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A RELIGIÃO DO SPA/DA BANHEIRA QUENTE

Jo 16.33

“Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu
venci o mundo.”

CONSIDERAÇÕES INICIAIS – (Uma banheira com água quente em lugar de cadeiras


resolveria todos os problemas nas igrejas - James Innell Packer é um teólogo anglicano inglês
e professor de teologia no Regent College, em Vancouver, Canadá). Nosso tempo e cultura
têm se caracterizado pela busca perene do prazer e da alegria. A palavra que melhor descreve
esse estado de coisas é hedonismo (a síndrome da busca do prazer). O hedonismo distorce a
santidade, e o hedonismo hoje exerce uma influência férrea sobre nossas prioridades.
Portanto, a religião ideal é aquela que não ofereça qualquer desafio intelectual ou moral, mas
seja agradável e divertida – como passar horas em uma banheira quente, sem compromisso
algum e nem regras!

Vejamos 3 características sobre esta religião vida mansa ou religião da banheira quente!

I. A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE É QUASE CORRETA.


O que, então, devemos dizer sobre a religião da banheira quente? Certamente um ritmo
de vida que inclua descanso é correto; o quarto mandamento mostra isso.
 O Cristianismo produz prazer – O Cristianismo, que alguns crêem produzir
melancolia, na realidade espanta a monotonia. O pecado traz tristeza, mas a piedade, a
fé, produz prazer. A religião da banheira quente tem um instinto verdadeiro em seu
centro.
 Definição de “Alegria”. Um deleite na vida que é mais profundo do que a dor ou o
prazer... um dom de Deus... uma qualidade de vida e não simplesmente uma emoção
transitória.... A plenitude da alegria vem quando há um sentir profundo da presença de
Deus na vida da pessoa....
 A alegria é mais profunda do que o prazer – Que a alegria é mais profunda do
que o prazer e não dependente dele é a primeira coisa que precisa ser dita.
Enquanto não se estabelecer isso, a discussão a respeito do prazer na vida cristã será
prematura.
 A teologia do prazer – Mas, uma vez estabelecido que a alegria não depende do
prazer, então uma teologia positiva do prazer torna-se possível. E tal teologia é
necessária se vamos falar a uma geração que aprendeu de Freud que o
"princípio do prazer" é um dos mais fortes motivadores da vida.
Precisamos comunicar o Evangelho com essa teologia saudável do prazer!
II. A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE É RADICALMENTE ERRADA. POR QUÊ?
Porque ela expressa 2 conceitos totalmente prejudiciais para a fé cristã.
 O 1º conceito é o EGOCENTRISMO - A busca pelo prazer próprio em qualquer uma
de suas modalidades é a regra e a força motriz da vida egocêntrica.
O Egocentrismo faz brotar em nós o Orgulho, que faz surgir em nós o seguinte
moto: "seja feita minha vontade".
 O orgulho toma forma de Cristianismo e toma forma e jeito de Cristianismo –
porém, corrompe a substância e o espírito do Cristianismo. Tenta manipular Deus e
controlá-lo para seus próprios objetivos. Isso, reduz a religião à mágica, tratando o
Deus que nos fez como se ele fosse o nosso mordomo pessoal ou o gênio da lâmpada
de nosso Aladim.
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 Precisamos aderir ao teocentrismo — que repudia o egocentrismo, reconhecendo


que nós existimos para Deus e não ele para nós.
Sem esta mudança radical, da centralização em si próprio para a centralização
em Deus, qualquer mostra de religião é falsa em maior ou menor grau.
 Jesus Cristo exige abnegação, isto é, autonegação (Mt 16.24; Mc 8.34; Lc 9.23)
como uma condição necessária do discipulado.
 Jesus quer discípulos e não robôs –Jesus não planeja transformar-nos em
autômatos, nem nos pede para sermos voluntários para o papel de robô. A negação
requerida é do eu carnal, do impulso egocêntrico, auto-deificante com o qual nascemos.

A religião da banheira quente exige circunstâncias agradáveis e experiências suaves, e muito


do Cristianismo popular tenta fazer a nossa vontade. Algumas vezes, como meio para
alcançar esse fim, invoca a ideia de que as promessas de Deus são como os encantos de um
mágico: use-as corretamente e você poderá extrair de Deus qualquer coisa legítima e
agradável que deseje.

