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Resumo: Neste artigo, trago Edward Said e

Intelectuais, Diáspora e sua abordagem sobre o intelectual in-


betweenness a fim de discutir a crítica pós-
Cultura: por uma crítica colonial formulada por Stuart Hall e Homi
Bhabha mediante as categorias de hibridismo
e de diferença cultural. Tal crítica alerta para
antimoderna e pós-colonial o fato de que o “local da cultura” é
necessariamente o da incerteza e
indecidibilidade, no qual as diferenças
expressam-se ininterruptamente. Assim, a
diáspora, ao invés de reafirmar o
multiculturalismo ou o universalismo
monolítico, propõe a reflexão sobre os
“sujeitos diversos de diferenciação” que
evidenciam a fragmentação da modernidade.
Palavras-chaves: intelectuais; diáspora,
diferença cultural, hibridismo, pós-colonial.

Abstract: In this article, I bring Edward Said


Intellectuals, Diaspora and and his approach about the “in-betweenness”
intellectual in order to discuss the post-
Culture: colonial critique formulated by Stuart Hall e
Homi Bhabha through the categories of
for a antimodern and hybridity and cultural difference. This critical
alert to the fact that the “local of culture” is
postcolonial critique necessarily the uncertainty and indecision
where the difference is expressed
continuously. Therefore, the diaspora rather
than reaffirming the multiculturalism or the
monolithic universalism proposes a reflection
on the ‘various subjects of differentiation’ that
show the fragmentation of modernity.
Keywords: intellectual; diaspora; cultural
difference; hybridity; postcolonial.

Adelia Maria Miglievich Ribeiro


Doutora em Sociologia e Antropologia (UFRJ)
Professora Adjunta da Universidade Federal do
Espírito Santo, Brasil.
miglievich@gmail.com

Recebido para publicação em junho de 2012.


Aprovado para publicação em agosto de 2012

Mouseion, n. 12, mai-ago/2012, pp. 44-55


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Intelectuais,  diáspora  e  cultura:  por  uma  crítica  antimoderna  e  pós-­‐colonial  
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Apresentação cada disseminação carregue consigo “a

A demografia do novo promessa do retorno redentor”, não se


internacionalismo é a história da pode falar nesse, após a diáspora, sem
migração pós-colonial, as narrativas da
diáspora cultural e política, os grandes levar em conta que a terra de onde se
deslocamentos sociais de comunidades
evadiu não é mais sagrada nem esteve
camponesas e aborígenes, as poéticas
do exílio, a prosa austera dos refugiados vazia, ao contrário, foi violada, e
políticos e econômicos (BHABHA,
2007, p. 24). esvaziada. A terra se tornou irreconhecível
Eu nunca soube que língua falei e os elos pensados como naturais e
primeiro, se árabe ou inglês, ou qual
das duas era realmente a minha acima espontâneos foram irrevogavelmente
de qualquer dúvida [...]. Cada uma interrompidos nas experiências
delas pode parecer minha língua
absolutamente primordial, mas diaspóricas. Se alguns, eventualmente,
nenhuma das duas é” (SAID, 2004, p.
sentem-se felizes por “voltar para a casa”,
20).
Stuart Hall, intelectual jamaicano, ainda assim, cabe perguntar à qual casa

nascido em 1932, pai fundador dos eles chegaram.

“Estudos Culturais” na Inglaterra, observa A globalização, obviamente, não é

que o termo diáspora se modelou na um fenômeno novo. Sua história coincide

história moderna do povo judeu. Antes com a era da exploração e da conquista

disso, porém, a metanarrativa de europeias e com a formação dos mercados

libertação, esperança e redenção, que se capitalistas mundiais. As primeiras fases

ligava ao Grande Êxodo que os levara à da história global foram sustentadas pela

Terra Prometida, já servia como metáfora tensão entre dois polos de conflito, de um

da saga de vários povos. lado, a heterogeneidade do mercado

A pobreza, o subdesenvolvimento, a global, de outro, a força centrípeta do

falta de oportunidades, a guerra, as Estado-Nação, constituindo juntos um dos

perseguições políticas e religiosas e a ritmos fundamentais dos primeiros

violência tendem a forçar as pessoas a sistemas capitalistas mundiais. Fora isso,

migrar, o que causa o espalhamento, a inúmeras terras e povos tornados colônias

dispersão. Stuart Hall, morando na de impérios europeus nunca puderam

Inglaterra há mais de 50 anos, sabe que vivenciar, por sua história, o sentido de

jamais se considerará um inglês, assim nação hegemonicamente definido. Esse é

como admite que também não se sente em o caso, mais uma vez, da Jamaica de

casa na Jamaica (HALL, 2009). Ainda que Stuart Hall cujo referencial nacional, para

