Você está na página 1de 12

MODELAGEM E SIMULAÇÃO NUMÉRICA DA COMBUSTÃO GASOSA

SEM PRÉ-MISTURA POR MEIO DE DIFERENTES MECANISMOS DE


REAÇÃO

Pedro F. P. Ferreira
Fábio A. da Cunha
pedro.ferracuti@hotmail.com.br
fabioalfaia@unb.br
Faculdade do Gama, Universidade de Brasília
St. Leste Projeção A - Gama Leste, 72444-240, Brasília - DF, Brasil

Resumo. O presente trabalho apresenta uma modelagem matemática da combustão gasosa sem pré-
mistura e verifica o efeito do mecanismo de reação sobre os campos de velocidade, temperatura e
concentração de espécies químicas. No modelo matemático utilizado o campo de escoamento é obtido
por meio da solução das equações de Navier-Stokes, o campo de temperatura é obtido por meio da
solução da equação de conservação de energia (considerando as perdas de calor por radiação) e os
campos de concentração de espécies são obtidos por meio da solução das equações de conservação
para espécies químicas individuais. Um código computacional na linguagem do software MATLAB
foi programado para a realização das simulações, considerando domínio bidimensional e simetria
axial. O modelo de simulação proposto é validado por meio de comparação com dados experimentais.

Palavras chave: Mecanismo de Reação, Simulação Numérica, Combustão de Metano.


1 Introdução

A combustão é um problema recorrente na engenharia. A crescente preocupação com as emissões


de gases provenientes da queima de hidrocarbonetos fósseis tem impulsionado estudos sobre a
combustão. Segundo Smooke, Mitchell e Keyes [1] as conclusões derivadas de estudos de chamas
laminares são importantes na caracterização dos processos de combustão que ocorrem em chamas
turbulentas, na melhoria da eficiência de motores e na compreensão da formação de poluentes
baseados na combustão. Os autores prosseguem e dizem que ao estudar chamas laminares, pode-se
identificar reações importantes que controlam a extinção de chama e também pode-se identificar as
importantes espécies envolvidas na formação de poluentes ao mesmo tempo em que fornecemos
informações sobre a dinâmica de fluidos das chamas. Em outro estudo, Mitchell, Sarofim e Clomburg
[2] afirmam que estudo de chamas de difusão laminar auxiliam na compreensão de estruturas de
chamas de difusão turbulentas, cujos formatos podem ser aproximados como chamas laminares
enrugadas.
Os fatos citados e a importância de otimização das máquinas a combustão motivaram a proposta
do presente trabalho, que consiste em a modelar e simular a combustão em escoamento laminar sem
pré-mistura de metano considerando diferentes mecanismos de reação química. Com o tipo de
aproximação proposta será possível o cálculo de campos de velocidades, campos de temperaturas e
campos concentração de espécies químicas próximos dos observados em um equipamento real.

