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O PREÇO DO DESEJO

Ramiro Marques

2004

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Dedico este livro ao meu avô, António Marques, e aos meus amigos de infância: aos que já morreram, aos
que deixei de ver e aos que continuam comigo.

Índice

PARTE UM

Um
Dois
Três
Quatro
Cinco
Seis

PARTE DOIS

Um
Dois
Três
Quatro
Cinco
Seis
Sete
Oito
Nove
Dez

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PARTE UM

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UM

O António subiu para o comboio, esperou que o avô lhe colocasse a mala sobre
o banco e deixou cair uma lágrima quando se despediu do velho com um beijo rápido.
Ficou de pé, à janela, a acenar com a mão até perder de vista o vulto do avô que, cada
vez mais sumido, continuava a dizer-lhe adeus, como se fosse um espantalho batido
pelo vento. Era um comboio comprido e sujo, puxado por uma locomotiva a diesel, com
portas de encolher e bancos puídos. O comboio serpenteou, aos solavancos, pela
margem do Tejo, soltando gemidos como se fosse uma criança rabugenta.
Quando se sentou no banco, agarrado à mala, olhou para a frente, para o lado e
para trás e verificou que estava sozinho numa carruagem escura e fria. Fixou os olhos
no vidro sujo da janela e passeou a vista pelas águas cristalinas do rio que deslizava ao
fundo da ravina, reflectindo os fiapos de algodão que no céu azul se deslocavam ao
sabor do vento. Era a primeira noite que o António dormia fora de casa e a primeira vez
que se despedia do avô, um homem de sessenta anos que tomava conta dele desde que o
pai e a mãe morreram num desastre de automóvel, quando ele tinha seis anos de idade.
O avô do António era um homem forte e alto, de cabelos grisalhos e olhos muito
azuis. As mãos, fortes e compridas, denunciavam muitos anos de trabalho agarrado a
uma colher de pedreiro. O senhor Manuel construía moradias e, desde que a mulher
falecera, levava a sério a missão que o destino colocara nas suas mãos: criar e educar o
neto. Apesar de ser um homem de boa figura, o senhor Manuel não quis voltar a casar.
Habituara-se a viver com o neto numa velha e ampla moradia, construída pelas suas
mãos, quando ainda era jovem. A bem dizer, a sua vida resumia-se ao trabalho duro,
seis dias por semana, sem férias, e algumas viagens curtas, de um ou dois dias, na
companhia de um pequeno grupo de amigos.
Quando o padre lhe disse que o rapaz tinha grandes potencialidades e que seria
uma pena se deixasse de estudar, o senhor Manuel não descansou enquanto não arranjou
um colégio onde o António pudesse continuar os estudos. Tinha ouvido falar num
colégio interno que ficava na margem sul do Tejo, numa pequena aldeia situada num
vale coberto de pinheiros e eucaliptos e, quando lhe disseram que o valor das
mensalidades era suportável para o seu orçamento, não hesitou um momento. Pegou no
telefone, falou com o director do colégio, acertou o valor das mensalidades e inscreveu
o neto.

O revisor pediu-lhe o bilhete e o António, nervoso, começou à procura dele,


primeiro nos bolsos, depois na mala e, cada vez mais aflito, olhou para o homem de
farda e fez uma sinal com as mãos a querer dizer que não sabia dele. O revisor era um
homem gordo e calvo e os seus olhos, muito azuis, cirandavam sobre pequenas
almofadas de carne que balouçavam à medida que ele abanava a cabeça. O revisor
disse-lhe, numa voz rouca, por causa da gordura que lhe comprimia a garganta, para ter
calma e continuar a procurar que ele voltaria mais tarde.
O António procurou o bilhete durante toda a viagem mas não o encontrou. De
cada vez que ouvia um barulho estridente, na ponta da carruagem, o seu coração pulava
e só quando o vulto, saído do alçapão que unia as carruagens, se tornava mais nítido,
transformando-se, sob o impacto da luz, num vulgar passageiro, é que o coração do
António voltava ao ritmo normal. Quando o comboio parou na estação, o António
esfregou as mãos de contente, apressou-se a agarrar na mala, suspirou de alívio e correu
para a saída do comboio, ansioso por meter os pés em terra firme. Enquanto ia

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empurrando a mala por um carreiro de terra em direcção ao ancoradouro que ficava a
uns bons cem metros da estação, o António pensava: mas onde se meteu o raio do
bilhete!
O crepúsculo morria lentamente nos braços da noite e, por cima da cabeça do
António, o céu estrelado rejubilava com a chegada do pequeno rapaz à beira do rio,
sozinho, agarrado a uma mala e pronto para atravessar o Tejo. O colégio ficava do outro
lado do rio e o barqueiro – que já estava à espera dele – disse-lhe que o prefeito o
esperava na outra margem. Era uma noite bonita de Outubro e o rio corria sereno e com
pouca água, obrigando o barqueiro a empurrar o barco com o auxílio de uma vara. As
águas escuras do rio cintilavam, devolvendo o brilho intenso do céu estrelado. A barca
chiava, acusando o esforço de cortar a correnteza e, quando a proa batia numa rocha, um
toque-toque seco e rápido profanava o silêncio da noite. Chegado à outra margem, o
António entregou a mala ao prefeito, um homem vesgo e quase cego, que tratou de
amarrar a mala na parte de trás de uma bicicleta velha para logo iniciar a caminhada em
direcção ao colégio. Passaram por uma floresta de eucaliptos e pinheiros e o António
achou graça ao coaxar das rãs. Os olhos brilhantes de um animal de pequeno porte
cruzaram o ar à sua frente, provocando um ruído no restolho. Fizeram o caminho em
silêncio, com o prefeito a segurar a bicicleta com a mão direita e uma lanterna na mão
esquerda.

O dormitório era um edifício de dois andares, todo branco, com um quintal nas
traseiras, onde ficava um galinheiro e um pombal. A irmã do prefeito, uma solteirona
alta e forte, bonita de cara e com uns cabelos pretos muito compridos, esperava-o à
entrada da residência. Quando o rapaz chegou junto dela, a mulher tirou-lhe a mala da
mão, deu-lhe um beijo ao canto da boca, besuntou-o com saliva, e disse para ele a
acompanhar. O António subiu as escadas atrás da mulher, de nariz no ar, a olhar para as
pernas altas e possantes da solteirona. Agradou-lhe a forma como ela meneava as ancas
e apreciou-lhe a cintura fina. Esperava-o um quarto com cinco camas, onde já estavam
quatro rapazes da idade dele, que o receberam com palmadas nas costas e sorrisos.
Era a primeira noite que o António dormia fora de casa e talvez fosse essa a
razão que explicasse a sua falta de sono. Esteve toda a noite, de nariz no ar e olhos no
tecto, à espera que os primeiros raios de sol entrassem pelas janelas. Levantou-se mais
cedo do que os outros e tomou um banho quente na banheira.
Nesse dia, à noite, teve o seu primeiro encontro com a sorte e, nos dois anos que
passou no colégio, muitos outros encontros semelhantes se seguiriam. Os quartos dos
rapazes mais novos ficavam no segundo piso do internato, obrigando-os a partilhar a
casa de banho com as raparigas. Depois da habitual sessão de estudo nocturno, o
António dirigiu-se à casa de banho para urinar. O corredor, comprido e escuro,
permanecia com as luzes apagadas, e ele teve de encontrar a porta da casa de banho às
apalpadelas. Quando estava prestes a abrir a porta, ouviu o barulho da água a correr.
Esperou e, quando ficou cansado de tanta espera, agachou-se e espreitou pela fechadura.
Arregalou o olho, sentiu o coração aos pulos e ficou como que electrizado a olhar para a
irmã do prefeito, uma matrona de trinta anos, alta, forte, peluda e com uns seios do
tamanho de melancias, que, de pé, no poliban, deixava a água quente escorrer pelo
corpo. Era uma mulher possante, alta e forte, sem ser gorda, com uns cabelos negros
que, molhados, se espalhavam pela cara. De repente, o António julgou estar a mirar a
Irene Papas. A mulher não dava sinais de terminar o banho: ensaboou-se, deixou que a
água a libertasse da espuma de banho, voltou a ensaboar-se, passou uma escova de
banho pelas costas, afundou a escova entre as pernas e, por fim, deixou-se cair,
devagarinho, sobre os calcanhares, soltando gemidos que deixaram o António intrigado.

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Sem tirar o olho direito do buraco da fechadura, o rapaz viu, maravilhado, o corpo
grego da mulher que, curvada, assentava todo o seu peso sobre os calcanhares como se
estivesse a dirigir uma oração à divindade. E assim ficou durante alguns segundos que
pareceram ao António uma eternidade. Depois, a mulher fechou a torneira, saltou do
poliban e cobriu-se com uma toalha. Quando ela se dirigiu para a porta, o António
recuou três passos. O coração do rapaz batia apressadamente, o rosto estava vermelho e
pequenas gotas de suor escorriam-lhe pela testa abaixo. A mulher saiu da casa de banho,
parou junto dele, puxou-lhe a cabeça para junto do peito, afagou-lhe a face com as duas
mãos e disse-lhe:
-Meu querido rapazinho, agora já podes fazer chichi.
O António suspendeu a respiração e ouviu o coração aos pulos. Ela apertou-o
um pouco mais contra o peito, passou-lhe os braços pelas costas e comentou:
-És um rapaz bonito. Gostas que eu te abrace?
O António ficou mudo, abriu a boca mas não lhe saiu palavra e, por fim, a
gaguejar, ainda disse:
-É, é quen-quente!
-E tu gostas do meu calor?
-S-Sim!
A irmã do prefeito soltou o rapaz, caminhou pelo corredor com a toalha branca
pelas costas e entrou na última porta à direita. O António meteu-se na casa de banho,
levantou a tampa da sanita e ficou, de pé, à espera que a urina começasse a saltar. Ficou,
de pé, alguns minutos, a olhar para baixo, mas não conseguiu urinar. Acabou por
desistir e regressou ao quarto.
Passados alguns meses, o António teve novo encontro com a sorte. Perdera dois
botões das calças, durante um disputado jogo de futebol. A irmã do prefeito chamou-o à
casa da costura e fechou a porta atrás dele. Ele ficou de pé e ela sentou-se, num banco
alto, à frente dele. Puxou a saia para cima, abriu as pernas e o António ficou, em
silêncio e quieto, a olhar as pernas grossas da mulher. Ela muniu-se de agulha e linha e
aplicou os botões na braguilha, roçando os dedos pelo pénis que, cada vez mais duro,
fazia uma pequena montanha sob as calças do rapaz. Um fio de suor escorria-lhe pela
testa e era a muito custo que ele conseguia manter os olhos abertos. Parecia que tinha
uma montanha em cima das pálpebras e, por mais esforço que fizesse, de vez em
quando, elas fechavam-se como se fossem portas automáticas que obedeciam apenas a
um mecanismo oculto. Arfava e o coração pulava a galope como se fosse um potro
enfurecido. Quando terminou a tarefa, a mulher disse:
-Deixa cá ver se os botões estão bem aplicados!
A mulher pousou os dedos compridos sobre a braguilha do rapaz e com o
indicador direito percorreu, suavemente, cada um dos botões, até ter a certeza de que
estavam todos bem seguros.
O António fechou os olhos, como se a enorme montanha que pesava sobre as
pálpebras se tivesse desfeito em pedaços, soltou um ai quase surdo e deitou a cabeça
para trás. Ela aproximou a boca da cara dele e pousou a língua nos olhos do rapaz.
Depois, deslizou a língua pela face direita dele e o António lembrou-se de que era assim
que as gatas lambiam as crias recém-nascidas e foi inundado por um indescritível bem-
estar que só o largaria, muitas horas mais tarde, quando o sol começou a deitar os seus
raios de luz pela janela do quarto, depois de ele ter estado a olhar para o tecto a
relembrar, vezes sem conta, o sabor doce da boca grossa da irmã do prefeito.

Os dias passaram, vieram as férias e, outra vez, o regresso ao colégio, num dia
chuvoso e frio. Voltou a meter-se no comboio, com o bilhete bem guardado na carteira,

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atravessou o Tejo numa barca e percorreu, sozinho, o caminho que o separava do
internato por entre eucaliptos e pinheiros, sempre acompanhado pelo coaxar das rãs e o
cantar dos grilos. Desta vez, vinha prevenido com uma lanterna e apontava a luz para o
caminho estreito, ladeado de canaviais e silvados. Fez o caminho sozinho e em silêncio
e ia ansioso por voltar a ver a irmã do prefeito.
Quando chegou ao colégio, a irmã do prefeito tinha-lhe preparado um bolo de
aniversário, com velas e muito creme de várias cores. Houve festa grande, com todas as
raparigas a cantarem os parabéns e ele, constrangido e envergonhado, a tentar apagar as
velas e a abrir os presentes que elas lhe ofereceram. Quando a noite chegou, a irmã do
prefeito chamou-o ao quarto dela, um espaço amplo com uma cama de ferro e um
armário de cerejeira com um enorme espelho na porta, e ofereceu-lhe um bonito relógio
com o nome dele gravado na parte de trás. Ela pediu-lhe para ficar mais um pouco no
quarto e ele acenou, afirmativamente, com a cabeça. A Gina disse para ele se sentar na
cama e para ficar, em silêncio, a olhar para ela. Primeiro, ela despiu o vestido largo que
lhe cobria as pernas até aos joelhos e ficou apenas com um soutien e umas calcinhas
brancas. De seguida, ela voltou-se de costas e pediu ao rapaz que lhe soltasse os
colchetes do soutien. O António, um pouco desajeitado, puxou as duas partes do soutien
e ela deixou-o escorregar, lentamente, pelo corpo até cair no chão. Voltou-se para o
rapaz e pediu para ele aninhar a cabeça nos seios.
-Nunca viste uma mulher nua, pois não?
-Só vi uma vez. Vi-a a si, o ano passado, na casa de banho, no dia em que
cheguei ao colégio.
-Ai sim, meu maroto! E gostaste de me ver?
-Sim, gostei.
-Sabes que és um rapaz muito bonito? Importas-te que eu goste de ti?
-Até quero.
-Ai sim? E tu gostas um bocadinho de mim?
-Sim, gosto.
-És capaz de guardar segredo, de não dizeres nada nem ao teu melhor amigo?
-Sou pois.
-Queres ver-me nua outra vez?
- Eu quero o que você quiser.
-Podes tratar-me por tu quando estamos sozinhos mas se preferires tratar-me por
você, não faz mal.
-Eu prefiro tratá-la por você, está bem?
-Meu docinho querido, claro que está bem.
-Olha para mim.
A Gina meteu os dedos no elástico das cuecas e começou a puxá-las para baixo
com alguma dificuldade porque tinha umas pernas altas e fortes. Ficou nua, com as
pernas ligeiramente afastadas. Tinha uns seios grandes e duros que terminavam com uns
enormes mamilos pontiagudos, um pouco mais escuros do que o resto da pele que era
muito branca. Debaixo dos sovacos, tinha um tufo de pêlos pretos encaracolados. A
barriga era redonda mas proporcionada e do umbigo até ao púbis descia um fio de pêlos
pretos que ia alargando à medida que se aproximava do triângulo que lhe protegia o
sexo. As pernas eram altas e havia uma penugem rala dos joelhos para cima que se ia
adensando à medida que elas davam lugar às coxas. Quando ela se voltou, os olhos do
rapaz arregalaram-se ainda mais e fixaram-se na imensidão das nádegas redondas e
corpulentas da mulher. Umas nádegas imensamente brancas, separadas por um vale
profundo. De seguida, a mulher deu uma viravolta, olhou para ele e viu que as pupilas

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do António se dilatavam como se fossem pirilampos numa noite escura. A íris faiscava
de desejo e as mãos do rapaz não paravam de cirandar pelo corpo da Gina.
- Agora, é a tua vez de tirares a roupa. Não tens vergonha, pois não? - O rapaz
ficou quieto e mudo. Ela prosseguiu: - Se não quiseres tirar a roupa, eu não fico
zangada. Nunca ouviste dizer que há mais marés do que marinheiros?
O António não conhecia a expressão e não conseguiu saber o que ela queria
dizer com aquilo, embora calculasse que ela estivesse a dizer que podia ficar para mais
tarde.
- Pronto, não precisas de tirar a roupa – disse a mulher, acariciando-lhe a cara
com as mãos. - Olha mais uma vez para mim, está bem?
A Gina deitou-se na cama, ao lado do rapaz e abriu as pernas, oferecendo-lhe a
visão do sexo, carnudo e suculento, sob uma floresta de pêlos encaracolados que deitava
os seus ramos em todas as direcções. Ficou deitada uns breves segundos. Depois, olhou
para o relógio e disse:
-Meu querido, são horas de voltares para o teu quarto.
O rapaz ergueu-se, deu três passos atrás e, sem tirar os olhos do corpo da
mulher, abriu a porta e desapareceu no corredor escuro.

Passaram alguns meses antes de o António regressar ao quarto dela. Foi no dia
em que fez dezasseis anos. Acabara de deixar a sala de estudo. A Gina viu-o e chamou-
ao quarto dela para lhe oferecer um presente. O gira-discos brilhava sobre a mesa-de-
cabeceira e ela colocou sobre o prato um disco com música de Frank Sinatra e
perguntou se ele sabia dançar. Como o rapaz dissesse que não, ela prometeu ensiná-lo a
dançar e o melhor era começarem naquele momento. A Gina passou o braço direito à
volta do pescoço do rapaz, encostou a barriga à dele e reparou que a boca do rapaz
estava agora à altura da sua. O António crescera muito naquele ano e era agora um belo
e alto adolescente, de ombros largos e com um sorriso encantador. Colou a boca à dele e
levou-o consigo em passos de dança à volta do quarto.
- Gostas do gira-discos? É teu! É o meu presente de aniversário. Vais dizer aos
teus amigos que foi a tua mãe que to ofereceu.
-É lindo! – respondeu o rapaz.
A Gina levantou o braço do gira-discos e fez-se silêncio no quarto. Agarrou-lhe
na mão e perguntou:
- Estás preparado?
O rapaz respondeu que estava mas que julgava que ela já não gostava dele
porque passara muitos meses a evitá-lo. A Gina respondeu que nunca deixara de gostar
dele e que esteve à espera que ele crescesse mais um pouco para poderem acabar o que
tinha ficado a meio
A Gina despiu o vestido e ficou nua. O rapaz reparou que ela estava um pouco
mais magra e que deixara de ter pêlos nos sovacos. Os cabelos continuavam negros e
encaracolados, mas estavam agora um pouco mais curtos, e os olhos, brilhantes e
igualmente negros, ganharam nova vida com o sombreado azul que ela colocara nas
pálpebras. Quando ela se aproximou dele e abriu as pernas, ele reparou, também, que as
pernas dela eram agora macias e sem pêlos. Foi a Gina que ajudou o rapaz a despir-se e,
quando ele ficou nu, ela deitou-se sobre ele. Ficaram os dois abraçados o resto da noite
até que os ruídos, vindos do exterior, lhes fizeram lembrar que já era dia. Quando o
quarto ficou iluminado com a luz natural da manhã, a Gina reparou que os lençóis
estavam tingidos de vermelho e as suas pernas, cor-de-rosa. A Gina ia fazer trinta e três
anos, mas só a partir daquela noite, passou a ver-se como uma mulher madura.

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Nas semanas seguintes, o rapaz passou a escapulir-se regularmente para o quarto
da irmã do prefeito. A Gina arranjou uma desculpa para o mudar para um quarto
individual, facilitando-lhe as saídas nocturnas e as entradas matinais.

Estava um dia de Primavera invulgarmente quente e o António passeava com a


Gina pela beira do Tejo. Do lado de lá do rio, via-se a estação dos comboios e, ao fim
da tarde, quando o rapaz se preparava para regressar ao colégio, o comboio parou e
largou três passageiros que se apressaram, com as malas nas mãos, a caminho do
ancoradouro. O barqueiro esperava-os e, com a ajuda de uma vara, forçou o barco a
aproximar-se da outra margem. Quando o barco estava prestes a chegar, a Gina pediu-
lhe para saírem dali porque não queria que os vissem juntos. O António conhecia um
caminho que era usado pelos pastores e encaminhou a mulher por um carreiro estreito e
pedregoso que os levou até a uma velha ponte. Chegados lá, esconderam-se debaixo da
ponte e abraçaram-se. A Gina descalçou os sapatos, baixou-se, pôs as mãos em concha e
começou a lançar água sobre o António.
- Despe-te ou molho-te todo!
- Está bem, eu dispo-me mas, por favor, não me encharques a roupa!
O António tirou a camisa, despiu as calças e escondeu as cuecas nos sapatos.
Entrou na água da ribeira, com a Gina a lançar-lhe água para cima.
- E tu, não vens?
- Não posso!
- Porquê?
- Estou naqueles dias em que as mulheres não podem tomar banho!
- Não podem! Porquê?
- Estou com o período!
- Ah! Com o período!
- Sim! Fico aqui a ver-te!
-Anda! Ao menos, molha as pernas!
A Gina levantou a saia e entrou na água. O António pôs as mãos em concha,
encheu-as de água e atirou-a para cima da Gina. A mulher correu para fora da ribeira e
sentou-se sobre uma pedra.
-Anda para junto de mim! Vamos secar! São horas de regressarmos! – disse a
Gina.
Deitaram-se os dois sobre a erva. Quando ficaram secos, abalaram, de mãos
dadas. Chegaram à entrada da aldeia ao anoitecer. Ela pediu para ele esperar quinze
minutos, junto a uma velha fonte, à entrada da aldeia, e afastou-se em passo rápido. O
António ficou parado, encostado à fonte, a admirar as ancas redondas e duras da Gina,
sendo tomado por um indescritível bem-estar, que resultava não apenas das recordações
do que tinha feito naquela tarde, mas também da sensação de posse e volúpia que a
visão do corpo da Gina lhe proporcionava. E o rapaz só se fez ao caminho quando teve
a certeza de que ela já tinha chegado ao colégio.

Não havia televisão no internato. Depois das aulas, os internos tinham de


suportar duas horas de estudo. Os rapazes sentavam-se nas primeiras filas e as raparigas
nas últimas. Aquelas duas horas eram as mais monótonas do dia. O prefeito, apesar de
ver muito mal, vigiava os alunos com a atenção e diligência de um cão de guarda.
Quando via alguém com a cabeça pousada no tampo da mesa, ele deslocava-se
suavemente, com passinhos de lã, até à secretária do aluno que dormia, levantava o
braço peludo e deixava cair a mão direita, com toda a força que tinha, em cima da

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cabeça do rapaz. Depois, ria e ficava parado a gozar o sofrimento do rapaz, com a sua
boca aberta e a língua pendurada.
Quando as vinte horas chegavam, ouvia-se um apito e os alunos arrumavam os
livros na gaveta da secretária, levantavam-se e desciam, em fila indiana, até à sala de
jantar. Antes de se deitarem, estavam sujeitos a mais uma hora de estudo.
Nas sextas e nos sábados, tinham a liberdade de sair da residência até às vinte e
três horas. Quase todos os alunos se dirigiam para o único café da aldeia. Naquele
tempo, uma bica custava um escudo e uma laranjada quinze tostões. O café era um
espaço sujo e acanhado, com uma televisão a preto e branco pendurada no canto
superior direito. Havia matraquilhos ao fundo da sala e os rapazes faziam campeonatos
que duravam horas. As raparigas ficavam a ver e torciam pela vitória dos namorados. A
dona do café era uma mulher gorda, com um carrapito no cimo da cabeça e faces
rosadas. Gaguejava e soltava palavrões quando falava. Tinha um sotaque nortenho e
terminava as frases com a expressão: com um carago! Quando chegava a noite, andava
aos tropeções às mesas e já não era capaz de manter uma bandeja direita nas mãos:
estava perdida de bêbeda. Para além do negócio do café, a mulher recolhia e vendia fios
de cobre e peças de ferro. Todos os meses, aparecia na aldeia uma camioneta velha, que
lançava espessas baforadas de fumo, e que tinha um motor que roncava como um porco.
Era uma velha camioneta de marca Dodge, de cor verde, conduzida por um homem
gordo, que coxeava de uma perna. A camioneta parava nas traseiras do café e o
condutor, sempre com a barba por fazer, envergando um fato-macaco nojento, passava o
resto da tarde a enchê-la de toda a espécie de velharias. O António, conhecedor do
negócio da mulher, tinha por hábito arranjar dinheiro para jogar aos matraquilhos
vendendo-lhe calhaus, pintados de amarelo, enrolados em fio de cobre. A velha, perdida
de bêbeda, colocava os calhaus em cima de uma balança, pedia ao António para fazer a
conta, e dava-lhe para as mãos uma nota de vinte escudos. Naquela altura, vinte escudos
era uma pequena fortuna. O António não chegava a meter a nota no bolso das calças.
Pedia à mulher que trocasse a nota por fichas que ele utilizaria mais tarde nos
matraquilhos.
A mulher do café era casada com um velho bêbado que passava as tardes a
ressonar, sentado numa cadeira de encosto, à porta do café. A bem dizer, o velho não
fazia nada. De manhã, enquanto estava sóbrio, jogava às cartas com os amigos. De
tarde, dormia. Nas traseiras do café, havia uma pequena adega para onde o velho levava
os amigos ao fim da tarde. Havia lá duas grandes pipas de carvalho, onde o velho
guardava a água-pé. Um dia, o António ouviu o Júlio dizer:
-Queres ir mijar para dentro das pipas do velho?
-Qual velho?
-O dono do café!
-Que grande ideia!
-Eu já disse ao João e ao Nuno para virem também. Eles alinham. Assim, serão
quatro pilas a mijar lá para dentro. O velho, a mulher dele e os amigos vão beber mijo
todos os dias!
Chegaram à adega um pouco depois do almoço. O velho ressonava, sentado à
porta do café. A mulher dele, de pé, atrás do balcão, tirava imperiais. O Júlio meteu um
canivete no buraco da fechadura da porta da adega e a porta abriu-se. A adega cheirava
a vinho, a laranjas podres e a chulé. Havia teias de aranha penduradas no tecto e roupa
velha espalhada pelo chão. O Júlio foi o primeiro a entrar. Ele e o António pegaram
numa mesa, que estava no meio da adega, e arrastaram-na para junto das pipas. Subiram
todos para cima da mesa. Depois de sacar as rolhas, o Júlio deu a ordem e os rapazes

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começaram a mijar para dentro das pipas. Saíram de lá, abraçados, às gargalhadas e aos
tropeções, tão felizes como se tivessem ganho um prémio por bom comportamento.

Aos sábados, os alunos mais velhos escapuliam-se com as namoradas para um


laranjal que ficava nas traseiras do colégio. O Júlio, que era um dos maiores amigos do
António, fugia para lá com a Fernanda. A filha do director, uma rapariga encantadora
que ainda não completara os quinze anos, era uma presença habitual no laranjal.
Entregava-se a todos os que a desejavam. Passava dos braços de um para os braços de
outro com a rapidez de uma encomenda nas mãos de uma empresa de entregas urgentes
ao domicílio.
Aos domingos, pela manhã, era obrigatório assistir à missa. O pároco pederasta,
enfiado na sua batina preta, chegava cedo à sacristia. O Júlio era o sacristão preferido
dele. Mas havia outros, alguns mais novos, outros mais velhos. A todos cumprimentava
com uma carícia na cara, um afago na cabeça ou uma graçola, e, em ocasiões especiais,
gostava de ajudar os rapazes a prepararem as hóstias, aproveitando a oportunidade para
se encostar a eles, pegar-lhes na mão ou passar o braço por cima das costas. O Júlio
tinha uma técnica apurada para escapar das investidas do velho pederasta. Quando
sentia a mão peluda do padre a aproximar-se da cara dele, o Júlio recuava, estendia o
braço para o manter à distância e dizia:
-Senhor padre, eu tenho cócegas! Não me toque! – E o padre afastava-se com
cara de poucos amigos.

O António ainda passou mais alguns meses no colégio e, durante esse tempo,
foram muitas as noites que passou no quarto da Gina. Quando se separou dela, numa
noite de Julho, ela deixou cair duas lágrimas e disse que o amava e que o ia amar
sempre. Ele conteve, a custo, uma lágrima teimosa e disse que se ia lembrar dela
durante toda a vida e que, um dia, quando fosse adulto e ganhasse dinheiro, voltaria ao
colégio para a buscar. O António cresceu e fez-se homem mas nunca mais regressou.
Alguns anos mais tarde, havia de voltar a vê-la em circunstâncias muito especiais. E
esse reencontro iria mudar a sua vida. Mas, antes que isso acontecesse, a vida do
António iria dar muitas voltas. E a vida da Gina iria conhecer uma mudança de
trezentos e sessenta graus. Mas antes de avançarmos no tempo, convém saber o que
aconteceu ao António e à Gina durante os últimos meses que ele passou no colégio.

