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RÉQUIEM ÀS AVESSAS PARA CELEBRAR A PARTIDA DE ANTÔNIO CARLOS VIANA

Luiz Eduardo Oliva (*)

Sergipe perdeu no último sábado, dia 15, dia dos professores, um de seus maiores mestres e
considerado o melhor contista brasileiro da atualidade pela talvez unanimidade da crítica
especializada brasileira: o professor Antônio Carlos Mangueira Viana.

Atendendo ao chamamento do André Viana, filho do mestre fui ao velório, do querido e


admirado amigo, na Biblioteca Pública, pensando na celebração proposta

Mas de antemão aviso: velório somente para levar diretamente ao assunto, porque o
chamamento foi a um "evento, e não velório" como disse o filho do falecido, porque "a gente
precisa sair um pouco desse quartinho triste e escuro do fim da vida e bailar no salão
iluminado dos grandes homens e mulheres, por que não?"

Na inusitada convocatória André arrematou: "vale música, vale recital, vale roda de leitura,
vale circo, vale teatro, vale cuspidor de fogo, vale tudo. Vamos fazer da arte a religião deste
sábado. Quem quiser rezar, obviamente, também vai poder. Porque o evento é acima de tudo
democrático, ainda que a palavra esteja meio fora de moda"

Até bebidas foi sugerido na certeza de que "Tonho vai estar com aquele risinho safado de
canto dele" .

Passava das 9 da noite do sábado,15/10, quando cheguei à Biblioteca Epifânio Dória onde
estava o corpo do escritor. Na entrada, uma animada embora contida roda de amigos e
admiradores, capitaneada pela mestra das rodas de leitura, Rose Santana, lembrava fatos e
"causos" de Viana.

Dentro, não havia clima de consternação, obedecendo ao que pediu André, mas também não
vi a celebração antes proposta, salvo o afinado cantarolar de Jade Moraes e os papos
animados em torno da figura e obra do genial escritor.

Num canto, Clóvis Barbosa e Josailto Lima, smartphone em punho faziam uma tertúlia a dois
sobre autores, contos, poemas e críticos que remetiam de algum modo a Viana.

Eu que levei a tiracolo um livro de 1981 com as poesias do XI Concurso de Poesia Falada do
Norte-Nordeste, no qual a 1ª poesia (e também premiada com o1º lugar) "Dúvida", era de
Viana e a segunda "Óvulo-Nave" (também 2º lugar) era minha, não vi o "sarau" proposto e
indaguei se já havia acontecido.

Não, não havia.

Então fui à porta, no grupo da Roda de Leitura e sugeri juntar-se ao diminuto grupo do salão e
celebrar em poesias, textos e depoimentos, o estupendo escritor que jazia em corpo ardente,
como se diz no jargão de exéquias

E assim fizemos.

Iniciei lendo o poema de Viana "Dúvida":


"Não sei o que mais sangra:

se uma trave na porta

fechando sua visita

ou a cama desfigurada

sem gozo nos lençóis"

Não havia travas na porta da Biblioteca, mas o público era pequeno para o tamanho do artista
das palavras que ali se velava.

Era um grupo de fervorosos amigos-leitores-admiradores, pequeno mas seleto

Certamente, fosse Sergipe um estado onde se cultiva a leitura em profusão e o salão da


Epifânio Dória estaria abarrotado de gente, para celebrar a vida do escritor e não, lamentar a
sua morte.

Aliás no mais recente dos seus livros, "Jeito de Matar Lagartas", a última palavra escrita é
justamente a palavra "vida". Que bela coincidência!

Volto ao poema:

"Não sei o que mais fere:

se a criança, a fome

ou o ovo seco no tempo

na barriga de sua mãe"

O inusitada era justamente o sarau/celebração se iniciar por uma poesia, gênero que foi o
início da experiência criativa do escritor que logo abraçou o conto para se tornar o maior dos
mestres, ao seu tempo

"Não sei o que mais dói:

se a virgem, seu desejo,

ou o operário cansado

tijolo contra tijolo."

