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FACULDADE TEOLÓGICA BATISTA EQUATORIAL

COORDENAÇÃO DE TEOLOGIA

CURSO DE BACHAREL EM TEOLOGIA

JEAN CARLOS LIMA BITENCORT

EPÍSTOLA AOS COLOSSENSES 2.6-7

Trabalho apresentado em cumprimento às


exigências da disciplina: EXEGESE DO NOVO
TESTAMENTO, ministrada pelo professor: Me. J.
Carlos de L. Costa Como avaliação parcial do Curso
de Bacharel em Teologia.

BELÉM– PARÁ
2015
PASSO- 1

I. CONTEXTO HISTÓRICO GERAL

Autoria: O próprio livro indica a autoria do apóstolo Paulo, que estava preso quando
escreveu a carta. Portanto, a carta deixa claro que o apóstolo Paulo é o autor, não
somente na saudação inicial (1.1), mas também no corpo da carta (1.23) e na sua
conclusão (4.18).

Data da escrita: Dentre as evidências, tanto internas quanto externas mostram que
a carta aos Colossenses foi escrita durante o primeiro aprisionamento de Paulo em
Roma como prisioneiro político, passando dois anos detido na cidade. Portanto a
data da escrita deve ter sido por volta de 60 ou 61 d.C. No mesmo ano também foi
escrita Efésios e Filemom.

Local da Escrita: Com relação ao local da escrita temos que a carta própria carta
indica a ocasião precisa em que Paulo a teria escrita. O texto afirma que ele (Paulo)
recebeu a visita de um cristão chamado Epafras, que havia se convertido na cidade
de Éfeso mediante a sua pregação (Atos 19). Ao que parece, Epafras era da cidade
de Colossos, mas se converteu em Éfeso. Assim, o apóstolo Paulo escreve da
capital do Império Romano, conforme descrito em atos 28, estando em prisão
domiciliar.

A Cidade de Colossos: A cidade ficava a sudoeste da Frígia, na Ásia Menor, às


margens do rio Lico a aproximadamente 160 quilômetros a leste de Éfeso. Era uma
cidade pequena e relativamente insignificante nos tempos romanos. A cidade foi
importante no século V a.C.. Depois foi perdendo sua importância diante do
crescimento de Laodicéia, a 18 km, e Hierápolis (Col.4.13). A cidade dos
colossenses foi destruída no século 12 d.C.. Escavações arqueológicas realizadas
em 1835 descobriram um teatro e um cemitério da cidade. A comunidade cristã em
Colossos surgiu durante um período de evangelismo intenso, associado ao
ministério de Paulo em Éfeso (52-55 d.C).

Os Destinatários: Paulo não conhecia pessoalmente os colossenses (2.1), sabendo


da situação daquela igreja através de Epafras (1.7-8 e 4.12). Os habitantes de
Colossos eram em sua maioria gregos que seguiam suas próprias religiões. Desse
modo, predominou ali a religião helênica clássica, as chamadas religiões de
mistério- e o culto ao imperador romano. Paulo com frequência e refere ao passado
não cristão dos leitores, e isso indica que em sua maioria eles eram gentios
convertidos. Eles estiveram mortos por causa das suas “transgressões e da
incircuncisão da vossa carne”- uma afirmação que aponta que tinham sido tanto
gentios como ímpios (2.13). Porém, como gentios que anteriormente tinham estado
sem Deus e sem esperança eles foram unidos com Cristo na sua morte,
sepultamento e ressurreição (2.11,12, 20; 3.1, 3).

O propósito da carta: Colossos era uma cidade extremamente religiosa. Nesse


cenário as igrejas cristãs começaram a abrigar um movimento liderado por pessoas
que aparentavam ter grande piedade, sabedoria e conhecimento de Deus. Porém,
vieram por meio delas algumas perturbadoras distorções do evangelho, heresias
que começaram a convencer alguns dos cristãos da igreja local. Ao identificar a
situação, Epafras leva o problema a Paulo, que faz uma advertência séria aos
colossenses para que fiquem alerta, pois do contrário os falsos mestres os levarão
como presas da verdade para a escravidão do erro por meio da “filosofia e das vãs
sutilezas” deles (2.8). Por isso, a carta dá, não apenas informações de como o
apóstolo está na prisão, mas também recomenda que seja combatida a heresia
iminente. Portanto, Esta carta foi escrita para combater heresias: os cristãos
estavam aceitando filosofias (2.4,8) que incluíam um “culto aos anjos” (2.18), uma
vida ascética (2.16, 20-23) e cheia de ritos judaicos (2.11-14).