2 Mecanismos de reação química

Conforme Turns [3], ao discorrer sobre uma reação de combustão é necessário compreender que
uma reação química elementar ocorre quando as moléculas dos produtos se formam após uma única
colisão entre as moléculas dos reagentes. Uma reação não-elementar é formada por duas ou mais
etapas elementares. O conjunto de etapas elementares de uma reação representa o mecanismo dessa
reação. Um mecanismo detalhado de combustão pode incluir milhares de reações elementares e
dezenas de espécies químicas. Um dos mecanismos de reação mais citados na literatura para
combustão do metano é o GRI-Mech. Este é baseado em um conjunto de reações elementares, onde os
valores atribuídos para os parâmetros da taxa de reação são fornecidos pela associação de dados
teóricos, experimentais e numéricos. As primeiras versões do GRI-Mech foram o GRI-Mech 1.1,
Frenklach et al. [4], e o GRI-Mech 1.2, Frenklach et al. [5]. A versão atual é referenciada de GRI-
Mech 3.0.
Reconhecendo a complexidade de um mecanismo de reação detalhado, a modelagem racional e a
simulação de fenômenos de combustão são invariavelmente confrontadas com a necessidade de
mecanismos mais simples, mas quimicamente realistas, Law [6]. Cálculos de combustão com
mecanismos de reação detalhados estão restritos a poucas situações, que geralmente envolvem muitas
simplificações. A utilização de mecanismos de reação detalhados com fluidodinâmica computacional
torna-se impraticável para computação pessoal, uma vez que para cada espécie química considerada
deve-se resolver uma equação diferencial de conservação. Geralmente é mais desejável eliminar
espécies do que reações, porque se reduz diretamente o número de equações de conservação de
espécies que precisam ser resolvidas, HA et al. [7].
Existe uma variedade de mecanismos simplificados que podem ser utilizados em simulações
CFD: mecanismos globais, quasi-globais, reduzidos e esqueléticos.
Um mecanismo esquelético consiste em uma versão reduzida de um mecanismo de reação
detalhado, em que foi realizada uma ponderação entre a gama de aplicabilidade, a complexidade e a
precisão desejada. São eliminadas de espécies e reações que têm influência insignificante sobre certos
fenômenos de interesse. Tal eliminação pode ter base experimental ou uma avaliação sistemática dos
efeitos de diferentes espécies individuais e reações sobre a resposta de certos fenômenos de
combustão.
Com base em um mecanismo esquelético, assumindo estado quase-estacionário a certas espécies
e suposições de equilíbrio parcial a algumas reações é possível derivar um mecanismo reduzido, com
um número mínimo de equações a serem resolvidas, Zhou e Mahalingam [8]. As reações individuais
no mecanismo reduzido são agrupadas, com suas respectivas taxas de reação dependentes daqueles
elementares que constituem o mecanismo esquelético, Law [6]. Um mecanismo reduzido de 5 etapas
desenvolvido por Hewson e Bollig [9] para combustão de CH4 é exibido na tabela 2, baseado no
mecanismo detalhado para combustão de metano exibido em Seshadri e Williams [10], constituído de
39 reações elementares envolvendo 17 espécies químicas, incluindo N2.

Tabela 1. Mecanismo reduzido de 5 etapas para combustão de CH4


Reação Nº Reação
1 CH4 + 2H + H2O ↔ 4H2 + CO
2 H2O + CO ↔ H2 + CO2
3 2H ↔ H2
4 O2 + 3H2 ↔ 2H2O + 2H
5 H2 + 2CO ↔ C2H2 + O
Os mecanismos globais são aqueles que representam o comportamento geral de um mecanismo
detalhado através de um conjunto reduzido de reações, cujas concentração de reagentes e constantes
de taxa não estão relacionados a coeficientes estequiométricos, são constantes empíricas calculadas
para reproduzir valores de velocidade de chama e limites de inflamabilidade observados
experimentalmente, Westbrook e Dryer [11]. Alguns pesquisadores também têm trabalhado na
proposição de mecanismos reduzidos visando a economia de recursos computacionais, como o
proposto por Peters e Kee [12], que apresenta um número de reações e espécies similares aos
mecanismos globais, mas apresentam uma faixa de validade de temperatura e pressão mais ampla. Os
mecanismos globais de reação mais utilizados para descrever a combustão de metano em ambiente
oxidante atmosférico em CFD foram propostos por Westbrook e Dryer [13] e Jones e Lindstedt [14],
apresentados nas Fig. 1.

Figura 1- (a) Mecanismo Global. Westbrook e Dryer [13]. (b) Mecanismo Global. Jones e Lindstedt
[14].

Em mecanismos de reação quasi-globais primeiramente é considerada a oxidação parcial do


combustível para formação CO e H2. Em seguida são usados mecanismos de reação detalhados para a
oxidação de CO e H2, com todas as reações elementares e espécies do sistema CO-H2-O2, Edelman e
Fortune [15]. Esta abordagem pode fornecer uma descrição precisa do equilíbrio e dos processos pós-
chamas, como a formação de óxido nítrico de N2 e CO burnout à medida que os produtos de
combustão são resfriados. Tais mecanismos apresentam melhor concordância entre cálculos e
observações experimentais, e evitam as complicações e incertezas na descrição detalhada da cinética
de oxidação de hidrocarbonetos, Flagan e Seinfelf [16].

