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“Cidade, arte
e política”
Coimbra

TEXTO MARTA POIARES

No dia 23 de Janeiro de 2008, 130 figuras do meio cultu- Adília Alarcão, o bastonário da Ordem dos Advogados,
ral, académico e político de Coimbra, tornaram público António Marinho Pinto, o antigo secretário de Estado do
um manifesto onde acusam a Câmara Municipal de Ensino Superior José Reis, o director do Teatro Académico
Coimbra (CMC) de assumir no plano cultural um papel de Gil Vicente (TAGV), Manuel Portela, o encenador João
“destruidor do potencial de criação artística” da cidade. Maria André, entre muitos outros.
Segundo os subscritores do documento intitulado Neste manifesto, sublinha-se que “as verbas para a cul-
“Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura!”, a autar- tura sofreram um novo corte de três milhões de euros,
quia “já não se limita a não apoiar devidamente a activi- sendo hoje menos 80 por cento do que em 2004”.
dade cultural que aqui é feita. Assume-se, pelo contrário, Para José Reis, habitual interveniente na vida cultural
como um elemento dificultador e tendencialmente da cidade e signatário dos dois protestos, “este docu-
destruidor do potencial de criação artística que a cidade mento é, de facto, o regresso ao momento ocorrido há
possui e que é uma das suas principais mais-valias”. dois anos”.
O texto contesta a política cultural da autarquia lide- Em Dezembro de 2005, 60 personalidades reconhe-
rada por Carlos Encarnação, estando entre os signatários cidas da vida de Coimbra manifestaram-se num docu-
aqueles que já haviam subscrito um documento similar mento crítico da política cultural autárquica e do alegado
em 2005 – “Pelo saneamento básico da cultura” –, aos “desrespeito” tido para com algumas entidades com um
quais se juntaram personalidades como a arqueóloga papel de relevo na cultura coimbrã. Este primeiro texto
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foi tornado público na sequência da aprovação, em reu- do ponto de vista cultural, que só não se tornou absolu-
nião do executivo autárquico, do orçamento para 2006, tamente insignificante a nível nacional graças à activida-
que previa uma redução de cerca de 60 por cento das de que, no limiar da sobrevivência, os poucos agentes
verbas destinadas à “afirmação da cultura”. culturais que ainda restam conseguem ir desenvolvendo”,
O documento surgia também como uma reacção críti- acrescentam.
ca às declarações públicas feitas pelo vereador da cultura Acompanhando o documento e a polémica, foi criado
de Coimbra, Mário Nunes, que considerou “lesivos do um blog [www.amigosdacultura2008.blogspot.com] que
interesse do município” os protocolos estabelecidos entre está permanentemente a ser actualizado com as princi-
a autarquia e os principais agentes culturais da cidade, pais reacções obtidas quer junto da comunicação social,
apelidando-os de muito dispendiosos. quer na blogosfera nacional. Tendo-se tornado no prin-
Carlos Encarnação, na altura no início do segundo cipal modo de recolher assinaturas de outros cidadãos
mandato autárquico, classificou o manifesto como sendo preocupados com o estado da cultura em Coimbra, o
fruto de “amiguismo”, sugerindo que os subscritores pres- espaço virtual tornou-se num verdadeiro catalisador do
sionassem o Ministério da Cultura. movimento. Desde o seu lançamento, em Janeiro, houve
Dois anos depois, os autores de “Pelo direito à cultura e um exponencial aumento do número de subscritores e
pelo dever de cultura!” defendem que a situação perma- do número de blogs associados. Para além da lista com-
nece a mesma: “Coimbra é hoje uma cidade amarfanhada pleta de signatários que ultrapassou, em Fevereiro, um
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cultural autárquica em Coimbra, acusando a CMC de se


ter “demitido de ocupar o seu papel nessa área”.
Entre estas reacções, ganharam natural destaque as
declarações do presidente da CMC, Carlos Encarnação,
num debate radiofónico, onde declarou que “muitas das
pessoas que subscreveram o documento nem sequer o
conhecem”, caracterizando-o como “documento menor
e de muita pouca qualidade em termos culturais”.
Carlos Encarnação alega, em sua defesa, que o perí-
odo de mandato que tem vindo a exercer “foi dos que
mais investimento trouxe à cidade no campo cultural”,
enumerando as obras realizadas, como a Oficina Mu-
nicipal do Teatro, o Teatro da Cerca de S. Bernardo, a
aquisição e abertura da Casa Miguel Torga, a aquisição
da casa de João José Cochofel para Casa da Escrita ou o
Convento de S. Francisco”, num investimento total de 4
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milhões e 700 mil euros.