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DOIS

O António guardou segredo das suas intimidades com a Gina mas, um dia, abriu-
se com o seu melhor amigo, um rapaz um ano mais velho do que ele, chamado Rudolfo.
Faziam grandes caminhadas juntos, na companhia dos pastores que levavam as ovelhas
até aos pastos mais verdes, que ficavam nas margens do Tejo, muito além do
ancoradouro.
O Rudolfo era um rapaz de olhos tristes, lábios finos e nariz adunco mas de
porte atlético, que se tornara o melhor amigo do António quando ambos descobriram
que tinham perdido os pais aos seis anos de idade. Os pais do Rudolfo foram vítimas da
primeira revolta da UPA, a União dos Povos de Angola, no início da década de 60.
Viviam com o Rudolfo, numa fazenda nos arredores de Luanda, quando foram
surpreendidos com a revolta de cinco empregados que se juntaram a um bando armado
que, durante três dias, matou, à catanada dezenas de famílias que viviam nas fazendas
em redor. O Rudolfo presenciou o assassínio dos pais e escapou milagrosamente à
morte, escondido atrás de um tanque de lavar roupa nas traseiras da casa. Quando o
bando abandonou a fazenda, deixando atrás de si um rasto de sangue e destruição, o
Rudolfo ficou, de cócoras, atrás do tanque à espera dos primeiros raios de sol. Foi salvo
por uma coluna militar que, alertada para o massacre, chegou à fazenda já o sol ia alto e
a tarde se anunciava com um calor abrasador. O Rudolfo estava com a cabeça escondida
entre as pernas, morto de sede e tremendo de medo. Levaram-no para o hospital de
Luanda e ele ficou três anos sem dizer palavra. Ouvia e percebia tudo aquilo que lhe
diziam mas não era capaz de falar. De repente, sem ninguém saber porquê, recomeçou a
falar no dia em que fez nove anos de idade. Falava pelos cotovelos e as professoras
começaram a dizer que estavam perante um milagre. Um ano depois, terminou a quarta
classe sem qualquer atraso em relação aos miúdos da sua idade. Fez com
aproveitamento os exames à escola técnica e ao liceu e regressou à metrópole na
companhia de um tia beata que queria que ele fosse estudar para padre. Um rapaz que
tinha sido salvo por milagre e que por milagre tinha recomeçado a falar depois de três
anos de absoluto silêncio não podia deixar de cumprir um destino que o levaria longe.
Quem sabe se o Rudolfo não estaria destinado a chegar a bispo, retomando uma tradição
da família que dera dois padres e duas freiras à igreja no espaço de três gerações! Como
a tia regressara a Abrantes, onde retomou o negócio da família, achou por bem enviá-lo
para um colégio interno, perto dali e com uma ambiente cristão acima de qualquer
suspeita. Tê-lo-ia enviado para o seminário, não fosse a obstinada recusa do Rudolfo
que manifestava dúvidas sobre a vocação e que repetia a necessidade de tempo para
poder tomar uma decisão tão séria e irremediável.

Costumavam ir atrás do rebanho e, por vezes, distanciavam-se o suficiente para


fazerem pequenas incursões – o Rudolfo chamava-lhes razias – pelas hortas
circundantes, recolhendo maçãs, pêras e romãs, que repartiam com os pastores. Estavam
os dois no meio de um pomar carregado de maçãs vermelhas quando o António
começou a falar.
- Tenho uma coisa para te contar mas quero que guardes segredo.
- Não sou o teu melhor amigo? – perguntou o Rudolfo.
- És, mas não tenho a certeza de que sejas capaz de manter a boca calada.
- É pá, diz lá, estás-me a deixar em pulgas!
- Jura que não dizes a ninguém.

12
- Juro pela minha saúde.
- Está bem, eu vou contar-te.
- Mas conta depressa.
- Pronto, ando a comer a irmã do prefeito.
- O quê, andas com aquela boazona? – perguntou o Rudolfo, soltando uma
gargalhada.
- Ando, vou ter com ela ao quarto e monto-a as vezes que ela quiser.
- E não sobra nada para o teu amigo?
- Não gozes. Eu gosto dela e ela gosta de mim. Somos namorados.
- Ah, ah, ah, namorados! Não vês que ela podia ser a tua mãe?
- E isso que interessa? Não acabaste de dizer que ela é uma boazona? Se ela te
engatasse à porta da casa de banho, ias dizer que não a querias montar porque ela tinha
idade para ser tua mãe?
- Estás doido? Montava-a logo, cavalgava-a e não largava aquele cu e aquelas
mamas nem um minuto. Acabavam-se as punhetas!
- Isso parece-te! Quanto mais a como mais vontade tenho de me agarrar a este
animalzinho – disse o António, rindo e apontando para a braguilha. - Começo a
relembrar aquilo que fiz com ela e não resisto. Venho-me que pareço um perdido. E o
pior é que não me chega tocar só uma. Tenho noites em que toco quatro seguidas. Fico
com a cara que pareço uma mesa de mármore! O meu coração pula que nem um cavalo!
Há dias em que acordo com umas olheiras tão grandes que parece que levei um arraial
de porrada! É pá, quando a como ainda parece que é pior. Fico na cama, de olhos
abertos, sem conseguir dormir e a minha mão direita não é capaz de parar quieta!
Acreditas que depois de tanto bater ainda o tenho duro que nem um punhal?
- Ah, ah! E és só tu? Há algum dia em que eu deixo este animalzinho por tratar?
– volveu o Rodolfo, soltando uma sonora gargalhada. - Diz-me lá, como é que ela é?
- O que é que queres saber?
- Como é que ela é na cama! Grita, geme, berra, dá coices, gosta de levar por
trás?
- Vem-se uma, duas, três vezes e continua a pedir mais. Tem um rabo que mais
parece uma melancia: redondo e duro. A barriga é lisa e tem um matagal do tamanho da
Amazónia!
- E não pedes para ela se rapar?
- Não é preciso pedir. Ela, às vezes, rapa à minha frente. Tem uma daquelas
navalhas de barbear e um pincel. Molha o pincel numa tina de água, besunta o pincel
com um creme que ela tira de uma bisnaga, e esfrega aquela mata toda até ficar toda
branquinha. Depois, começa a rapar os pêlos com a navalha.
-Porra, não contes mais que eu não aguento!
-Já que pediste, vais ouvir até ao fim!
-Conta, conta, sortudo dum caralho!
-Um dia, eu pedi-lhe para ela se rapar toda e ela fê-lo à minha frente. Ficou com
pele de galinha! Nesse dia, dei-lhe quatro seguidas. Ela só gritava: rebenta com ela!
Não conseguia deixar de ter tesão e dei-lhe tantas que até fiquei com a ponta
ensanguentada. Ia-o partindo todo. Ela dizia que tinha a rata moída. Parecia que tinha
levado uma carga de porrada. Só queria que visses: estava inchada como se tivesse sido
mordida por um enxame de abelhas! Quando eu saí de cima dela, ouvi-a dizer: quero
disto todos os dias! Parecia esganada com fome! Só queria que visses os olhos dela:
arregalados e brilhantes como faróis acesos! Faiscavam, esganados de desejo! E quando
se está a vir? Oh meu Deus, parece uma égua a zurrar e, claro, tenho de lhe tapar a boca

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com a mão! E sabes o que é que ela faz? Morde-me os dedos! Crava-me as unhas nas
costas e rasga-ma a pele como se estivesse a esfolar um coelho!
- É pá, se não te calas, ainda acabo por montar uma ovelha! – interrompeu o
Rudolfo.
- Não era a primeira vez, pois não?
- Não venhas com falsos testemunhos. Não cheguei a montá-la, foi só a fingir.
- Pronto, não volto a falar desse assunto. É uma nódoa negra no teu passado. Só
lho meteste à entrada!
O António afastou-se do amigo e abeirou-se de uma macieira. Encheu os bolsos
de maçãs e começou a correr em direcção ao rebanho que era agora uma mancha branca
a subir uma encosta verde. Atrás de si, o Rudolfo corria, coxeando, e dizia para o
António não ir tão depressa porque tinha acabado de torcer um pé. Enquanto corria, o
Rudolfo não parava de repetir: Que grande sortudo este cabrão me saiu! Que grande
puta é a irmã do prefeito!
- É pá, deixa as ovelhas, não vês que já estão muito longe! – suplicou o Rudolfo.
- Queres que pare?
- Quero, estou à rasca do pé e não consigo correr mais.
- Está bem, vamos ficar por aqui, damos umas braçadas no rio e voltamos ao
colégio.
- Já estás com saudades da boazona, não é?
- Não é isso, tu é que ficaste lesionado e eu não quero levar-te ao colo.
Aproximaram-se da margem do rio, atiraram as roupas e as botas para cima de
um rochedo e lançaram-se à água.
- Sou capaz de ir até à outra margem – disse o Rudolfo.
- É melhor não, que o rio tem correntezas perigosas. Não vês aquele remoinho?
- Oh pá, tenho o pau tão teso, depois do que me contaste sobre a irmã do
prefeito, que tenho de o pôr de molho dentro de água fria. O melhor é deitar-me ao rio!
O Rudolfo lançou-se à água e começou a dar braçadas fortes, afastando-se da
margem. À medida que se afastava, a sua cabeça ia ficando cada vez mais pequena até
desaparecer por completo do alcance da vista do António.
- Ei! – gritou o Rudolfo da outra margem do rio.
O rapaz gritava cada vez mais alto e subiu, completamente nu, para cima de uma
rocha.
- Ei! Ei! Tens medo? – gritou.
O António respondeu-lhe:
- Não, não vou para aí!
- Medricas! – gritou o Rudolfo. – Eh pá, se precisares de ajuda para comer a
matulona, conta aqui com o atleta, está bem?
O António ficou, deitado de costas, sobre uma rocha plana à espera que o amigo
voltasse. Sentia-se orgulhoso da sua conquista e aliviado depois de ter contado a sua
incrível história ao seu melhor amigo. Deitado na rocha, com o sol a bater-lhe na cara,
achava-se um príncipe, um rapaz cheio de sorte, um eleito, um garanhão! Nuvens
brancas, como flocos de algodão, percorriam o céu azul, e o sol era um disco cor de
laranja que começava a deitar-se por detrás da estação dos caminhos de ferro. O mundo
parecia perfeito. O António era amado por uma mulher bonita, desinibida e sensual e o
seu melhor amigo, o Rudolfo, era a única pessoa que conhecia o seu segredo. Estava até
um pouco vaidoso por saber que o seu melhor amigo achava a Gina uma grande
boazona. Sentia um certo orgulho em ser o único rapaz do colégio que fazia amor com a
irmã do prefeito, a mulher que todos desejavam quando a espreitavam no banho, a partir
do telhado da casa do Júlio.

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Regressaram os dois pelo carreiro junto à ribeira e, quando atravessaram o
pomar, voltaram a encher os bolsos de maçãs e o Rudolfo roubou uma melancia. O
Rudolfo tirou a navalha do bolso, sentou-se sobre uma grande pedra, debaixo de um
salgueiro, e começou a cortar as primeiras talhadas de melancia. O António dava a
primeira dentada na talhada de melancia quando sentiu uma mão grossa atrás das suas
costas.
- Seus cabrões, com que então a roubarem o que não lhes pertence! – rosnou um
homem corpulento e de barba branca.
O António reconheceu o dono do café, o homem que passava as tardes a
ressonar, sentado numa cadeira. O Rudolfo afastou-se a correr e o António ficou preso
pelo pescoço aos braços musculosos do homem.
- Vais dizer-me o nome para eu fazer queixa ao cegueta do prefeito. E não
mintas que eu fiquei a conhecer-te o focinho!
-Chamo-me António. Vá, agora largue-me que eu tenho de ir para as aulas.
-E o cabrão do teu amigo?
-É o Rudolfo – respondeu o António, tentando libertar-se do velho.
O homem largou o António e este afastou-se. Em vez de regressarem ao colégio,
optaram por vadiar o resto do dia pelas margens de uma ribeira onde alguns pescadores
lançavam o anzol às trutas. Sabiam o que lhes estaria reservado ao chegarem à
residência e, por isso, havia qualquer coisa que os impedia de regressar. Anoitecia
quando voltaram e o prefeito esperava-os à entrada dos quartos.
- Venham os dois ao meu gabinete – ordenou.
O António e o Rudolfo entraram no gabinete do velho e ficaram de pé, em frente
da secretária. O velho sorria e fazia trejeitos com a boca, lançando a língua molhada
para fora como fazem os miúdos gulosos quando se preparam para comer uma
guloseima. Os olhos chispavam e o braço direito, empunhando o chicote, não parava
quieto. Batia nervosamente com o chicote nas pernas como se estivesse a afiar uma
faca. Via-se que o velho queria que aqueles momentos se prolongassem no tempo. Não
tinha pressa e estava na cara que se deleitava com a visão do pânico que tomara conta
das expressões faciais dos rapazes. Antecipando o gozo que o uso do chicote lhe daria, o
prefeito revirava os olhos e sorria, revelando uns dentes podres e sujos.
- Calças para baixo – berrou.
Os rapazes desapertaram as braguilhas e puxaram as calças até aos joelhos. O
velho lambeu os beiços pela nonagésima vez quando viu as nádegas brancas dos dois
rapazes. Manteve-se em silêncio e quieto a mirar os rapazes que tremiam das pernas à
espera do primeiro açoite que tardava. O velho esticou o chicote e começou a lançá-lo,
com força, contra as nádegas e as pernas dos rapazes. Enquanto batia, o velho soltava
um sorriso rasgado que ia do olho do cu às sobrancelhas. O António mordeu a língua
para não gritar e o Rudolfo tapou a boca com as mãos. O chicote não parava de ser
lançado contra as pernas dos rapazes até que, por fim, o prefeito disse:
-Parece que já chega! Quando voltarem a roubar fruta, lembrem-se de como
ficaram as vossas pernas. – Depois, ordenou: - Em sentido!
Os rapazes viraram-se para o prefeito, com as calças e as cuecas nos joelhos e as
pilas penduradas e puseram-se muito direitos. O velho avançou um passo, aproximando-
se dos rapazes, e fixou os olhos piscos e vesgos nas pilas penduradas. Parecia um
médico a examinar um doente. Deitou a língua de fora, lambeu os beiços pela centésima
vez e ficou pasmado a olhar para o ventre dos rapazes. De seguida, o velho grunhiu:
- Já daqui para fora!
Os rapazes puxaram as cuecas e as calças para cima, voltaram as costas ao
prefeito, subiram as escadas e meteram-se nos quartos. O António lançou-se na cama e

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chorou. Bateram à porta. Ele continuou na cama, deitado de barriga para baixo, com as
mãos sobre a cara. Sentiu uma mão de mulher afagar-lhe os cabelos e voltou-se. Tinha
os olhos vermelhos e a cara encharcada. A Gina beijou-lhe os olhos e percorreu a cara
dele com a língua, enrolando-a, por fim, na boca do rapaz.
- Meu maridinho querido, o que aquele velho maricas te fez!
-É para veres do que é capaz o maricas do teu irmão!
A Gina despiu-lhe as calças e pediu para ele se deitar de barriga para baixo.
- Oh meu Deus, como tens as pernas!
A Gina massajou-lhe as pernas, espalhou um creme refrescante pelas nádegas e
escondeu a cabeça entre elas, roçando a língua pela pele.
-Já dói menos, meu amor? – perguntou a Gina.
- Sim, isso alivia – respondeu o rapaz.
A Gina manteve a cabeça entre as pernas do rapaz e começou a afagar-lhe o sexo
com a mão direita.
-Estou a ver que a dor passou. Tens o sexo tão teso!
O sexo do António começou a inchar, as veias tornaram-se mais salientes, o
prepúcio recuou, pondo a descoberto a glande, e um líquido pegajoso - que ainda não
era esperma - untou a cabeça do pénis, exalando um odor forte que excitou a mulher. À
medida que a Gina acariciava o rapaz, o pénis ia ficando cada vez mais viscoso e, por
vezes, latejava como se fosse a chama de uma vela colocada junto a uma corrente de ar.
- Não pares, continua a mexer-lhe – pediu o rapaz.
A Gina manteve o sexo do rapaz na sua mão direita e começou a percorrer-lhe o
corpo com beijos.
- Volta-te de barriga para cima – pediu a Gina.
A Gina puxou o vestido e sentou-se em cima do rapaz.
-Com jeitinho, está bem?
-Fica quieto!
A mulher fincou os joelhos no lençol e começou a menear as ancas. A Gina
inclinou-se, fincando as mãos nos pés do António, e ele pode vislumbrar, com evidente
delícia, uma protuberância vermelha e inchada, que parecia crescer sob a pressão do seu
dedo indicador. O António arregalou os olhos: era do tamanho de um gomo de laranja
que, movido por uma estranha magia, aumentava de volume à medida que ela se mexia.
O António esperou que a Gina enlouquecesse e só quando a ouviu gemer,
primeiro de forma intermitente e, de seguida, soltando um grito agudo e contínuo, é que
ele, lembrando-se da protuberância vermelha, soltou vários esguichos dentro dela.
A Gina levantou ligeiramente a cabeça e lançou-lhe, com força, os cabelos
molhados sobre a testa. Depois, passou-lhe a mão direita pela cara e limpou-lhe o suor
que escorria da testa, das pálpebras e das faces. Quando a Gina levantou o tronco e
olhou para o António, reparou que o suor lhe escorria pelo peito. Pousou os lábios no
peito do rapaz e sentiu o sabor, ligeiramente salgado, do suor que lhe ensopava a pele.
Por fim, a Gina saltou da cama e, antes de se agachar sobre a tina de água quente que
jazia ao fundo do quarto, ficou a olhar o corpo estendido do rapaz e achou graça ao
pénis murcho que parecia adormecido sobre a perna direita dele. Deu três passos em
direcção à tina de água quente, agachou-se, abriu as pernas, pôs as mãos em concha,
lavou-se e ficou a pensar em como aquele pedaço de carne mole podia ganhar vida e
fazer maravilhas dentro de si.

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TRÊS

O Júlio era um grande amigo do António e vivia numa casa de rés-do-chão,


situada apenas a dois metros de distância da residência de estudantes. Era um rapaz
alegre, tinha uma cara que fazia lembrar o Steve McQueen, uns olhos tão azuis como a
cor do céu num dia luminoso de Verão e uma cabeça coberta de farripas douradas. Não
havia rapariga que ficasse indiferente ao look do Júlio e esse facto tornava-o muito
popular no colégio. De altura mediana e ombros largos, o Júlio tinha sido presenteado
pela natureza com uma figura que lhe dava um ar nórdico muito apreciado naquele
tempo. A boca, bem desenhada, escondia uns dentes brancos e o queixo, forte e
pronunciado, tinha uma covinha suave no centro. As raparigas diziam que ele era um
amor de rapaz e andavam à volta dele como formigas num pote de mel.
Os pais do Júlio faziam pequenos trabalhos para o colégio nos tempos livres e
nos fins-de-semana. Como herdara o talento do pai para a carpintaria e a bricolagem, era
a ele que o director e o prefeito recorriam quando era preciso consertar alguma coisa.
Aos domingos, o Júlio ajudava o padre – que também era professor de religião e moral
– na eucaristia e, talvez por isso, arranjara a alcunha de sacristão. Mas o que tornava o
Júlio mais popular entre os rapazes era o sótão da sua casa, colocado estrategicamente a
dois metros da janela da casa de banho das raparigas. Aos sábados à tarde, o sótão da
casa do Júlio era um dos locais mais concorridos da freguesia. Em certas alturas, os
alunos faziam fila para poderem conseguir um lugar de onde pudessem ver a beleza das
raparigas que tomavam banho a três metros dos seus narizes. Tamanha procura não
deixou ao Júlio outra alternativa: começou a cobrar bilhetes pela entrada.

Naquela tarde, o Júlio e o António subiram ao sótão da casa, seguidos pelo


Rudolfo, com o objectivo de levantarem três telhas e ficarem a ver as raparigas no
banho. O Júlio foi o primeiro a espreitar para a janela da casa de banho. Depois de fixar
os olhos, durante uns segundos, na janela, o Júlio fez um sinal ao António para enfiar a
cabeça no buraco. O Rudolfo ia ter de esperar um pouco porque o espaço não era
suficiente para os três.
Ao princípio, não conseguiram identificar a rapariga que estava, de pé, debaixo
do chuveiro. A água quente libertava uma névoa de fumo que tornava a visibilidade
deficiente. Viram-na embrulhada numa toalha amarela e, pouco depois, ela saiu. A casa
de banho ficou vazia durante alguns minutos e a névoa foi desaparecendo, restituindo a
claridade ao lugar. Quando a Mónica entrou, o Júlio soltou um ui de espanto e o
Rudolfo tentou meter a cabeça no buraco, puxando o António para o lado. Tiveram uma
pequena discussão que só acabou quando o António deu o lugar ao Rudolfo. A Mónica
era a rapariga mais bonita do colégio e, há vários meses, que o Júlio procurava vê-la, em
vão. Tinha um corpo esguio e uma pele muito branca. O cabelo era curto e os olhos,
muito negros, faziam lembrar uma rainha egípcia. Era uma rapariga alta, com umas
pernas invulgarmente compridas e bem torneadas que ela costumava fazer realçar com
um minissaia, demasiado curta para não acirrar a curiosidade dos rapazes. Depois da
Mónica, entrou a Fernanda que era a namorada do Júlio. Quando o Júlio gritou que
estava a ver a Fernanda e que não ia deixar os outros espreitarem pelo buraco, o
António deu uma safanão no Júlio e o Rudolfo agarrou-lhe os braços com as mãos.
-Deixa-o ficar preso até eu comer a namorada dele com os olhos! – pediu o
António, tomando o lugar do Júlio e enfiando a cabeça no buraco.

17
O Júlio tentava libertar-se dos braços do Rudolfo, lançando-lhe os joelhos contra
o peito.
-Já chega. Agora é minha vez! – gritou o Rudolfo, mantendo o Júlio agarrado.
O António não dava mostras de querer tirar a cabeça do buraco e, então, o
Rudolfo libertou o Júlio que lançou as mãos às pernas do António fazendo-o estatelar-se
no chão com grande estardalhaço. Com o António no chão e o Rudolfo em cima dele, o
Júlio aproveitou a confusão para esgueirar a cabeça para fora do telhado, lançando os
olhos em direcção à Fernanda que, nua, se mantinha de pé, debaixo do chuveiro.
Quando a água deixou de correr sobre o corpo da rapariga, ela saltou do poliban e ficou
de pé, em frente do espelho, com a água a pingar-lhe dos cabelos, e, de seguida, enrolou
o corpo molhado numa toalha. Então o Júlio baixou a cabeça e disse para o Rudolfo:
-Agora é a tua vez!
O Rudolfo ocupou o lugar do Júlio e, ao ver a Fernanda enrolada numa toalha,
soltou um grunhido de desapontamento e depois berrou:
-Se voltas a fazer isso, dou-te cabo da cara!
-A fazer o quê? – perguntou o António.
-O sacana só saiu depois de a namorada estar enrolada numa toalha! – respondeu
o Rudolfo. – Não consegui ver nada.
-É pá, assim não vale! Volta a fazer isso que eu nunca mais lhe levo os teus
bilhetinhos! – volveu o António.
-Ena, hoje é o meu dia de sorte! A Fernanda tirou a toalha e ficou nuazinha à
minha frente. Olha, está de rabo para o ar a vestir as cuecas. Ui, mas que grande cu ela
tem! Que pássara suculenta! Júlio, já comeste aquele cu, não comeste? – disparou o
Rudolfo perante a visível irritação do Júlio que gritava para ele descer.
Quando a Fernanda saiu, entrou a Isabel, uma rapariga de baixa estatura e peitos
grandes. O Júlio foi o primeiro a vê-la.
-Olha, é a pequenina! Tem umas mamas do caraças! Tem rodas 26, mas é muito
boa!
-Deixa cá ver essas rodinhas 26! – disse o António, puxando o Júlio para fora do
banco. – O António esticou o pescoço e exclamou: - Ai, meu Deus! Que mamas
aquelas! Parecem a Torre Eiffel!
A última a entrar na casa de banho foi a Gina, a irmã do prefeito. Quando ela
entrou, o Rudolfo deixou soltar um sonoro é ela! e o António percebeu que os seus
amigos estavam a admirar o corpo da mulher que ele amava. Passaram-lhe vários
sentimentos pela cabeça. Por um lado, sentia-se orgulhoso por ver que os seus amigos
se excitavam com a visão do corpo da Gina. Por outro, sentia-se incomodado ao
partilhar o corpo dela com os amigos. Na verdade, teria gostado de guardar aquela
imagem só para si e não gostava nada dos comentários jocosos do Júlio.
-Que mamas! Que cu! Que mata! Que mal empregado cu! Uma matulona destas
não pode andar por aí a estragar-se sem que alguém faça uso dela! Que fome ela há-de
ter!
Anoitecia quando a Gina deixou a casa de banho. Os rapazes voltaram a meter as
telhas no lugar e desceram. Ficaram uma boa meia hora no quintal do Júlio a comentar
as pernas da Joana, as mamas da Mónica e o rabo da Gina. Quando estavam para deixar
a casa do Júlio, o Rudolfo lembrou-se de propor uma votação.
-Vamos eleger a mais boazona?
O António pensou imediatamente na Gina mas ficou calado.
-Bom, a Mónica tem a minha preferência – respondeu o Júlio.
-O quê, preferes a Mónica à Fernanda? – perguntou o Rudolfo.

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-Não é bem isso, é que a Mónica tem umas pernas como não há igual! – explicou
o Júlio.
-E tu, não tens opinião? – perguntou o Rudolfo, virando-se para o António.
O António manteve-se calado e o Rudolfo trocou um olhar cúmplice com ele.
-O António vota na Gina. Não tens reparado que ela olha para ele de uma
maneira muito especial? – perguntou o Júlio.
-É bem verdade! Ó António, não me digas que ela te anda a galar?
O António riu-se e respondeu:
-Estás maluco ou quê?
-Não estou nada maluco. Estou a dizer-te que ela anda de olho em ti e que ela é
mesmo boa. Adorava comer aquele cu. Tu, não?
O António riu-se e respondeu:
-Estás mesmo maluco, é o que é.
-Estou tão maluco que, hoje, vou tocar uma a pensar nela. Tem umas mamas que
parece a Sofia Loren!
O António não disse nada mas pensou: tu vais tocar uma e eu vou comê-la.