2.1 Tipos de taxas utilizadas nos mecanismos de reação

Remark 1: Reações Bimoleculares. Os parâmetros do coeficiente de taxa de reações bimoleculares


são expressos da seguinte maneira.
E

k  A T e
m RT
. (1)
Com unidades de concentração mol/cm3. A unidade de A é cm3/mol/s, T é em K e E em cal/mol/K.
Para reações de recombinação a unidade de A é cm6/mol2/s.

Remark 2: Reações unimoleculares e de recombinação. Os parâmetros do coeficiente de taxa para


reações de recombinação e decomposição unimolecular limitadas por baixas e altas pressões é dado
por:
E

k  A  T me RT
. (2)
Com unidades de concentração mol/cm3. As unidades de A são 1/s, cm3/mol/s e cm6/mol2/s para
reações de primeira, segunda e terceira ordem respectivamente; T é em K e E é em cal/mol/K.
Os coeficientes das taxas de baixa pressão e de reação unimolecular, que sempre estão próximas de
seus limites de baixa pressão para condições de combustão, receberam eficiências aprimoradas no
formato Chemkin. A partir do modelo, das concentrações [Mi] e das eficiências {fi}, a concentração
efetiva é calculada com a seguinte formula:
[ M ]   fi  [ M i ]
i . (3)
Onde fi=1 para todas as espécies com exceção das espécies com eficiência aprimorada, listadas na
última linha da entrada de reações. Se seu programa não lida com eficiências diferentes para espécies
diferentes automaticamente, é necessário escrever reações separadas para levar em consideração cada
uma das partículas de colisão.

Remark 3: Forma falloff do Lindemann. Este tratamento é aplicado caso nenhum parâmetro
especifico de falloff for dado. Em pressões no meio dos limites inferior e superior de pressões, o
coeficiente de taxa é dado pela formula de Lindemann:

kinf
k . (4)
kinf
1
ko [ M ]
Nos casos onde não é dado parâmetros do coeficiente de taxa no limite superior de pressão (i.e., a
partícula de colisão M como reagente não está em parêntesis), a reação ocorre no limite de pressão
inferior.

Remark 4: Forma falloff do Troe. Um tratamento mais refinado dos efeitos da pressão que o método
de Lindemann é possível utilizando os parâmetros de Troe. O parâmetro de falloff Fcent para reações
unimoleculares é calculado a partir dos valores de a, b, c, e d encontrados na formula de Troe.

Fcent  (1  a)  eT b  a  eT c  ed T . (5)


Na qual fornece Fcent em função da temperatura. Fcent é igual à 1 caso as reações unimoleculares se
comportassem de acordo com a formula de Lindemann, fazendo com que o coeficiente de taxa seja
menor que kinf/2 para dada reação unimolecular com temperatura T e pressão reduzida Pr=ko[M]/kinf.
O fator F é calculado a partir de Fcent da seguinte maneira:
log( Fcent )
log( F )  2
. (6)
 log( Pr )  C 
1  
 N  0.14[log( Pr )  C ] 
N  0.75  1.27 log( Fcent ) . (7)

C  0.4  0.67 log( Fcent )


. (8)
Remark5: Taxa de reação reversa. A medição dos coeficientes de taxa para reações elementares é
uma tarefa difícil que frequentemente leva a resultados com uma grande incerteza associada. Em
Turns [3] é exibido uma relação entre coeficientes de taxa e constantes de equilíbrio, possibilitando o
cálculo dos coeficientes de taxa com menor incerteza, uma vez que as constantes de equilíbrio
apresentam grande exatidão para maioria das espécies químicas, Turns [3].
A relação entre coeficientes de taxa e constantes de equilíbrio é exposta a seguir.
k f (T )
 K c (T )
kr (T ) . (9)
Onde kf e kr são os coeficientes de taxa das reações direta e reversa respectivamente. K c é a constante
de equilíbrio baseada em concentrações molares, e pode ser calculado com a formula a seguir.