Tema do Livro: Os colossenses precisavam ser conscientizados ou lembrados a


respeito da pessoa de Cristo, sua natureza e sua obra. A periculosidade de muitas
correntes filosóficas e religiosas reside no fato de valorizarem muitos elementos,
personagens, práticas e conceitos, tirando assim a atenção e a fé que deveriam
estar concentradas na pessoa de Jesus. Ensinamentos, aparentemente inofensivos,
estarão causando danos profundos na alma humana. Por exemplo, se começarmos
a fazer do "pensamento positivo" a causa do nosso sucesso, então estaremos,
sutilmente, negando a Cristo. Os cristãos de Colossos necessitavam aprender que
Cristo é o suficiente para TUDO (2.9). Tendo Cristo, nós não precisamos de nenhum
“complemento”: filosofias, rituais, religiões, etc. É a união com Cristo que salva o
homem (2.10-15, 3.1-4). A vida da Igreja nasce da fé em Cristo, não em
especulações vãs (1.23, 2.7,8). O povo de Deus é convocado a “pensar nas coisas
lá do alto” (3.1-2). Portanto, o tema da carta é: A Supremacia de Cristo.

Esboço do livro

I - Introdução - 1.1-8

II - Oração pelos colossenses - 1.9-12. (por riquezas espirituais)

III - A excelência da pessoa e da obra de Cristo. - 1.13-23

IV - Trabalhos, sofrimentos e cuidado de Paulo pelos colossenses - 1.24 a 2.7.

V - Exortação contra filosofias e heresias - 2.8-23.

VI - Exortação à santidade e ao amor fraternal - 3.1-17.

VII - Exortação quanto aos deveres domésticos, à oração, e às relações sociais -


3.18 a 4.6.

VIII - Conclusão e saudações - 4.7-18.


REFERÊNCIAS

CARSON, D. A; MOO. Douglas J; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento.


Tradução: Marcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova. 1997.

COSTA, L. José Carlos. As Epístolas. In: Apostila de Novo Testamento II. Belém,
2014.

LOPES, Augustus Nicodemus. A Supremacia e a Suficiência de Cristo: a mensagem


de Colossenses para a igreja de hoje. São Paulo: Vida Nova, 2013.
PASSO 2
II. OS LIMITES DO TEXTO
TEXTO EM GREGO

Colossenses 2:6. ως ουν παρελαβετε τον χριστον ιησουν τον κυριον εν αυτω περιπατειτε,

Colossenses 2:7. ερριζωμενοι και εποικοδομουμενοι εν αυτω και βεβαιουμενοι τη πιστει καθως
εδιδαχθητε, περισσευοντες εν ευχαριστια.

PASSO 3
FAMILIARIZE-SE COM O TEXTO
TRADUÇÃO LITERAL

LISTA DE TRADUÇÕES DO TEXTO DE COLOSSENSES 2:6-7

ALMEIDA REVISTA E CORRIGIDA (ARC)

ALMEIDA REVISTA E ATUALIZADA (ARA)

ALMEIDA EDIÇÃO CONTEMPORÂNEA

NOVA TRADUÇÃO NA LINGUAGEM DE HOJE (NTLH)

NOVA VERSÃO INTERNACIONAL (NVI)

BÍBLIA VIVA

BÍBLIA DE JERUSALÉM

PASSO 4
ESTABELECENDO O TEXTO (CRÍTICA TEXTUAL).
PASSO 5- ANÁLISE DO RELACIONAMENTO SINTÁTICO E ESTRUTURAL DAS
ORAÇÕES.

ουν
ὡς παρελαβετε τον χριστον ιησουν τον κυριον
εν αυτω περιπατειτε,
ερριζωμενοι
και εποικοδομουμενοι
εν αυτω και βεβαιουμενοι τη πιστει
καθως εδιδαχθητε,
περισσευοντες εν ευχαριστια.

