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RADICAIS LIVRES: CONCEITOS E MECANISMO DE LESÃO

Artigo de Revisão

Radicais livres: conceitos, doenças relacionadas, sistema de


defesa e estresse oxidativo
A.L.A. FERREIRA, L.S. MATSUBARA
Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Botucatu, Botucatu, SP.

UNITERMOS: Radicais livres. Íons ferro. Lesões oxidativas. oxigênio fazem intercâmbio com os dois elétrons de
Estresse oxidativo. Defesa antioxidante. outro elemento oxigênio, formando um composto es-
tável com 12 elétrons na última camada (L). Assim:
KEY WORDS: Oxygen species. Ions iron. Oxidative damage.
Pulmonary injury. K 1s 2

➝➝
L 2s2 2p4





L 2s2 2p4

➝ ➝


➝ ➝




Nas últimas décadas, foram realizadas inúmeras
pesquisas para esclarecer o papel dos radicais livres K 1s 2
em processos fisiopatológicos como envelhecimento,
câncer, aterosclerose, inflamação, etc. Ao abrirmos É conveniente recordar que reações de redução
um periódico, com freqüência, encontramos temas implicam em ganho de elétrons, e as de oxidação, em
relacionados a radicais livres, que, por seu caráter perda. Portanto, quando no metabolismo normal
multidisciplinar, têm atraído a atenção de pesquisa- ocorrer uma redução do oxigênio molecular (O2), este
ganhará um elétron, formando o radical superóxido
dores de várias áreas. No entanto, os artigos desta .
(O2- ), considerado instável por possuir número ím-
linha de pesquisa, muitas vezes, causam desinteres-
se no leitor não-especializado, porque estão mergu- par (13) de elétrons na última camada L. Assim, a
lhados num mundo bioquímico de difícil entendi- configuração eletrônica do radical superóxido é a
mento. O objetivo do presente artigo é fornecer seguinte:
conceitos importantes a esses leitores, com a finali-
K 1s 2
➝➝

dade de desmistificar o tema.


L 2s2 2p5




O QUE É RADICAL LIVRE? L 2s2 2p4


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➝ ➝



As camadas eletrônicas de um elemento químico K 1s 2


são denominadas K, L, M e N, e seus subníveis, s, p, Compreendendo as etapas da formação de O 2- ,
.
d, f. De maneira simples, o termo radical livre refere- podemos verificar que os radicais livres são forma-
se a átomo ou molécula altamente reativo, que con- dos em um cenário de reações de óxido-redução, isto
têm número ímpar de elétrons em sua última cama- é, ou cedem o elétron solitário, oxidando-se, ou
da eletrônica1,2. É este não-emparelhamento de elé- recebem outro, reduzindo-se. Portanto, os radicais
trons da última camada que confere alta reatividade livres ou provocam ou resultam dessas reações de
a esses átomos ou moléculas. óxido-redução.
Vamos acompanhar a formação de um radical Na verdade, radical livre não é o termo ideal para
.
livre, o superóxido (O2- ), que é derivado do oxigênio designar os agentes reativos patogênicos, pois al-
molecular (O2). O O2 é composto por dois elementos guns deles não apresentam elétrons desemparelha-
oxigênio (O), cujo número atômico é 8, sendo sua dos em sua última camada. Como em sua maioria são
distribuição de életrons a seguinte: derivados do metabolismo do O 2, no decorrer deste
texto utilizaremos o termo “espécies reativas do
metabolismo do oxigênio” (ERMO) para referirmo-

K 1s2

nos a eles.

L 2s2 2p4



ERMO são encontradas em todos os sistemas


biológicos. Em condições fisiológicas do metabolismo
Para formar o oxigênio molecular (O2), os dois celular aeróbio, o O2 sofre redução tetravalente, com
elétrons solitários do subnível p de um elemento aceitação de quatro elétrons, resultando na forma-

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onde foi produzido confirma sua alta reatividade.