[ X ] i
vi''

Kc 
prod
. (10)
 [ X i ]vi
'

reag

Onde [Xi] é a concentração molecular e v’’ e v’ são os coeficientes estequiométricos dos produtos e
dos reagentes respectivamente.
Na ausência da constante Kc, é possível calculá-la a partir de uma constante de equilíbrio para uma
reação de equilíbrio genérica, Kp.

K p  K c  ( RuT / P o ) 
v''  v'

. (11)
Onde Kp é calculado a partir das pressões parciais e coeficientes estequiométricos, como mostrado a
seguir.
v''
 Pi 
i

  o
prod  P 
Kp  v'
 Pi 
i

  o
reag  P 
. (12)
Para reações bimoleculares, a relação Kc=Kp pode ser utilizada.

Remark6: Taxa de produção. A taxa de produção wk para as k espécies pode ser escrita da seguinte
maneira.

  Y  
P R
v jn v jn
m K
 Y  K
wk   (v  v )  k jf (T )  n   k rj (T )  n   .
P R
(13)
 
jk jk
j 1 n 1  Wn  n 1  Wn 
 
A função k jf  k rj  é o coeficiente de taxa direto (reverso) da reação j. Assumimos que k jf depende
da temperatura modificada de Arrhenius.

exp   E jf / RT 
 jf
k jf  Ajf T (14)

A taxa de reação reversa é calculada de acordo com a Eq. (9).


3 Metodologia

A modelagem matemática da combustão em escoamento laminar é baseada na solução de


equações de conservação para diversas quantidades específicas:
• Para obtenção do campo de escoamento será necessária a solução acoplada das equações de
conservação da massa e de conservação de quantidade de movimento linear.
• Para obtenção do campo de temperaturas será necessária a solução da equação de conservação
da energia para a mistura de gases.
• Para obtenção do campo de concentração de espécies químicas será necessária a solução de
equações de conservação de espécies químicas individuais. Uma equação diferencial de conservação
para cada espécie química.
A combustão é contabilizada pelo mecanismo de reação, que é posto nos termos de fontes
presentes nas equações de conservação de espécies químicas e equação de conservação da energia. As
equações supracitadas são descritas a seguir.

3.1 Equações de Conservação

O escoamento laminar, incompressível, fluido Newtoniano, é modelado pelas equações de


Navier-Stokes, dadas como:

t        u   0 . (15)

t  u      uu      p      u        g . (16)
Em que u é o vetor velocidade, p é a pressão, ρ é a massa específica e µ é a viscosidade da
mistura de gases. O empuxo dos gases é contabilizado pelo termo (ρ- ρ∞) g, com a aceleração da
gravidade de g.
O campo de concentração de cada espécie química, para um sistema monofásico e
multicomponente, é obtido pela solução de uma equação de conservação dada como:

t  Yk      uYk       DkmYk   k
IV k  1, 2, ... , Nsp
I II III , . (17)
Notar que uma equação de conservação similar a Eq. 15 será resolvida para Nsp espécies
químicas. A acumulação transiente de espécies é contabilizada pelo termo I, o termo II representa
advecção de espécies químicas e o termo III representa a difusão de espécies. O termo IV é a taxa
líquida de produção da espécie k pela reação química, obtido do mecanismo de reação.
Para obtenção do campo de temperaturas será necessária a solução da equação de conservação da
energia para a mistura de gases, dada como:

t  c T      uc T      kT   
p p
Nsp
k 1 h f ,k k
I II III IV
. (18)
A acumulação transiente de energia é contabilizada pelo termo I, o termo II representa advecção
de energia e o termo III representa a difusão de energia. A geração de energia devido às reações
químicas é contabilizada pelo termo IV, em que hf, k é a entalpia de formação das espécies químicas.