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ele e tantos negros chegados na Europa, presente” (BHABHA, 2007, p. 19, nota de
ultrapassou as Antilhas e criou uma nova rodapé). É de Heidegger também a
“comunidade imaginada”, nos termos de formulação de que, se após “a expulsão do
Benedict Anderson (1989), a África, Paraíso”, todos nós perdemos nossa casa
sequer a real, mas a dos “povos (unheimlicheit), talvez, Benjamin esteja
estruturalmente ajustados a uma pobreza correto em supor que a questão
moderna devastadora [...] no turbilhão do contemporânea passa a ser “buscar estar
sincretismo colonial, reforjada na fornalha em casa aqui, no único momento e
do panelão colonial” (HALL, 2009, p. 40, contexto que temos” (BENJAMIN apud
nota de rodapé). HALL, 2009, p. 27, nota de rodapé).
Se a experiência moderna dos Neste artigo, proponho fazer alguns
movimentos, trânsitos e fluxos intelectuais diaspóricos dialogarem entre
migratórios sempre constituíram a espécie si acerca de temas caros que acabam por
humana, na contemporaneidade, a serem fundantes da chamada crítica pós-
compressão do espaço-tempo expande e colonial. Reúno, mais especificamente,
intensifica as zonas de contato, não apenas Stuart Hall, Edward Said e Homi Bhabha,
entre o “lugar de saída” e o “lugar de amparando-se, sobremaneira, no último
chegada”, mas também entre o “eu que para esboçar a consequência da
parte/sai” e o “eu que chega”i intensificação dos fluxos migratórios
Bhabha, também importante numa nova consciência acerca da cultura
formulador dos estudos pós-coloniais, em sua realidade híbrida e disjuntiva da
chama-nos atenção de que é característico modernidade.
de nossos tempos “uma tenebrosa
sensação de sobrevivência, de viver nas 1.Intelectuais e diáspora
fronteiras do ‘presente’, para as quais não Adorno, foragido da Alemanha
parece haver nome próprio além do atual e nazista para os Estados Unidos, escreve
controvertido deslizamento do prefixo em Mínima Moralia sobre o desconforto
‘pós’”. O contrário, porém, parece na vivência do desenraizamento e prevê
acontecer, o autor cita Heidegger em sua que o único refúgio ou salvaguarda nos
lembrança de que os gregos teriam notado exílios modernos dá-se pela produção
há muito que a fronteira é “o ponto a intelectual: na escrita que é narrativa,
partir do qual algo começa a se fazer ainda que frágil e vulnerável, talvez, no