Assim, se o hidroxila for produzido próximo ao DNA
e a este DNA estiver fixado um metal, poderão
ocorrer modificações de bases purínicas e piri-
midínicas, levando à inativação ou mutação do DNA.
Além disso, o hidroxila pode inativar várias proteí-
nas (enzimas e membrana celular), ao oxidar seus
grupos sulfidrilas (-SH) a pontes dissulfeto
(-SS). Também pode iniciar a oxidação dos ácidos
graxos polinsaturados das membranas celulares
(lipoperoxidação)4.

Peróxido de hidrogênio (H2O2)


Apesar de não ser um radical livre, pela ausência
de elétrons desemparelhados na última camada, o
H2O2 é um metabólito do oxigênio extremamente
deletério, porque participa da reação que produz o
.
OH (fig. 1). O H2O2 tem vida longa, é capaz de
atravessar camadas lipídicas, pode reagir com a
membrana eritrocitária e com proteínas ligadas ao
Fig. 1 — Redução tetravalente do oxigênio molecular (O 2)
Fe++5. Assim, é altamente tóxico para as células; esta
na mitocôndria até a formação de água (H2O). Várias
espécies reativas de O2 são formadas no processo. (Adap- toxicidade pode ser aumentada de dez para mil vezes
tado de Cohen MV3.) quando em presença de ferro 6, como ocorre, por
exemplo, na hemocromatose transfusional.
ção de H2O (fig. 1). Durante esse processo são forma-
Oxigênio singlet (1O2)
dos intermediários reativos, como os radicais supe-
. .
róxido (O2- ), hidroperoxila (HO2 ) e hidroxila (OH), É forma excitada de oxigênio molecular e não
e o peróxido de hidrogênio (H2O2). Normalmente, a possui elétrons desemparelhados em sua última ca-
redução completa do O2 ocorre na mitocôndria, e a mada. O 1O2 tem importância em certos eventos
reatividade das ERMO é neutralizada com a entrada biológicos, mas poucas doenças foram relacionadas
dos quatro elétrons3. à sua presença1.
Embora as ERMO possam ser mediadoras de
Radical superóxido (O2- )
. doenças, sua formação nem sempre é deletéria, como
.
Pode ser escrito como O2- ou O2- e é formado após na defesa contra a infecção, quando a bactéria esti-
a primeira redução do O2. O radical superóxido ocorre mula os neutrófilos a produzirem espécies reativas
em quase todas as células aeróbicas e é produzido com a finalidade de destruir o microorganismo7,8.
durante a ativação máxima de neutrófilos, monócitos, Contudo, poderão ocorrer vários eventos nosológi-
macrófagos e eosinófilos1,4. Apesar de ser considerado cos, se houver estímulo exagerado na produção des-
pouco reativo em soluções aquosas, tem sido observa- sas espécies, e a ele estiver associada uma falha da
da lesão biológica secundária a sistemas geradores de defesa antioxidante (ver quadro na página seguinte).
.
O2- (seja enzimático, fagocítico ou químico) 1.
. IMPORTÂNCIA DO ÍON FERRO NA
Radical hidroperoxila (HO2 ) FORMAÇÃO DAS ERMO
Representa a forma protonada do radical superó-
O estudo sobre os mecanismos de lesão oxidativa
xido, ou seja, possui o próton hidrogênio. Existem
tem, progressivamente, confirmado a ação catalítica
evidências de que o hidroperoxila é mais reativo que
dos metais nas reações que levam a estas lesões. O
o superóxido, por sua maior facilidade em iniciar a
papel dos metais na formação in vitro das ERMO é
destruição de membranas biológicas1.
confirmado pelas reações de Fenton e de Haber-
Radical hidroxila (OH )
. Weiss1,9,10. Embora o cobre possa também catalisar a
reação de Haber-Weiss, o ferro é o metal pesado mais
É considerada a ERMO mais reativa em sistemas abundante no organismo e está biologicamente mais
biológicos. A combinação extremamente rápida do capacitado para catalisar as reações de oxidação de
.
OH com metais ou outros radicais no próprio sítio biomoléculas11. Como pode ser observado a seguir,