COMO O CRENTE DEVE ANDAR EM CRISTO?

Portanto,
EXORTAÇÃO- ANDAR EM
assim como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor CRISTO
2º: (É UMA ORDEM)!
Mantendo a fé
assim também Nele andai,
que foi 1º:
Enraizados Mantendo
doutrinada, e
isso com Edificados Nele firme a fé
abundante que recebeu COMO ANDAR EM
gratidão. E confirmados na fé Em Cristo! CRISTO?
Fundamento: O
Assim como fostes ensinados,
ensino sobre Cristo!
O modo: abundando em ação de graças.
Com
excessiva
gratidão!

ESBOÇO ANALÍTICO
TÍTULO: Como o Crente deve andar em Cristo?
INTRODUÇÃO: Falar sobre a realidade pós-moderna de hoje. Em que as pessoas se
fundamentam para viver neste mundo? Mostrar que o apóstolo Paulo nos exorta, como
crentes, a viver (andar) em Cristo. E isto não é uma opção, e sim uma necessidade urgente
diante de uma sociedade relativista, que não considera a verdade absoluta da Palavra de Deus.
Portanto uma ordem vinda do próprio Deus. O andar em Cristo, no conceito bíblico, é algo
mais do simplesmente estar lado a lado com alguém num mero caminhar.

1. A Exortação apresentada no texto é: “Andai em Cristo” (v.6).


I- Mantendo firme a fé que recebeu em Cristo: Como?
a) Enraizados;
b) Edificados Nele;
c) E Confirmados na fé.
II- Mantendo a fé que foi doutrinada, e isso com abundante gratidão.
a) O fundamento é o ensino sobre Cristo;
b) O modo de fazer isso é com excessiva gratidão.

CONCLUSÃO- Aquele que está andando com Cristo necessita estar de igual modo arraigado,
enraizado e aprofundado na fé que recebeu e também na fé doutrinada, fazendo isso com
abundante gratidão. Assim, o crente tem condições de andar em Cristo!

PASSO 6- ANÁLISE LEXICAL DO TEXTO

Referência Palavra como Forma Descrição Uso e Significado


aparece no texto Lexical da gramatical da palavra
Bíblica palavra

2:6 ὡς ὡς Adv; Como, assim


Aparece também como, à medida
como conjunção que, mesmo que.
comparativa.

2:6 Ουν ουν Conjunção Portanto, por isso,


pospositiva. logo, então, por
esta razão,
consequentemente,
sendo assim.

2:6 παρελαβετε, παραλαμβνω Verbo indicativo, 2 Tomar a, levar


Aoristo, voz ativa, 2ª consigo, associá-lo
pess. Plural. consigo,
receber algo
transmitido
por transmissão
oral: dos autores
de quem a tradição
procede;
aceitar ou
reconhecer que
alguém é tal como
ele professa ser.

2:6 τὸν ὁ Artigo, acusativo, O.


masculino, singular.

2:6 χριστὸν χριστὸj Adjetivo, acusativo, Ungido, o Messias,


masculino, singular. o Filho de Deus.

2:6 Ιησου/ν Ιησουj Adjetivo, acusativo, O Salvador da


masculino, singular. humanidade, Deus
encarnado, “Jeová
é Salvação”.

2:6 τὸν ὁ Artigo definido, O.


acusativo,
masculino, singular.

2:6 ku,rioν ku,rioj, ou, Substantivo Senhor, senhor,


o` masculino, dativo, mestre;
singular. Genericamente:
mestre, dono,
alguém que tem
pleno controle
sobre alguma
coisa; Uso
especializado:
designação de
Deus; de um
imperador romano;
designação de
Jesus Cristo.
Provavelmente,
uma tradução do
nome de Deus do
A.T., indicando a
plena divindade de
Jesus.

2:6 evn, Evn Preposição dativa. Expressão em, no,


por, com. Ideia de
interior.

2:6 auvtω/ auvto,j Pronome pessoal Ele, o mesmo, ele


dativo masculino. próprio.
singular.

