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BLACKBOURN, David; ELEY, Geoff.

The Peculiarities of German History - Bourgeois


Society and Politics in Nineteenth-Century Germany. New York: Oxford University Press, 1984.

29-1-2016

“Pecados por omissão” (p. 161)

Os eventos que tiveram lugar na Alemanha entre 1933 e 1945 são incontornáveis: eles
se tornaram um “padrão pelo qual grandezas históricas são medidas e os ultrajes são
registrados” (p. 18). Isso é ainda mais certo quando se estuda algum aspecto da História da
Alemanha: nesse caso, é inevitável lidar com a sombra do nazismo, que tende a ser visto como
o ponto para onde as coisas convergem ou de onde elas derivam. Eley informa que esta obra,
quando publicada na Alemanha em 1980, teve uma repercussão enorme e inesperada: havia
demanda para análises alternativas sobre a história recente daquele país. Os autores
procuraram combater a ideia de que a história da Alemanha tinha seguido por um caminho
especial, singular, estranho ao que ocorria no restante da Europa (Sonderweg).
Essa ideia floresceu especialmente após 1945, satisfazendo uma necessidade de
afastamento natural após a derrota do Terceiro Reich [notar que o mesmo ocorre em relação à
cultura: a questão da arte degenerada passa a ser tratada como uma anomalia típica da
Alemanha]. Mas a ideia de um Sonderweg na história da Alemanha é mais antiga: data pelo
menos do começo do século XIX, segundo Eley (p. 19). E isso tinha inicialmente um valor
positivo: na primeira metade do século XIX, o movimento nacionalista alemão via o seu ideal
como diferente e superior em relação ao da Revolução Francesa. Após a unificação, as classes
educadas (Bildungsbürgertum) continuaram entendendo a Alemanha como um modelo
diferente (e superior ao das “democracias parlamentares ocidentais”) de desenvolvimento
moderno, um que combinava “monarquia e sucesso industrial, universidade e exército” (ELEY,
1984, p. 19). [Como já havia demonstrado Norbert Elias] essas classes médias letradas, que
confundiam seus valores com os da nação como um todo, viam-se como um grupo superior
por elevar-se acima de valores materialistas e estarem mais umbilicalmente ligadas ao que era
“espiritual”. Essa visão de uma diferença positiva ganhou força com a Primeira Guerra e esteve
sempre presente ao longo de Weimar.
Os autores desejam ir além disso: querem ver na Alemanha do século XIX uma outra
corrente de pensamento que valoriza a vida material acima de tudo e que sente atração pelo
modelo inglês e ocidental de desenvolvimento: sem negarem a autorrepresentação de
diferença positiva, querem encontrar aquilo que a Alemanha tem de semelhante aos outros
países da Europa. Quando propuseram isso encontraram, surpreendentemente, reações de
acadêmicos alemães que ainda sustentavam, no final do século XX, a mesma
autorrepresentação positiva do século XIX: afirmavam ser verdade que o sistema imperial-
industrial-militar da Alemanha fora superior ao das nações parlamentares do oeste.
Após a guerra, historiadores mantiveram a ideia de um Sonderweg, apenas invertendo
a polaridade: negativizaram-no. A aberrante trajetória alemã foi empregada para explicar a
catástrofe: encontraram as raízes do Terceiro Reich naquela Alemanha imperial-industrial-
militar. 1933-45 foi colocado como culminância da estranha história moderna da Alemanha.
Mesmo considerando todas as variantes políticas e metodológicas dos historiadores, Eley acha
possível encontrar um ponto invariável: todos compartilham uma “inquietação com padrão da
peculiaridade alemã” (p. 20). Alguns consideravam a peculiaridade germânica um fruto da
geografia (sua posição intermediária entre oriente e ocidente); outros, viram no militarismo
em geral e no exército prussiano em particular a força que moldou a diferença; a corrente mais
forte, composta por muitos historiadores emigrados, colocava na cultura a responsabilidade
pela diferença: a “peculiar mentalidade alemã”, marcada por “[...] irracionalismo, glorificação
de valores marciais, a obediência abjeta do ‘súdito’ 1, inclinação para a vida interior e desprezo
por valores ocidentais supostamente mecânicos” (p. 20-21). Essas características típicas do
pensamento alemão, pregava tal corrente de análise, era responsável por afastá-los do
pensamento iluminista ocidental.
Uma influente e densa explicação para a diferença, segundo Eley, é aquela que
enxerga uma modernização incompleta na Alemanha: a modernização da economia não teria
sido seguida, como na Inglaterra, França e EUA, por uma modernização dos valores sociais e
das instituições políticas [essa é a tese central de Jeffrey Herf em “Modernismo Reacionário”].
E explica isso: não se modernizou a sociedade e a política porque a) a burguesia alemã ganhou
o que tinha de baixo para cima, como concessão do poder, e não lutando contra ele; b) porque
os industriais nunca conseguiram vencer os proprietários de terra, e houve então uma
associação via casamento; em suma, porque a burguesia – classe vista como responsável pelas
transformações sociais e políticas no Ocidente, seria fraca na Alemanha: teria ocorrido uma
“feudalização da burguesia” (p. 22). Mantendo intocado seu poder político ao longo do século
XIX, a elite tradicional pré-industrial se manteria intacta durante Weimar e seria responsável
por elevar Hitler ao poder: somente em 1945, finalmente, a Alemanha entraria no rol dos
países burgueses ocidentais. Eley considera louvável esse esforço de autocompreensão feito
após 1945, superior ao que havia sido feito até então, e também o considera sofisticado em
seus métodos, servindo-se da ciência política e da sociologia. Para Eloy, trata-se de uma etapa
1
Essa característica dos alemães era encontrada por Hake já em 1895.
no processo de trocas entre os pensadores da Alemanha com os dos EUA e Inglaterra: essa
visão sobre a história da Alemanha representa a “devolução”, por parte dos americanos e
ingleses, das teorias de Max Weber.
Diz que não pretende demolir esta vertente explicativa, sob a qual diz ter se formado,
nos anos 1960, mas explorar alguns pontos em que ela não tem conseguido oferecer
compreensão suficiente.
1º - testar a ideia aceita de maneira apriorística de Sonderweg. Se a trajetória alemã é
aberrante, qual é a norma da qual ela desvia? Descobre que, de maneira explícita ou implícita,
o modelo tomado como normal era o do “desenvolvimento ocidental, e mais particularmente
Anglo-americano e Francês” (p. 23). Na verdade, uma “imagem idealizada do que seria
realmente este padrão ‘ocidental’” (p. 24), quase mítica. É o que Eley chama a busca pelos
“pecados de omissão de uma história nacional quando medida em relação a outras histórias
nacionais idealizadas” (p. 24). “América”, “França”, “Inglaterra” são tipos ideais, cuja existência
se torna inútil quando rotinizados e tomados como auto-evidentes. Só são bem-vindos quando
ainda servem para iluminar um assunto, quando funcionam.
Acredita que o caminho é procurar enxergar o que realmente ocorreu na Alemanha,
no lugar de tomar como ponto de partida aceitar que ela se diferenciou da normalidade.
Acredita que se deva comparar a história nacional da Alemanha com a de outros países, além
dos que se tradicionalmente observa: Escandinávia, Itália, Leste Europeu etc.
2º - testar a ideia aceita de maneira apriorística de que a burguesia alemã “moveu-se
desastrosamente através da história moderna na direção oposta”, ou que “vendeu seus
próprios direitos de nascença”, escolhendo dedicar-se a fazer dinheiro e “um mundo privado
de sensibilidade”, em suma, a ideia de que a burguesia alemã era “fraca e imatura” (p. 25). De
novo, o caminho passa pela inquirição do padrão: se a burguesia alemã é um desvio da norma,
qual é a norma da qual ela se desvia? Como deveria ser, e onde existiu, essa burguesia ideal?
Concluíram que a burguesia alemã não esteve ausente do “palco da história”; que era
necessário reconsiderar a ideia de uma revolução burguesa. O caminho é observar o
desenvolvimento da burguesia na Alemanha do século XIX, através de uma análise
concentrada em elementos ligados a ela: “direitos de propriedade e ideias de competição, a
regulamentação da lei, o surgimento de associações voluntárias e opinião pública, e novos
padrões de gosto, patronagem e filantropia” (p. 26). A aproximação desse grupo com a antiga
elite ocorreu, mas em que outro país isso não ocorreu também?
Há vestígios de feudalismo na forma das relações entre patrões capitalistas e seus
empregados? Qual a distância entre as novas associações voluntárias e as mais institucionais,
semi-estatais Verbande (“ligas”)? De todo modo, questões desse tipo só podem ser abordadas
corretamente, e vêm sendo, segundo Eley, através da Alltagsgeschichte.
3º - e mais importante: como essa trajetória da burguesia na Alemanha se articula com
a vida política? A ausência de parlamentarismo, liberalismo e democracia parece traduzir o
fracasso da burguesia alemã. Mas onde ela foi vitoriosa? Em que país a burguesia tomou o
poder e reconstituiu o estado a sua imagem e semelhança? Há de fato essa ligação necessária
entre burguesia como classe e um determinado modelo de estado? Para ele, na América, na
Inglaterra e na França a burguesia se tornou a classe dominante (e não classe governante) não
por meio de ações heroicas ou intervenção política direta, mas por reorganizar a vida miúda,
as relações de produção, trabalhistas, associacionistas, legais. Uma revolução silenciosa e
pulverizada. Um alargamento do conceito de revolução burguesa.
p. 28

