Você está na página 1de 3

Saiba mais sobre o livro 1984, de George Orwell https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/sai...

Saiba mais sobre o livro 1984, de George Orwell

Por Álvaro Oppermann

1984 denunciou as mazelas do totalitarismo e tornou-se


um dos mais influentes romances do século 20
access_time 16 maio 2017, 13h47 - Publicado em 1 mar 2012, 16h28

“Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam 13 horas.” Assim começa um dos
romances mais citados do século 20. A frase omite o ano da ação, mas isso seria redundante, pois
ele dá nome à obra: 1984. Só a menção ao título desencadeia uma avalanche de associações
mentais: comunismo, polícia política, nazifascimo, tortura… O livro ganhou fama por tratar de
forma ficcional de uma das grandes mazelas contemporâneas, o totalitarismo.

Escrito pelo jornalista, ensaísta e romancista britânico George Orwell e publicado em 1949, o texto
nasceu destinado à polêmica. Foi traduzido em 65 países, virou minissérie, filmes, inspirou
quadrinhos, mangás e até uma ópera. Mas – ah!, estava demorando – ganhou renovados holofotes
em 1999, quando a produtora holandesa Endemol batizou seu reality show (formato que chegou à
TV nos anos 1970), de Big Brother, o mais sinistro personagem, ou melhor, entidade do livro. O
pai da ideia, John de Mol, nega de pés juntos a inspiração, mas há outras associações possíveis
além do nome do programa. A origem do título 1984 é controversa. Orwell supostamente queria
“O Último Homem da Europa”, mas seu editor Frederick Warburg insistiu que trocasse por algo
mais comercial. O texto foi concluído em 1948 e o nome traz os dois dígitos finais invertidos. Era
uma forma de dizer que a distopia descrita não era uma ameaça distante.

No enredo que tem Londres como cenário (na fictícia Oceânia) -, tudo gira em torno do Grande
Irmão. “Quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis”, o Big Brother é
o líder máximo. Assumiu o poder depois de uma guerra de escala global (análoga à Segunda
Guerra, porém com mais explosões atômicas), que eliminou as nações e criou três grandes estados
transcontinentais totalitários. A Oceânia reúne a ex-Inglaterra, as ex-Américas, ex-Austrália e
Nova Zelândia e parte da África. É um mundo sombrio e opressivo. Cartazes espalhados pelas ruas
mostram a figura bisonha da autoridade suprema e o slogan: “O Grande Irmão está de olho em
você”. E está mesmo, literalmente, graças às “teletelas”. Espalhadas nos lugares públicos e nos
recantos mais íntimos dos lares, elas são uma espécie de televisor capaz de monitorar, gravar e
espionar a população, como um espelho duplo. A intimidade era tão devassada ali quanto na casa
do Projac que sediou a última edição do Big Brother Brasil.

O protagonista é Winston Smith. Funcionário do Departamento de Documentação do Ministério


da Verdade, um dos quatro ministérios que governam Oceânia, sua função é falsificar registros
históricos, a fim de moldar o passado à luz dos interesses do presente tirânico (prática, aliás,
comum na União Soviética). A opressão era física e mental. A Polícia das Ideias atuava como uma
ferrenha patrulha do pensamento. Relações amorosas estavam entre as muitas proibições. Nesse
cenário de submissão onde não há mais leis, mas sim inúmeras regras determinadas pelo Partido,
ninguém nunca viu o Grande Irmão em pessoa. Uma sacada genial do autor: o tirano mais
amedrontador é também aquele mais abstrato. Winston detesta o sistema, porém evita desafiá-lo
além das páginas de seu diário. Isso muda quando se apaixona por Júlia, funcionária do
Departamento de Ficção. O sentimento transgressor o faz acreditar que uma rebelião é possível.
Mas combater o regime não é nada fácil. Enredada numa trama política, a “reeducação” dos
amantes será brutal.

Raros escritores tiveram o privilégio de virar adjetivo. George Orwell (um pseudônimo) foi um
deles. Seu nome de batismo, na Igreja Anglicana, é Eric Arthur Blair. Se Marcel Proust deu origem
a “proustiano”, por causa das ricas descrições memorialistas, o termo “orwelliano” virou sinônimo
dos vívidos e sinistros porões do totalitarismo. Não que, como romancista, ele seja comparável a
James Joyce, Franz Kafka ou Proust. Os críticos costumam ser mais positivos sobre seus ensaios.
Ainda assim não são unânimes. O grande legado de Orwell é mesmo sua lucidez política.

Nascido na Índia, em 1903, filho de um funcionário colonial inglês, ele nunca levou vida fácil.

1 of 3 16/10/2018 11:18
Saiba mais sobre o livro 1984, de George Orwell https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/sai...