No outro dia de manhã, o Júlio entregou um bilhete ao António. Antes de o


entregar à Fernanda, o rapaz fechou-se na casa de banho e leu o bilhete.
Meu amor
Mando-te este bilhete pelo Tó porque eles andam a vigiar-nos de noite e de dia.
Desde aquele dia em que nos apanharam, abraçados, na casa de banho, nunca mais
nos largaram. Ainda continuo a pensar no que teria sido de nós se a bruxa tivesse
chegado dez minutos mais cedo. Tinha-nos apanhado com a boca na botija. Bom, tu és
muito maluca e, se calhar, é por isso que eu te amo. Pedires-me para eu te comer à
canzana, na casa de banho das professoras, com a porta semiaberta! É de loucos.
Nisso, és como eu: gostas do cheiro do perigo. Não imaginas como tenho andado
excitado só de pensar no perigo que nós corremos. Não me sai da cabeça a tua
imagem, debruçada sobre o lavatório, de rabo para o ar, com a saia presa à cintura, a
prenderes o meu pau na tua rachinha. Claro, no meio de tanto perigo e com tanta
excitação, vim-me que nem um perdido passados uns minutos. Ah, adorei quando tu me
disseste, à porta do laboratório de Química, que estavas inundada. Mas, bom, bom foi
quando tu passaste a mão por dentro das cuecas e disseste para eu cheirar. Ainda me
lembro que tinhas os dedos todos pegajosos! Acho um grande disparate aquela ideia de
fazermos amor, no gabinete do prefeito. Não é que não me apeteça fazê-lo. Ele merecia
que o fizéssemos mas estaríamos a correr um grande perigo. Do que eu gostava mesmo
era de fazer amor contigo, em cima da secretária do velho, quando estivesses
menstruada. Deixavas lá a tua marca: uma nódoa de sangue de cor vermelha. E eu
deixava a minha assinatura: uns pingos de leite condensado a cheirar a sexo para
entupir as ventas do psicopata. Tenho uma ideia melhor e menos perigosa. Espero por
ti, amanhã, no laboratório de Química, às 19 horas. Lembras-te daquela chave que eu
fanei? É a chave que abre a porta do laboratório. Antes da última aula da tarde, vou
abrir uma janela do corredor para podermos entrar pelas traseiras do colégio. Depois,
abrimos a porta do laboratório com a chave, enfiamo-nos lá dentro e podemos lá ficar
até ficarmos fartos. O que achas da ideia? Vou estar à tua espera, às 18 horas e 50
minutos, debaixo do limoeiro. Aparece, está bem?
O António enrolou o bilhete e escondeu-o no bolso das calças. Tinha de o
entregar rapidamente à Fernanda. Em troca, pediria que ela deixasse que ele a beijasse
na boca. O Júlio era um dos seus melhores amigos e, como não morava na residência de
estudantes, precisava que o António servisse de mensageiro. A Fernanda era uma

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rapariga mais velha – devia ter quase vinte anos – que ainda frequentava o 5º ano do
liceu e dormia num quarto que ficava no 1º andar. O António cruzava-se com ela todos
os dias quando ela ia ou vinha da casa de banho e tinha a vaga sensação de ela
desconfiar de que as suas entradas no quarto da Gina eram bastante mais do que visitas
de cortesia. Um dia cruzou-se com a Fernanda quando vinha a sair do quarto da Gina e
ela deitou-lhe um olhar cúmplice que queria dizer que sabia mas ia guardar segredo. No
dia seguinte, quando estavam a entrar no refeitório, a Fernanda sussurrou-lhe:
-Essas entradas e saídas a meio da noite são muito estranhas, não achas? Olha,
eu não tenho nada com isso mas tem cuidado e aproveita bem.
O António fez-se desentendido e disse:
-O que é que estás para aí a dizer? Não era melhor deixares de falar em código?
-O que eu estou a tentar dizer-te é que a Dona Gina é uma mulher bonita que
todos os rapazes gostariam de comer e se tu andas a fazê-lo só podes dar-te por muito
feliz.
-Não estás boa da cabeça, é o que é. Não vês que ela tem idade para ser minha
mãe?
-E daí? Ela é solteira e tu és um rapaz bonito.
-Deves estar a gozar comigo, é o que é. É melhor não falares disso a ninguém,
olha que com coisas sérias não se brinca! – rematou o António, irritado.
-Pronto, não está aqui quem falou. Esta boca é um túmulo – concluiu a
Fernanda, levando a mão a boca.

A primeira vez que o António viu a Fernanda foi no segundo dia da sua chegada
ao colégio. Ela estava vestida apenas com um robe e passava a ferro na lavandaria da
residência. Quando movimentava o ferro da esquerda para a direita, o robe abria-se um
pouco e destapava-lhe as pernas. Tinha uma pele muito escura e uns lábios carnudos
que lhe denunciavam as origens africanas. O pai era português, e a mãe, angolana.
Conheceram-se quando o pai prestava serviço militar em Angola. Segundo se dizia, a
Fernanda nascera de uma relação adúltera do pai dela que, na altura, era casado com
uma portuguesa que tinha ficado em Lisboa. Quando o pai terminou a comissão em
Angola, regressou a Lisboa na companhia da Fernanda e da mãe dela. Em Lisboa, a
Fernanda ficou a viver com a mãe, num apartamento alugado, enquanto o pai dela
continuava a sua vida de casado com a mulher legítima de quem tinha mais duas filhas.
O cabelo da Fernanda era preto e ligeiramente encaracolado. Caía-lhe, em farripas, pela
testa. Os seios eram invulgarmente grandes e empinados. Tinha umas mãos compridas e
finas e as unhas, impecavelmente pintadas, davam-lhe um ar atrevido. O António olhou
para os pés da rapariga e reparou que as unhas, cortadas muito curtas, estavam pintadas
de vermelho. Ficou à espera que ela lhe desse as calças. Depois de lhe oferecer um
sorriso malicioso, a Fernanda passou-lhe as calças para as mãos e deu-lhe um beijo ao
canto da boca. Desde aí, aproveitava todas as oportunidades para espreitar a Fernanda
quando ela se escapulia para a casa de banho. Achava-a diferente das outras e, na
verdade, a pele dela, muito escura, dava-lhe um ar exótico que punha o António em
grande excitação.

A Fernanda era conhecida, no colégio, como devoradora de homens. Tinha a


alcunha de “Princesa de África”. Naquela altura, andava com o Júlio mas já tinha
namorado muitos outros. Dizia-se que, por vezes, andava com dois rapazes ao mesmo
tempo e os poucos que ainda não a tinham beijado estavam em linha, à espera da sua
oportunidade. O que mais agradava nela, era a sua total falta de vergonha, a sua
constante vontade por sexo, a sua desfaçatez e o gosto muito peculiar por situações

20
perigosas. Dizia-se que ela já tinha feito amor no gabinete do prefeito, na sala de estudo
e na casa de banho dos rapazes. Ninguém sabia se isso correspondia à verdade ou se
eram apenas boatos mal intencionados. Quando terminava com um namoro, fazia os
possíveis por manter a amizade e esse facto tornava-a muito popular entre os rapazes e
suscitava alguma inveja nas outras raparigas. Na verdade, as colegas escondiam a inveja
que tinham dela, fazendo comentários racistas e rematando as apreciações apressadas
com uma frase lacónica: uma puta, é o que ela é!

António sabia onde podia encontrá-la. Ela gostava de permanecer meia hora
deitada na cama, depois do almoço, antes de se deslocar para o colégio, para ter as aulas
da tarde. O quarto do António ficava também no 1º andar, bastando-lhe bater três vezes
na porta para que ela a abrisse. Depois de abrir a porta, ela puxou-o para dentro e
perguntou:
-Alguém te viu?
-Não. Passei o corredor a toda a pressa e ninguém me viu.
-Vá, dá cá o bilhete.
O António deu-lhe o papel para as mãos e ela deitou-se na cama a lê-lo.
Ao verificar que o António permanecia parado, de pé, a dois metros dela, a
rapariga interrompeu a leitura e disse-lhe:
-Pronto, já sei o que é que queres. Deixa-me acabar de ler o bilhete.
A Fernanda usava apenas um soutien creme que lhe deixava de fora metade dos
seios e umas cuecas da mesma cor. Pousou o bilhete em cima da cama, sentou-se e
desapertou o soutien, deixando-o cair sobre as mãos.
-Gosto muito de ver as tuas mamas – disse o rapaz, mantendo-se parado a dois
metros dela.
-Chega? – perguntou ela.
-Disseste que, um dia, me ias mostrar tudo. Não pode ser agora?
A Fernanda levantou-se da cama, inclinou o tronco e puxou as cuecas para
baixo, deixando-as presas aos joelhos.
-Chega?
-És muito bonita! Tira as cuecas fora!
A Fernanda baixou-se um pouco mais, puxou as cuecas até aos tornozelos,
levantou primeiro um pé, depois o outro, e atirou as cuecas para cima da cama. Ficou de
pé, com os braços caídos ao longo das pernas compridas, a olhar para o rapaz. O
António admirava-lhe o corpo bem torneado, as ancas largas, a cintura estreita e os
seios muito redondos e duros. Reparou, pela primeira vez, que ela não tinha pêlos nas
pernas e que o púbis formava um pequeno triângulo, um triângulo tão pequeno que não
era suficiente para lhe tapar a vagina. Os seios eram mais escuros do que os das outras
raparigas e ele reparou, com evidente deleite, que a Fernanda tinha uns mamilos
salientes, rodeados de uma coroa negra que mais parecia o núcleo de uma flor.
-Abre um pouco as pernas para eu ver melhor – pediu o rapaz.
A Fernanda riu-se e abriu as pernas. Depois, levou a mão ao púbis e puxou os
pêlos para cima. Os olhos do António fixaram-se nas pregas da vagina que, abertas,
revelaram uma protuberância avermelhada, do tamanho de um botão de camisa, que
parecia querer libertar-se de um pedaço de carne, em forma de botão de rosa, que
teimava em aprisioná-la. Reparou, com imenso deleite, na cor esbranquiçada dos lábios
da vagina, uma cor tão clara que fazia um maravilhoso contraste com a pele escura da
barriga e das pernas.
-Vês melhor agora?
O António acenou com a cabeça e disse:

21
-O teu sexo parece um botão de rosa por abrir.
-Ah! Não me faças rir! Pareces um poeta a falar!
-Se te zangares com o Júlio, lembra-te de mim – pediu o António.
-Não querias mais nada? Bom, quem sabe se não vais ter uma oportunidade! Se
o Júlio se portar mal, já sei a quem devo recorrer. Vá, agora vai. Diz ao Júlio que estarei
no limoeiro à hora combinada.
-Digo pois.
O António deu dois passos em frente e pousou os lábios, muito levemente, na
boca dela. Ela fez-lhe uma festa na cabeça e disse-lhe:
-Agora, vai.
Ele dirigiu-se para a porta, meteu a cabeça de fora e, ao ver que o corredor
estava vazio, saiu, olhando uma última vez para o corpo nu da Fernanda.

Havia uma grande balbúrdia, à hora de jantar. Os rumores eram vários e notava-
se, pelos gestos agitados do prefeito, que o caso era bicudo. Quando os rapazes e as
raparigas foram chamados para jantar, todos notaram a ausência da Fernanda. A notícia
começou a correr durante o jantar mas ninguém sabia a origem dela. A Fernanda e o
Júlio tinham sido apanhados pela bruxa a fazerem amor no laboratório de Química.
Estavam os dois nus em cima de uma bancada quando a bruxa entrou no laboratório.
Ninguém sabia o que lhes iria acontecer mas, dados os antecedentes de ambos, não
custava acreditar que fossem expulsos do colégio.
Durante a hora de estudo, a agitação continuou. Ninguém sabia onde estava a
Fernanda e começou a correr o rumor de que tinha sido mandada para casa. Os alunos
cochichavam com os colegas do lado e de trás, passavam bilhetes uns aos outros e o
prefeito não parava de grunhir:
-Calem as matracas, bando de idiotas!
No final da hora do estudo, o prefeito levantou-se da secretária e falou:
-Já não vou dar novidade nenhuma. Pela maneira como se comportaram, já todos
devem saber o que aconteceu. A Fernanda deixou de ser vossa colega. A esta hora, está
a caminho de casa. Pelo comportamento anterior dela, já era de esperar que isto
acontecesse e só lamento tê-la deixado residir connosco este ano. Era uma rapariga
leviana, com muito sangue na guelra, sem temor a Deus nem respeito pela moral. Via-se
pela cor da pele que aquela mistura de sangues só poderia conduzir à perdidão. Quando
se misturam duas raças, o produto final fica sempre a perder! Tenho pena que o Júlio
estivesse com ela. É nosso vizinho e eu vi aquele rapaz crescer. Andei com ele ao colo e
sou amigo dos pais dele. Ainda não sei o que lhe irá acontecer. Amanhã, o director do
colégio vai reunir os alunos e os professores no ginásio para dar a conhecer a sua
decisão. Às nove horas em ponto quero toda a gente à entrada do ginásio.
Mal acabou de falar, o prefeito bateu com a mão direita no tampo da secretária e
ordenou que os alunos deixassem a sala de estudo. Quando o António passou por ele, a
caminho da porta de saída, reparou que o prefeito mantinha a língua de fora, a dar a dar,
como se fosse a língua de um cão a preparar-se para saborear um bom naco de carne
assada. O velho deitou-lhe um olhar guloso e perguntou-lhe:
-Como é que esse cu está? Ainda dói?
O rapaz olhou para ele e viu um ogre, um pervertido cheio de malícia e maldade.
Voltou-lhe as costas sem responder.
Os rapazes e as raparigas deixaram a sala de estudo com os semblantes
carregados. O António refugiou-se no quarto e, nessa noite, não ousou sair dele. Passou
longas horas acordado a pensar na Fernanda e no seu amigo Júlio. Gostava de saber o
que é que a Gina pensava do sucedido. Estaria tão preocupada como ele? Deixaria de

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querer vê-lo com receio das consequências? Lembrou-se do corpo nu da Fernanda, dos
pêlos em forma de triângulo que mal lhe cobriam a vagina, dos seios generosos e das
pernas compridas e teve uma erecção. Estava deitado, completamente nu, e com a roupa
da cama aos seus pés. Olhou para baixo e viu o pénis a crescer e a engrossar. As veias
que o percorriam, de alto a baixo, tornaram-se mais salientes e a pele que cobria o
prepúcio começou a descer, libertando a glande. Teve vontade de o acariciar mas
desistiu da ideia porque queria guardar-se para a Gina. Adormeceu já a luz da manhã
tinha abraçado o quarto.
Às oito horas e quarenta minutos, já os estudantes formavam uma longa fila
junto à porta de entrada do ginásio. Havia um silêncio sepulcral. Quando a bruxa
chegou, ouviu-se alguém gritar uh, uh! A bruxa entrou no ginásio sem olhar para trás.
Pouco depois, apareceu o director e o padre que dava aulas de moral. O António fugia
daquele padre como diabo da cruz. Cada vez que a cabeça do rapaz ficava ao alcance da
mão peluda do clérigo, era um nunca mais acabar de carícias e beliscões. Incomodava-o
sentir aquela mão peluda e suada de volta do seu pescoço e das orelhas. Quanto mais ele
tentava afastar-se, mais o padre se chegava a ele, roçando a batina puída pelo corpo do
rapaz. Um dia, o António falou no assunto à Gina e ela aconselhou-o a afastar-se o mais
possível do velho pederasta. Disse-lhe ainda que ele tinha fama de levar miúdos para a
sacristia e que havia pelos menos duas queixas fundamentadas nas mãos do bispo que
parecia não dar grande importância ao caso.

Às nove horas em ponto, os estudantes começaram a ocupar as bancadas de


pedra que circundavam o recinto. No centro do ginásio, havia uma mesa comprida, com
o director ao meio, a bruxa ao seu lado direito e os restantes professores à esquerda e à
direita dos dois. O prefeito ocupava o último lugar à direita do director. O António, que
estava mesmo em frente do prefeito, reparou que ele trazia a mesma camisa coberta de
nódoas e o mesmo casado puído com que andava há pelos menos dois anos, fizesse
calor ou frio. Fez-se um longo silêncio antes de o director começar a discursar.
-Aconteceram coisas muito graves, neste colégio, ontem à noite. Sem o
sabermos, tínhamos aqui uma mulher perdida que teve a ousadia de entrar no
laboratório de Química para se entregar à luxúria. Essa aluna já não está entre nós. Eu
próprio decidi expulsá-la do colégio depois de conversar, longamente, com o nosso
pároco. Telefonei à família, que a veio buscar. Essa rapariga estava no laboratório de
Química com um aluno, quatro anos mais novo do que ela, um aluno que é um filho
desta terra e que todos estimamos: o Júlio. O meu primeiro impulso foi expulsá-lo
também do colégio. Conversei longamente com o nosso pároco sobre isso. Chegámos à
conclusão de que o Júlio tem várias atenuantes e que, por isso, deve ser tratado de uma
forma mais branda. É um rapaz educado, temente a Deus, filho desta terra, sempre
pronto a ajudar a igreja naquilo que é preciso e, além disso, acabou de fazer 16 anos.
Optei por uma pena exemplar mas mais leve.
O director interrompeu o discurso, olhou para um contínuo, e disse, em voz
baixa:
-Vá buscar o rapaz.
O Júlio entrou no ginásio pelo braço do contínuo. Vinha de cabeça baixa e dava
passos curtos. Ficou de costas para os estudantes e de frente para a secretária onde
estavam os professores. O director olhou para ele e continuou o discurso:
-O castigo que eu vou aplicar ao Júlio é um aviso para todos. Aqui, neste
colégio, não se admitem imoralidades. Quem violar as regras, sofre as consequências.

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O director calou-se, agarrou num chicote, deu três passos em direcção ao Júlio,
ordenou que ele se inclinasse e lançou, repetidamente, o chicote sobre as costas do
rapaz.
O Júlio permaneceu com as costas inclinadas e em silêncio. Recebeu as
chicotadas com estoicismo, não libertando um único som. Depois, o director ordenou ao
contínuo que acompanhasse o Júlio na saída do ginásio e disse para os estudantes que
permaneciam sentados nas bancadas de pedra:
-Espero que isto vos tenha servido de lição. Agora, ide em silêncio para as salas
de aula.
Os estudantes começaram a deixar o ginásio e foram entrando, aos poucos, nas
salas. O António sentou-se ao lado do Júlio e segredou-lhe:
-Foste um valente!
O Júlio olhou para ele, tentou esboçar um sorriso e depois disse:
-Mas fiquei sem ela!

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QUATRO

Quando chegaram as férias, o António soube que ia deixar definitivamente o


colégio onde passara os dois melhores anos da sua vida. Foi por isso que se deixou ficar
mais quatro dias, depois de todos os colegas terem partido para as suas casas. A Gina
pedira-lhe que ficasse uns dias porque queria viver com ele, naquela grande casa, como
se fossem marido e mulher. Seriam os primeiros e os últimos dias de mulher casada. O
prefeito tinha deixado o colégio para fazer uma semana de termas em São Pedro do Sul
e a Gina dera férias às duas raparigas que a ajudavam no tratamento da roupa e na
limpeza da casa.
Era um mês de Julho invulgarmente quente, com as temperaturas a atingirem os
quarenta graus e um sol luminoso e quente num céu azul, sem nuvens. O edifício de
dois pisos parecia agora maior e os passos do António ecoavam no vazio dos corredores
quando ele se encaminhou, naquela manhã, para o quarto da Gina, depois de se
certificar de que o prefeito acabava de entrar no táxi que o esperava à frente da porta
principal e o conduziria ao norte do país para uma semana de abluções e banhos
retemperadores. Quando ele abriu a porta do quarto, tinha a Gina, de pé, à sua espera,
envergando apenas uma blusa larga que lhe deixava a descoberto metade das pernas. Ela
sorriu e disse:
- Anda cá meu maridinho querido.
Abraçou-se a ele e o António, sentindo o odor familiar dos seios dela, afagou-os
com as mãos, retirou-os de dentro da blusa larga e afundou a cara neles. O odor do
corpo da Gina atiçou-lhe o desejo. Como habitualmente, aquele odor em breve se
misturaria com o cheiro a suor e a esperma e essa mistura tinha nele um efeito
afrodisíaco que, naquele momento, era ampliado pelo facto de não haver mais ninguém
naquela casa.
- Vá, quero ouvir-te dizer que eu sou a tua querida mulherzinha, o amor da tua
vida, a mulher que será eternamente tua, andes por onde andares, aconteça o que
acontecer.
O António retirou a cara dos seios dela, olhou-a nos olhos, disse-lhe tudo aquilo
que ela queria ouvir e sentiu que o amor que tinha por ela era verdadeiro e tenaz e que
iria perdurar para sempre, apesar de recear que aqueles iam ser os últimos dias que
passariam juntos.
Antes de se deitarem na cama, ela pediu-lhe que fizessem um juramento de
entrega mútua e de fidelidade perpétua. Foi buscar uma lâmina de barbear, a lâmina
com que ela tinha acabado de rapar os sovacos e de aparar o triângulo de pêlos que lhe
protegia o sexo, e pediu para ele lhe dar a mão direita. Ele entregou-lhe a mão direita
sem hesitar. Então, ela pegou na lâmina e fez-lhe uma incisão leve no indicador que
logo se encheu de sangue que ela lambeu. Depois, ela fez o mesmo no seu indicador
esquerdo e uniu o seu dedo ao dele, pedindo para ambos beijarem os dedos e engolirem
o sangue que, misturado, caía em pequenas gotas no chão do quarto. Por fim, a Gina
pousou os lábios manchados de vermelho nos lábios dele, misturaram as línguas com
sabor a sangue e ela deixou cair duas lágrimas que lhe souberam a sal.
Deitaram-se na cama com as faces manchadas de sangue e a Gina não foi capaz
de deixar de chorar.
- Desculpa, mas não consigo aceitar a tua partida. Está a chegar ao fim a minha
vida de mulher casada e tenho receio de regressar a um tempo que julguei ultrapassado.
Agora que senti o sabor doce do amor não consigo enfrentar um regresso à ausência
dele. É como um pobre que ficou rico e deita tudo a perder, regressando à pobreza.

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Depois de nos habituarmos às coisas boas da vida, não conseguimos viver sem elas. E tu
foste a coisa melhor que me aconteceu. Poder amar um rapaz como tu, bastante mais
novo do que eu, com um corpo vigoroso e atlético e uma cara de anjo, é como franquear
as portas do paraíso, desfrutar dos prazeres celestiais e perder-me nas delícias de um
mundo do qual nunca mais quero sair.
O António ouviu, em silêncio, as palavras da Gina, apertando-a contra o seu
peito e beijando-lhe, ao de leve, a testa, os olhos e os lábios. Ela limpou os olhos com o
lençol, rolou por cima dele e sentou-se. Levou o sexo dele – que estava murcho – à boca
e passou-lhe a língua suavemente pelo prepúcio, fazendo com que ele se erguesse.
Reparou que ele se tornou vermelho e gostou de ver as veias inchadas que pareciam
rebentar sob os seus dedos. Ela gostava de o ter preso nas mãos, a latejar como se fosse
um animal ferido, a implorar que o libertassem da dor, jorrando até à última gota que,
em golfadas, manchavam a brancura do lençol.
- Tenho medo de envelhecer – disse a Gina com a voz trémula. - Sabes que eu
detesto o cheiro a velha?
-Mas tu não cheiras a velha!
-Do que eu tenho mais medo é do cheiro a velha, aquele odor que se entranha na
pele e que não se liberta nem com a espuma do banho, que persegue as mulheres a partir
dos cinquenta anos de idade e que é como um selo que se cola à testa. Toda a gente dá
pelo cheiro a velha, por mais que se unte a pele com perfume. Entranha-se e nunca mais
sai. Quando eu tiver cinquenta anos tu vais ter pouco mais de trinta, estarás na força da
juventude, mais belo do que nunca, com dezenas de mulheres atrás de ti e, então, achar-
me-ás velha, ressequida e flácida, olharás para mim com piedade e compaixão, evitar-
me-ás e terás vergonha de me verem ao teu lado.
-Nunca terei vergonha de ti.
-Não procures negar o que é evidente, porque é impossível fugir às leis do tempo
e, quanto mais velhos nos tornamos, mais apreciamos a beleza da juventude, o vigor que
nos é inacessível e que nós desejamos desfrutar com a presença do outro, tal como
aconteceu comigo na primeira vez que te vi.
- Esqueces-te que eu te amo e que vou amar-te sempre!– interrompeu o António,
cobrindo-lhe os seios com as duas mãos.
- Esta história vai perseguir-te durante toda a vida: deixaste de ser virgem com
uma mulher de trinta anos que também era virgem. Foste tu e mais ninguém que me
rompeu o hímen que eu guardei até ser uma mulher. Foi contigo que eu fiz um pacto de
sangue, misturei o meu sangue com o teu e bebi dessa mistura para selarmos a
eternidade do nosso amor, a pertença mútua que nos vai unir por onde quer que
andemos, estejamos com quem estivermos. Quando te deitares com a tua futura mulher
e fizeres amor com ela, vais pensar que sou eu que estou em cima de ti e quando eu
estiver deitada nesta cama, na solidão deste quarto, a acariciar o meu corpo, vou
imaginar que são as tuas mãos e os teus lábios que me afagam.

26
CINCO

Tinha deixado o colégio há três meses e nunca mais tivera notícias da Gina.
Estava na estação dos caminhos-de-ferro na companhia do seu novo amigo, o Tomé,
mais conhecido pelo Patilhas. Disseram em casa que iam inscrever-se na Faculdade de
Direito de Coimbra e estavam numa longa fila para comprarem os bilhetes. Quando
chegou a vez deles, repararam numa rapariga belíssima, com um saco na mão, que
acabara de adquirir um bilhete para Lisboa. O Patilhas olhou para ele, sorriu e
perguntou:
-Vamos para Lisboa?
O António disse que sim com a cabeça. Munidos dos bilhetes, dirigiram-se para
a plataforma onde os esperava um comboio que os iria conduzir a Lisboa. Entraram e
esquadrinharam a carruagem à procura da rapariga morena com uns longos cabelos
pretos.
-Ei-la! Está ali, encostada à janela.
O Patilhas foi o primeiro a sentar-se. Olhou para a rapariga e ficou encantado.
Era de uma beleza única e singular. Os cabelos caíam-lhe pelos ombros como se fossem
a crina de um cavalo. Os olhos eram negros e brilhavam. O nariz, direito e delicado,
com umas asas de lado muito simétricas e harmoniosas, dava-lhe um ar de anjo, mas a
boca, carnuda e sensual, parecia a porta de entrada para o inferno. Os seios eram dois
montes que albergavam as chaminés de dois pequenos vulcões e a cintura, estreita e
firme, parecia a garganta de um desfiladeiro. Trazia uma saia curta que mal lhe cobria
os joelhos, expondo umas pernas delicadas, torneadas com mão de mestre, sem pêlos,
que pareceram ao António duas formosas colunas que sustentavam um monumento à
beleza e à vida.
-Eu sou o Tomé e este é o meu amigo António – disparou o Patilhas, sem
conseguir obter a mais pequena reacção da rapariga. Então, o Patilhas voltou à carga: -
Ei, nós também vamos estudar para Lisboa, somos colegas! Será que isso não te merece
um sorriso?
A rapariga manteve o mesmo olhar distante, passeando os olhos, sem expressão,
pelo tecto da carruagem e depois pôs-se a olhar pela janela.
-Ora porra, és muito boa mas não mereces que eu esteja para aqui a gastar o meu
latim! – berrou o Patilhas, dando um salto do banco e voltando as costas à rapariga.
O António seguiu-lhe os passos e desandou atrás dele para o fundo da
carruagem. Soube, uns dias depois, que aquela rapariga era a filha do homem mais rico
da cidade, um conhecido empresário de construção civil que era dono de quase todas as
casas do bairro onde ele vivia. O António, sempre que recordava este episódio, ficava a
suspeitar que a sua adesão aos ideais de esquerda terão sido gerados por este incidente.
De ora em diante, passou a sentir um certo asco para com as pessoas nascidas em berço
de ouro e que trepavam na vida sem terem de fazer o menor esforço. Não deixa de ser
curioso, no entanto, que, uns anos mais tarde, ele tenha casado com uma mulher, mais
velha do que ele, que era filha de um grande empresário de materiais de construção
civil.

Quando estavam na reitoria, alinhando na fila para as matrículas, o Patilhas disse


para o António:
-Eh, pá! Já viste aquela fila?
-É só gajas!
-Não se vê por lá um único homem!
-E nesta não se vêem mulheres!

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-Eh, pá! Aquela é a fila para a Faculdade de Letras!
-E estamos aqui a fazer o quê?
-Estás a pensar o mesmo que eu?
-Porra! Anda daí!
E dito aquilo, saíram da fila da Faculdade de Direito e meteram-se na fila da
Faculdade de Letras. Eram os únicos rapazes numa fila com mais de cem raparigas que,
de formulários nas mãos, se preparavam para se inscrever nos cursos de Letras.

Uma vez na Faculdade, o António trocou as aulas pelas manifestações de


estudantes, onde viria a conhecer a sua futura mulher.
Depois de deixar o colégio, nunca mais esteve com a Gina. Nos dois primeiros
anos, recebeu algumas cartas dela mas, com o passar do tempo, as cartas foram
rareando. Havia alturas em que se lembrava dela e nunca conseguira libertar-se da
necessidade de evocar a sua imagem quando precisava de um tónico erótico para se
masturbar. A presença das imagens da Gina, sobretudo daquelas que evocavam as
primeiras vezes em que tinham feito amor, era uma constante na vida do António e, por
vezes, quando estava com outras mulheres, parecia-lhe que elas o faziam transportar às
noites quentes de Verão em que ele, sorrateiramente, se escapulia para o quarto da irmã
do prefeito. A Gina tinha-se transformado num padrão que servia de ponto de referência
e de medida para avaliar todas as outras mulheres. Depois de as conhecer bem, todas
elas perdiam o encanto e a graça, ficando a muitas milhas de distância do fascínio que a
imagem e as recordações da Gina continuavam a despertar nele.