2:6 περιπατειτε περιπατεω Verbo imperativo, Caminhar,


presente, voz ativa, fazer o próprio
2ª pess. Plural. caminho,
conduzir a si
mesmo,
conduzir-se pela
vida.

2:7 ερριζωμενοι; ριζοω Verbo, perfeito, Fazer surgir raiz,


particípio, voz fortalecer com
passiva, nominativo, raízes, tornar
masculino, plural. firme, fixar,
estabelecer, fazer
uma pessoa ou
uma coisa ser
totalmente
fundamentada.

2:7 καὶ καὶ Conj. E, também, até


As vezes pode ficar mesmo.
sem tradução.
2:7 εποικοδομουμενοι εποικοδομεω Verbo, presente, Construir sobre,
particípio, voz edificar;
passiva, nominativo, Para terminar a
masculino, plural. estrutura da qual a
fundação já foi
colocada, para
incrementar
constantemente o
conhecimento
cristão e uma vida
que se conforma a
ele.
2:7 evn, Evn Preposição dativa. Expressão em, no,
por, com. Ideia de
interior.

2:7 auvtω/ auvto,j Pronome pessoal Ele, o mesmo, ele


dativo masculino próprio.
singular.

2:7 καὶ καὶ Conj. E, também, até


As vezes pode ficar mesmo.
sem tradução.
2:7 βεβαιουμενοι βεβαιοω Verbo, presente, Comprovar,
particípio, voz estabelecer,
passiva, nominativo, confirmar,
masculino, plural. assegurar.
2:7 τὴ Ο, η, το Artigo definido,
dativo, feminino, esta, aquela, na.
singular.
2:7 πιστει πιστις Adjetivo, dativo, Convicção da
feminino, singular. verdade de algo,
fé; no NT, de uma
convicção ou
crença que diz
respeito ao
relacionamento do
homem com Deus
e com as coisas
divinas,
geralmente com a
ideia inclusa de
confiança e fervor
santo nascido da fé
e unido com ela;
relativo à Cristo.
2:7 καθως καθως Advérbio De acordo com,
justamente como,
exatamente como,
na proporção que,
na medida em que.
2:7 εδιδαχθητε διδασκω Verbo indicativo, Ensinar, conversar
Aoristo, voz passiva, com outros a fim
2ª pess. Plural. de instrui-los,
pronunciar
discursos
didáticos,
desempenhar o
ofício de professor,
ensinar alguém,
dar instrução,
explicar algo.
2:7 περισσευοντες περισσευω Verbo presente, Exceder um
particípio, voz ativa, número fixo
nominativo, previsto, ter a mais
masculino, plural. e acima de certo
número ou
medida; ter em
excesso, sobrar;
algo que vem em
abundância, ou que
transborda, algo
que cai no campo
de alguém em
grande medida.
2:7 evn, Evn Preposição dativa. Expressão em, no,
por, com. Ideia de
interior.

2:7 ευχαριστια ευχαριστια Adjetivo, dativo, Ato de


feminino, singular. gratidão ou
ação de graças

Palavras-chave:
Teológicas: Fé
Repetidas: Em (evn,); Ele (auvtω).
Importante no contexto da seção: Enraizados; Edificados, Abundando; Fé.

Fé (πιστις):
Na literatura clássica, pistis significa “confiança” que um homem tem em algo ou em
alguém, é dar crédito ou confiabilidade. Assim, da mesma forma pisteuo significa “confiar”.
No contexto da filosofia a fé revela a essência do homem. A fidelidade do homem ao seu
destino moral e espiritual leva à fidelidade para com outras pessoas. No âmbito do Novo
Testamento há uma exigência. Nas religiões místicas, a fé significa o abandono de si mesmo à
divindade, recebendo sua proteção e seguindo suas instruções e ensinos. No Corpus
Hermeticum de revelações sincretísticas platônicas (sec. II e III d.C.), a fé é uma forma mais
alta do conhecimento, pertencente ao âmbito do nous (Razão, Mente). O homem é guiado
misticamente para fora do Logos, até que seu espírito descanse no conhecimento da fé,
participando do divino. A salvação era para aquele que acreditava.
O pano de fundo do cristianismo e do judaísmo deu origem aos “filhos divinos”, que
apareciam com reivindicações expressas à revelação, apresentando uma alternativa ao
cristianismo. A mesma exigência se verifica em todas: “Crê, se queres ser salvo, senão afasta-
te”.1 Para Paulo, pistis é indissoluvelmente vinculada com a proclamação. O paulino implica
uma continuidade com o ensino da igreja judaica da palestina e da igreja helênica. Utiliza
termos como “os que creem” para se referir aos seus leitores. A fé significa receber a
mensagem da salvação e da conduta fundamentada no evangelho. É explicitamente uma fé
salvadora, baseada na cruz e na ressurreição de Jesus. Combate o entendimento judaico que
toma como ponto de partida a validez da antiga aliança e da lei, entendendo mal a razão de ser
da existência escatológica.