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Não advoga a imagem de uma burguesia apolítica: apenas uma noção bipartida da
história política da burguesia: de um lado, essa atuação silenciosa e pulverizada que instituiu
mudanças na sociedade e na economia; por outro, o drama político, a política feita como ação
dramática, em palco público, com falas e enredos, tramas e intrigas; nesse segundo aspecto,
ao contrário do anterior, a burguesia fracassou, não conseguiu atingir uma unidade de
interesses e, dessa forma, não conseguiu reformar o sistema político e constitucional no
período entre a unificação e a Primeira Guerra. Isso resulta numa “falta de sincronização entre
as realizações burguesas nos diferentes níveis” (p. 28). O que se advoga é: apareceu no século
XIX na Alemanha uma burguesia, entendida como um grupo que “possuía e controlava o
capital e os esteios administrativos, profissionais e gerenciais” e que desenvolvia
concomitantemente uma consciência comum que valorizava “o direito à propriedade, o papel
fundamental da legislação”, formas próprias de associação, filantropia e novas relações
patronais. Essa burguesia tinha consciência de si, especialmente porque apareceu de maneira
tardia e o efeito contrastante dela foi explícito. Essa burguesia se tornou hegemônica na
Alemanha, mas quando se tratou de converter-se em força política do tipo tradicional, falhou
em superar as diversas cisões internas e por isso não obteve a liderança no jogo do poder
institucional.
Um postulado: o constitucionalismo liberal europeu somente se cristalizou em
democracia quando confrontado com pressões fortes das classes subordinadas. Em cenários
marcados pela ausência de agitação popular, o liberalismo tendeu a se cristalizar em um
parlamentarismo que, apesar de se dizer defensor do “interesse geral”, se torna permeável
apenas às classes proprietárias – a burguesia entre elas. Ele vê isso acontecer na Alemanha:
quando a burguesia conseguia acesso ao poder, tendia a lutar por parlamentarização, mas não
por democracia. Ele lembra que o antidemocrático estado prussiano se constituiu em parte
graças aos esforços de aplicados membros da burguesia.
As análises anteriores criaram a ideia de um “bonapartismo alemão”, da manipulação,
por parte da elite, dos sentimentos da massa, transformando um descontentamento que em
outros lugares se traduziria em revoluções e sedições a se transformar em atividade partidária.
Nesse esquema, a velha elite sorrateiramente converteria o descontentamento em apoio,
atraindo para si as massas agitadas. Os autores concordam em parte com isso. Apenas
acreditam que a manipulação foi menos maquiavélica do que se costuma narrar nas histórias
da Alemanha: a forma pela qual se deu o processo de transformação da sociedade alemã –
crescimento industrial vertiginoso ocorrendo junto com a consolidação da sociedade sob
hegemonia burguesa – fez com que o descontentamento das classes subordinadas se dirigisse
“naturalmente” para o teatro da política tradicional. O que se conclui dessa argumentação é
que há consenso entre os historiadores de que na Alemanha a atividade política das classes
subordinadas – diferente do que ocorrera em outros países - se dirigiu diretamente para a
atividade partidária.
O estado alemão era de fato autoritário e apenas semi-constitucional: o Kaiser tinha de
fato grande poder sobre o funcionamento do mecanismo político, e o sistema de
representação funcionava a meia-força, obstado por permanências pré-liberais. O autor quer
demonstrar que isso, ao contrário do que costumam dizer as análises tradicionais, não se deu
somente por força de manipulações, mas pela própria incapacidade de unificação da
burguesia, fragmentada e enfraquecida durante todo esse período imperial, e pelos problemas
que os partidos burgueses enfrentaram na lida com o eleitorado popular.
De todo modo, tanto a forma demagógica com que o sentimento popular foi tratado,
quanto o fracasso em realizar uma reforma de fato, acabariam tendo peso na história da
Alemanha após a primeira guerra.
Hitler não foi um “acidente” histórico, um surgimento inesperado e excrescente
totalmente estranho ao que ocorreu no século XIX; mas também, argumenta o autor, não se
pode olhar o século XIX como “antessala do Nazismo” (p. 32): a questão não é confirmar ou
negar a continuidade do século XIX no advento de Terceiro Reich, mas em explicar como se
deu essa continuidade, que tipo de continuidade é essa. A ligação do cenário político do século
XIX com a República de Weimar, para Eley, é evidente: a fragmentação da burguesia, a
hostilidade dos partidos burgueses para com a esquerda, o caráter confessional das secções
impediu a consecução do projeto reformador. Para o autor, o fim da política Guilhermina,
“velha e confortável”, abriu as portas para novas formas de participação política que puserem
lenha na fogueira nazista: “[...] a emergência de um novo nacionalismo radical legitimado pela
referência ao ‘povo’ no lugar do imperador, a revolta dos camponeses contra a autoridade
urbana, o advento de uma pequena burguesia autoconsciente” (p. 32).
O sucesso do nazismo, como de outros fascismos, está ligado fortemente a uma
“retórica pública”: tanto quanto a sua função, sua aparência.
A historiografia tradicional procura colocar a ascensão do nazismo como uma
continuidade da política autoritária do século XIX: uma elite temerosa em perder o poder de
controle sobre uma massa cada vez mais imprevisível decide apostar suas fichas no único
elemento que parece ser capaz de evitar a revolução de esquerda. Os autores procuram
demonstrar que não era mais a “velha elite pré-industrial” (p. 33) e seus mesmos instrumentos
que estavam em ação entre 1930-33, mas um novo grupo, com novos objetivos. Propõe que se
veja “a demagogia pré – e pós- guerra como um processo cada vez mais arriscado de tentativa
de contenção política, e não como uma bem-sucedida manipulação política por uma pequena
elite em particular” (p. 34).
Capitalismo e nazismo: a República de Weimar era vista como ligada “não só a
revolução, inflação e Versailles” (p. 35) mas também, aos olhos dos capitalistas, era sinônimo
de apoio aos sindicatos e a uma política de bem-estar social: o SPD, partido que comandava a
República, tinha compromisso com essas plataformas e, se voltasse atrás, veria sua base de
apoio entre os trabalhadores migrar ainda mais rápido para o KPD. Os interesses do capital
estavam ameaçados.

O discreto charme da burguesia: reavaliando a história alemã do século XIX – David


Blackbourn (p. 127)

1- Peculiaridades germânicas

“A história como realmente aconteceu” (“wie es eigentlich gewesen”), como queria


Ranke, nunca foi o foco dos historiadores que trataram do século XIX na Alemanha. Eles se
concentraram na história que nunca aconteceu: preocupados com os pecados por omissão,
quiseram demonstrar o desvão entre o que foi e o que deveria ter sido. O olhar sobre “A
nação atrasada” (termo que dá título a obra de Helmuth Plessner) procura ver um país que
não se completou; 1848 é tomado por A.J.P. Taylor como o ano em que os alemães falharam
em completar o seu destino.
O atraso tem um responsável: a burguesia alemã: politicamente imatura, dada a um
quietismo cívico, ou suscetível à sedução dissuasiva por parte de uma elite pré-moderna que
comprou sua serenidade. O atraso se explica pela falta de uma revolução burguesa.
Eis uma descrição das acusações dirigidas pelos historiadores à burguesia alemã, nas
palavras de Blackbourn:
The German bourgeoisie, we have been told, failed to find a public role commensurate with its
economic strength, preferring to take the money and run; it failed to embrace the `modern',
turning instead to pessimism and cultural despair; it failed to develop a responsible sense of
social engagement, retreating rather into civic quietism; it failed to impose its own values on
society, allowing itself to become feudalized; and it failed, finally, to muster sufficient self-
confidence as a class to do more than genuflect before the mighty state (p. 161).

Blackbourn aponta duas formas tradicionais de explicar essa omissão da burguesia.


Primeiro, uma que considera que os alemães têm um modo bastante peculiar de pensamento.
A partir do início do século XIX os alemães teriam desenvolvido, especialmente entre as classes
médias cultivadas, uma mentalidade que considera os seus valores superiores aos ocidentais,
menos maculados pelo árido racionalismo; que tem uma relação intensa com a natureza, uma
tendência a preferir uma sociedade orgânica mais que uma mecânica, uma hostilidade em
relação à modernidade e uma tendência ao “desespero cultural”, uma tendência ao recuo para
a vida interior e privada, tudo isso contribuindo para formar o alemão apolítico (uma figura tão
palpável que Thomas Mann invocou esse caráter essencial do alemão em seu libelo contra a
Primeira Guerra).
Outra forma de compreender o fracasso peculiar da Alemanha é aquela da teoria, por
exemplo de Jeffrey Herf: um desencontro entre os aspectos econômicos, sociais e políticos
teria levado a um modernismo incompleto (ou reacionária, como Herf denominou). Nesse
esquema a burguesia era “comprada”: os objetivos econômicos desse grupo não eram
conquistados por seus membros, mas concedidos “de cima”; nesse esquema, a burguesia
nunca antagonizou aquela que, em circunstâncias “normais”, seria sua inimiga mortal, a velha
aristocracia rural (os Junkers). Ao invés disso, elas se uniram, num “casamento entre o ferro e
o centeio” (p. 131). Os interesses dos Junkers teriam sido preservados, como a manutenção de
tarifas de importação protecionistas. Derrotada em 1848, ultrapassada pelo militarismo de
Bismarck no processo de unificação, a burguesia teria desistido inclusive de desenvolver uma
“cultura de classe”, preferindo imitar a aristocracia: investiu na aquisição de propriedades de
terra, títulos nobiliárquicos e assimilou os valores marciais típicos da aristocracia: ocorre o que
se chamou de “feudalização da burguesia”. Isso se provaria desastroso, por permitir que a
velha aristocracia mantivesse as estruturas de domínio sobre o processo político institucional,
o exército, a burocracia do estado e o judiciário. As forças pré-industriais sobreviveram além
do que naturalmente deveriam: mantiveram o controle mesmo após a revolução de 1918 e
durante todo o período do Terceiro Reich; somente em 1945 teria se esfacelado esse
esquema: aí está o “ano zero” (Stunde Null) da história alemã, o momento em que ela
finalmente se moderniza. Adere finalmente ao Ocidente, ao liberalismo, à pluralidade política,
à modernidade: se reconcilia com sua história e finalmente supera o erro por omissão em que
incorrera por cem anos ou mais.
Blackbourn vai tentar, em seus artigos, estabelecer uma nova visão a respeito desses
velhos preconceitos: que a burguesia desempenhou um papel mais importante do que se
concede, tendo liderado uma revolução silenciosa;

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que, por outro lado, era interessante para essa burguesia contar com um “estado
poderoso ‘acima’ da sociedade” (p. 133); e que este mesmo estado foi uma instância útil para
o tratamento de uma série de dificuldades, mais eficiente que o mercado ou os tribunais.
Finaliza a introdução dizendo esperar ter contribuído para que se fale menos sobre o
desastre alemão como resultado de uma entrada atravessada na modernidade. Argumentos
desse tipo, afirma, “podem obscurecer verdades importantes sobre a modernidade ocidental
tanto quanto o fazem a respeito da peculiaridade alemã” (p. 133).

2. O papel da burguesia: uma perspectiva geral

Inicia observando, a partir de Marx e Weber, o estabelecimento da visão de que é a