O Rossio encheu-se de estudantes, vindos de todos os lados da cidade, em


resposta aos panfletos que os Comités de Luta Anti-Colonial distribuíram nas cantinas
da Cidade Universitária. Formaram um grupo compacto e começaram a gritar palavras
de ordem: Guerra do povo à guerra colonial! e Fogo contra o quartel general da
burguesia! Saído do meio dos estudantes, um grupo de quatro rapazes sacou dos sprays
de tinta e escreveu as palavras de ordem nas paredes das lojas. Vinda do meio da
multidão, uma chuva de pedras estilhaçou a montra de um banco. Os transeuntes
afastaram-se dos estudantes e, quando a polícia apareceu, cada um fugiu para seu lado,
lançando a confusão na multidão que ocupava os passeios e as entradas das lojas. O
António escapuliu-se como pôde, entrou numa das portas do Grandela, subiu o elevador
e escondeu-se num cubículo de provas. Olhou o espelho e ajeitou o cabelo com as mãos.
O suor escorria-lhe pela cara e as faces coradas denunciavam a fuga precipitada.
Limpou a testa com a camisa e penteou os cabelos com os dedos. Quando o António
deixou o Grandela, já não havia polícias nas ruas. O Rossio regressara à normalidade, as
lojas voltaram a abrir as portas e as pessoas caminhavam apressadas como se não
tivesse acontecido nada.
Ele tinha visto uma rapariga de cabelos lisos, muito compridos, e olhos azuis, a
entrar num restaurante, e pareceu reconhecer a Graça que ele conhecia da Faculdade de
Letras. O restaurante era um espaço escuro e sujo com presuntos pendurados no tecto e
criados de avental branco.
-Posso sentar-me?
-Oh! Podes! Também te deu a fome?
-Uma fome do caraças! Fugir da polícia dá imensa fome!
-Foi alguém preso?
-Não dei por isso! Bom, eu escapei-me para dentro do Grandela e só saí quando
a barafunda acabou.
-Tem piada! Eu também me refugiei no Grandela!

28
-Estava muita gente, não achaste?
-Mais do que é costume!
-Isto está a aquecer! Sinto que se prepara qualquer coisa!
-É isso! O regime está a apodrecer e a nossa luta vai apressar a sua queda!
Naquela tarde, faltaram às aulas e foram ao cinema.
A Graça era uma mulher de vinte e nove anos, oito anos mais velha do que o
António, e andava a tirar um segundo curso na Faculdade de Letras. No fim-de-semana
seguinte, o António apareceu, de surpresa, em casa da Graça e disse que gostava dela
desde a primeira vez que a vira. Ela disse-lhe que também gostava dele.
No fim-de-semana seguinte, o António voltou a visitá-la em casa. Ela recebeu-o
à porta e ele reparou nas pernas bem torneadas que se ofereciam sob uma saia muito
curta e nos seios grandes que espreitavam pelo decote generoso de uma blusa azul
apertada. Entrou atrás dela e sentou-se, ao seu lado, no sofá. Fizeram amor pela
primeira vez nessa tarde. O António nunca mais se esqueceu dos seios grandes e muito
direitos da Graça e também não foi indiferente às pernas grossas, sem serem gordas, que
ele percorria, avidamente, com as mãos. Quando estava com mulheres mais novas,
admirava-lhes a juventude da pele, o cheiro a novo, os cabelos naturais, sem tintas nem
permanentes, mas acabava por voltar ao aconchego da Graça, não só porque ela lhe
dava a segurança de que precisava mas também porque era perseguido por aqueles seios
volumosos e direitos e pelas pernas bem torneadas, umas pernas de mulher madura que
se espraiavam numas nádegas redondas e firmes, cobertas de uma penugem rala que ele
afagava com as mãos antes de entrar dentro dela. De todas as mulheres que tinha
amado, a Graça era, sem dúvida, a que mais lhe fazia lembrar a Gina. Seria a Gina a
responsável pelo fascínio que ele via na Graça? Seria por a ter amado que ele preferia
mulheres mais velhas?
Começaram a andar juntos desde esse dia. Casaram um ano depois. A Graça
passou a cuidar do negócio do pai – uma empresa de materiais de construção civil,
situada à saída de Tomar – e o António aparecia, de vez em quando, na empresa, mais
para buscar dinheiro do que para fazer alguma coisa de útil.
O sogro do António era um homem silencioso e enigmático que passava a vida a
trabalhar e que tinha como único prazer contar o dinheiro ao final do dia. Havia uma
antipatia mútua entre eles e o António não se lembrava de alguma vez ter tido uma
conversa com o sogro que tivesse demorado mais do que dez segundos. Às vezes
comentava com a Graça que o pai dela era o oposto dele. O António era do Benfica e o
sogro do Sporting. O maior prazer do António era passar as tardes no ginásio e o gozo
máximo do sogro era contar dinheiro ao final da tarde. O António era um homem
bonito, bem-falante e simpático. O sogro era um homem de semblante carregado, de
poucas falas e sem amigos. Enquanto pensou que o António lhe poderia dar um neto, o
pai da Graça ainda conseguiu disfarçar a sua antipatia pelo genro. Quando a Graça lhe
disse que o António não lhe podia dar um neto, deixou cair o verniz e nunca mais olhou
de frente para o genro. Para o pai da Graça, o António dera o golpe do baú e, ainda por
cima, não era capaz de perpetuar a herança genética da família.

29
SEIS

Era o ano de 1973. Marcelo Caetano adiava as reformas prometidas. Os ultras do


regime ameaçavam com um golpe de estado. O País fervilhava de boatos. Os estudantes
faziam greve quase todos os meses. Havia manifestações em Lisboa dia sim, dia não. O
Partido Comunista mostrava a sua força na Margem Sul do Tejo. O MRPP pintava o
país de vermelho com palavras de ordem contra a guerra colonial. Spínola anunciava o
seu descontentamento com a política ultramarina. Todos os dias chegavam a Lisboa
soldados dentro de caixões. Os funerais diários faziam-se em segredo. Havia cada vez
mais jovens que passavam, furtivamente, a fronteira a caminho de França.
O António fora recrutado por um tal Isidro, um estudante mais velho que se fazia
transportar sempre de táxi e andava com uma garrafinha de uísque no bolso de trás das
calças. E o António recrutou a Graça e o Patilhas. Os três formavam uma pequena
célula clandestina especializada em fazer pinturas nas paredes contra a guerra colonial.
Quando o Isidro tinha uma tarefa para o António, chamava-o ao bar da cave da
Faculdade de Letras, passava-lhe um papel para a mão, um papel com uma data e um
local, e dizia-lhe:
-Força, rapaz! Quero esse trabalho bem feito! E quero-te de volta!
O António reunia com a Graça e com o Patilhas e planeava, com rigor, a tarefa
revolucionária. Regra geral, o Isidro pedia-lhes para pintarem paredes nos arredores de
Lisboa.
O dia 25 de Abril surpreendeu-os a fazer pinturas revolucionárias nos apeadeiros
da linha do Rossio. Por pouco, não eram presos. Quando terminavam a última pintura,
foram surpreendidos por um polícia à paisana que lhes apontou uma pistola. A ordem
era não parar! Fugir! Sabia-se que só muito raramente, os polícias atiravam a matar. O
mais provável era o polícia disparar tiros de aviso para o ar. Correram com quanta força
tinham. O polícia estacou a cem metros deles, com a pistola apontada, mas foi incapaz
de disparar um único tiro.
Quando regressavam a casa, ligaram o rádio do carro e ficaram surpreendidos
com uma notícia estranha. O locutor dizia que uma coluna de militares se dirigia para
Lisboa. Poucos sabiam o que se preparava. Eram nove horas da manhã, quando o
telefone tocou. O António foi o primeiro a acordar. Abanou a Graça e disse:
-Vou ver o que é.
Ela continuou a dormir.
Do lado de lá da linha, reconheceu a voz do Isidro:
-Camarada, aquilo correu bem?
-Não podia ter corrido melhor. Pintámos as estações todas. Um pide apontou-nos
a pistola mas nós fugimos!
-Ainda bem, ainda bem…Bom, mas eu estou a telefonar-te por causa de outra
coisa. Está a haver um golpe militar. Parece que é comandado por uns capitães! Uns
revisas! A palavra de ordem é: todos para o Rossio!
-Porra! Um golpe dos revisas?
-Assim é! O nosso partido quer trazer a revolução para a rua, libertar os presos
de Caxias e dar caça aos pides.
-Está bem, estarei no Rossio dentro de uns minutos!
O António abriu a porta do quarto do Patilhas e gritou:
-Patilhas! Toca a levantar!
-Porra! A estas horas!
-Há um golpe de estado! O camarada Isidro quer toda a gente no Rossio!
-Um golpe? Estás marado?

30
-Sim! Um golpe dos revisas! Levanta esse cu da cama, porra!
Depois, o António enfiou-se no quarto da Graça e tirou-lhe os cobertores de
cima. Deu-lhe uma palmada no rabo e ela, voltando-se para o outro lado da cama,
resmungou:
-Que merda é essa?
-Levanta esse cu da cama!
-A estas horas?
-Sim! Está a haver um golpe militar!
-Não brinques comigo, está bem?
-Merda! Levanta a porra desse cu!
A Graça esfregou os olhos com a mão direita, levantou-se da cama e dirigiu-se
aos tropeções para o quarto de banho.
-Se for mentira, rebento-te a cara!
-Não é mentira! Daqui a vinte minutos, quero estar no Rossio! Não vou perder a
acção por nada deste mundo!
Quando o António, a Graça e o Patilhas chegaram ao Rossio, já havia lá um mar
de gente. Os soldados passeavam-se com cravos na ponta das espingardas e eram
recebidos com vivas e palavras de ordem amigáveis: Soldado amigo, o povo está
contigo! e O povo unido jamais será vencido!
O Isidro veio ter com eles e disse:
-Vamos para a Cidade Universitária!
O António, o Patilhas e a Graça entraram na estação do metropolitano e saíram
em Entre Campos. Percorreram a distância que os separava do Hospital de Santa Maria
em pouco mais de cinco minutos. Enfiaram-se na cave. Uma multidão de estudantes
gritava palavras de ordem e um pequeno grupo pontapeava um homem de meia-idade
que diziam ser um pide. O homem gritava e escorria sangue da boca e do nariz. Os
estudantes não paravam de lhe dar pontapés e de gritar: Morte aos pides! De súbito, um
estudante mais velho, que parecia ser dirigente da associação de estudantes, subiu para
cima de uma mesa de pingue-pongue e gritou:
-Camaradas! Já chega! Não podemos fazer justiça pelas próprias mãos!
Uma chuva de assobios abafou as últimas palavras do estudante. Alguns
camaradas começaram a berrar: Morte aos revisas! Fora o social-fascismo! Passados
minutos, formaram-se dois grupos de estudantes que se pontapeavam e esmurravam.
Aproveitando a confusão, o dirigente da associação de estudantes arrastou o pide para a
rua, chamou um táxi e levou-o para fora dali.
O Isidro tocou no ombro do António e fez-lhe sinal para se irem embora.
-Já não temos nada a fazer aqui! Os revisas salvaram o pide! Vamos para a
Alameda da Cidade Universitária!
Correram como loucos, passaram pela Cantina Velha e trouxeram mais uma
dezena de estudantes com eles. Quando chegaram à frente da porta da Faculdade de
Direito, o Isidro lançou a palavra de ordem:
-Morte aos gorilas! Fogo sobre os carros dos professores fascistas!
De repente, um carro de grande cilindrada, estacionado junto ao edifício da
Faculdade de Direito, ficou em chamas. E logo outros também. Uma chuva de pedras
estilhaçou a porta de vidro. Quando o último carro pegou fogo, os estudantes entraram
no edifício da Faculdade de Direito e, aos gritos de morte ao fascismo e morte aos
gorilas, começaram a partir vidros e a arrombar portas. Passados vinte minutos, a
faculdade de Direito estava ocupada.

31
De tarde, surgiu nova palavra de ordem: todos para a sede da Pide! Quando o
António, o Patilhas e a Graça chegaram à Rua António Maria Cardoso, havia pides
barricados e estudantes que ameaçavam invadir o edifício.
-Porra! Os pides estão a disparar! – disse o António para a Graça.
-Morte aos pides! – gritou o Patilhas.
O António olhou para o lado e viu o Patilhas ajoelhado, com a mão no peito, e
uma mancha de sangue a ensopar-lhe a camisola. Como se estivesse a ver um filme em
câmara lenta, o António viu o amigo a dobrar-se e a meter a cabeça entre as pernas.
Parecia um bicho-de-conta a proteger-se de uma agressão. O Patilhas deixou cair a
cabeça sobre a calçada e esticou as pernas. Da sua boca não saiu uma única palavra.
Nem sequer um queixume. As costas do Patilhas tinham uma mancha de sangue do
tamanho de uma moeda de cinco escudos. A Graça baixou-se e quis levantá-lo. O corpo
sem vida do Patilhas pesava como chumbo. Uma saraivada de balas silvou sobre a
cabeça da Graça.
-Vamos sair daqui, está bem? – berrou o António.
-E deixamos aqui o Patilhas?
-Está morto! Queres morrer também?
Uma nova saraivada de balas embateu na parede e o António puxou a Graça por
uma mão e levou-a para longe dali.
Com o assassinato do Patilhas, tinham morrido os sonhos que alimentavam a
generosidade do António e da Graça. O cadáver do Patilhas foi levado para Viseu, a
terra natal dele, e o funeral fez-se longe dos amigos da Faculdade. Mais tarde, o
António veio a saber porquê. O pai do Patilhas era um alto dignitário do Estado Novo e
atribuía as culpas pela morte prematura do filho às más companhias.
Os meses seguintes foram passados em eternas discussões políticas sobre a
natureza da revolução, o carácter social-fascista do novo regime, os professores que
deviam ser saneados e a mudança no regime de avaliação.
No último dia de aulas, o Isidro esperava-os à porta da Faculdade de Letras.
Levava consigo a garrafinha de uísque e o Livro Vermelho. Nessa altura, até a maneira
como se escrevia o nome do velho timoneiro chinês era matéria para divisão entre os
esquerdistas. O pessoal que girava em torno do MRPP, escrevia Mao Tse Tung. Os
estudantes que pertenciam ao PCP-ML preferiam Mao Tze Dong.
-Eh! Venham daí! – disse o Isidro, batendo com o Livro Vermelho na cabeça do
António.
-Porra! Isso aí é…
-É mesmo! Tenho aqui um exemplar do Livro Vermelho do camarada Mao. Este
é para ti!
-Para mim? Queres dizer que mo vais dar?
-Foi o que eu disse! Mas esta preciosidade não é para andar a passear dentro da
tua mochila! É para ler! Para discutir com os outros camaradas! O nosso partido está a
criar círculos de estudo do pensamento do camarada Mao! É para isso que este livro
serve!
-´Tá bem! Vamos então fazer um círculo de estudos.
O Isidro chamou um táxi e dirigiram-se para a casa dele, um apartamento
atafulhado de lixo, situado no Lumiar. Passaram o resto da tarde em reunião. O
problema que estava a ser estudado era aquilo que dividia a linha negra da linha
vermelha. Pelo que o Isidro dizia, o movimento marxista-leninista internacional estava a
ser ameaçado por uma linha negra que se opunha ao que ele chamava de conquistas da
Grande Revolução Proletária. E que conquistas eram essas? O fecho das Universidades,
o envio dos estudantes, dos intelectuais e dos professores para os campos, a criação de

32
campos de reeducação para a pequena burguesia e os quadros corruptos do Partido
Comunista e a destruição das bibliotecas com literatura burguesa. Havia notícias, que
poucos conseguiam confirmar, do extermínio dos intelectuais e dos pequenos
camponeses no Cambodja, às mãos dos Kmers Vermelhos. Os verdadeiros maoistas
diziam que uma Revolução não era um convite para jantar e que a política de extermínio
da pequena burguesia era o resultado da guerra de uma classe contra a outra classe. O
que estava a acontecera na China é que a linha negra tinha tomado o poder e estava a
pôr em causa a orientação maoista da guerra de classes. Por isso, se tornava tão
necessário ler e estudar o Livro Vermelho. O camarada Mao antecipara o que estava a
acontecer na China: o contra-ataque da burguesia e o renascimento do capitalismo sob a
batuta dos quadros revisionistas do Partido.
No dia seguinte havia uma RGA na Faculdade de Letras. A associação de
estudantes estava nas mãos da UEC, a organização juvenil do Partido Comunista. O
Isidro apareceu cedo acompanhado de um grupo de maoistas da Faculdade de Direito. A
ordem de trabalhos era sucinta mas ocupava os estudantes há várias semanas:
saneamento dos professores fascistas.
Quando um dirigente da associação de estudantes começou a ler os nomes dos
professores considerados fascistas, o Isidro gritou:
-Queremos saber quem é que os vai substituir!
-Tem calma! Primeiro decidimos quem vamos pôr fora – respondeu o dirigente
da associação de estudantes.
-Isso queres tu! Queres é encher a Faculdade de revisas!
-Uh! Uh! – berraram vários estudantes.
-Mortes aos revisas! – berrou o Isidro.
-Morte! Morte ao social-fascismo! – gritaram outros.
De repente, viram-se cadeiras pelo ar e vários estudantes esconderem-se debaixo
das mesas. O Isidro pontapeou um deles e logo ficou rodeado de outros que lhe
esmurraram a cara e a cabeça. Escorria sangue do nariz. O dirigente da associação de
estudantes subiu para cima da mesa e berrou:
-A RGA chegou ao fim! Todos lá para fora!
A pouco e pouco, os estudantes começaram a abandonar o átrio da Faculdade e
alguns continuaram a agredir-se nas escadas exteriores. O António e a Graça agarraram
o Isidro, ajudaram-no a sair do edifício, chamaram um táxi e meteram-no lá dentro.
Antes de o abandonarem, colocaram uma nota nas mãos do taxista e ordenaram:
-Leve-o para o Lumiar! Já!

No dia seguinte, o Isidro telefonou ao António. O camarada Estalino - era esse o


nome de guerra do controleiro dele – marcou uma reunião urgente para depois do jantar.
Pela urgência da reunião, era assunto sério. Naquele tempo, a luta entre a linha negra e a
linha vermelha do partido estava ao rubro. Aquelas reuniões eram, quase sempre,
sessões de autocrítica e inquirições sobre a vida privada das pessoas, na sequência de
denúncias de atitudes impróprias para um revolucionário. Só o Isidro conhecia o
camarada Estalino. Dizia-se à boca pequena que era um temível funcionário do partido
que tinha sido operário metalúrgico e que controlava o sector estudantil. O António
acordou a Graça e falou-lhe no assunto. Via-se pela expressão deles que temiam aquela
reunião. O que é que teriam feito para merecerem uma sessão de autocrítica? Seria por
causa de o Isidro beber demais? Ou seria por eles viverem juntos sem serem casados,
ofendendo, com essa prática, a moral proletária? O António tinha ouvido falar de
camaradas expulsos por muito menos. Outros foram mandados para as fábricas,
interrompendo bruscamente os estudos, por coisas semelhantes. Conversaram sobre o

33
assunto durante toda a tarde. A Graça não queria ir à reunião. O António acabou por
convencê-la, uma vez que a ausência dela era, na prática, a confissão dos crimes.
O Isidro chegou de táxi a casa deles. Vinha com cara de caso. Tocou à
campainha. A Graça veio à janela e gritou:
-Estamos a descer!
Assim que se enfiaram no táxi, o Isidro entregou-lhes dois bonés de pala
comprida e disse:
-Enterrem isto na cabeça e puxem a pala sobre os olhos! Não quero que vejam o
caminho.
-É uma casa clandestina? – perguntou o António.
-É! – disse o Isidro, secamente. - Guardaram silêncio durante a viagem e só
levantaram as cabeças quando o Isidro lhes disse que estavam a chegar.
O António saiu do táxi, olhou para trás e viu a Ponte 25 de Abril ao longe. Disse
para consigo: Que grande fantochada! Estamos em Almada!
Entraram numa casa de dois pisos com jardim à volta. O António reparou que a
casa parecia abandonada. No jardim, outrora coberto de flores, cresciam ervas com
quase meio metro de altura. Ao fundo, a porta da garagem, em madeira, tinha dois
buracos do tamanho de melancias e o telhado ameaçava ruir. Entraram num corredor
escuro e uma voz, vinda da cozinha, mandou-os sentarem-se à volta da mesa do
escritório. Nem o Isidro nem eles sabiam onde era o escritório da casa. Permaneceram
alguns segundos parados, no corredor, sem saberem o que fazer, até que a mesma voz
lhes disse:
-Camaradas! A porta do escritório é a primeira à direita!
Entraram os três no escritório, um espaço mal iluminado, com uma mesa velha e
cinco cadeiras. As paredes não viam tinta há muitos anos e havia manchas de humidade
nos cantos. No chão, resmas de papel e centenas de jornais Luta Popular, por abrir.
Quando o homem entrou e acendeu a luz, o António pôde ver cinco caras conhecidas
penduradas: Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao. Desviou os olhos dos quadros e
fixou-os na cara do camarada Estalino: tem cara de fuinha, pensou. Usava o cabelo
quase rapado e um bigode à Estaline por baixo de um nariz adunco e comprido. O
queixo era comprido e fino e o pescoço, magro, com veias grossas que inchavam
quando ele falava. Teria para aí dez anos a mais do que o Isidro, ou seja, qualquer coisa
como trinta e poucos anos.
-Camaradas! Há duas espécies de inimigos da Revolução: a burguesia e o
revisionismo! Quando a luta de classes se torna mais aguda, a linha negra, qual Cavalo
de Tróia, insinua-se, põe-se em bicos de pés e ameaça-nos por dentro. Estamos aqui
para combater a linha negra! E a linha negra combate-se denunciando as práticas
burguesas dentro do nosso partido, fazendo autocrítica e estudando o Livro Vermelho!
O Isidro assentia com a cabeça e o António e a Graça tiveram de morder o
interior das bochechas para não sorrirem. O homem que gesticulava à sua frente era
uma caricatura dos heróis soviéticos dos filmes de Eisenstein! Usava uma camisa aos
quadrados, à Mao, sem colarinho, com um emblema da bandeira da República Popular
da China, preso com um alfinete. O homem continuou o discurso por mais meia hora,
com abundantes referências a Estaline e a Mao, e depois começou a fazer perguntas.
-Camarada Isidro, estás disposto a enunciar as práticas e atitudes que levaram a
afastares-te da linha vermelha?
O Isidro baixou a cabeça em sinal de concordância e começou a falar:
-Estou disposto, sim! Eu, eu, quero dizer que, que…- gaguejou.
-Então, fala! –interrompeu o controleiro com brusquidão.

34
-Em vez de andar de autocarro como os proletários e os estudantes pobres, ando
de táxi.
-Só isso?
-E não consigo passar sem esta garrafa de uísque!
-Passa-me essa garrafa para aqui! – berrou o controleiro.
O Isidro entregou-lhe a garrafa e continuou:
-Afastei-me da moral proletária.
-Como ? O que fizeste?
-Vivo com a minha namorada há vários anos e não casei nem quis ter filhos.
-Sabes o que é que isso significa?
-Sei. O camarada Mao diz que os revolucionários devem ter filhos para
aumentarem o exército do proletariado.
-Estão a ouvir? E vocês?- perguntou o controleiro, dirigindo-se ao António e à
Graça.
-Quer dizer, nós também nos afastámos da moral proletária – disse o António. A
Graça mantinha a cabeça baixa e sorria.
-E o que fizeste mais, camarada Isidro? – perguntou o controleiro.
-Obriguei a minha companheira a fazer um aborto.
-Um aborto? Sabes o que isso significa? Tens a consciência de que tiraste a vida
a um futuro revolucionário? Com esse gesto, impediste o crescimento do exército do
proletariado!
-Eu sei e lamento.
-Lamentas, porra! É só isso que tens para dizer?
O Isidro continuou a enunciar a lista de crimes contra o partido e a moral
proletária até que, por fim, o controleiro disse:
-Chega! Já tenho elementos suficientes para ditar a sentença.
-A sentença?
-Sim, a sentença – disse o controleiro, sem desviar o olhar do Isidro.
-Está bem, fala camarada.
-Tens consciência de que o partido confiou em ti e que tu defraudaste essa
confiança?
-Tenho.
-Tens?
-Sim, tenho.
-O partido confiou em ti e fez-te funcionário. Paga-te um salário para poderes
concluir os estudos e para cumprires os teus deveres políticos, os deveres de um
verdadeiro marxista-leninista-maoista. E tu, o que fizeste?
-Desviei-me da linha vermelha.
-Pois, sim. E vais ter o que mereces! A partir de hoje, deixas de receber o
salário, abandonas os estudos e vais para uma fábrica no Norte do país, onde poderás
reaprender a moral proletária em contacto a classe operária.
-Mas…
-Nem mas, nem porquê! Vais e pronto! –ordenou o controleiro. E, virando-se
para o António e a Graça, disse: - Isto é uma lição para os dois! Foi por isso que quis
que estivessem presentes! Agora, vão à vossa vida! Passarão a receber ordens de outro
controleiro. Estejam amanhã, no bar da Faculdade de Letras, às dez horas da manhã.
Levem o Luta Popular debaixo do braço! O camarada que os irá contactar, levará o
Diário de Notícias.
E dito aquilo, o homem levantou o punho erguido e berrou:
-Que viva Estaline! Longa Vida ao Presidente Mao!

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O Isidro berrou como ele e o António e a Graça sussurraram as palavras de
ordem sem convicção.
Voltaram para casa, de táxi, com os bonés enfiados na cabeça e as cabeças
baixas para não verem o caminho. Quando estavam prestes a chegar a casa do António e
da Graça, o Isidro quebrou o silêncio e disse:
-O que me custa mais é abandonar os estudos. Faltava-me só um ano para
acabar.
O táxi parou em frente do apartamento, eles saíram para fora do veículo e o
Isidro abraçou-os e disse:
-Até sempre!
O António segredou-lhe:
-Isso quer dizer que não nos voltaremos a ver?
-É – respondeu o Isidro, mantendo a cabeça baixa e enfiando-se dentro do táxi
sem voltar a olhar para eles.
Entraram em casa e passaram o resto da noite a relembrar a sessão de autocrítica,
tentando interpretar o seu significado e avaliando as consequências que aquela noite iria
ter nas vidas deles. Deitaram-se quando os primeiros raios da manhã entraram no
quarto. A Graça pôs o despertador para as nove horas e disse ao António:
-Tenta dormir. Não te preocupes. Às dez horas, estaremos na Faculdade de
Letras.
Eram oito horas, quando o som do telefone os acordou. O António foi o primeiro
a levantar-se, dirigindo-se para o telefone aos tropeções.
-Está?
-És o António?
-Sim, sou. Quem és tu?
-É, pá, não interessa quem eu sou. Vi este número na carteira de um tal Isidro
Mateus! És amigo dele, não és?
-Sou amigo, sou. Mas. Afinal quem és tu? O que é que queres?
-Quem eu sou não interessa para nada. Só te quero avisar que o teu amigo
morreu.
-Morreu? Estás a brincar?
-Não estou nada a brincar! O teu amigo matou-se!
-Mas matou-se como? – perguntou o António. Antes de obter resposta, gritou
para a Graça: - Acorda! Aconteceu uma grande merda ao Isidro!
A Graça levantou-se e encostou o ouvido à cabeça do António.
-Porra! Matou-se! Lançou-se do Aqueduto das Águas Livres.
-E isso foi quando?
-Ontem à noite. Eram para aí onze horas da noite.
-Onde é que ele está?
-Na morgue do Hospital de Santa Maria. Eu estou a telefonar-te da morgue –
respondeu a voz. – Um som contínuo substituiu a voz desconhecida e o António
percebeu que o informador desligara o telefone.
Quando olhou para a cara da Graça, viu duas lágrimas grossas. Abraçou-a e com
a voz embargada pelos soluços, disse:
-Filhos da puta! Mataram o Isidro.

