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os SACRAMENTOS DE INICIAÇÃO E O

CATOLICISMO NO BRASIL COLONIAL D


Geraldo Antônio Coelho de Almeida

INTRODUÇÃO culpa com os ascendentes tenham


levado os homens a esquecerem de
A sabedoria popular, com muito seu passado.
acerto, consagrou o adáglo de que Nos dias atuais, os lideres católi-
quem bem começa já realizou.me- cos brasileiros começam a pressen-
tade da obra. Isto não vale apenas t i r que não se podem continuar
para os empreendimentos mate- embalando indefinidamente na doce
riais. Também das realizações t i p i - ilusão de ser o Brasil o maior pais
camente humanas da vida, bem católico do mundo, mesmo porque
que sempre passíveis de mudanças até o insuficiente critério das per-
imprevistas no decorrer de sua centagens estatísticas, a cada dé-
consolidação estrutural, o êxito ou cada que passa, vai acusando um
fracasso v a i depender quase sem- decréscimo relativo no número
pre da orientação básica que o daqueles que nominalmente se
processo respectivo tiver tomado declaram católicos. Vêem também
em sua fase inicial. Procede dal a esses lideres que não podem sim-
constatação de que toda tentativa plesmente deixar-se levar pela
de compreensão de u m processo inércia da correnteza, nem se con-
qualquer, dentro do âmbito diver- tentar com uma simples atividade
sificado da paisagem humana, não de conservação das estruturas
pode prescindir de uma busca cons- eclesiásticas.
tante dos condicionamentos que Ê por isso que, já há algumas
marcaram o seu começo e das décadas, a parte mais consciente
linhas que orientaram o seu de- de nossa Igreja vem tentando, n u m
senvolvimento no passado. E m esforço constante, sensibilizar a
suma, nenhuma realidade humana massa amorfa dos católicos para
pode ser isolada de sua história, que, ao dar uma nova feição a sua
mesmo quando luna atração Impe- vivência cristã, possam constituir-
riosa pelo futuro ou o desejo de se, no seio da sociedade onde
apagar uma sensação solidária de atuam, em u m fator de progresso,
(•) o presente t r a b a h o foi a p r e s e n t a d o no sentido pleno do termo, t não
como Dlseertaçfio d e L l c e n c l a t i i r a , n a de alienação.
F a c u l d a d e d e Teologia C r i s t o B e l .

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Em consonância com estas preo- minar o papel que os sacramentos
cupações, metas são fixadas, planos de iniciação desempenharam na
são estabelecidos e novas estrutu- formação cristã do povo brasileiro
ras, criadas. Muitas vezes, porém, considerado a partir dos três gru-
estas providências não passam de pos principais que constituem o
receitas importadas ou pré-fabri- arcabouço étnico-cultural, onde,
cadas, que não surtem efeito. Ê mais tarde, grupos de outras pro-
por isso que quando vencem os cedências e representando outras
prazos muitas metas já se trans- vivências vieram inserir-se.
formaram em palavras vazias, pla- A razão dessa escolha se radica
nos tecnicamente exeqüíveis se tor- no interesse de detectar no período
naram impraticáveis e promissoras mais determinante de nosso pas-
estruturas se esterilizaram numa sado religioso, não só os condicio-
burocratização amordaçadora. namentos, como também as linhas
No desapontamento dos fracassos principais da pastoral sacramen-
surge felizmente a dúvida de que taria, responsáveis por um tipo
talvez os planos pequem por I r - característico de cristianismo qus
realismo, pois para o conhecimento bem pode ser chamado de Catoli-
da realidade de u m povo não é cismo Brasileiro.
suficiente, ainda que necessário, O material utilizado, em sua
um levantamento de suas caracte- maior parte, é constituído por do-
rísticas atuais. Certas deforma- cumentos coevos, publicados em
ções e peculiaridades só se explicam revistas especializadas ou em edi-
mediante um retorno às suas raízes ções criticas. Mas, foram também
mais remotas. consultados vários ensaios de au-
É nessa perspectiva que se situa tores contemporâneos. Entre as
e se justifica um certo afã que obras de que mais nos servimos,
atualmente anima uma série de merece destaque a Coleção dos
pesquisas históricas sobre os fatos "Anais'da Biblioteca Nacional", a
que marcaram o nascimento e o Revista) do Instituto Histórico e
crescimento do Cristianismo no Geográfico Brasileiro e a série de
Brasil, Cristianismo que, por mais estudo jesuítico intitulada "Monu-
de trezentos anos, ficou circuns- menta Brasiliae".
crito exclusivamente à forma cató- Nas citações, predominam os
lica, já que a presença de outras documentos escritos por jesuítas e,
denominações cristãs apenas a em conseqüência disso, a maior
partir da segunda década do sé- ênfase é dada a atividade missio-
culo X I X começou a ser tolerada nária entre os índios. Esta aparente
no pais. discriminação se explica pelo fato
Este nosso estudo não tem a de terem sido os documentos jesul-
pretensão de ser considerado uma ticos mais numerosos do que os de
pesquisa histórica, no rigor cientí- qualquer outro grupo, dentro do
fico do termo. Mas, nos limites de panorama eclesiástico da época. Já
um trabalho escolar, quer-se colo- quanto à preferência pela pastoral
car dentro desse campo. indígena, a razão é simples: o tra-
O objetivo que visamos ao em- balho pastoral com os índios foi o
preender esse trabalho, foi deter- mais assíduo e o mais bem organi-

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zado, dal constltulr-se para nós atuou na formação cristã do povo
num campo significativo para o brasileiro; finalmente, procura,-se
estudo, u m exemplo privilegiado de confrontar cada grupo etnlcamente
atividade evangelizadora da Igreja diferenciado com o sacramento do
missionária, cujas características, batismo, buscando, ao mesmo tem-
com as devidas correções, podem po, detectar, n a vivência cristã de
ser estendidas analogicamente aos cada um, o resultado que o tipo de
outros grupos em questão. Ainda pastoral desenvolvido, ressalvadas
no que se refere aos índios, é bom as limitações de tempo, pessoas e
notar que as chamadas missões do lugar, conseguiu produzir no Brasil.
Paraguai ou dos Sete Povos não Para não sobrecarregar o texto,
foram consideradas neste estudo preferiu-se acrescentar, sob a for-
por dois motivos: primeiro, porque ma de apêndice, alguns documentos
elas, na época, não estavam subor- ou parte deles, julgados importantes
dinadas ao Regime Português, ao para contextuar ou secundar algum
qual nos restringimos; segundo, juízo emitido no decorrer da expo-
porque elas exigiriam, dada a sua sição; as citações, em português,
complexidade, u m tratamento que são apresentadas na ortografia
nos obrigaria a ultrapassar os moderna; algumas citações, porém,
limites dessa pesquisa. são feitas na língua em que se
Os fatos considerados se situam, encontram, por ser difícil conse-
com ligeiras flutuações, dentro de guir uma tradução fiel para textos
um período que vai da segunda tão antigos redigidos em língua
metade do século X V I até o f i m do vulgar.
século X V I I I . Não houve preocupa-
ção de sistematizá-los rigorosa- I — OS SACRAMENTOS DA I N I -
mente, nem, muito menos, a CIAÇÃO E A IMPLANTAÇÃO
pretensão de esgotar o assunto. DO CRISTIANISMO
Apenas foram utilizados os textos
que julgamos mais significativos. Se acompanharmos a Tradição
A estruturação do tema inclui, Cristã, ao longo dos séculos, par-
inicialmente, u m capítulo sobre o tindo dos relatos dos Atos dos
sentido e evolução do núcleo sacra- Apóstolos até chegarmos aos dias
mentário, conhecido sob a denomi- atuais, vamos encontrar, ao lado
nação de Iniciação Cristã, e sua da proclamação do Evangelho, em-
importância na implantação do bora com variável insistência, a
Cristianismo; trata-se, em seguida, presença constante de m n núcleo
dos antecedentes étnico-cultural- sacramentai, onde o batismo ocupa
religiosos (embora assistematica- sempre o lugar de destaque.
mente), bem como da ação e dis- Esse conjunto formado pelo Ba-
tribuição dos ministros da Igreja, tismo, Confirmação (ou Crisma) e
os quais se incumbiam da pastoral Eucaristia, nos primeiros séculos
sacramentaria, no tempo do Brasil- da Igreja, era ministrado aos adul-
Colônia; abordam-se, depois, os tos, como etapas conjugadas de u m
vários elementos que, numa maior processo global de iniciação nos
ou menor intensidade, constituíam mistérios salvíflcos de Cristo, ao
o conjunto iniciatório que, de fato. mesmo tempo que marcava o I n -

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gresso do neófito n a assembléia do Concilio de Florença (1431—
daqueles que no mundo visibilizam 1447), oficlalmeni» estabelecida xut
a salvaçã» que o Filho, mediante a doulxinada Igreja (2), permanece,
consumação de uma vida de doação emboEa nem aempr» eotialga reali-
total, conquistou junto ao Pai, para zar-se, uma referência ao casiéet
os homens de todos os lugares e de iniciatório^ o que implica omA pro-
todas as épocas. clamação dâ Evangelho e u n m
Mais tarde, por exigências prá- adesão n a fé;
ticas (p. &c.: a rarefação das sedes Ê bem verdade também que nem
episcopais em relação à multipli- todas as Igrejas apresentavam uma
cação dos núcleos religiosos, longe prática uniforme na administração
dos centros maiores), a Confirma- do Batismo. Podemos, porém, par-
ção, parte do rito iniciatório que tindo da tradição lltúrgica, estabe-
competia ao bispo, foi sendo reser- lecer as linhas mestras do. conjunto
vada para ser oportunamente con- da "iniciação". Para isso, muito
ferida, mais tarde, dando-lhe por pode contribuir o estudo da "Tradi-
isso uma existência cada vez mais ção Apostólica" de Hipólito. Acom-
destacada do Batismo e gerando, panhando, pois, os pontos principais
para os teólogos, uma dificuldade de u m resumo desse documento
peculiar n a compreensão da n a t u - feito pelo Pe. Bemard Rey, podemos
reza deste sacramento, ainda hoje dizer que, segundo Hipólito, o con-
não totalmente elucidada. Pois, é junto iniciatório é concebido como
a Confirmação a plenificação do uma entrada progressiva n a comu-
Batismo? É o sacramento do enga- nidade eclesial, e esta iniciação,
jamento cristão? Ou, simplesmente, que desabrocha n a Eucaristia, é
como se começou a insinuar, a par- assegurada por toda a comunidade,
t i r da difusão dos batismos de evidentemente incluindo nela tam-
crianças, é u m sacramento que bém os-leigos. A apresentação do
marca a transição entre a infância batizando ao bispo é feita por um
e a adolescência, o sacramento da leigo (padrinho), que pode assumir
maturidade cristã? uma parte da instrução do cate-
cúmeno. Na noite de Páscoa, o
Sabe-se, porém, que o Oriente
diácono desce com o futuro bati-
não conhece o seccionamento entre
zado até a piscina para a abiução
Batismo e Confirmação. Também
que acompanha a confissão de fé
não é fácil encontrar, no Novo Tes-
trinitárla. Ao sair do banho, o ba-
tamento, textos que mencionem
tizado recebe das mãos de um padre
explicitamente o segundo sacra-
uma unção de óleo. Depois ele ê
mento (1). Contudo, escapa do
introduzido no interior da igreja,
âmbito deste trabalho a preocupa-
onde o bispo lhe impõe a mão,
ção de estabelecer os limites claros
invocando sobre ele o Espirito
entre os dois primeiros sacramen-
Santo, e lhe dá o ósculo da paz.
tos, mesmo porque, tanto na forma
anterior, como na correspondente à A intervenção do bispo sela a
sistemática septiforme, já, a partir cerimônia, após a qual o novel
(1) C f r . B e m a r d R e y , O. P., L a s l t u a t l o n O s textos referentes à Conflrmac&o,
a c t u e l l e de l a C o n n r m a t l o n e t ses g e r a l m e n t e apresentados, s&o: A t . 8,
e x l ^ c Ê J I , I n CATÊCmSTES, 82 (1970), 15-17; 19. 5-6.
p. 117. (2) Cfr. Denzlnger, E n c h l r l d i o n Symbo-
l o r u m , Herder, 1955, 695.

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cristão se aproxima, pela primeira uma revisão dos ritos, para vlslbi-
vez, da Eucaristia da comunida- lizar melhor a relação desse sacra-
de (3). mento com todo o conjunto inicia-
A "Tradição" fala de uma segun- tório: "Seja revisto também o rito
da unção, mas há fortes indícios da confirmação para mais clara-
para se supor que t a l menção não mente aparecer a Intima conexão
reflita a realidade lltúrgica daquela deste sacramento com toda a
época e seja uma simples alteração iniciação cristã. Por esse motivo,
do texto. Caso contrário, seria um é muito conveniente que a renova-
rito particular da Igreja Romana, ção das promessas do batismo
já que as demais Igrejas não co- preceda a recepção deste sacra-
nhecem esta dupla unção. m e n t o . . . " (Constituição "De Sa-
Esta relação a que aludimos cra Liturgia", n . 71).
acima acentua o valor da unidade O núcleo sacramentai, atualmente
fundamental desta celebração que desdobrado nos sacramentos do
alguns escritores antigos chamam Batismo, CTrisma e Eucaristia, cons-
simplesmente batismo. Assim Ter- t i t u i , como vimos, o que na Igreja
tuliano, embora no seu tratado "De se denomina "Iniciação Cristã".
Baptismo" pareça admitir uma dis- Não se deve entender "iniciação",
tinção, ao falar da unção pós- aqui, como se fosse uma primeira
batlsmal e da imposição das mãos introdução, uma espécie de "Mo-
para a recepção do Espírito Santo bral" da vida cristã, assim como
(4), contudo, em outros escritos, se fala de "Iniciação ao Direito",
denomina a celebração global, "Iniciação à Filosofia", etc. O que
simplesmente com o nome de ba- se deseja salientar, de fato, é que
tismo. "Nesta época, as denomina- estes sacramentos representam a
ções particulares concernentes ao "admissão à plena participação no
rito final administrado pelo bispo Mistério de Cristo", com cuja
não visam explicitamente u m se- recepção, no termo de sua prepa-
gundo sacramento. O conjunto da ração catecumenal, o fiel inicia sua
iniciação que se encaminha para a trajetória como um membro ativo
Eucaristia forma u m único mistério, e autêntico da Igreja, perfeitamente
celebrado com diferentes ritos, apto a viver plenamente a vida de
onde cada u m deles não faz senão Cristo (6). Há também uma intro-
exprimir u m aspecto da totalida- dução — um anúncio da Salvação
de" (5). (Kerigma) e uma conveniente ex-
Sem querer entrar nas questões plicação dos principais mistçrios
próprias do sacramento da Con- de nossa fé e das exigências que
firmação, porque perseguimos outro ela comporta (catequese). O que
Objetivo, gostaríamos, no entanto, se deseja acentuar, porém, ao lem-
de relembrar aqui uma recomenda- brar também este aspecto, é que a
ção do Concilio Vaticano I I que, mera administração do Batismo e,
seguindo a trilha dos estudos his- muito menos, dos outros sacramen-
tóricos mais recentes, recomenda tos, por si sós, não bastam para ex-
(3) C f r . B e r n a r d Hey, O. P., op. c l t . , (5) B e r n a r d R e v , O. O., op. ort., fi. 119.
p. 119. (6) C f r . J . M . T U l a r d , Príncipes poxir u n e
(4) Cfr. Tertullano, De Baptismo, trad. catéchèse s a c r a m e n t e i ! * v r a l , I t o u T .
d e ü . Z l l l e s , P U C , Porto Alegre, 1972, I ^ v u e Théploglque (1M2), p. M 4 I -
p. 10-11.