burguesia a classe que deve liderar o avanço modernizador; tal construção, afinal, parece não
ter encontrado uma realização fora das teorias.
Marx, no “Manifesto Comunista”, a coloca como classe realizadora das maiores
mudanças já experimentadas pela humanidade. Weber, o “Marx burguês” (p. 134), igualmente
eleva a burguesia ao papel de responsável por instituir “um novo e revolucionário princípio de
organização econômica” (p. 134), e coloca suas esperanças no “espírito empreendedor”, fonte
maior de dinamismo econômico e social. Nenhum dos dois parou por aí: ambos apontaram os
lados sombrios desses acontecimentos capitaneados pela burguesia; o problema, segundo
Blackbourn, é que muitos historiadores tomaram essas constatações iniciais, etéreas e
incompletas, como medida definitiva, e passaram a aplicá-la nas observações “empíricas” de
grupos humanos em atuação. Onde quer que esses exigentes padrões não fossem
devidamente preenchidos, marcavam uma falta. Essas concepções, Blackbourn assevera,
penetraram profundamente no nosso juízo e permanecem teimosamente lá, “mesmo quando
acreditamos que já os rejeitamos conscientemente” (p. 135-134). Junto a ele, há um outro que
guia o julgamento: a assunção implícita de que “aquilo que ocorreu na Inglaterra é a norma”
(p. 135).
Diz-se que a burguesia alemã recebeu “de bandeja” as suas vitórias. Blackbourn não
nega isso, mas questiona se isso é de fato uma exceção: “Raramente encontraremos classes
comerciais e industriais que tenham arregaçado as mangas e construído por si mesmas um
mundo capitalista, à maneira que se atribui aos seus semelhantes ingleses” (p. 135). De fato,
ao que parece, a transformação capitalista dentro e fora da Inglaterra, de acordo com algumas
pesquisas recentes, aconteceu antes da formação de uma burguesia: as raízes agrárias do
capitalismo parecem mais nítidas a cada nova revisão efetuada pelos historiadores [e aqui vale
lembrar que, segundo Tania Andrade Lima, o mesmo ocorreu no Brasil: a sociedade se
aburguesou antes de existir uma burguesia. Eram as elites agrárias e escravocratas que
empregavam novos utensílios e desenvolviam novos hábitos associados à burguesia; desse
modo, aquilo que a autora via como uma peculiaridade brasileira era, de fato, regra]. Acontece
que, segundo Blackbourn, por muito tempo os historiadores recorreram à burguesia como um
deus ex machina para explicar a transição do feudalismo para o capitalismo. O papel da
burguesia deixa de ser heroico, como se atribuía e se esperava dela, e ela passa a ser vista mais
“como produto do capitalismo do que como sua instigadora” (p. 135). A burguesia não poderia
ser “a parteira de seu próprio nascimento” (p. 135).
Blackbourn continua: se é possível questionar a ideia de que a burguesia inaugurou a
economia capitalista, pode-se da mesma forma questionar a ideia de que ela inaugurou a
reforma social e política associada ao capitalismo. De novo, nessa visão a burguesia alemã sai
prejudicada, porque é comparada com suas congêneres da França e da Inglaterra, vistas como
líderes de reformas profundas nas instituições políticas e na sociedade. De novo, Blackbourn
começa por desmontar a ideia de que houve essa transformação liderada pela burguesia fora
da Alemanha: pesquisas recentes citadas por ele mostram que nos momentos da história da
Inglaterra e França em que a historiografia tradicional postulou a existência de uma atuação
direta da burguesia nos rumos políticos de seus países (século XVII para a Inglaterra, século
XVIII para a França) não se pode discernir, “nem sociológica- nem ideologicamente, uma
burguesia perseguindo claramente seus interesses de classe” (p. 136); não havia “poder,
unidade ou autoconsciência” burguesa naquela altura. Ainda no século seguinte, que já foi
chamado de “o século da burguesia” na França (Theodore Zeldin), permaneceria uma situação
de extrema fragmentação entre os burgueses, um “caleidoscópio de ocupações, ambições e
maneiras” (p. 136). O mesmo para a Inglaterra, onde pesquisas têm demonstrado o poder da
aristocracia rural e sua capacidade de resistir e sobreviver, ao mesmo tempo que descreve
uma burguesia “fragmentada, socialmente modesta e amplamente dedicada a assuntos locais”
(p. 136).
Dessa maneira, os padrões pelos quais a Alemanha vem sendo descrita como
aberração não existem.
Alguns observadores da história alemã, já no século XIX, empregaram o termo
“bonapartismo” para descrever o modelo alemão, especialmente aquele que se estabeleceu
após 1871. Isso significa um “[...] regime autoritário e falsamente constitucional, amparado
pelas forças militares e burocráticas e disfarçado por um plebiscito sumário” (p. 138).
Blackbourn recorre a Marx e Engels, que empregaram o termo para se referir à Alemanha, mas
que o estenderam para se referir a toda a Europa: para Engels, o bonapartismo era o regime
de governo preferido pela burguesia da Europa. E isso se confirma, segundo Blackbourn: em
lugar nenhum a burguesia governava sozinha, sem o amparo das velhas oligarquias, sem o
braço forte de algum indivíduo poderoso. Os historiadores ingleses e franceses têm
abandonado a ideia de uma revolução burguesa paradigmática, que tenha realizado a
transferência do poder político para a burguesia.
Se ainda se pode buscar uma revolução burguesa, na Alemanha ou em qualquer lugar,
é necessário primeiro reformar o conceito de “revolução”, abandonando o olhar que procura
sucessos súbitos, fulminantes e nítidos, e concentrando-se em acontecimentos mais lentos,
difusos, pequenos, procurando uma “silenciosa mudança na economia e na sociedade no lugar
de dramáticos episódios públicos, aos efeitos das ações mais do que as intenções dos atores”
(p. 139).

II – Economia e sociedade: uma silenciosa revolução burguesa


1. Capitalismo e o admirável mundo novo

O estado teve papel importante no estabelecimento do capitalismo na Alemanha,


assim como em toda parte: ainda na primeira metade do século XIX, promoveu a secularização
que removeu privilégios da Igreja (que eram entraves à economia); proporcionou a
emancipação dos camponeses e a formação de um mercado interno; cassou os privilégios de
guildas, removeu tarifas internas ao comércio. Os estados individuais que viriam a compor a
Alemanha investiram em instrução, criando oficinas-modelo, estimulando a criatividade
técnica por meio de prêmios para inventos, incutindo novos gostos e padrões por meio da
expansão da educação formal. Exposições industriais realizadas em diversas partes divulgavam
as possibilidades e as vantagens da “nova economia”. O “Poderoso Leviatã” acendeu o
“individualismo possessivo”. Em 1850 e 60 já havia poderosos, ricos e autoconscientes
industriais e comerciantes capitalistas, mas em muitas partes, ainda nessa altura, era o estado
– via burocracia – quem fomentava o desenvolvimento capitalista. Quando da unificação, o
estado beneficiou ainda mais a nova economia, oferecendo vantagens longamente desejadas:
“[...] mercado nacional, o Reichsbank [Banco Imperial], os inícios de um sistema de
comunicações nacional, condições favoráveis para o estabelecimento de companhias limitadas
e uniformização da moeda, dos pesos e medidas, e leis de patentes” (p. 142). O estado ajudou
a remover as resistências decididas das guildas e corporações e os enclaves “atrasados”
apegados de maneira intransigente à economia natural. “Acima de tudo, através da reforma
institucional e de mudanças na organização educacional e de comunicação, o estado ajudou a
estabelecer a possibilidade e o desejo por um novo tipo de homo oeconomicus. Ele imprimiu
um ar de naturalidade aos desenvolvimentos que, naquela altura, não eram de maneira
nenhuma percebidos como naturais” (p. 142). O papel das companhias foi crucial: permitia a
mobilização de capitais enormes, para investimentos que exigiam somas gigantescas
(ferrovias, linhas de navegação a vapor etc.).
O mercado de ações resultante desse sistema permitiu aos investidores terem acesso a
uma forma de aplicação nova e potencialmente mais lucrativa que as antigas aplicações típicas
da aristocracia, em propriedades imobiliárias e títulos do governo: estimulava assim a
circulação dos capitais. Em algumas décadas, esse processo ganhou velocidade e acabou por
mudar o eixo da economia alemã da produção rural para os novos setores industriais e
comerciais, que assimilaram a anterior.
O capitalismo chegou antes do florescimento da industrialização: as relações de
produção se tornaram novas a partir do final do século XVIII, quando os trabalhadores
passaram a depender do capital dos mercadores. Restaram muitos trabalhadores não
incorporados diretamente à vida fabril, sapateiros, marceneiros, alfaiates independentes
(formando uma Mittlestand), fato que foi apontado como prova do arcaísmo da situação
alemã. Para Blackbourn, essa conclusão é falsa: mesmo independentes, eles se articulavam
com a produção industrial, atuando como “trabalhadores externos contratados” (p. 143), que
eram úteis (para os industriais) nos momentos de baixa demanda.
O sistema capitalista, sobretudo, ajudou a enterrar o sistema econômico de pura
subsistência: o autor demonstra a decidida mercantilização dos antigos enclaves rurais, a
queda na produção para subsistência e a entrada de grandes contingentes de camponeses no
mercado, o que significa, na mentalidade orientada para o mercado; ao mesmo tempo, e como
consequência e evidência disso, subiu estratosfericamente a venda a varejo.
p. 144
10-2-2016

Blackbourn responsabiliza novelistas burgueses (nomeadamente Freytag, Gutzkow e


Spielhagen) pela omissão do caráter capitalista que os Junkers (do alto alemão medieval
Juncherre, junger Herr, Jungherr) imprimiram à produção de suas propriedades rurais,
preferindo representá-los como preguiçosos e inúteis. Max Weber em 1890 percebeu melhor,
em uma inquirição que fez da atividade rural na região a leste do Elba, o papel modernizador
da economia rural dos grandes proprietários, que naquela altura corroía antigos padrões de
relações patriarcais. E outro fato importante: na metade do século XIX, a antiga nobreza alemã
estava bastante penetrada pela burguesia: já em 1859, 57% dos solares aristocráticos
(Ritterguter) estavam em mãos não-aristocráticas na Prússia. Em 1880, dois terços das
propriedades em toda a Alemanha se encontravam nessa situação. A hereditariedade cedeu
espaço para outras formas de valorização social, mais capitalistas, especialmente a da
“conquista” de posição e riqueza por força dos próprios méritos. Novos segmentos
profissionais, dotados de autoconsciência e orgulho de classe, amparam-se nessa nova forma
de valorizar socialmente o indivíduo; disciplina e auto-aprimoramento tornam-se elementos
valorizados. Houve resistência a esses novos valores: a insensibilidade, a eficiência, o apego à
materialidade da nova burguesia foram combatidos, assim como empreendimentos ligados à
“nova ordem”: a emancipação dos camponeses, a corrosão das guildas, o abandono do
princípio da subsistência, a introdução de novos códigos comerciais. Essa resistência
fundamentava-se em argumentos religiosos, estéticos, morais e políticos. Apesar de relevantes
nesse cenário em transformação, tais focos de resistência foram derrotados.
A porção católica da Alemanha, frequentemente identificada como “atrasada”, foi uma
das mais aguerridas defensoras da nova ordem burguesa: um exemplo é o fato de que mudou
vários dias santos – em que não se deveria trabalhar – para os fins de semana, procurando
diminuir os dias não trabalhados a um mínimo.
Outro segmento tradicional em que a nova lógica penetrou: na concessão de títulos
oficiais, ordens, patentes, e mesmo títulos nobiliárquicos. O comércio de títulos tornou-se um
ramo rentável de atividade para muitas províncias. Entre outras evidências disso, Blackbourn
cita o fato de que “40 ou 50 homens em [...] Berlin ofereciam seus serviços de corretores de
títulos” (p. 146). Tudo isso indicia o funcionamento disseminado do que Blackbourn chama de
“cash nexus”, relações monetarizadas.
Outro ponto: diz-se que na Alemanha o entusiasmo pela “civilização mecânica” teria
sido menor que na Inglaterra e na França; que o apego ao que é orgânico, à natureza intocada
pela lógica da máquina, teria levado a essa rejeição. Blackbourn argumenta que isso não é
completamente correto: há de fato uma valorização da natureza na Alemanha, mas há
também sinais inequívocos de entusiasmo com a máquina: “a tríade ferrovia, navio a vapor e
telégrafo serviu como símbolo de um progresso muito mais que meramente econômico” (p.
147). Ali também se celebrava as novas forças obtidas pelo uso da tecnologia, percebida como
uma vitória sobre as limitações da natureza. Inaugurações de obras modernas (como pontes e
trechos de ferrovias) atraíam multidões entusiasmadas com as novas conquistas; o emprego
disseminado das viagens de trem cresce com o avançar do século e marca a produção literária
alemã do século XIX.
148
11-2-2016