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máximo alusiva e marcada pela escritórios seguros, nem território para
consolidar e defender; por isso, a
descontinuidade (ADORNO, 2008). Uma autoironia é mais frequente do que a
escrita fragmentária e convulsiva que pomposidade, a frontalidade melhor do
que a hesitação e o gaguejo. Mas não há
representa a consciência do intelectual como evitar a realidade inescapável de
que tais representações por intelectuais
“deslocado”, incapaz de repousar, não vão trazer-lhes amigos em altos
constantemente em alerta contra a sedução cargos nem lhes conceder honras
oficiais. É uma condição solitária, sim,
do enquadramento. mas é sempre melhor do que uma
tolerância gregária com o estado das
O crítico frankfurtiano identificava coisas (SAID, 1993, p. 17).
como parte da moralidade do exilado o A partir de 1963, quando se tornou
“não se sentir em casa na própria casa”. professor de literatura comparada e
Cético em relação a quaisquer “verdades”, inglesa na Universidade Columbia, Said
eternamente insatisfeito diante dos aliou à teoria crítica uma postura
eventos históricos, sabia, porém, encarar anticolonialista e abriu caminho para o
com insistente e salutar desconfiança as desenvolvimento dos estudos pós-
situações de profunda instabilidade sem coloniais, com destaque à sua obra
jamais considerá-las definitivas. publicada em 1978, Orientalismo, na qual
Em Reflexões sobre o Exílio, narra o discurso ocidental que “inventa” o
Edward Said (1935-2003) indica sua Oriente, eivado de estereótipos (irracional,
origem palestina e como seu pai fugiu da primitivo, sensual, vicioso, violento,
Palestina para os Estados Unidos a fim de retrógrado, etc.) a legitimar um
não servir no exército turco. Depois, já pseudouniversal europeu e branco a
como cidadão americano, instala-se no subjugar as culturas diferenciadas.
Egito com seu pai, um próspero Examinando autores como Conrad,
comerciante. No Cairo, estudou em Lukács, Mahfuz e Merleau-Ponty, Said
escolas inglesas que simplesmente discute a relação entre o exílio e a criação,
ignoravam a cultura árabe e expunham o abordada já anteriormente em
então aluno, ainda criança, a uma cruel Representações do Intelectual. Comenta
cisão de sua identidade ao convencê-lo de que há, contudo, um equívoco usual em se
que seu lado Said era motivo de vergonha, imaginar que “o exílio significa um corte
mas o lado Edward o salvaria fazendo-o total, um isolamento, uma separação
um melhor inglês. Isso desesperada do lugar de origem” (SAID,
Há algo fundamentalmente desconcer- 1993, p. 56). Prossegue:
tante nos intelectuais que não têm
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Para a maioria dos exilados, a reflexiva para o combate da barbárie
dificuldade não consiste só em ser
forçado a viver longe de casa, mas (SAID, 2007). Para Said, os intelectuais, a
sobretudo, e levando em conta o mundo despeito do nacionalismo patriótico, do
de hoje, em ter de conviver o tempo
todo com a lembrança de que ele pensamento corporativo, de qualquer
realmente se encontra no exílio, de que
sua casa não está de fato tão distante espécie de privilégio de classe, raça ou
assim, e de que a circulação habitual do sexo, de identidades ideológicas distintas,
cotidiano da vida contemporânea o
mantém num contato permanente, não poderiam ter diagnósticos
embora torturante e vazio, com o lugar
de origem [...]; por um lado, ele é
diferenciados da miséria humana e da
nostálgico e sentimental, por outro, um opressão.
imitador competente ou um pária
clandestino (SAID, 1993, p. 56). Não seria, em sua autoanálise, sua
Said pensa a condição intelectual história de vida a garantidora da validade
como necessariamente desconfortável, de seus juízos, mas, reportando-se a
uma vez que se expressa na resistência a Foucault, a exigência de uma “erudição
epistemes e paradigmas que nas lutas implacável”, “um sentido do dramático e
simbólicas bloqueiam a formação de do insurgente”, rastreando fontes
novas narrativas contestatórias ao poder alternativas, exumando documentos
colonial e neocolonial (SAID, 2007). enterrados, aproveitando todas as
Na questão Palestina, sobretudo, oportunidades para falar, cativando a
seus antagonistas empenharam-se em atenção do público, saindo-se melhor nos
descredenciar seus argumentos na embates e deixando pelo caminho os
alegação à sua biografia de imigração desafetos e os admiradores (SAID, 2007),
forçada aos Estados Unidos, enquanto na afirmação de sua independência de
criança nascida na Palestina tornada pensamento. Afirmando, porém, não ter
Estado de Israelii. Said certamente recusou sido o exílio real o fator que constituiu sua
todos os dardos que recebeu. Sua identidade intelectual, acaba por não
trajetória diaspórica recusava escapar ao paradoxo de que o intelectual
definitivamente o paroquialismo e o fez, se torna, como já dissera Adorno, um dos
em suas próprias palavras, um humanista, autores de sua predileção,
crítico do humanismo em nome do invariavelmente, um “exilado e marginal,
mesmo, visto que este se tornara nas amador e autor de uma linguagem que
universidades tão só um repertório tenta falar a verdade ao poder” (SAID,
erudito, que desprezara sua dimensão 2007, p. 15).