PASSO 7- CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL DA PASSAGEM

1
Orígenes, Contra Cels, 6,11, in Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, vol.I, 2000, pp.811.
O NOVO TESTAMENTO Comentado por William Barclay- (Colossenses
p. 53-55). 1959.
Esta epístola, semelhante à epístola aos Romanos, foi escrita a pessoas que Paulo
nunca tinha visto, nem conhecia de forma mais pessoal. Embora Paulo não tenha plantado
esta igreja, ele não a negligenciou. Na subseção (2.6-15), o apóstolo trata das falsas filosofias
que devem ser rejeitadas. Nesta perícope (vv. 6-7), ele os adverte contra os falsos mestres;
exortando a igreja de Colossos a se firmar na verdadeira doutrina, que se fundamenta no
evangelho de Cristo. Paulo traz um antídoto para a Igreja contra os sedutores (falsos mestres),
que estavam surgindo com palavras sedutoras; com falsos princípios e práticas perversas,
como o próprio apóstolo diz em Romanos 16.18: “(...) não servem a Cristo nosso Senhor, mas
ao seu ventre; e com palavras suaves e lisonjas enganam os corações dos inocentes”; por isso
exorta os colossenses. Eles “receberam o Cristo Jesus como o Senhor”. É com “receber”, e
não com nosso agir e realizar que começa a condição cristã. Aqui como em outras passagens
importantes (1Co 11.23; 15.1; Gl 1.9,12; 1Ts 2.13; 4.1; 2Ts 3.6) Paulo emprega um termo
que já lhe era familiar da sinagoga. “Receber” a “tradição” dos pais e “retransmitir” o que foi
recebido era nisso que consistia a essência da erudição dos escribas. Com relação a isso,
Werner de Boor afirma que:
“O conjunto de conceitos paradidónai e paralambánein = ‘transmitir’ e
‘receber desde cedo fazia parte do contexto de vida de Paulo como
judeu e fariseu. Mas a mesma dupla de termos também aparece no
mundo dos cultos de mistérios, a fim de designar a transmissão e
recepção de misteriosas consagrações, forças e conhecimentos.
Novamente nos deparamos, pois, com palavras que podem ser termos
técnicos de conotação específica, mas que também são usados no
linguajar comum em múltiplos sentidos diferentes”2.

Nesse contexto, é preciso verificar no próprio Paulo que sentido ele associa aos
termos. Com toda a certeza só Jesus conhecemos no cristianismo pela “tradição”. Não
podemos imaginar um Jesus por nossa conta, precisamos “receber” da tradição informações
sobre quem e como era esse Jesus Cristo, o que ele disse e fez. Não é à toa que as palavras
“Jesus Cristo” venham precedidas pelo artigo definido. É provável que aqui a noção da
palavra “Cristo” seja o que ela de fato é: não nome próprio, mas título, o título real de
“Messias”. Jesus é o Cristo, o Messias. Mas o artigo no mínimo define toda a determinação
da personalidade a que os colossenses se entregaram com todo seu ser. Apesar disso é
característico para Paulo que também nesse aspecto ela tenha rompido radicalmente com o