Apesar de estar disseminado pelas várias classes alemãs, o entusiasmo com a


expansão das ferrovias passou aos registros literários como característica burguesa; de fato,
não foram poucas as representações literárias que mostravam nobres tentando inutilmente
vencer a máquina de ferro com seus cavalos (imagem de um forte simbolismo, a velha ordem
amparada nas forças da natureza sendo superada pela modernidade mecânica), ou senhoras
da nobreza incomodadas com a natureza pública do novo meio de transporte. Houve uma
identificação entre progresso e burguesia.
Essa polarização atingiu o ápice durante a Kulturkampf, nas décadas de 1860 e 1870,
momento em que a burguesia se engajou numa luta contra a Igreja Católica. Atribuindo a si a
defesa das forças da modernidade (avanço material, igualdade perante a lei, trabalho
produtivo), a burguesia imputou à sua adversária a pecha de atrasada, defensora de leis e
instituições pré-modernas, supersticiosa. Blackbourn defende que, nas três décadas centrais
do século XIX (1840-50-60), a ideia de que a burguesia carregava o bastião do progresso pode
ter aglutinado diversos grupos que se identificavam com essa missão. O otimismo burguês
pode ter sido o elo entre grupos que, em outras esferas – políticas, econômicas, sociais – não
se percebiam iguais. Uma “piedade mundana” quase religiosa, fruto da expansão súbita da
vida moderna na Alemanha. As realizações dessa nova ordem na Alemanha foram “vulcânicas”
– porque súbitas e dramáticas - e “titânicas” – porque exageradamente grandes. Blackbourn
sugere que se veja a Alemanha como uma nação parvenu: chegando mais tarde à
modernidade, desejava causar sensação, espalhafato, marcar bastante visivelmente sua nova
situação. Daí a estridência de sua burguesia, que no início daquele mesmo século nem era
percebida como grupo, nem tinha uma autodefinição clara.
2. Lei, Associação Voluntária e a ascensão do Público
De que maneira a burguesia alemã exerceu esse protagonismo que requisitava para si?
Por um lado, através do desenvolvimento de uma economia capitalista. Por outro, pela
extensão e consolidação de um sistema legal. A partir da metade do século XVIII, a organização
alemã mudou de uma sociedade corporativa estática (Standestaat) para um estado de direito
burguês (Rechtsstaat); os membros dessa sociedade adquiriram o status de cidadão do estado,
submetidos todos, indiscriminadamente, às mesmas leis; leis de proteção da propriedade
privada – tornadas inalienáveis e passíveis de serem negociadas por seus proprietários –
reforçaram essa modificação. Todas essas mudanças se processaram em silêncio, e esse
silêncio era necessário, do contrário, perdia-se a aparência de naturalidade do novo esquema
(ou seja, contrariando Danto – ou seria Jameson? – a modernidade chegou de maneira
insidiosa, da mesma forma que ele afirma ter chegado a pós-modernidade; as proclamações e
manifestos só vêm depois de toda a base consolidada). Na virada do século XIX, ao mesmo
tempo que a França Revolucionária e depois Napoleônica, os estados da Alemanha se
modernizavam; códigos senhoriais, eclesiásticos e corporativos foram sendo removidos, pois
eram empecilhos à consolidação da igualdade legal. Apesar de resistências e disparidades no
ritmo dessas mudanças em cada uma das regiões, em 1871 estava instituída em toda a
Alemanha a igualdade perante a lei, e todas as resistências a este princípio tinham sido
neutralizadas.
Outras características do estado de direito consolidadas no século XIX: a de
responsabilização legal da burocracia (tirando sua “blindagem”, tornando-a passiva de ser
interpelada por suas ações) e a formação de uma esfera pública (Öffentlichkeit) separada e
independente do estado. Esse ambiente era formado pela imprensa, pelo direito à livre
associação e assembleia, pelo direito à liberdade de expressão e petição 2.
Paralelamente à formação desse âmbito público, e de certa forma, de maneira
paradoxal, cresciam os direitos privados, especialmente o de propriedade privada. Dessa
forma, preconizava-se o direito do indivíduo mais do que o do cidadão. O Código Civil
promulgado em 1900, após décadas de elaboração, era “a codificação dos ideais da sociedade
burguesa do século XIX” (p. 152). O estado era o executor dos interesses da burguesia, nessa

2
Notar que Antoine Prost demonstra que as cátedras de História, no início do século XIX em Paris, eram
eventos políticos, reunindo não só estudantes, mas um amplo público sequioso pela oportunidade de
ouvir ideias e temas que não tinham outros canais de publicação; nestes “recintos preservados” os
historiadores encontravam espaço para participar do debate num cenário em que as liberdades de
expressão ainda estavam se formando; Guizot acabou sendo proibido de falar em 1822 (PROST, 2014, p.
23). Ver também que talvez GALVES localizou nas primeiras décadas do século XIX, no Maranhão,
justamente com a fundação da primeira tipografia do estado, a formação de um espaço público de
debates.
altura. O esforço dispendido nesse processo revela a importância central da lei para a parcela
burguesa da sociedade: era na lei que os burgueses viam um dos seus esteios. A infiltração
tranquila e naturalizada dos interesses da burguesia nos códigos legais (e possivelmente um
concomitante crescimento da importância da lei escrita como pilar do funcionamento da
sociedade) foi mais uma etapa daquela revolução silenciosa 3.
Numa sociedade que demandava funções mais especializadas e complexas, criando
novas profissões que surgiam ao mesmo tempo em que se desmantelava a sociedade
corporativa, os novos profissionais até então “atados à corte, à igreja ou às guildas” (p. 152),
identificavam-se desde o início como burguesia. Estes homens determinavam as diretrizes de
suas próprias atividades e, ao mesmo tempo, projetavam-nas à toda a sociedade circundante:
cientistas e médicos, por exemplo, dotaram suas práticas com um tom de otimismo e com a
crença no progresso.
Mas foram as associações, na opinião de Blackbourn, os instrumentos pelos quais a
burguesia universalizou sua cultura e tomou a condução da vida coletiva na Alemanha. Elas
existiam já desde o final do século XVIII, um espaço entre a família e o estado, uma esfera
pública; mas foi no século XIX, especialmente após 1850, que elas se multiplicaram “como
cogumelos”. Tinham objetivos diversos: esportivos, culturais, filantrópicos, religiosos ou
educacionais. Havia sociedades locais com fins extremamente específicos, como estimular o
abandono do consumo de bebidas espirituosas, estimular a frequência escolar entre crianças
pobres, estimular o cultivo de batatas por indigentes, arregimentar fundos para a construção
de hospitais e escolas etc. As associações voluntárias se tornaram o “elixir universal” (p. 153).
As associações tomaram o lugar deixado vazio pelo recuo do estado, da Igreja e das guildas na
formação de “opiniões” e como canais de expressão dessas ideias. Foi por meio dessas
associações que os diversos indivíduos dotados de interesses divergentes acabaram
encontrando um ponto de ligação e identificação: elas deram um sentido de classe a esses
indivíduos (àqueles que tinham dinheiro disponível, acesso a locais de reunião e educação
suficiente para a redação de estatutos e manifestos). E eram locais privilegiados para que essa
burguesia exercesse liderança dentro da sociedade: dali veiculavam mensagens para a
sociedade como um todo, ali se faziam visíveis. Emitiam a mensagem de que seus padrões
morais e costumes eram os ideais a serem atingidos por todos: eram os modelos a serem
perseguidos.

3
Essa observação sugere uma abordagem nova dos códigos de leis, especialmente os elaborados ao
longo do século XIX: o processo de criação das leis, as discussões que precedem sua promulgação, cada
um dos novos códigos que vão surgindo, nas instâncias municipais e provinciais, são oportunidades de
observar e testar essa hipótese de que a burguesia (ou qualquer novo grupo que esteja em ascensão no
lugar onde a lei é criada) vai inserindo seus interesses lentamente nos códigos de leis.
154
12-2-2016

Blackbourn vê similaridades entre as associações e a economia de mercado: “enquanto


uma era baseada na troca mútua de bens entre participantes formalmente equivalentes no
mercado, a outra consistia na troca mútua de opiniões entre cidadãos formalmente iguais”;
ambos se amparavam em dispositivos legais, e ambos operavam na esfera pública (p. 154).
A esfera pública é essencial nessa transição: artistas e literatos, por exemplo, tornam-
se mais independentes e livres do mecenato nobre, do estado e do chefe de estado quanto
mais amplo se torna um público consumidor capaz de sustentar sua existência material (o que
não significa dizer, assevera Blackbourn, que as antigas formas de patronagem desapareceram:
os príncipes das diversas partes componentes da Alemanha permaneceram em intensa disputa
entre si para atrair o maior número possível de artistas e literatos para sua órbita). Mas havia
já um número grande de escritores capazes de viver de sua literatura, ou pelo menos da
atividade literária combinada ao jornalismo (Nordau é um exemplo imperfeito, porque
adicionou a atividade clínica à de escritor e jornalista, mas isso já mais tarde, quando instalado
definitivamente em Paris). Casas publicadoras, editoras, livrarias e jornais foram as
ferramentas dessa emancipação dos literatos. Os folhetins literários nos jornais deram impulso
à atividade dos escritores em toda parte. “Os escritores alcançaram uma maior visibilidade
enquanto que suas audiências se tornavam anônimas” (p. 155).
Outras esferas se “publicizaram”: o parque público – rivalizando com os jardins
privados da nobreza – e o museu ou galeria – oferecendo a um público mais amplo o acesso às
“belas artes”, até aí confinadas às paredes aristocráticas, reservadas para olhos privilegiados. A
sala de concertos públicos, os zoológicos, eram espaços voltados para o público, instituídos e
geridos pelos poderes públicos ou por sociedades civis para estes fins constituídas. Os
restaurantes, hotéis e resorts abertos a quem os pudesse pagar eram extensões da esfera
pública substituindo e/ou rivalizando com as instalações exclusivas para nobres 4. Ruas,
quiosques, estações de trem

4
E onde estavam os membros da família Klabin nas fotografias do álbum de família? Em parques
(“Jardim da Aclimação”), em hotéis, em zoológicos na Europa, em balneários públicos, em museus e
galerias, em salas de concerto, financiando atividades artísticas e literárias: os Klabin eram os mais
acabados exemplos de burguesia, circulando pelos espaços típicos dessa classe. Examinar aquele álbum
depois de ler estes parágrafos de Blackbourn muda a compreensão sobre a família e sobre os lugares em
que ela circulava, estabelecendo a relação entre um certo “estilo de vida” e os cenários das fotografias,
evidenciado pelas atividades preferidas e lugares de circulação preferencial.
15-2-2016

