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FILLER I

Mokusei desce as escadas com velocidade, normalmente saía de casa pela janela alta do
próprio quarto, indo de encontro aos telhados envernizados pelo orvalho matinal. Fazia isso
por que morava no último andar e detestava dar de cara com outros inquilinos; seus pais
deviam dinheiro a algumas pessoas, e ele desprezava os olhares que lhe fuzilavam. Eram
olhares penetrantes, como se a alma do garoto fosse imediatamente radiografada naquele
momento e toda a sua honestidade fosse, junto com os pais, desnudada e aviltada. No
entanto, hoje era um dia diferente: o último dia de aula na academia. A ideia fazia o coração
bater com intensidade, e com intensidade agitavam-se os pensamentos, de forma que toda
aquela conjuntura desagradável tinha sido completamente afogada pela maré de sentimentos,
outrora subjacentes, como se prontos para despertarem mediante um mecanismo de ativação
virtualmente atrativo, neste caso, o ritual de passagem para a vida militar. Ele nem percebeu a
agressão, quando atravessou o último lanço de escada, nos olhos da Sra. Bovary, uma mulher
velha que vinha de terras distantes, onde, assim como a dela, a realidade psicológica era muito
mais falsa e paupérrima.

Na rua, viu o movimento dos transeuntes conforme atravessava a cidade, todos


completamente alheios aquele indescritível sentimento que lhe provocava arrepios vez ou
outra. Estava vibrante e sentia o calor do sol em sua nuca, já imaginava o braço atado pela
bandana de Iwa e perdia-se em devaneios hercúleos. Depois voltou a si, sorrindo sozinho da
própria infantilidade, ou como achava algumas vezes, da própria inocência. Quando a
realidade assomava-se diante dele, sem misericórdia, crispava o semblante de maneira
pensativa e novamente perdia-se em pensamentos, matutando sobre o que achava basilar na
constituição da sociedade ninja. Ao cabo de tudo, já não tinha nenhuma conclusão a ser
encontrada, as divagações superavam o senso real e ele não tinha ideia do que era concreto
ou abstrato.

Quando chegou à academia, reconheceu a maioria das pessoas, haviam somente alguns
adultos estranhos, provavelmente Jounins ou Chunins, pensou, olheiros. Diferente dos
transeuntes, o restante da classe assemelhava-se a ele, todos pareciam ansiosos e tensos, um
estado onde a ação a pedido e o desfalecimento involuntário eram divididos por uma linha
tênue, composta pela resistência pessoal que cada um tinha ao enfrentar situações de grande
pressão. Até mesmo Shiori, a garota com mais experiência no ramo de situações complicadas,
tinha o cenho franzido. O local era uma sala pequena em formato de cubo, os alunos
sentavam-se em mesas espalhadas por toda a extensão do chão de madeira, os estranhos
ficavam espalhados em pontos estratégicos da sala, o Sensei à frente da lousa, ao seu lado
uma pequena escrivaninha sobre a qual uma caixa marrom repousava. Havia um pequeno
sussurro coletivo, todos sabiam que o ritual de encerramento, prometido desde o inicio do
curso pelo professor, implicaria em um teste final. Era isso que parecia comprimir o ambiente
entorno. O que será? Mokusei tamborilava os dedos à carteira, já tinha se sentado no fundo da
classe, gostava da posição, tinha uma visão geral do lugar e sentia-se confortável em saber que
não havia ninguém atrás de si, não haviam olhares mirados a ele. Nada disso passava por sua
cabeça no entanto, agora, tentava manter uma postura e olhar firme.

Quando o Sensei iniciara a conversa todos pareciam extremamente exaustos.


— Chegamos, como esperado, ao fim do curso. Como sempre disse a todos, o prazer é sempre
acompanhado da dor, no entanto, o melhor prazer é aquele que sucede a dor. Hoje farei a
exposição do teste final: a dor e posteriormente o prazer da conquista. Acredito no sucesso de
todos vocês!

Isso pareceu reanimar um pouco os mais tranquilos, os mais nervosos permaneciam perdidos
em temor.