3.2 Mecanismo de reação global

O mecanismo de reação global de quatro passos de Westbrook e Dryer [13] é utilizado nas
simulações do presente estudo, conforme apresentado na Tabela 2:
Tabela 2. Mecanismo de reação global para o metano
Reação Nº Reação
1 CH4 + 0.5O2 → CO + 2H2
2 CO + 0.5O2 → CO2
3 CO2 → CO + 0.5O2
4 H2 + 0.5O2 → H2O

3.3 Mecanismo de reação esquelético

O mecanismo de reação esquelético desenvolvido por Smooke, Mitchell e Keyes [1] será
utilizado no presente estudo, conforme apresentado a seguir, com 15 espécies e 42 reações:

Tabela 3. Mecanismo de reação esquelético para o metano


Nº Reação Nº Reação Nº Reação
1 CH4 + M ↔ CH3 + H + M 15 CO + O + M ↔ M + CO2 29 OH + H2 ↔ H2O + H
2 CH4 + O2 ↔ CH3 + HO2 16 CO + OH ↔ H + CO2 30 H + O2 ↔ OH + O
3 CH4 + H ↔ CH3 + H2 17 CO + O2 ↔ O + CO2 31 O + H2 ↔ OH + H
4 CH4 + O ↔ CH3 + OH 18 CH3 + O2 ↔ CH3O + O 32 H + O2 + M ↔ HO2 + Ma
5 CH4 + OH ↔ CH3 + H2O 19 CH3O + M ↔ CH2O + H + M 33 H + O2 + O2 ↔ HO2 + O2
6 CH2O + OH ↔ HCO + H2O 20 CH3O + H ↔ CH2O + H2 34 H + O2 + N2 ↔ HO2 + N2
7 CH2O + H ↔ HCO + H2 21 CH3O + OH ↔ CH2O + H2O 35 OH + HO2 ↔ H2O + O2
8 CH2O + M ↔ HCO + H + M 22 CH3O + O ↔ CH2O + OH 36 H + HO2 ↔ 2OH
9 CH2O + O ↔ HCO + OH 23 CH3O + O2 ↔ CH2O + HO2 37 O + HO2 ↔ OH + O2
10 HCO + OH ↔ CO + H2O 24 CH3 + O2 ↔ CH2O + OH 38 2OH ↔ H2O + O
11 HCO + M ↔ H + CO + M 25 CH3 + O ↔ CH2O + H 39 H2 + M ↔ H + H + M b
12 HCO + H ↔ H2 + CO 26 CH3 + OH ↔CH2 CH2O + H2 40 O2 + M ↔ O + O + M
13 HCO + O ↔ OH + CO 27 HO2 + CO ↔ CO2 + OH 41 H + OH +M ↔ H2O + Mc
14 HCO + O2 ↔ HO2 + CO 28 H2 + O2 ↔ 2OH 42 H + HO2 ↔ H2 + O2

4 Metodologia de solução numérica

O código computacional na linguagem MATLAB utilizado neste trabalho foi desenvolvido em


Cunha [17]. As equações diferenciais de conservação da massa, quantidade de movimento e energia
(geometria axissimétrica bidimensional e transiente) foram discretizadas utilizando o método volumes
de controle baseado em elementos - CVFEM.
Todas as simulações foram realizadas em um computador pessoal com as seguintes
especificações: Processador Intel® Core™ i7-4510U, 8GB DDR3, 1 TB HD e Windows 10 Home
Single Language 64-bit OS.