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pllcitar a quem os recebe a reali- Mas, se para batizar os judeus, já
dade do Mistério Salvífico, ao qual introduzidos na fé por toda a pe-
mesmo assim, paradoxalmente, se dagogia preparatória do Antigo
referem. Com isso também não se Testamento, bastava esta simples
pretende silenciar as deformações confissão, o mesmo não iria acon-
que üma visão marcadamente sa- tecer em relação aos pagãos. Cóm
cramentalista e a prática compul- efeito, tão logo a Igreja começou
sória do Regime de Cristandade a se expandir no meio dos "povos
gentios", foi sendo necessária uma
acarretou para a desfiguração da
certa preparação catecumenal, cada
Igreja. Nestas situações o Batismo
vez mais dilatada, conforme a expe-
quase que perde sua função de riência ia sugerindo.
sinal na adesão livre de uma pes-
soa ao mistério salvífico de Cristo, Segundo J . Betz, citado por
Casiano Floristan, "com isso se
para ser u m instrumento automá-
atendia especialmente à instrução
tico de admissão num determinado
na fé cristã e, sobretudo, à forma-
sistema social, do qual o cristianis- ção do 'ethos' cristão, conforme a
mo é considerado um elemento inte- exigência neo-testamentária, de
grante. O Batismo, assim, passa a que o afastamento penitencial
ser antes u m sinal indicador de da corrupção do mundo e a con-
Um conjunto de obrigações e de- versão crente a Cristo constituíam
veres, inclusive políticos, que a o pressuposto necessário para o
explicitação subjetiva da partici- batismo (Mc. 10, 16; Mt. 28, 20,
pação no mistério pascal. At. 2, 38). Outra motivação funda-
mental era a convicção de que a
Mas se ainda hoje podemos a t r i -
Igreja era a comunidade dos santos.
buir boa parte do aumento numé-
Tudo isso conduziu ao catecume-
rico dos católicos a uma espécie de
nato. A preparação doutrinai e
inércia, fruto de impulsos intermi-
moral para o batismo se realizava
tentes da ação missionária em
em duas fases: o catecumenato e a
épocas privilegiadas, no decorrer da
ação taatismal mesma" (7).
História da Igreja, não podemos
afirmar, com a mesma facilidade, São Justino, que nasceu no p r i -
estar esta prática apoiada nos meiro decênio do segundo século e
ensinamentos oficiais dos Pastores morreu mártir no ano de 165, já
e na compreensão progressiva da fala em sua "Primeira Apologia" de
função destes sacramentos por uma instituição pré-batismal.
parte dos teólogos. "A quantos estejam conven-
Nos primórdios da Igreja, quan- cidos e creiam na verdade dos
do o anúncio do Evangelho estava ensinamentos por nós expos-
circunscrito praticamente aos l i m i - tos, e prometam viver segun-
tes do Povo Judeu, o batismo era do estas máximas, é ensina-
administrado sem maiores delon- do a rezar e a pedir com jejuns
gas preparatórias, imediatamente a Deus a remissão dos pecados
após a confissão de fé cristã que cometidos; e com eles rezamos
se resumia na afirmação "Jesus é e jejuamos também nós. Então
Senhor" (1 Cor. 12, 3) ou "Jesus é (7) C a s i a n o F l o r e s t a n e M a n u e l Useros,
o Filho de Deus" (1 Jo. 4, 15). T e o l o g i a de l a Acclón P a s t o r a l , B A C ,
M a d r i , 1968, p. 401.

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são por nós conduzidos ao lugar batizados, o bispo exorcize cada
onde está a água e são rege- um deles para provar se estão
nerados da mesma maneira puros. Se há algum não puro,
em que fomos regenerados nós: afaste-o; ele não ouviu com fé
no nome do Pai de todos e a palavra, porque o Estran-
Senhor Deus, do Senhor Nosso geiro (o demônio) está ainda
Jesus Cristo e do Espirito Santo sempre escondido nele. Advir-
lhes realizam a lavação na ta-se àqueles que vão ser b a t i -
água..." (8). zados que tomem u m banho e
Porém é mais provável que só no se lavem no quinto dia da se-
final do século I I tenha sido esta- mana. Se uma mulher estiver
belecido u m catecumenato regular. no seu período regular (mens-
Lá pelos anos 220, Hipólito nos truação), seja afastada, e se
descreveu um catecumenato orga- batize noutro dia. Os que de-
nizado que durava três anos. Havia vem receber o batismo, jejuem
uma prova inicial de admissão ao na sexta-feira e no sábado. No
mesmo, baseada na conduta moral sábado o bispo reúna todos no
e na Intencionalidade do candidato. mesmo lugar e os convide a
Os catecúmenos tomavam parte na orar e dobrar os joelhos. I m -
liturgia da palavra e na oração. pondo-lhes as mãos, esconjure
Mais tarde passavam por uma a todo espírito estrangeiro que
outra prova e, desde então, eram se afaste e que não retomem
considerados "electi" ou "compe- outra vez para perto deles.
tentes" (9). Vejamos, pois, nas Quando o exorclsmo tiver ter-
próprias palavras de Hipólito (Cfr. minado, sopre sobre o rosto, e
"A Tradição Apostólica", cap. 20), depois de ter assinalado a
como as coisas se desenrolavam fronte, ouvidos e nariz deles,
desse ponto para a frente: faça-os levantarem-se. Pas-
"Quando forem eleitos e pos- sar-se-á toda a noite em vigí-
tos à parte aqueles que devem lias, fazendo-lhes leituras e
receber o batismo, examine-se instruções..." (10).
a vida deles: têm vivido pia- Segue uma descrição pormenori-
mente durante seu catecume- zada das cerimônias do batismo,
nato, têm honrado as viúvas, às quais já nos referimos ligeira-
visitado os doentes, praticado mente, um pouco mais acima,.
as boas obras? — Se aqueles Mas, com o tempo, o número dos
que 05 têm acompanhado dão candidatos foi pouco a pouco au-
testemunho 'de qu,e se com- mentando, No século TV, pode-se
portam desta maneira, ouçam mesmo falar de grandes massas
o Evangelho. A partir do dia que postulavam o ingresso na Igre-
em que foram escolhidos, se ja. Com isso a duração do cate-
lhes imponham as mãos cada cumenato se reduz e seu vigor
dia e se exorcizem. Ao apro- vai-se enfraquecendo. Contudo,
ximar-se do dia em que serão ainda nesta época, o catecúmeno
participava, durante a Quaresma,
(8) GultJo Boblo, I n l z l a z o n e a l P a d r l , v o l .
I , p. 155. de uma série de reuniões, baseadas
(9) C f r . C . F l o r e s t a n e M. Useros op. c l t . ,
p. 402. (10) G u l d o Boblo, op. c l t . , p. 276.

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na explanação da fé cristã e da tante das massas, sem excluir, em
ética correspondente. Havia uma alguns casos, outras formas exter-
entrega e uma devolução do "sím- nas de pressão, tanto política como
bolo" ao qual, em Roma, se acres- militar.
centavam o Evangelho e o Pai A instrução posterior que esses
Nosso (11). povos recebiam, refletia, sem o
A partir da época de Constantlno devido discernimento, muito mais
e Teodósio, os cristãos, de minoria certos aspectos particulares que as
clandestina e perseguida, passam a Igrejas, donde os missionários pro-
ser a maioria, que com prestigio vinham, tinham elaborado, do que
crescente povoa o Império. O nú- as linhas fundamentais da mensa-
mero de adultos que se prepara gem cristã. Típico e clássico é o
para o batismo começa a escassear. caso da disciplina penitencial ela-
Por outro lado, o desenvolvimento borada pelos monges irlandeses e
de certas correntes teológicas (prin- depois difundida na Europa, Conti-
cipalmente a doutrina do pecado nental, onde eles desenvolveram
original) e a pressuposição de que uma intensa atividade missionária.
os nascidos em ambiente cristão, É assim que vamos desembocar
ao atingirem a idade conveniente, em plena Idade Média com o con-
iriam espontaneamente querer con- junto de ritos, antes planejado para
tinuar na Igreja (mesmo porque uma quaresma, pelo menos agora
isto era considerado um grande concentrado em uma única ceri-
bem), fizeram com que o batismo mônia, cheia de repetições e ana-
de crianças se constituísse u m re- cronismos, já que boa parte dos
curso normal e compulsório, n a elementos antigos, então conser-
prática sacramentaria da Igreja. vados, era inadequada para o
Antecipava-se para a criança, com batismo de criança. E, para agra-
o rito do batismo, a sua participa- var a situação, esse amontoado de
ção no Mistério de Cristo, Mistério gestos ámalgamados não incluía
esse que a família e a comunidade as leituras e a catequese. Além
circunstante iriam encarregar-se disso, acentuou-se a separação en-
de manifestar-lhe com o tempo, tre o Batismo, a Crisma e a Euca-
através de palavras e ações, até ristia, desaparecendo, desta forma,
que o conferimento de outros sa- o profundo sentido da iniciação
cramentos iniciatórios viessem soli- total cristã (12).
citar-lhe uma adesão pessoal, que,
Foi apenas em 1614 que o " R i -
de fato, as circunstâncias torna-
tuale Romanum" conseguiu fixar
vam-na praticamente automática.
dois tipos diversificados de ceri-
Com a conversão dos povos bár- mônias: o ritual de adultos, pouco
baros, embora a Igreja devesse usado, e o de crianças, invariável
novamente ministrar o batismo a até o Concilio Vaticano I I (13).
adultos, com freqüência, porém, a Já aquela instituição catecume-
evangelização pré-batismal era nal dos tempos antigos, com dura-
muito sumária, bastando, não raro, ção até o século V I I I , mais ou
a conversão dos chefes, para se de- menos, tinha por objetivo a "cate-
sencadear a adesão quase concomi- quese", ou seja, "o ensinamento
(11) C f r . C . F l o r e s t a n e M. Useros, op. c l t . , (12) n i l d e m .
p. 402. (13) I d e m , p. 402.

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elementar e completo do conjunto Inquisição" e a "Ordem de Cristo"
básico da doutrina cristã: seu con- estavam em pleno vigor e seu cará-
teúdo estava baseado no Símbolo; ter inibitório e controlador l a de-
o ensino se apoiava n a Escritura e, terminando a forma de cristianismo
em particular, no Antigo Testa- que o Estado se encarregava de
mento. Porém, o que ali se buscava implantar nas Colônias, ao mesmo
não era uma mera instrução e sim tempo que conseguia filtrar as
uma autêntica conversão no cami- influências julgadas deletérias, pro-
nho de Jesus Cristo. Assim se con- venientes do exterior.
seguia dar uma instrução moral É de um ambiente assim, mais
adequada às exigências dos ca- medieval do que renascentista,
tecúmenos..." (14). adepto da contra-reforma, sem ter
Mas, no século X V I , época dos antes passado pelos movimentos
grandes descobrimentos, quando o reformistas, que irão surgir não só
Cristianismo começa a ser implan- os dirigentes cuja ação colonizado-
tado em Terras Brasileiras, a Euro- ra tentará dar uma forma à amál-
pa cristã assistia à derrocada final gama de etnias e culturas, que vão
de um processo de decadência, cujas confluindo no Novo Mundo, como
raízes se perdem na Alta Idade também os missionários que se es-
Média: perturbava-se com o' surgi- forçarão para reunir, à sombra
mento de grupos reformadores con- exclusiva da Religião Católica, pes-
sistentes que se destacavam da soas que se encontram em estágios
Igreja Oficial e se preparava para religiosos tão disparatados.
enfrentá-los com uma contra- re- Esta nossa pesquisa, destinada a
forma. Essa reação aos desafios estabelecer, a partir dos primórdios
teológico-morais, bem como aos iniciatórios da implantação do cris-
problemas trazidos pelo Renasci- tianismo em terras brasileiras, as
mento artístico e cultural, .se linhas motrizes e as deformações
consubstanciou nos decretos ema- estruturais de nossa atual prática
nados pelo Concilio de Trento católica, ficaria incompleta se não
e na fundação de novas Ordens dedicasse um capítulo, ainda que
reUgiosas. um tanto genérico, à caracteriza-
A Península Ibérica, de que Por- ção dos povos que deram consis-
tugal é parte integrante, u m pouco tência ao substrato humano sobre o
por sua locaUzação geográfica, um qual atuou a ação sacramentaria,
pouco por ter suas atenções vol- responsável pelo produto religioso
tadas para as conquistas trans- de que, mais adiante. Iremos
oceânlcas e para o lucrativo comér- ocupar-nos. Ê isto o que vamos
cio de especiaria delas decorrente, fazer agora.
t)ermanecia um tanto à margem de
todo o processo de transformação I I - - OS ANTECEDENTES ÉTNICO-
religioso-cultural que afetava pro- CULTURAL-RELIGIOSOS
fundamente a vida de muitos outros
povos e nações do continente. Quando se considera a massa
Em Espanha e Portugal, no en- humana que foi o objeto das preo-
tanto, Instituições como a "Santa cupações e cuidados da ]«reja
(14) M e m , p. 403.
Católica em seus esforços iniciais

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de implantação em terras brasi- rios pontos da África Negra, logo
leiras, vamos encontrar os mesmos ao empreender, de forma regular, o
elementos que, com atribuições e povoamento e colonização do Brasil,
participação diferentes, compuse- começou a perceber, depois de cer-
ram o substrato étnico-cultural de tas experiências negativas, que os
nossa nacionalidade: o português, índios não iriam desempenhar ade-
o índio e o africano. quadamente o papel de parceiros
O primeiro, bem que por muito na atividade agrícola que aqui
tempo inferior em número, consti- pretendiam desenvolver. Principal-
tuía, mercê de seu estágio mais mente no cultivo da cana-de-açú-
adiantado de civilização, o elemento car, a lavoura mais rendosa da
informador (e também deforma- época, para cujo plantio as terras
dor) de todo o processo. O próprio férteis da costa ofereciam amplas
Catolicismo, objeto deste estudo, possibilidades e cujo comércio flo-
aqui chegou com ele, como u m rescente aconselhava uma mão-de-
componente inseparável de sua obra mais estável.
bagagem vivencial e, por esse mo- Trazer da África os braços
tivo, teve que pagar o tributo de escravos para o cultivo da terra foi,
aparecer aos olhos dos conquistados então, a solução que aflorou mais
como u m parceiro, embora invo- espontaneamente, ainda mais que
luntário, das exorbitâncias prati- nem mesmo a Teologia punha em
cadas por aqueles que, professando dúvida a legitimidade de t a l re-
sua fé, não agiam conforme seus curso. Aliás, a estratégia missioná-
ensinamentos. ria até o favorecia. Pois não eram
Os índios, habitantes da terra e os negros pagãos? — Então, faaen-
seus legítimos possuidores (bem do-os escravos dos cristãos em vez
que disso não tivessem consciência de deixá-los com os Sobas da
política), se encontravam em u m África, eles iam ter o oportunidade
estágio de civilização bem p r i m i - de alcançar a Salvação, pertencendo
tivo. Havia, sim, diferenças entre à Igreja Católica, já que "extra
uma tribo e outra, mas nenhum Ecclesia nulla salus"! Ainda mais
dos grupos aqui encontrados se que o próprio rei de Portugal não
deixava de assinalar, nos documen-
aproximava do grau de civilização
tos mais importantes que emana-
alcançado peloá Incas do Peru, ou
vam, ser a propagação da fé o
pelos Astecas do México. Sua cul-
principal objetivo de suas conquis-
tura não passava da pedra polida.
tas. Pois então, se aos naturais da
Em matéria religiosa eram muito
terra se acrescentarem também os
simples. Pelo menos assim o pen-
pagãos africanos, a colheita espi-
savam os missionários que lhes
ritual só pode ser maior, além de
animciaram a fé cristã. Atualmen- que semelhante procedimento iria
te os estudos antropológicos che- certamente redundar em proveito
gam a uma opinião diferente. Mas, da Fazenda de Sua Majestade!
seja como for, as crendices dos
índios não constituíam o obstáculo Estas rápidas pinceladas não são
maior à obra evangelizadora. suficientes para explicar certos
O português, que já desde o rumos que, ainda bem cedo, a i n i -
século XV se tinha fixado em vá- ciação cristã começou a trilhar