Durante as férias do Verão, o António e a Graça rumaram à Marinha Grande,


arranjaram emprego numa fábrica e passaram as noites a ocupar casas devolutas.
Embora já não acreditassem na Revolução nem nas virtudes do Livro Vermelho,
continuaram, durante esse Verão, a fazer agitação política, mais por inércia do que por

36
outra razão. Depois da morte do Isidro, precisavam de se afastar de Lisboa por uns
tempos. Quando as árvores começaram a perder as folhas, o António e a Graça
abandonaram a Marinha Grande e voltaram a Tomar. Estava-se na ressaca da
Revolução. Era preciso mudar de vida. Afastaram-se dos camaradas dos comités de luta
anti-colonial e mergulharam na vida real. A Graça começou a trabalhar com o pai e o
António voltou aos estudos. Por pouco tempo. A confusão que se vivia na Faculdade de
Letras não era favorável ao estudo sério. O sogro avisou-o de que era altura de começar
a ganhar dinheiro. Então, o António voltou a Tomar e começou a trabalhar na firma do
sogro. Passar o dia a atender clientes não era uma tarefa que lhe agradasse. Aos poucos,
começou a reduzir o horário de trabalho: ia para a firma de manhã e, de tarde, enfiava-se
no ginásio. Levantar pesos todas as tardes, tornou-se a sua terapia. Aos poucos, alheou-
se da política e, quando olhava para trás, via aqueles anos como um interlúdio breve,
sem qualquer significado na sua vida. A Graça preferia referir-se àquele tempo como os
anos da lavagem ao cérebro.

37
PARTE II

38
UM

Ela foi a primeira chegar à praia fluvial. Quando fechou a porta do Suzuki e
olhou em redor, não viu ninguém conhecido. Estava à espera de encontrar os rapazes do
ginásio, mas apenas viu pessoas desconhecidas, passando para cá e para lá, que, tal
como ela, esperavam a chegada dos amigos. O Zêzere corria manso e o Tejo recebia,
suavemente, as águas do pequeno rio, como se tivesse estado sempre ali, à espera de o
abraçar. Do outro lado do rio, a fábrica de pasta de papel, vestida de amarelo, ronronava
e lançava espessas baforadas de fumo para o ar.
A Andreia caminhou em direcção ao rio, por entre calhaus rolados e areia
grossa, e entrou na água fria. Olhou para o céu – que estava limpo – e viu três
andorinhas, em voo picado, em direcção às águas do rio, para logo subirem, de novo,
até ela as perder de vista. À frente dela, dois miúdos, que não deviam ter mais de dez
anos de idade, ensaiavam as primeiras braçadas e gritavam: Está fria! A água do rio não
lhe chegava à cintura e ela teve de agachar-se para se molhar até aos ombros. Um dos
miúdos começou a gargalhar e disse para ela se lançar à água. A rapariga respondeu-lhe
que estava fria e, de seguida, voltou-lhe as costas, encaminhando-se para a margem.
Tiritava de frio quando o Jorge a abraçou. Ele trazia uns calções de ganga e estava em
tronco nu. O Jorge era um rapaz que não devia ter mais de vinte anos – a idade da
Andreia – e que o António se habituara a ver no ginásio sempre que ela preparava as
aulas de aeróbica. A Andreia pousou a cabeça no peito do rapaz e ficou, encostada,
protegida pelos braços dele. Levantou a cabeça, riu-se e disse-lhe:
-Estás tão quente!
Ele abraçou-a com mais força, roçou os lábios pela testa dela e acrescentou:
-Vá, deixa-te estar encostada a mim, até aqueceres.
Caminharam abraçados em direcção ao jardim que bordejava a praia fluvial e
sentaram-se, ao sol, sobre um banco de pedra à espera que chegassem os outros. Eram
nove horas e vinte minutos, o sol era agora um disco cor-de-laranja que subia devagar
no céu azul, sem nuvens, e o calor começava a aconchegar os seus corpos seminus. Aos
poucos, a praia fluvial foi-se enchendo de carros, jipes e pessoas que se juntavam em
pequenos grupos e ficavam, por ali, em silêncio ou a dizerem palavras de circunstância
sobre aquilo que esperavam que acontecesse na descida do Zêzere. De repente, um
rapaz forte, que usava calções e uma T-shirt com o logotipo do clube de canoagem,
começou a bater as palmas e a gritar para que o grupo se juntasse perto de duas
carrinhas Wolkswagen. Depois de fazer a contagem das pessoas e de se certificar de que
não faltava ninguém, pediu para se sentarem nas viaturas. Ela e o Jorge ocuparam uma
parte do banco de trás e, em minutos, estavam a caminho da barragem do Castelo de
Bode, serpenteando e balançando por uma estrada estreita e íngreme que acompanhava
o rio Zêzere. A Andreia estava habituada a beber, de manhã, um simples sumo natural,
acompanhado de um prato de flocos de aveia, e os balanços da carrinha provocaram-lhe
um efeito desagradável: começou a sentir a cabeça vazia, logo seguida de um
insuportável enjoo que a obrigou a deitar-se no colo do Jorge. Quando o Jorge começou
a afagar-lhe a cara, passando-lhe, lentamente, com os dedos pelos lábios, ela sentiu, de
imediato, um certo alívio que lhe permitiu chegar à barragem sem ter de sair da viatura.
Passados vinte minutos, desciam uma ravina e começaram a ver um montão de canoas
de várias cores que jaziam numa pequena plataforma junto ao rio. Depois de reunir o
grupo, o rapaz explicou como é que deviam movimentar os remos e ordenou que
puxassem as canoas em direcção ao rio. Cada canoa levava dois remadores e ela, claro,

39
partilhou uma com o Jorge. O António escolheu uma canoa de cor azul e meteu-se
dentro dela na companhia da Graça.
À esquerda, a grande muralha de cimento lançava uma sombra gigantesca sobre
eles e as águas do rio corriam suavemente sem que houvesse, em redor, qualquer
obstáculo que as impedisse de fluir livremente. À direita e à frente, as margens
escarpadas estavam tapadas por uma floresta de mimosas que, com as suas flores
amarelas, davam um ar festivo ao ambiente. Ela olhou para cima e viu um milhafre, a
planar, com as costas voltadas para o azul do céu.
A Andreia vestia uns calções muito curtos que, molhados, se agarravam ao
corpo como se fossem uma segunda pele, e usava uma T-shirt muito apertada que lhe
ampliava o volume dos seios pequenos e duros. Quando se meteu dentro de água, para
melhor empurrar a canoa, a T-shirt colou-se à pele e os seios redondos ganharam
contornos mais nítidos. Foi, nessa altura, que o António reparou melhor na forma como
os seios da Andreia empurravam a T-shirt, parecendo querer lançar, para fora dela, duas
flores com pétalas suaves e uma pequena auréola no centro. O cabelo curto e liso,
suavemente desalinhado, caía-lhe sobre a testa, dando-lhe um ar de rapariga rebelde e
irrequieta que lhe assentava que nem uma luva. O cabelo muito louro, os olhos claros,
de um verde da cor do mar, levemente rasgados, e a boca muito bem desenhada, que
escondia uns dentes muito brancos e certos, faziam-na assemelhar-se àquelas raparigas
nórdicas que o António se habituara a admirar nas suas viagens de inter-rail, quando era
jovem. Mas, do que o António mais gostava – para além da barriga lisa e da cintura fina
– era o tom da pele dela, levemente rosada e com um bronzeado muito leve que
destacava a suavidade da penugem amarela, quase invisível, que lhe cobria as pernas e
os braços. O António reparou, também, que ela possuía umas mãos finas, com uns
dedos compridos e umas unhas muito brancas e bem cortadas. Ela calçava umas
sandálias de plástico e o António apreciou, com evidente prazer, a beleza dos pés dela,
sem calosidades e com uns dedos pequenos, de um tamanho certo para o metro e
sessenta da rapariga. Quando ela sorria – o que acontecia a toda a hora – fazia umas
covinhas nas maçãs do rosto, os olhos oblíquos tornavam-se mais pequenos e brilhantes
e toda a beleza da cara – que era muita – parecia irradiar felicidade e boa disposição.
Quando a viu assim, muito bela e sorridente, o António fantasiou que passava as
suas mãos compridas pelos cabelos dela, pousava a sua cabeça na dela e deixava-se
estar, sem limites de tempo, a desfrutar do vigor, da alegria e do cheiro natural de uma
mulher jovem, terna e cheia de vida. Ela tinha uma pele rosada, sem o mais pequeno
sinal de rugas ou de borbulhas, e o António não conseguia deixar de imaginar como
seria bom poder acariciar, com as suas mãos, a pele de uma rapariga de vinte anos. O
cabelo, louro e desalinhado, pendia-lhe sobre a testa e tapava-lhe, em farripas, as
orelhas. Há algum tempo que o António não cheirava o cabelo de uma rapariga e
ansiava pelo momento de poder tocar, ainda que acidentalmente, os cabelos da Andreia
e talvez até, com um pouco de sorte, tocar-lhe nas mãos e sentir a suavidade da sua pele.
Quando a via no ginásio, com as calças justas coladas às pernas e uma T-shirt
molhada de suor a cobrir-lhe o peito, o António pensava como seria bom poder tocar-
lhe, sentir o cheiro do corpo dela, um cheiro de mulher jovem, sem os artifícios dos
perfumes intensos com que as mulheres maduras procuravam enganar a idade. O
António não queria incomodá-la com o olhar e, por isso, não fixava nela os olhos
durante muito tempo, preferindo fazê-lo de soslaio, mas quando ela reparava nele e lhe
retribuía a atenção com um sorriso, o seu rosto iluminava-se. Quando isso acontecia, o
António procurava interpretar o significado daquele sorriso mas ficava sem saber o que
é que a Andreia lhe queria dizer. Seria aquele um sorriso vulgar, o seu sorriso de todos
os dias e de todas as horas? O sorriso bonito que ela oferecia a toda a gente? Ou aquele

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sorriso era diferente dos outros sorrisos? Estaria ela a dizer-lhe que também gostava de
o ver e que, embora ele fosse casado e mais velho, talvez fosse altura de se aproximar?
Mas, aproximar como? O António tinha receio de parecer ridículo e não estava nas suas
intenções implorar afecto a uma rapariga com metade da sua idade. Estava habituado a
receber um sinal claro e inequívoco e aquele sorriso, embora malicioso e insistente, não
era suficientemente claro. Era verdade que a rapariga gostava da sua presença e era
também evidente que ela sabia que ele a apreciava. Mas, quereria isso dizer que ela
gostava dele? Ou queria apenas dizer que ela o achava um homem interessante mas
inacessível?

A primeira paragem foi num banco de areia, um pouco antes da foz do Nabão.
As canoas ficaram paradas sobre a areia e a maioria das pessoas aproveitou para nadar
um pouco. Quinhentos metros à frente, o Nabão deitava as suas águas no Zêzere e, a
partir daí, a água ganhava uma cor suja. A Andreia era uma nadadora exímia e afastou-
se um pouco do grupo, na companhia do Jorge. Quando alcançaram a outra margem,
deitaram-se sobre a areia e ela rebolou por cima dele. A última etapa foi percorrida a
custo porque o rio ficou mais estreito e mais tormentoso, tornando-se mais difícil
manter a canoa em posição de poder atravessar os rápidos. Chegado à praia fluvial de
Constância, o grupo dispersou. O António meteu-se no carro, acompanhado da mulher,
e a Andreia entrou para o Suzuki na companhia do Jorge. Quando ela passou pelo
António, acenou-lhe com a mão. A Graça estranhou e perguntou:
-De onde é que conheces aquela rapariga?
O António respondeu:
-Do ginásio.
Tinham combinado almoçar todos no restaurante da Ponte da Pedra, uma velha
casa senhorial com um amplo relvado onde se comia bem. Quando chegaram, tinham à
espera deles uma mesa comprida, sob um telheiro, e o António sentou-se ao lado da
Graça, na ponta da mesa. À medida que as pessoas se iam sentando à mesa, o ruído das
vozes e das gargalhadas aumentava de intensidade. Estavam a começar a servir, quando
a Andreia e o Jorge chegaram. Sentaram-se na outra ponta da mesa e o António passou
o tempo todo a olhar para a rapariga que correspondia, por vezes, com um sorriso
bonito.
Eram quatro da tarde quando o António e a Graça regressaram a casa. Durante o
resto do dia, o António não conseguiu deixar de pensar na Andreia e andou, em silêncio,
pela casa e pelo quintal, respondendo às perguntas da mulher com uns lacónicos sim e
está bem. Quando a noite chegou, o António subiu ao quarto, com o pretexto de que lhe
apetecia ler um livro, e deixou a Graça, no rés-do-chão, a ver um reality-show, na
televisão. No quarto, deitado sobre a cama, tentou ler um livro mas não conseguiu.
Procurou pegar no sono, mas permaneceu de olhos abertos, fixados no tecto do quarto.
Por fim, levantou-se e dirigiu-se, nu, para o quarto de banho. Abriu o chuveiro e deixou
a água quente escorrer-lhe pelo corpo, enquanto pensava na pele sedosa da Andreia.
Fechou os olhos, mantendo a água a correr sobre o corpo, reviu as imagens da Andreia
como se estivesse a passar um filme, ensaboou o corpo com suavidade, primeiro o peito,
depois as pernas, subindo, lentamente, até à barriga e voltando a descer, deitou a cabeça
para trás, mantendo sempre os olhos fechados e o coração aos pulos, deixou-se
escorregar pela parede fria, flectindo os joelhos, curvando-se sobre eles, apoiado nos
calcanhares, até sentir o coração, de novo, a bater suavemente e a respiração a regressar
à normalidade. Foi, então, que a imagem da Andreia se desvaneceu um pouco e ele
conseguiu adormecer.

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O António levantou-se cedo, tomou banho, vestiu o fato de treino e dirigiu-se ao
ginásio. A Andreia estava a fazer body combat, com a música em altos berros. Entrou
na sala de aeróbica e gritou:
-Também posso fazer?
A Andreia parou de saltar, diminuiu o som do CD e respondeu:
-Claro, anda daí!
Estavam os dois sozinhos na sala, em frente de um grande espelho, e, por vezes,
riam-se sem motivo aparente. O António foi direito ao assunto:
-Sabes, ontem, durante a descida do Zêzere, passei o tempo a olhar para ti.
Estavas deslumbrante!
-Eu reparei que não paravas de olhar para mim. Até o Jorge reparou. O Jorge,
aquele rapaz que ia comigo!
-É o teu namorado?
-Bom, saímos juntos, somos amigos, mas não temos compromisso.
-Tem muita sorte, esse rapaz.
-Porquê?
-Ora, sabes bem qual é a razão. Tu és uma rapariga muito bonita. Deixas
qualquer homem de beiço caído.
-Achas?
-Queres que eu te diga o que me agrada em ti?
-Ora, diz lá!
-Gosto dos teus cabelos louros, desalinhados e rebeldes. E também do teu
sorriso, da tua boca bem desenhada, das tuas maminhas pequenas e, claro, das tuas
pernas rijas.
-Só?
-Ah, e gosto imenso do teu rabo. Tu tens o melhor rabo do ginásio. Não admira,
passas o dia a levantar e a baixar as pernas!
-Tu também não és de deitar fora.
-O quê, só mereço esse comentário?
-Bom, não quero envaidecer-te, mas és um homem que as raparigas acham
muito sensual. Estás muito bem para a idade que tens.
-Bom, já é um começo.
-Um começo de quê?
-Daquilo que tu quiseres.
-O que é que queres dizer com isso?
-Quero dizer é um começo. Um começo de uma amizade.
-Amizade, sim, outra coisa, não.
-Os amigos almoçam juntos.
-Um almoço…Quando?
-Pode ser hoje?
-Pode. Onde é que pensas levar-me?
-Que tal a um restaurante de Constância? Depois, podíamos ir até ao Castelo
de Bode. Posso ir buscar o fato de banho a casa.
-Parece-me bem. Eu saio do ginásio às 13 horas, passo por minha casa para
buscar o biquini e depois vamos. Podemos ir no teu carro?
-Parece-me bem.

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DOIS

Quando o António chegou a casa, tinha o carteiro à porta. Habitualmente, o


carteiro introduzia a correspondência na caixa do correio mas, naquele dia, entregou-lhe
a carta em mão. O António olhou para a carta e leu o remetente: Gina Bastos. Seria
aquela Gina a mesma que ele conhecera no colégio? Naquele tempo, ela chamava-se
Gina Monteiro. O Bastos podia ser do marido. Nem sequer sabia se ela continuava
solteira ou se tinha casado. Podia até estar divorciada ou viúva. Há mais de sete anos
que não sabia nada dela. Durante uns anos, trocaram correspondência mas, com o passar
do tempo, as cartas começaram a rarear e foram substituídas por simples postais
ilustrados, uma ou duas vezes por ano. O último postal que recebera dela não fazia
referência a qualquer casamento pelo que ela devia ter permanecido solteira até essa
altura.

O colégio fechou as portas logo depois do 25 de Abril para voltar a abrir, uns
anos mais tarde, como escola pública. Por essa altura, deu-se a morte do irmão da Gina,
o prefeito vesgo, e ela acabou por vender a residência dos estudantes. Com o dinheiro
da venda, mudou-se para os Açores, onde comprou um restaurante. Os últimos postais
dela foram enviados da Praia da Vitória e, pelo pouco que ela dizia, concluía-se que
estava bem. Passava as manhãs e as noites a trabalhar no restaurante e, durante a tarde,
estendia o corpo na Prainha e por lá ficava, de frente para o sol, com o corpo besuntado
de protector solar, uns óculos escuros e um chapéu de pano na cabeça. Na última
fotografia que ela lhe mandou, apresentava-se muito bronzeada, com o corpo mais
esguio do que antes, os cabelos pretos bastante mais curtos, as pernas igualmente longas
e os peitos enormes a transbordarem de um fato de banho demasiado pequeno para o
seu tamanho. Na parte de trás da fotografia, ela escreveu: faz de conta que eu vou com
esta fotografia; nem sabes o que andas a perder!; da tua Gina que há-de ser sempre
tua.
O António guardava as fotografias num pequeno cofre de aço e tinha a chave
dentro de um livro, colada com fita-cola. A Gina era um segredo que guardava de toda a
gente. Nem a Graça sabia da existência dela. Por vezes, quando ele não conseguia
dormir de noite, descia ao rés-do-chão, abria o livro, tirava a chave de dentro dele e
franqueava o cofre. Ficava, então, horas a rever as fotografias.
A colecção de fotografias mostrava a Gina em diferentes cenários, ao longo de
vários anos. Seria de esperar que ela fosse ficando cada vez mais velha, mas o que
realmente aconteceu foi o contrário. Quando ela trocou o colégio pela Ilha Terceira, o
seu relógio biológico parou. Ficou mais bronzeada, emagreceu, o cabelo continuou tão
preto com dantes, as pequenas rugas ao canto dos olhos mantiveram-se estanques, a
barriga continuou levemente redonda e os dentes imensamente brancos. Na última
fotografia, tirada no dia em que fizera quarenta e cinco anos, mostrava-se um pouco
mais ousada do que nas anteriores. Estava, em biquini, nas traseiras da casa, sob um
grande jacarandá florido, com os peitos esticados para fora e o rabo ligeiramente
inclinado, com uma perna à frente da outra. Era ainda uma bela mulher. Uma mulher
sem idade. Os olhos negros emitiam o mesmo brilho intenso, a boca grossa, entreaberta,
mostrava uns dentes certinhos, os seios pareciam querer saltar do biquini, a barriga
permanecia quase lisa e as pernas eram agora mais esguias e escuras do que antes. O
António ficou uma boa meia hora a olhar para as fotografias e, quando subiu ao quarto,
olhou para o tecto até amanhecer. Quando o sol começou a entrar pelas frestas das
portadas, o António adormeceu e foi acordado, pela mulher, umas horas depois.

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O António abriu a carta e começou a ler em silêncio:

Meu querido António. Aconteceram tantas coisas depois da última vez que te
escrevi que precisava de escrever um livro para contar a história toda. Casei com um
homem mais velho do que eu porque me cansei de esperar por ti. Peço-te perdão por
ter faltado à promessa. Embora seja uma mulher casada, não houve um único dia em
que não tivesse pensado no meu miúdo. Sempre que fiz amor com o velho, imaginei que
estava contigo. Como ele também se chama António, não foi difícil gritar pelo Tó nos
momentos em que eu me estava a vir. Digo “estava a vir-me” porque ele ficou
impotente há coisa de quatro anos. Foi operado à próstata, deixou de escorrer sangue,
mas nunca mais o conseguiu endireitar. A propósito, o meu marido acabou de fazer 79
anos, é diabético, faz hemodiálise e, provavelmente, não vai durar muito mais. Quando
ele morrer, ficarei, de novo, sozinha já que não pude ter filhos. É verdade, sou uma
mulher incapaz de ter filhos. Quando nos voltarmos a encontrar, já não precisarei de
tomar cuidados. E pensar eu que andei alguns anos a tomar a pílula! Descobri que não
podia ter filhos quando ele me persuadiu a fazer análises. Dizia que o problema era
meu porque tivera um filho quando era jovem. O filho dele morreu num desastre de
avião, no dia em que acabava de fazer quarenta anos, e ele, quando casou comigo,
ansiava por um novo descendente. Fiz as análises, repeti as análises e o resultado caiu
que nem uma bomba. A princípio, fiquei incomodada mas, com o passar do tempo,
acabei por achar que era uma coisa boa. Como podes ver pela fotografia, estou
bastante mais magra do que quando nos conhecemos no colégio. Eu acho que até estou
melhor do que nas últimas fotografias que eu te mandei da Prainha, já lá vão uns bons
anitos! Há quatro anos que não sei o que é ter um homem dentro de mim. Não tem sido
difícil passar sem isso porque me habituei à escassez de homem. Esperei até aos trinta
anos para saber o que isso era, tirei a barriga de misérias nos dois anos que passaste
no colégio e depois voltei a estar mais dez anos na penúria. Como vês, estou habituada.
Claro, aprendi a compensar a falta de homem trabalhando com os meus dedos. Há
quatro anos que me satisfaço com eles. Com a doença, o meu marido começou a ficar
cada vez mais repugnante e a única coisa boa que existe nele é a falta de apetite sexual.
Nem sei o que faria se ele quisesse fazer amor comigo! Sei apenas que perdi todo o
desejo por ele. A bem dizer, nunca o desejei e tu poderás perguntar por que me casei
com ele se não gostava dele? Vou ser sincera contigo: cansei-me de esperar por ti e ele
pareceu-me gentil, educado e carinhoso. Na altura, ainda tinha uma bela figura e eu,
embora não o amasse, simpatizava com ele. Além disso – sou sincera -, ele tinha
dinheiro e não havia ninguém a quem o pudesse deixar. Sim, é verdade, quando ele
morrer eu vou herdar uma boa maquia. Pode ser tudo teu, se ainda me quiseres. Estou
com cinquenta e dois anos e não posso esperar muito mais. Em breve, deixarei de ter
este corpo bonito e os homens deixarão de olhar para mim. Até tu, daqui a alguns anos,
me vais achar feia e desinteressante! A propósito, ainda não cheiro a velha! Há vários
anos que não paro de me cheirar com receio de aparecer um dia com esse maldito
cheiro a velha. Lembras-te de termos falado disso nos últimos dias que passaste no
colégio? Quando chego perto do meu marido, fico cheia de medo de, também eu, vir
um dia a exalar aquele odor. Achas que me consegues suportar quando isso acontecer?
Ou será que eu, por uma qualquer razão, vou cheirar sempre a rapariga? No outro dia,
ao visitar o ginecologista, ele disse-me: "a senhora tem a vagina de uma rapariga de
vinte anos: é uma mulher sem idade”. Na semana passada, foi o meu cabeleireiro que
me disse: “os seus cabelos têm o cheiro, o brilho e a vitalidade dos cabelos das
raparigas de dezoito anos”. Sabes o que é que eu pensei ao ouvir aquilo? Será que o

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Tó também vai pensar assim quando nos voltarmos a encontrar? Quero ficar contigo
os últimos anos da minha vida. Por agora, basta-me receber notícias tuas e ver-te uma
vez por outra. Em breve, irei a Lisboa e, claro, quero ver-te.Tenho passado uns anos
tranquilos aqui na Terceira. Aprendi a gostar da calma dos lugares e os restaurantes
vão de feição. Falo no plural porque acabei de abrir um segundo restaurante, em
Angra. Tenho muita saúde, continuo a ser uma mulher desejada pelos homens e não há
ninguém que consiga adivinhar a minha idade. Continuo a esperar por ti. Quero saber
se ainda estás casado e se desejas ver-me. Mando-te o número do meu telemóvel na
esperança de que me possas ligar. Um beijo na tua boca fofinha da tua Gina.

O António ficou inquieto, andou pela casa de um lado para o outro sem saber o
que fazer, somou os anos que levava sem ver a Gina e contou vinte e oito. Leu a carta
uma segunda vez, pegou no telemóvel e foi dar um passeio até ao jardim público.
Quando se estava a aproximar do jardim, olhou para o relógio, viu que eram três da
tarde nos Açores, pensou que a Gina devia estar a caminho da praia e ligou.
-Está, quem fala? – perguntou ela.
-Sou o Tó!
-És mesmo tu, nem quero acreditar? Já recebeste a minha carta?
-Sou mesmo eu. Há quanto tempo não ouvia a tua voz. Recebi a tua carta hoje de
manhã, e a primeira coisa que fiz foi ligar-te.
-Por que razão deixaste de me escrever? – perguntou a Gina com uma voz
trémula.
-Não queria atrapalhar a tua vida. Era evidente que tu não devias esperar por
mim a vida toda. Eu estava casado, tu tinhas ido para os Açores, era de imaginar que
acabasses por casar por lá.
-Esperei muitos anos por ti até decidir casar. Não julgues que casei por amor.
Nesse aspecto, mantive a promessa: nunca mais amei outro homem. Já tu, não podes
dizer o mesmo, não é?
-Sabes bem que nunca deixei de te amar.
-O que tens feito? Continuas casado? Tens filhos?
-Continuo casado mas não tenho filhos.
-Diz-me, és capaz de a deixar?
-É cedo para falar disso. Sabes, são muitos anos a viver com ela. Damo-nos bem,
tenho um grande carinho por ela mas eu não sei se a amo nem sei se ela será capaz de
passar sem mim!
-E eu? Achas que posso passar sem ti?
-Gina, eu só quero dizer-te que nunca deixei de pensar em ti, mesmo naqueles
anos em que não te escrevi. Queria dar-te espaço para fazeres a tua vida e isso explica o
meu silêncio. Quero ver-te. Quando vens a Lisboa?
-Ainda não sei, mas tu vais ser a primeira pessoa a saber. Em breve, vais ter-me
nos teus braços.
-Em que altura do dia posso ligar-te?
-Entre as duas e as cinco da tarde, hora dos Açores!
-Ligo-te amanhã, está bem?
-Sim amor, liga-me amanhã.
-Beijos, muitos, na tua boca que eu adoro.