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Também experimentara Stuart Hall A compreensão de tantas oscilações
tal desconforto e soube, como Said, implica, por sua vez, em novas
duvidar das idealizações em torno do conceitualizações que priorizam o evento
“intelectual diaspórico”. Pai dos “Estudos e o acontecimento ao invés dos tratados
Culturais”, Hall combatera os sobre a sociedade ou sobre a cultura que
reducionismos que impediam de vir à tona permitiam as mitologias modernas das
múltiplos signos e significados então realidades uniformes, dos padrões e das
inclassificáveis nas teorias canônicas. regularidades. Ao contrário, as culturas
Com o passar dos anos, porém, identificou são irremediavelmente impuras, híbridas,
novos reducionismos, dessa vez, advindos no que consiste, talvez, a principal
dos estudos culturais, não se fez de rogado contribuição dos intelectuais diaspóricos
em sua crítica: ao humanismo: um novo humanismo que

Fazer teoria é um esforço de abstração, nasce da reflexividade dos fluxos


de imaginação, comunicar-se além migratórios que constituíram até hoje a
delas. As ideias não são simplesmente
determinadas pela experiência; vida humana no planeta Terra.
podemos ter ideias fora da própria
experiência. Mas precisamos
reconhecer também que a experiência 2. A reflexão sobre a cultura após as
tem uma forma e se não refletirmos
bastante sobre os limites da própria diásporas modernas
experiência (e a necessidade de se fazer
Homi Bhabha, crítico indo-
um deslocamento conceitual, uma
tradução, para dar conta de experiências britânico, nascido em 1949, em Mumbai,
que pessoalmente não tivemos),
provavelmente vamos falar a partir do destaca o conceito de “fixidez” como
continente da própria experiência, de nodal na construção ideológica da
uma maneira bastante acrítica. Eu acho
que isso acontece nos estudos culturais alteridade pelo discurso colonial, criando
hoje. (HALL, 2009, p. 17).
estereótipos e estigmas a cindir artificial e
A crítica pós-colonial, que reúne dos
tragicamente uma realidade de signos e
estudos subalternos aos estudos culturais,
significados plurais. Na contramão, o
aponta para um mundo de subversões, de
escritor indiano propõe a “diferença
enfrentamentos e de irrupções. Seu tema,
cultural” como expressão de um mundo de
por excelência, emerge das experiências e
fronteiras, em que tudo é uma experiência
narrativas das migrações concretas ou
de travessia, no qual pontes móveis
metafóricas, observando uma cultura
permitem ininterruptas descobertas do
planetária que expande seus sentidos
sempre oscilantes.
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incomparável e do inigualável a se em seu imaginário como um elemento
desdobrar em novos ineditismos. perturbador.
Seguindo a proposta derridiana, a O discurso colonial é fracionado
diferença cultural é também différance, entre o que leva em consideração a
identidades simultâneas, plurais e parciais realidade e o outro que a recusa e a
que se manifestam em fluxos ininterruptos substitui por um produto do desejo: os
a colocar em xeque qualquer essência ou estereótipos, as piadas e os mitos racistas.
fundamento rígido e imutável que, até É também Bhabha que nos traz Fanon:
então, sustentava o discurso da Meu corpo foi-me devolvido
modernidade, negando seus conceitos esparramado, distorcido, recolorido,
vestido de luto naquele dia branco de
hifenizados, sua condição híbrida de inverno. O negro é um animal, o negro
é mau, o negro é ruim, o negro é feio;
nascença.
olha, um preto, está fazendo frio, o
Concordando com Foucault, Bhabha preto está tremendo, o preto está
tremendo porque está com frio, o
sabe que o discurso colonial se tornou menininho está tremendo porque está
com medo do preto, o preto está
imprescindível à dominação: “a relação de
tremendo de frio, aquele frio que
saber e poder no interior de um aparato é atravessa os ossos, o menininho
bonitinho está tremendo porque ele
sempre uma resposta estratégica a uma acha que o preto está tremendo de
necessidade urgente em um dado raiva, o menininho branco atira-se nos
braços da mãe: Mamãe, o preto vai me
momento histórico” (BHABHA, 2007, p. comer. (FANON apud BHABHA,
115). Porém, o discurso colonial também 2007, p. 126).
A construção do colonizado no
era ambíguo e, se de um lado, os
discurso, para além de opor o bem ao mal,
estereótipos criados maltrataram os
legitimando o exercício do poder sobre o
colonizados, também enlouqueceram os
colonizado, fala ao território de sonhos,
colonizadores. Na subversão do
imagens, fantasias, mitos, obsessões e
estereótipo, são reveladas as contraditórias
requisitos do colonizador. Algo como,
pulsões e desejos do colonizador. Assim,
teria dito Said, o outro em si mesmo,
os “aterrorizantes estereótipos de
orientalismo latente no Ocidente quando o
selvageria, canibalismo, luxúria e
dedo aponta para a outra cultura. Os
anarquia” (BHABHA, 2007, p. 114) nos
estereótipos que não são mera
textos coloniais efetivamente
simplificação da realidade senão sua
amedrontavam o colonizador, penetrando
falsificação: “Nós sempre sabemos de
antemão que os negros são licenciosos e
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os asiáticos dissimulados...” (BHABHA, ou indecibilidade cultural que se realiza na
2007, p. 117). articulação da vida cotidiana entre classes,