 Deus não dança conforme a música – É correto e bom ter confiança nos recursos
ilimitados de Deus e altas expectativas de ser liberto do mal. Mas, conceber uma
oração de petição como sendo uma técnica para fazer Deus dançar segundo a música
que você estabelece e obedecer às ordens que você dá não é certo nem bom.

 O 2ª conceito é EUDEMONISMO – é uma palavra incomum e não tem nada a ver


com demônios. Vem da palavra grega para "feliz", eudaimon, e Webster a define como
"o sistema de filosofia que faz da felicidade humana seu objeto mais alto".
O eudemonismo era a posição sustentada por todos os filósofos da Antiguidade,
apesar das diferenças acerca da concepção de felicidade de cada um deles.
Segundo Aristóteles: "A felicidade é um princípio; é para alcançá-la que realizamos
todos os outros atos; ela é exatamente o gênio de nossas motivações".

O eudemonismo diz que, já que a felicidade é o valor supremo, podemos confiantemente olhar
para Deus aqui e agora para nos proteger de coisas desagradáveis em cada circunstância, ou
então, se as coisas desagradáveis aparecerem, livrar-nos delas imediatamente, pois nunca é da
vontade dele que tenhamos que conviver com elas.
 Um princípio elementar, porém falso – Este é um princípio básico da religião da
banheira quente. Infelizmente, entretanto, é um princípio falso. Por quê?
Perde de vista o lugar do sofrimento na santificação, por onde Deus treina seus filhos
para compartilharem de sua santidade (veja Hb 12.5-11). Tal erro pode provocar uma
ruína.
A felicidade, no sentido em que a definimos, será gozada no céu. Apocalipse 7.16-17
nos mostra isso.
E precisamente o interesse de Deus em nossa felicidade futura que o leva a concentrar-
se aqui e agora em nos tornar santos, pois "sem santidade ninguém verá a Deus" (Hb
12.14).
A santidade não é um preço que pagamos para a salvação final; é, antes, a estrada pela qual nos
aproximamos dela, e a santificação é o processo pelo qual Deus nos guia por essa estrada. O
Novo Testamento nos mostra que na escola da santificação muitas modalidades de dor têm seu lugar—
desconforto físico e mental, e pressão, desapontamento pessoal, restrição, mágoa e aflição.
Deus usa essas coisas para ativar o poder sobrenatural que opera nos crentes (2Co 4.7-11);
“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de
nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos,
porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus,
para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre
entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne
mortal.”
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 Deus não estraga seus filhos – Crianças que fazem o que querem e são
constantemente protegidas de situações em que poderiam sentir-se magoadas, nós as
descrevemos como crianças estragadas.
Mas Deus, que tem sempre os olhos no amanhã enquanto trata conosco hoje, nunca
estraga seus filhos.
Os crentes fiéis irão experimentar ajuda e livramento em tempos de angústia muitas e
muitas vezes. Mas nossa vida não vai ser de bem-estar, conforto e prazer de fio a
pavio. Serão abundantes os carrapichos e os espinhos na cama. Ai do adepto da
religião da banheira quente que fizer vista grossa para esse fato.

3. MAIS QUE VENCEDORES


Jesus não somente nos garantiu que esta vida teria aflições, mas também nos encorajou com
ânimo baseado em sua vitória sobre o mundo. Como devemos receber esse encorajamento?
Como desenvolver ânimo frente a certeza das aflições? Vamos analisar 2 aspectos:
1º aspecto
 A vida deve ser vista e vivida em termos de dois mundos, não de um só.
Até tempos recentes isso era uma ótica cristã comum. Todo crente sabia que isso é
verdade e procurava agir nesta base.
O Novo Testamento é claro e consistente em ensinar os dois mundos. Jesus
constantemente instruía sobre o céu e o inferno como sendo os destinos entre os quais
os homens e as mulheres optam nesta vida, pelos compromissos que fazem ou deixam
de fazer (veja Mt 5.22-26,29ss.; 6.14ss., 19ss., 7.13ss, 21-27; 10.28-39; 11.20-24;
12.31-37; 13.11-15, 37-43, 47.50; 15.13ss.; 16.24-27; 18.3-9, 34ss.; 19.16-29; 22.1-
14; 24.45 - 25.46; cf. João 3.14-21; 5.14-29).
 Como devem viver os cristãos? os cristãos na terra deverão viver à luz do céu, que
deverão tomar decisões agora com os olhos no futuro!
"Ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde
ladrões não escavam, nem roubam", Jesus disse (Mt 6.20).
"Aquilo que o homem semear, isso também ceifará", diz Paulo.
"O que semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção; mas o que
semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna. E não nos cansemos de fazer o
bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos" (Gl 6.7-9).
Os múltiplos trechos desse tipo no Novo Testamento deixam óbvio que devemos
viver de tal modo que os registros contábeis da eternidade nos declarem ricos diante
de Deus. E isso é uma coisa de que o cristão do tempo antigo jamais duvidava.