— Antes do teste, entretanto, é preciso realizar o sorteio das equipes. Vocês vêem estes
Jounins espalhados pela sala? Serão os líderes das equipes. É uma grande responsabilidade
para todos. Muito bem, vamos a isto. — Disse Hirako depois de um breve silêncio, tudo aquilo
também era novo para ele, no seu tom de voz e nos seus trejeitos existia do mesmo modo
uma inquietação incomum. Com o inicio do sorteio tudo parecia muito confuso, Mokusei
estava incluso neste oceano caótico de questionamentos. Hirto e eriçado à cadeira, numa
posição estranhamente inclinada para a frente, o peito pressionado contra a madeira da
carteira e o coração retumbando. Tentava absorver toda a situação, mas estava
completamente perdido, não tinha noção do que aconteceria, o que era o teste e qual seria a
sua equipe. Quê importa? Ecoou uma vozinha lá no fundo, numa escuridão remota da sua
mente. Sentiu-se frio por um instante, outro arrepio percorreu o seu corpo e ele assumiu uma
postura menos tensa, com as mãos no bolso do moletom. Respirou tranquilamente e até
permitiu-se rir consigo mesmo, como somos ridículos. É claro que isto importa, mas não posso
perder a sanidade. Pigarreou, ele parecia estranho aos olhos de si mesmo, sentia-se
conspurcado por algo novo, algo que não gostava e também não sabia. Detestava toda aquela
confusão mental. Detestava lidar com questões que considerava insolúveis. Dane-se tudo.
Seus ouvidos, assim como o de todos, estavam apurados e focavam-se à voz de Hirako.

FILLER II

Quando o primeiro estudante foi chamado, Mokusei já estava pleno e calmo. De quê adianta
tanta inquietação? Já tenho um alvo. Nada vai mudar. Pensou, meditabundo e alheio. Quando
ouviu seu nome ecoar, levantou-se com calma, carrancudo se dirigiu até à frente da classe,
onde já haviam outras duas pessoas de pé ao lado de Hirako. Se aproximou, olhou os dois
depois de parar: Shiori e Shizuko. No fim, não eram ninjas ruins, até os conhecia bem; ambos
olharam-no simultaneamente: dois pares de olhos chamejantes de vigor juvenil. As bocas
entortaram-se em sorriso, mas foi breve e sem sentido.

— Muito bem! Equipe três será completa com Miura, podem se dirigir à sala três. Lá serão
dadas as explicações.

Miura era um homem alto, a luz que vinha da janela às suas costas ofuscava a sua figura e a
tornava ainda mais imponente; ao cabo de tudo, cumprimentou seus novos discípulos e os
guiou para a saída e, ato contínuo, até uma das salas contíguas. Era ordinariamente indiferente
e falava pouco, de modo mais direto possível.

— Como é mesmo seu nome? — A pergunta escapara da boca de Shizuko com um tom
brejeiro e malicioso, em seguida teve a sensação mórbida de ter saltado de um campanário.
— Miura. — E nisso entraram na sala, era um cômodo pequeno com uma única janela, uma
escrivaninha na parede oposta da porta onde livros despejavam-se sem muita ordem, haviam
laudas e carimbos também; tudo rescendia a um mundo burocrático-militar distante. Os três
se sentiram deslocados, mas num átimo o pânico sobrepujou tal sentimento.

— Sentem-se. — Disse o Jounin, indicando friamente três cadeiras debaixo da janela, que
estava fechada, embora um vento frio soprasse pelas frestas de madeira e o som das poucas
árvores do jardim produzisse um farfalhar soporífero. Mokusei se concentrou nele, foi se
aquietando novamente, de modo que depois de pouco tempo, sentava-se totalmente largado,
com as pernas esticadas e os braços cruzados. Shiori também estava tranquila, embora
mantivesse a postura; Shizuko estava ainda aturdido com a pergunta anterior, que lhe havia
acometido sem nenhum planeio, sentia os lábios ressecados e fisgadas no coração, decidiu
calar por ora. O Jounin lançou-se à frente dos três.

— Bom dia. Começaremos com as apresentações primeiro. Me chamo Hozuki Miura, serei o
líder da equipe, o que se referir aos meus aspectos biográficos nada disso irei expor, enterrei
há muito tempo. Basta vocês saberem que sou Jounin de Iwa agora, é o suficiente. Você,
apresente-se. — Disse apontando para Mokusei, que havia se acomodado na primeira cadeira.
Seu coração saltou abruptamente, já esperava pelo momento da apresentação, mas
subestimou a possibilidade do paroxismo. Gaguejou a princípio, depois seguiu com rapidez
alucinante.