4.1 Caso teste

O estudo experimental de chama laminar feito por Mitchell et al. [18] foi a referência para o
presente trabalho.
A chama laminar é confinada em uma câmera cilíndrica axissimétrica vertical, com dois tubos
concêntricos de raios Ri e Ro, nos quais passam combustível e ar, respectivamente, como mostrado na
Fig. 2. Um esquema da chama laminar difusa também é representado na Fig. 2.
Um vidro cilíndrico é utilizado para definir a fronteira do sistema. O raio interno Ri tem 0.635 cm
e o raio externo Ro tem 2.54 cm. A câmera tem 30 cm de comprimento.
Uma das malhas utilizadas é exibida na Fig. 3. As condições de contorno e condições iniciais
utilizadas na simulação então na Tabela 4. Os valores da velocidade e fração de mistura nas entradas
estão na Fig. 2.
Entrada de combustível
Velocidade axial na entrada: uF=4.5cm/s
Velocidade radial na entrada: vF=0cm/s
Temperatura: TF=298K
Fração de massa: YCH4=1
Razão de mistura: f=1.
Entrada de ar:
Velocidade axial de entrada: uA=9.88cm/s
Velocidade radial de entrada: vA=0cm/s
Temperatura: TA=298K
Fração de massa: YO2=0.233 e YN2=0.767
Razão de mistura: f=0
Condições de operação:
Pressão na saída do queimador: p=101325Pa
Temperatura de referência: Tref=Twall=298K

Figura 2. Queimador cilíndrico vertical

Tabela 4. Condições de contorno, CC, e condições iniciais, CI


Vel. Axial Vel. Radial Fração mássica Temperatura
CI 𝑡=0 ∀𝑧Ʌ∀𝑟 𝑢=0 𝑣=0 YO2=0,233 e YN2=0,767 T=Tref
CC1 Eixo ∀𝑧Ʌ∀𝑟 𝜕𝑢/𝜕𝑟 = 0 𝑣=0 𝜕𝑌𝑘 /𝜕𝑟 = 0 𝜕𝑇/𝜕𝑟 = 0
CC2 Parede ∀𝑧Ʌ∀𝑟 𝑢=0 𝑣=0 𝑌𝑘 = 𝑌𝑤𝑎𝑙𝑙 T= Tref
CC3 Entrada ∀𝑧Ʌ∀𝑟 𝑢 = 𝑢𝑒 𝑣=0 𝑌𝑘 = 𝑌𝑖𝑛 T= Tref
CC4 Saída ∀𝑧Ʌ∀𝑟 𝜕𝑢/𝜕𝑍 = 0 𝜕𝑣/𝜕𝑍 = 0 𝜕𝑌𝑘 /𝜕𝑍 = 0 𝜕𝑇/𝜕𝑍 = 0

Figura 3. Malha de elementos finitos.

5 Resultados e discussão

Os resultados obtidos através de simulação serão apresentados e comparados aos dados


experimentais de Mitchell et al. [18]. Com as comparações pretende-se verificar a precisão dos
mecanismos empregados.
O tempo de CPU gasto para simulação do mecanismo de reação esquelética e global foi de
25859s e 4130s, respectivamente. A diferença dos tempos para finalizar as simulações ocorre devido
ao incremento de espécies e equações químicas presentes em cada mecanismo de reação. O
mecanismo esquelético utilizado possui 15 espécies químicas e 42 equações sendo o mais detalhado e
fornecendo resultados mais precisos.
Os perfis radiais das frações molares para 3 valores fixos axiais (z=1.2 e 5.0 cm) de CH4, O2,
CO2, H2O são mostrados neste trabalho, Fig. 4 a Fig. 5, sendo comparados com os dados
experimentais de Mitchell et al. [18]. Gráficos de velocidade axial, perfil da temperatura no eixo de
simetria e perfil radial de temperatura (z=1.2 e 5.0 cm), Fig. 6 a Fig. 8 também são apresentados.

Figura 4. Comparação de perfis em z=5,0 cm. (a) Fração molar H2O e CO2 (b) Fração molar CH4 e O2.
Dados experimentais Mitchell et al. [18].

Figura 5. Comparação de perfis em z=1,2 cm. (a) Fração molar H2O e CO2 (b) Fração molar CH4 e O2.
Dados experimentais Mitchell et al. [18].
Figura 6. Perfil radial de temperatura. (a) z=1,2 cm (b) z=5,0 cm. Dados experimentais Mitchell et al.
[18].