“Se você ler a história, descobrirá que os cristãos que mais fizeram em prol do mundo
presente foram exatamente aqueles que pensaram mais no mundo vindouro.... Foi
depois que os cristãos em grande parte cessaram de pensar no mundo além que eles
vêm se tornando tão ineficazes neste.”C.S.Lewis

Pois hoje, no geral, os cristãos não vivem mais para o céu. Portanto não entendem,
muito menos praticam o desprendimento do mundo.

 O que o mundo busca? O mundo à nossa volta busca prazer, lucro e privilégio? Nós
também. Não temos disposição nem força para renunciar a esses alvos, porque
lançamos o Cristianismo em um novo molde que dá maior relevo à felicidade do que à
santidade, às bênçãos aqui do que às delícias do porvir. Por este motivo a morte é
vista como constante desafio à fé na bondade de Deus.

“Então nosso Cristianismo está agora todo deformado? Está, sim, e a razão principal é
que perdemos a visão neotestamentária dos dois mundos, que vê a vida após morte como
mais importante do que esta, e compreende a vida aqui como essencialmente um preparo e
treinamento para a vida no além. E continuaremos deformados enquanto essa visão
apropriada do mundo além não for recuperada.” James.Packer
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A primeira carta de Pedro descreve isso por extenso. Pela misericórdia de Deus e através da
ressurreição de Cristo, Pedro diz, os crentes têm a esperança certa da glória, para o gozo da
qual Deus os está preservando e preparando agora (IPe 1.3-9).

Então "esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus
Cristo" (v. 13).
"Portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação" (v. 17),
e "exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões
carnais, que fazem guerra contra a alma" (2.11).
Suportem a hostilidade, a humana e a satânica, sem estremecer, e mantenham-se
firmes em sua esperança de glória, sua lealdade a Cristo, e sua confiança em Deus o
Pai,
e "o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória... ele mesmo
vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar" (5.10). Esse foi, é, e será
sempre o verdadeiro caminho cristão.

O 1º aspecto que nos dá ânimo é ter uma visão de 2 mundos, e 2º aspecto que nos
dá ânimo é:
 O amor para com Deus e a esperança em Deus são motivações que transformam a
vida.

Meditação é a palavra cristã histórica usada para o pensamento focalizado que motiva. Mas, e
nós — quanta meditação já fizemos?

 A motivação dos crentes do No Novo Testamento – vemos o amor redentor de


Deus e a esperança de glória do cristão decisivamente controlando a vida dos crentes.
Paulo era tão vigoroso, apaixonado, exuberante na sua evangelização e cuidado
pastoral que os coríntios o acharam desequilibrado, para não dizer louco;
ridicularizaram-no por isso. Paulo não ficou desconcertado:
"Se enlouquecemos, é para Deus", ele replicou; "se conservamos o juízo, é para vós
outros". Então explicou por que se comportava dessa maneira. "Pois o amor de Cristo
nos constrange..." (2Co 5.13-14).
Constrange ("compele", "governa" em outras traduções nossas) é uma palavra grega que
significa "coloca sob forte pressão". O que Paulo quer dizer é que seu conhecimento do
amor expiador de Cristo sobre a cruz tinha para ele uma força motivadora enorme.

Foi o amor e a promessa de Deus que transformou a vida de Paulo e o fez o


homem que era.

Sobre esta mudança João também discorre em termos categóricos e universais.


"Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos
amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.... Nós conhecemos
e cremos no amor que Deus tem por nós.... Nós amamos porque ele nos amou
primeiro" (1Jo 4.10,16,19).

A experiência e a expectativa apostólica eram que o amor a Deus e a esperança nele que a
mensagem do evangelho desperta transformaria radicalmente a vida da pessoa, tanto no
comportamento — no estilo de vida — como na motivação — no seu coração.