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Quadro — Eventos relacionados a espécies reativas de O2* Lesões teciduais associadas a sangramentos tam-
bém podem liberar hemoglobina (Hb) e ferro, favore-
Envelhecimento cendo reações oxirredutoras, como nos tumores e na
Mutações
Câncer
artrite reumatóide, quando o ferro é liberado da Hb
Aterosclerose após microssangramentos1.
Lesão por toxicidade de O2 em pulmão e retina
Lesão pós-isquemia e reperfusão de cérebro, coração, pele,
intestino, pâncreas, fígado, músculo, rins e pulmões LIPOPEROXIDAÇÃO
Lesão pós-concussão cerebral e pós-hipertensão intracraniana
Síndrome demencial Todos os componentes celulares são suscetíveis à
Disfunção renal pós-transplante ação das ERMO, porém a membrana é um dos mais
Artrite reumatóide
atingidos em decorrência da peroxidação lipídica,
Hemocromatose transfusiomal
Doenças auto-imunes que acarreta alterações na estrutura e na per-
Toxicidade decorrente da exposição a xenobióticos meabilidade das membranas celulares 13. Conse-
*Adaptado de Halliwell B & Gutteridge JMC1; Halliwell B 2; Cohen MV3.
qüentemente, há perda da seletividade na troca
iônica e liberação do conteúdo de organelas, como as
enzimas hidrolíticas dos lisossomas, e formação de
nas reações de Fenton e de Haber-Weiss são forma- produtos citotóxicos (como o malonaldeído), culmi-
dos diferentes tipos de ERMO: nando com a morte celular 14. A lipoperoxidação tam-
Reação de Fenton: bém pode estar associada aos mecanismos de enve-
. lhecimento, de câncer e à exacerbação da toxicidade
Fe ++ + O2 <———-> Fe+++ + O2 - de xenobióticos 15. Assim como na formação das
2O2-
. + 2H + ————> O2 + H2 O 2 ERMO, nem sempre os processos de lipoperoxidação
. são prejudiciais, pois seus produtos são importantes
Fe ++ + H 2O 2 ————> Fe+++ + OH- + OH na reação em cascata a partir do ácido aracdônico
É sugerido que no traumatismo craniencefálico (formação de prostaglandinas) e, portanto, na res-
ocorram ERMO por mecanismo tipo Fenton. A libe- posta inflamatória1. Todavia, o excesso de tais pro-
ração do ferro intracelular, a baixa capacidade dutos pode ser lesivo16.
liquórica de ligação ferro-proteína e a deficiência de A lipoperoxidação é uma reação em cadeia, repre-
enzimas antioxidantes no sistema nervoso central sentada pelas etapas de iniciação, propagação e
ampliam os riscos de lesão induzida pelo trauma2. O terminação. Estas etapas estão apresentadas nas
papel do ferro neste tipo de agressão é demonstrado reações seguintes, onde L representa o lipídio17:
pela diminuição da degeneração cerebral pós-trau- LH
. . .
+ OH (ou LO ) ———> L + H2O (ou LOH) Iniciação
ma em animais experimentais que recebem quelante
L
. + O2 ———> LOO
. Propagação
de ferro. É possível que a quelação do ferro liberado . .
.
após o trauma iniba a formação de ERMO catalisa- LH + LOO ———> L + LOOH Propagação
das por este metal1.
. .
LOO + L ———> LOOL Terminação
Reação de Haber-Weiss: .
LOO + LOO
. ———> LOOL + O2 Terminação
Fe +++
+ O 2-
. <———-> Fe ++
+ O2 A reação acima inicia-se com o seqüestro do hidro-
Fe ++
+ H 2O 2 ————> Fe +++
+ OH- + OH
. gênio do ácido graxo polinsaturado (LH) da membra-
.
O 2-
. + H 2O 2 ————> O2 + OH- + OH-
na celular. Tal seqüestro pode ser realizado pelo OH
.
ou pelo LO (radical alcoxila), com conseqüente for-
.
mação do L (radical lipídico). Na primeira equação
Experimentos in vivo sugerem que a síndrome .
da reperfusão pós-isquemia, em corações de ratos de propagação, o L reage rapidamente com o O2,
.
resultando em LOO (radical peroxila), que, por sua
submetidos à sobrecarga de Fe+++ , possa estar rela-
cionada à produção de ERMO via reação de Haber- vez, seqüestra novo hidrogênio do ácido graxo polin-
Weiss. Nesta situação, após a reperfusão, ocorre
.
saturado, formando novamente o L na segunda
decréscimo da contratilidade miocárdica sem que equação de propagação. O término da lipopero-
se observe lesão tissular importante. Foi sugerido
. .
xidação ocorre quando os radicais (L e LOO ) produ-
que o excesso de Fe +++ , catalisando a reação de zidos nas etapas anteriores propagam-se até des-
Haber-Weiss, promova o acúmulo de ERMO, den- truirem-se a si próprios.
.
tre elas o OH . O excesso de Fe +++ e, conseqüente- A lipoperoxidação pode ser catalisada por íons
.
mente, de OH estimula a lipoperoxidação de ferro, por conversão de hidroperóxidos lipídicos
membranas, responsável pela diminuição da con- (LOOH) em radicais altamente reativos (alcoxila,
tratilidade miocárdica12 .
. .
LO e peroxila, LOO ), que, por sua vez, iniciam