— Ah... me chamo Kaneko Mokusei, tenho treze anos e sou natural de Iwa. Tenho um forte
interesse pela mente humana, acho que foi isto que me fez aderir a esta vida: é onde se
concentra a maior parte dos loucos. — E riu, entrecortado, da própria galhofa. —
Principalmente toda esse pessoal Nukenin. É isto, eu acho. — Ficaram em silêncio mordaz
depois disto, logo Miura interviu. — Certo, o próximo é você.

Shiori estava pálida, no entanto, não era uma palidez doentia, exalava frescor, vida e era
evidente a sua animação. — Me chamo Himawari Shiori, vivi até os dez anos fora da vila, mas
fui chamada pelo Tsuchikage. Tenho treze agora e meu maior objetivo nesta vida é encontrar
os meus pais. — Sua voz carregou-se de uma fúria feminina quando citara os pais, parecia ter
um ressentimento enorme, como se sua vida tivesse sido sobremodo afetada pelo abandono,
e de fato o tinha. Não era a ânsia por um reencontro agradável, e isso pareceu chocá-los.
Destoa muito de sua aparência bonitinha. Não obstante, tudo aquilo se esboçara com
naturalidade, sem que a menina forçasse ou pretendesse nada, ela continuou falando, e de
raro em raro se via os traços de uma solidão esfalfada. — Quero também me tornar uma
grande kunoichi, mostrar que tudo pode ser alcançado com vontade e fé, e que, a despeito das
circunstâncias, o que vale é o sentido que se atribui nas coisas. Se souber disso, é imparável. —
Terminou altiva e sombria, como se fosse sua propriedade uma verdade oculta, que só ela
percebia e se gabava disso, menosprezando os outros, quiçá o próprio Miura. Espere só e verá.
Matutava.

— Interessante. — Disse desinteressado. — Você por último.

O vento diminuíra, de modo que os pensamentos irrequietos começavam a retornar; afinal,


ainda havia o grande teste. O que seria? Mokusei lançava olhares furtivos para todos, e isso
amiúde o deixava alucinado, por isto, quando notara a própria loucura se aproximando, meteu
um olhar demorado e fixo para longe, à escrivaninha. Depois se fixou no sensei, observando
aquela figura nova e misteriosa. Que raio de apresentação foi aquela? Biografia enterrada?
Não é só a garota que tem asco da infância.

Shizuko já parecia mais recuperado, embora tivesse o cenho franzido. Tinha assumido uma
seriedade nunca vista, apesar do coração opresso e das pernas imóveis, sua face irradiava uma
coragem admirável, um olhar implacável.

Esse é louco. Disse Mokusei de si para si, depois reconsiderou ao ser contagiado pela
determinação do companheiro. Minto. Nele há algo de diferente, mas belo. Até mesmo o
Jounin pareceu se impressionar, cruzou os braços e semicerrou os olhos em meditação. Só a
garota ignorou, continuou com o ar soberbo de antes.

— Me chamo Hirasawa Shikuzo, tenho catorze anos. Meu objetivo é matar os assassinos de
minha irmã. — Cuspira isto na sala, com um peso incomensurável à voz, arrastada. Em seguida
o peito se comprimiu, e não conseguia dizer palavra. Mas subentendeu que era somente isto.
Todos tiveram a impressão que um riso coriscou de relance na face de Miura, mas ficou nisto,
uma mera impressão. Mokusei afundou-se na cadeira, não saberia descrever o peso da morte
de um ente querido, olhou desconcertado e taciturno para o chão, a realidade o chocava. Mas
era o choque que a distinguia do falso, do universal abstrato. Compreendeu o sentimento de
Shizuko: era o furor da vítima, que visto de perto vertia como veneno, contaminando os
outros.

Apesar de tudo ter acontecido muito rapidamente, todos eles já pareciam se conhecer um
pouco mais. Miura prosseguiu, portanto.

— Falaremos agora do teste.