O ato de estereotipar não é o gêneros, raças e nações. Aqui, fala-se na


estabelecimento de uma falsa imagem “cultura-como-luta-política” (FANON
que se torne o bode expiatório de
práticas discriminatórias. É um texto apud BHABHA, 2007, p. 65).
muito mais ambivalente de projeção e
Curiosamente, Simmel já dizia da
de introjeção, estratégias metafóricas e
metonímicas, deslocamento, impossibilidade da unificação pura e do
sobredeterminação, culpa, agressivi-
dade, o mascaramento e cisão de risco do “genericamente humano”.
saberes ‘oficiais’ e fantasmagóricos Indivíduos e sociedades compõem-se de
para construir as posicionalidades e
oposicionalidades do discurso racista. unidade e de fragmentação (SIMMEL,
(BHABHA, 2007, p. 125).
1964). O conflito é o mote das
Bhabha expõe a necessidade de se
articulações que suscitam as identidades.
questionar epistemologicamente “o modo
Os agentes constroem sub-redes pelas
de representação da alteridade” e
quais se aproximam ou se afastam,
problematiza a reincidência da raça e do
alinham posições antagônicas ou
sexo como modos de diferenciação,
confluem nalguns episódios. As
defesa, fixação e hierarquização que
identidades também são matéria de
manifestam a busca e a recusa do que
negociação entre atores sociais.
parece ser a unidade do humano
No processo civilizatório, os
[masculino] ou do animal. Em termos
poderes disciplinares, os “saberes
freudianos, “todos os homens têm pênis”
normalizados” geraram ainda o efeito da
(BHABHA, 2007, p. 116), logo, como
mímica, produzindo-se outro reformado e
distingui-los? Há algo sub-repticiamente
reconhecível “como sujeito de uma
que está sendo perseguido pelo
diferença que é quase a mesma, mas não
colonizador no confronto com o
exatamente” (SIMMEL, 1963, p. 130). O
subalterno: sua originalidade ou “quem
sucesso do intento era, contudo, sua
veio primeiramente?”, em face deste, o
própria negação; o homem colonial como
outro seria, então, um “desajustado”
imitador ameaçava a cadeia de comando
(BHABHA, 2007, p. 116).
colonialista destruindo o sonho da
A diferença cultural, entretanto,
civilidade iluminista: como justificar
alerta acerca da impossibilidade dos
agora o exercício intolerável e ilegítimo
modelos, das referências e dos padrões. A
de poder?
cultura é a diferença cultural, a incerteza
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A discriminação como efeito do pastiche ou simulacro, mas a realização
político do processo civilizatório, criador da contradição social, a emergência do
do fetiche, fixo, estático e imutável, espaço disjuntivo da modernidade. A
“natural”, na prática, não se dava sob a contramodernidade pós-colonial
autoridade colonialista intocável nem sob reconhece-se como parte do “entre-lugar”,
a repressão silenciosa das tradições do “entremeio”, do “entretempo”,
nativas mas, ao produzir a “hibridização”, revelando vidas oscilantes, espaços
espraiava-se num terreno movediço de fronteiriços e uma consciência aguda das
espaços e circuitos de poder heterogêneos, posições concretas que escapam ao
gerando perguntas, inquietações, desvios, vernáculo da modernidade etnocêntrica e,
que interrompiam a voz de controle. O por isso mesmo, recusa o espaço colonial
hibridismo, como indeterminação, como “não lugar” e a modernidade como
maculava o reconhecimento da autoridade a ideologia do começo e do novo. Mais do
e era a principal subversão. Não se que elaborar novos discursos que
tratando nem de relativismo cultural nem contestem as “singularidades de
de um terceiro termo que soluciona a diferença” (específicos imutáveis), a
tensão entre duas culturas, mas de uma crítica pós-colonial articula “sujeitos
