


e alforrias, séculos XVII a XIX”5, os senhores utilizaram as concessões de alforria e
outros mecanismos6 para controlar os escravos e isso teria impedido a construção de
outros Palmares.

Além disso, com a alforria, o liberto – brasileiro – participava do processo


eleitoral desde que cumprisse os critérios censitários e eventualmente tornava-se
proprietário de escravos. Diante dessa possibilidade, a alforria funcionava como um
fator de contenção de tensão e revoltas.

Nesse sentido, a elasticidade da escravidão, possível pelo tráfico, gera a adesão


de grande parte da população ao sistema escravista, fazendo com que os próprios
libertos almejem a compra de cativos que estariam à disposição para fazer qualquer
trabalho considerado degradante.

Em relação às diferentes formas de resistência, outro trabalho notório é o de


João José Reis em parceria com Eduardo Silva7, em que apresentam relações muito
complexas no cotidiano da sociedade escravista, rompendo com as clássicas visões do

4
REIS, João José. Quilombos e revoltas escravas no Brasil. In Revista da USP. São Paulo (28): 14-39.
Dezembro/Fevereiro 95/96.
5
MARQUESE, Rafael. “Resistência, tráfico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX.” Novos Estudos 74.
Março 2006.
6
A historiadora Emília Viotti da Costa, afirma que através do sistema de patronagem e clientela as elites
brasileiras conseguiam manter sua hegemonia sobre os demais grupos sociais, contribuindo para a
estabilidade do sistema escravista. COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à república: momentos
decisivos. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999.
7
REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociações e Conflito; a resistência negra no Brasil escravista. São
Paulo: Companhia das Letras, 1989.
escravo como completamente vítima ou completamente herói, demonstrando a tentativa
dos cativos de criar uma conjuntura melhor para si. A ideia central é demonstrar que os
escravos aproveitavam tanto as situações favoráveis quanto as de conflito, para as
negociações

Os autores trabalham com duas categorias de fugas: as reivindicatórias e as


fugas-rompimento. As fugas reivindicatórias foram mais comuns no período em que o
tráfico interprovincial se tornou predominante. Portanto, os principais motivos de fugas
eram a punição injusta ou uma possível troca de senhor, sem possibilidade de negociar.

Nesse tipo de fuga, apenas tentava assegurar alguns “direitos” como: manter-se
próximo de sua família ou continuar com o seu ritmo de trabalho. Assim, podemos
perceber como a família escrava podia ser um instrumento de dominação do senhor8.

Já nas fugas-rompimento, como se pode imaginar, era um rompimento total com


o sistema escravista. Esse escravo tinha que manter-se vigilante constantemente, pois
toda a sociedade estava contra ele, principalmente quando a fuga era divulgada nos
jornais e a sua captura valia uma recompensa.

Portanto, as fugas e revoltas são vistas como limites de negociação, ou seja,


quando os escravos não conseguem o reconhecimento de seus “direitos costumeiros”.
Dessa forma, seu trabalho dialoga com o historiador Sidney Chalhoub9, que através de
seus estudos, mostra que a possibilidade de autonomia no mundo dos escravizados não
significava necessariamente a liberdade. A partir da análise de processos criminais,
Chalhoub mostra que os “direitos” eram conquistas dos escravos que precisavam ser
respeitados para que seu cativeiro tivesse continuidade.

Robert Conrad10, em seu trabalho fundamental para o entendimento do processo


abolicionista no Brasil, argumenta que além da pressão inglesa e dos intelectuais
abolicionistas, a pressão por parte dos escravos foi fundamental para a desestruturação
da ordem escravista, principalmente nas duas décadas que antecederam a abolição.

8
Um trabalho interessante sobre a família escrava apresenta a família como uma forma de conservar a
identidade dos cativos e resistir aos males do trabalho compulsório. Porém, também proporcionava aos
senhores mais um instrumento de dominação; SLENES, Robert. Na senzala uma flor: Esperanças e
Recordações da Família Escrava (Brasil Sudeste, Século XIX), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999.
9
CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São
Paulo: Companhia das Letras, 1990.
10
CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975.
Demonstra que os cativos iam construindo suas formas de resistências de acordo com as
circunstâncias, como fugas para quilombos ou regiões distantes, assassinatos de
senhores, capatazes e até mesmo de sua família como forma de se negar a escravidão,
além do suicídio, furtos e assaltos. Conrad afirma que a fuga era uma alternativa muito
comum para a liberdade, além de desgastar os proprietários com os prejuízos na
procura, na captura e nos anúncios.