... eram também novos espaços da esfera pública, e como tal reconhecidos por seus
contemporâneos. Prova disso é seu contínuo emprego como “palanque” pelos que desejavam
promover causas públicas. Se a companhia pública mobilizava capital, o lugar público
mobilizava opinião.
“Instruir, iluminar e educar” eram os objetivos da burguesia, era a justificativa para a
existência de uma esfera pública, era o motor por trás de seus empreendimentos culturais.
Instruir deve ser entendido como instilar a aceitação dos seus valores como os corretos e
modelares, “um tributo à autoconfiança da burguesia: símbolos do poder da ciência e
testemunhos de como o Progresso poderia edificar o homem enquanto dominava a ordem
natural” (p. 156). Os zoológicos, a substituírem as antigas coleções de animais exóticos da
nobreza, trocavam, nas palavras de um burguês, um espaço onde se exercitava uma pompa
em estilo asiático por locais de estudo e aprendizado de fisiologia, história natural e economia.
A atitude dos visitantes era “quase pia”, reverencial, Sokolovsky notou, algo que era desejado
e estimulado pelos mantenedores.
As atitudes durante espetáculos públicos se modificaram: começou-se a erigir uma
ideia do que fosse a atitude correta e respeitável durante espetáculos. Cessaram as
interrupções com as costumeiras exigências de repetições de determinados trechos; as palmas
passaram a ser direcionadas para o final das peças, e falas durante os procedimentos passaram
a ser censuradas. A diminuição da luminosidade durante a função acentuava a necessidade
dessa atitude contida (p. 157). Essa nova atitude do público se tornou cada vez mais comum a
partir de 1850; Wagner exigia isso em Bayeruth.
Gosto, moda e vestuário passaram a ser contidos nessa nova sensibilidade. No antigo
estado estamental, normas específicas regulavam o vestuário de acordo com a pertença do
indivíduo (Kleiderordnungen). Isso, que nunca teve poder de lei, começou a ser corroído após
1750. Aparece uma nova ordem de vestuário, e os burgueses adotam padrões distintivos, mas
sem regulamentações restritivas: a respeitabilidade burguesa, como tudo o mais, estava
formalmente à disposição de todos 5. O padrão de vestuário se estandardiza, o que favorece o
5
Assim como todos têm direito à “busca da felicidade”, todos poderiam formalmente se vestir
apropriadamente, frequentar as exposições de arte, ir a restaurantes e hotéis, etc. Era uma promessa
mais que uma realidade: quando se percebeu que essa promessa não passaria disso, acaba a utopia
moderna; o fenômeno que David Harvey atribui ao século XXI – a cidade que oferece tudo apenas aos
que têm como pagar, ou que oferece níveis distintos de acesso às conquistas humanas de acordo com
padrões censitários, o direito desigual à cidade – parece ser mais antigo, parece ser característica de
nascença da modernidade; talvez a diferença é que lá, no nascimento, essa promessa substituía a
negação completa: era um avanço; hoje a promessa se esvaziou pela experiência de 200 anos. Joris-Karl
Huysmans em “A Rebours” (1884), faz o protagonista introduzir um rapaz pobre nesse círculo de
mercado (capaz de produzir itens similares) e faz declinar, em contrapartida, a produção
doméstica. A “moda camponesa” tradicional, assim como os produtos camponeses em geral,
feitos à maneira antiga, passaram a ser valorizados pelos saudosistas, folcloristas e congêneres
ao mesmo tempo em que desapareciam, diante de novas formas de vestir e de produzir. O
folclorismo transformou em produto as antigas tradições: assim surgem, por exemplo, as
Trachtvereins, sociedades que celebram as tradições em festivais anuais, vestidos com as
roupas dos antigos camponeses: “vinho novo em garrafa velha”, segundo Blackbourn, ou “o
antimaterialismo levando água ao moinho do mercado” (p. 158).
Blackbourn encerra o capítulo com uma conclusão sobre tudo o que foi dito: a força da
burguesia não está em sua capacidade de se comportar como herói social, tomando o
processo em suas mãos de maneira súbita e violenta, às claras. Pelo contrário, sua força é
maior, e maior sua capacidade de conformar toda a sociedade, quanto menor for sua
visibilidade. Dessa forma, ao longo do século XIX, pareceu cada vez mais natural uma
sociedade igualitária, e cada vez menos aceitáveis as antigas interdições que determinavam as
formas de socializar, trabalhar, consumir e edificar-se. A ideia essencial da sociedade burguesa,
o liberalismo formalmente nivelador e universalizante, disseminou-se como nova ordem
natural. Dessa forma, “a identidade sociológica do ator social era menos importante que seu
status na ação”: fosse camponês, artesão ou burguês, todos passaram a se comunicar pelas
normas do mercado, e não mais por meio de regulações corporativas; aristocratas passaram a
ingressar em associações voluntárias, e o príncipe, a sustentar os artistas não mais pelas velhas
formas de patronato, mas adquirindo suas obras por meio de seu livreiro preferido. “Artesãos
e aristocratas, camponeses e príncipes estava imaginariamente ligados pelas mesmas regras
básicas de uma única e anônima sociedade burguesa” (p. 159), sob as forças anônimas e
naturalizadas do mercado e da lei.
O contrário é verdadeiro: onde a burguesia tornou-se visível demais, onde celebrava
suas conquistas ruidosamente, ela se tornou mais vulnerável, configurando-se num alvo fácil.

III - Economia e sociedade: o lado obscuro


1. Capitalismo organizado e desespero cultural

Depois de ter refutado as acusações tradicionalmente feitas à burguesia alemã,


Blackbourn quer ver agora quais acusações seriam cabíveis. Para ele, um ponto fraco da

riquezas somente formalmente aberto a todos, com a finalidade de torná-lo dependente do luxo e, em
consequência, um criminoso disposto a tudo para obter os meios de se manter nele.
atuação daquele grupo reside na sua ambiguidade. E isso, ele adianta, é característica da
burguesia da Europa como um todo, e não somente a alemã.
Ele chama essas ambiguidades de “lados sombrios”, porque são contrapartidas
negativas de coisas que, olhadas por outro prisma, são positivas. Primeiro, a economia: o
capitalismo de fato trouxe benefícios, extinguindo gradualmente a carência crônica em que
vivia a sociedade sob a economia antiga, instituindo eficácia e equidade, fazendo aumentar o
nível de vida. Isso se pôde observar no seu ápice nas décadas de 1850 e 1860, em que o
otimismo atingiu o ponto mais alto. Depois disso, no entanto, crises cíclicas passaram a assolar
a nova economia, “novas instabilidades e ansiedades” (p. 163) corroendo a confiança. Há o
que se chama Grande Depressão, entre 1873 e 1896, período que contém três grandes crises.
Essa turbulência fez estragos nos níveis de emprego, produção, investimento, lucros e
dividendos. Abalando a confiança, essa crise trouxe ainda outra consequência desastrosa: a
formação de enormes cartéis, a concentração brutal do controle sobre a economia e as
atividades econômicas em algumas poucas mãos, o que destruiu a visão de uma sociedade
igualitária, formada por prósperos cidadãos “médios”. A auto-regulamentação “natural” da
economia capitalista, que havia permitido a edificação de tantas esperanças de ascensão
social, mostrou-se uma quimera, beneficiando uns poucos. Parecia cada vez mais claro que os
caminhos para a ascensão social, que a modernidade capitalista gabava ter livrado das amarras
tradicionais, estavam agora amarrados por novas teias. As corporações agiam como
bucaneiras.
Logo começam a se erguer vozes que proclamam que as leis naturais do capitalismo
não são assim tão naturais. Algumas dessas vozes se expressavam numa linguagem
emprestada dos tempos pré-capitalistas, falando em “preço justo” e “direito à subsistência” (p.
163); outras forjam uma nova linguagem para expressar esse repúdio a algo novo. De todo
modo, Blackbourn ressalta que é também a visibilidade uma inimiga da economia moderna:
ela se faz em público, e está à vista de todos, aberta, assim, às críticas. Por isso, muda a forma
como a burguesia lida com suas “conquistas”: das loas abertas das décadas de 1850 e 60 ao
potencial progressista do vapor e das ferrovias, eles se encerram às quietas conversas de
bastidores, às maquinações secretas feitas nos altos escalões das corporações (os homens de
negócio retiram-se da vida pública).
Outro ponto: a crise e o recolhimento público dos grandes cartéis ocorrem ao mesmo
tempo em que o estado e a grande indústria se tornam cada vez mais inseparáveis, formando
na Alemanha aquilo que os historiadores chamam de “capitalismo estatal monopolizador” (p.
164). Interpreta-se que essa associação ocorre porque o estado desejava regulamentar uma
economia instável e assegurar alguns padrões mínimos para determinados grupos, de maneira
a minorar os danos e viabilizar a continuidade da vida econômica e a tranquilidade social. Essa
ingerência estatal torna-se aceitável porque já não se acredita mais na ideia de que a
economia capitalista seja perfeitamente autorregulatória. “Assim que o homem de negócios
desaparece dos parlamentos, ele reaparece nas comissões governamentais” (p. 164). Tudo isso
é fruto da ansiedade social frente às dificuldades da nova ordem.

p. 164 – Ansiedade social e desespero cultural (not an actual title)


17-2-2016

O “desespero cultural” – “rejeição ao racionalismo ocidental, a relação atormentada