infiltração de saberes recusados no diversos de diferenciação”.
discurso dominante que deixa, assim, de O poder da tradução pós-colonial da
ser unitário e não dialógico. O hibridismo modernidade reside em sua estrutura
‘performática’, ‘deformadora’, que não
é a articulação das formas de saberes apenas reavalia os conteúdos de uma
tradição cultural ou transpõe valores
nativos pelos sujeitos discriminados que
“transculturalmente”. A herança
insurgia como diferença cultural, cultural da escravidão ou do
colonialismo é posta ‘diante’ da
confundia a demanda narcísica do modernidade ‘não’ para resolver suas
dominador que se espelha no dominado e diferenças históricas, em uma nova
totalidade, nem para renunciar suas
intervinha efetivamente no exercício da tradições. É para introduzir outro lócus
de inscrição e intervenção, um outro
autoridade colonial (ou neocolonial). lugar de enunciação híbrido,
A noção de contingência social e ‘inadequado’, através daquela cisão
temporal – ou entretempo – [...] da
indeterminação, criada a partir da agência pós-colonial” BHABHA,
perspectiva de um “entre-tempo” pós- 2007, p. 334).
A fronteira é a ponte que
colonial, não é, nesse sentido, uma
acompanha os passos mais lentos ou mais
celebração da fragmentação, da bricolage,
apressados dos homens e das mulheres
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para lá e para cá de modo que novas cultural que emerge e rompe
margens sejam alcançadas. É o “local da ininterruptamente com qualquer estado de
cultura” de Bhabha, outro lugar de coisas que se forjou como definitivo.
enunciação, híbrido, ‘inadequado’, outro A pós-colonialidade não evidencia,
lócus de inscrição e intervenção das lutas assim, apenas as histórias de exploração e
de identificações: raça, gênero, vinculação o desenvolvimento de estratégias de
institucional, orientação sexual, localidade resistência. Mais provocativamente,
geopolítica, língua, habilidades e desconfia do que se chama de diversidade
competências, dentre outras. A cultura é cultural em conivência com as noções
fronteira, passagem, travessia, liberais de multiculturalismo, de
(des)encontros de vozes dissonantes. intercâmbio cultural ou de cultura da
humanidade. Aproximando-a da
Considerações Finais différance derridiana, a estética diaspórica
Nos processos migratórios, criam-se é híbrida, impura, e as fronteiras operam
zonas de contato em que colonizadores e como places de passage, de
colonizados estão em copresença espacial entrecruzamento de compreensões e
e temporal. Sujeitos antes isolados por práticas cujo resultado híbrido não pode
disjunturas geográficas e históricas têm mais ser desagregado.
suas trajetórias entrecruzadas. Se diáspora Longe de se sugerir uma formação
tendia a indicar uma oposição rígida entre sincrética na qual os elementos diferentes
o dentro e o fora, entre o centro e a estabelecem uma relação de igualdade uns
periferia, esta é a primeira desconstrução a com os outros, Stuart Hall lembra-nos que
se fazer para que se perceba a a diferença cultural é sempre inscrita nas
contribuição ímpar dos intelectuais relações de poder – sobretudo, nas
diaspóricos que, hoje, situamos sob a relações de dependência e subordinação
rubrica do pós-colonial. sustentadas pelo colonialismo – por isso, é
A diáspora, nessa nova chave, não momento e local de luta cultural, revisão e
retoma a retórica das culturas como reapropriação dialógica que jamais nos
totalidades radicalmente separadas, levará “ao lugar onde estávamos antes”.
intocadas, protegidas na memória mítica As reconfigurações jamais significarão
de uma identidade coletiva única. Mas uma “volta”.
evidencia, ao contrário, a diferença