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Existem várias evidências da atividade protetora


dos componentes do sistema antioxidante. As lesões
de reperfusão pós-isquemia de coração, rim, fígado e
intestino são prevenidas por SOD, catalase ou
allopurinol, sendo este último um bloqueador da
.
produção de O2- , pela via da xantina-oxidase15.

Glutationa reduzida (GSH)


A glutationa reduzida (GSH, L-γ-glutamil-L-cis-
teinil-glicina) está presente na maioria das células
e é o tiol (-SH) mais abundante no meio intra-
celular 22. Sua capacidade redutora é determinada
pelo grupamento -SH, presente na cisteína. A GSH
Fig. 2 — Mecanismo de lesão e proteção eritrocitárias na pode ser considerada um dos agentes mais impor-
sobrecarga de ferro. A hemólise poderá ocorrer se a capa- tantes do sistema de defesa antioxidante da célula,
cidade de defesa antioxidante for superada pela capaci- protegendo-a contra a lesão resultante da exposição
dade oxidativa do agente. (Adaptado de Gilbert HF & Mc
Lean VM27; Winterbourn CC40; Rice-Evans C et al.41.) a agentes como íons ferro 23, oxigênio hiperbárico,
ozona, radiação e luz ultravioleta 24. Além disto,
diminui a suscetibilidade à lesão renal decorrente
nova cadeia de reações, denominada ramificação. da isquemia e reperfusão15; atua como transporta-
Essas reações, que podem ser rápidas ou lentas, dora e reservatório da cisteína e participa da
dependem da valência do ferro18, a saber: detoxificação de agentes químicos e da eliminação
LOOH + Fe++ —rápida—> LO + OH + Fe+++
. . de produtos da lipoperoxidação. Ainda, é requerida
.
LOOH + Fe+++ —lenta——> LOO + H+ + Fe++ para a síntese de DNA, de proteínas e de algumas
. prostaglandinas24.
O radical hidroxila (OH ) é freqüentemente reco- O poder antioxidante da GSH foi demonstrado
nhecido como a espécie iniciadora e a mais importan- pelo aumento da sobrevida de 90% de ratos submeti-
te da lipoperoxidação10. Entretanto, estudos recen- dos à hiperoxia e tratados com instilação de eritró-
tes indicam que o ferro também desempenha papel citos na traquéia. Este resultado foi atribuído à GSH
determinante na iniciação deste processo, sendo intra-eritrocitária, que protege contra o “pulmão de
necessária uma relação equimolar Fe+++ : Fe++ no choque” induzido pelo estresse oxidativo resultante
meio, para que ocorra a lipoperoxidação19,20. da hiperoxia25.
Quando comparado ao grupo controle, o nível de
SISTEMAS DE DEFESA ANTIOXIDANTE GSH está aumentado em pacientes com diabetes
melito tipo II tratados com sufoniluréia; é possível
Em sistemas aeróbicos, é essencial o equilíbrio que isto se relacione com a disponibilidade de
entre agentes óxido-redutores (como as ERMO) e o grupamentos -SH presentes no medicamento26.
sistema de defesa antioxidante (fig. 2). Como vimos,
esses agentes são gerados endogenamente como con- Glutationa-redutase (GSH-Rd)
seqüência direta do metabolismo do O2 e também em
situações não-fisiológicas, como a exposição da célu- Após exposição da GSH ao agente oxidante,
la a xenobióticos que provocam a redução incompleta ocorre sua oxidação a GSSG 21 (fig. 2). A recupera-
de O216. Para proteger-se, a célula possui um sistema ção da GSH é feita pela enzima GSH-Rd, uma
de defesa que pode atuar em duas linhas. Uma delas etapa essencial para manter íntegro o sistema de
atua como detoxificadora do agente antes que ele proteção celular 27. Habitualmente, a reserva in-
cause lesão. Esta linha é constituída por glutationa tracelular de GSH-Rd é alta e somente uma grave
reduzida (GSH), superóxido-dismutase (SOD), cata- deficiência desta enzima resultará em sinais clíni-
lase, glutationa-peroxidase (GSH-Px) e vitamina E. cos 28. A GSH-Rd é uma flavoproteína dependente
A outra linha de defesa tem a função de reparar a da nicotinamida-adenina-dinucleotídeo-fosfato
lesão ocorrida, sendo constituída pelo ácido ascórbi- reduzida (NADPH) e, portanto, também depen-
co, pela glutationa-redutase (GSH-Rd) e pela GSH- dente da integridade da via das pentoses 16 . Sob
Px, entre outros. Com exceção da vitamina E (α- condições de diminuição do fornecimento de
tocoferol), que é um antioxidante estrutural da NADPH, como no jejum e na deficiência de glicose-
membrana, a maior parte dos agentes antioxidantes 6-fosfato desidrogenase (G6PD), há prejuízo da
está no meio intracelular16, 21. função da GSH-Rd 15 .