214
entre nós Convém, pois, caracte- e a primeira viagem de circunave-
rizar mellior cada m n dos três gação do globo, por Femão de
elementos, embora com isso não Magalhães, embora a serviço do
pretendamos fazer nenhum tratado Rei da Espanha, além de várias
de Antropologia. outras descobertas menores. Na-
Como é natural, vamos começar vegador, marinheiro, conquistador
pelo português. de Terras são facetas de uma
mesma característica que marcou
I I . 1 — O PORTUGUÊS, UM POVO os homens lusos dos séculos XV e
AVENTUREIRO XVI. Diz Gilberto Freire:
"A precoce ascendência das
Já notamos acima que a posição classes marítimas e comerciais
geográfica privilegiada da Penín- na economia e na política por-
sula Ibérica, em relação às outras tuguesa resultou igualmente
regiões do Continente, concorria da extraordinária variedade de
para que Espanha e Portugal, à contatos marítimos e de estí-
semelhança dos países balcânicos e mulos comerciais. A princípio,
da Rússia, se constituíssem em os grandes agentes de diferen-
"territórios-ponte pelos quais a ciação e autonomia foram os
Eiu-opa se comunicava com .os ou- Cruzados. Os aventureiros vin-
tros mundos" (15). dos do Norte e que no Condado
Portugal, com certa verdade, foi Portucalense se constituíram
chamado de "Jardim da Europa à em aristocracia militar e ter-
beira-mar plantado". Não foi, po- ritorial. Um deles, em funda-
rém, a agricultura que o celebrizou, dor mesmo da monarquia. —
foi o mar, pois bem cedo ele sentiu Mas esse elemento se estrati-
mais inclinações pelos caminhos ficou depois em camada con-
desconhecidos do Oceano do que servadora..." (16).
pelas lides rotineiras do cultivo da Enquanto a aristocracia rural,
terra, que, aliás, para ser jardim, mais por vantagens econômicas,
exigia muitos esforços e, como de- pendia para os lados de Castela,
pois de fato aconteceu, muito suor foi a classe comercial marítima
de moiuro escravo. que, em Lisboa e no Porto, susten-
Fiel a essa vocação, seus m a r i - tou o sentimento nativista, assegu-
nheiros, pouco a pouco, foram rando ao Pais a sua necessária
avançando para o Sul e assim as autonomia. Acentuando-se a polí-
costas ocidentais do Continente tica dos reis, se inclinou para " a
Negro iam-se tomando familiares burguesia mercantil e para o povo
aos europeus. das cidades" (17).
Entre as façanhas ligadas ao povo Já em relação à colonização do
lusitano, destacam-se: a superação Brasil, aconteceu u m fenômeno u m
do Cabo das Tormentas, o Desco- pouco anacrônico: por u m lado,
brimento do Caminho Marítimo sua descoberta estava perfeita-
para as índias, a Posse do Brasil mente sintonizada com o programa
(15) C f r . Sérgio B u a r q u e de H o l a n d a , R a í - zala, v o l . I ( C o l . D o c u m e n t o s B r a -
zes do B r a s i l L i v r a r i a José O l y m p l o sileiros, n.o 36), L i v r a r i a José O l y m -
E d i t o r a , R i o , 1969 (5.» ed.), p. 3. plo E d i t o r a , R i o , 1946 (5.» ed.), p. 358.
(16) G i l b e r t o F r e y r e , C a s a G r a n d e e S e n - (17) I d e m , p. 358-359.

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comercial e marítimo, inaugurado Buarque de Holanda, "parece cons-
por Vasco da Gama; por outro t i t u i r o traço mais decisivo na evo-
lado, porém, a política colonizadora lução da gente hispânica, desde
a ser nele implantada iria repetir tempos imemoriais" (19). A frou-
0 8 métodos já então suplantados xidâo das instituições e a falta de
da colonização aristocrática e agrá- coesão social seriam derivações
ria, experimentados no território diretas dessa atitude básica de
reconquistado aos mouros (18). auto-suficiência: "pois em terra em
Desta forma, o Pais que quase não que todos são barões, não é possível
viveu o íeudalismo, iria desenvol- acordo coletivo durável, a não ser
ver, em terras americanas, uma por uma força exterior respeitável
intrincada estrutura de tipo quase e temida".
feudal, formada por Capitanias, Outra característica marcante,
Sesmarias, Senhores de engenho, observada em toda a Península
cujos traços se conservam ainda Ibérica, mas de forma acentuada
nos nossos dias, sota a tão caracte- em Portugal, é a ausência do p r i n -
rizada forma do "coronelismo". cipio de hierarquia e a exaltação
do prestígio pessoal, em relação ao
Esse sistema, pelas profundas
privilégio. Assim, também a no-
implicações que representou na
breza devia competir e buscar o
estruturação sócio-político-econô-
mérito. É bem verdade que, tor-
mica de toda a vida do Brasil-
nando-se mais acessível, ela favo-
Colônla, significou para a Igreja,
receu a mania geral de fidalguia e,
quer sob o aspecto de antagonismo
com isso, a repulsa pelo trabalho
com a ação missionária dos jesuítas,
organizado e pelas atividades u t i l i -
quer sob a forma de proteção incô-
tárias (20).
moda aos capelães e párocos das
zonas rurais, lun notável embaraço Sérgio Buarque de Holanda chega
no desempenho de sua missão evan- a uma conclusão paradoxal, depois
gelizadora. Pois, ora era ocasião de de analisar esses traços no ibérico
um desperdício desproporcionado de português:
energias missionárias, ora, u m sor- "A vontade de mandar e a
rateiro amolecedor da função crí- disposição para cumprir ordens
tica e orientadora que a Igreja deve são-lhes igualmente peculiares.
exercer no processo da sociedade As ditaduras e o Santo Oficio
em construção. parecem constituir formas tão
Mas, como quer que seja, àquela típicas de seu caráter como a
precoce propensão para o mar que inclinação à anarquia e à de-
fez do português, antes de tudo, sordem" (21).
um aventureiro (em detrimento da Este tipo de obediência difere
assídua dedicação ao trabalho r o t i - bastante dos princípios medievais
neiro do campo), devem-se acres- e feudais da lealdade. É uma obe-
centar ainda outros traços, que diência cega, elevada, algumas ve-
também lhe são próprios. Sobre zes, a virtude suprema entre todas.
todos, destaca-se u m acentuado Pessoas cuja exaltação extrema da
personalismo que, conforme Sérgio personalidade não tolera compro-

(18) I d e m , p. 359. (20) Cír. S . B . de H o l a n d a , op. c l t . , p. 3-11.


(19) S . B . de H o l a n d a , op. c l t . , p. 4. (21) I d e m , p. 11.

216
missos, só podem conceber u m tipo por exemplo, não seria capaz.
de disciplina, " a que se funda na Mesmo com desleixo e certo aban-
excessiva centralização do poder e dono, "o português manifestou u m
na obediência". elevado grau de adaptabilidade",
Ainda conforme Sérgio Buarque, necessário para enfrentar situações
os jesuítas foram os que melhor tão diversificadas, graças a seu
representaram esse principio da espírito de aventura. A lavoura de
disciplina pela obediência: cana seria, assim, uma forma de
ocupação aventureira do espaço,
"Mesmo em nossa América "não correspondendo a uma civili-
do Sul, deixaram disso exem- zação tipicamente agrícola", e sim
plo memorável com suas redu- a uma conformação um tanto p r i -
ções e doutrinas. Nenhuma mitiva ao meio. T a l processo está
tirania moderna, nenhum teó- marcado por uma baixa capacidade
rico da ditadura do proleta- técnica e uma boa dose de docili-
riado ou do Estado totalitário, dade às condições naturais. O
chegou sequer a vislumbrar a recurso à escravidão, quase um
possibilidade desse prodígio de corolário necessário desse estado
racionalização que consegui- de coisas, acentuou ainda mais a
ram os padres da Coáipanhia ação dos fatores que se chocavam
de Jesus em suas Missões" (22). com o espírito de trabalho, ma-
De fato, quem lê a "Conquista tando no "homem livre a neces-
Espiritual" do Padre Ruiz de Mon- sidade de cooperar e organizar-se,
toya, dificilmente chegará à con- submetendo-o, ao mesmo tempo, á
clusão diferente. influência amolecedora de u m povo
<$ preciso retomar um aspecto já primitivo" (Cfr. Antônio Cândido,
l i ^ l r a m e n t e apontado em outro obra citada, p. X V I ) .
lugar: o caráter aventureiro da Assinala-se ainda como uma
colonização portuguesa na América. componente típica de extraordiná-
Sérgio Buarque delineia muito bem ria plasticidade social do português
o problema. "Trabalhador e Aven- a ausência quase completa de qual-
tureiro" constitui a tipologia básica quer orgulho de raça. Isso em parte
d« seu livro "Raízes do Brasil". se explica pelo fato de os portugue-
Sã(9 duas éticas opostas: "uma ses, já ao tempo do descobrimento,
busca novas experiências, acamo- serem um povo de mestiços. No
da-se ao provisório e prefere des- povoamento da Colônia, essa pre-
cobrir a consolidar; outra, estima a disposição integradora iria desem-
ise|;urança e o esforço, aceitando as penhar um papel muito importante
compensações a longo prazo" (Cfr. na composição étnica do povo
Autônlo Cândido, Prefácio da 5.» brasileiro, num processo iniciado à
edição de Raízes do Brasil, p. XVI>. sombra da Casa Grande e desdo-
Aventureiros, sem apreço pelas vir- brado depois numa série infindá-
tudes da pertinácia e do esforço, os vel de cruzamentos que talvez já
portugueses conseguiram, apesar tivesse determinado u m tipo racial
de tudo, realizar no Brasil uma mais uniforme se novas levas de
obra de que o metódico holandês, colonos brancos não tivessem apor-
tado ao País, a partir dos começos
(22) Ibldem.

217
do século X I X . Naturalmente que fala, começando pela descrição dos
essa integração racial não se rea- dois primeiros que foram apresen-
lizou em decorrência da mútua tados ao capitão:
aceitação de parceiros racial e "A feição deles éi serem par-
socialmente distintos, mas, antes, dos, maneira de avermelhados,
como uma espécie de entropia, de bons rostos e bons narizes,
resultante da prepotência sexual bem feitos, andam nus sem
dos senhores sobre índias ingênuas nenhuma cobertura, nem esti-
e escravas e indefesas. Buscava-se mam nenhuma coisa cobrir,
o prazer, mas, em conseqüência, v i - nem mostrar suas vergonhas,
nham os filhos, aceitos complacen- e estão cerca disso com tanta
temente nos limites indefinidos da inocência como têm em mos-
família patriarcal. Não obstante trar o r o s t o . . . "
todas as restrições éticas que a "Os cabelos seus são corredios
difusão de u m costume tão relaxa- e andam tosquiados de tosquia
do possa ter merecido na época, o alta..."
certo é que as relações sociais no " . . .E segundo o que a m i m e
Brasil saíram lucrando. À revelia a todos parece, esta gente não
dos princípios cristãos, criou-se lhe falece outra cousa para ser
para a Igreja do Brasil u m campo toda cristã que entenderam-
propício à sua ação igualitária, pa- nos, porque assim tomaram
ternal e ecumênica, embora, na aquilo que nos viam fazer como
ocasião, outras circunstâncias i m - nós mesmos, por onde pareceu
pedissem a sua concretização. a todos, que nenhuma idolatria
têm; e bem creio que Vossa
Estas notas já são suficientes Alteza aqui mandar quem mais
para esboçar uma imagem aproxi- entre eles devagar ande, que
mada do colonizador português, no todos serão tomados ao dese-
Brasil, nos séculos X V I e X V I I . jo de Vossa Alteza. E, para
Vejamos agora como se apresen- isso, se algum vier, não deixe
tava o habitante primitivo da
logo de vir clérigo para os
terra.
batizar, porque já então terão
mais conhecimentos, de nossa
n . 2. — O HABITANTE NATIVO fé pelos dois degredados, que
aqui entre eles ficam, os quais
Os portugueses, quando aporta- ambos hoje comungaram..."
ram oficialmente ao BrasU, pela E finaliza Caminha, depois de
primeira vez, em 1500, ficaram u m descrever a vegetação, as águas, o
tanto abismados com os habitantes clima da suposta Hha:
que, nas praias de Porto Seguro, os " . . . e m t a l maneira, é gra-
receberam, entre curiosos e des- ciosa, que, querendo-a apro-
confiados. veitar, dar-se-á nela tudo por
Pero Vaz de Caminha registrou, bém das águas, que tem; po-
com uma riqueza de pormenores, as rém o melhor fruto, que nela
impressões que os selvagens lhe se fazer me parece que será
causaram durante os poucos dias salvar esta gente e esta deve
dessa primeira aproximação. Assim ser a principal semente que

218
Vossa Alteza em ela deve l a n - Em vários outros documentos dos
ç a r . . . " (23). primeiros anos do descobrimento,
Ê Interessante notar que, três os habitantes da Hha de Vera Cruz
anos depois, num ato notorial la- ou Terra de Santa Cruz ocupam
vrado em Lisboa aos 20 de maio de um lugar de destaque. Temos, por
1503, por Valentim Fernandes, cuja exemplo, a carta que Américo Ves-
cópia, em latim, pertence à B i - púcio enviou a Lourenço de Mediei
blioteca de Stuttgart, vamos encon- em 1504, falando de sua viagem às
trar luna descrição bastante fiel terras do Brasil, na Expedição
do selvagem brasileiro: Exploradora de 1501. Os índios
nela são descritos com abundância
"Os habitantes desse mundo
de pormenores, embora algumas
não têm fé, nem religião, nem
conclusões sobre seus usos e costu-
idolatria, nem conhecimento
mes não passem de projeção fan-
algum do seu Criador, nem
tasiosa, como aquela afirmação de
estão sujeitos a leis ou a qual-
que os selvagens não são caçadores:
quer domínio, mas apenas ao
"pela presença na terra de leões,
Conselho dos Velhos: nada têm
ursos e inumeráveis serpentes".
como próprio, mas tudo lhes
é comum, salvo as mulheres, Temos ainda o Diário de Nave-
andam todos completamente gação de Pero Lopes de Souza, que,
nus e nem homens nem mulhe- em 1530, veio ao Brasil na Primeira
res cobrem as partes vergo- Expedição Colonizadora, coman-
nhosas, afora em alguns dias dada por seu irmão, Martim Afonso
festivos em que uns pintam os de Sousa. Aí se acrescentam, aos
corpos de várias cores, outros relatos anteriores, outras observa-
cobrem-se, depois de ter untado ções sobre os habitantes do Sul,
o corpo, com penas de aves de muito mais tristes e desconsolados
cores variadas e os restantes que os demais.
atam ao corpo grandes penas Para não nos alongar na citação
à maneira de aves. Os homens dos documentos referentes aos
são de cor parda, de cabelos habitantes do Brasil no século X V I
negros longos e corridos, não (25), vamo-nos ater apenas a três:
crespos como o dos Ktlopes, Viagens ao Brasil, de Hans Staden,
posto que habitem no mesmo publicado em 1557, na cidade de
paralelo, de estatura pequenos, Marburgo, Alemanha; Tratado da
tendo buracos no queixo e Terra e Gente do Brasil, de Femão
além disso diversos na face Cardin, escrito em fins do século
onde colocam pedras e ossos X V I , mas publicado, pela primeira
a título de omatos. Todos os vez, em 1625, na coleção de Samuel
homens são imberbes e às Purchas e, finalmente, Derrotero
mulheres arrancam-lhes os General de l a Costa dei Brasil, de
pelos mas alguns trazem uma Gabriel Soares de Souza (Manus-
barba p i n t a d a . . . " (24). crito dei siglo X V I ) .

(23) Cír. T b e r e s i n h a de C a s t r o , História (25) C f r . a i n d a , José de A n c h l e t a e os


D o c u m e n t a l do B r a s i l , D i s t r i b u i d o r a primeiros aldeamentos n a B a h i a , N ó -
B e c o r d , R i o , 1968, p. 18-26.
brega e João R a m a l h o , I n T h e r e s i n h a
(24) O l r . V a l e n t i m F e r n a n d e s . A t o Notorial, de C a s t r o , op. c l t . , p. 53-57.
I n T h e r e e l n l i a de C a s t r o , op. c l t . , p.
31-32.