O António meteu o telemóvel no bolso e continuou a caminhar pelo jardim,


reflectindo sobre aquilo que devia fazer. Estava confuso e a única coisa que sabia é que
não estava em condições de tomar uma decisão sobre a sua vida. Sentia-se bem com a

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Graça, mas tinha imensas saudades da Gina. Agora que a Gina lhe escrevera, parecia ter
a certeza de continuar a amá-la.
Caminhou pelo jardim e fez um balanço da sua vida. Estava satisfeito com o que
tinha? Não conseguia encontrar uma resposta definitiva para essa pergunta. Havia dias
em que a resposta era negativa mas, noutros, sentia-se feliz. Agradava-lhe o tempo livre
para poder frequentar, diariamente, o ginásio. Fazia uma vida de adolescente, o dinheiro
não faltava, que mais poderia desejar?
Por agora, não ia fazer nada para alterar a sua vida. Continuaria a viver com a
Graça, a sair com a Andreia e recomeçaria a telefonar à Gina. Em breve, a Gina viria a
Lisboa, fariam amor num hotel anónimo da capital e, depois, logo se veria. De uma
coisa estava certo: não ia fazer nada e iria manter uma ligação com as três mulheres. A
Graça dava-lhe segurança e ternura. Tomava conta dele e assegurava-se de que nada lhe
faltava. A Andreia dava-lhe sexo, um sexo jovem que ele desejava como um mendigo
ansiava por um pedaço de pão. A Gina era o regresso ao passado, à nostalgia da
juventude perdida, ao sexo puro e duro de uma mulher madura que lhe gravara, no
inconsciente, as experiências que fizeram dele um homem aos dezasseis anos. Mas,
quem é que ele amava? O António não tinha a certeza. A única coisa que sabia é que, de
momento, precisava daquelas mulheres. Talvez amasse as três. Por vezes, lamentava o
facto de ser incapaz de fazer rupturas. Por que razão ele não era como os outros homens
que casavam e descasavam e voltavam a casar sem se importarem com o que deixavam
para trás? Seria por ser interesseiro? Será que ele continuaria com a Graça se ela fosse
pobre? Ou seria apenas por comodismo? Ainda que ela fosse pobre, o António talvez
não conseguisse deixá-la. E, no entanto, havia coisas nela que o desgostavam. A
principal era a idade. Desde que começara a sair com a Andreia que olhava com desdém
para as rugas e a pele seca da Graça. Achava-a bonita mas velha. Detestava ver-lhe os
cabelos brancos a despontarem junto ao couro cabeludo e sentia-se incomodado com as
veias varicosas que cresciam um pouco acima dos joelhos. Mas havia outras coisas na
Graça que o prendiam. A principal era saber-se amado por uma mulher que seria
incapaz de o trair. Essa era uma qualidade sem preço! Sabia também que era
responsável pela sua felicidade e bem-estar. Sem o António, ela não era nada. Como é
que poderia abandonar uma mulher que dependia tanto dele? E ele teria consciência do
quanto precisava da Graça? Quem é que tratava dos impostos, fazia a gestão das receitas
e despesas? Ele ficava com todo o tempo livre do mundo para fazer aquilo que lhe
agradava: levantar pesos no ginásio e conversar com os amigos. E ainda lhe sobrava
tempo para namorar com raparigas novas que ficavam deslumbradas com a rigidez do
seu corpo e a amplitude dos seus músculos!
Nunca soube, ao certo, o que levou a Graça a ficar dependente de um homem tão
destituído de qualidades. As mulheres achavam-no bonito mas o mundo está cheio de
homens bonitos que não prestam. Não era especialmente inteligente e a maior parte dos
dias afundava-se numa preguiça crónica que o tornaria detestável aos olhos das
mulheres que tivessem oportunidade de o conhecer melhor.
O António também não entendia por que razão ficara tão agarrado ao amor pela
Gina. É certo que ela fora a primeira mulher com quem fizera amor mas o mundo está
cheio de homens que fizeram amor com mulheres e que, passado algum tempo, as
esqueceram. O que é que a Gina tinha que a tornava tão especial? A Gina tinha-o
protegido com o mesmo carinho e dedicação que as mães dedicam às suas crias e, tal
como a Graça, estava ligada a ele por uma dependência crónica. Seria por a Gina lhe
fazer lembrar a mãe? Se a mãe do António não tivesse morrido num acidente de
automóvel quando ele tinha seis anos, haveria nele a mesma ternura e a mesma
dependência pela Gina? Com ela, o António assumira um compromisso para a vida e o

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juramento de sangue que ambos fizeram fora apenas a manifestação exterior de uma
simbiose espiritual que unira os dois em circunstâncias excepcionais. Mas a Gina era
isso e muito mais. A sua vitalidade sexual, o vigor do seu corpo e a beleza grega da sua
cara, davam-lhe um toque invulgar que aumentava o seu poder de sedução, tornando-a
diferente de todas as outras mulheres.
Quando o António, nas noites de insónia, relembrava os dias que passara com a
Gina, era invadido por um desejo de ser ele e outro, desdobrando-se em quantos
Antónios fossem necessários para que os compromissos e juramentos fossem
respeitados e as desilusões evitadas. Essa impossibilidade enchia-o de impotência e de
frustração e talvez a sua inércia e preguiça tivessem uma explicação na nostalgia
provocada pelas lembranças das promessas por cumprir e pelos projectos desfeitos.

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TRÊS

O António entrou no ginásio às dez horas da manhã como fazia todos os dias há
mais de dez anos. Costumava vir equipado de casa. Trazia umas calças de treino e uma
T-shirt apertada que, com o decorrer do treino, se enchia de suor e se agarrava,
evidenciando o peito musculoso e os mamilos duros que pareciam querer romper o
tecido molhado, colado ao corpo como uma segunda pele.
Ao fundo da sala, no trapézio, estava o Joaquim, um homem simples que se
refugiara no ginásio para se curar do desgosto que a morte prematura do filho provocara
nele.
-Vamos treinar os dois? – perguntou o Joaquim.
-O que é que vais fazer?
-Pernas e peito.
-´Tá bem! Vamos a isso.
-É mesmo boa! – exclamou o Joaquim, olhando para a Andreia.
-Lá isso é!
-Aquela pele branca! Aquelas pernas cheias de músculos!
-É muito boa!
-Não sei como é que há gajas destas que se metem com barrotes queimados!
-Barrotes queimados?
-Pretos!
-Ah! Os africanos?
-Só se for por causa do pau deles?
-O que é que tem o pau deles?
-Porra! Nunca viste nenhum?
-Não! Dizem que são grandes, mas duvido que seja por isso que as mulheres os
querem! Não é a cor da pele que conta!
-Havias de ver aqueles toros de trinta centímetros!
-Achas que é por isso?
-Por que razão havia de ser? Há cada vez mais mulheres brancas a casar com
eles!
-E isso é mau?
-Estraga a raça!
-Não sei porquê!
-Eh, pá! Não se me mete na cabeça ver uma mulher como aquela a ser comida
por um preto! – disse o Joaquim, apontando para a Andreia.
-Ora, deixa-te disso! Isso é racismo! Preconceito! Nem que ro acreditar no que
estou a ouvir!
-Chama-lhe o que quiseres! É o que eu penso! É o que eu sinto!
-Queres dizer que não eras capaz de comer uma mulher de pele escura?
-Qual quê! Um homem é diferente! Comi poucas quando estava na Guiné!
-Bom, hoje não se pode falar contigo. Vamos lá mas é aumentar o peso!
-Tens razão. Isto é peso de menina. Aumenta a carga!
-Vamos a isso que faz bem à saúde!
-Eh pá, li no jornal que não há desporto melhor para melhorar o desempenho
sexual do que este!
-Este ou qualquer outro!
-Mas a musculação faz aumentar a tesão.
-Como é que é isso? – perguntou o António, soltando uma risada.

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-É assim…Quando levantamos cargas grandes, o coração bombeia mais e dilata
as veias. O sangue corre mais, concentra-se na pila e ela engrossa. É assim como se o
coração fosse o motor de um carro de grande cilindrada, ´tás a ver? O motor desses
carros bombeia mais gasolina e eles desenvolvem mais.
O António sorriu e pensou: este gajo não tem salvação!

A Andreia estava a fazer abdominais ao fundo da sala. Usava sempre umas


calças muito justas e um top curto que lhe deixava de fora a barriga lisa.
Quando acabaram o treino, o Joaquim desceu à cave para tomar banho e o
António cochichou para a Andreia:
-Posso ver-te hoje?
-Hoje não! Tenho treino e muitas aulas para dar. Pode ser amanhã?
-Claro. Onde?
-No sítio habitual e à mesma hora.
Há vários meses que se encontravam, ao princípio da tarde, na barragem do
Castelo de Bode. Ele esperava-a no carro, à entrada da ponte e, quando a via chegar
pelo espelho retrovisor, arrancava, lentamente, com ela atrás dele. Nem sempre iam para
o mesmo sítio. Umas vezes, escapuliam-se para uma das muitas enseadas que havia na
albufeira e ficavam várias horas, ao sol, agarrados um ao outro. Outras, metiam os
carros por uma estrada de terra batida e paravam num lugar ermo. Ele saía do carro,
entrava no carro dela, e faziam amor, estendidos no banco de trás. De quando em
quando, o António levava a Andreia para um hotel que ficava na estação de serviço de
Leiria. Chegavam os dois ao hotel, sem bagagem, com olhar cúmplice, e entravam, em
passo rápido, no quarto que lhes estava destinado. Houve um dia em que chegaram tão
cedo que não havia ainda quartos limpos. Tiveram de ficar, no corredor, à espera que
uma empregada, de sorriso matreiro, lhes preparasse um quarto. Quando a empregada
lhes disse pronto, já está!, o António meteu-lhe uma nota na mão e puxou a Andreia
para dentro, fechando a porta atrás dela.
Quando ficavam no hotel, começavam sempre por tomar um banho quente.
Enchiam a banheira, despejavam uma embalagem de espuma de banho e deitavam-se os
dois nela. O António sentava-se na banheira, com as pernas abertas, e a Andreia, que era
mais pequena, deitava-se na banheira com as pernas esticadas por cima das dele.
Primeiro, o António ensaboava-a com a mão direita, demorando-se nos seios dela e
descendo, com suavidade, até ao púbis. Os seios eram pequenos e duros, com uns
mamilos circulares que pareciam botões de rosa por abrir. Quando ela levantava as
pernas, umas pernas muito esguias e duras, o António via-lhe as nádegas pequenas e
redondas, sem a mais pequena marca de penugem. Ela não conseguia parar de rir e, de
vez em quando, dizia palavras obscenas que deixavam o António ainda mais excitado.
Nessas alturas, o António lançava-se para cima dela, cobria-a de beijos húmidos e
abraçava-lhe as costas. Então, ela dizia:
-Gostas do meu sexo?
-Não há nada mais bonito neste mundo.
-Nem o arco-íris? Nem um rio caudaloso? Nem as ondas do mar a estatelarem-se
na areia branca de uma praia deserta?
-Nada é mais bonito do que o teu sexo! Adoro comer-te!
-A minha vagina! Estás a dizer que queres comer a minha vagina! – dizia a
Andreia, soltando sonoras gargalhadas.
O António flectia as pernas e escondia a cabeça nas pernas da rapariga.
-Sempre fizeste isso muito bem. Quando estás a fazer-me isso, fico nas nuvens,
entro no paraíso e esqueço todas as preocupações.

49
QUATRO

O António entrou no carro e rolou em direcção à barragem do Castelo de Bode.


Sabia que a Andreia o esperava à entrada da ponte e, por isso, fizera uma reserva na
estalagem. Finalmente, iam poder dormir uma noite inteira juntos. A primeira noite!
Nos últimos meses, tinham feito amor no banco de trás do carro, deitados sobre o areal
de uma das muitas enseadas da Albufeira do Castelo de Bode, num quarto da Pousada
de Castelo de Bode e até na casa de banho do ginásio, mas agora ia poder desfrutá-la
durante uma noite inteira. Depois de jantarem no restaurante, subiram ao quarto.
Quando estavam prestes a entrar no quarto, o António viu umas escadas de ferro que
levavam a uma torre de onde se tinha uma vista soberba sobre a albufeira. Agarrou no
braço da Andreia e ajudou-a a subir as escadas.
-Onde é que me levas?
-Já vais ver.
Quando chegaram à torre, ficaram ambos a olhar a albufeira. As luzes que
vinham do parque de campismo davam à margem esquerda do rio Zêzere uma aparência
de presépio.
O António encostou-se à Andreia e beijou-lhe a boca. Ela trazia uma saia muito
curta e larga e, a cobrir-lhe o peito, um top tão pequeno que mal lhe tapava a barriga. O
António levantou-lhe a saia e escondeu a mão direita entre as pernas da Andreia.
-Não acredito! Não trazes nada por baixo?
-É a minha surpresa.
O António abriu a braguilha e meteu o sexo nas mãos da rapariga.
-Já está duro! – exclamou a Andreia.
A Andreia cruzou as pernas à volta das costas do António e pediu-lhe para ele
entrar dentro dela.
-Só um bocadinho – disse o António.
-Todo!
O António penetrou-a ora suavemente ora com força e depois pediu:
-Volta-te de costas.
A Andreia apoiou os cotovelos no muro, inclinou a cabeça e abriu as pernas. O
António aproximou-se, abraçou-lhe a barriga com a mão esquerda, acariciou-lhe os
seios com a direita e entrou nela suavemente.
-Vamos continuar dentro do quarto – disse o António.
Desceram as escadas abraçados e, quando chegaram à porta do quarto, ela pediu-
lhe para ele a levar ao colo. Passaram as primeiras duas horas da noite a fazer amor.
Depois, tomaram um banho quente e ficaram a conversar, deitados na cama, com a
televisão acesa.
-O que é que pretendes fazer de mim? – perguntou a Andreia, com um olhar
triste.
-Não sei. Sei apenas que te amo e que quero continuar a ver-te.
-E achas que isso é suficiente para mim? Esqueces-te que eu tenho vinte anos e,
como todas as raparigas da minha idade, sonho com um casamento, uma família e
filhos?
O António desviou o olhar e respondeu:
-Eu não te posso dar filhos.
-Porquê?

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-Não quero assumir essa responsabilidade. E mesmo que quisesse, não podia. A
verdade é que eu não posso ter filhos. E se queres que te diga, é um alívio não poder ter
filhos. Acho a vida uma coisa muito perigosa e, por vezes, feia. Uma grande chatice! A
única coisa que sei fazer é levantar pesos.
-E fazer amor!
- Sim, talvez. Não há mais nada que me entusiasme, como é que queres que eu
assuma uma responsabilidade tão grande? Além disso, tenho a certeza de não poder ter
filhos.
-Não consegues ver a beleza que há no sorriso de uma criança? – perguntou a
Andreia sem prestar atenção à afirmação do António sobre a impossibilidade de ter
filhos.
-Consigo, quando ela está ao colo de outros – respondeu o António, soltando
uma gargalhada seca.
-Bom, não queres ter filhos. Pensas, ao menos, na possibilidade de vivermos
juntos? Quer dizer, vais ser capaz de deixar a Graça?
-Não quero mentir-te. Neste momento, não sou capaz de fazer nada. Se a
deixasse, ia viver com o quê?
-O problema é que tu estás habituado a uma vida boa, ao lado dela. Sem ela,
serias um pobre diabo. Terias de trabalhar, não é? Terias de baixar o teu nível de vida,
não é verdade? – perguntou a Andreia, com sarcasmo.
O António notou que ela estava zangada. Os olhos tristes ficaram húmidos. Ele
ficou alguns segundos em silêncio e depois respondeu:
-Não gosto de trabalhar, é verdade. Não se pode ser preguiçoso? Gosto de coisas
boas, e tu não gostas?
-Gosto, mas não se pode viver como tu vives. Só podes ser preguiçoso porque
ela te governa. É por isso que nunca a irás deixar.
-Se ela morrer, talvez fique contigo. Ficarei, se achar que me amas o suficiente.
-São demasiados ses e eu não posso ficar dependente de uma morte que pode
não vir a tempo. Até pode acontecer que tu morras primeiro.
-Podemos deixar as coisas como elas estão. Não gostas de estar comigo?
-Gosto mas acaba depressa. Quer dizer, não consigo ser feliz desta maneira.
-E sem mim, serias mais feliz?
-Talvez fosse. Pelo menos, não andaria a perder tempo. Assim, agarrada a ti, não
tenho disponibilidade para os outros. Quem sabe se não estarei a perder a grande
oportunidade de conhecer um homem livre?
-Talvez. Não te quero fazer mal, a decisão é tua e só tu podes saber se é bom
estares comigo ou se é mau.
-Vamos parar de nos ver. Pelo menos durante algum tempo. Preciso de tempo
para pensar. Quero distanciar-me um pouco de ti para poder ver melhor.
O António reparou que saltava uma lágrima do olho esquerdo da Andreia. Ela
limpou a lágrima com a mão e ficou em silêncio, de cabeça baixa.
-Tu é que sabes. Tens o número do meu telemóvel. Eu fico à espera que me
voltes a ligar. Continuo a amar-te mas não quero iludir-te. Por agora, só posso dar-te
isto.
Eram seis horas da manhã, o sol lançou os primeiros raios de luz nas janelas do
quarto e a Andreia começou a vestir-se.
-O que é que estás a fazer? Vais-te já embora?
-Vou. Se quiseres, podes ficar.
O António levantou-se da cama, vestiu-se e acompanhou a Andreia em direcção
ao carro.

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Eram seis horas e quarenta minutos quando deixaram o hotel. Fizeram a viagem
de regresso em silêncio.

52
CINCO

A Graça trancou-se no quarto. Fechou-se lá dentro para não a verem a chorar. O


António já tinha batido, na porta, várias vezes, implorando que o deixasse entrar,
pedindo-lhe uma explicação, mas a Graça continuava a soluçar, deitada sobre a cama,
de barriga para baixo.
O António dissera-lhe, na véspera, que ia a uma convenção de fitness. Ele não
sabia que a Graça telefonara para o ginásio a perguntar quando é que era a convenção e
que a Manuela, a empregada de olhos tristes e mortiços, lhe dissera que fora na semana
passada. Então, a Graça passou a noite a telefonar para os hotéis da região a perguntar
se havia algum registo em nome de António Cerqueira. De quase todos, recebeu a
resposta de que não podiam fornecer essa informação mas da pousada de Castelo do
Bode veio a informação que ela temia: havia uma reserva de um quarto duplo em nome
desse senhor.
A Graça sabia que o António gostava de raparigas novas e parecia não se
importar com isso. Contudo, a Andreia era diferente das outras. Nunca o António tinha
andado tanto tempo com uma rapariga. Das outras vezes, a relação morria quando
terminava o primeiro encontro num quarto de hotel ou no banco de trás de um
automóvel. Agora, era diferente. A Graça tinha informações de que ele andava com ela
há vários meses, que iam com frequência ao hotel que ficava na estação de serviço de
Leiria e que ela lhe deixava mensagens no telemóvel a marcar novos encontros.
A Graça não era capaz de viver sem o António. À medida que se sentia mais
velha, ia perdendo o amor-próprio e a auto-estima e ficava cada vez mais dependente do
marido. Habituara-se a tê-lo ao seu lado todas as manhãs e todas as noites e, quando se
via sozinha, ficava possuída por uma angústia que lhe sufocava o peito. Preferia morrer
a ficar sem ele. Nada a ligava à vida a não ser o António. Não tinha filhos nem
sobrinhos, a sua relação com o pai era distanciada e fria, a mãe morrera quando ela era
criança, nunca tivera grande jeito para fazer amigos, o que é que ela podia fazer sem o
António? Habituara-se a levar uma vida preenchida com o trabalho, os negócios do pai
e o amor do António. Sem vida social, os poucos tempos livres de que dispunha eram
passados na companhia dele. Gostava de conversar com ele sobre os negócios e, quando
se ia abaixo, procurava alívio no ombro do marido, partilhando as alegrias dos sucessos
e as tristezas dos fracassos. Entre eles, havia cumplicidade, amizade e entreajuda. Há
muitos anos que não discutiam. Entendiam-se tão bem que bastava um olhar para
saberem o que ambos queriam. O António era meigo. Preenchia-lhe todas as
necessidades. Era o núcleo e a fronteira do seu mundo. Evoluíra com ele. Quando ele
era esquerdista, ela também fora. Quando ele se desiludiu com a Revolução, ela também
se afastou das utopias. Passaram a viver apenas um para o outro, sem se preocuparem
com os destinos do mundo. Com ele ao lado, o medo desaparecia. Das outras vezes, a
Graça tinha deixado muito clara a sua intenção de se matar se ele ousasse deixá-la.
Nessas ocasiões, a Graça avisava o marido de que todos os bens que possuía, estavam
em nome do pai e que, se ela morresse, ele ficaria sem nada.
Foi preciso o António pedir-lhe desculpa várias vezes para ela abrir a porta.
Tinha os olhos vermelhos de tanto chorar e os cabelos caídos sobre a cara. O António
abraçou-a e cobriu-lhe os olhos, a boca e as faces de beijos. Disse-lhe que nunca lhe
passara pela cabeça abandoná-la.
A Graça avisou-o que não permitia que ele a andasse a enganar, daquela
maneira, com raparigas de vinte anos. Isso era de mais! Lembrou-o do pacto que
haviam selado tantas e tantas vezes: o António podia sair, uma vez por outra, com uma

53
rapariga desde que não se envolvesse afectivamente com ela. Ora o caso com a Andreia
era diferente de todos os outros. Ele amava a Andreia ou, pelo menos, era isso que a
Graça pensava. Fazer amor com uma vadia é uma coisa; amar outra mulher é traição e
isso a Graça não podia admitir. Se ele não podia passar sem raparigas novas, era
preferível pagar a uma jovem prostituta. O António repetiu, várias vezes, que não
amava a Andreia. O que havia entre eles era apenas desejo. E o desejo tem um preço. O
António adorava o corpo da rapariga e não era capaz de resistir ao apelo do sexo. Não
havia mais nada entre eles. A Graça sossegou um pouco, limpou as lágrimas, despiu-se
e meteu-se debaixo do chuveiro. O António ficou a ensaboá-la do lado de fora do
poliban. Quando a Graça deixou o banho, ele enxugou-a com uma toalha. Ela sorriu,
encostou a cabeça no ombro do marido e deixou-se levar até à cama. Deitada de costas,
com as pernas cruzadas sobre as ancas do António, a Graça disse-lhe:
-Lembras-te de andares a treinar a meter o preservativo? Por que razão julgas
que eu te pedi para aprenderes a fazer amor com preservativo? Eu não te disse tantas
vezes que não me importava que pagasses a uma rapariga desde que utilizasses a
camisinha? - O António acenou com a cabeça e beijou-a. Ela continuou: - Eu sei que tu
me amas mas também sei que adoras possuir um corpo duro e jovem. Eu sei que não
posso dar-te aquilo que já não tenho mas isso não é razão para me deixares. Tu podes
ter uma coisa e outra. Só precisas de te afastar dessas caçadoras de homens que fazem
chantagem emocional e que querem afastar-te de mim. Promete-me que não voltas a ver
essa rapariga!
O António pegou-lhe nas mãos e escondeu-as dentro das suas. Depois, olhou-a
nos olhos e disse:
-Prometo que não a verei mais.
A Graça deixou escapar um sorriso rasgado, fechou os olhos e ofereceu-lhe a
boca.
O António gostava de fazer amor com ela quando a sentia descompensada. Em
alturas destas – após uma crise de choro motivada pelo ciúme – a Graça ficava
incontrolável. Excitava-se à mais pequena carícia e vinha-se sem qualquer esforço.
A Graça pediu ao António que ficasse no rés-do-chão à espera dela. Costumava
demorar dez a quinze minutos a preparar-se para aquilo a que ambos chamavam um
regresso ao passado. Ela pintava os olhos e os lábios, vestia umas calcinhas pretas e
prendia as meias de seda no cinto de ligas. Ficava preparada quando calçava os sapatos
pretos de salto alto.
-Amo-te – disse ela.
-Eu também te amo – acrescentou o António.
Ele pegou-a ao colo e deitou-a em cima do tapete de Arraiolos que forrava o
chão do escritório. Fizeram amor como se fosse a última vez.

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SEIS

A morte da Graça foi inesperada. Regressava de Aveiro pela auto-estrada


quando o carro se despistou, junto da saída para Fátima. Chovia muito, o piso estava
escorregadio e o carro começou a patinar quando atravessou um lençol de água. A
Graça perdeu o controlo do carro, bateu com ele contra o separador central e, quando o
carro derrapava, descontrolado pelo meio da via, foi apanhado por trás por um camião
que seguia a mais de cento e vinte quilómetros por hora. Chegou ao hospital de Torres
Novas sem vida.
Os dias que se seguiram à morte da Graça foram os mais tristes da vida do
António. O sogro acusou-o de ser o responsável pela morte dela. Quem devia estar ao
volante do carro era ele e não ela. Em vez de se agarrar ao volante a caminho de Aveiro,
preferiu ir para o ginásio, onde ocupava os dias, enquanto a Graça tomava conta do
negócio do pai.
A primeira surpresa desagradável surgiu ao quarto dia após a morte da Graça. O
sogro colocou-lhe duas malas com roupa à porta de casa e mandou um empregado tirar-
lhe a chave. Sem casa nem emprego, restava ao António uma conta à ordem com apenas
dois mil euros. Telefonou à Andreia e à Gina. Ambas queriam ficar com ele. À Gina –
que estava longe – prometeu que iria para os Açores logo que resolvesse alguns
problemas. À Andreia, prometeu casamento.
No dia em que se apresentou no ginásio, para o seu primeiro dia de trabalho
como instrutor e recepcionista, o António recebeu uma carta da Gina.
Amor
Nem sabes como fiquei feliz com a morte da Graça. Sabes bem que eu não lhe
queria mal algum mas tenho de admitir que ela era um estorvo à minha felicidade. Se o
velho morresse, acertávamos na dobradinha. Infelizmente, o velho continua vivo e,
enquanto ele andar por cá, não podemos casar. Apesar disso, podes vir para aqui
assim que resolveres os teus problemas. A ideia de te montar um ginásio continua
presente na minha cabeça. Para ti, seria a salvação: irias trabalhar naquilo que gostas
e resolverias os teus problemas financeiros. Para mim, seria melhor do que bom: iria
ter-te junto de mim com um corpinho de sonho.
Tenho pensado em ti todas as noites e tu sabes como é que acabam esses
pensamentos, não sabes? Passei a tomar banho de imersão só para poder saborear
melhor as fantasias que eu crio quando penso em ti. Agora que sei que vais ser meu,
mal posso esperar pelo dia em que irei esperar-te ao aeroporto das Lages. Já
imaginaste como é que vai ser a nossa primeira noite? Há mais de cinco anos que não
sei o que é um homem, por isso podes imaginar o que eu irei fazer contigo. Lembras-te
do que fazíamos no meu quarto há muitos anos atrás? Bom, com a vontade que eu
tenho, posso prometer que não irei desiludir-te!
Agora que és um homem livre, vê lá se não te deixas arrastar por nenhuma
caçadora de homens. Não te esqueças que eu esperei por ti a vida toda e que agora não
posso perder-te.
Amo-te e quero cobrir o teu corpo de beijos.

O António cortou a carta em pedaços, fez um maço e deitou-o para o cesto de


papéis. Mantinha o velho hábito de não deixar vestígios das suas aventuras amorosas.
Guardar papéis para quê? Não bastavam as cartas que ele escrevia às namoradas e que -
estava certo – jaziam escondidas no fundo de uma qualquer gaveta?

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Almoçou no snack-bar situado no rés-do-chão da residencial onde se alojou e,
de seguida, foi para o ginásio. Continuava indeciso entre ficar com a Andreia ou partir
para os Açores.
A Andreia tinha uma pele jovem, um sorriso aberto, umas pernas musculadas e
um rabinho de sonho mas que futuro lhe estaria reservado ao lado dela? Uma rapariga
de vinte anos sonha com um casamento, filhos e uma vida familiar, precisamente aquilo
que o António nunca desejou. Embora a Andreia fosse uma mulher muito bonita, havia
algumas atitudes dela que o incomodavam. Achava-a demasiado impulsiva, autoritária e
ambiciosa. Além disso, não tinha a certeza da autenticidade do amor dela.
A Gina fora o seu primeiro amor, a mulher com quem fizera um juramento de
sangue. Ao lado dela, teria protecção e segurança. A ideia do ginásio, na Praia da
Vitória, não lhe saía da cabeça e parecia seduzi-lo cada vez mais. Além disso,
continuava uma bela mulher.
Quando chegou ao ginásio, a Andreia esperava-o à entrada. Usava umas calças
de licra muito apertadas que lhe avolumavam o rabo redondo e saliente.
-Já tomaste uma decisão? – perguntou.
-Ainda não.
Abriu a porta do ginásio e entrou à frente dela.
-Continuas com algum impedimento? A Graça morreu, és um homem livre, do
que é que estás à espera para assumires um compromisso comigo?
-É muito cedo para assumir compromissos. Fiquei sem nada e não tenho
condições para assumir responsabilidades – respondeu o António sem olhar para ela.
-O teu mal é não seres capaz de assumir responsabilidades. Julgas que vou ficar
eternamente à esperas que te decidas?
-Tem calma. Acabo de perder tudo o que tinha e estou a iniciar a vida de novo.
Lembra-te que há duas semanas eu tinha um cartão de crédito que me permitia gastar
três mil euros por mês e agora estou a ganhar o ordenado mínimo nesta merda de
ginásio – respondeu o António, mostrando azedume no tom de voz.
-Tu é que és o culpado. Em tempo de fartura não foste capaz de acautelar o
futuro. Agora, vais ter de viver com o ordenado mínimo.
-E queres que eu assuma um compromisso numa altura destas?
-Eu só quero que tu sejas um homem, mais nada – respondeu a rapariga,
virando-lhe as costas.
-Espera aí, não precisas de ficar zangada, eu só disse que ainda é cedo.
-Olha, acho que o melhor é ficarmos uns dias sem falarmos um com o outro. Eu
preciso de pensar melhor na minha relação contigo.
-Está bem, seja como tu quiseres – aquiesceu o António, aliviado.
O António passou o resto da tarde a receber clientes, preencher fichas e
organizar as facturas para pagar. Não voltou a falar com ela nos dias seguintes e, à
medida que o distanciamento aumentava, sentia-se mais tranquilo. Na segunda-feira
seguinte, disse que precisava de falar com ela em privado e com urgência. A Andreia
perguntou-lhe se ele já tinha tomado uma decisão e ele respondeu que não. Furiosa, a
Andreia gritou que não precisava de falar com ele e desligou o telefone. Nessa tarde, o
António telefonou à Gina.
-Amor, já tratei dos problemas e estou em condições de ir para aí.
-Nem posso acreditar! Tens dinheiro para o bilhete de avião?
-Para isso, ainda há. Do que eu preciso é que tu me arranjes uma casa na Praia da
Vitória.
-Aqui não. A cidade é pequena e todos me conhecem. Vou arranjar-te uma casa
em Angra do Heroísmo. Vamos poder ver-nos todos os dias.

