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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º.

Seminário
Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop, 2009. ISBN: 978-85-
288-0061-6

O return da biografia: problemas e perspectivas:


Alexandre de Sá Avelar∗

A historiografia experimentou nas últimas décadas uma série de “retornos”. Os


historiadores voltaram a se preocupar com a narrativa histórica, viram ressurgir o acontecimento
e experimentaram a renovação da história política, outrora identificada a uma certa história
historicizante. Embora de uma forma ou de outra estas sempre foram temáticas presentes nos
debates de Clio, elas permaneceram, ao longo da hegemonia dos Annales, relegadas a segundo
plano, em função da prevalência da “história das estruturas que passavam a explicar as ações
humanas segundo determinações que escapavam a esses homens no mundo” (Guimarães, 2008:
21 ). Apenas as dimensões estruturais de longa duração seriam capazes de recuperar os grandes
movimentos das sociedades em suas regularidades e permanências, escapando à superficialidade
dos fatos. Nesta perspectiva, o domínio econômico-social era o eixo de observação predileto dos
historiadores, preocupados em desvendar o mundo histórico em sua processualidade. A história
política, rica em acontecimentos e apresentada por meio de uma narrativa linear, deveria ser
sepultada de uma vez por todas.
A partir de final dos anos 60, a crítica a esta ambição totalizadora pretendeu recuperar a
feição humana dos processos históricos. Aguirre Rojas assinala que a biografia reacendeu a
preocupação com trabalhos de pesquisas mais rigorosos, capazes de demonstrar as tensões
existentes entre a ação humana e as estruturas sociais, colocando o personagem e seu meio numa
relação dialética e assegurando à História o caráter de um processo com sujeito. Roger Chartier,
analisando as incertezas que envolvem o ofício do historiador e os rumos abertos com a
descrença no marxismo e no estruturalismo, ressalta a virada epistemológica em direção ao
indivíduo:

O objeto da história, portanto, não são, ou não são mais, as estruturas e os


mecanismos que regulam, fora de qualquer controle subjetivo, as relações sociais, e sim as
racionalidades e as estratégias acionadas pelas comunidades: as parentelas, as famílias e
os indivíduos. ( grifo nosso )


Doutor pela Universidade Federal Fluminense. Professor do Instituto de História da Universidade Federal de
Uberlândia

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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º. Seminário
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(...) O olhar se desviou das regras impostas para as suas aplicações inventivas, das
condutas forçadas para as ações permitidas pelos recursos próprios de cada um: seu poder
social, seu poder econômico, seu acesso à informação. ( Chartier, 1994: 98 )

Portanto, não nos parece mais possível ignorar o papel cada vez maior que a biografia
assumiu no debate historiográfico contemporâneo e na produção propriamente dita dos
historiadores. Uma rápida olhada nas estantes das maiores livrarias do país será suficiente para
que possamos perceber a popularidade do gênero, que conta, ainda, com significativos trabalhos
produzidos por jornalistas. ( Schmidt, 1997). Concordamos inteiramente com as reflexões de
Francisca L. Nogueira de Azevedo, para quem,

hoje a biografia é um modelo de escrita da história nitidamente definida. Há uma


metodologia explicitada, na qual a biografia não se destina mais ao julgamento feito por
seus autores, mas sim a uma construção relevante sobre hipóteses cujos pressupostos
serão confirmados ou não. Seu objetivo fundamental é levar à compreensão da época que,
como a montagem de um quebra-cabeça, pouco a pouco vai revelando o que é
permanente, indicando as diferenças, permitindo perceber a realidade dos problemas
sociais através do concreto de uma vida. ( Azevedo, 2000: 133 )

Nas fendas abertas pela crise dos grandes modelos explicativos da História ao longo do
século XX, a biografia recolocou em debate a dimensão subjetiva da narrativa histórica,
procurando entender os limites e possibilidades das ações não apenas dos chamados grandes
personagens, mas também daqueles indivíduos aparentemente destituídos de interesse por si
próprios. Estes elementos indiscutivelmente positivos do return dos estudos biográficos
acompanham algumas delicadas questões para os historiadores-biógrafos. Na impossibilidade de
tratar de todas elas nos limites deste trabalho, chamaremos a atenção para duas em especial, por
acreditarmos que sintetizem os principais problemas e perspectivas encontrados por todos aqueles
que se aventuram na escrita de narrativas de vidas: as possibilidades de ação individual em meio
a estruturas ou contextos normativos e a dimensão subjetiva do exercício biográfico.