Encarnação relembrou ainda, em declarações à im-
milhar de assinaturas, o site apresenta agora mais de 100 prensa regional, “o milhão de euros que a autarquia
blogs associados à iniciativa. transferiu para a Fundação Museu da Ciência da UC, bem
Para os criadores do Amigos da Cultura, “para além do como o “aumento substancial do orçamento cultural”
número muito significativo de pessoas que decidiram já para 2008, apontando para uma “intervenção” na Casa da
participar neste acto de cidadania, o sucesso alcançado Cultura e à “ampliação” da Casa Miguel Torga.
mede-se, sobretudo pela qualidade e pela profundida- No mesmo sentido, o economista que detém o pelou-
de desta participação. Muitos dos novos assinantes têm ro da área financeira no segundo executivo liderado por
utilizado os seus próprios blogs ou redigido artigos de Carlos Encarnação (PSD-CDS-PPM), Marcelo Nuno, publi-
opinião para ampliar o debate”. cou um artigo de opinião em que justifica as críticas à
O professor da Faculdade de Letras da UC Rui Bebiano, actuação da CMC presentes no texto com a “cegueira (in-
signatário e um dos exemplos de participação activa na tencional) de alguns e a ingenuidade de outros”, referin-
blogosfera, aponta críticas à CMC, que caracteriza como do-se aos subscritores como “ilustres privilegiados que se
estando “voltada quase exclusivamente para um público consideram a elite cultural da cidade”. “Há um conjunto
semi-rural, adepto de um certo ‘folclorismo’ passadista e de pessoas que se considera a elite, acha que sabe mais
minoritário já em termos demográficos”. Bebiano consi- que os outros e consegue ter acesso a mecanismos de
dera “urgente” contrariar esta tendência, considerando pressão, organizando conferências, debates, escrevendo
o movimento Amigos da Cultura um último recurso, artigos e promovendo abaixo-assinados”, reforça.
“esgotadas que parecem estar todas as possibilidades de Também o director municipal da Cultura durante o
um diálogo construtivo e razoável com os responsáveis primeiro mandato da actual maioria autárquica, Leite
autárquicos”. da Costa, defendeu a actuação da CMC, afirmando:
Também o cientista Carlos Fiolhais expôs, na blogos- “Não se pode dar dinheiro aos que se estão nas tintas
fera, o seu descontentamento face ao estado da política para a cultura e são subsídio-dependentes”. “Há agentes
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culturais em Coimbra que, pela sua conotação política e investimento rentável em termos económicos se for
má criação têm conseguido vir para os jornais dizerem vista como um dos nichos da actividade política”, tendo
perfeitas barbaridades e darem a entender que aqui não que “ser articulada com as outras dinâmicas da vida
se faz nada”. autárquica, académica”.
Cerca de um mês depois da publicação de “Pelo di- António Pedro Pita, director regional da cultura do
reito à cultura e pelo dever de cultura”, os Amigos da centro, não pôde estar presente na sessão. A represen-
Cultura organizaram um debate intitulado “Cidade, arte tá-lo esteve o ex-director do TAGV João Maria André,
e política – o valor estratégico da cultura”, no TAGV, que que leu uma nota assinada por António Pita onde este
reuniu diversos produtores culturais e demais cidadãos expressava a necessidade de uma “política coerente e
interessados, pretendendo ser uma reflexão sobre as consequente”.
questões que têm a ver com a cultura numa cidade, e Depois das intervenções da mesa, passou-se ao debate
não apenas na cidade de Coimbra. onde os presentes puderam expor as suas posições em
O debate contou com a presença de mais de 300 pes- torno da relação da cidade com a cultura. A ex-delegada
soas e centrou-se na crítica à alegada falta de políticas do Ministério da Cultura em Coimbra e presidente da
concertadas e articuladas, por parte da CMC, em relação ProUrbe, Ana Pires, apelou para “a resolução de conflitos
ao desenvolvimento cultural na cidade. em matéria cultural, como aqueles que envolvem espa-
Abílio Hernandez, moderador da discussão, explicou ços como o Teatro da Cerca de São Bernardo, o Centro
que não é responsabilidade dos envolvidos no movimen- de Artes Visuais ou o Museu de Transportes”.
to manifestante de “substituir a Câmara”: “Gostaríamos O professor da FEUC Claudino Ferreira considerou que
que estivesse aqui, mas não é fácil manter um diálogo a cultura “tem um valor próprio antes de ter um valor
com uma parede”. O professor universitário e ex-director estratégico”, concluindo que “quem lida com a cultura na
do TAGV salientou ainda que os agentes culturais “fazem cidade, como a autarquia, gosta pouco da cultura”.
um serviço público à sociedade, como um médico ou Também o professor catedrático Luís Reis Torgal afir-
um padeiro”. mou que Coimbra se “bate muito pouco pela cultura.
