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Universidade Estadual da Paraíba

Central Integrada de Aulas


Departamento de Filosofia
Componente curricular: História da Filosofia contemporânea II
Docente: Reginaldo Oliveira
Discente: Thiago Cruz

Atividade avaliativa

Campina Grande - PB
Julho - 2019
Questão II – A regressão do esclarecimento ao mito e o mundo administrado

O texto que se segue tem por objetivo apresentar de forma sucinta as reflexões
feitas pelo filósofo alemão Theodor Adorno acerca da relação íntima entre o
esclarecimento e o mito na modernidade. Para o mesmo, em virtude de suas
características íntimas, e da forma de sociedade em que se apresenta como expressão, o
esclarecimento, no movimento de combate ao mito tende a recair sempre na esfera
mítica, assim como contribuir para a barbárie da qual pretendia afastar a humanidade.
Para elucidar essa tese buscaremos apresentar quais elementos caros ao mito estão
também presentes de forma inconfessa no esclarecimento, assim como o esclarecimento
tende a se transformar em mera razão instrumental numa sociedade industrial
capitalista.

Segundo Adorno, o esclarecimento enquanto projeto civilizatório representou o


combate da racionalidade as superstições míticas com o objetivo de promover, a partir
do conhecimento, o assenhoramento do mundo pelo homem. A ciência moderna foi seu
principal cavalo de batalha na promoção do desencantamento do mundo, e na
transformação da natureza, despida dos seus mistérios, em objeto de domínio humano.

O desencantamento do mundo em vista da busca da dominação de todas as suas


instancias teve como meio fundamental a destruição do animismo em todas as suas
expressões. Para a razão esclarecida a visão anímica de mundo se apresenta não só
através da magia e do mito, mas a própria Metafísica, ciosa de conceitos universais, é
um modo abstrato de expressão de forças supranaturais, que não resistem a guilhotina
do pensamento propriamente esclarecido.

Na visão do esclarecimento o pensamento mítico atua como uma projeção da


subjetividade amedrontada do homem na natureza, como uma personificação de seus
temores perante as forças naturais em figuras fantásticas. A destituição dessas imagens
especulares que por tanto tempo assombraram e dominaram a cabeça dos homens é o
modo através do qual o homem deve destruir o seu medo perante a natureza, vista então
como simples objetividade material.

Todavia, para Adorno, no amago do próprio mito tão combatido pelo


esclarecimento, já se encontrava o germe do próprio esclarecimento. Ulisses, herói
homérico, representa um período de transição do progresso da humanidade, e é o
modelo de uma nova postura do homem diante da natureza, tanto a exterior como a
interna ao próprio homem. No célebre episódio em que Ulisses arquiteta a estratégia
racional para escapar ao irresistível canto das sereias se apresenta a parábola decisiva de
constituição do sujeito auto identificado a partir da rejeição e distanciamento das forças
da natureza.

A identificação do eu a partir da recusa total da sensibilidade, como meio de


distinção da natureza e produção de uma postura racional de comando em relação a
mesma. O eu como pura racionalidade, conquistado a partir do próprio sacrifício, e que
a partir disso está pronto para exercer a soberania sobre o mundo, segundo Adorno,
nada tem de diferente do ideal anunciado por Bacon, e tão caro ao espírito do
esclarecimento, de que o entendimento humano deve combater as superstições que
povoam a cabeça e coração dos homens para melhor comandar a natureza.

Tanto no mito como na ciência moderna se tem a polaridade entre o eu auto


identificado e a natureza vista como unidade caótica e indiferenciada, a mercê da
classificação do homem. O clássico dualismo moderno sujeito-objeto é a expressão mais
acabada deste fato, em que todo universo da natureza é generalizado como coisa
extensa, e alvo abstrato do poder da coisa pensante.

Adorno destaca a partir disso, que no mesmo afã de combater o mito, o


esclarecimento ao promover a generalização abstrata de todos os objetos do mundo
torna a recair na esfera do mito, posto que a partir da radicalização mesma do
pensamento lógico-matemático aplicado as coisas do mundo se chega a mesma
conclusão essencial do mito, que é o da repetição sem fim de todos os acontecimentos,
da necessidade fatal que rege todas as coisas.

Para o autor alemão, a matematização do mundo que ocorre no esclarecimento,


incide na redução de tudo a processos já conhecidos de antemão, o que por sua vez
produz a submissão total do pensamento em relação ao mundo matematizado, onde o
pensamento deve se furtar de buscar o que não vier se expressar como o factual já
previsto. O esclarecimento regride ao mito, e a razão está subordinada ao poder do
imediatamente dado, servindo apenas como instrumento que deve administrar o mundo
tal como se apresenta.

Na base de todo esse processo Adorno identifica o princípio de dominação cega


próprio ao esclarecimento numa sociedade regida pela economia capitalista, onde há a
submissão da natureza e da sociedade, racionalizada através de uma complexa divisão
do trabalho. As categorias do pensamento forjadas pela razão esclarecida expressam as
relações de um todo social intimamente mapeado por uma razão instrumental
subordinada ao desejo de dominação econômica de uma classe.

Sob o signo da necessidade da dominação do todo social a partir do trabalho, o


pensamento preso ao imperativo do cálculo matemático e da utilidade, abdica de
encontrar sentidos no mundo ou qualidades próprias dos entes, e passa a administrar o
dado na sociedade, transfigurada numa massa indiferenciada de pessoas submetidas a
lógica maior da divisão do trabalho. Da indiferenciação da natureza tornada objeto, para
a objetivação de um montante de pessoas vistas como sem qualidade diferenciavel.
Ironicamente o receio do esclarecimento da perca da identidade do eu, motivo da recusa
ao mito, torna-se realidade para uma massa de pessoas submergidas no mundo edificado
a partir da régua e compasso do esclarecimento.