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Nas comunidades amish, há um costume chamado rumspringa ( do alemão


herumspringen, saltitar ) que consiste em permitir que os filhos, ao completarem dezessete anos,
possam experimentar todos os prazeres e vícios da vida fora do estrito círculo familiar. Podem
dirigir carros, assistir TV, beber, usar drogas e praticar sexo livremente. Com isso, espera-se que
estes jovens se decidam: retornam para a comunidade ou se tornam definitivamente cidadãos
norte-americanos. Depois de conhecerem dois contextos sócio-culturais inteiramente distintos,
imagina-se que possam realizar uma escolha efetivamente livre e, a partir daí, começarem a traçar
os contornos da vida adulta. A liberdade para escolher está inegavelmente colocada? Os anos
passados imaginando a vida transgressora no mundo externo não conduzem os jovens amish a
uma vida desregrada que produzirá crises de angústia e o eventual retorno à comunidade? (Žižek,
2008: 432 )Eles possuem informações suficientes dos costumes dos não-amish para que
possamos falar de uma liberdade consciente? Pode-se experimentar plenamente a vida fora da
comunidade sem que os jovens deixem de ser pertencentes aos amish?
Estas perguntas de difíceis respostas são constantemente (re) elaboradas em vários
momentos por historiadores e cientistas sociais. Elas se referem a questões inquietantes a respeito
dos espaços de autonomia e dos interstícios de liberdade existentes em diversos contextos
históricos. A citação bastante conhecida de Giovanni Levi é, sem dúvida, uma referência para que
possamos compreender a importância da biografia no redimensionamento das relações entre
indivíduo e contexto:

(...) nenhum sistema normativo é de fato suficientemente estruturado para


eliminar toda possibilidade de escolha consciente, de manipulação ou de interpretação das
regras, de negociação. Parece-me que a biografia constitui nesse sentido o lugar ideal para
se verificar o caráter intersticial – e ainda assim importante – da liberdade de que as
pessoas dispõem, assim como para se observar a maneira como funcionam concretamente
os sistemas normativos que nunca estão isentos de contradições. ( Levi: 1996, 179-80 )

Não estamos, obviamente, diante de um problema novo. As tensões entre liberdade e


determinação integram um amplo leque de correntes teóricas que vão do cristianismo ao
marxismo, passando pelo funcionalismo e pelos desenvolvimentos mais recentes da micro-
história italiana. Para a biografia, o perigo evidente é o de assumir uma posição reducionista: ou

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considerar o indivíduo como mero reflexo de estruturas sociais em relação às quais ele pouco
pode fazer ou perceber o processo histórico como resultado das ações individuais, especialmente
dos chamados grandes homens, caindo num voluntarismo exacerbado.
Alguns caminhos interessantes têm surgido de trabalhos recentes, permitindo-nos pensar
as trajetórias particulares e os contextos nos quais estas se inserem não mais como pólos
excludentes entre si, mas como uma complexa teia de relações, tensões e negociações. A micro-
história, ao concentrar-se “nas contradições dos sistemas normativos e por isso na fragmentação,
nas contradições e na pluralidade dos pontos de vista que tornam todos os sistemas fluídos e
abertos” ( Levi, 1992: 154-55 ), ilumina o sujeito concreto, dotado de margens de liberdade e, por
isso mesmo, capaz de tensionar o sistema social, de produzir nele fissuras, de construir margens,
de produzir pequenas rupturas. Para Giovanni Levi, há ainda a possibilidade de pensarmos o
contexto como uma operação cultural, de construção de sentidos e significados. Assim, trata-se

(...) de colocar uma idéia dentro dos limites prescritos pelas linguagens
disponíveis (...) Esta teoria encara o contexto como sendo ditado pela linguagem e pelos
idiomas disponíveis e utilizados por um grupo particular de pessoas em uma situação
particular para organizar, por exemplo, suas lutas de poder. ( Levi, 1992: 156 )