A historiadora Lana Lage da Gama Lima11 analisa a visão escravocrata do


escravo como um “inimigo doméstico”, portanto, justificativa para o uso da violência
constante. O pioneirismo de Lana Lage se estrutura em torno da ideia de que se a
violência era estruturante da escravidão, a rebeldia negra também. Logo, inúmeras
formas de resistência foram utilizadas pelos escravos, entre elas, foram citadas pela
autora: a formação de quilombos como os de Zumbi, Manuel Congo, o quilombo
Bomba que tanto trouxe pânico à população, assassinatos, abortos, suicídios e até
processos de escravos contra seus senhores.

Neste sentido, Célia Maria de Azevedo12, é também uma das principais


representantes dessa historiografia e chama a atenção para o medo gerado entre os
fazendeiros por conta de atitudes violentas que os escravos tiveram diante das relações
escravistas na província paulista, isso muito antes das fugas de 1887.

O rompimento de laços familiares e de amizade, venda de escravos para


fazendas de café com novos ritmos de trabalhos teriam sido os motivos geradores de
violência por parte dos cativos. Além disso, a autora critica a Escola Sociológica de São
Paulo, porque negava aos escravizados o protagonismo e parte da responsabilidade pelo
fim da escravidão.

A historiadora Maria Helena Machado13, utilizando documentos policiais, aponta


uma contradição do que era noticiado nos jornais e o que realmente acontecia no que se
refere à violência dos cativos. A autora mostra que apesar dessa incoerência, o medo de
uma revolta como a do Haiti entre os senhores de escravos já era grande, devido ao
aumento da violência, enfatizando como a polícia estava consciente de sua impotência
no caso da generalização das revoltas.

11
LIMA, Lana Lage da Gama. Rebeldia negra e Abolicionismo. Rio de Janeiro: Achiamé. 1981.
12
AZEVEDO, Op.Cit.
13
MACHADO, Maria Helena. O Plano e o Pânico. São Paulo: EDUFRJ/EDUSP, 1994.
***

Existem diversas formas de pesquisar a resistência dos escravos, uma delas é a


análise de anúncios de escravos fugidos publicados nos diferentes jornais do Império.
Esses anúncios foram objeto de análise de Gilberto Freyre14, sendo pouco valorizados
na época. Seu objetivo principal era traçar um perfil dos escravos fugitivos e conhecer o
cotidiano escravista.

Essa proposta foi retomada em diversos trabalhos15 posteriores a Freyre. Grande


parte da historiografia sobre anúncios de escravos fugidos tem como objetivos fornecer
elementos sobre as condições de vida dos escravos; identificar etnias a partir de suas
“marcas tribais” e arcada dentária; as deformações decorrentes de excesso de trabalho,
dos castigos ou doenças causadas pela má-higiene e alimentação. Além disso, são
apresentadas as variadas profissões, faixa etária, gênero e possíveis articulações sociais
dos escravos.

Ao propor a análise dos anúncios de fugas de escravos, o presente projeto se


insere nas novas abordagens sobre as formas de resistência dos indivíduos escravizados
e suas visões de mundo. Através de uma análise qualitativa, procura identificar os
diferentes tipos de fuga; numa abordagem quantitativa discute as relações entre os dados
sobre aumento de fugas e os contextos sócio-políticos.

Objetivos:
 Compreender os diversos tipos fugas e sua representação na imprensa.