Cursou uma escola da elite (Eton). Em vez de seguir o caminho seguro (matricular-se numa
universidade chique como Oxford), entrou para a Polícia Imperial da Índia. Lá conheceu de perto
a truculência do Império Britânico no esforço de controlar os nativos. Orwell tinha tudo para ser
promovido, mas, escandalizado, largou a farda e foi levar uma vida boêmia em Paris e Londres.
Nessa época, beirou a mendicância. Em 1936, viajou para a Espanha para lutar contra o
franquismo, na Guerra Civil. Foi ferido no pescoço e dali em diante só conseguiria falar em tom
baixo. Dizia ser um socialista democrático. Já um amigo, o escritor Malcolm Muggeridge, o
definiu como “um sujeito que é fácil de a gente amar, mas difícil de ter por perto”. Uma de suas
marcas pessoais era um rígido senso de justiça e de busca da verdade. Alguns o admiravam por
isso. Outros o viam como um grande chato. O certo é que essa característica o ajudou a se
desencantar das utopias políticas, inclusive a soviética, impiedosamente atacada também em A
Revolução dos Bichos (1945). “A aceitação de qualquer disciplina política parece ser incompatível
com a integridade literária”, afirmou, inconformado com a subserviência dos intelectuais aos
regimes de direita ou de esquerda.

Poucos descreveram tão bem a tortura política. Nas páginas de 1984, O’Brien, um figurão do
Partido, usa um método especialmente cruel: o flagelo com ratos. “Eles saltarão sobre seu rosto e
começarão a devorá-lo. Às vezes atacam primeiro os olhos. Às vezes abrem caminho pelas
bochechas e devoram a língua”, diz a Winston.

Amar, só às escondidas. Relacionamentos não


autorizados eram punidos

Amar, só às escondidas. Relacionamentos não autorizados eram punidos (Ilustração: Marcelo


Gomes/)

Dedo-duro

Num episódio controverso, Orwell entregou ao serviço secreto britânico, em 1949, uma lista de
130 simpatizantes do comunismo, entre eles J.B. Priestley e Charles Chaplin. O autor foi
procurado quando estava hospitalizado, tratando-se de uma tuberculose. Ele morreu no ano
seguinte.

2 of 3 16/10/2018 11:18
Saiba mais sobre o livro 1984, de George Orwell https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/sai...

A obra do escritor é profética também sobre a questão da quebra de privacidade. O avanço


tecnológico permite um amplo monitoramento (dos satélites às microcâmeras). Em Nova York, a
ONG New York Civil Liberties Union protesta hoje contra a existência de 40,76 câmeras instaladas
por quilômetro quadrado em Manhattan. Uma coisa, porém, Orwell não pôde antever: o gosto
atual pelo exibicionismo/voyeurismo (o que vale tanto para a moçada do Big Brother quanto para
certos usuários do Youtube, Facebook e afins). “As pessoas agora detestam acima de tudo o
anonimato. Explorar o privado virou uma forma de participação pública”, diz a especialista em
comunicação Cosette Castro, da Universidade Pública de Barcelona. “Na obra de Orwell, é o
governo que observa tudo através de câmeras – ele fala de autoritarismo e não de voyeurismo,
como é nosso caso”, disse John de Mol, criador do Big Brother, numa entrevista à revista VEJA.
Mas Orwell faz questão de frisar que existe um nexo indissolúvel entre voyeurismo e totalitarismo.
No livro, é evidente o prazer de O’Brien em imiscuir-se na vida dos outros. Em As Sombras do
Amanhã, de 1945, o historiador Johann Huizinga demonstrou que uma das chaves para o sucesso
dos regimes autoritários é estimular a bisbilhotice alheia. Todo mundo gosta de um pouco de
fofoca e muitos ditadores já usaram isso a seu favor, para coletar informações sobre os cidadãos.

“Temos curiosidade de saber como o outro dorme, come, toma banho. O Big Brother propicia uma
resposta a esse anseio”, diz Cosette. O fenômeno do reality show, que talvez tivesse escandalizado
o escritor, é mundial. No Brasil, faz sucesso há dez anos. “O reality show é um laboratório do qual
a audiência também faz parte”, afirma Cosette Castro, referindo-se ao poder dos telespectadores
de decidir o destino dos participantes dos programas. O Big Brother da ficção foi superado pelo
Grande Irmão da realidade.

Teletelas

“Viveremos uma era em que a liberdade de pensamento será de início um pecado mortal e mais
tarde uma abstração sem sentido”, disse Orwell. As teletelas do livro são ferramentas de controle.
Estão em todo canto. Transmitem mensagens e monitoram ao mesmo tempo.

Novafala

No mundo de 1984, a língua ganha novos termos, e palavras antigas, novas acepções. A semântica
é distorcida para criar um estado de torpor e confusão. Isso está expresso no lema do Partido
único: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”.

Grande Irmão

Ditador e líder do Partido. É dever da população amá-lo, embora nunca tenha sido visto em
pessoa. Foi inspirado em Josef Stalin e representa o perigo do totalitarismo, junto com a teletela.
Nas ruas, cartazes mostram seu rosto e dizem “O Grande Irmão está de olho em você”.

Saiba mais

A Obra

1984
George Orwell Companhia das Letras, 2009, 416 págs., R$ 41

3 of 3 16/10/2018 11:18

Você também pode gostar