com a natureza, com um subtexto que conecta raça e solo, o anseio por uma sociedade
orgânica ao invés de mecânica” (p. 164) – vem sendo atribuído exclusivamente à Alemanha,
como se fosse uma parte indissociável de sua “alma”. É dito que as classes educadas da
Alemanha rejeitavam a superficialidade, a artificialidade e o materialismo dos modernos
ingleses e franceses. Blackbourn não deseja negar isso: ele mesmo contribui para corroborar
essa ideia, juntando evidências de que o pensamento alemão do final do século XIX incorria
nesse “desespero cultural”, especialmente entre os acadêmicos e os educados das classes
urbanas. Mas acredita que falta completar a análise sobre o “desespero cultural”, primeiro,
entendendo essa mentalidade a partir de sua articulação com o contexto, e segundo,
observando-a como algo mais geral da Europa, e não particular da Alemanha: “existem claros
exemplares em toda a Europa de irracionalismo, redescoberta da natureza, e rejeição à árida
modernidade” (p. 165). Em todas as suas aparições – em Viena, em Paris, na Espanha etc. –
esse pensamento galvanizou especialmente as classes educadas, e todas elas “continham uma
forte retórica sobre a necessidade de preservar as virtudes da cultura nacional de uma
contaminação estrangeira” (p. 165). Muitas das acusações feitas na Alemanha contra uma
modernidade desumanizante no final do século XIX encontram similares na Inglaterra do início
do século XIX, e todas feitas nos mesmos termos: a cultura, essência da nação e da raça, era
colocada numa escala superior frente à civilização. A aberração não está na ideia em si, já que
“a autocrítica parece integrar de maneira persistente e penetrante a cultura burguesa”,
segundo James Sheehan (citado à p. 166), mas o fato de que se atribuiu essa ideia de maneira
unilateral à Alemanha, quando é evidente que ela era onipresente na cultura daquele fim de
século. A experiência alemã “deve ser incluída num continuum, e não isolada como algo sui
generis” (p. 166).
E não deve também ser isolada de suas condições circundantes: o “desespero cultural”
alemão emerge nas décadas finais do século XIX (nas intermediárias, como visto, o clima era
de euforia com a modernidade), coincidindo com “uma ansiedade mais geral” da burguesia
com as implicações de suas conquistas. Economicamente, já visto acima, a modernidade em
forma de capitalismo mostrava seu potencial desastroso. Outras fontes de ansiedade vinham
das novidades tecnológicas: novos e desconhecidos desastres espreitavam, dos abstratos e
impalpáveis – e amplamente discutidos - efeitos nocivos da velocidade dos trens sobre o
organismo, aos acidentes reais, violentos e estranhos proporcionados pelas novas máquinas (a
explosão de uma caldeira, por exemplo). O celebrado caráter público dos trens trazia em seu
reverso um “pânico social” difuso e persistente: o do contato prejudicial com algum estranho.
Enormes medos que tinham pouca razão real de existir, mas que permeavam o pensamento
sobre a modernidade; não à toa, aparece nesse período uma extensa e bem-sucedida
literatura de crimes misteriosos e detetives lidando com “assassinatos ferroviários”.
A extensão das ferrovias modificava a paisagem da cidade, trazendo o ruído, o frenesi,
o intenso estímulo sensorial que abalava a serenidade e predispunha às neuropatias. A cidade,
demonstra Blackbourn, representa bem essa sensação dúbia que a modernidade provocava na
mentalidade burguesa: se por um lado era celebrada como vitória da razão sobre as forças da
natureza, demonstrando a capacidade da nova ordem de transformar a paisagem a sua
imagem e semelhança, era ao mesmo tempo o local onde se abrigavam insidiosamente as
classes perigosas, ocultas nas ruas e recônditos, fermentando em silêncio o ódio que podia, a
qualquer momento, irromper em revolta, crime ou desordem. Uma sensação que se
aprofundava ainda mais diante de uma economia que produzia desigualdades cada vez mais
assombrosas e num momento em que os movimentos trabalhistas se organizavam e
conquistavam espaço político de maneira inexorável.
Dessa forma, o “desespero cultural” não pode ser observado como um fenômeno
abstrato, flutuando sobre esses acontecimentos como se nada tivessem com eles. Ele é sinal
de um “desencantamento da burguesia com os resultados ambíguos de suas próprias
conquistas”, expressa hostilidade e ansiedade frente àquilo que os parece ameaçar, e que eles
colocam de maneira pouco distinta nos escaninhos do barbarismo, do declínio e da
degeneração: trabalhadores e criminosos, serviçais e prostitutas etc. (p. 168).
Para Blackbourn, esse sentimento era mais forte e pronunciado na Alemanha, diante
da velocidade e da profundidade das mudanças experimentadas ali em poucas décadas,
concentrando em um período de tempo muito curto uma corrente de fenômenos que, em
outras partes, se desenrolou de forma mais gradual, permitindo uma digestão mais amena. O
caso alemão tem uma outra peculiaridade: nem mesmo a emergência desse “desespero
cultural” foi capaz de fazer cessar um “otimismo raso” e ubíquo para com algumas partes da
modernidade (“materialismo vulgar e ‘idealismo vulgar’ existiram lado a lado” na Alemanha, p.
169). Em especial, Blackbourn cita as incessantes celebrações das conquistas técnicas, em
especial uma admiração pela Marinha alemã, símbolo de poder industrial e comercial. Ocorre
uma “complexa justaposição” entre o otimismo inicial e o “desespero cultural” da metade para
o final do século XIX (p. 168). Há uma distinção importante: o otimismo se torna mais frágil e
simples. Se nas décadas de 1850-60 a tecnologia era vista como mais do que mero avanço
material, como meio para a instauração de progressos sociais e morais, ela passa a ser vista,
até o eclodir da Primeira Guerra, de forma meramente material: são apenas melhorias
pontuais, conquistas da técnica, sem que se atribuísse a elas desdobramentos “morais” ou
civilizacionais; autojustificantes, deixando que falassem por si mesmos, “fatos interessantes”
como os das enciclopédias.
Essa separação podia ser vista encarnada nas profissões: técnicos de um lado,
acadêmicos humanistas de outro. Os primeiros eram dados ao otimismo raso, os segundos a
um pessimismo estilizado. Essa divisão no seio da burguesia era menos esquemática do que a
sentença anterior faz crer; Blackbourn trata de um indivíduo em quem as duas vertentes
conviviam numa “contínua tensão criativa”: Max Weber. Se por um lado celebrava os avanços
da burguesia (grupo ao qual se incluía conscientemente) e da modernidade tecnológica,
desdenhando daqueles que desejavam um retorno à “preguiçosa Arcádia”, por outro juntava
sua voz ao coro dos que lamentavam o “desencantamento do mundo através do avanço da
racionalidade fria” (p. 169). Uma posição que Blackbourn denomina “pessimismo heroico”
neo-romântico, e que atravessa toda sua obra. Seu objetivo era um equilíbrio entre as duas
frentes, uma busca por manter uma “oposição à essa mentalidade mecânica e preservar parte
da humanidade da fragmentação da alma, e da dominação final pela forma de vida
burocrática” (p. 170). Essa ambivalência, essa convivência tensa entre moderno e anti-
moderno no mesmo indivíduo, pode ser encontrada em outros citados por Blackbourn à
página 170.
A mesma ambivalência permeia o pensamento sobre a natureza: se por um lado se
lamenta a perda irreparável que a civilização traz para a qualidade de vida, quando se compara
campo e cidade, por outro se apresenta um orgulho de que a civilização tenha conseguido um
domínio tão perfeito sobre os elementos da natureza. Isso se amalgama na visão
“rusticalizada” que a burguesia mantem de si, o que se traduz, por exemplo, nas Associações
de Vestuário que cultivam os trajes tradicionais; se traduz também no gosto literário da
burguesia urbana, que escolhia romances que se passavam nos cenários de uma idealizada
natureza nacional ancestral. Algo que ocorreu de maneira semelhante na Inglaterra, onde
“uma triunfante economia industrial e urbana reconstruiu a vida rural em sua própria imagem
compensatória” (p. 170).
2. Positivismo legal, quietismo civil e ‘feudalização’

A própria nova ordem gera novas ansiedades, que se manifestam num recuo da
burguesia, estreitando seus horizontes (abdicando de desejos, utopias e crenças) e
abandonando o otimismo anterior. Isso se corporifica num clima rotulado de “desespero
cultural”.
Nos anos intermediários do século XIX, a igualdade perante a lei e a garantia de
inviolabilidade da propriedade privada eram celebradas como conquistas da modernidade;
comparando-se com a situação anterior, descrita como sendo uma de arbitrariedades e
monopólios insuportáveis, parecia que se havia feito avanços indiscutíveis. Os dois princípios,
no entanto, abrigavam uma contradição potencial que se tornou aguda e patente quanto mais
se aproximava o fim do século. Conceitualmente harmônicos numa sociedade composta por
riquezas médias e equivalentes, a conciliação entre igualdade jurídica e direito de propriedade
se tornou impossível num cenário de concentração cada vez maior de renda. Por conta da
sectarização da sociedade, o ambiente legal ameaçava se tornar palco de disputas entre os
diversos interesses; a elaboração do Código Civil foi momento em que essas disputas se
tornaram visíveis.
Procurando evitar isso, houve recuo no campo jurídico, ocorrendo o que Blackbourn
chama de “formalização” da lei; passa a haver uma concepção tecnocrática da justiça, um
“positivismo legal” em que as preocupações mais gerais da sociedade são afastadas dos
estudos e das práticas jurídicas, que se tornam assim presumidamente “imparciais”, técnicas,
etc. Todo o fundo humanista do direito foi abolido. Blindava-se a lei, evitando assim que os
conflitos sociais invadissem o campo do direito. Um “fatalismo evolucionista” que defendia
que o estado atual das leis fora atingido por força de desenvolvimentos naturais e que nada
legitimava a interferência nele: o que era, era porque deveria ser, e nada se podia – nem devia
- ser feito quanto a isso. De uma situação em que a lei significava reforma, libertação,
progresso ou renovação, passou-se a um estado em que lei era sinônimo de ordem. De
ferramenta para desobstrução, para eliminação de privilégios e restrições, passou a ser
ferramenta para manutenção do status quo.
Blackbourn defende que ocorreu fenômeno paralelo com o envolvimento cívico e vida
associativa. Nesse ponto, a burguesia alemã é acusada de “quietismo civil”, ou seja, de ter
falhado em assumir um papel ativo na vida pública. Blackbourn discorda, por dois motivos: a)
porque em comparação às suas congêneres, ela nada tem de muito diferente em termos de
grau de atividade (em outros países, a burguesia não foi mais ativa que na Alemanha); e b) o
que houve não foi um quietismo, mas uma nova forma de se comportar, a assunção de uma
nova forma de conduta, uma “forma diferente assumida pelo ativismo cívico ao longo do
século” (p. 173). Em princípio, as associações eram universais em 2 sentidos: abertas ao
público em geral e voltadas para questões gerais da sociedade como um todo, objetivos
expressos em termos imprecisos como “bem comum” ou “bem-estar público” (p. 173). Na
prática, eram de acesso restrito (as práticas de associação incluíam recomendações pessoais e
votações), estabelecendo tacitamente limites mínimos de educação e renda para a aceitação;
muitas se tornaram corpos fechados e rigidamente hierarquizados (a diferença das associações
para os antigos agrupamentos que elas substituíam - aristocracia, corte, religião - era que o
acesso não se dava mais por nascimento, mas por educação e/ou riqueza). Eram, afinal, a
forma da burguesia se unir e exercer a liderança social, algo que foi sendo corroído na segunda
metade do século XIX, quando os “excluídos” formaram suas próprias associações: nobres e
religiosos de um lado, trabalhadores de outro.
Assim, as associações que se propagandeavam caminhos para a universalização das
cisões sociais e religiosas se tornaram justamente uma reprodução dessas cisões; as
declarações de que se trabalhava pelo “bem comum” ficaram seriamente desacreditadas. Se
tornaram estritamente especializadas, simulando as formas anteriores de estratificação; seus
objetivos se tornaram específicos, muitas se convertendo em “grupos de pressão”. Sua
atuação se fechou, cada vez mais, aos olhos do público: o caráter público deu espaço à ação
velada em prol dos interesses específicos de cada associação. Diminui a “ambição pública”,
cessa a “ampla missão sociocultural” (p. 174).
E aqui o autor pode reafirmar sua tese, unificando mais essa conta ao seu rosário: o
estreitamento da ação e do conceito das associações é uma manifestação localizada de um
fenômeno geral: “[...] o recolhimento dos homens de negócio em cartéis e grupos de interesse,
de advogados em um positivismo jurídico estreito, das profissões em geral em um apertado
espartilho de ethos profissional”; e mais, “a transformação da ‘cultura’ em algo estático e de
propriedade exclusiva dos iniciados”, traduzida, por exemplo, nas novas formas de fruição de
espetáculos exigida como sinal de respeitabilidade, o vestuário se tornando (novamente) um
sinal distintivo, uma barreira contra a dissolução na multidão disforme, o acesso privilegiado
agora controlado pela riqueza.
É nesse cenário que deve ser analisada a “feudalização” da sociedade burguesa alemã.
Assim vem sendo chamado o processo através do qual ela procurou adquirir os símbolos
nobres antigos: as propriedades rurais, os títulos de nobreza, os hábitos e até os nomes,
através de casamentos. Blackbourn não nega a existência deste processo, mas pede que se
observe que isso ocorre de maneira similar na Inglaterra e na França – “o dinheiro
envergonha-se terrivelmente de si mesmo”, e assim que possível, os burgueses tentam
remover “o estigma do comércio” (p. 177). Ou seja, Blackbourn retorna a seu argumento
favorito: nada há de diferente na Alemanha que permita a acusação unilateral de sua
burguesia. E avança a argumentação: não se pode falar em “feudalização” da burguesia, mas
na formação de uma nova classe dominante que é um amálgama simbiótico das partes antigas
e novas da elite. A tomada burguesa dos símbolos nobres é corriqueira em toda a parte:
“classes em ascensão tendem naturalmente a ver símbolos de poder e riqueza nos termos em
foram estabelecidos pelos seus antigos grupos superiores como padrões de luxo e pompa”
(Hobsbawm, p. 177).
A adoção de alguns dos antigos símbolos nobres pela burguesia não deve ser vista
como uma vitória da primeira pela segunda (algo que o termo feudalização sugere); a nobreza
alemã, assegura Blackbourn, não era capaz de vitórias dessa envergadura; mesmo na vida
militar, algo extremamente ligado à antiga nobreza, o ethos Junker foi apenas tolerado (a
impaciência dos jovens oficiais com a teimosia dos velhos Junkers reaparecia sempre que a
Alemanha se encontrava numa encruzilhada em disputas militares). A adoção de padrões pré-
modernos, enfim, mostra a vitalidade da burguesia, e não significa sua capitulação.
A feudalização, afinal, é mais uma das manifestações da virada conservantista da
burguesia no final do século XIX. Mais do que se casar com a nobreza, os burgueses desejavam
se divorciar do proletariado; foi “o medo do proletariado”, afirmou Leo Kofler (citado à p. 179),
“que levou a burguesia a trair completamente seus próprios ideais e objetivos históricos”. A
frenética luta por estabelecer distância do proletariado e manter essa separação a qualquer
custo foi quase que a definição completa da vida burguesa alemã no final do século XIX (e isso
significa dizer que os olhos da burguesia estavam voltados para baixo, e não para cima, ou
seja, que seu objetivo maior não era se feudalizar, mas não se proletarizar).
E há ainda um senso de casta burguês completamente autônomo da nobreza, e
inclusive hostil a ela. Para alguns, como a burguesia católica da Alemanha imperial, o estilo de
vida nobre exercia má influência sobre os proletários: reclamavam da brutalidade dos modos
dos nobres, que pouco inspirava a “desbarbarização” dos proletários; já alguns grandes
burgueses, como Krupp, recusavam qualquer comenda distintiva que os aproximasse da
nobreza, e ridicularizavam aqueles que perseguiam símbolos da antiga elite.
Em suma, “há motivos suficientes para explicar o conservantismo da burguesia alemã
sem lançar um peso explicativo indevido no processo de ‘feudalização’” (p. 181).