219
o livro de Hans Staden compre- O mesmo, quanto à caça e à pesca.
ende principalmente o resultado de Quando devastam u m lugar, m u -
suas observações durante o tempo dam-se para outro. Cada aldeia
em que ficou prisioneiro entre os possui um certo número de caba-
Tupinambá, localizados entre São nas, que raramente vão além de
Vicente e Rio de Janeiro. As obser- sete. Em cada cabana mora um
vações de Hans Staden, portanto, certo número de famílias, possuin-
se reduzem aos Tupinambá. do cada casal u m certo espaço, com
ASPECTO EXTERIOR: "É fogo próprio. No espaço interior,
uma gente bonita de corpo e entre uma cabana e outra, está o
de feição, tanto os homens lugar para a matança dos prisio-
como as mulheres iguais à neiros. Em tomo do agrupamento
gente daqui; somente são quei- costumam construir cercas de pau-
mados do sol, pois andam todos a-pique, feitas de troncos rachados
n u s . . . , desfeiam-se com p i n - de palmeira.
t u r a s . . . , arrancam a barba O fogo obtém-se por fricção.
pela r a i z . . . , fazem furos na Dormem em redes de fios de
boca e nas orelhas... e se algodão. Não gostam de sair à
enfeitam de penas..." noite para satisfazerem suas ne-
Os nomes provisórios são de cessidades, por medo ao diabo a que
animais ferozes, que conservam até chamam ingange (anhangá, o ser
matar u m inimigo. Cada u m errante).
recebe os nomes dos inimigos que Alimentam-se de caça, pesca e
matar. mandioca. Como tempero usam sal,
"As mulheres pintam-se por embora algumas tribos o desco-
baixo dos olhos e por todo o nheçam, e pimenta. Usam uma
corpo, do mesmo modo que os bebida feita de mandioca, fermen-
homens. Deixam crescer os tada em grandes potes.
cabelos e não têm enfeites COSTUIVIES. "Não têm regime
especiais..." especial, nem justiça. Cada cabana
"Seus nomes são de pássaros, tem u m chefe, que é o seu principal.
peixes e frutas. Recebem o Geralmente é alguém que se dis-
nome dos escravos que seus tinguiu na guerra e por isso é mais
maridos matarem". Dão à luz ouvido do que outro, quando se
sem parteira. O primeiro que trata de novas guerras. No mais,
estiver perto, homem ou m u - não vi direito algum especial entre
lher, as açode logo. Carregam eles, senão que os mais moços pres-
seus filhos às costas, envol- tam obediência aos mais velhos...
vidos em panos de algodão e Prestam obediência também aos
assim com eles trabalham." chefes das cabanas, e o que estes
Vamos continuar com a descri- mandarem fazer, executam sem
ção de Hans Staden, porém resu- constrangimento nem medo e so-
mindo-a, embora com o cuidado de mente por boa vontade".
ser o mais fiel possível. A maior parte deles tem uma só
MORADIA E ALIMENTAÇÃO. mulher; outros têm mais. Mas
Suas cabanas são situadas onde a alguns dos seus principais têm 13
água e a lenha não fiquem longe. ou 14 mulheres. "Contratam os

220
casamentos de suas filhas, ainda lhes pede. Cada qual quer que esse
crianças, e logo que elas se fazem poder venha para o seu chocalho;
mulheres, cortam-lhes o cabelo da faz-se uma grande festa, com be-
cabeça, riscam-lhes nas costas bidas, cantos e adivinhações e pra-
marcas especiais e lhes penduram ticam muitas cerimônias singulares.
ao pescoço uns dentes de animais Depois marcam os adivinhos u m
ferozes". Quando o cabelo estiver dia para uma cabana que m a n -
crescido e as Inclsões, cicatrizadas, dam evacuar, e nenhuma mulher
entregam as filhas a quem as deve nem criança pode ficar lá dentro.
possuir, sem outra cerimônia espe- Ordenam em seguida que cada um
cial. .. "Homem e mulher procedem pinte o seu tammaraka de verme-
decentemente e fazem seus ajun- lho, enfeitando-o com penas, e o
tamentos às ocultas". mande para eles lhe darem o poder
'Não há divisão de bens entre de f a l a r . . . " Uma vez todos reuni-
eles... suas riquezas são penas de dos procede-se aos ritos com pre-
pássaros e quem tem muitas é que sentes, defumação, voz simulada,
é rico. Quem traz pedras nos lábios, exortação para a guerra, etc. Mal
entre eles, é u m dos mais ricos. o Pajé tem transformado em ídolos
Cada casal tem sua plantação de todos os chocalhos, toma cada qual
raízes..." o seu: chama-o seu filho e lhe
A sua maior honra é prender e levanta luna pequena cabana, na
matar muitos Inimigos... O mais qual deve ficar. Dá-lhe comida e
nobre entre eles é aquele que conta lhe pede tudo que precisa, t a l
mais nomes desta espécie. como nós fazemos com o verdadeiro
CRENÇA. "Têm a sua crença em Deus. São estes os seus deuses.
um fruto que cresce como abóbora
e do tamanho de u m pote (cabaça). É interessante observar, a essa
Oco como é atravessam-lhe um pau. altura, que os jesuítas, mais tarde,
vão continuar pensando que os
Fazem-lhe depois u m orifício à
índios não tinham religião nem
guisa de boquilha e lhe deitam umas
ídolos. Mas, apesar do que foi dito
pedrinhas dentro, para que choca-
acima, parece que também Hans
lhe. Com isso tangem quando can-
Staden não estava muito seguro,
tam e dançam e lhe chamam pois afirma:
TAMMARAKA" (Tamaracá). É um
instrumento só dos homens e cada "Com o Deus verdadeiro, que
criou o céu e a terra, eles não
um tem o seu. "Há entre eles
se importam e acham que é
alguns indivíduos a que chamam
coisa muito natural que o céu
Paygi (Payé, pajé) e que são tidos
e a terra existam. Também
por adivinhos. Estes percorrem uma
nada sabem de especial do
vez por ano o país todo, de cabana começo do mundo. Dizem que
em cabana, asseverando que têm houve, uma vez, uma grande
consigo um espírito que vem de enchente em que se afoga-
longe, de lugares estranhos e que ram todos os seus ante-
lhes deu a virtude de fazer falar passados e que alguns se sal-
todos os tamaracás que eles queiram varam em uma canoa, outros
e o poder de alcançar tudo que se em árvores altas, o que eu

221
penso deve ter sido o dilúvio" aconteceu já muitas vezes; não
(26). no adoram; nem a alguma
O Pe. Femão Cardin, no seu outra criatura, nem têm ídolos
pequeno trabalho intitulado "Do de nenhuma sorte, somente
Principio e Origem dos índios do dizem os antigos que em alguns
Brasil", escrito em 1584, emite uma caminhos têm certos postos,
opinião muito semelhante a res- onde lhe oferecem algumas
peito da religião dos índios, embora coisas pelo medo que têm
com alguns pormenores esclarece- deles, e por não morrerem.
dores. Começa com a noticia do Algumas vezes lhe aparecem os
dilúvio: diabos ainda que raramente, e
entre eles há poucos endemo-
"Este gentio parece que não ninhados".
tem conhecimento do princípio
do mundo, do dilúvio parece "Usam de alguns feitiços e
que tem alguma n o t i c i a . . . feiticeiros, não porque creiam
porque dizem que as águas neles, nem os adorem, mas so-
afogaram e mataram todos os mente se dão a chupar em suas
homens, e que somente u m enfermidades, parecendo-lhes
escapou em riba de vmx Jani- que receberão saúde, mas não
papa, com uma sua irmã que por lhes parecer que há neles
estava prenhe, e que destes divindade, e mais o fazem por
dois têm seu princípio, e que receber saúde, que por outro
dali começou sua multiplica- respeito" (27).
ção." • ,) Segue a narração de Cardin,
falando dos feiticeiros, a que cha-
"Este gentio não tem conhe-
mam Caraíba, Santo ou Santidade.
cimento algum de seu Criador,
Este costuma realizar algumas
nem de coisa do Céu, nem se
coisas estranhas como ressuscitar
há pena nem glória depois
um vivo que se faz de morto:
desta vida, e portanto não tem
adoração nenhuma nem ceri- "Traz após si todo o sertão
mônias, ou culto divino, mas enganando-os e dizendo-lhes
sabem que têm alma e que esta que não rocem, nem plantem
não morre e depois da morte seus legumes, e mantlmentos,
vão a uns campos ondte há nem cavem, nem trabalhem,
multas figueiras ao longo de etc, porque com sua vinda é
um formoso rio, e todas juntas chegado o tempo em que as
não fazem outra coisa senão enxadas por si hão de cavar, e
bailar; e têm grande medo do os panicus ir às roças trazer
demônio, ao qual chamam os mantlmentos..." (28).
Curupira, Taguaigba, Maca- Esta "santidade" deveria desem-
chera, Anhanga, e é tanto o penhar u m papel muito importante
medo que lhe têm, que só de entre os índios, pois todos os t r a -
imaginarem nele morrem, como tadistas da época a ela se referem

(26) H a n s S t a d e n , V i a g e n s ao B r a s i l , versfto e G e n t e do B r a s i l (Introduçfto e Notas


do texto de Marpurgo, de 1557, por de B a p t l s t a C a e t a n o , C a p l s t r a n o de
A l b e r t o Lôfgren, Ofílclna I n d u s t r i a l Abreu e Rodolpho Garcia), Editores J .
G r a p h l c a , R i o , 1930, p. 131-170. L e i t e & C i a . , R i o , 1925, p. 161-182.
(27) Cír. P e m a o C a r d l m , T r a t a d o d a T e r r a (28) I d e m , p. 163.

222
com abundância de dados, acen- pelos Tupinambá, Caeté, Tupinl-
tuando sua pregação Itlnerante e quim, Tamoio, Carijó, etc. Nomeia
embustelramente messiânica. ainda várias "nações tapuias", cha-
O Padre Cardin trata ainda da mando à atenção para eventuais
recepção chorosa dos hóspedes; dos particularidades n a moradia, ves-
casamentos; modo de comer, beber, tuário, língua, etc. Assim conclui:
vestir e dormir; moradias; amor "Todas estas setenta e seis
extremado aos filhos; vicio do nações de Tapuias, que têm as
fumo; colaboração nos trabalhos mais delas diferentes línguas,
agrícolas — mutirão; enfeites; são gente brava, silvestre e
bailes e cantos; recursos lúdicos indômita, são contrárias quase
das crianças; luto e sepultamento; todas do gentio que vive n a
Instrumentos de trabalho e armas costa do mar, vizinhos dos
de guerra. Portugueses: somente certo
O grande observador, que foi Car- gênero dos Tapuias que vivem
din, fala das várias etapas e ritos no Rio São Francisco e outros
em que se desdobravam as cerimô- que vivem mais perto são ami-
nias solenes da matança dos i n i m i - gos dos Portugueses, e lhes
gos. Vê-se, então, que a temida fazem grandes agasalhos quan-
antropofagia não era uma forma do passam por suas terras.
macabra de alimentação, mas, an- Destes há muitos cristãos que
tes, u m modo refinado de vingança, foram trazidos pelos Padres
ao qual, com freqüência, estava do sertão, e aprendendo a lín-
ligada a iniciação dos nossos guer- gua dos do mar que os Padres
reiros que, com o efeito adquiriam sabem, os batizaram e vivem
um nome e, em multas tribos, a muitos deles casados nas a l -
aptidão para se t o m a r marido. deias dos Padres, e lhes servem
Tudo decorria em meio a cantos, de intérpretes para remédio de
danças e bebedeiras, com a parti- tanto número de gente que se
cipação ativa de todos os membros perde, e somente com estes
da aldeia. Cada u m desempenhava tapuias se pode fazer algum
um papel determinado. Também a fruto; são por serem muito
came era distribuída de acordo andej os e terem muitas e dife-
com u m certo critério. A vítima rentes línguas dificultosas. So-
era tratada com certas regalias e mente fica u m remédio, se
sua maior preocupação era morrer Deus Nosso Senhor não desco-
como valente, desejando que seus brir outro, e é havendo às mãos
amigos se vinguem de sua morte alguns filhos seus aprenderem
mais tarde (29). a língua dos do mar, e servin-
do de intérpretes fará algum
O tratado de Cardin inclui tam-
fruto ainda que com grande
bém uma lista das tribos até então
dificuldade pelas razões acima
conhecidas. Dez delas falavam pra-
ditas e outras muitas" (30).
ticamente a mesma língua. Era
Gabriel Soares de Sousa, autor
com estas que os jesuítas m a n t i -
do "Derrotero General de la Costa
nham comunicação. Começa com
dei Brasil", é, talvez, o escritor mais
os Potiguara, da Paraíba, passa
(29) I d e m , p. 181-194. (30) I d e m , p. 205-206.

223
pormenorizado e completo de todos nascidos y doctrinados por loa
aqueles que, no século X V I , t r a t a - FP. de la Compania adoran a
ram das coisas do Brasil. Assim o Dios Naestr» Sefior ni guardan
consideraram Varnhagen, Oliveira verdad y leattad a ninguna
Lima, Calógeras, Rodolfo Garcia, Persona que les haga bien.
Afrânlo Peixoto, Pirajá da Silva, Si no tienen L em su pronun-
José Honório Rodrigues e outros. ciacon es por no tener Ley
O livro aqui indicado permaneceu alguna que guardar ni pre-
inédito até o século X I X , quando ceptos para govemarse, sino
Varnhagen o publicou em portu- aquella que quiere el antojo y
guês. Estamo-nos servindo da 1." capricho de cada uno: No
edição do manuscrito espanhol, tienen R grande o dobrada en
encontrado na Biblioteca de Madrid su pronunciación, porque no
por Cláudio Gauns, em 1955. O tienen Rey que los rija y a
livro abrange as "Memórias" His- quien obedezcam, n i guardan
tórico-Cosmográficas, que estão subordinacion a nadie ni aun
distribuídas em 74 capítulos e los Padres a los hijos, sino que
"Memória y Declaraclon de Ias cada uno vive a su modo
Grandezas de la Bahia de todos los g u s t o . . . " (32).
Santos, su fertilidad y notables "Son los Tupinambas tan
partes", com 193 capítulos. A maior luxuriosos, que no hay torpeza
parte das observações do autor não que no cometan, pues de ttema
interessa aos fins deste trabalho. edad, ya se dan a mugeres e
Algumas, porém, merecem registro, muy mugeres; porque Ias viejas
porque completam as opiniões dos desestimadas ya y repudiadas
autores até agora citados: de los hombres grangean a'
" . . .No adoran deidad alguna estos nlfios com regales y mimo
ni tienen conocimiento dei ensenandoles a hacer Io que
verdadero Dios, solo si saben ellos no saben, sin dejarlos de
que hay vida y muerte: Cre- dia n i de noche..." (33).
ense quanto les dicen, de suerte Gabriel Soares, que era Senhor de
que son la Gente mas barbara Engenho e possuía muitos escra-
y estolida que Dios h a criado: vos índios, certamente terá consta-
Tienen mucha gracia para h a - tado pessoalmente a capacidade do
blar, especialmente Ias muge- índio em aprender as artes mecâ-
res: son muy compendiosas y nicas, pois nesse ponto não lhes
muy copiosas em su orar; pero poupa elogios e chega a considerá-
f altanles tres letras dei Abece- los aptos para a Ordem Francis-
dario, que son F , L y R grande cana:
o dobrada, cosa a la verdad "Son hombres enxutos muy
muy notable, porque si no tie-
ligeros para correr, y saltar,
nen F es porque no tienen Fe
extremados marlneros pues
en Deidad alguma, ni aon los
puestos en Navios, o Canoas
navegan que hacen bolar los
(31) G a b r i e l Soares de S o u z a , Derrotero
G e n e r a l de l a C o s t a d e i B r a s i l y M e - barcos: Aprenden qualquiera
m o r i a l de Ias G r a n d e z a s de B a b i a
(Mamiscrito dei Siglo X V I ) , Edlciones cosa que les enseftan los blan-
de C u l t u r a Hispânica, M a d r i d , 19S8, p.
240. (32) I d e m , p. 242.