Ao narrar a trajetória do moleiro Menocchio com base em um contexto marcado pelo


intercâmbio entre a chamada alta cultura e a cultura popular, Ginzburg se aproxima desta
perspectiva, quando as idéias do personagem aparecem como “um ponto de descoberta do
contexto social em que um fato aparentemente anômalo ou insignificante assume significado,
quando as incoerências ocultas de um sistema aparentemente unificado são reveladas” ( Levi,
1992: 155 ). Aqui apenas uma emenda: contradições e incoerências resultantes de um contexto
cultural marcado por símbolos e sentidos construídos pelo homem! As contribuições da micro-
história ao campo biográfico foram assim sintetizadas por Benito Bisso Schmidt:

Certas proposições desenvolvidas pela micro-história, depois de um longo período


de atenção exclusiva aos processos globais e às estruturas de conjunto, levaram a uma
ginástica salutar. Elas obrigaram em particular a precisar e a discutir as formas de
adequação entre o tamanho dos objetos de estudo, as modalidades de observação e as

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problemáticas. Do indivíduo ao grupo e à sociedade, do local ao global, como assegurar a


articulação entre os níveis de observação e definir as modalidades das generalizações
necessárias? ( Schmidt, 2000: 51 )
A antropologia, campo em que os historiadores dedicados à biografia já são bastante
tributários das discussões promovidas por Geertz, estimulou novas reflexões a respeito das
possibilidades de liberdade individual x contextos normativos. Os conceitos de “projeto” e de
“campos de possibilidades”, desenvolvidos por Gilberto Velho, oferecem, sem dúvida,
instigantes ferramentas de análise. O primeiro conceito é definido como “ a conduta organizada
para atingir finalidades específicas” e o segundo é entendido por “espaço para a formulação e
implementação de projetos”. Assim, segundo Gilberto Velho:

Evitando um voluntarismo individualista agonístico ou um determinismo sócio-


cultural rígido, as noções de projeto e campo de possibilidades podem ajudar a análise de
trajetórias e biografias enquanto expressão de um quadro sócio-histórico, sem esvaziá-las
arbitrariamente de suas peculiaridades e singularidades. ( Velho, 1994: 40 )

A narrativa biográfica supõe uma modalidade de escrita da História profundamente


imbricada nas subjetividades, nos afetos, nos modos de ver, perceber e sentir o outro. Talvez
estejamos diante do grande desafio do trabalho biográfico: ao falar do seu personagem, o
biógrafo, de certa forma, fala de si mesmo, projeta algo de suas emoções, de seus próprios
valores e necessidades. ( Borges: 2009, 232 ). Se o rigor do seu ofício garante ao historiador a
legitimidade para tratar de seu personagem, as suas motivações podem ser sempre colocadas em
xeque, tal como se percebe em Janet Malcom, autora de um importante trabalho a respeito das
biografias e biógrafos da poeta norte-americana Sylvia Plath:

O voyeurismo e a bisbilhotice que motivam tanto os autores quanto os leitores de


biografias são encobertos por um aparato acadêmico destinado a dar ao empreendimento
uma aparência de amenidade e solidez semelhantes às de um banco. O biógrafo é
apresentado quase como uma espécie de benfeitor. Sacrifica anos de sua vida no trabalho,

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passa horas intermináveis consultando arquivos e bibliotecas, entrevistando pacientemente


cada testemunha. Não há nada que não se disponha a fazer, e quanto mais o livro refletir
sua operosidade [ basta ver o tamanho da maior parte das biografias ], mais o leitor
acreditará estar vivendo uma elevada experiência literária [ e “científica”, acrescento, no
caso de biografias escritas por historiadores ] e não simplesmente ouvindo mexericos e
lendo a correspondência alheia. ( Malcom, 1995: 16-17 )