Ali a quase totalidade das pessoas conhecia praticamente toda a obra de Viana. Possivelmente
os presentes estavam a indagar, diante do poema "Dúvida" que eu lia, o que teria feito o
poeta Viana resolver a própria dúvida para ficar só como contista?

"Não sei o que mais sangra:

se a guerrilha nas ruas

ou a inércia das massas

gozando mulheres nuas.

E eu, que lia a "Dúvida" o poema vencedor em todo o Norte e Nordeste deste pais continental
no início dos anos oitenta, também me indagava sobre a decisão de Viana de ficar só com o
conto e praticamente"esconder" seu lado poeta.
Machado de Assis, romancista, era também mestre do conto e poeta, ou tradutor de poesia
(Viana também foi tradutor) como "O Corvo" de Edgar Alan Poe, poema aliás adequado para o
momento, com o repetido "Nunca mais...nunca mais", que caberia ao " nunca mais" novos
contos de Viana

E minha leitura/declamação do poema escrito há 35 anos,:mostrava que ele parecia ter sido
escrito para os dias atuais:

"Não sei o que mais desfigura:

se um país sem identidade

ou as palavras, um poema,

anteprojeto do nada"

Era esse anteprojeto do nada que instigava. Viana é um escritor do texto síntese que é o conto
e foi justamente buscar no anteprojeto do nada a sua fonte de inspiração.

Porque são personagens desvalidos, jogados à sorte de um país cruel - embora se repita que é
lindo e maravilhoso- numa forma narrativa inovadora ao trazer para o centro de seus contos
umas vidas vividas mas quase nunca contadas.. E mais, contadas com o manejo sofisticado da
precisão das palavras na pena do maior dos mestres do conto da atualidade. São personagens
cujas vidas são, a rigor, o verdadeiro anteprojeto do nada, porque vivem por viver,
enfrentando as adversidades e desprovidss da esperança: muitas vezes, a morte é sua única
solução.

O sarau prosseguiu.

Josailto Lima leu poemas de autores diversos nos quais via um elo de ligação com Viana. Rose
Santana leu contos, como faz sempre nas rodas de leitura. Rosa Geane, discípula, declamou
de memória, em interpretação impecável, o poema "Cântico Negro" do português José Régio,
para homenagear o mestre que pelas letras, em dado momento, transformara a ela própria,
conforme testemunhou. Clovis Barbosa leu trechos de artigo que escreveu e registrou a
amizade recente, curta, de poucos encontros porem intensa, com o contista Viana.

Guadalupe, amiga de longuíssimo tempo, revelou conversas tidas com o falecido, uma das
quais acabou por inspirá lo num conto que, ele um dia revelou na roda de leitura, tornou-se
um de seus prediletos.

Aos poucos, a madrugada se aproximava e os "convivas"diminuíam...

Afinal quem ficaria velando/celebrado o contista?

Rose disse: eu fico. Jade sugeriu: não vejo problema em deixá-lo só, como se tivesse
adormecido na Biblioteca da qual um dia ele fora diretor e que era lugar recorrente de suas
idas e vindas.

Saí no meio dessa dúvida enquanto se aguardava o retorno do filho, André Viana.

Imaginei, como num dos seus contos, que todos acabariam indo embora . E o poeta/contista
ficou só. Ali, entre livros e sob o olhar do vigilante da Biblioteca. Pensei em Viana levantando
do caixão e o vigilante dizendo: todos se foram, ficamos só nós. É meu ofício vigiar.
E Viana, com o sorriso safado no canto, de que falou André , deve ter pensado: enfim não
estou só. Além do vigilante os livros. Afinal os livros foram sempre a minha grande companhia.
Nada mais adequado.

E na manhã de domingo, quando uma rala chuva caía e a brisa do Rio Sergipe soprava na
Biblioteca, o corpo de Viana seguiu para o crematório em Salvador...

Voltará as cinzas. E ficarão para sempre os contos daquele que foi maior artífice do seu tempo
no manejo desse difícil gênero literário. Um contista sergipano que se revelou ao Brasil e ao
mundo, como sendo o maior dos mestres de seu tempo.

(*) Luiz Eduardo Oliva, 61, é advogado e professor de direito.