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Glutationa-peroxidase (GSH-Px) Ao lado dos antioxidantes vitamínicos disponíveis


em medicamentos, destacam-se também os deriva-
A GSH-Px catalisa a redução do peróxido de hidro-
dos tióis, entre eles a N-acetilcisteína e mercap-
gênio (H2O2) e peróxidos orgânicos para seus corres-
topropionilglicina (MGP). Tais derivados são antio-
pondentes alcoóis às custas da conversão da GSH a
xidantes sintéticos que contêm o grupo -SH em sua
GSSG15 (fig. 2). Embora a GSH-Px tenha ação funda-
composição. A capacidade antioxidante da N-acetil-
mentalmente citosólica, in vitro ela é capaz de redu-
cisteína foi demonstrada pela melhora da compla-
zir hidroperóxidos de membrana 21.
cência pulmonar, mas não da sobrevida, de pacientes
Em modelo de hemocromatose experimental foi
com síndrome da angústia respiratória do adulto
demonstrada redução de 36% na atividade da GSH-
(SARA) que receberam a droga endovenosa34,35. E
Px em fígado de ratos29.
pelo aumento da taxa de sobrevivência de retalhos
de pele de ratos submetidos à isquemia do pedículo
Catalase
vascular após administração endovenosa de MGP36.
A catalase é uma hemeproteína citoplasmática
que catalisa a redução do H2O2 a H2O e O2 (fig. 2). É
ESTRESSE OXIDATIVO
encontrada no sangue, medula óssea, mucosas, rim
e fígado30. Sua atividade é dependente de NADPH 5. Na inativação de um agente oxidante ocorre pro-
A suplementação de catalase exógena previne a dução de GSSG e depleção de GSH (fig. 2). Em
oxidação da GSH mediada pelo H2O2, em eritrócitos situações em que o sistema de óxido-redução está
humanos normais5, e também inibe as lesões oxi- íntegro, haverá recuperação da GSH. Entretanto,
dativas do DNA de timo de carneiros submetidos à sob condições de excesso de agentes oxidantes e/ou
sobrecarga de Fe+++31. Em modelo de estresse oxi- deficiência do sistema protetor, haverá desequilíbrio
dativo decorrente de agressão térmica, os eritrócitos entre o consumo de GSH e a produção de GSSG, o que
exibem diminuição da atividade da catalase durante caracteriza o estresse oxidativo15,27,37. Assim, a mag-
o processo hemolítico termodependente8. nitude do estresse oxidativo pode ser monitorada
pela razão GSSG/GSH. Em pulmões de ratos subme-
Superóxido-dismutase (SOD) tidos à hiperoxia por 48 horas, esta razão está
A SOD corresponde a uma família de enzimas com significantemente aumentada, quando comparada a
diferentes grupos prostéticos em sua composição. de grupo controle não exposto38.
Nos sistemas eucariontes existem duas formas de O excesso de GSSG resulta em ambiente mais
SOD. A forma SOD-cobre-zinco está presente princi- oxidante, que favorece a formação de pontes dissul-
palmente no citosol, enquanto que SOD-manganês feto (-SS-) nas proteínas portadoras de grupamento
está localizada primariamente na mitocôndria. Esta tiol (-SH). As pontes dissulfeto oxidam estas proteí-
enzima também tem papel antioxidante, já que nas, com prejuízo de suas funções. Esta oxidação é
catalisa a dismutação do radical superóxido em H2O2 reversível às custas da ação de compostos antioxi-
e O2, na presença do próton H +16,32 (fig. 2). dantes, como a GSH27.
Durante o processo hemolítico decorrente de Utilizando-se o eritrócito como célula-alvo, des-
agressão térmica, os glóbulos vermelhos humanos8 e creveremos, a seguir, o fenômeno de estresse oxida-
bovinos33 exibem queda da atividade SOD. A adição tivo.
desta enzima também protege o DNA de lesões A membrana do glóbulo vermelho contém grande
provocadas pela sobrecarga de Fe +++31. número de grupos -SH, e os agentes oxidantes podem
Além dos antioxidantes citados, a vitamina E converter estes grupos tióis (R-SH) em componentes
confere proteção à membrana celular por atuar como dissulfeto (R-SSG), levando à desnaturação das pro-
quelante dos oxidantes produzidos durante a lipope- teínas da membrana 27. Neste processo, pode ocorrer
roxidação. É um importante antioxidante lipofílico, lesão intracelular, com oxidação da hemoglobina
mas esta função poderá estar limitada em situações (Hb) à Meta-Hb, que precipita e forma os corpúsculos
de sobrecarga de ferro. O β-caroteno interage com as de Heinz39,40.
ERMO especialmente quando ocorrem baixas ten- O componente lipídico da membrana eritrocitária
sões de O2, enquanto que a vitamina E se mostra está também sujeito à agressão oxidativa. Os produ-
mais eficiente quando há altas tensões de O2 no meio. tos desta lipoperoxidação podem induzir o estresse
A vitamina C, ou ascorbato, é um antioxidante oxidativo intracelular41.
hidrossolúvel que pode neutralizar diretamente as A associação dos fenômenos lipoperoxidação, for-
ERMO; porém, pode funcionar como pró-oxidante mação de corpúsculos de Heinz e oxidação dos gru-
quando em dose elevada, ou quando exposta a metal, pos -SH poderão promover a lesão da membrana do
levando à lipoperoxidação16,21. glóbulo vermelho. Se a eficiência do sistema antioxi-