É importante percebermos que esta relação marcada pela presença subjetiva do biógrafo é
característica dos trabalhos biográficos mais modernos. Nas biografias da Antiguidade,
destinadas a lembrar os vivos dos grandes feitos e exemplos dos mortos, o narrador era emissor
de juízos e de considerações – civicamente pedagógicas – sobre seu biografado. Entre os séculos
XVIII e XX, uma certa “biografia romântica” deixava inteiramente de lado o biógrafo, ciente que
estava da tarefa de ser um mero expositor dos fatos e das tramas que envolviam o indivíduo em
questão. Era, desta forma, um mero observador, uma voz calada e imparcial.
Neutralidade e objetividade já não parecem mais oferecer os caminhos seguros de
apreensão do passado. Os historiadores já não têm dificuldades em considerar a presença de
aspectos subjetivos em seu ofício. Somos marcados o tempo todo por visões de mundo e por
nossos “lugares de fala”. O produto do trabalho historiográfico inscreve-se na materialidade de
um texto que carrega o conjunto de vivências de quem o escreveu e é recebido por leitores
igualmente imersos em distintos tecidos sociais, com suas lógicas de funcionamento e
multiplicidade de experiências e representações. A biografia obrigou o historiador a repensar as
figuras de linguagem que utiliza e os recursos estilísticos que aciona. Tornou-se, portanto, “o
canal privilegiado através do qual os questionamentos e as técnicas peculiares da literatura se
transmitem à historiografia” ( Levi, 1996: 168 )
A biografia supõe “um interesse que articula, em princípio, duas vidas: a narrada e a do
narrador, aquele que se debruça e olha a vida do outro afetado por alguma forma de desejo”
(Guimarães, 2008: 19 ). O afeto e a cumplicidade não se esgotam nas relações entre o biógrafo e
seu personagem. A escrita biográfica se articula à presença de um outro, para quem se narra e que
não vivenciou as experiências e fatos narrados. Janet Malcom nos fala de uma cumplicidade entre
o biógrafo e seu leitor que só se explica por uma certa atividade excitante e proibida para ambos:

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“atravessar o corredor na ponta dos pés, parar diante da porta do quarto e espiar pelo buraco da
fechadura” ( Malcom, 1995: 17 )
Ao recompor uma trajetória individual e, conseqüentemente, dotá-la de sentido, o
historiador pode se deparar com o perigo daquilo que, em uma expressão já consagrada, Pierre
Bourdieu denominou de ilusão biográfica. O risco maior é o de assumir um conceito rígido de
identidade, partindo do pressuposto de que “a vida constitui um todo, um conjunto coerente e
orientado que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma ‘intenção’ subjetiva e
objetiva, de um projeto”. ( Bourdieu, 1996: 184 ) Aqui, mais uma vez, a relação entre biógrafo e
biografado lança luzes sobre o problema levantado pelo sociólogo francês. Neste sentido, a
observação de Vavy Pacheco Borges é, simultaneamente, provocadora e reveladora:

Como nós, nossos personagens históricos não são modelos de coerência, de


continuidade, de racionalidade; como para nós, as tensões entre o vivido e o que foi
imaginado e desejado são fundamentais em suas vidas. E, para eles, como para nós, há
uma parte indecifrável do aleatório, do imprevisível, do misterioso da vida ( a não ser que
acreditemos em alguma espécie de “Divina Providência” ). ( Borges, 2009: 233 )

De acordo com Richard Holmes, a biografia “pode propiciar uma espécie de espelho
ético, no qual podemos ver, com uma força súbita a nós mesmos e nossas vidas sob diferentes
ângulos” ( Holmes, 1985: 83 ) A discussão dos princípios éticos na escrita biográfica tem sido
marcada recentemente por processos judiciais referentes a possíveis violações de privacidade e de
1
direitos de imagem. Que normas explícitas ou implícitas deveriam guiar a atividade do
historiador que se propõe a relatar uma vida e, para tanto, precisa tomar contato com documentos
pessoais do seu personagem, entrevistar amigos e familiares – sempre contando com a
possibilidade de tais entrevistas serem dolorosas ou mesmo desagradáveis para os entrevistados -,
enfim, “espiar pelo buraco da fechadura”? Uma advertência de Vavy Pacheco Borges nos parece
aqui um ponto de partida significativo:

1
Penso particularmente em dois casos. O processo movido pelas filhas do jogador Garrincha contra o biógrafo do
pai, o jornalista Ruy Castro, alegando que não houve consulta sobre a publicação do livro e que, portanto, deveriam
receber direitos de imagem do atleta e a ação movida pelo cantor Roberto Carlos contra o jornalista Paulo César de
Araújo, seu biógrafo não autorizado, e que culminou com a retirada do livro de circulação.