2
Comentário Esperança, in Carta aos Colossenses, 2006, p. 34.
farisaísmo de seu passado. “Aceitar um ensinamento” apropriar-se pelo aprendizado de uma
“tradição”, continua sendo “carne”, no sentido de Fp 3.
Quando o fariseu Saulo se tornou um cristão ele não trocou uma doutrina deficiente
por uma melhor, porém considerou tudo o que vinha antes como perda, a fim de ganhar uma
pessoa com toda a sua plenitude de vida, e ser encontrado nela. Também adverte os
colossenses no v. 8 contra as “tradições dos seres humanos”. De qualquer modo não
receberam “doutrinas”, mas “o Cristo Jesus como Senhor”, a pessoa de Jesus viva e definida,
o Mestre irrestrito da vida pessoal, porque ele também é o “Senhor”. No entanto, justamente
porque não receberam um conhecimento de diversas verdades que pudessem levar
tranqüilamente para casa na forma de outro “saber”, conservando-o ali, mas por lhes ter sido
concedido um Senhor vivo, eles não podem permanecer estagnados no que se chama “crer
em Cristo”. Um “senhor” dispõe sobre toda a nossa vida e gera em nós movimento ativo. Por
essa razão trata-se de “andar nele”, o que transforma Jesus cada vez mais plenamente em
nosso Senhor, “para que já não busquemos outro Mestre”.
Por isso, Paulo adverte quanto ao perigo de filosofias e vãs sutilezas, segundo os
rudimentos do mundo (v.8). Assim, o apóstolo vem dizer que há uma filosofia que é um
exercício nobre das nossas faculdades racionais e altamente útil para a religião, ou seja, um
estudo das obras de Deus que nos leva ao conhecimento dele e confirma nossa fé em Cristo.
Nesse contexto, vemos claramente refletida a pedagogia e economia judaica, bem como a
ciência dos pagãos, que apresentava especulações interessantes a respeito das pessoas ou de
coisas que não traziam benefício algum para a comunidade; um conhecimento vazio e
constantemente enganoso. Considerando que os judeus eram governados pelas tradições dos
anciãos e os elementos ou rudimentos do mundo, os ritos e observâncias que eram somente
preparatórios e introdutórios para o estado do evangelho.
“Um relato do historiador judaico Flavio Josefo demonstra que havia judeus vivendo
em Colossos, ao escrever que Antíoco Magno havia transferido cerca de 2.000 famílias
judaicas para a Frígia (região em que se situava Colossos)”3. Outra prova para o fato de que
em Colossos havia judeus é que o general romano Glaco certa vez confiscou tributos judaicos
recolhidos para o templo e destinados para Jerusalém. Cumpre mencionar ainda um terceiro
ponto: por ocasião da perseguição aos judeus na cidade vizinha Laodicéia, um total de 12.000
judeus teria sido morto nas três cidades - Colossos, Laodicéia e Hierápolis. A existência dessa
numerosa população judaica em Colossos também explica a exigência de que certas leis do
AT não fossem deixadas de lado no propósito de alcançar uma “santidade” no discipulado de
3
Comentário Esperança, in Carta aos Colossenses, 2006, p. 6.
Cristo “ainda melhor” do que a anunciada por Paulo. Por isso se exigia o cumprimento do
sábado e a celebração festiva de cerimônias de lua nova (Cl 2.16). A isso se acrescentava a
ênfase unilateral nas leis levíticas de pureza e na circuncisão (cf. Cl 2.11,16,21). Defendia-se
que cumprir tais preceitos combinaria muito bem com a fé dos cristãos, até mesmo tornando-a
mais santa e perfeita.
Assim, os gentios misturavam suas máximas de filosofia com seus princípios cristãos;
e ambos alienavam sua mente. Aqueles que afivelam sua fé nas mangas de outras pessoas, e
andam no caminho do mundo, deixaram de seguir a Cristo. Os impostores eram especialmente
os mestres judeus, que se empenhavam em guardar a lei de Moisés junto com o evangelho de
Cristo, mas na verdade, buscavam competir e mesmo entrar em contradição com ele. Porém,
Paulo tinha ouvido que os Colossenses eram ordeiros e corretos; e embora nunca os tivesse
visto, ele deixa claro que poderia facilmente imaginar-se no meio deles e olhar com prazer
para o bom comportamento deles. A condição para isso é a firmeza dos cristãos, a lealdade à
doutrina cristã. Assim, quanto mais firmes a fé deles em Cristo, melhor seria a condição de
caminharem pela fé recebida e doutrinada por meio de Cristo, pois a forma como satanás
enreda as almas é por meio do engano. Dessa forma, Paulo adverte sobre o perigo das
palavras sedutoras daqueles que mentem e distorcem a verdadeira doutrina do evangelho. É
obvio que em Colossos também havia dificuldades, mas não em tal medida para transformar-
se em epidemia. Existia uma ameaça que se continuasse crescendo podia transformar-se em
ruína. Para Paulo prevenir era melhor que curar. Com esta Carta enfrenta o mal antes que se
difunda, floresça e cresça. Por isso, nessa perícope, o apóstolo diz que aquele que está
andando com Cristo necessita estar de igual modo arraigado, enraizado e aprofundado na fé;
abundando em ação de graças.
COLOSSENSES- UMA EXPOSIÇÃO COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS (Comentário Bíblico Mathew Henry)