Figura 7. Perfil de temperatura no eixo de simetria. Dados experimentais Mitchell et al. [18].

Figura 8. Velocidade axial. Dados experimentais Mitchell et al. [18].

Os resultados apresentados nas Fig. 4 a Fig. 8 mostram que o modelo utilizado no presente
trabalho captura a tendência dos resultados experimentais.
A partir da Fig. 4 e Fig. 5 pode-se encontrar o limite da chama nas alturas z=1,2 e z=5,0 cm, que
ocorre quando as frações molares de CH4 e O2 se igualam a zero. A concentração máxima de H2O e
CO2 ocorre quando o perfil de temperatura radial também é máximo. Este efeito também foi
observado por Mitchell [2] e Smooke [1]. A temperatura, fora da região de reação, decai
aceleradamente uma vez que a energia é conduzida para longe da região da chama, Mitchell [2].
Os perfis de temperatura, presentes na Fig. 6, apresentam comportamento bastante similar ao das
curvas experimentais mesmo fora dos limites da chama, devido a utilização do modelo de taxas finitas
implementado no presente trabalho. Os perfis de temperatura apresentados no presente trabalho
possuem boa concordância com os dados experimentais.
A velocidade axial apresenta comportamento mencionado por Guessab et al. [19], decrescendo
em todos valores de z e tendendo a zero a partir de uma distância radial, tal comportamento é exibido
na Fig. 8. A expansão durante combustão explica o pico na velocidade no limite da chama, mais
visível nas curvas com z=2,4 e 1,2 cm, apresentado na Fig. 8. Fenômeno também mencionado por
Mitchell [2].
O perfil de chama para os modelos utilizados no presente trabalho são apresentados na Fig. 9.

Figura 9. Perfil de chama. (a) Mecanismo esquelético. (b) Mecanismo global.

A altura da chama é definida por Smooke [1], Leitão [20], Sauer [21], Xu [22], como a posição
axial na qual se localiza a maior temperatura ao longo do eixo de simetria. O mesmo critério foi
utilizado no presente trabalho.
Analisando a Fig. 7, pode-se observar que a altura da chama é superestimada, justificando a
discrepância no perfil de fração molar de CH4 em z=5,0 cm em relação aos dados experimentais,
conforme apresentado por Leitão [20].

6 Conclusão

A modelagem e a simulação da combustão laminar sem pré-mistura foi realizada neste trabalho
utilizando dois mecanismos de reação química diferentes.
Os resultados obtidos foram condizentes com os dados experimentais, encontrando poucas
divergências. Tais divergências podem ser contornadas utilizando uma modelagem mais detalhada e
uma malha mais refinada.
O tempo gasto utilizando o mecanismo esquelético é 6,26 vezes maior que o mecanismo global,
portanto conclui-se que, para uma análise preliminar, a utilização de um mecanismo simples, como o
mecanismo global utilizado no presente trabalho, é uma ótima simplificação para aplicações dentro da
engenharia. É evidente que para aplicações que necessitam uma acurácia maior a implementação de
mecanismos mais detalhados é necessária.

References

[1] M. D. Smooke. R. E. Mitchell e D. E. Keyes. Numerical solution of two-dimensional axisymmetric