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dante for superada pela magnitude destes fenôme- tema conforme a espécie envelhece 47-52. Um estudo
nos, ocorrerá o estresse oxidativo, que culminará em clínico realizado por nosso grupo comparou jovens de
hemólise. A fig. 2 esquematiza a relação destes 30 anos e idosos de 69 anos em média, ambos sadios.
processos, considerando o ferro como o agente agres- Os resultados mostram que os idosos apresentam
sor oxidante e o eritrócito como célula-alvo. No níveis menores de GSH e diminuição da atividade de
entanto, é possível generalizar este padrão de agres- GSH-Rd e GSH-Px eritrocitários em relação aos
são e defesa celular antioxidante para grande parte jovens. No mesmo estudo, foi analisado outro grupo
dos tecidos do organismo. de idosos portadores de diabetes melito tipo II trata-
dos com sulfoniluréia, medicamento oral composto
por grupos -SH em sua estrutura. Este grupo apre-
DOENÇAS ASSOCIADAS À ERMO
sentou maior nível GSH e maior atividade de GSH-
Existem evidências de que as ERMO possam estar Rd e GSH-Px, em relação ao grupo de idosos sadios.
envolvidas em mais de 50 doenças ou eventos noso- Estas observações sugerem que a doença ou o trata-
lógicos. Além das já citadas, as doenças pulmonares mento podem estimular o sistema antioxidante
associadas às ERMO são: enfisema, displasia bron- eritrocitário em idosos26. Outro estudo que relacio-
copulmonar, pneumoconiose, toxicidade por bleomi- nou envelhecimento com o sistema de defesa em
cina, paraquat, butilidroxitolueno, fibras minerais e eritrócitos mostrou que não há consumo de vitamina
fumo, asma e SARA42,43. Nesta última síndrome, a A e E com o aumento da idade de indivíduos saudá-
origem das ERMO parece estar relacionada à ativa- veis53. Entretanto, pode haver diminuição do nível
ção neutrofílica pelo complemento 44. Está bem docu- muscular de vitamina E após exercício físico em
mentado que, após a chegada dos neutrófilos no idosos54. Outras doenças freqüentes na velhice e já
interstício pulmonar, a ativação destas células gera consagradas como conseqüentes ao estresse oxidativo
radical superóxido, que lesa diretamente a membra- são a doença de Parkinson, o acidente vascular cere-
na das células intersticiais e do endotélio. Como bral, a doença de Alzheimer, a esclerose múltipla e
conseqüência, ocorre lesão tissular progressiva, pois catarata. Aqui cabem novas perguntas: o envelheci-
o neutrófilo ativado também libera enzimas proteo- mento pode ser considerado causa ou conseqüência
líticas que degradam a elastina do arcabouço pulmo- destas doenças? Ou o envelhecimento poderia ser