 Mas o pecado que habita o coração se opõe, e o mundo em volta distrai. Satanás, o
animador da tentação, já decidiu que, no que depender dele, não vão florescer amor e
pureza. Por isso, um esforço constante tem de ser feito para manter vivos os
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pensamentos de amor e esperança para com Deus, e para conservar fortes seus efeitos
motivadores. O nome cristão desse esforço especial é meditação.

Calvino afirma que nossa atitude sobre este mundo não precisa ser a de escravo dos
prazeres e sim a de desapaixonados.

"Deve-se compreender que a mente nunca se eleva seriamente ao desejo e meditação da vida
futura enquanto ela não se encher de desprezo pela vida presente"

“Nós temos então uma verdade paradoxal, que verdadeiramente podemos amar esta
vida só quando primeiro verdadeiramente já aprendemos a desprezar esta vida.”
Ronald Wallace (Professor de teologia Seminário Teologia de Columbia - EUA)

(Richard Baxter. Era um puritano que estava sempre doente; tuberculoso desde a
adolescência; sofria constantemente de dispepsia, pedras nos rins, dores de cabeça, de
dentes, membros inchados, hemorragia nas extremidades e outros males, tudo antes do
tempo dos analgésicos. Não obstante os problemas, estava sempre cheio de energia,
extrovertido, não reclamava.
Até o ano de 1661, quando tinha quarenta e cinco anos, ele tinha evangelizado mais ou
menos a cidade inteira de Kidderminster (dois mil adultos, e mais as crianças), além de
escrever livros, entre os quais dois clássicos que têm sido reimpressos regularmente desde
seu tempo — The Saints' Everlasting Rest (O Descanso Eterno dos Santos) e The
ReformedPastor (O Pastor Reformado).
Depois, durante os trinta anos seguintes, quando como pastor destituído não pôde mais
ocupar um cargo pastoral, ele escreveu muito.
Que foi que manteve esse frágil inválido persistindo tão determinadamente e até
mesmo espetacularmente através dos anos? No livro The Saints' Everlasting Rest (O
Descanso Eterno dos Santos)ele conta o segredo. Desde que completou trinta anos,
praticou o hábito que primeiro formou quando pensou que estava morrendo. Por cerca de
meia hora cada dia ele meditava na vida do porvir, assim escalando sua percepção da glória
que o aguardava e reforçando sua motivação de usar cada grama de energia e zelo que
encontrava dentro de si para se apressar pelo caminho ascendente do culto, do serviço, e
da santidade em direção a seu alvo. O cultivo diligente da esperança deu-lhe
persistência diária em trabalho duro e disciplinado para Deus, a despeito do
debilitante efeito disto a cada dia sobre seu corpo doentio.)
Ele representa ao longo dos séculos a prova de que existe força sobrenatural para o serviço
de Deus que está além das explicações humanas.

A busca do prazer—intelectual, sensual, estético, gastronômico, alcoólico, narcisista — Esse


"culto do macio", como tem sido chamado, é alimentado no vasto bufê self-service de
prazeres que nossa sociedade amoral, de tantos recursos tecnológicos, coloca a nossa
disposição, e o ritmo disso cresce em vez de diminuir no passar dos anos.

Precisamos urgente de equilíbrio: Reagir, tentando negar-se ao prazer completamente,


como se Deus mesmo estivesse contra ele, seria uma ingratidão arrogante para com ele;

Apegando-nos a essa sabedoria em nosso coração, podemos aprender como apreciar


os prazeres que Deus dá, sem cair no amor pelo mundo.

Abençoados são aqueles que têm a esperança da glória. O domínio do prazer presente, ainda
enquanto o gozam, está a seu alcance. E isto, também, junto com o domínio do pecado e a
vitória sobre o diabo, pertence à plenitude que têm no seu viver em Cristo.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS – A religião da banheira quente tem ditado, que o prazer e o


conforto abrande as tensões da vida.
Essa proposta está na contramão do ensino de Jesus de que esta vida será marcada por
aflições, portanto devemos e precisamos estar dispostos aos sacrifícios.
As dores e as aflições nos trazem aprimoramento e nos auxiliam em nossa santificação!
Infelizmente, os cristãos não mais vivem para o céu e suas glórias, por isso não entendem,
muito menos praticam, o desprendimento do mundo.
Continuaremos deformados enquanto essa visão apropriada do mundo além não for
recuperada.