O catedrático José Reis, presente na mesa de discus- Matou-se o Teatro Sousa Bastos e o Avenida e criaram-se
são, defendeu que “o papel de Coimbra no país está centros comerciais», criticou.
ameaçado, devido a políticas culturais desfavoráveis”, Já a directora da companhia O Teatrão, Isabel Craveiro,
apontando a CMC como o “causador do problema”. considerou que as autarquias são responsáveis pela
“A autarquia tem a responsabilidade de interferir nos “definição cultural”, mas não são as únicas, apelando
diferentes domínios”, apontou a socióloga especialista para que o manifesto e o debate tivessem seguimento.
em cidades e culturas urbanas, Paula Abreu, outro mem- “Lanço o desafio para que se façam propostas concretas
bro da mesa. No entanto, “ela tem trabalhado de uma para uma política na área da cultura”, disse. A responsável
forma avulsa, sem orientação”, explicou. apelou à articulação entre estruturas culturais e sugeriu a
Já o pró-reitor para a cultura da UC, o arquitecto José formação de grupos de trabalho, onde se juntariam insti-
António Bandeirinha, entende que “a cultura não é um tuições ligadas a todo o tipo de manifestação cultural.

01. Mesa do colóquio “Cidade, arte e política: o valor estra- 02. Vista do público presente no colóquio “Cidade, arte
tégico da cultura“, TAGV, 20 de Fevereiro de 2008. Paula e política: o valor estratégico da cultura“, TAGV, 20 de
Abreu, João Maria André, Abílio Hernandez, José António Fevereiro de 2008. Luís Reis Torgal, no uso da palavra.
Bandeirinha e José Reis.
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Abílio Hernandez não partilhou a mesma opinião, consi- dias, a todas as horas para que o público se aperceba que
derando que “não se pode exigir que os agentes culturais já não tem mais espectáculos que o centro comercial, o
façam uma política cultural, mas pode exigir-se à câmara computador e a TV”.
que o faça”. Já Alexandre Pomar, no seu blog pessoal, comenta
O presidente da CMC, Carlos Encarnação, reagiu a esta o nome do movimento, afirmando que apresenta os
iniciativa, referindo-se ao debate como uma acção “de seus criadores como “espectadores de movimentações
louvar” mas “que não passou das generalidades”. Conside- alheias” e a parte inicial do manifesto que considera “um
rou ainda que a discussão “passou ao lado de toda a polí- modelo de ineficácia argumentativa”. O autor encara o
tica cultural” da CMC, que “se baseia nas infra-estruturas e debate de dia 20 como tendo sido “uma sessão pro-
que é mais importante do que a política de subsídios”. fessoral pouco empolgante”, apontando ainda para o
Após o encontro, Abílio Hernandez afirmou à impren- facto de que alguns subscritores “deveriam assumir a
sa que, para já, não estão programadas mais iniciativas. responsabilidade de explicar concisamente o que jus-
“Os agentes culturais não têm que ser governantes da tificou a desaparição ou eclipse” de algumas entidades
cultura, não queremos substituir o papel da Câmara. culturais de Coimbra.
Procuramos antes que ela assuma responsabilidades”, Gonçalo Capitão, no blog Ainda há Lodo no Cais, su-
concluiu. Também João Maria André afirma que “o ob- blinha que “independentemente da inclinação canhota
jectivo fundamental já foi atingido”, revelando que não da sua participação cívica, não me parece despicienda
era finalidade dos criadores do manifesto “criar um mo- a plêiade de figuras gradas da cidade que subscrevem
vimento mais consolidado”. a “reencarnação” cultural”. O autor do blog acrescenta
Na blogosfera, o encontro suscitou alguma discussão, ainda que “acabar com a subsídio-dependência não é
tendo vindo a ser continuado por alguns intervenientes sinónimo de asfixiar a Cultura”.
do confronto entre CMC, agentes culturais e demais Mais recentemente, em entrevista à Rádio Universi-
cidadãos. dade de Coimbra, o pró-reitor para a Cultura de Coimbra,
Luís Fernandes, que se apresenta como sendo “cida- José António Bandeirinha, quando questionado acerca
dão anónimo de Coimbra”, expõe no seu blog Questões da situação cultural coimbrã, reafirmou a necessidade
Nacionais, o descontentamento face ao colóquio: “Todos de existir um maior investimento: “Não temos sabido
falaram de cultura, mas sem especificarem exactamente potenciar a relação fortíssima que Coimbra tem com
nem o que pretendiam nem o que entendiam por cul- a tradição cultural. Coimbra é uma espécie de cluster
tura”. Da opinião de que o texto-base do movimento é de produção onde se aprende muita coisa e depois se
“carregado de uma esquerda retinta e exacerbada”, Luís abandona. Temos de contrariar esse fado”.
Fernandes critica ainda a ausência na mesa de outros
intervenientes que não professores universitários, consi-
derando o encontro “um profundo fiasco”.
Também no blog The Gateau from the Chateau, a autora
escreve a desilusão face aos agentes culturais de Coimbra
que, no debate, “não construíram nenhuma coesão”. O
blog considera a essência dos Amigos da Cultura pouco
explícita, e chama a atenção para a necessidade dar
continuidade ao movimento, propondo que “continue a
existir como tal, protestando todas as semanas, todos os