nar45. A gravidade da SARA secundária à hiperoxia apenas um evento acompanhante destas doenças? 46.
depende do grau e do tempo da exposição ao O2. A origem da aterosclerose é incerta, porém a
Assim, mamíferos inalando 100% O2, com pressão teoria corrente é que o início da lesão seja no
parcial arterial de O2 em torno de 500mmHg, apre- endotélio por mecanismo hemodinâmico. Nesta le-
sentam lesão pulmonar caracterizada por edema, são há afluxo de macrófagos; quando ativados, libe-
atelectasia, depósitos de fibrina com formação de ram radicais superóxido, peróxido de hidrogênio e
membrana hialina exsudação celular, enrijecimento enzimas hidrolíticas. Estes produtos, além de lesar
arteriolar e hiperplasia e hipertrofia alveolares. Há células vizinhas, estimulam a proliferação de mús-
fortes indícios de que a formação do edema pulmonar culo liso subendotelial. A lesão pode ser exacerbada
seja resultante da produção exagerada de peróxido pela fumaça do cigarro que, por ser rica em ferro,
de hidrogênio, radical hidroxil e superóxido pelo catalisa a oxidação de lipoproteínas de baixa densi-
neutrófilo43. dade (LDL). Tal oxidação estimula a internalização
O envelhecimento também é um evento que pode de colesterol nos macrófagos, os quais, conseqüente-
estar relacionado com as ERMO. A teoria dos radi- mente, se convertem em células espumosas, contri-
cais de oxigênio, desenvolvida por Harman (1956), buindo para a formação da placa de ateroma1.
propunha que o envelhecimento poderia ser secun-
dário ao estresse oxidativo, que levaria a reações de DETECÇÃO LABORATORIAL
oxidação lipídica, protéica, e com o DNA, que desen- DAS LESÕES OXIDATIVAS
cadeariam alterações lentas e progressivas dos teci-
dos e do código genético. A pergunta chave atual é se A detecção direta das ERMO em sistemas biológi-
este estresse oxidativo tem um peso tão importante, cos é dificultada por suas concentrações extremamen-
a ponto de explicar o fenômeno do envelhecimento. te baixas (da ordem de 10-11M) e por suas altas veloci-
Não há até o momento evidências consistentes que dades de reação, chegando ao ponto de as taxas de
respondam esta pergunta46. Os estudos dos últimos produção serem iguais às taxas de reação com biomo-
anos demonstram um comportamento heterogêneo léculas7. Os subprodutos das ERMO podem ser aferi-
do sistema de defesa antioxidante em relação ao dos diretamente por técnica de ressonância para-
envelhecimento. Ou seja, ao contrário do esperado, magnética de elétrons, porém o custo e outras limita-
não se observa, necessariamente, deficiência do sis- ções desta avaliação dificultam seu uso rotineiro.