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-Olha, vou reservar uma passagem para depois de amanhã. Vais ficar à minha
espera nas Lages?
-Podes crer. Telefona-me quando estiveres no aeroporto de Lisboa.
-Amo-te. Até daqui a dois dias.
-Também te amo.

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SETE

A Gina estava à espera do António no aeroporto das Lajes. Quando ele surgiu,
ao longe, no corredor, com uma mala em cada mão, ela reconheceu imediatamente as
feições do rapaz de dezasseis anos que conhecera e amara no colégio, havia muitos
anos. A cara não mudara quase nada, mas ele parecia mais alto. Seria ilusão de óptica
ou o António estava mais alto? Os olhos continuavam negros e brilhantes, o nariz
direito, levemente afilado, as orelhas pequenas e bem desenhadas, os cabelos,
compridos, caíam-lhe na testa em pequenas ondas e o andar mantinha a firmeza, a
segurança e a elegância que despertaram nela o desejo e a posse.
A Gina conteve-se para não o abraçar. Apertou a mão dele contra a sua, sorriu e
acompanhou-o à saída. O carro estava parado a duas centenas de metros do aeroporto. O
António meteu as malas no porta-bagagens e sentou-se no banco da frente, ao lado dela.
Percorreram o caminho até Angra em pouco mais de vinte minutos. A Gina abriu a
porta da garagem do prédio com o comando electrónico e fez o carro entrar numa box
apertada. Depois, subiram no elevador, abraçados e com as bocas coladas, e entraram no
apartamento que ela alugara para ele.
A Gina fechou a porta, dando várias voltas à chave, e lançou-se nos braços do
amante. Colou a sua boca à dele e lambuzou-lhe os olhos, as orelhas e o pescoço com a
mesma sofreguidão com que o fizera havia muitos anos.
-Anda, quero mostrar-te o apartamento.
-Nem acredito que tenhas feito tudo isto por mim!
-Não foi por ti, é por nós. Agora, ninguém pode separar-nos. O velho passa as
horas sentado numa cadeira e não há-de viver para sempre. Enquanto ele não partir, este
lugar vai ser o nosso refúgio e será aqui que vamos amar-nos.
-Desejo-te! Quero fazer de ti a minha mulher e recuperar os anos perdidos.
-Há tantos anos que eu sonhava ouvir essas palavras. Agora que as ouço, mal
consigo acreditar nelas. Vá, belisca-me para eu ter a certeza de que é verdade!
-Deixa-me olhar bem para ti! Estás tão bonita como dantes e consegues estar
ainda mais magra! Qual é o teu segredo?
-Praia, ginástica e cuidado com a comida – respondeu ela.
-Despe-te, mostra-me as pernas, as mamas e o rabo! – implorou o António,
puxando-lhe a saia para baixo.
A Gina desabotoou a blusa, tirou o soutien e fez descer as cuecas pelas pernas
abaixo. Ficou nua.
-Não acredito! Esta mulher tem cinquenta e dois anos?
A Gina continuava uma mulher invulgarmente bela. Os cabelos, compridos e
lisos, caíam-lhe sobre a testa e sobre os ombros. Mantinham a cor preta e não havia
neles o mais pequeno sinal de tintas ou de produtos químicos. Os seios, grandes e duros,
erguiam-se em direcção ao céu, oferecendo uns mamilos rosados e pontiagudos que
pediam para ser beijados. A barriga mantinha-se lisa, com o mesmo fio de pêlos pretos
que descia do umbigo até se perder no emaranhado de pêlos encaracolados que lhe
tapavam o sexo com um véu triangular. As pernas, longas e musculadas, sem a mais
pequena marca de celulite, ofereciam-se às mãos do António, sedentas de desfrutarem o
toque sedoso que delas emanava. Quando ela se voltou de costas, baixando a cabeça até
aos joelhos, o António não resistiu a percorrer, com as duas mãos, as curvas perfeitas de

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uma mulher madura por quem o peso dos anos não tinha passado. Uma mulher sem
idade! Por momentos, o António ficou petrificado a olhar para as ancas da Gina, umas
ancas redondas e duras, cobertas de uma pele sedosa e branca, revelando duas tiras que
as percorriam na diagonal, formando um triângulo. Eram as marcas do bikini. Uma
penugem escura, tão pequena que não era possível apanhá-la com os dedos, expunha-se
entre as ancas sempre que ela afastava um pouco as pernas. O António ajoelhou-se e
encostou a cara às nádegas da Gina, separando-as com as mãos, de forma a poder ver
melhor a vegetação rasteira que elas escondiam.
-Agora despe-te tu! Quero ver-te nu!
O António libertou-se dos sapatos e das meias, desabotoou a camisa, puxou as
calças para baixo e ficou em cuecas à frente da Gina.
-Oh meu Deus, tu pareces uma estátua grega! – disse a Gina.
O António tinha crescido mais cinco centímetros, os ombros eram agora mais
largos, o peito deixava revelar a nitidez dos músculos, a barriga era lisa e as pernas
peludas e fortes.
-Volta-te de costas que eu quero ver o que é que o ginásio fez ao teu rabo! –
pediu a Gina.
O António voltou-lhe as costas e ela encostou o corpo ao dele, deixando-se
escorregar até ficar com os seios à altura das coxas dele. De costas, o António
assemelhava-se a uma estátua, esculpida propositadamente, para dar a conhecer os
músculos do corpo humano. As costas direitas formavam um triângulo que alargava da
cintura fina até aos ombros. As nádegas eram redondas, firmes e voluptuosas. As
pernas, longas, fortes e peludas, eram perfeitas.
-Esfrega os teus seios no meu corpo – pediu o António.
A Gina roçou os seios nas costas do António e, de seguida, ajoelhou-se e
escondeu a boca no emaranhado de pêlos que cobria as nádegas do amante. O António
lembrou-se de como ela gostava de afundar a língua nas suas nádegas e flectiu as
pernas, oferecendo à Graça a visão paradisíaca do seu traseiro.
-Tinha saudades da tua boca nas minhas nádegas. Lembras-te do que fazias
depois? – perguntou o António, abrindo mais as pernas e tocando com a cabeça nos
joelhos.
A Gina deu uma meia volta e colocou a cabeça debaixo das pernas do António.
O pénis dele era, agora, uma enorme torre apontando para o umbigo. A Gina agarrou-o
com a mão direita e puxou a pele, suavemente, para baixo, fazendo subir a boca até à
glande que, inchada e gordurenta, exalava um odor que lhe ampliou o desejo.
-Quero sentir-te dentro de mim. Há tantos que eu sonho com este momento e
agora quero que ele dure para sempre – disse a Gina, erguendo-se e colando o corpo ao
dele.
Fizeram amor como se aquela fosse a última vez. A luz do sol deu lugar a uma
penumbra que anunciava a noite. A Gina olhou para o relógio e disse:
-Como é que é possível o tempo passar tão depressa quando estou contigo!
-Já são oito horas?
-Sim, amor, são horas de voltar à Praia da Vitória.
A Gina vestiu-se e despediu-se dele com um longo beijo na boca.

Quando a Gina chegou a casa já a noite tinha descido sobre a cidade. Ao longe,
o mar negro contrastava com o brilho do céu. Antes de abrir a porta da garagem, a Gina
ficou, dentro do carro, a olhar as luzinhas dos barcos que jaziam lá onde a linha do mar
se confundia com o céu. Voltou a lembrar a imagem do António, com uma mala em
cada mão, a aproximar-se dela, no corredor do aeroporto, e pensou que, agora, era uma

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mulher feliz. Sabia que tinha de enfrentar a realidade, entrar dentro de casa, dar banho a
um velho moribundo que continuava, teimosamente, agarrado à vida, mas o seu corpo
não obedecia às ordens e ela mantinha-se, pesadamente, sentada no banco do carro, sem
dar mostras de querer mudar de lugar. Respirou fundo, abriu a porta do carro com força,
lançou a perna esquerda para fora e, com um salto, separou-se do veículo, procurando
apagar do seu espírito as imagens do António. Gina, agora estás de volta à realidade,
esquece o António por umas horas, repetia para si, procurando ganhar forças para
enfrentar o marido, preso a uma cadeira de rodas, colocada a três metros do televisor.
Quando ela fechou a porta de entrada atrás de si, ouviu o velho a murmurar só agora! e,
nesse momento, passaram-lhe pela cabeça imagens do marido a agonizar, de olhos
semicerrados e com a língua azulada e dura pendendo por entre os lábios. Deixá-lo-ia
morrer sem assistência, como se fosse um velho cão abandonado por todos, cujo
desaparecimento não iria ser notado por ninguém. Ou, poderia apressar o fim do velho
se tivesse coragem para fazer um acto de misericórdia.
A sala estava iluminada apenas pela luz intermitente que brotava do televisor e a
figura do velho, sem cabelos, com umas sobrancelhas espessas que quase lhe tapavam
os olhos mortiços, e uma boca flácida que mais parecia uma cloaca, fizeram-na recuar
dois passos, provocando nela uma sensação de nojo que lhe estacava os movimentos.
O velho era um estorvo, um obstáculo no seu caminho para a felicidade e nada a
impedia de pôr termo ao sofrimento que a figura decrépita e patética dele representava.
Iria suportar aquele fardo por mais quanto tempo? E se o velho se mantivesse naquele
estado vegetativo por muitos anos? Até quando é que o António iria desejá-la? A Gina
recuou mais alguns passos e, ao dirigir-se para a cozinha, disse-lhe que ia espremer as
laranjas para ele poder tomar os comprimidos desfeitos no sumo.
Quando chegou à cozinha foi tomada por um frenesim intenso e começou a notar
que as suas mãos não eram capazes de obedecer à razão. Sem sequer perguntar porquê,
foi à garagem buscar uma embalagem do veneno que usava para eliminar as ervas e
despejou a embalagem num jarro. Fá-lo-ia pagar o preço do desejo! Depois, espremeu
quatro laranjas doces e adicionou três colheres de açúcar. Quando estava para adicionar
uma quarta colher de açúcar, lembrou-se de que o velho tinha perdido o cheiro e o
paladar e que vivia, desde há alguns meses, num quase estado vegetativo e, não fosse
possuir ainda uma parte da visão e da fala, mais parecia um cadáver que se agarrara
como uma lapa apodrecida à vida da Gina. Mexeu o sumo, violentamente, com uma
vara de vidro e, de seguida, levou-o, numa bandeja, para a sala de estar.
O velho levantou a cabeça e deixou que ela pousasse a bandeja sobre os joelhos
dele.
-Vá, bebe o sumo. Vais passar uma noite tranquila – disse a Gina, despejando o
sumo num copo.
O velho levou o copo à boca. A Gina encorajou-o a beber um novo copo de
sumo, mas o velho limitou-se a deixar cair a cabeça para trás, deixando escorrer um
líquido viscoso pela boca. A Gina recuou dois passos e ficou a vê-lo a revirar os olhos
até que os seus braços caíram inertes como se fossem dois galhos secos acabados de se
desprenderem de uma velha árvore. A boca abriu-se num esgar e a língua azul ficou-lhe
pendurada entre os lábios. Uma baba amarela saiu-lhe da boca e ficou a bailar entre os
lábios e o peito do velho, como se fosse uma teia de aranha laboriosamente construída
no canto de uma janela semiaberta.
A Gina correu para a casa de banho. Pegou numa toalha molhada e começou a
limpar a cara do velho. Depois, tirou-lhe o roupão, guardou-o num cesto de roupa suja e
voltou à sala. Era preciso deitar o velho na cama, limpar todos os vestígios e destruir o
roupão. Empurrou a cadeira de rodas para o quarto, encostou-a à cama, inclinou-se,

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passou um braço pelas costas dele e outro por debaixo das pernas e, com um movimento
brusco, lançou o corpo do velho na cama. Puxou os cobertores para cima do cadáver e
foi-se deitar no seu quarto. No dia seguinte, arranjaria maneira de destruir o roupão e
ganharia coragem para avisar a emergência médica.

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OITO

Quando os primeiros raios de sol começaram a entrar no quarto, a Gina


levantou-se, tomou um banho quente e, de seguida, espreitou o quarto do velho. Ficou
aliviada quando viu o cadáver, de olhos semiabertos, boca escancarada e língua
pendurada, e pensou: até que enfim que me livrei dele!
Voltou ao quarto, discou o número da emergência médica e disse, numa voz
trémula, que o marido estava morto. Depois de dar a morada de casa, ainda se lembrou
de pedir para virem depressa porque não tinha a certeza se o marido ainda tinha vida.
A ambulância chegou passados dez minutos. O médico limitou-se a confirmar a
morte do velho. Fez-lhe algumas perguntas que ela respondeu com serenidade. Tinha
deitado o marido na cama às 23 horas sem notar nada de anormal. Depois, foi para o
quarto e dormiu até de manhã. Quando entrou no quarto dele para lhe dar os
comprimidos, reparou que ele não respondia às perguntas. Foi, então, que resolveu
chamar a emergência médica na esperança de que o marido ainda estivesse vivo.
O velho tinha uma longa história de doenças: próstata, diabetes e graves
problemas cardíacos. No mês anterior, tinha passado por uma crise horrível que quase
lhe tirara a vida. O processo estava todo documentado e não era crível que os médicos
desconfiassem da verdadeira causa da morte. O médico de família da Graça dizia,
frequentemente, que, com tantas maleitas, era um milagre o velho ainda estar vivo. A
Gina sentia-se aliviada. Pegou no telemóvel e ligou ao António.
-Amor, tenho uma notícia maravilhosa para te dar. O velho morreu!
-O quê? Estás a falar a sério? Morreu de quê?
-Não sei. Deitei-o na cama, fui-me deitar e, quando acordei, ele estava morto.
Chamei a emergência médica e eles limitaram-se a confirmar a morte dele. Acabaram
de levá-lo para a morgue. O funeral deve ser amanhã ou depois de amanhã. Julgo que
não vão fazer autópsia. Já imaginaste o que é que isto significa? Estamos livres? Somos
donos do nosso destino! Podemos casar! Eu não podia imaginar que era tão bom ser
viúva!

O funeral realizou-se no dia seguinte. A Gina vestiu-se de preto e acompanhou a


urna na curta viagem de carro até ao cemitério. Não havia muita gente a acompanhar
porque tanto ela como o velho eram pessoas de poucas falas e menos amigos e o
cerimonial foi breve. O corpo passou pela igreja mas não houve missa de corpo
presente. Toda a gente sabia que o velho era da maçonaria e que a Gina não costumava
ser vista na igreja. Quando as pessoas dispersaram, a Gina conseguiu ver o António, de
pé, junto ao portão do cemitério. Passou junto dele e, sem olhar para ele, sussurrou:
-Aparece amanhã à noite em minha casa.
A Gina entrou em casa irradiando felicidade. Não houve autópsia, ninguém
desconfiou de nada e, agora, bastava deixar passar uns meses até poder ficar com o
António. Até lá, poderia encontrar-se com ele às escondidas. A Gina vivia numa
moradia alugada, com dois pisos, com um amplo jardim nas traseiras e as duas casas
que rodeavam a sua moradia, estavam desabitadas há muito tempo. Os proprietários
eram emigrantes em Nova Jersey e só regressavam à ilha, uma vez por ano, durante as
Festas do Senhor do Espírito Santo. Vivia naquela casa desde o primeiro dia em que
chegara aos Açores e nunca mais quis desfazer-se dela porque se habituara à calma e
solidão do lugar. Gostava particularmente da vista do mar que o primeiro andar da casa
proporcionava. Habituara-se a levar uma vida solitária e raras vezes recebia alguém em

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casa. As pessoas viam-na como uma mulher misteriosa que, nos últimos anos, andava
frequentemente de mau humor. Não era mulher para ir à igreja e como não tinha filhos
nem sobrinhos não precisava de fazer grandes contactos sociais. É certo que os
restaurantes a obrigavam a ter conversas de circunstância com clientes e fornecedores
mas, como estava sempre apressada, não havia tempo para aprofundar as relações e as
conversas nunca se desviavam dos assuntos profissionais.
Ninguém a sabia definir muito bem. Aparecera um dia na ilha sem avisar. Era
uma mulher que os homens cobiçavam e isso tornava-a suspeita aos olhos das outras
mulheres. Alugou uma moradia junto ao mar e comprou um restaurante que depressa se
tornou um local de frequência da média burguesia local. Passados quatro anos, apareceu
casada com um velho viúvo, com fama de rico, que acabara de perder o filho num
acidente de avião. Embora o velho fosse rico – dizia-se que tinha propriedades em
Boston, onde fora emigrante durante muitos anos – a Gina continuou a viver na moradia
alugada. Eram ambos pessoas solitárias e enigmáticas. O velho tinha passado quase toda
a sua vida adulta nos Estados Unidos da América onde fizera fortuna a vender pão. Sem
filhos nem sobrinhos, o velho passava o tempo em casa ou a viajar, umas vezes para
Lisboa, outras para Boston. A Gina, quando não acompanhava o marido nas viagens,
fazia compras para os restaurantes ou corria à beira do mar. A bem dizer, as únicas
pessoas com quem ela se relacionava eram as cozinheiras dos restaurantes, os
fornecedores e a esteticista, uma jovem viúva, ainda com alguma beleza, que ela
visitava uma vez por semana.

Dirigiu-se ao quarto do velho e começou a tirar as roupas do roupeiro. Quando


terminou a tarefa, meteu tudo dentro de sacos de plástico e levou para o porta-bagagens
do carro. Entrou no carro, pô-lo a trabalhar e dirigiu-se a casa do pároco. Foi atendida
por uma mulher idosa que agradeceu a oferta das roupas. A Gina ajudou a mulher a
levar as roupas para uma armazém situado nas traseiras da casa do pároco e, terminada a
tarefa, despediu-se dela com um aperto de mão. Quando ia a entrar no carro, ainda
disse:
-É capaz de haver por lá ainda mais roupa! Trago nova carrada amanhã. Acha
que vale a pena trazer os livros dele?
A velha respondeu:
-Traga tudo o que tiver. O senhor padre gosta de livros.
A Gina pôs o motor a trabalhar e acrescentou:
-Ah, já me esquecia! Vou trazer-lhe a colecção de cachimbos. O senhor padre
vai gostar da colecção!
A Gina estava invulgarmente bem disposta. Apetecia-lhe dar tudo o que lhe
fizesse lembrar o velho e os anos que passara com ele. Fez marcha-atrás e dirigiu-se à
Prainha. Não lhe apetecia regressar a casa nem ao restaurante. Cantarolou durante a
curta viagem, estacionou o carro em frente da praia e pôs-se a andar a pé junto ao mar.
Pensou no corpo do amante e passou em revista as imagens dos dois, no apartamento do
António, na tarde da chegada dele. Mal podia esperar pela noite. Ansiava passar as
mãos pelo peito vigoroso dele e antecipava a imagem das ancas voluptuosas, cobertas
de pêlos, que ela costumava beijar com sofreguidão. Também gostava das pernas dele,
altas, fortes e musculosas, que ela prendia quando ficava por baixo dele. E como
gostava de ficar de braços abertos, com os pulsos presos, olhando para os bíceps que
inchavam à medida que ele a apertava com mais força! Quando o António se deitava de
barriga para baixo, ela sentava-se sobre as pernas dele, inclinando a cabeça sobre o seu
dorso e passando-lhe suavemente os cabelos pelas costas. Depois, deixava-se

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escorregar, estendendo-se sobre ele, e beijava-lhe as costas, enquanto passava as mãos
por baixo da barriga dele à procura do sexo.
Sabia que era preciso muito cuidado durante alguns meses para não levantar
suspeitas. Não havia nada pior do que dar a conhecer aquela relação amorosa, a tão
poucos dias do funeral do marido. Tinha de ser paciente: quem esperou tantos anos,
podia esperar mais alguns meses.
Nos dias seguintes, havia muita papelada para tratar. O velho não deixara filhos
e ela era a única herdeira. Sabia que o velho tinha casas alugadas em Boston e trezentos
mil euros em certificados de aforro. Não lhe seria difícil cumprir o sonho do António.
Deixaria passar um ano e comprar-lhe-ia um ginásio. Queria continuar a vê-lo como
uma estátua grega e sabia que a única coisa de que ele realmente gostava era fazer
exercício físico. Ia ter um homem só para ela que faria inveja às adolescentes da ilha.
Sabia que as mulheres da sua idade iriam censurá-la mas que importância tinha isso
perante o benefício de poder casar com o homem que amava, o rapazinho com quem
fizera amor pela primeira vez!?
Há dois dias que não metia os pés nos restaurantes. Resolveu, por isso, passar
por lá, para ver como é que as coisas estavam e dar algumas instruções ao pessoal.
Tinha absoluta confiança na Dona Gertrudes e na Dona Flávia, as cozinheiras, e, por
isso, não sentia qualquer preocupação. Mostrar-se-ia um pouco chorosa com a morte do
marido, diria que fora um alívio para o sofrimento dele mas que, apesar de tudo, sentia a
sua falta.
Dentro do carro, retocou as faces com um pouco de pó-de-arroz e ajeitou os
cabelos. Levava um vestido preto que lhe caía sobre os joelhos, umas meias de vidro
cinzentas e uns sapatos de salto raso, igualmente pretos. Olhou uma vez mais para si e
pensou que estava com ar de viúva. Quando estava prestes a estacionar o carro em
frente do restaurante, olhou para a esquerda e viu o António, sorridente, acenar-lhe com
a mão. Ela disse-lhe adeus com a mão esquerda e pronunciou com o movimento dos
lábios: Esta noite! Ele acenou com a cabeça e continuou a caminhar para não levantar
suspeitas. A Gina estava feliz e teve de fazer um esforço para não aparecer a rir no
restaurante. Recebeu as condolências dos empregados, fez um ar triste e trincou o
interior das bochechas para não mostrar o sorriso que, involuntariamente, lhe brotava
das faces.

Eram cinco da tarde quando estacionou o carro à porta da esteticista. Tinha uma
marcação para as dezassete e quinze minutos e não podia, por nada deste mundo, deixar
de fazer a depilação. Antes de sair do carro, passou com a mão direita pelas coxas e
sentiu os pêlos entre os dedos. Há duas semanas que não se depilava e não queria
aparecer nua à frente do António com pêlos de meio centímetro nas coxas. Sabia o
quanto ele gostava de a ver depilada e não podia dar-se ao luxo de o defraudar, numa
altura em que ele passeava, completamente livre, pelas ruas da Praia da Vitória,
atiçando o desejo das adolescentes que costumavam perder a cabeça por todos os
homens bonitos do Continente que apareciam na ilha.
Entrou no gabinete da esteticista e colocou um ar triste no rosto. Foi recebida
pela esteticista, uma mulher ainda nova, com os cabelos louros puxados para trás e uns
peitos grandes que pareciam querer furar a T-shirt apertada.
- Ai! Minha querida, nem calcula como fiquei triste quando soube da morte do
seu marido! Não é que fosse uma coisa inesperada, mas a morte vem sempre em má
hora! Tive muita pena de não ter ido ao funeral. Sabe como é, assim de repente não
podia mudar as marcações.

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-Foi tudo muito repentino. É certo, ele estava gravemente doente há vários anos,
mas eu não era capaz de imaginar que a morte viesse tão cedo – acrescentou a Gina,
deitando-se na marquesa.
-Foi bom ter sido repentino, assim sofreu menos – disse a esteticista, enquanto
lhe passava a cera quente pelas pernas.
-Estive quase para adiar a marcação, mas eu não posso ficar em casa todo o dia.
Vir aqui, distrai-me.
-Claro, a vida continua, a senhora é uma mulher ainda jovem e bonita, tem de
tocar a vida para a frente!
-É difícil, foram muitos anos ao lado dele. Sabe, eu estava habituada a cuidar
dele e agora sinto-me vazia – mentiu.
-Pense antes que lhe deu uma vida boa enquanto ele foi vivo. Via-se bem, na
cara do seu defunto marido, a felicidade que lhe ia na alma quando estava consigo!
-Isso é verdade! Nunca tivemos uma discussão e o carinho que nos unia era
muito grande. Agora que ele se foi, sinto um vazio no peito.
-Eu sei o que isso é. Perdi o meu marido após cinco anos de casamento.
-Devia voltar a casar! – acrescentou a Gina.
-Nos primeiros anos da viuvez, nem queria olhar para os homens. Agora, sinto-
me bem como estou. Se calhar, um homem só ia atrapalhar a minha vida. Bom, também
não há por aí muitos que estejam disponíveis e que valham a pena!
-Sabe, eu vivi sozinha até aos quarenta anos e, agora, sem ele, sinto-me de novo
sozinha. Vou ter de me habituar à ideia de viver naquela casa sem ninguém por perto.
-Oh, não diga isso. A senhora é uma mulher muito atraente, logo vai arranjar um
marido que a mereça.
A Gina sorriu e receou que a esteticista reparasse no ar de felicidade que
emanava do seu rosto. Voltou a colocar um ar triste e perguntou à esteticista:
-Não sente a falta de um homem naqueles dias em que apetece estar
acompanhada?
-Sinto, mas habituei-me a passar sem ele. As minhas duas filhas ocupam-me o
tempo todo. Foi por isso que nunca mais pensei em casar. Já a senhora é uma viúva
desimpedida e livre. Se eu não tivesse duas filhas, voltava a casar.
-Tem razão. Os filhos preenchem a nossa vida. Sem filhos e sem marido, sinto-
me só no mundo. Bom, o que vale é o trabalho. Tocar dois restaurantes para a frente não
é tarefa fácil. Pode crer, não me vai restar muito tempo para pensar em homens.
Quando a esteticista a mandou levantar, a Gina olhou para o relógio e viu que
eram dezoito horas e trinta minutos. O dia começava a escurecer e, em breve, iria
receber o António em casa. Ainda tinha de passar pelo restaurante e levar comida para
dois.
O restaurante estava vazio. A cozinheira estava na despensa e a Gina encheu um
tupperware com arroz de pato que sobrara do almoço. Meteu o tupperware dentro de
uma cesta, tapou com um pano e deixou o restaurante à pressa, sem se despedir da Dona
Gertrudes. Quando chegou a casa, abriu o chuveiro e a torneira e meteu-se na banheira.
Ensaboou o corpo com espuma de banho e ficou dentro da banheira, com as pernas
esticadas, até sentir a água a arrefecer. Uma sensação de tranquilidade e leveza inundou-
lhe o corpo nu provocando-lhe arrepios de felicidade. Quando estava a enrolar a toalha
ao corpo, ouviu a campainha a tocar. Era ele. Olhou para o relógio e viu que eram sete
horas da tarde. Correu para a porta de entrada e abriu-a. O António entrou e ela
perguntou se alguém o vira. Ele respondeu que não. Quando ele a abraçou, ela abriu a
toalha e encostou os seios, ainda molhados, ao peito do António.

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-Deixa-me ver-te. Estás bela! – exclamou o António, dando dois passos para
trás. - A Gina deixou cair a toalha no chão e ficou nua à frente dele.
-Quero beijar o teu corpo – disse o António.
O António pousou os lábios nos seios dela e deixou escorregar a cabeça até à
barriga, colocando-se de joelhos. A Gina abriu as pernas e, mantendo a mão direita
sobre a cabeça dele, deixou que ele afundasse a boca no seu sexo.