laminar diffusion flames. Combust. Sci. And Tech, vol. 67, pp. 85–122, 1989.
[2] R. E. Mitchell. A. F. Sarofim and L. A. Clomburg. Experimental and numerical investigation of
confined laminar diffusion flames. Combust. Flame, vol. 37, pp. 227-244, 1980.
[3] S. R. Turns. An introduction to combustion: Concepts and Applications. McGraw-Hill Education,
2011.
[4] M. Frenklach. H. Wang. M. Goldenberg. G. P. Smith. D. M. Golden. C. T. Bowman. W. C.
Gardiner. e V. Lissianski. GRI-Mech An optimized detailed chemical reaction mechanism for methane
combustion. Technical Report Report No. GRI-95/0058", Gas Research Institute, 1995a.
[5] M. Frenklach. H. Wang. C. Yu. M. Goldenberg. C. T. Bowman. R. K. Hanson. D. F. Davidson. E.
J. Chang. G. P. Smith. D. M. Golden. W. C. Gardiner e V. Lissianski. GRI-mech 1.2. Technical
Report, Gas Research Institute, 1995b.
[6] C. K. Law. Combustion physics. Cambridge University Press, 2006.
[7] J. Ha. Z. Zhu. Computation of Turbulent Reactive Flows In Industrial Burners. Applied
Mathematical Modeling, vol. 22, pp. 1059-1070, 1998.
[8] X. Zhou. S. Mahalingam. Evaluation of reduced mechanism for modeling combustion of pyrolysis
gas in wildland fires. Combust. Sci. And Tech, vol. 171, pp. 39–70, 2001.
[9] J. C. Hewson. M. Bollig. Reduced mechanisms for NOx emissions from hydrocarbon diffusion
flames. Symposium (International) on Combustion, vol. 26, pp. 2171-2179, 1996.
[10] K. Seshadri. F. A. Williams. Reduced chemical systems and their application in turbulent
combustion. Turbulent Reactive Flows, Edited by P.A. Libby, University of California San Diego,
California, USA, pp. 153-205, 1994.
[11] C. K. Westbrook. F. C. Dryer. Chemical kinetic modeling of hydrocarbon combustion. Energy
and Combustion Science, vol. 10, pp. 1-57, 1984.
[12] N. Peters. R. J. Kee. The Computation of Stretched Laminar Methane-Air Diffusion Flames
Using a Reduced Four-Step Mechanism. Combust. Flame, vol. 68, pp. 17-29, 1987.
[13] C. K. Westbrook. F. C. Dryer. Simplified Reaction Mechanisms for the oxidation of hydrocarbon
fuels in flames. Combust. Sci. Tech. vol. 27, pp. 31-43, 1981.
[14] W. P. Jones. R. P. Lindstedt. Global Reaction Schemes for Hydrocarbon Combustion.
Department of Chemical Engineering and Chemical Technology, Imperial College, London, England,
1988.
[15] R. B. Edelman. O. F. Fortune. A quasi-global chemical kinetic model for the finite rate
combustion of hydrocarbon fuels with application to turbulent burning and mixing in hypersonic
engines and nozzles. 10.2514/6.1969-86.
[16] R. C. Flagan. J. H. Seinfeld. Fundamentals of Air Pollution Engineering, California Institute of
Technology, Prentice-Hall, New Jersey, 1988.
[17] F. A. Cunha. Modelo matemático para estudo de processos reativos de partículas de carvão
e biomassa. Faculdade de Tecnologia, Departamento de Engenharia Mecânica, UnB,
Mecânica dos fluidos, Brasília, Brasil, 2010.
[18] R. E. Mitchell. Nitrogen Oxide Formation in Laminar Methane-Air Diffusion Flames.
Massachusetts Institute of Technology, 1975.
[19] A. Guessab. A. Aris. A. Bounif. I. Gokalp. Numerical analysis of confined laminar diffusion
flames - effects of chemical kinetic mechanisms. IJARET, vol. 4, pp. 59-78, 2013.
[20] R. J. Leitão. Escoamentos reativos de jatos concorrentes laminares na presença de ondulações.
Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e pesquisa de engenharia, UFRJ, 2017.
[21] V. M. Sauer. Análise de escoamentos reativos de biocombustíveis em dutos. Instituto Alberto
Luiz Coimbra de Pós-graduação e pesquisa de engenharia, UFRJ, 2012.
[22] Y. Xu. M. D. Smooke. Application of a primitive variable Newton’s method for the calculation of
an axisymmetric laminar diffusion flame. Journal of computational physics, vol. 104, pp. 99-109,
1993.