IV – O estado e a política
1. Discrepâncias
184
18-2-2016

Mesmo que se conceda que a burguesia alemã fez tudo o que vem sendo dito nos
capítulos anteriores, ainda parece haver espaço para críticas: ela teria falhado em tomar o
controle sobre o processo político institucional, criar um parlamento no Reich, desalojar os
antigos grupos pré-modernos das esferas de poder. Há uma discrepância de ritmos, entre as
esferas econômica, social e política: subsistem concomitantemente estruturas novas e velhas.
Blackbourn desvenda a genealogia dessa ideia: Ernst Bloch foi um historiador alemão que
juntou conceitos românticos, weberianos e marxistas numa análise que frutificou nessa
constatação da discrepância. Blackbourn lembra que o caso alemão, longe de ser atípico, é
apenas uma versão mais amplificada de um fenômeno que ocorre em toda parte. Lembra
também que essa discrepância é central na ideia de Marx: é através desse atrito entre as
forças econômicas em desenvolvimento e a estrutura institucional que as encapsula que
emergem as mudanças.
No caso alemão, afirma Blackbourn, o surgimento tardio e eruptivo da sociedade
burguesa e sua economia eclipsaram a necessidade política. Em sua opinião, “o próprio
sucesso de uma economia capitalista dinâmica e uma ascendente sociedade burguesa na
Alemanha tornou a dominância política, em certo sentido, menos necessária”; ou ainda, a
dominância alcançada nas esferas não-políticas tornou não só desnecessária, mas indesejada,
a incursão na política institucional (p. 186). E ainda mais, seria auspicioso para essa burguesia
poder contar com um estado forte agindo como filtro, ou tampão, resolvendo pela força
problemas que não podiam ser tratados de outras formas.

2. ‘A lança mágica que cura ao mesmo tempo que fere’

Essa expressão foi cunhada por Friedrich Dahlmann para se referir à Prússia, capaz de
reformar e reprimir com a mesma força; é esta a metáfora que Blackbourn deseja empregar
para compreender inicialmente a característica do estado e a relação da burguesia alemã com
ele.
Blackbourn descreve uma situação inaugural: antes de 1840, e na esteira de 1848
através das décadas seguintes, o estado Prussiano era efetivamente arbitrário e autoritário:
altamente militarizado (chegando, em algumas regiões, a ter 1 soldado para cada 2,5
habitantes), monitorando abertamente a população, proibindo associações, censurando as
comunicações. Tratava-se de um estado burocrático autoritário ubíquo. Com a Alemanha
unificada sob a liderança da Prússia, esse modelo se ampliou; mas Blackbourn defende que
essa característica se amenizou nas últimas 3 décadas do século XIX: direitos legais começam a
obstar o poder do estado, as associações florescem, greves são legalizadas. Mais que isso,
prova a queda do poder estatal o fato de que diversas tentativas de cercear e fazer recuar os
direitos, empreendidas nas décadas finais do século XIX, foram bloqueadas e derrubadas pela
sociedade antes de entrarem em vigor. Essa suavização da força é entrecortada por eventos
autoritários, resquícios da característica anterior, que Blackbourn coleta e demonstra como
contrapontos. Católicos, judeus e social democratas eram alvos preferidos das ações
coercitivas e discricionárias do estado, sujeitos a frequentes enquadramentos repressivos nas
leis de lesa majestade, perseguições, alistamentos forçados etc.
Havia, afinal, uma burocracia estatal pairando sobre a sociedade, ameaçando
continuamente cair sobre suas cabeças. Burocratas eram tratados com preferência em relação
a comerciantes e profissionais burgueses em geral. Sobretudo o exército preservava um status
superior e separado da sociedade civil legal, recusando-se a submeter-se à lei comum.
Dispositivos constitucionais davam aos comandos militares o poder de, em casos de
“emergência” – e esse conceito era elástico – suspender todas as garantias legais, prender e
censurar.
Nas posições de comando da burocracia e do exército, indivíduos da antiga nobreza
eram maioria, mas essa situação, defende Blackbourn, se modificou ao longo do último terço
do século XIX. De maioria, os nobres encastelados nessas posições se tornaram exceções,
compondo enclaves na máquina estatal. Já se afirmou que o estado tolerou a economia
burguesa para usá-la como ferramenta para a manutenção da ordem feudal; Blackbourn
sugere que se veja essa afirmação pelo lado contrário: os burgueses toleraram resquícios
feudais para assegurar a manutenção de sua economia. O estado, já visto acima, foi essencial
no estabelecimento das condições para o desenvolvimento da economia capitalista na
Alemanha. Ele agiu sempre de maneira a permitir a instalação da nova ordem, removendo
obstáculos ao seu desenvolvimento. Mas Blackbourn não quer, com isso, reforçar a teoria de
que na Alemanha tenha havido o que se chama de “capitalismo monopolista de estado”, com
total aderência entre estado e capitalismo: em muitos momentos, quando jugava acertado, o
estado contrariou interesses capitalistas. Sugere que se pense numa “ampla zona de
cooperação” entre a burguesia e o estado (citando Nipperdey, p. 192).
A burguesia esperava do estado não somente a proteção de suas atividades, lucros e
dividendos, mas também a manutenção da “ordem social”, garantindo assim o objetivo
máximo, a defesa da propriedade. Blackbourn percebe um movimento ao longo do século XIX:
no período áureo, esperava-se que o estado amparasse ofensivas contra o atraso,
encampando a ideia moderna de progresso social; no final do período, a burguesa recolheu-se,
adotou uma postura mais defensiva e passou a desejar uma atuação neutralizadora por parte
do estado: segurança social, no lugar de transformação social. A atitude política da burguesia
faz parte do padrão já visto anteriormente: “o refúgio por trás da ‘lança mágica’ ocorre
paralelamente ao abrigo em cartéis, positivismo legal e ativismo cívico neutralizado” (p. 192); a
dominação social amparada pelo apoio de um estado forte, uma influência indireta nos
negócios públicos, eram convenientes para a burguesia, e tal arranjo não deve ser visto como
uma situação de impotência da burguesia.

3. Os limites da política notável

Nem toda a burguesia alemã se contentou com esse arranjo: houve tentativas de
participar da política institucional “no palco”. Isso se deu principalmente entre aqueles que se
identificavam como liberais e que acreditavam estar destinados ao papel de levar à frente o
bastião do progresso. Em parte imitando seus congêneres ingleses e franceses (como por
exemplo, na insistência pela adoção do júri em julgamentos), em parte trazendo à baila
questões próprias, e entre estas, a da unificação como preocupação central. A fragmentação
impedia o pleno desenvolvimento de uma economia liberal, e principalmente, obstava a
formação de um espaço público nacional.
A partir de 1871 aparece uma incipiente “política de notáveis”, feita por pequenos
potentados locais, homens educados que frequentaram universidades e que dominavam
também outros ramos da vida de suas localidades: os museus ou corais municipais etc.
Blackbourn discute os limites de sua atuação: eles tinham um discurso unificado, que
sobrepunha-se aos projetos e interesses locais, graças à linha de comunicação nacional
formada por ferrovias, telégrafos e jornais. Por outro lado, diante do maciço sistema de poder
instituído com a unificação, eram quase inócuos. Blackbourn descreve o sistema político como
“falso constitucionalismo”, e explica sumariamente seu modo de funcionamento nas páginas
194-95: em suma, o poder dos delegados e deputados (e assim, dos eleitores) era bastante
diminuído frente aos poderes reservados ao poder executivo. Apesar de serem pouco
poderosos, os burgueses eram influentes.
A forma como se comportavam em suas reivindicações é denominada por Blackbourn
de “política apolítica”: adotando o mesmo posicionamento que tinham as associações civis que
pipocavam pela Alemanha (que ofereceram o modelo para a conduta política dos burgueses),
eles viam-se como elementos “acima” das disputas políticas comezinhas, e afastavam-se do
que consideravam uma política “destrutiva” (que era qualquer uma em que uma forte e
decidida oposição fosse feita). Além disso, as experiências parlamentaristas inglesa e,
especialmente, francesa, fizeram a burguesia alemã recuar da perseguição àquele modelo: os
distúrbios sociais franceses assustavam os alemães. Eles preferiam perseguir apenas a parte
que consideravam segura do exemplo ocidental.
Os liberais alemães suspeitavam do “povo”: viam-no como um elemento incapaz de
pensar independentemente, sujeito a ser aprisionado por doutrinas carismáticas, tanto de
revolucionários quanto de reacionários. Isso serve para explicar a atitude reticente da
burguesia quanto à abertura política.