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RADICAIS LIVRES: CONCEITOS E MECANISMO DE LESÃO

Os métodos mais utilizados para aferição indireta 11. Aust SD, Miller DM. Role of iron in oxygen radical generation
das ERMO e, conseqüentemente, das lesões oxida- and reactions. In Probst GS, Vodicnik MJ, Dorato MA (eds):
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tivas são os espectrofotométricos e cromatométricos,
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que medem a atividade enzimática (SOD, catalase, May, 29-34.
GSH-Px e GSH-Rd) e/ou a concentração de tripep- 12. van der Kraaij AMM, Mostert LJ, van Eijk HG, Koster JF. Iron-
tídeos (GSH, GSSG) e aldeídos (MDA). Estas medi- load increases the susceptibility of rat hearts to oxygen reper-
das podem ser realizadas em tecidos, sangue e outros fusion damage. Circulation 1988; 78: 442-9.
13. Mello Filho AC, Hoffman ME, Meneghini R. Cell killing and
fluidos. A lipoperoxidação de membranas é habitual-
DNA damage by hydrogen peroxide are mediated by intra-
mente monitorada pelo método do MDA (malonal- cellular iron. Biochem J 1983; 218: 273-5.
deído) e o estresse oxidativo, por dosagens de GSSG 14. Hershko C. Mechanism of iron toxicity and its possible role in
e/ou pelo cálculo da razão GSSG/GSH. red cell membrane damage. Semin Hematol 1989; 26: 277-85.
Para finalizar, devemos salientar que as ERMO 15. Shan X, Aw TY, Jones DP. Glutathione-dependent protection
podem ser causa ou conseqüência de doenças huma- against oxidative injury. Pharmacol Ther 1990; 47: 61-71.
16. Ross D, Moldeus P. Antioxidant defense systems and oxidative
nas associadas ao estresse oxidativo. Por isso, antio-
stress. In Vigo-Pelfrey C (ed): Membrane lipid oxidation. 1th
xidantes naturais e sintéticos têm sido recomenda- ed. Boca Raton, CRC Press, 1991;151-70.
dos para o alívio dos sinais e sintomas destas doenças 17. Gardès-Albert M, Jore D, Ferradini C. Membrane lipid peroxi-
e, mesmo, para bloquear sua evolução. No entanto, dation: pulse and γ-radiolysis in oxyradical research. In Vigo-
muito deve ser investigado acerca do benefício dos Pelfrey C (ed): Membrane lipid oxidation. 1th ed. Santa Clara,
antioxidantes exógenos. É imperativo determinar o CRC Press, 1991; 2-30.
18. Borg DC, Schaich KM. Iron and iron-derived radicals. In
momento exato, a dose, a via de administração e qual Halliwell B (ed): Oxygen radicals and tissue injury. Proce-
o antioxidante ideal para cada doença. Até o momen- edings of a Brook Lodge Symposium; 1987 Apr 27-29; Bethesda
to não existem estudos que respondam com seguran- (MLD): Upjohn/Federation of American Societies for Expe-
ça estas indagações. Portanto, a utilização indis- rimental Biology, 1988; 20-6.
criminada de medicamentos que contenham anti- 19. Minotti G, Aust SD. The requirement for iron (III) in the
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