PASSO 8- ANÁLISE LITERÁRIA DO TEXTO


Comentário Bíblico- F. B. Meyer (Novo Testamento) Editora Betânia. Belo
Horizonte. 2002.
Werner de Boor- Comentário Esperança. Editora evangélica esperança-
Curitiba, PR. 2006.

No Novo Testamento não há outra série de documentos mais interessante que as cartas
de Paulo. Isto se deve a que de todas as formas literárias, a carta é a mais pessoal. Demétrio,
um dos críticos literários gregos mais antigos, escreveu uma vez: "Todos revelamos nossa
alma nas cartas. É possível discernir o caráter do escritor em qualquer outro tipo de escrito,
mas em nenhum tão claramente como nas epístolas" (Demétrio, On Style, 227). É evidente
que quando Paulo escrevia suas cartas o fazia segundo a forma em que todos faziam.
Deissmann, o grande erudito, disse a respeito destas cartas: "Diferem das mensagens achadas
nos papiros do Egito não como cartas, mas somente em que foram escritas por Paulo."
Quando as lemos encontramos que não estamos diante de exercícios acadêmicos e tratados
teológicos, mas diante de documentos humanos escritos por um amigo a seus amigos.
Há outro fato interessante e significativa nesta saudação inicial. Dirige-se aos santos e
fiéis irmãos de Colossos. Agora Paulo muda seu costume no modo de dirigir-se ao
destinatário. As Cartas de 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios e Gálatas se dirigem às
Igrejas do distrito correspondente. Mas começando com Romanos todas as Cartas de Paulo se
dirigem ao povo consagrado a Deus de tal e tal lugar. Assim é com Romanos, Colossenses,
Filipenses e Efésios. À medida que avançava em idade, Paulo via com maior clareza que o
que interessava eram os indivíduos. A Igreja é esse povo.
Com o correr dos anos Paulo pensava cada vez menos na Igreja como uma totalidade e
cada vez mais nos homens e mulheres que a compõem. Desta maneira chegando no fim de sua
Carta dirige suas saudações, não a alguma sociedade abstrata chamada Igreja, mas sim a
homens e mulheres individuais dos que sempre a Igreja deve compor-se.
A saudação de abertura se encerra colocando duas coisas em estreita vinculação.
Escreve aos cristãos que estão em Colossos e em Cristo. O cristão se move sempre em duas
esferas. Encontra-se num lugar: um povo, uma sociedade que o localiza em este mundo; mas
também está em Cristo. O cristão vive em duas dimensões. Vive neste mundo, e portanto não
toma levianamente os deveres e as relações com o mesmo. Cumpre todas as suas obrigações
para com o mundo em que vive. Mas acima e mais além do mundo, vive em Cristo.

PASSO 9- ANÁLISE DAS FORMAS PRESENTES NO TEXTO


Este escrito paulino é uma carta verdadeira, pois apresenta seus destinatários e
também faz uma clássica saudação no final, elementos que são característicos em uma carta.

PASSO 10- ANÁLISE REDACIONAL DO TEXTO

PASSO 11- ANÁLISE TEOLÓGICA DO TEXTO

PASSO 12- A ATUAIZAÇÃO DO TEXTO