p. 197
19-2-2016

Em geral, os liberais desconfiavam do sufrágio universal, e procuravam cercear o


alargamento da participação política para os estratos inferiores da sociedade. Muitos
acreditavam que isso deveria ser feito somente após a elevação dos níveis de educação formal
do povo. Não desejava que o “deseducado, imaturo e não confiável” homem do povo (palavras
de Treitschke, citadas à página 197) tivesse a mesma influência que o “sábio, industrioso e
patriota”. Nas palavras de Schulze-Delitzsch, seria arriscado confiar nas massas regidas por
sentimentos tempestuosos, onde a fronteira entre homem e animal era difusa. A metáfora da
besta era recorrente entre os liberais, ao se referirem ao homem do povo.
Políticos e pensadores burgueses liberais contemporâneos concebiam uma situação
em que a burguesia estava oprimida entre duas forças em conluio: as massas agindo de acordo
com seus instintos, e o cesarismo de Bismarck, que manobrava a seu favor a energia animal do
homem comum; uma visão bonapartista de Bismarck. Outros, como Max Weber, eram mais
críticos à atuação da burguesia, acusando-a de ter também abraçado a causa de Bismarck.
Embora fosse entusiasta da ideia de unificação, a burguesia temia, em contrapartida, a
formação de uma arena política mais aberta: nesse caso, estaria indefesa e não poderia
neutralizar eventuais conflitos pusessem em risco seus interesses.
As realizações burguesas, conclui Blackbourn, devem ser analisadas separadamente:
suas conquistas econômicas e sociais, como visto, foram silenciosas e graduais, naturalizando-
se e universalizando-se, tornando-se duradouras e estáveis. Já suas conquistas políticas, mais
visíveis, eram mais frágeis. No primeiro caso, as instituições reconheceram as realizações
burguesas e as protegeram; no segundo, foi a burguesia quem se escudou nas instituições,
dependente de um estado forte para garantir suas posições.
III - O palco político e o problema da reforma
1. Divisões burguesas e a ascensão de uma política de massas

Questões econômicas, profissionais, religiosas, regionais dividiam a burguesia alemã


(como todas as outras). Mas seus membros concordavam em muitos pontos: na necessidade e
legitimidade das leis, na ação filantrópica, na formação de associações, na proteção do direito
sagrado de propriedade: tudo isso formava “crenças não-verbalizadas que uniam amplamente
os educados e proprietários”, fossem mercadores ou industriais, protestantes ou católicos,
liberais de esquerda e de direita (p. 201).
Mas no campo da política institucional, no “palco político nacional”, as divisões se
acirravam. Isso se tornou patente em todas as etapas parlamentares alemãs: em 1848, nas
décadas de 1850 e 60 e se consolidou de vez após 1871, no Reichstag. O mais visível ponto de
discórdia era religioso: a ala liberal da burguesia indispôs-se com os católicos, a quem
identificavam como criadores de obstáculos para o progresso. Muitos católicos decidiram que
a lealdade religiosa era mais importante que a política, e se afastaram dos grupamentos
burgueses liberais. Ainda que em termos sociais eles tivessem mais afinidade com o burguês
liberal que com o camponês religioso, em termos políticos os burgueses católicos se
agruparam com os camponeses. De qualquer modo, o catolicismo e a guerra contra ele
moldaram a política burguesa alemã: um partido católico se formou e resistiu; a unidade
política burguesa foi seriamente atingida por esse fato.
Outros pontos de discórdia cindiram a burguesia: formaram-se alas à esquerda e à
direita. A questão do nacionalismo era central: várias concepções do que seria a postura
nacionalista mais vantajosa entraram em conflito. Os mais radicais desejavam elevar os
interesses da nação acima de qualquer outra circunstância: nessa visão, a política era tingida
de um tom pejorativo, um espaço de negociatas escusas substituindo o que realmente
importava, a defesa da nação.
Mas foi no relacionamento com outros grupos sociais que a cisão se mostrou profunda
e problemática. Na esfera política, a pretensão burguesa de falar por toda a sociedade, por
tornar seus interesses e sua mentalidade numa espécie de caráter nacional, foram mais
abertamente combatidos por grupos que não concordavam em ser incluídos aí. Emerge nesse
ponto um forte sentimento antiburguês, especialmente por parte das classes inferiores.
Antagonismos sociais e econômicos, que se acirraram nas décadas finais do século, foram
traduzidos em linguagem política, e o “palco” ficou cada vez mais povoado de atores. A
participação eleitoral massificou-se cada vez mais, e as antigas pretensões de liderança
burguesa da sociedade caíram por terra.
Blackbourn enxerga três grupos principais desafiando a exclusividade pretendida pela
burguesia: os trabalhadores, os camponeses e a pequena burguesia. Como resultado, o
liberalismo sai ferido; a disputa política se torna mais febril, instável e contraditória; a
tranquilidade frágil e decorativa das décadas centrais desaparece.
No final da década de 1869 os trabalhadores se emancipam da política burguesa:
funda-se o SPD, para onde migram. Para Blackbourn, contribui para isso o fato de que não lhes
era permitido nenhum outro local de manifestação: a rígida legislação imperial permitia aos
patrões exercer todo tipo de prática de dissuasão da política operária. Por outro lado, o
sufrágio universal dava aos operários uma arma bastante oportuna.
A concentração de renda cindiu a burguesia: até a metade do século o termo
Mittelstand abarcava indivíduos dos mais variados tipos profissionais, permitindo que o
açougueiro e o comerciante, por exemplo, se sentissem pertencentes a um mesmo grupo (e
muitas vezes eles participavam, de fato, das mesmas associações). O avançar das décadas
cindiu a burguesia, criando facções altas e baixas, que passaram então a se afastar, também
politicamente. A diferença não se manifestava apenas no terreno da riqueza, mas do acesso à
educação, da capacidade de manutenção de empregados e servidores, e no acesso às
associações. Os pequenos burgueses começam a se organizar em grupos próprios procurando
justamente se defender dos “grandes”, em sociedades que procuravam proteger seus
membros contra a “competição injusta” (p. 206). Esse grupo, mais do que todos, esperava uma
ação incisiva do estado, criando leis de proteção, formando um escudo contra a competição
aberta num ambiente de gigantes em que eles não tinham a menor chance. Muitos
historiadores viram nessa posição uma evidência de antimodernismo, e da existência de um
sentimento conservador ou reacionário entre os membros da pequena burguesia alemã. Para
Blackbourn , de fato havia crítica direcionada ao liberalismo, mas o alvo principal dessa
pequena burguesia era a alta burguesia.
Os partidos que representavam os interesses dos Junkers se aproveitaram dessa
situação: sua retórica anticapitalista conservadora se alimentou disso para fortalecer sua
posição.
Blackbourn afirma que o resultado político do descontentamento da pequena
burguesia foi um “a introdução de uma nova medida de mendacidade no debate político” (p.
208), uma vez que os políticos representantes da burguesia desenvolveram um discurso
demagógico em que prometiam apego à causa da pequena burguesia, sem que de fato
estivessem dispostos a ir longe o bastante para obstar os interesses do grande capital.
Os camponeses alemães foram largamente prejudicados pelos rumos econômicos
modernos do século XIX: seus ganhos tornaram-se instáveis, seus custos de produção
aumentaram, e eles se endividaram progressivamente. O nível de descontentamento entre
eles era alto. A percepção era de exploração, num momento em que a economia agrária
autossuficiente era erodida, o camponês inserido à força e de maneira desvantajosa no
mercado e o domínio da cidade sobre o campo parecia inexorável. Os vilões de sempre foram
substituídos: o agiota pelo banqueiro, o negociante de grãos pelo especulador de commodities,
o capataz do proprietário pelo inspetor agrícola” (p. 208-209). Eles tentaram se proteger
formando cooperativas (poucas foram bem-sucedidas), e acabaram também canalizando o
descontentamento para o cenário político. Em parte, investiram nas mesmas ligas que
defendiam os interesses dos Junkers, e por isso foram vistos também pelos historiadores como
elementos antimodernos, corroendo o liberalismo e dando sobrevida aos Junkers. Blackbourn
advoga que era mais que isso: a ojeriza dos camponeses era mais “antinotável” que
antimoderna: eles reuniam na sua lista de personas non gratas o padre, o fazendeiro, o
veterinário, o aristocrata, o burguês e o professor. E, por outro lado, a Liga Agrária, que
agremiava os interesses dos Junkers, precisou mudar muito sua natureza para se tornar apta a
ser um canal político aceitável para os camponeses.
Este é, aliás, um argumento importante de Blackbourn: ao longo do século XIX foi
ficando clara a existência de uma distância entre as promessas universais do capitalismo e o
que ele de fato resultou na Alemanha, e isso resultou num desconforto social que encontrou
na arena política seu canal de manifestação. E resultou também numa modificação da forma
como a política era feita: se nos anos intermediários do século XIX a burguesia conseguia
sustentar a ilusão de unidade sob sua autoridade, com a progressão das décadas a dissidência
foi ficando mais forte, e as massas começaram a se organizar para se autorepresentarem no
jogo político, algo que fizeram empregando as mesmas armas da burguesia: “comunicações,
associações e a mobilização da opinião” (p. 210).

2. Que tipo de reforma?

Blackbourn sugere ter havido algum grau de modificação na relação de poder entre os
Parlamento e o Executivo, apesar de reiterar o fato de que este último sempre se manteve à
frente do anterior. O Parlamento ganhou importância, mas falhou em soerguer-se a uma
estatura equivalente à do Kaiser. Em parte, Blackbourn vê como causa disso a emergência de
uma nova atitude política, algo que ele chama de “ethos de administração iluminada como
substituta da política de conflito” (p. 213), e também um desprezo pelo que denominam
caráter meramente retórico da política parlamentar, sentimento bastante encontradiço entre
nacionalistas radicais. Muitos agentes políticos preferiam continuar agindo localmente, em
conselhos e prefeituras, como forma mais incisiva e direta de realizar os objetivos desejados.
A questão central desse segmento é discutir a ausência de um impulso reformista sério
e vitorioso na Alemanha, algo que é visto como anômalo pela historiografia que trata o caso
alemão como sendo aberrante. Para Blackbourn, interessa mais observar o que aconteceu, e
não o que deixou de acontecer. E ele afirma também que não é de se estranhar que num
cenário politicamente tão fragmentado, os grandes movimentos tenham deixado de se
realizar, por conta da própria falta de consenso. Não havia consenso sobre que tipo de reforma
se deveria fazer: cada grupamento preenchia a ideia de reforma com um conteúdo bastante
próprio. Além disso, quase todos os partidos estavam mais preocupados em conter uma
potencial ameaça de sublevação por parte das classes inferiores do que em obter reformas
constitucionais.
No entanto, o século XIX se fecha na Alemanha com a erupção violenta de novas vozes
demandando serem ouvidas no drama político. Essa nova força política moldaria os destinos
do país nas próximas décadas.

IV – Conclusão