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Principalmente, a meu ver, é preciso um grande respeito ao outro, um cuidado


para não se querer “consumir” o biografado como um produto, evitando aquilo que ocorre
por vezes hoje em dia, nas relações humanas e, especialmente, em algumas relações
biográficas. Uma vida não deve ser encarada como um objeto que vamos expor e vender,
sem outras considerações, embora, obviamente, faça parte de nosso trabalho devolver à
sociedade o produto de nossas pesquisas. ( Borges, 2009: 237 )

Bela lembrança em uma era em que o consumo de biografias e a publicização de fatos


particulares movimentam um poderoso mercado editorial cada vez mais ávido de leitores e
lucros! Mas a passagem acima nos remete também à problemática da conciliação do trabalho do
historiador-biógrafo e os princípios éticos. Benito Bisso Schmidt nos lembra que nosso ofício
“pauta-se por certas exigências, por certas convenções – explícitas ou implícitas – a respeito do
que é permitido e proibido, adequado ou inadequado, valorizado ou estigmatizado”. ( Schmidt,
2009: 22 ). Os rigores teóricos e metodológicos e, como já mencionara Vavy Pacheco Borges, a
necessidade social de produzir e difundir nossos trabalhos historiográficos, não são pólos opostos
às considerações de caráter ético. Quando se produzem entrevistas com o biografado ou com
pessoas próximas a eles, é necessário o estabelecimento de limites bem claros a respeito do que
será perguntado, do que necessita ser apreendido destas entrevistas e, principalmente, das formas
de divulgação e circulação destas informações.
Seguindo ainda as reflexões de Schmidt, estas preocupações fundamentais se tornam
menos atormentadoras quando atendemos a necessidade de compreender o sentido da vida que se
estuda. O que nos interessa é acompanhar os passos de uma trajetória singular que suscite
inquietações, dúvidas e incertezas que também possam interessar a todos aqueles preocupados
com os problemas e a relevância da pesquisa histórica. Mais do que fazer “revelações
bombásticas” ou trazer à tona facetas desconhecidas do seu personagem, o biógrafo deve sugerir
respostas para questões como “o funcionamento concreto de determinados mecanismos sociais e
sistemas normativos, a pluralidade existente por detrás de grupos e instituições tradicionalmente
vistos como homogêneos, a construção discursiva e não discursiva dos indivíduos, as margens de
liberdade disponíveis às pessoas em diferentes épocas, entre outras ( Schmdit, 2009: 23-24 ).
Desta forma,

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(...) para o historiador biógrafo em particular, não existem fatos importantes em si,
que precisam ser revelados “doa a quem doer”; além disso, o que lhes interessa não é o
inusitado por ele mesmo. Também sua forma de encarar a verdade é – ou deveria ser –
mais sofisticada, e tensionada, do que aquela própria do senso comum, limitada à
factualidade imediatamente apreensível. (...) Respeito pelo personagem biografado – no
sentido de compreendê-lo em sua historicidade e não como uma celebridade a ser
desnudada – e respeito pelas regras, historicamente construídas, do ofício de historiador:
tais me parecem ser os parâmetros mais importantes desta ética particular, aquela do
profissional de História que se dedica a perscrutar os caminhos e descaminhos de uma
vida. ( Schmidt, 2009: 24-25 )

Ao longo do texto, esperamos ter apresentado algumas questões de relevo para um debate
mais aprofundado a respeito dos dilemas e incertezas deste return da biografia que, por certo, não
representa a mera volta de um gênero dedicado a ilustrar vidas representativas ou enaltecer
homens e mulheres que “fizeram a História”. Acreditamos na imensa potencialidade da biografia
histórica sem duvidarmos também dos seus riscos, tensões e percalços.

Bibliografia:
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Rio de Janeiro, n.13, v.7, 1994, pp.97-113.

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ŽIŽEK, Slavoj. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.

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