224
COS como no sean cosas de e a sua utilização para significar
cuentas e sentido, porque para a noção de Deus foi apressada e
esto son muy toarbaros... Su incorreta. As pesquisas de Metraux
condicien es buena para Frayes ressaltam que Tupã nada mais era
Franciscanos, pues quanto tie- do que uma entidade mítica dos
nen es Gomun a todos los que Tupinambá, u m personagem de
qnieran u s a r . . . " (34). segunda categoria que, em sucessi-
Praticamente não usamos outras vas transformações, passou a obje-
fontes para caracterizar os índios to de nenhum culto. Além disso,
da costa do Brasil, no primeiro conforme assinala Artur Ramos,
século do descobrimento, senão sua área de discriminação parece
documentos da época. Bem sabe- ter sido restrita. Foi uma criação
mos que estudos recentes reforma- dos Tupi das costas do Brasil e dos
Guarani do Paraguai. As pesquisas
ram muitas daquelas observações
de Nimuendajú entre os Apopo-
ingênuas dos cronistas e historiado-
cuva-Guarani modernos mostram
res do passado. Acontece que o
que estes índios atribuíam a Tupã
relacionamento do civilizado com
um papel análogo ao do mito de
os Índios, principalmente através
Thevet, cronista francês, que esteve
da ação missionária, se baseava
no Rio com Villegaignon, sobre
naqueles pressupostos, já que não
cuja obra Metraux se baseou (35).
lhes era possível, na época, empre-
ender estudos mais científicos. Outro ponto a salientar é a
Acresça-se a isto o fato de que o crença dos Tupi-Guaranl n a exis-
trabalho dos etnólogos modernos tência da terra sem mal ou "da
são também baseados nesses rela- terra onde não se morre". Em suas
tos, como é o caso de Metraux, em migrações os Tupi-Guaranl dizem
seu livro "La religion des T up i - ir à procura de uma "terra onde
nambá et ses rapports avec celle não se morre".
des autres tribus Tupy-Guarani", Diz ainda Artur Ramos que òs
publicado em Paris em 1928. Guarani modernos vivem sempre
Mais tarde, quando os jesuítas na expectativa da próxima des-
empreenderam a catequese do Nor- truição do mundo, com o pensa-
te do Brasil, ou então, organizaram mento voltado para " a terra sem
as famosas missões do Paraguai, m a l " (36).
muitas outras características se- Estes elementos até aqül apre-
riam ainda descobertas no proceder sentados são já suficientes para se
ordinário dos indígenas, bem como tomar uma imagem aproximada,
algumas impressões apressadas de embora bastante incompleta, dos
primeira hora, modificadas. costumes, crenças, qualidades e de-
Üma correção importante que, feitos do grupo étnico, com o qual
contudo, precisa ser feita é a res- a Igreja desenvolveu a sua mais
peito do lugar de Tupã, na cosmo- intensa atividade evangelizadora,
gonia dos Tupi. A interpretação durante todo o período correspon-
que os jesuítas fizeram desse termo dente à fase Colonial.
(33) I d e m , p. 246. Estudos Brasileiros), Livraria Edit. da
(34) I d e m , p. 249. C a s a d o E s t u d a n t e Oo B r a s U , R i o ,
(35) C f r . A x t h u r R a m o s , Introdução à 1951 (2.a ed.), p. 86-87.
A n t r o p o l o g i a B r a s i l e i r a , v o l . I (Ool. (36) M e m , p. 99.
Vejamos agora os principais t r a - 20 de março de 1570 veda a escra-
ços do numeroso grupo dos africa- vidão dos índios, salvo em guerra
nos para cá trazidos como escravos, justa, feita com licença do Gover-
que, apesar de todas as condições nador. Ainda, em 1594 imia outra
-adversas criadas por essa institui- lei estabelecia que a natureza de
ção abominável, constitui hoje u m guerra justa só poderia ser definida
dos três pilares principais, sobre os por provisão particular de El-Rel.
quais, bem ou mal, se articula a Naturalmente que a mera publica-
integração social do povo brasileiro, ção desses documentos não acar-
integração essa entendida aqui em retava u m cumprimento pleno de
seus aspectos mais humanos, aquela suas prescrições. Basta lembrar
que consegue subsistir, mesmo à que, no século seguinte, os jesuítas
revelia das desigualdades chocan- foram expulsos quatro vezes do
tes, geradas pela estratificação Estado do Maranhão (na época
multissecular de uma estrutura de separado do resto do Brasil), por
injustiças e desumanidades. quererem fazer cumprir as leis em
defesa dos índios. De qualquer
I I . 3. — O NEGRO ESCRAVO E forma, porém, os Senhores de en-
SUAS CRENÇAS genho não encontravam sempre o
caminho desimpedido para realizar
Logo que se proclamou a Repú- seus propósitos predatórios. Além
blica, o Ministro da Fazenda, Rui do que, seja em decorrência das
Barbosa, movido, conforme Gilberto contínuas guerras, seja por causa
Freire, por motivos ostensivamente das doenças contraídas em contato
econômicos, mandou queimar os com o branco, seja, ainda, pelas
arquivos da escravidão (Cfr. Cir- freqüentes fugas para o sertão, o
cular n.° 29, de 13 de maio de 1891, certo é que, nas vizinhanças do
do Ministro da Fazenda). Com Litoral, a presença do índio foi-se
isso, o trabalho dos pesquisadores tornando cada vez mais rara. U m
se tomou muito difícil. documento jesuítico de 1611 diz
O recurso à escravidão negra se que "as 40.000 almas que houve nas
consolidou no Brasil tão logo os aldeias da Bahia estavam reduzidas,
colonizadores portugueses percebe- em 1592, a 400".
ram não ser possível apoiar-se com Diante de tais fatos e conside-
segurança na colaboração do t r a - rando que a escravidão dos a f r i -
balho indígena para o bom êxito da canos já pertencia aos costumes
florescente e rendosa lavoura da portugueses, mesmo antes do des-
cana-de-açúcar. cobrimento do Brasil (37), nem se
Os índios, além de resistirem às chegou a discutir a sua legitimi-
exigências do trabalho árduo e dade: foi só alguém começar, para
monótono dos engenhos, contavam o exemplo passar a ser seguido por
com a enérgica proteção dos mis- todos aqueles que dispunham de
sionários jesuítas, que iam conse- algum capital, sem excluir, natu-
guindo do Rei de Portugal leis cada ralmente, o clero e as ordens reli-
vez mais restritivas ao seu cati- giosas, jesuítas inclusive.
veiro. Já em 1565 se proíbe o cati- (37) E m 1541 Daml&o de Góls e s t i m a v a
e m d e z òu doze m U os escravos e n -
veiro do Tupinambá. Uma lei de t r a d o s e m P o r t u g a l d e Nlgúcla.

226
Os primeiros escravos provinliam Os escravos maometanos que vie-
da Guiné e o próprio rei tomou a ram para o Brasil receberam a
iniciativa de mandá-los em seus denominação geral de "Muculml"
navios. Em seguida, muitos arma- ou "Malê", na Bahia, e "Alufé", no
dores se especializaram no tráfico Rio de Janeiro. Na verdade, essa
que ia encher os engenhos do Brasil denominação encobria vários gru-
de escravos, provenientes de vários pos distintos, tais como os M a n -
pontos da África. dinga, os Fula, os Haussá e outros.
Vieram sudaneses; angolanos; Deixando de lado as características
bantus; minas; nagôs; daomanos; próprias de cada grupo, vamo-nos
fulas; haussás; mandlngos e muitos fixar apenas no elemento religioso
outros. Segundo Gilberto Freire comum:
que, para isso, se apoia em vários "O Islamismo dos Negros
outros estudiosos do assunto, tais Males do Brasil sempre esteve
como Nina Rodrigues, salienta que eivado de práticas religiosas
a colonização africana no Brasil se africanas, fenômeno que se
fez principalmente com elementos iniciou no próprio Sudão. Ado-
bantus e sudaneses: Gente de áreas ravam Alá, Olorum-Uluá (sln-
agrícolas e pastoris, sendo "os suda- cretlsmo de olorum dos lomba
neses da área ocidental, senhores e Alá) e Mariana (a mãe de
de valiosos elementos de cultura Deus)" (40).
material e moral, próprios uns e Não admitiam cultos de imagens
outros adquiridos e assimilados dos ou ídolos como os outros Negros
maometanos" (38). Sudaneses. "No entanto, não se
Estes súditos de Alá tiveram, separavam dos seus talismãs ou
mais tarde, bastante influência mandingas e sempre foram tidos
política e religiosa entre os negros como feiticeiros ou mandingueiros"
do Brasil. Por detrás de várias (41). Seus sacerdotes exerciam
revoltas de escravos vamos encon- uma ilimitada influência sobre os
trar os sudaneses maometanos. O adeptos. Chamavam-se alufás e o
movimento de 1835, na Bahia, foi principal deles, lemano ou Umajio
lun destes. Nesta época, os ambien- (corruptelas de El iman).
tes escravos de lá experimentavam
As práticas litúrgicas constavam
um grande ardor religioso. Escra-
de vários atos: a reza (salah); a
vos conhecedores do Alcorão ousa-
circunscisão (kola) praticada quan-
vam mover oposição à religião de
do o menino atingia os doze anos;
Cristo dos Senhores da Casa Gran-
de: "Faziam propaganda contra a o jejum anual (assumy), que coin-
missa católica dizendo que era o cidia com a festa do Espírito Santo
mesmo que adorar pau e aos rosá- dos Católicos e durava toda uma
rios de Cristo com a cruz de Nosso lunação, seguindo 60 dias de des-
Senhor, opunham os seus de cin- canso e mais 10 de penitência.
qüenta centímetros, noventa e nove Substituíam a impossível peregri-
contas de madeira, terminando com nação a Meca, pela celebração do
uma bola em vez de cruz" (39). "bairam", quando sacrificavam u m
(38) G U b e r t o F r e i r e , C a s a G r a n d e e S e n - (39) I d e m , p. 520.
z a l a , v o l . I I , cír. s u p r a n o t a 16, p. 519. (40) A. R a m o s , op. c l t . , p. 329.
(41) I b l d e m .

227
cordeiro, terminando a cerimônia intermediárias (orixás), uma teo-
com u m "salah" público (42). ria de sacerdotes e sacerdotisas de
Convém notar ainda a recitação culto, u m cerimonial altamente
diária do "tecebá", espécie de r o - organizado..." (45).
sário contendo três séries de 33 Seria prolongar demais, citar
contas cada uma. Na primeira aqui a interminável lista de orixás
série repete-se 33 vezes a prece com suas funções e origem. Con-
"sub anaJai" (sub an Allah) — "eu vém apenas salientar que n a se-
invoco o nome de Deus"; na segun- rlação dos deuses iorubas Olmrum
da série a oração é: " a l hamudu está em primeiro lugar. Seu nome
l i l a i " (al handom i l Allah) — " a quer dizer "Senhor do Céu" ou
graça de Deus"; na terceira série, "Mestre do Céu", conforme a expli-
se diz: "Allah akabaru" (Allah cação do missionário Bowen. Não
ekber) — "Deus é Grande" (43). é figurado por nenhum objeto con-
Os males eram austeros em seus creto de culto. No Brasil, apenas
hábitos, embora polígamos. O sobreviveu de Olorum o nome, em
status social da mulher era infe- algumas formas verbais. Há, entre-
rior. tanto, entre os loruba outros nomes
Não obstante, porém, o estágio para indicar o Deus Supremo, tais
mais desenvolvido em que se apre- como Eleda, "o Senhor da Criação",
sentava a religião dos males, hoje, Alaye, "o Senhor da Vida", Oldu-
apenas podem se notar traços dela maré, "o Todo-Poderoso", Elemi, "o
diluídos nas práticas gege-nagôs ou Espírito", etc. (46).
bantus das macumbas e candomblés Dos orixás, merece destaque
do Rio, da Bahia e de outros pontos lemanjá, que correndo horrorizada,
do Brasil (44). depois de violentada por seu pró-
A religião da maioria, aquela que prio filho, Orungan, caiu no chão
mais tarde se corporificaria no de costas. Seu corpo, então, dila-
candomblé, no xangô, na macumba tou-se e de seu ventre rompido
e, mais recentemente, forneceria os saíram vários orixás, entre os quais
elementos básicos para a formação muitos atualmente sobressaem nos
da umbanda e da quimbanda (for- cultos afro-braslleiros, atingindo
mas religiosas que hoje se propa- uma importância maior, em alguns
gam com muita rapidez na periferia casos, do que na Nigéria, terra
dos grandes centros urbanos, j u n t a - donde provieram os loruba. Por
mente com as seitas pentecostais), exemplo: Dada, deus dos vegetais;
era uma religião de fundo animista. Xangô, deus do trovão; Ogum, deus
Cada grupo, no entanto, apre- da guerra, Oxóssi, deus dos caça-
sentava suas cosmogonias e uma dores... (47).
estrutura religiosa com caracterís- No Brasil, a figura de lemanjá
ticas próprias. é celebrada de Norte a Sul em
a) Os lORUBA. Os loruba (ou várias datas e sob denominações
Yoruba), conforme Artur Ramos, diversas: Janaina, Mãe D'água,
"possuem uma mitologia complexa, Rainha do Mar, Princesa do Mar.
um panteão de deuses principais e O culto de lemanjá no Brasil con-
(42) I d e m , p. 330-331. (45) I d e m , p. 257.
(43) I d e m , p. 330. (46) I b l d e m .
(44) I d e m , p. 332. (47) I d e m , p. 280.

228
fl^iiu com o das Sereias dos euro- Diz Artur Ramos que as práticas
peus e das laras ameríndias. religiosas — o culto dos deuses,
üma consideração mais completa cerimônias de iniciação, categorias
da religião do grupo Nagô em nosso sacerdotais, os fenômenos de pos-
nieio deveria estender-se, u m pouco sessão... têm muita analogia com
i6ais, na caracterização dos sacer- as práticas do grupo loruba e
dotes " p a i " e "mãe de saíito", daomeano, com os quais devem
cerimônias, sacrifícios e "ciclo ter-se assimilado já que as so-
lltúrgico". .. .Contentemo-nos com brevivências culturais dos Fanti-
o registro desses poucos dados Ashanti, no Brasil, são insignifi-
religiosos, suficientes para indicar cantes (49).
a complexidade do assunto, p r a t i - d) OS BANTÜ. Nesta rápida
camente ignorado pelos "evangeli- lista dos "stocks" africanos vindos
zadores" das Senzalas e Casas para o Brasil, não poderia faltar
Grandes. Passemos a outro grupo. o importante grupo dos BANTU,
b) O GRUPO GEGE. U m outro cujas marcas estão bem vivas em
grupo importante, embora os traços vários setores da vida sóclo-cultu-
de sua cultura tenham sido absor- ral brasileira: instrmnentos musi-
vidos pelo Nagô, foi o que procedia cais (cuíca, berimbau, tambores dç
do Daomé, conhecido entre nós sob jongo); folguedos, disfarçando a n -
0 nome de Gege. tigas organizações clâmicas (cor-
Sua religião apresentava aspectos dões, ranchos, clubes carnavalescos,
semeUuintes aos do grupo loruba, confrarias negras, biunba-meu-boi,
representado pelo Nagô. Hoje, so- maracatu); sobrevivências políticas
brevive principalmente no Haiti, nas festas populares do Congo, com
sob a denominação de vodum ou coroações de reis e de r a i n h a s . . .
vodu. Aqui, nem a palavra teve Os quiloml>os, formas históricas de
algum sucesso. Mas o culto de agremiações de negros fugitivos,,
Qan ou Dangbé, a serpente sagrada têm nos Bantu seus principais
dos daomeanos, deixou algumas organizadores. Faimares, o qui^
reminiscênclas na Bahia, como pôde lombo mais importante que existiu
observar Artur Ramos (48). por aqui reflete "uma desesperada
c) OS NEGROS MINA. Outro tentativa da parte dos Negros bra-
grupo, o dos Negros Mina, repre- sileiros, de reconstituição das suas
sentando a cultura fauti-ashanti, culturas perdidas, num trabalho
procedente da Costa do Ouro, veio que em nomenclatura recente se
em Inúmero avultado para o Brasil, denomina de "reação contra-acul-
nos séculos X V I I e X V I I I e em turativa" ou "contra-aculturação"
meados do X I X . (50). O mesmo se diga dos demais
quilombos.
No Sul, essa denominação era
usada para indicar os escravos Sob o ângulo religioso, a influên-
n&o-bantus, de origem sudanesa, cia foi profunda, embora hoje seus
englobando, portanto, além dos traços característicos se encontrem
Mina propriamente ditos, os Nagô ámalgamados às culturas religiosas
e Qs Gege. de outras procedências africanas,
(48) I d e m . p. 304. (49) I d e m , p. 309.
(50) I d e m , p. 360.