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Os intelectuais da diáspora e racial vitoriana, mas a intrusão da
fundadores do “pós-colonial” apresentam- diferença também – esse é o desafio – no
nos, por fim, a um mundo onde os códigos sistema capitalista mundial.
mestres das culturas dominantes são
ininterruptamente desarticulados e Referências
rearticulados de outra forma, em que o ADORNO, Theodor. Mínima Moralia.
Reflexões a partir da vida lesada. São
híbrido é o elemento, por excelência,
Paulo: Azougue, 2008
subversivo. Na linguagem (incluindo a ANDERSON, Benedict. Nação e
consciência nacional. São Paulo: Ática,
linguagem visual), isso é mais óbvio: “o
1989
crioulo, o patois e o inglês negro BHABHA, Homi. O local da cultura.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007
desestabilizam e carnavalizam o domínio
HALL, Stuart. Da diáspora. Identidades e
linguístico do inglês – a língua-nação mediações culturais. Org. Liv Sovik. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2009
(nation-language) do metadiscurso”
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio.
(MERCER, apud HALL, 2009, p. 33). São Paulo: Cia das Letras, 2003.
___________. Fora do lugar. Memórias.
Mas, o campo linguístico é, sobretudo, um
São Paulo: Cia das Letras, 2004
campo de forças de poder-saber. A falsa ___________. Representações do
intelectual. As conferências Reith de
dicotomia entre a colonização nos âmbitos
1993. São Paulo: Cia das Letras, 2005, p.
do governo/poder/exploração e como 17.
___________. Humanismo e crítica
sistema de conhecimento e representação,
democrática. São Paulo: Cia das Letras,
se desconstruída – como também propõe a 2007.
SIMMEL, Georg. The sociology of
crítica pós-colonial –, libera também o
Georg Simmel. Nova Iorque: First Free
potencial do híbrido cultural ser percebido Press, 1964.
na análise dos desenvolvimentos do
capitalismo global. Um salto qualitativo i
Giddens (2002) fala-nos de cada vez mais
ainda a se dar pela ruptura de barreiras sofisticados mecanismos de “desencaixes” que
colaboram de modo inédito para a criação do
disciplinares e na capacidade do crítico “entre-lugar”. As novas tecnologias
informacionais e interativas põem-nos não
pós-colonial não servir como porta-voz apenas a par dos acontecimentos alhures mas
visceralmente conectados ao ponto destes se
inconsciente da modernidade capitalista configurarem como realidades que nos dizem
respeito diretamente.
tardia, mas ser seu veemente ii
Como Said diz, não há equivalente nos Estados
desmantelador, assim como já é do Unidos para as Conferências Reith da BBC de
Londres. Ter sido convidado em 1993 para
paradigma colonial. A hibridez de que se proferi-las custou ao mesmo algumas críticas
tais quais de sua parcialidade nos conflitos
fala não é, certamente, aquela da teoria palestinos – palestino era – “despreparado”
para a tribuna. O colonialismo contido em tais
Mouseion, n. 12, mai-ago/2012, pp. 44-55
ISSN 1981-7207
Dossiê  Narrativas  de  Imigração   55
Intelectuais,  diáspora  e  cultura:  por  uma  crítica  antimoderna  e  pós-­‐colonial  
Adélia  Maria  Miglievich  Ribeiro  
 

julgamentos não impediu, entretanto, que o


convite fosse mantido e aceito, mas mostrou
sua face nas várias limitações a que Said foi
submetido em sua participação. Sobretudo,
seus esforços de desconstrução das ficções
Oriente e Ocidente e das essências racialistas
foram mal digeridos por vários como sintomas
de uma trajetória de ressentimentos. Cf. Said,
Representações do intelectual. As conferências
Reith de 1993, 2005

Mouseion, n. 12, mai-ago/2012, pp. 44-55


ISSN 1981-7207