FILLER III

Shikuzo tinha o coração oprimido, no entanto, a imagem da irmã trocou, no tormento mais
fundo, o gemido da alma por um grito de ódio interior. O ódio sempre vence o medo. Pensou,
crendo ter descoberto a chave para a libertação do seus grilhões. Atentou-se, doravante, ao
que Miura disse.

— Escutem bem, pois falarei somente uma vez. — Subentendeu que essa era a primeira lição:
quando uma ordem é dada em campo de batalha, ou você a compreende imediatamente, ou
você põe em risco a vida de todo o mundo e a sua própria. — Será um teste de sobrevivência.
Vocês terão de passar dois dias isolados, em equipe, na floresta de pedra. Uma hora para a
preparação, peguem o que acharem necessário. Encontrar-vos-ei à entrada, darei mais
detalhes lá, usaremos o obelisco como referência. Até lá... — E nisso desapareceu,
liquefazendo o próprio corpo como se aquilo fosse corriqueiro deveras. Miura possuía, além
do físico, um potencial de intimidação psicológica incomum, cada trejeito, cada olhar seu
parecia mascarar uma intenção velada, um objetivo escuso. Nenhum dos três, no entanto,
compreendia exatamente o que aquilo significava, somente absorviam muito difusamente os
propósitos do homem, como se uma aura de obscuridade o envolvesse. Isso é ser um ninja?
Pensaram, em uníssono; o primeiro instinto grupal completamente inconsciente.

— Isto é um clichê, percebem? — Alertou a garota, levantando-se na direção da poça de água,


mas direcionando a voz claramente aos dois rapazes. — Vai ser bem fácil, o orfanato era muito
pior que uma floresta.

— Não é uma floresta comum, quer dizer, não sei bem dizer se a parte mais próxima da vila é
uma floresta. — Falou Shikuzo, um pouco mais tranquilo com o desaparecimento do Sensei,
sua voz, todavia, carregando migalhas de apreensão.

— Realmente, aquilo parece um monte de estalactites gigantescas no solo, são árvores feitas
de calcário... só que não são árvores. Você é nova na vila, não escutou o suficiente sobre o
lugar.

— Vejam bem, o primeiro requisito para o funcionamento de uma equipe é...? — E cessou,
olhando-os, sem reposta. — Trabalho em equipe, evidentemente. Mesmo que fosse o inferno
na terra, ele só vai testar isto, não se preocupem. Eu já entendi esse cara, ele tá tentando
amedrontar a gente.

Ambos, Mokusei e Shikuzo, olharam-se em dúvida. A tese de Shiori parecia ressoar com
alguma autenticidade, não obstante, um pensamento soturno percorria a mente de Mokusei.
Será que ela está tentando nos enganar também? Não tinha o hábito de duvidar do caráter
dos outros, mas a experiência que teve com a garota durante a academia instigava o
pensamento. Shiori era uma pessoa que se aproveitava inescrupulosamente das situações,
uma habilidade formidável para certas ocasiões, em verdade, mas aquilo pareceu a Kaneko
uma brecha para a sua debacle. Ela pode ferrar com tudo. Não alimentou nenhuma impressão
de bondade na sua figura, e, à primeira vista, não se sentiu culpado em absoluto. Despediram-
se e partiram, uma estranha ansiedade se apoderando de seus corações.

**

Mokusei preparou-se com velocidade surpreendente, era uma pessoa extremamente


organizada e tinha certos transtornos de obsessão quanto a isto. Se via uma coisa fora do
lugar, metia-se logo a organizá-la, sempre prezando por um ambiente em que houvesse uma
disposição espacial racional e que tornasse sua vida mais objetiva. Não raro deleitava-se com a
consciência da própria praticidade, embora soubesse que não passava de uma herança
genética do pai.
Quando ganhou a rua, depois de um quarto de hora, notou a presença de uma leve chuva.
Embora fosse um entusiasta, pensou que caminhar por um terreno desconhecido e
escorregadio não seria uma desvantagem pequena; "Bem, o máximo que me pode acontecer é
voltar às aulas da academia. Dane-se a garota e essa chuva." Pensara, tentando livrar-se da
angústia que representava Shiori, ao mesmo passo que tencionava diminuir a pressão da
reprovação. Isso ajudou um pouco, mas seu peito ainda parecia opresso por algo frio e sem
forma, como se uma forte corrente de ar esmagasse o seu tórax em diferentes partes.