229
bem como aos cultos ameríndios e "Há grupos de santos e espíritois
europeus. Foi o etnólogo e sociólogo que surgem em falanges. Estas
Artur Ramos, o primeiro a Identi- pertencem a várias nações ou
ficar as procedências bantus para linhas. Tanto mais poderoso é o
a maior parte das macumbas do sacerdote quanto maior é o número
Rio de Janeiro, para algumas da de linhas em que trabalha" (53).
Bahia e de outros pontos do País. As "linhas" refletem a composição
sincrética da macumba, pois os
O grande deus de Angola, LAMBI
santos católicos, os espíritos " k a r -
ou NZAMBI, sobreviveu nas ma-
decistas" e os orixás sudaneses
cumbas brasileiras, com os nomes
aparecem em seus terreiros ou
de Zambi, Ganga Zumba e Gana
"centros". Há a linha da Costa, a
Zona. O zambl-ampungu do Congo
linha de Umbanda, a linha de Mina^
tomou-se menos reconhecível, de-
de Cabinda, do Congo, linha de
turpando-se nas formas ziunbia-
Angola, linha de Omolocô, linha
pongo, zumbuipombo, zampiapimgo,
muçuruman (Cfr. muçulmi, muçul-
zamiapombo... (51).
m a n o . . . ) , linha das almas, etc.
"O grão-sacerdote de Angola, o
Quimbanda, passou ao Brasil com As cerimônias, as vestes, a dispo-
os nomes de Quibanda, Quimbanda, sição dos terreiros, são menos
Umbanda, Embanda e Banda (do complexas do que nos candomblés
mesmo radical ubanda), signifi- gege-nagôs, embora atualmente
cando ora feiticeiro ou sacerdote, possuam já uma espécie de "litera-
ora lugar de macumba ou o próprio tura teológica" e uma hierarquia
r i t u a l " (52). A esta altura, é bom organizada, com suas sessões de
acentuar que o termo umbanda, conselhos e curas.
derivado de "ki-mbanda", tomou, Esse apanhado geral sobre o
no Brasil, o significado geral da substrato religioso trazido pelos
própria religião dos Negros no Rio escravos, substratos que continua
de Janeiro. Sob essa denominação, emergindo"; através das fendas de
nas últimas décadas, uma forma uma crosta católica postiça, mesmo
religiosa sincrética, onde estão pre- nos nossos dias secularizadüs, já é
sentes elementos derivados do bastante para nos fazer suspeitar
Catolicismo, do espiritismo, dos de que a iniciação superficial e
cultos ameríndios, sem falar da compulsória dos tempos coloniais,
contribuição dos grupos sudaneses, talvez nunca tenha conseguido
alastra-se eom grande rapidez pelas traduzir-se para os pretos, em u m
cidades brasileiras, competindo em verdadeiro trabalho de evangeli-
crescimento apenas com o das zação. Havia, sim, pressão católica,
seitas pentecostais. mas dificilmente pode-se falar de
conversão que, mesmo quando
O que caracteriza a macumba de
acontecia, não podia ser devida-
origem bantu, segundo A. Ramos,
mente acompanhada pelos evange-
são os espíritos familiares, que
lizadores.
surgem encamando-se no Emban-
da, e que são a sobrevivência dos Para mostrar a força de sobre-
antepassados de Angola e Congo. vivência das formas religiosas dos
(51) I d e m , p. 362. (53) I d e m , p. 364.
(52) I d e m , p. 363.

230
africanos que para cá vieram, não estudado, para depois analisar o
obstante toda a pressão contrária papel que os sacramentos de i n i -
que a situação de escravo e o ciação desempenharam na progres-
ambiente católico circimdante lhes siva incorporação de toda essa
ia movendo, é interessante relem- gente, n a Igreja Católica.
brar aqui uma conclusão a que Veremos inicialmente as iniciati-
chegou o etnólogo Artur Ramos: vas pioneiras da primeira metade
"No exame desses resíduos cul- do século X V I . Depois aborda-
turais no Brasil, verificamos que, remos, separadamente, os Jesuítas,
enquanto os traços materiais de o Clero Secular e os Religiosos em
cultura quase se apagaram comple- geral.
tamente, apenas sobrevivendo em
alguns aspectos que vamos exami- III. 1. AS TENTATIVAS
nar, os traços não-materials prin- PIONEIRAS
cipalmente relacionados com a
cultura religiosa, se mantiveram
Há referências vagas, nos docu-
em alguns pontos com uma pureza
mentos da época, embora suficien-
quase absoluta" (54).
tes, confirmando a presença, de
alguns frades franciscanos e algims
i n — A IGREJA DO BRASIL- padres seculares, entre os primei-
COLÕNIA: SEUS IVUNIS- ros colonizadores, mesmo antes da

mos
vinda do primeiro Governador Ge-
r a l em 1549.
O Pe. Van der Vat, em seu livro
Ao chegarmos a esse ponto, de-
"Princípios da Igreja do Brasil",
pois de esboçar em rápidos traços
recolheu estas referências, pro-
as qualidades e defeitos do por-
curando, através de luna crítica
tuguês conquistador, depois de,
severa, redimensionar a importân-
mesmo através da ótica distorcida
cia da atuação desses pioneiros,
desse conquistador, ter delineado a
em alguns casos, bastante ampli-
figura do habitante das costas
ficada em decorrência das preo-
brasileiras e, seguindo os estudos
cupações competitivas de algun^
comparativos dos etnólogos moder-
cronistas (55). Com base nesse
nos, ter detectado as sobrevivências
trabalho, pode-se afirmar que ás
religiosas dos africanos, durante
franciscanos não só estiveram pre-
trezentos anos, já possuímos os ele-
sentes ao ato solene da tomada de
mentos básicos para avançar um
posse, em 1500, como também fo-
pouco mais no nosso trabalho.
ram os primeiros a missionar os
Neste capítulo vamos confrontar
índios e a derramar o sangue por
a organização e ação dos ministros
eles, como aconteceu com os "már-
eclesiásticos (os agentes da pas-
tires de Porto Seguro".
toral) com esse material humano,
tão diversificado culturahnente e A presença franciscana é assina-
tão desequlllbradamente situado no lada em várias épocas e em vários
contexto social do Brasil, até aqui lugares da Costa do Brasil (Porto
(54) I d e m , p. 273. F r e i O d u l f o V a n der V a t , O . F. M.,
(55) S o c a s o de F r e i Antônio de S a n t a Princípios d a I g r e j a n o B r a s U , Vozes,
M a r i a Jaboatfio, q u e e m 1761 p u b l i c o u Petrópolis, 1952, p. 52-53. I d e m , p .
o " N o v o O r b e Seráfico B r a s i U c o " . Cír. 183-187.

231
Seguro, Bahia, Santa Catarina...), I determinou de a povoar e
u m não se tratava de missões deu a todos os homens terras
organizadas, o que só viria aconte- para fazerem fazendas: e fez
cer mais tarde, e sim de expedições uma vila na ilha de São V i -
ocasionais, onde o zelo particular cente e outra 9 léguas dentro
de alguns frades encontrava campo pelo sertão, à borda de um
para se expandir. É bem verdade rio que se chamava Piratl-
que nem todos esses frades mere- ninga: e repartiu a gente
cem o epíteto de "avulsos". Houve nessas duas vilas e fez nelas
também algumas levas de francis- oficiais: e pôs tudo em boa
canos que vieram estabelecer-se em obra de justiça, de que a gente
solo brasileiro com o propósito toda tomou muita consolação,
formal e ordem expressa dos Supe- por verem povoar vilas e ter
riores de se dedicarem à catequese leis e sacrifícios, e celebrar
dos nossos "aborígenes" (56). Van matrimônios..." (59).
der Vat dá como certas três Em 1535, a paróquia de São
apenas: a dos protomártires de Vicente foi canonicamente ereta,
Porto Seguro, em 1518; a de Frei como prova a seguinte provisão
Bernardo de Armenda, em 1538, e, regia:
finedmente, a dos frades italianos, "Eu El-Rei. Faço saber a
em 1548 (57). vós meu feitor, da Capitania
Também há referências sobre a de São Vicente ao meu Conse-
atuação de clérigos seculares antes lho no Brasil, e a quem ao
de 1550. diante o dito cargo tiver, que
Nos depoimentos referentes a um eu passei u m alvará a t r i n t a
processo instaurado em 1539, contra dias de junho de 1535, por que
uma companhia francesa que, em houve por bem que na Igrej,a
1930, saqueara uma Feitoria em de São Vicente da dita capi-
Pernambuco, fala-se que, na fei- tania houvesse u m vigário e
toria destruída, além da fortaleza e quatro capelães, e que ao dltQ
de várias casas, havia uma igreji- vigário fosse pago em cada
nha em que "se celebravam os ano a custa de minha fazenda
oflcios divinos". Então, já em 1530, quinze m i l r e i s . . . " (60).
havia em Pernambuco uma igreja Sobre Pernambuco, há u m alvará
• sacerdotes (58). de 5 de outubro de 1534, falando
Com a expedição de Martim do ordenado que se deve pagar a
Afonso de Souza (1530) certamente " u m vigário e quatro capelães, que
vieram clérigos, como se pode de- ora vão para a igreja que se nova-
duzir do "Diário" de Pero Lopes mente ( = pela primeira vez) há
de Sousa, irmão e companheiro do de fazer na capitania do Brasil de
Capitão. Narra ele a fundação das que tenho feito mercê a Duarte
vilas de São Vicente e Santo André Coelho, fidalgo de minha casa...
da Borda do Campo, nestes termos: (61).
"A todos nos pareceu tão
bem esta terra que o Capitão (59) p.Cír. T h e r e z l n h a de C a s t r o , op. c l t . ,
45.
(60) Cír. Documentos Históricos, vol.
V a » d e r V a t , op. c l t . , p. 185-186. X X X V , B i b l i o t e c a N a c i o n a l , n i o , 1937,
(5?) p. 186. p. 73.
(58) I d e m , p. 194. (61) Cír. O. V a n der V a t , op. c l t . , p. 208.

23^
Em Igarâçu, povoação vizinha de nielo, do sistema colonial. O
Olinda, nimia Igreja dedicada a Brasil, naquele tempo, era
São Cosme e São Damlão (esta pouco conhecido no reino e
Igreja é hoje considerada a mais menos ainda prezado, de modo
antiga das ainda existentes daquela que não era tão fácil encontrar
época), onde o capitão Afonso quem desse o seu nome para
Gonçalves, escrevendo a el-rei, diz tal empresa. É de presumir,
ter tido sempre "um padre que é por isso, que resolviam embar-
obrigado a dizer missa e confessar car-se somente clérigos que na
a gente desta minha povoação e pátria não conseguiam colo-
isto tudo pago a minha c u s t a . . . " car-se convenientemente..."
Embora não seja ainda a ocasião, "O sistema fez com que,
é bom notar que o piedoso capitão praticamente, não passassem
não menciona na carta citada de funcionários públicos da
outra ocupação para o padre, senão metrópole ou da capitania que
dizer missa e confessar. Talvez os os nomeava e pagava. Faziam
batizados fossem raros, mas, e a o que era "da obrigação", quer
pregação, e o ensino da doutrina dizer, conforme as idéias da
cristã? — Mais tarde os jesuítas época: batizar, celebrar missa,
irão notar, em diversas capitanias, desobrigar e casar. Era o bas-
uma omissão quase completa desta lante para receberem o seu
importante obrigação pastoral. modesto ordenado das mãos do
Para simplificar essa enumera- contador de que nome em d i -
ção, já que nossas atenções vão-ss reito tivesse. O resto do tempo
concentrar nas atividades exercidas dedicavam-se, alguns ao me-
nos, a outros serviços e negó-
depois da vinda dos jesuítas, baste-
cios, para assim melhorarem a
nos saber que também outras
sua condição financeira..."
capitanias possuíram seus párocos,
já antes de 1550. Neste caso, se (62) .
encontram as capitanias da Bahia, Isto não vale só para os clérigos
Ilhéus, Porto Seguro (onde havia dos primeiros anos. Nóbrega, no
cinco seculares e dois religiosos), mesmo ano em que chegou à
Espírito Santo... Da Paraíba do Bahia, assim desabafava ao Mestre
Sul não se tem certeza. Simão Rodrigues:
Van der Vat, depois de examinar "E certo é e muito necessáirio
a situação das várias capitanias, haver homens qul quaerunt
servindo-se de documentos coevos, Jesum Christum solum cruci-
emite o seguinte julgamento: fixum. Cá há clérigos, mas é
a escória que de lá vem; omnes
"Acerca do clero paroquial
quaerunt quae sua sunt. Não
desta época impõe-se a con-
se devia consentir embarcar
clusão de que não brilhou pela
sacerdote sem ser sua vida
virtude nem pelo zelo das
muito aprovada, porque estes
almas. Mas é Inegável que
destroem quanto se edlfica"
essas deficiências em parte
correm por conta das condições (63) .
menos favoráveis do tempo, do (63) M ^ u e l d a Nóbrega, C a r t a s d o B r a s i l
( C a r t a s J e s i i l t l c a s I ), Publicação d a
A c a d e m i a B r a s i l e i r a de L e t r a s , B l o ,
(62) I d e m , p. 257. 1931, p. 77.

233
Em outra carta, em 1551, aos O teor do Regimento de Tome de
Padres e Irmãos de Portugal, Nó- Souza, o primeiro Governador Ge-
brega se exprime n u m t o m ainda ral, já deixa entrever a importância
mais severo sobre o mesmo pro- que essa nova estrutura de Governo
blema: iria representar:
"Os clérigos desta terra têm "Querendo el-rei conservar e
mais oficio de demônios que enobrecer as terras do Brasil,
de clérigos: porque além de e dar ordem a sua povoação,
seu mau exemplo e costumes, tanto para exaltação da fé,
querem contrariar a doutrina como proveito do reino resolve
de Cristo, e dizem publicamen- mandar uma armada com gen-
te aos homens que lhes é licito te, artilharia, munições e tudo
estar em pecado com suas ne- mais necessário para se fundar
gras, pois que são suas escravas uma fortaleza e povoamento
e que podem ter os salteados, na Bala-de-todos-os-SantIos
pois que são cães e outras donde se possa dar favor e
cousas semelhantes, por escusar ajuda às mais povoações..."
seus pecados e abomlnações, "O principal fim por que se
de maneira que nenhum de- manda povoar o Brasil é a
mônio temos agora que nos redução do gentio à fé cató-
persiga, senão estes" (64). lica. Este assunto deve o go-
Uma vez vistos estes fragmentos vernador praticá-lo muito com
da ação missionária e sacerdotal, os demais capitães. Cumpre
nos primórdios da evangelização do que os gentios sejam bem t r a -
Brasil, passamos à fase que marca, tados e que no cabo de se lhe
propriamente, a implantação do fazer dano e moléstia se lhes
cristianismo entre nós, de maneira dê toda a reparação, casti-
continua e sistemática. gando os delinqüentes" (65).
Com Tome de Sousa vieram seis
I I I . 2. OS JESUÍTAS E A jesuítas chefiados por Manoel da
CATEQUESE Nóbrega, e, conforme Gabriel Soa-
res, alguns sacerdotes seculares
O ano de 1549 não só representa (66).
um marco importante na organi-
zação política da Colônia, com a O Brasil passava a ser a segimda
criação do Governo Geral, como região extra-européia a receber
também significa o Inicio de u m missionários da Companhia de
novo estilo de evangelização, que Jesus. Antes, apenas a índia
iria deixar marcas duradouras n a figurava no rol das missões ultra-
formação religiosa do povo brasi- marinas.
leiro, com repercussões até os dias Depois dessa primeira leva, vá-
atuais, embora nem sempre de ma- rias outras se foram sucedendo:
neira positiva. em 1550, chegaram quatro jesuítas;
(64) I d e m , p. 116. n u e s t r a S a n t a Fé C a t h o U c a ; y s a c e r -
(65) C f r . O R e g i m e n t o de T o m e de S o u z a , dotes p a r a a d m i n i s t r a r los S a n t o s S a -
I n T h e r e z l n h a de C a s t r o , op. c l t . , p. c r a m e n t o s " . C f r . G . S . de S o u z a , D e r -
50-51. rotero de l a C o s t a d e i B r a s i l , E d l c i o n e s
(66) " T o m a s de S o u z a Uevó consigo P a - C u l t u r a Hispânica, M a d r i d , 1958, p.
dres de l a c o m p a n h i a de J e s u s p a r a 104.
doctrinar y convertlr los Yndlos a