14
FREYRE, Gilberto. O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. 2° edição. São Paulo:
Editora nacional, 1979
15
GEBARA, Ademir. Escravos: Fugas e Fugas. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 6, n.12,
mar./ago.1986, pp. 89-100; GOMES, Flávio. “Jogando a rede, revendo as malhas: fugas e fugitivos no
Brasil escravista”. Tempo: Revista do Departamento de História da UFF, n. 1, 1996, pp. 67-93;
FLORENTINO, Manolo. De escravos, forros e fujões no Rio de Janeiro Imperial. Revista USP, n. 58, 2003,
pp. 104-115; SOARES, Geraldo Antonio. Quando os escravos fugiam: Províncias do Espírito Santo, última
década da escravidão. Estudos Ibero-Americanos. PUCRS, v.XXIX, n.1, 2003; AMANTINO, Márcia. As
condições físicas e de saúde dos escravos fugitivos anunciados no Jornal do Commercio (RJ) em1850.
História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.14, n.4, p.1377-1399, out.-dez. 2007; _______.
Os escravos fugitivos em Minas Gerais os anúncios do Jornal O Universal – 1825 a 1832. Lócus: Revista
de História. Juiz de Fora, v. 12, nº 2, pp.59-74, 2006; MACHADO, Geosiane Mendes. Com vistas à
liberdade: fugas escravas e estratégias de inserção social do fugido nos últimos decênios do século XIX
em Minas Gerais. Belo Horizonte: FAFICH/ UFMG, 2010. (Dissertação de mestrado); FLORENTINO,
Manolo e AMANTINO, Marcia. Fugas, quilombos e fujões nas Américas (séculos XVI-XIX). Análise Social,
Vol. XLVII (2.º), 2012 (n.º 203), pp. 236-267.
 Analisar, de forma dialética, os períodos de aumento dos anúncios de
fugas de escravos na relação com o contexto político e social.

Hipóteses:
 Os períodos de aumento do número de anúncios estão relacionados com
os períodos de instabilidade no Império, mostrando que os escravos
podiam se aproveitar de diversas situações para as fugas.
 O crescimento do número de publicações sobre fugas amedrontava a
população e gerava a adoção de medidas de repressão.

Fonte e metodologia
A escolha do jornal como fonte de pesquisa, foi devido à facilidade de encontrar
os agentes participantes dos processos sociais e perceber seu papel na construção dos
imaginários e memórias do objeto em análise.
O periódico que utilizaremos como fonte primária será o Jornal do Commercio.
Este jornal foi fundado em 1° de outubro de 1827 por Pierre René François Plancher de
La Noé que apostava em notícias diárias de cunho mercantil e informativo. O formato
do jornal foi se transformando no decorrer de sua existência, aumentando para
acomodar mais anúncios e informações.
A seção de anúncios era o que sustentava o jornal, diversos eram os produtos
anunciados, dentre eles: classificados de escravos, informando os navios que chegavam
da África ou oferecendo gratificações para quem capturasse escravos fugidos, sem
contar com os que estavam à venda.
Temos ciência de que o periódico representava o pensamento de uma elite
intelectual e apesar de trocas dos chefes editoriais, o Jornal, na maior parte de sua
existência no Império, tentou não se indispor com o governo. Apesar disso, o periódico
possuía uma seção muito lida, a chamada “A pedidos” em que os leitores tinham seu
espaço para acusações, brigas políticas, defesa de ideias, reclamações e até ataques ao
imperador.
Sobre o jornal, Nelson Werneck Sodré16 concorda com uma descrição feita por
Alcindo Guanabara: “o Jornal do Comércio não é partidário, mas pesa deliberadamente

16
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro, Mauad, 1999.
na concha das instituições. É conservador nesse sentido; é moderado, em todos os
sentidos. Como sempre, não encontrareis o eco dos clamores partidários; mas
acompanhareis com mais detalhes, recebendo, talvez, impressões mais nítidas os fatos
que nos constituem a vida. ” (SODRÉ, 1999; p.189.).
A pesquisa tem como alicerce os seguintes passos metodológicos: a leitura de
fontes: Jornal do Commercio e análise, de forma secundária, do editorial de outros
jornais como contraponto. Além disso, a leitura de obras pertinentes à resistência
escrava, violência e história da imprensa.
Inicialmente, faremos um levantamento quantitativo dos anúncios de escravos
fugidos. Em seguida, iremos analisar qualitativamente os períodos com o aumento
significativo do termo, relacionando-os com períodos de instabilidade e possível
crescimento de violência em geral.
Esses anúncios fomentavam o imaginário de caos e desordem na população,
assim procurando intervir na opinião pública para fomentar políticas repressivas por
parte do Estado. Nesse sentido, iremos trabalhar com editoriais de outros periódicos,
tentando estabelecer relações entre o aumento do número de anúncios de escravos
fugidos e o sentimento de insegurança da população.

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