234
em 1553, sete; em 155Ô, sete; e dos do Pará e Amazonas, embora
assim por diante. Em 1584, Anctiie- seu início tenha sido bem poste-
ta assinala, na "Breve Narração", rior, parece que o arrojo foi mais
142 membros para a Província intenso, se considerarmos as adver-
Jesuítlca do Brasil, dos quais 70 sidades do meio físico, para não
sacerdotes. O catálogo da Província falar dos obstáculos que lhes inter-
do Brasil de 1757 (pouco antes da punha a cobiça dos colonos, no t r a -
expulsão dos jesuítas) acusa u m to com o gentio. Serafim Leite
total de 476 membros (67). A estes traz, no volume IV de sua História,
se devem somar os 155 da Vice- uma reprodução, a partir do origi-
Província do Maranhão (68), que nal que se encontra em Évora (cfr.
formava um Estado à parte. Tam- Bibl. de Évora, Pinac. IV/3), do
bém atuaram no atual território "Mapa da Vice-Provlncia do Ma-
brasileiro outros muitos jesuítas, ranhão e Grão-Pará", executado
mas na ocasião seu campo de apos- em 1753. Nele estão indicados, com
tolado estava sob a jurisdição da bastante precisão, os principais
Espanha. Eram os jesuítas da Mis-
afluentes do rio Amazonas, as for-
são dos Sete Povos, Guairá e Tapes.
talezas, os povoados e as cidades e
Durante os duzentos e poucos
vilas da Região. Contamos por
anos em que os jesuítas atuaram
alto, além dos dois colégios ( o de
no Brasil, empreenderam uma série
São Luís e o de Belém), quatro
de atividades: missão entre os
residências e t r i n t a e sete sedes dé
índios, ensino elementar, colégios,
Missões, deixando fora os povoados,
publicação de hvros, pregação, for-
onde provavelmente os padres tam-
mação intelectual do clero, teatro,
etc. bém atuavam (70).
Só para se ter uma idéia da É claro que a simples enumera-
extensão do campo de trabalho ção das casas, algumas meros pon-
jesuítico durante esse período, re- tos de apoio, outras representando
colhi da obra de Serafim Leite, sem um conjunto complexo de ativida-
pretensão de esgotar o assunto, des (como era o caso dos colégios,
alguns dados relativos às Casas, o cujo campo de ação era bem mais
Já mencionado catálogo de 1757 amplo do que o dos seus congêneres
distribui os jesuítas em oito colé- da atualidade), não nos pode for-
gios, alguns dos quais com curso necer uma idéia precisa do que na
de Filosofia e Teologia (Bahia e realidade se fazia. Não vamos
Rio de Janeiro); vinte e cinco resi- porém entrar em outros pormeno-
dências em Fazendas e Engenhos; res, porque, mais adiante, quando
quarenta sedes de missões e resi- tratarmos dos sacramentos, vamos
dências várias; três seminários, dedicar u m espaço maior à ativi-
cujos alunos não necessariamente dade dos jesuítas, além de outros
estavam destinados à carreira motivos, porque a literatura que
eclesiástica... (69). se ocupa do apostolado desenvolvi-
Na Vice-Província do Maranhão do por eles é muito mais ampla do
que incluía também os atuais Esta- que a relativa aos demais grupos.

(67) S e r a f i m L e i t e , História d a C o m p a n h i a (68) I d e m , t o m o I V , p. 222.


de J e s u s n o B r a s i l , T o m o V I I , I N L , (69) C f r . I d e m , t o m o V I I , p. 435-453.
B l o , 1949, p. 452. (70) I d e m , t o m o I V , p. 390-391.

235
Vejamos, agora, algmis dados O Império, o Brasil era constituído
sobre o clero Secular, começando a de uma arquidiocese, dez dioceses
partir da vinda do Primeiro Gover- e duas prelazias.
nador Geral. Se o número dos bispados perma-
neceu reduzido até o advento da
I I I . 3. O CLERO SECULAR República, em 1889, o mesmo não
se pode dizer do número de padres.
Já vimos acima que a presença Havia-os até em excesso. Dois
do clero secular é assinalada no exemplos são suficientes para que
panorama religioso do BrasU-Co- se tenha uma idéia da situação: o
lônia, desde o tempo das capitanias. primeiro se refere a Salvador e o
Vimos também que com Tome de segundo, a Mariana.
Sousa vieram alguns clérigos. Mas Eduardo Hoomaert, baseado em
os jesuítas, logo nos primeiros con- Vilhena, afirma que Salvador, para
tatos com a terra, sentiram a falta uma população calculada em 37.000
de um bispo. Nas primeiras cartas habitantes, possuía, em meados do
a Portugal insistiram para que se século X V I I I , nada menos que 550
sanasse esta falha o quanto antes. clérigos. Em 1795, os clérigos do
Em 1551, o Papa Júlio i n des- hábito de São Pedro (sjpculares)
membrou o Brasil da diocese de eram 505 (71).
Funchal, criando o bispado de São De Mariana, Caplstrano de Abreu,
Salvador, na Bahia, e nomeando apoiando-se na "Instrução para o
para seu primeiro bispo, a D. Pero Governo de Minas Gerais", diz que
Fernandes Sardinha, apresentado desde "a nomeação do bispo D.
pelo Rei de Portugal, em decorrên- Joaquim Borges de Figueiroa
cia de seus privilégios como Grão- (1772), se tem conferido ordem a
Mestre da Ordem de Cristo. Com um sem-número de sujeitos, sem
o bispo, vieram para o Brasil ou- necessidade e sem escolha... Tendo
tros clérigos. Daí para a frente, o Doutor Francisco Xavier da Rua,
clérigos foram chegando regular- governador que foi do bispado com
mente da Metrópole e bem cedo o procuração do dito bispo, ordenado
Colégio da Bahia começou a pre- os sacerdotes que eram precisos,
parar seus alunos para as ordens não foi bastante para que o Dr.
sacras. José Justino de Oliveira Gondim,
Em 1676, a Diocese da Bahia foi que lhe sucedeu, deixasse de orde-
elevada a Arquidiocese, ao mesmo nar em menos de três anos cento
tempo que se criavam os bispados e u m pretendentes, dispensando
de Pernambuco e do Rio de Janeiro. sem necessidade em mulatlsmos
Mais tarde, em 1745, foi a vez dos e ilegitimidades. O Dr. Inácio
bispados de Mariana e São Paulo e Corrêa de Sá, que sucedeu a este
das Prelazias de Goiás e CJuiabá. José Justino no Governo do bis-
Em 1677 criou-se o bispado do pado, ordenou oitenta e quatro
Maranhão, porém sufragâneo do pretendentes em menos de sete
Patriarcado de Lisboa. Ao findar meses..." (72). O Pe. Heliodoro

(71) Cír. E d u a r d o H o o m a e r t , A s Relações História C o l o n i a l , L i v r a r i a B r l g u l e t ,


entre Igreja e Estado n a B a b l a C o - 1954 (4.» ed.), p. 316. A d a t a d a n o -
l o n i a l , I n R E B , vol. 32, 126 (1962), meação do < bispo D. J o a q u i m , c o l o c a -
p. 284. d a e n t r e parêntese, é u m a correcfio:
(72) C a p l s t r a n o de A b r e u , Capítulos de C a p l s t r a n o t i n h a registrado 1782.

236
Pires, em seu livro "A Paisagem assim, o fenômeno não deixa de
Espiritual do Brasil no século significar um esforço para oferecer
X V n i " corrige esses dados com melhores condições aos futuros
provas baseadas nos autos de habi- curas de almas.
litação para Ordens e no Índice do Antes dessa época, porém, a for-
Arquivo Diocesano. Segundo ele, nos mação intelectual era buscada nos
sete anos que vão de 1772 a 1779 colégios da Companhia, onde além
(o período em questão) foram orde- de Gramática e Humanidades, em
nados cerca de cem clérigos, numa quase todos eram ministradas lições
média de quatorze por ano (Cfr. a de Filosofia e Teologia Moral, che-
obra citada, p. 47-48). gando mesmo, em alguns casos, à
De qualquer forma, este autor colação de graus acadêmicos, como
admite como certo que, em 50 anos acontecia no Colégio da Bahia,
(1749-1799), foram ordenados em desde 1572.
Mariana 452 sacerdotes diocesanos! Mas, como já foi insinuado antes,
Esses exemplos, mesmo depois de há fortes indícios de que muita
retificados, são sintomas de que gente era ordenada sem a devida
boa parte do clero não primava por idoneidade. Maurício César de
uma formação cuidadosa, pois, do Lima, em uma tese inédita, sob o
contrário, não haveria tantos can- título "Diplomacia e liberdade ecle-
didatos para receber ordens sacras. siástica" (PUG, Roma, 1946), assim
O Pe. Frederico Laufer, em u m se exprime a respeito da formação
trabalho de pesquisa histórica i n t i - do clero colonial:
tulado "Vocações Sacerdotais no "Nos poucos seminários de
Brasil, de 1500 a 1760", conseguiu organização rudimentar, os
reunir u m conjunto de dados bas- clérigos recebiam uma forma-
tante significativo. ção e um cultivo de aptidões
Transparece deste estudo que as desproporcional e inferior à
primeiras tentativas sérias para a tarefa, às responsabilidades e
implantação de seminários nas vá- ao ambiente do futuro minis-
rias dioceses só bem mais tarde tério" (74).
pôde frutificar, precisamente a par- D. José Fialho, ao tomar posse da
tir de 1739, quando o bispo D. Fr. Diocese de Olinda (Pernambuco),
Antônio de Guadalupe abriu o em 1726, não ficou em nada satis-
Seminário do Rio de Janeiro. feito com a situação de seu clero.
Seguiram-no o da Bahia, que já A diocese tinha praticamente fica-
funcionava em u m prédio provisó- do vaga cerca de vinte e u m anos
rio desde 1747; Paraíba; Belém do (1704-1725). Neste longo intervalo,
Pará; Mariana, em 1750; São Paulo, os abusos, evidentemente, aumen-
em 1758; Paranaguá, em 1755 (73K taram. D. Fialho quis sanear o
Nem todos esses seminários funcio- ambiente e ordenou, por meio de
naram razoavelmente, mas, mesmo uma carta pastoral, que todos os

(73) C f r . F r e d e r i c o L a u f e r , Vocações S a - (74) Maurício César de L i m a , D i p l o m a c i a e


cerdotais n o B r a s i l de 1500 a 1760, I n L i b e r d a d e Eclesiástica ( T e s e inédita),
Vocações S a c e r d o t a i s e Religiosas, sob P U G , R o m a , 1946, c i t a d o p o r G . Perez,
a dlreç&o dO P e . Oéza Kõvecses, S . J . A. Gregory e P . L e p a r g n e u r , o P r o b l e -
E d . P a u U n a s , P o r t o Alegre, 1961, p. m a Sacerdotal n o Brasil, FMUSS, C E -
101-139. R I S , C I S , 1965, p . 31.

237
que tinham sido ordenados desde julgamento que o sucessor de D.
o ano de 1718 até a sua chegada Fialho, D. Frei Luís de Santa Teresa
"viessem ao exame, assim de l a t i - (1739-1754), faz do mesmo clero:
nidade, como do mais que conduz "De moris clericorum satis sit
à digna recepção das Ordens...
dicere paucissimos idôneos et
Achou muitos que eram indignos
ut decet probos reperiri; omnes
do alto ministério que ocupavam;
fere i t a ut quilibet de populo
aplicando o remédio a tão grande
vlvunt oneri potius quam adju-
mal, suspendeu um avultado nú-
mento inservientes" (77).
mero de sacerdotes que se acharam
Exageros à parte, o certo é que
com este impedimento canônico da
nas dioceses do Nordeste o clero
irregularidade ex defectu... A
maior parte, além de incapaz foi era numeroso e tudo indica que, em
indigna. Todos se examinaram em muitos casos, medíocre, tanto espi-
sua presença" (75). ritual como intelectualmente. Já
as Capitanias do Sul passavajn
Não se sabe se por exagero do bastante penúria. Havia extensas
autor ou se em conseqüência das regiões, em áreas dos atuais Esta-
medidas saneadoras de D. Fialho, dos do Paraná e Santa Catarina,
mas D. Domingos de Loreto Couto atendidas por um só Vigário "por-
afirma, referindo-se ao ano de que nenhum clérigo quer lá residir
1757, que Olinda, cidade com 3.272 por S.M. lhes não dar côngrua e
habitantes em 1.000 moradias, era não a poderem fazer aqueles pobres
dirigida espiritualmente por 45 povos", conforme disse u m Provin-
presbiteros seculares, quase todos cial Franciscano, Frei Antônio do
com o grau de mestre em Artes, Nascimento Sá (1691-1694).
e 146 religiosos, muitos dos quais Esse problema, porém, existia
leitores de Teologia e Filosofia e mesmo nas Capitanias mais bem
pregadores. Numerosos eram os providas de clero. Caplstrano de
sacerdotes tanto seculares como Abreu, referindo-se aos criadores
regulares. Todas as paróquias esta- de gado dos Sertões nordestinos,
vam providas; algumas, além do diz:
vigário, tinham coadjutor, e outros "Muito tempo viveu essa
sacerdotes residentes; quase todos gente entregue a si mesma, sem
os engenhos e muitas capelas pos- figura de ordem nem de orga-
suíam os seus capelães (76). nização. Como eram católicos
O Padre Laufer acha que Loreto e a igreja obriga à freqüência
Couto provavelmente foi muito dos sacramentos, naturalmente
Usonjeiro com os eclesiásticos de qualquer vigário ou algum mais
Pernambuco ao considerá-los 'co- animoso, mais zeloso ou mais
medido, grave, virtuoso e douto". cúpido, sala de tempos em
Isso se torna mais difícil de acei- tempos a desobrigar as ovelhas
tar quando se confronta com o remotas. Depois da instalação
(75) Pe. F r e i Bonifácio M u e l l e r O F M . D o m e s c r i t a em 1757. O m a n u s c r i t o se
F r e i José F i a l h o , B i s p o de O l i n d a e e n c o n t r a n a B i b l i o t e c a N a c i o n a l de
Arcebispo d a B a h i a , i n B E B , vol. X I V , Lisboa), i n Annaes da Blbllotheca Na-
1 (1954), p. 87-88. c i o n a l , vol. X X I V (1904), p. 147 e 188.
(76) C f r . D . D o m i n g o s de L o r e t o C o u t o , (77) C f r . José do C a r m o B a r a t a , História
Desagraves do B r a z i l e Glórias de P e r - Eclesiástica de P e r n a m b u c o , I m p r e n s a
nambuco ( o b r a c o n s e r v a d a inédita, I n d u s t r i a l , R e c i f e , 1922, p. 58.

238
do arcebispado da Bahia, "Os jesuítas sentiram desde
criaram-se freguesias no ser- o início, nos senhores de enge-
tão, enormes, cem léguas e nho, seus grandes e terríveis
m a i s . . . " (78). rivais. Os outros clérigos e
Já para as bandas da Costa, até até mesmo frades acomoda-
muitos engenhos possuíam igreja ram-se, gordos e moles, às
com "capelão melhor remunerado funções de capelães, de padres-
que os vigários, e às vezes incum- mestres, de tios-padres, de
bido de ensinar rudimentos de lei- padrinhos de meninos; à con-
tura à meninada" (79). fortável situação de pessoas
Gilberto Freire atribui à capela da família, de gente de casa,
de engenho o papel que na Europa de aliados e aderentes do sis-
a catedral tinha desempenhado na tema patriarcal no século
formação do povo. É ele quem X V I I I , muitos deles morando
fala: nas próprias Casas-grandes"
"No Brasil, a catedral ou (80).
igreja mais poderosa que o pró- Gilberto Freire tem uma tendên-
prio rei seria substituída pela cia a generalizar, mas, desta vez,
casa-grande de engenho. Nossa pelo menos no que se refere ao
formação social, tanto'quanto Nordeste canavieiro, ele acertou
a portuguesa, fez-se pela soli- bastante.
dariedade de ideal ou de fé Agora, se havia tanto clero, é
religiosa, que nos supriu a lícito perguntar quais as suas
lassidão de nexo político ou de ocupações pastorais.
mística ou consciência de raça. Quando tratamos das primeiras
Mas a igreja que age na for- paróquias ao tempo da implantação
mação brasileira, articulando- das capitanias, já antecipamos
a, não é a catedral com o seu alguma coisa: missa, desobriga,
bispo a que se vão queixar os administração do batismo, cele-
desenganados da justiça se- bração dos matrimônios, recitação
cular; nem a igreja Isolada e das horas canônicas e pouco mais.
só, ou de mosteiro ou abadia, Parece que a pregação e a dou-
onde se vão açoitar criminosos trina cristã eram bastante esque-
e prover-se de pão e restos de cidas. Contudo, as "Constituições
comidas mendigos e desampa- do Arcebispado da Bahia" (1707)
rados. É a capela de enge- insistem, em mais de u m lugar,
nho...". sobre a obrigação que têm os pá-
E depois de afirmar que no rocos de ensinarem a doutrina
Brasil não chegou a haver clerica- cristã a seus fregueses. Assim no
lismo, pois aquele que começava a título I I I , do livro I , lemos:
esboçar-se (o dos padres da Com-
panhia foi logo vencido "pelo "Porque os Párocos, como
aligarquismo e pelo nepotismo dos Pastores, e Mestres Espirituais,
grandes senhores de terras e es- obriga mais o cuidado de apas-
cravos"), assim continua Gilberto centar suas ovelhas com a
Freire: católica e verdadeira Doutrina,
(79) I d e m , p. 137.
(78) C a p l s t r a n o de A b r e u , op. c l t . , p. 223. (80) G i l b e r t o F r e y r e , op. c l t . , TOl. I , p. 354.

239
exortamos a todos os de nosso esperamos) leiam a seus fre-
Arcebispado e a todas e quais- gueses alguns capítulos desta
quer pessoas, a que nele esti- Constituição, que pertence à
ver encarregada a cura das Doutrina Cristã. E para que
Almas, ainda que sejam isen- com mais comodidade a possam
tas, que todos os Domingos do ensinar, lha pomos aqui e é a
ano, em que não ocorre alguma que segue" (82).
festa solene, ensinem aos Parece que a insuficiência era
meninos, e escravos a Doutrina mesmo real, pois a "Forma da
Cristã no tempo, e hora, que Doutrina Cristã", que vem em
lhe parecer mais conveniente, seguida, se estende por várias pá-
atendendo aos lugares, e dis- ginas.
tâncias de suas Paróquias, ou Embora reconhecendo que este
sejam nas cidades ou fora levantamento sumário está longe
delas" (81). de oferecer uma idéia exaustiva da
Da pregação há de fato muitas situação do clero secular no pe-
normas, porém contra os que pre- ríodo colonial, acho que para o f i m
gavam sem licença. Essa atribui- de nosso trabalho os traços ca-
ção, pelo visto, não era concedida racterísticos aqui apontados são já
a todos os padres, indiscriminada- suficientes.
mente, mesmo que desempenhassem Vejamos rapidamente agora a
a função de párocos. Isso trans- configuração dos religiosos no pa-
parece do que vai dito sob os n.°s norama da pastoral no Brasil
549 e 550 das "Constituições": Colonial.
"549. Como uma das princi-
pais obrigações dos Pastores I I I . 4. OS RELIGIOSOS E SUA
das almas é (como temos dito)
EXPANSÃO
apascentar as ovelhas... com
a saudável pregação da pala-
vra de Deus... mandamos a Afora as tentativas esporádicas
todos os vigários, capelães e dos franciscanos a que já nos refe-
curas de nosso Arcebispado rimos acima, e a presença de alguns
colados, ou anuais preguem per frades de São Bernardo acom-
si próprios a seus fregueses nos panhando a expedição de Ville-
Domingos, e festas solenes do gaignon na invasão do Rio de
ano, tendo ciência e aprovação Janeiro, as primeiras levas regu-
nossa." lares de religiosos (sem contar os
jesuítas de que também já falamos)
"550. E não tendo ciência e
só começaram a se estabelecer na
aprovação nossa façam práti-
Colônia nas duas últimas décadas
cas espirituais, em que lhes
do século X V I . Vejamos alguns
ensinem o que é necessário
dados referentes aos grupos p r i n -
para fugirem os vícios, e abra-
cipais.
çarem as virtudes. E quando
Os franciscanos chegaram p r i -
nem para isso tiverem su-
meiro a Olinda, em 1584; depois a
ficiência (o que deles não
l o n s o X a v i e r F e r r e i r a , Typograíla 2
(81) D . Sebastião M o n t e i r o d a Vide, C o n s - de Dezembro, S . P a u l o , 1853, L i v r o I ,
tituições P r i m e i r a s d o A r c e b i s p a d o d a t i t u l o I I I , n.o 3.
B a h i a , 1707, reimpressão p o í D . H d e - (82) I d e m , nfis 549 e 550, p. 212.

240
Salvador, em 1587, e à Paraíba, sem serem abadias) (84). Diz
1589. Os carmelitas vieram para Vilhena que no último quartel
Olinda em 1580 e os beneditinos desse século trabalhavam, em toda
para Salvador, em 1582. A partir a capitania da Bahia, 95 benedi-
destes pontos iniciais, foram, aos tinos, número que já havia decres-
poucos, se espalhando para os cido um pouco (85).
outros principais núcleos popula- Os carmelitas também estavam
cionais do litoral. em pleno florescimento: o conven-
Com o tempo, outras Ordens e to de Salvador abrigava 90 reli-
Congregações foram também che- giosos e o total, na Capitania da
gando: Capuchinos, no Maranhão Bahia, era de 183, conforme infor-
(1612), Mercedários (1640); Ora- mações do mesmo Vilhena O
torianos (1662), Agostinianos, La- convento de Recife abrigava 45
zaristas, etc. carmelitas, existindo ainda mais
As vocações, pelos dados que dois conventos da mesma ordem
existem a respeito de algumas na diocese de Olinda. Havia con-
dessas ordens, devem ter sido n u - ventos carmelitas espalhados desde
merosas. No que se refere ao o Pará até São Paulo (Itu, Marvlrl,
movimento das entradas, o século Santos, etc.) (86).
X V I I I representou o apogeu para Os mercedários estavam no Pará
a vida religiosa no Brasil.. em 1640; no Maranhão em 1664, e
em Alcântara desde 1659. Tinham
Assim, a Província franciscana
também conventos em Camutá e
da Imaculada Conceição (do Es-
Santo Antônio de Cumã. A partir
tado do Espírito Santo para baixo),
de 1699, assumiram dois aldeamen-
possuía, em 1764, cerca de 490
tos. Missionaram ainda cinco a l -
membros. Durante o triênio em
deias de índios mansos, às margens
que foi Provincial Frei Manuel da
dos afluentes do Amazonas (87).
Encarnação Coimbra (1761-1764>,
Como nosso intento não é fazer
entraram 88 noviços, dos quais 57
um relatório completo do pessoal
brasileiros e 31 portugueses (83).
pertencente às várias Ordens reli-
A Província de Santo Antônio (da
giosas, atuantes no Brasil, no pe-
Bahia para cima) devia apresentar
ríodo colonial, e sim apresentar
uma situação até melhor, pois em
algumas cifras suficientes para que
1733 possuía 15 conventos, u m hos-
se perceba o seu elevado número,
pício' e 13 missões. Além disso,
não só em confronto com a situação
algumas províncias franciscanas
atual mas, principalmente, em
portuguesas mantinham, no Mara-
relação à escassa população que
nhão e Pará, 2 conventos, 18 mis-
naquela época povoava as costas
sões e 2 hospícios.
do Brasil, onde a maioria desses
Os beneditinos, em meados do religiosos se encontrava, vamos
século X V I I I , atingiam o seu apo- apenas completar a amostragem
geu. Contavam 7 abadias e 4 pre- acima com mais alguns dados
sidências (mosteiros autônomos, globais.
(83) F r e d e r i c o L a u f e r , op. c l t . , p. 112. (85) C f r . Heliodoro P i r e s , A P a i s a g e m E s -
(84) C f r . D. J o a q u i m de L u n a O S B , O s p i r i t u a l do B r a s U n o século X V I U ,
monges B e n e d i t i n o s n o B r a s U , Esboço S. P a u l o E d i t o r a L t d a . , S P , 1937 p. 17.
Histórico, E d . L u m e n C h r l s t i , mo, (86) I d e m , p. 75-76.
1947, p. 22. (87) I d e m , p. 83.

241
Ao findar o século X V I I I , a capi- quanto que os religiosos missiona-
tania da Bahia contava 220.708 riam os africanos e os índios, e
habitantes, sendo de 500 o total de assumiriam certos setores especia-
religiosos (88). lizados, como a educação, os hos-
Afirma Loreto Couto que o Estado pitais e outros.
Eclesiástico de Olinda e Recife (em É claro que nem o trabalho da
1757) se compunha de dez conventos catequese foi obra exclusiva dos
religiosos, com oito colégios de jesuítas, nem eles também estão
filosofia e teologia, dois hospícios, isentos da pecha de permanecerem
dois recolhimentos de donzelas... em grande número nas cidades e
(89) . vilas.
Pelo relatório do ouvidor ma- Principalmente no Norte, sem
ranhense, João da Cruz Diniz excluir as outras regiões, os reli-
Pinheiro, em 1751, sabe-se que giosos das várias ordens e congre-
havia no Maranhão e no Pará vinte gações desenvolveram u m intenso
e sete casas de religiosos, "fora os trabalho missionário, especialmente
das fazendas, engenhos e missões" a partir de 1699, quando se efetivou
(90) . uma carta regia do Rei de Portu-
Ao considerar a questão em dire- gal, D. Pedro I I , que mandava se d i -
ção ao Sul, não pude obter dados vidisse o campo das Missões pelas
complexivos. Sabe-se, porém, que várias famílias religiosas residentes
do Rio para baixo o número de no Estado do Maranhão. O já citado
religiosos era menor do que no relatório do ouvidor João A. da
Norte. Mas também a população Cruz Diniz Pinheiro (1751) enumera
era mais rarefeita. oitenta aldeias em todas as capi-
tanias do Estado, sendo 63 na
Em Minas havia proibição da
capitania do Pará, a qual incluía
entrada não só de jesuítas "como
também o atual Estado do Ama-
também aos religiosos de todas as
zonas. -A administração desses
ordens, à exceção dos franciscanos
aldeamentos era feita do modo
encarregados de esmolar para a
seguinte: quatro eram governadas
Terra Santa" (91).
pelo ordinário; trinta, pelos Padres
Cabe agora a pergunta: que da Companhia; vinte e seis, pelos
faziam tantos apóstolos para o padres capuchinhos. Os Mercedá-
Reino de Deus com u m número rios duas e os Padres do Carmo
tão reduzido de fiéis, bem que espa- sustentavam dezoito (92).
lhados num território imenso, onde
as dificuldades materiais não t i - Há ainda referências de aldeias
nham conta? indígenas sob os cuidados de reli-
Ao considerar a questão, a partir giosos, situadas em torno de Olinda
das perspectivas atuais, surge es- e Recife; na Capitania da Bahia,
pontânea a idéia de uma divisão em torno do Rio de Janeiro e nas
de trabalho: o clero secular se vizinhanças de São Paulo.
ocuparia dos portugueses, ou mesmo Houve também religiosos que
de todos os já cristianizados, en- percorreram os sertões em missões
(88) I d e m , p. 18. (91) I d e m , p. 50.
(89) I d e m p. 23. (92) I d e m , p. 76-77. C a p l s t r a n o d i z q u e há
(90) I d e m , p. 76. a l g u n s erros n e s t a l i s t a . C f r . C a p l s -
t r a n o de A b r e u . op. c l t . , p. 279 e 357.

242
populares e desobrigadas, trabalho patriarcais, quando não para
esse a que os capuchinhos muito se excessos de libertinagens com
aplicaram. negras e mulatas. Muitas
Os franciscanos atendiam tam- vezes, por trás dos nomes mais
bém as capelanias das fortalezas e seráficos deste mundo — Amor
navios. Divino, Assunção, Monte Car-
Mas, apesar de tudo isso, o grosso melo. Imaculada Conceição,
do contingente religioso permane- Rosário — dizem-nos certos
cia nos conventos da orla marítima, cronistas que em vez de ascetas
onde o clero secular também era angustiados pelo voto de v i r -
numeroso. É verdade que geral- gindade (sic), floresceram ga-
mente em torno desses conventos ranhões formidáveis. O padre
floresciam as ordens terceiras, que La CalUe ficou horrorizado com
congregavam boa parte dos leigos a libertinagem dos frades do
das cidades. Mas os membros Rio de Janeiro."
dessas corporações já não tinham "Le Gentil de l a Barblnals
seus pastores? Muitos deles também escreve que na Bahia, reli-
não já pertenciam às Confrarias e giosos e frades seculares m a n -
Irmandãdes com igrejas e capelães tinham comércio público com
próprios? mulheres, acrescentado: "on
Havia, de fato, muitas vezes uma les connait plutôt par les noms
duplicação de serviços. Havia tam- de leurs maitraisses que par
bém muita gente ociosa. Não é celui qu'ils ont."
pois para admirar se as crônicas Depois de outras referências deste
da época e os relatórios dos via- teor, conclui Gilberto Freire:
jantes estão cheios de referências "Mas os eclesiásticos liber-
desabonadoras à vida dos frades do tinos — padres e frades que
tempo colonial. Gilberto Freire, andavam escandalosamente
mesmo admitindo exagero em com mulheres da vida, esque-
algum cronista, pinta-nos um qua- cidos de Deus e dos livros —
dro bastante sombrio da vida reli- não se pode afirmar que
giosa no século X V I I I , baseando-se tenham sido o maior número;
nesses testemunhos escandalizados. houve sacerdotes que impres-
Vejamo-lo: sionaram protestantes ingleses
"No século X V I , com exceção como Mathison, pela sua vida
dos jesuítas — donzelões i n - pura e santa; a Koster, pelo
transigentes —, padres e frades seu saber e por suas preocupa-
de ordens mais relassas em ções elevadas; a Burton, pela
grande número se amanceba- sua bondade e instrução" (93).
ram com índias e negras; o.s Também Caplstrano de Abreu se
clérigos da Bahia e Pernam- refere ao problema da libertina-
buco escandalizaram o padre gem dos frades:
Nóbrega. Através dos séculos "Só os frades, a exemplo da
X V I I e X V I I I e grande parte gente de cor, obedeciam aos
do X I X continuou o livre ar- ditames do temperamento, sem
regaçar de batinas para o de- medo de escândalo e até pro-
sempenho de funções quase (93) G i l b e r t o F r e i r e , op. c l t . , p. 709-710.

243
curando-o. "Um dos motivos amancebamentos camuflados; sevl-
da relaxação é haverem muitos cias sexuais, maltratos aos escra-
conventos e poucos religiosos, vos; homossexualismo com alunos,
escrevia Fr. Caetano, bispo do escravos, etc. Além de muitos
Pará; a causa para não pode- outros casos pouco edificantes, n&o
rem satisfazer a todas as só de natureza sexual como tam-
observâncias brevemente de- bém econômica (95).
genera em pretexto frlvolo Depois de considerar tudo isso,
para se eximirem até das mais mesmo com os descontos devidos às
fáceis e ei-los aí ociosos, inú- generalizações e desabafos, deve-
teis absolutamente à igreja e mos concluir que o número consi-
ao Estado". A tanto subiu sua derável de religiosos que enchiam
desenvoltura qué dificilmente os conventos de nossas cidades
encontravam noviços nos úl- coloniais, não representou, falando
timos tempos" (94). em termos globais, um fator posi-
Aqui se fala em escassez de voca- tivo preponderante em favor da
ções porque já estamos numa época evangelização do povo brasileiro,
bem posterior: últimos anos do também tomado em seu conjunto.
século XVIII. Muitas deformações congênitas
Para não falarmos apenas das de nossa atual vivência religiosa
torpezas dos frades e calarmos a encontram talvez suas causas ou,
situação dos jesuítas, vai aqui uma senão, suas agravantes, na vida
referência ao relatório do Padre ociosa e relaxada de muitos frades
Bento José Cepeda. Embora até e religiosos do passado colonial.
mesmo Gilberto Freire o tenha Vistas as coisas deste ângulo, as
achado exagerado, e parece que de restrições do tempo do Império
fato o seja, pois o autor era egresso adquirem um caráter purificador
da Companhia, contudo convém (mesmo que não tenha sido este o
registrar a sua existência. O rela- motivo que as sustentava), permi-
tório do Padre Cepeda, com um tindo, a partir do advento da Re-
requinte de pormenores, vai pas- pública, o surgimento de comuni-
sando os casos escabrosos que dades novas, sem vinculações com
aconteciam nos vários colégios dos um passado pouco edificante e
jesuíta do Brasil. Al se fala de comprometedor.
(94) Caplstrano de Abreu, op. elt., p. 330. Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo
(95) Dr. José Vieira Fazenda, Antlqualhas 89, vol. 143 Imprensa Nacional, Rio
e Memórias do Rio de Janeiro, (cfr. de Janeiro, 1924, p. 113-157.
Jesuítas), In Revista d o Instituto

(continua)

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