66
NOVE
A Gina sentia que o tempo estava a passar depressa de mais. Quando fez 53
anos, foi tomada por uma onda de pânico e andou todo o dia deprimida. Pensava nas
transformações físicas que os anos seguintes lhe iam provocar. Até quando ela iria ser
capaz de manter um corpo jovem e uma cara atraente? O que iria acontecer aos seus
cabelos? Iriam as suas pernas manter-se rijas e fortes? E a sua barriga, continuaria lisa?
Quando passava as suas mãos compridas pelas pernas, perscrutava-as, tomada de grande
ansiedade, à procura de indícios de alguma variz que lhe pudesse roubar a beleza física.
Finalmente, vira-se livre dos incómodos da menstruação mas, por outro lado, os
arreliadores afrontamentos anunciavam a menopausa e aquilo que ela mais temia: a falta
de apetite sexual. Com a chegada do António, sentia-se rejuvenescer mas receava que
esse retorno à juventude fosse temporário. Conhecia mulheres que se tornaram obesas e
flácidas na sequência da menopausa e ela não queria acabar dessa maneira. Tinha um
cuidado extremo com a comida, nunca ingeria doces e raramente comia pão. De manhã,
depois do banho, passava uma boa meia hora a massajar as pernas com um creme contra
a celulite. Há três ou quatro meses que detectara duas pequenas estrias a despontarem
uns centímetros acima das ancas e ficara em pânico. E se o António reparasse nelas?
Antes de começar a vestir-se, abria as mãos, com as palmas para baixo e ficava uns
momentos a olhar para a pele enrugada e os sinais negros que se estendiam da base dos
dedos até aos pulsos. Tinha mãos de velha. Sempre tivera mãos de velha. Se não fossem
aqueles sinais escuros espalhados pelas mãos, bem poderia dizer que as suas mãos eram
belas. Tinha uns dedos compridos e estreitos e umas unhas muito brancas e regulares. O
pior eram as engelhas e aquelas veias salientes! Quando olhava para as mãos do
António, umas mãos belíssimas com dedos compridos e finos, unhas impecavelmente
brancas e pele imaculada, sem o mais pequeno sinal de velhice, dava por si a esconder
as suas com medo de que ele as comparasse. Por que seria que as mulheres ficavam com
as mãos velhas tão cedo? Depois de se vestir, gostava de passar uns segundos em frente
do grande espelho que cobria a porta do guarda-fatos. Era então que reparava na beleza
da sua cara e na elegância do seu corpo. Após o pequeno-almoço, a Gina recolhia-se na
casa de banho e escovava os dentes. Gostava de apreciar os seus dentes e agradava-lhe o
que via: uns dentes de uma brancura imaculada que ela evidenciava quando soltava uma
gargalhada. O pescoço continuava gracioso e esbelto mas as rugas tinham substituído
aquilo que fora, em tempos, uma pele sedosa e macia.
A Gina pediu ao António para passar o dia de aniversário junto dela. Era uma
terça-feira e, naquele dia, fazia três meses que o velho fora a enterrar. Acordou triste e
receosa. Quando é que ela poderia passear, de mão dada, com o António pelas ruas da
Praia da Vitória? Estava a ficar impaciente. Tinha esperado uma vida por esse momento
e, agora que o António morava a escassos quilómetros da sua casa, tinha medo de andar
com ele na rua. E se a polícia a andasse a vigiar? No outro dia, tivera a sensação de estar
a ser seguida por um carro. Seria impressão dela ou o carro preto que circulava atrás do
seu, durante mais de dez minutos, era da polícia? Quando pegava no telefone fixo,
ficava com receio de estar a ser objecto de escuta. Na semana passada, as suas
chamadas para o António foram interrompidas, diversas vezes, por uma voz metálica da
Portugal Telecom. Parecia-lhe ser uma gravação, mas a que se devia tanta interrupção?
Quando é que ela poderia ser vista com o António sem levantar suspeitas? E o que
diriam as pessoas que a conheciam? Durante os anos que passara na Praia da Vitória

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não fizera um único amigo. Dedicava todo o seu tempo ao trabalho e, quando podia
gozar umas férias, preferia ausentar-se para os Estados Unidos da América e para o
Canadá. Gostava particularmente da cidade de Boston, onde ia todos os anos, em
Setembro, e onde tinha algumas propriedades que o velho lhe deixara. De repente, a
Gina começou a pensar em ir viver para Boston. Venderia os restaurantes e, com o
dinheiro, poderia iniciar uma nova vida, longe das memórias do passado e livre das
suspeitas e das críticas. Agora que era, finalmente, uma mulher livre, não queria que a
sua felicidade, ao lado do António, pudesse ser ameaçada pelas suspeitas que uma
ligação de uma viúva com um homem mais novo poderia levantar numa comunidade
pequena. Receava, sobretudo, que a polícia começasse a investigar o passado do
António. Poderiam muito bem chegar à conclusão de que se conheciam há muitos anos.
Os registos do colégio tinham passado para as mãos do Estado, em 1975, na sequência
da nacionalização do estabelecimento de ensino. A polícia poderia querer saber a razão
da súbita vinda do António para a Ilha Terceira. Se a polícia conseguisse estabelecer
uma relação entre ela e a vinda do António para a Ilha Terceira, estaria perdida. A
polícia começaria a deduzir que a morte do velho fora demasiado oportuna e, quem
sabe, alguém poderia ordenar a reabertura do processo. Tinha ouvido falar de
exumações de cadáveres, testes de ADN e outras coisas parecidas que conduziram à
descoberta de crimes muito parecidos com o que ela tinha cometido e, quando pensava
nessa possibilidade, a sua testa ficava inundada de suores frios e o peito parecia saltar-
lhe pela boca. Deitava-se na cama mas não conseguia dormir. Ouvia barulhos vindos do
quarto ao lado, levantava-se, esquadrinhava a casa à procura de alguma coisa ou de
alguém, mas a única coisa que pressentia dentro de casa era o cheiro a velho, uma
mistura desagradável e nojenta de suor, urina, medicamentos e sangue. Quando o
António chegou a sua casa, a Gina fez-lhe o convite:
-Amor, tenho andado a pensar em mudar-me para Boston. Sou capaz de o fazer
se estiveres disposto a acompanhar-me. Repara: com o dinheiro dos restaurantes e mais
algum que tenho no banco, podemos recomeçar uma nova vida numa cidade onde
ninguém nos conhece. Além do mais, o velho deixou lá várias casas alugadas. Com o
dinheiro das rendas podemos levar uma bela vida!
-Não te sentes bem aqui? Tens medo de alguma coisa? – perguntou o António,
segurando-lhe as mãos.
-Sabes como é, isto é um meio pequeno, as pessoas vão criticar a nossa diferença
de idades. Afinal, o velho morreu há três meses! – justificou-se, acariciando-lhe a
cabeça.
-Gina, mas estamos aqui tão bem! Podemos esperar mais algum tempo até
andarmos juntos na rua!
-Mas tu não percebes que eu estou farta de esperar por ti! Não posso perder mais
tempo! Já tenho 53 anos. Até quando vou conseguir manter este aspecto? Será que tu
vais continuar a amar-me quando eu tiver sessenta anos?
-Claro que vou – respondeu o António, dando-lhe um beijo na testa.
-Eu só te peço para pensares nessa possibilidade, está bem? Poderia comprar-te
um ginásio, em Boston. Ou poderíamos montar um restaurante com comida portuguesa.
Já te imaginaste a viver comigo numa grande cidade? Não te sentes demasiado apertado
nesta ilha? – perguntou a Gina, encostando a cara à dele.
-Prometo que vou pensar nisso mas não percebo a razão da tua pressa.
-Amor, não é pressa, é vontade de te ter só para mim, a todas as horas do dia,
sem ter de andar a ver-te às escondidas.
-Gina, ainda só passaram três meses! Com o passar do tempo, as pessoas
esquecem-se e depressa se habituarão a ver-nos juntos!

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-Bom, vamos esquecer isso. Anda daí, quero partir o bolo de aniversário contigo
ao meu lado.
Em cima da mesa, estava um bolo vulgar. Se não fossem as velas, dir-se-ia que
era um simples bolo que se destinava a acompanhar um chá. A Gina acendeu as velas e,
depois, apagou-as com um sopro, enquanto o António cantava os parabéns a você.
Quando o António acabou de cantar, a Gina começou a chorar. Soluçava
convulsivamente. O António passou-lhe as mãos pelos cabelos e encostou a cabeça dela
no seu peito. A Gina levantou a cara, olhou para ele, e o António limpou-lhe as
lágrimas.
-Não precisas de ter medo – disse-lhe.
-Mas tenho. Tenho medo de envelhecer. Olha para as minhas mãos. Tenho umas
mãos de velha. Qualquer dia, vais achar que eu também cheiro a velha.
-Não tens nada mãos de velha. As tuas mãos são compridas e finas e as tuas
unhas estão impecavelmente arranjadas. Onde é que foste buscar essa ideia tão parva? –
perguntou o António, chupando-lhe a ponta dos dedos.

O António andava impaciente há várias semanas. Sempre que encontrava a Gina,


perguntava-lhe quando é que ela lhe montava o ginásio. A Gina arranjava uma desculpa,
dizia que ainda era cedo e que continuava a pensar na ida para Boston. Cada dia que
passava, fazia aumentar nela o desejo de deixar a ilha. Começava a sentir-se mal em
casa. Nunca mais entrara no quarto do velho e as insónias aumentavam de frequência a
cada dia que passava. Começou a tomar comprimidos para dormir e, de manhã, quando
acordava, olhava para o espelho e não gostava do que via. As pequenas rugas, junto aos
olhos, eram agora mais profundas. Os afrontamentos passaram a ser mais frequentes e
dava por si a ralhar com os outros. Onde é que estava o seu gosto pela vida? Os
primeiros cabelos brancos apareceram-lhe nas fontes. Sentia-se cansada e sem forças.
Começou a faltar às aulas de aeróbica e a arranjar desculpas para não ir correr aos
domingos de manhã. Andava triste e desconfiada. Dava por si a perguntar se não teria
sido melhor esperar que o velho morresse. Quando via um polícia junto da sua casa,
ficava paralisada. De noite, tinha pesadelos. Sonhava com homens, vestidos de negro,
que andavam a seguir os seus movimentos. Via-se num corredor escuro, a gritar por
socorro sem ter ninguém que lhe valesse. Às vezes, acordava, de repente, com a visão
da cara do velho, de olhos semiabertos e com a língua de fora. Quando passava junto da
porta do quarto do velho, sentia o cheiro a vomitado, a medicamentos e a suor.
Pendurou folhas de eucalipto na parede mas o cheiro manteve-se. Ao entrar em casa, à
noite, era acometida por ataques de pânico. Começou a pensar em abandonar aquela
casa porque a presença do velho era mais intensa a cada dia que passava. Quando se
encontrava, às escondidas, com o António, via em cada rosto um polícia. Por vezes, ao
andar na rua, tinha a sensação desagradável de que as pessoas a olhavam com ar de
censura e até a esteticista parecia recebê-la com um sorriso trocista.
A Gina tinha tomado uma decisão definitiva: iria para Boston. Telefonou ao
António e anunciou a decisão. O António colocou algumas objecções mas acabou por
aceitar. Dirigiu-se a uma agência imobiliária e pôs os restaurantes à venda. Não teve de
esperar muito tempo. Um casal de emigrantes no Canadá, ansioso por regressar aos
Açores, aceitou o preço pedido pela Gina. O negócio fez-se e, duas semanas depois, a
Gina fez as reservas da viagem.

A Gina estava deitada no sofá quando tocaram à campainha. Levantou-se e


correu para a porta. Abriu a porta, com um sorriso nos lábios, pensando tratar-se do

69
António. Ficou gelada quando viu um homem, de fato completo, óculos escuros e
bigode.
-Posso entrar? – perguntou o homem, encostando o ombro direito à umbreira da
porta. - A Gina ficou petrificada e não conseguiu emitir palavra. Ficou especada à frente
do inspector, com a boca semiaberta, sem dizer nada. - Importa-se que eu entre? –
voltou a perguntar o inspector, dando dois passos para dentro do hall.
A Gina despertou da letargia e respondeu, gaguejando:
-Po-pode.
-Faz ideia do que me traz aqui? – perguntou o homem, cofiando o bigode.
-Não faço, era suposto saber? – disse a Gina.
-Não me manda entrar?
-A que devo a sua visita?
-Tenho umas perguntas a fazer-lhe sobre esse rapaz que chegou do Continente
há três meses. A propósito, sou o inspector Martins.
-Qual rapaz?
-Posso sentar-me? – perguntou o inspector, apontando para um cadeirão que
ficava em frente do sofá.
-Faça favor!
-Bom, um tal António que vive numa casa alugada em Angra.
A Gina trocou as pernas, o vestido azul-escuro subiu acima do joelho e ela
reparou que o inspector fixou o olhar nas suas pernas. Esteve uns segundos a pensar na
resposta que havia de dar e, depois, esclareceu:
-Ah, o António! Bom, é uma história comprida mas, se o senhor quiser, eu posso
contá-la.
-Não estou aqui para outra coisa – disse o inspector, continuando a mirar-lhe as
pernas pelo canto do olho.
-Conheci o António quando ele era um miúdo. Tomei conta dele no colégio,
tinha ele dezasseis anos. Ficámos amigos, desde aí. O rapaz fez-se homem, casou e
enviuvou há quatro ou cinco meses. A mulher morreu num acidente de automóvel. O
sogro meteu-o fora de casa e ele viu-se, de repente, sem emprego nem dinheiro. Foi
então que ele se lembrou de me procurar. Apareceu aqui na Praia, sem um tostão e eu,
com pena dele, arranjei-lhe uma casa em Angra.
-Estou a ver! Um acto de solidariedade, não é verdade? Teve pena do pobre
rapaz! Mas só não entendo por que razão a senhora tem medo de ser vista com ele!
-Ora, por que razão havia de ser! O senhor acha que fica bem, a uma viúva
recente, ser vista com um homem que ninguém conhece? – esclareceu a Gina,
colocando-se de pé.
Sem esperar pela resposta do inspector, a Gina correu para a cozinha, abriu o
frigorífico e tirou de lá um jarro com sumo de laranja. Encheu dois copos com sumo e
levou-os, numa bandeja, para a sala de estar.
-Beba! Tinha acabado de fazer este sumo de laranja quando o senhor tocou à
campainha.
O inspector aceitou o copo e bebeu o sumo.
-Bem, nisso estamos de acordo. A Praia é uma cidade pequena e não é vulgar
ver-se uma mulher que acabou de perder o marido a passear em público com um
desconhecido, ainda por cima jovem. E a senhora é uma mulher que não deixa ninguém
indiferente.
-O que é que o senhor inspector quer dizer com isso? – perguntou a Gina,
voltando a sentar-se.
-Quero dizer que a senhora é uma mulher muito bonita.

70
A Gina trocou as pernas e o vestido subiu um palmo acima do joelho. O
inspector continuou a cofiar o bigode e a mirar as pernas dela pelo canto do olho.
-É muita simpatia sua, mas mulheres mais bonitas do que eu há centenas aqui na
cidade.
-Com a sua idade, não há mais nenhuma. A senhora é uma mulher com muita
classe, muita elegância – acrescentou o inspector.
-Quer saber mais alguma coisa ou ficou esclarecido? – perguntou a Gina, dando
dois passos em direcção à porta de entrada.
-Bom, só queria saber mais uma coisa.
-O quê?
-Por que razão a senhora vendeu os restaurantes?
A Gina parou à entrada da porta, pensou na resposta a dar e respondeu:
-O senhor inspector esquece-se de que eu não sou de cá. Vivi muitos anos no
Continente e gosto de grandes espaços. Enquanto o meu marido era vivo, tinha razões
de sobra para permanecer aqui. Agora, não vejo nenhuma. Foram muitas as vezes em
que tentei convencê-lo a deixarmos a Terceira mas ele era um ilhéu muito teimoso.
Queria morrer na terra onde nascera.
-Sim, estou a ver. E quando é que pensa deixar-nos?
-Ainda não sei bem. Estas coisas levam o seu tempo.
A Gina apercebeu-se que, nesse momento, estava a mentir. E se o inspector
soubesse da reserva para Boston? Bom, não era provável que soubesse. A reserva fora
feita no dia anterior, ao fim da tarde.
-E já sabe para onde é que vai? – perguntou o inspector, parando à frente da
porta.
-Bom, tenho alguns planos mas está tudo ainda muito verde. Talvez regresse ao
Continente mas ainda não é para já – respondeu a Gina, preparando-se para fechar a
porta.
O inspector deu dois passos em direcção ao carro, estacionado em frente da casa
da Gina e, quando se preparava para abrir a porta, olhou para trás e disse:
-Bom, até breve! Obrigado pelas informações.
-Volte, sempre que quiser!
-Pode crer que eu volto!
A Gina sentiu o corpo gelar, acenou-lhe com a mão direita, fechou a porta e
lançou-se no sofá com o coração aos pulos.
Deixou-se estar com a mão direita sobre a testa a tentar lembrar-se de todas as
palavras do inspector. Não havia dúvidas: o homem suspeitava dela. E o que é que ela
fizera, nas últimas semanas, para ter levantado suspeitas? Tinha-se encontrado com o
António cinco vezes: duas vezes, na estrada do mar, a caminho de Angra, uma vez na
casa dela e outras duas na casa dele. Seria isso o suficiente para levantar suspeitas?
Procurou acalmar-se, levantou-se do sofá e foi à cozinha preparar um chá. Agora era
preciso saber o que é que devia fazer daí em diante. Faltavam três dias para deixar a
ilha. E se o inspector ficasse a saber das suas intenções? Se ela fosse apanhada, no
aeroporto, na companhia do António, as suspeitas ganhariam mais consistência. Passaria
a haver matéria suficiente para fazerem a exumação do cadáver. Bom, era preciso que o
António partisse no mesmo dia para um destino diferente. A partir do momento da sua
inusitada partida, de suspeita pela morte do marido, passaria a ser procurada por
assassínio. Boston deixaria de ser um lugar seguro. Teria de pensar noutra cidade ou,
talvez, noutro país. Pegou num atlas que tinha, há muitos anos, guardado numa gaveta
da secretária e pôs-se a olhar para os países que formavam a América do Sul. O Brasil
pareceu-lhe uma boa ideia. Ficaria algum tempo no Rio de Janeiro. Depois, iria com o

71
António para uma cidade do interior, um sítio onde não houvesse portugueses nem
turistas. Queria esquecer o passado e pôr um ponto final na sua relação com Portugal.
De repente, teve uma ideia. Estava decidida a ir sozinha, porque a sua partida,
acompanhada do António, seria mais notada. Em minutos, traçou um plano. Apanharia
um voo para Boston e, de lá, iria, de comboio, para Nova Iorque onde passaria uns dias.
Em Nova Iorque, apanharia um avião para o Rio de Janeiro. O António iria juntar-se a
ela mais tarde. É claro, ele não poderia ficar na ilha, porque se tornaria suspeito de
cumplicidade. O melhor era ele apanhar um avião para Lisboa, rumar, de comboio, até
Madrid e seguir depois para o Rio. Passou em revista o plano e achou-o consistente.
Ligou para a agência e alterou a reserva do António.

72
DEZ

A Gina não queria correr o risco de ser vista a entrar no apartamento do António
e receava que a sua casa estivesse sob vigilância. Foi por isso que disse ao António que
queria encontra-se com ele na Prainha, pelas dez horas da manhã. Quando saiu de casa,
tomou todas as precauções. Examinou cuidadosamente os carros estacionados nas
redondezas e verificou se estavam vazios. Levava vestido, propositadamente, o fato de
treino e caminhou, com passo apressado, em direcção ao mar. Foi a primeira a chegar.
A praia estava deserta e ela estendeu-se sobre uma rocha plana, de costas voltada para o
mar para poder verificar se estava a ser vigiada por alguém. O António chegou dez
minutos depois. Trazia uns jeans velhos e a barba por fazer.
-Amor, estou metida em sarilhos. Por favor, não me obrigues a contar nada.
Quanto menos souberes, melhor para ti. Peço-te apenas que confies em mim – disse a
Gina, sem se levantar e olhando o António que permanecia de pé, à sua frente.
-Eu não vou perguntar nada mas tenho de confessar que estás com um ar
assustado e isso preocupa-me – disse o António, sentando-se ao lado dela.
-Bom, vamos deixar a ilha depois de amanhã. Eu vou para Boston e tu vais para
Lisboa.
-O que é que estás a dizer? – perguntou o António.
-Espera, deixa-me continuar. Embarcamos no mesmo dia, a horas diferentes.
Espero por ti, no Rio de Janeiro, no início da próxima semana. Quando chegares ao
aeroporto de Lisboa, apanhas um táxi para Santa Apolónia. Segues depois, de comboio,
até Madrid. É aí que vais apanhar o avião para o Rio.
-Mas, assim de repente…- objectou o António.
-Não me peças explicações. Houve apenas.
-Sou todo ouvidos.
-Então, deixa-me acabar. Toma bem atenção ao que te digo! Não pagues nada
com cartão de crédito nem levantes dinheiro nas caixas automáticas. Guarda esta
carteira: tem dólares suficientes para suportares as tuas despesas durante a próxima
semana. Tem também o bilhete de avião. Tu vais chegar ao Rio primeiro do que eu. Só
tens de ir, todos os dias, às chegadas internacionais e ficar atento aos passageiros que
vêm de Nova Iorque. Não te esqueças: o meu voo sai de Nova Iorque. Durante a tua
estadia no Rio, não deves privar com ninguém nem podes sair à noite. Percebeste?
-Achas que tem mesmo de ser? Não seria melhor irmos juntos? – perguntou o
António com ar de preocupação.
-Tem de ser como eu digo – respondeu a Gina com a voz trémula.
-Mas sair daqui, assim, à pressa. Não seria melhor discutirmos o assunto?
-Isto não tem discussão. Não me perguntes nada, por favor. Faz apenas o que eu
te digo.
- Pronto! Eu faço o que tu dizes. A que horas sai o meu avião para Lisboa? –
perguntou o António.
-Sai às onze horas. O meu é três horas mais cedo. Bom, só voltaremos a ver-nos
daqui a uma semana, no Rio. Amo-te muito. Lembra-te apenas que faço isto por ti. Não
me perguntes porquê. Pensa apenas que é necessário. Adeus, amor. Vemo-nos no Rio –
disse a Gina, levantando-se para, de seguida, se pôr a correr em direcção à estrada. Ele

73
ficou, de pé, a olhar para ela e só se mexeu quando o vulto da Gina se transformou
numa mancha escura que se confundia com os automóveis em movimento.

Na véspera da partida, a Gina fez uma lista dos móveis e dos electrodomésticos e
escreveu, por baixo, com o seu punho, que o recheio da casa se destinava à Santa Casa
da Misericórdia. Decidira levar apenas um saco e, quando olhou para a roupa que se
amontoava sobre a cama, teve pena de deixar para trás os vestidos de que mais gostava,
mas pensou: assim, ninguém vai desconfiar.
Chegou ao aeroporto das Lages duas horas antes da partida. Fez o check-in e, de
seguida, foi tomar o pequeno-almoço no restaurante-bar. De vez em quando, olhava
para o painel electrónico para ver se o voo Ilha Terceira-Boston já estava anunciado.
Pegou no Diário de Notícias da véspera e pôs-se a ler o jornal, levantando os olhos, de
minuto a minuto, para o painel. Às sete horas, surgiu no ecrã a tão esperada partida e
sem atraso. A Gina sorriu e esfregou as mãos. Pediu mais um sumo de laranja e,
enquanto bebia, pensava: vai correr tudo bem!
Meia hora mais tarde, ouviu a chamada para embarque. Levantou-se da cadeira
e, munida do seu talão de embarque, colocou-se na fila. Estava nervosa e cada novo
vulto que passava em seu redor parecia-lhe ser o inspector. Os dez minutos que passou
na fila de embarque foram uma eternidade. Quando entrou no avião, suspirou de alívio.
Avançou até ao meio e sentou-se no último lugar da fila. Pegou no Público e começou a
ler as notícias do dia. Em minutos, o avião ficou cheio e as portas foram trancadas. A
Gina voltou a suspirar de alívio. O pessoal da cabina deu as instruções habituais e o
piloto avisou que o avião ia descolar. Quando a Gina começou a ver o avião a rolar pela
pista e o edifício do aeroporto a ficar para trás, foi inundada por uma imensa alegria. A
ilha era agora um minúsculo tapete verde e, por baixo do avião, ela viu um imenso mar
azul que ela julgava ser a estrada para a sua felicidade. Adormeceu e só acordou quando
a hospedeira lhe perguntou se desejava alguma bebida.
Estremeceu ao acordar mas, quando viu uma mulher vestida de azul, com um
carrinho de comida à sua frente, soltou uma gargalhada nervosa e gaguejou:
-Po-pode ser sumo de laranja.
A hospedeira sorriu e disse:
-Assustei-a? Oh! Desculpe!

74
ONZE

Duas horas antes do voo, o António tomou um táxi para o aeroporto das Lages.
Trazia umas calças de ganga, uma camisa azul e um blusão de cabedal debaixo do
braço. Deixou quase tudo no apartamento de Angra menos a máquina de barbear, a
escova e a pasta de dentes, quatro pares de meias, três boxers, duas calças e duas
camisas. Coube tudo numa saco de viagem suficientemente pequeno para não ter de ir
no porão do avião.
O voo para Lisboa tinha um atraso de quarenta minutos e o António resolveu
sentar-se no restaurante-bar, onde duas horas antes a Gina estivera sentada. Tomou um
pequeno-almoço frugal, leu o Público e ficou a olhar para as mulheres que passavam
apressadas, umas para fazerem fila na porta de embarque, outras para irem à casa de
banho.
O António não conhecia, ao certo, as razões que explicavam a súbita decisão da
Gina nem a pressa com que parecia estar a fugir de alguém, mas desconfiava que, o que
quer que fosse, estava relacionado com a morte do velho. O que o intrigou mais foi o
facto de ela ter ido para Boston e de o forçar a ir para Lisboa. Por que razão não tinham
partido ambos para Boston? Por momentos, acudiu-lhe à mente a hipótese de homicídio
mas depressa concluiu que a Gina não era capaz de cometer uma loucura daquelas.
Sabia que a Gina era uma mulher corajosa, decidida e impulsiva, mas não a via capaz de
matar. Bem, o amor em excesso leva-nos a fazer todas as loucuras, mas daí a cometer
um crime vai uma distância que a Gina não era capaz de percorrer. Se ela não estava a
fugir da polícia, então do que seria? Estaria a Gina com receio de que a sua relação
amorosa com ele pudesse levantar suspeitas? Nesse caso, previdente como era, estaria
apenas a acautelar o futuro. Talvez ela temesse não poder ser feliz numa cidade tão
pequena! Quem é que iria aceitar o seu casamento com um homem muito mais novo do
que ela? Afinal, ela era um viúva de 53 anos, uma mulher madura, com uma vida feita,
e a Praia da Vitória não era o sítio ideal para dar uma reviravolta de trezentos e sessenta
graus.
O António olhou mais uma vez para o painel electrónico e reparou que faltavam
apenas trinta minutos para o embarque. Levantou-se e pôs-se na fila. À sua frente,
estava uma mulher loura e gorda que não parava de ralhar com o filho. Passados
escassos minutos, um homem de óculos escuros, de bigode, e com o cabelo muito curto,
parou atrás de si. Momentos depois, surgiu outro homem de óculos escuros,
completamente calvo, que se colocou atrás do primeiro. O António ficou com a
sensação de que já se tinha cruzado com aqueles homens em algum lado. Pensou um
pouco e concluiu que os vira à porta da sua casa, dentro de um carro, quando estava a
entrar no táxi. Os homens permaneceram quietos e em silêncio mas não pararam de
olhar para o António que começou a ficar com a certeza de que eles eram polícias. A
Gina dissera-lhe para tomar cuidado com a presença de pessoas suspeitas mas agora não
havia nada a fazer, estava a dois passos de entrar na manga que o havia de levar ao
avião e não podia voltar para trás. Quando chegou a sua vez de apresentar o talão de
embarque, o homem que estava atrás dele mostrou a identificação da polícia judiciária e
apresentou-se como o inspector Martins. O segundo homem colocou-se à frente do
António e pediu para ele os acompanhar.
-Mas eu tenho de apanhar o avião para Lisboa – ripostou o António.

75
-Não se preocupe, se perder esse avião, apanha outro.
O António acompanhou os homens de volta ao hall do aeroporto e, por
momentos, ainda pensou que aquilo era um mal-entendido que se iria resolver com
facilidade. Eles deviam andar à procura da Gina, mas ele diria que não sabia onde é que
ela estava; não tinha cometido nenhum crime e, por isso, tudo ficaria esclarecido com
facilidade.
O António saiu do aeroporto acompanhado pelos dois homens e entrou num
carro que o levou de regresso a Angra. No caminho para Angra, António imaginou a
Gina a voar sobre o Atlântico, sentada confortavelmente no avião, a comer a primeira
refeição do dia com um sorriso nos lábios, e amaldiçoou a hora em que ela decidiu
viajar sem ele.
Meteram-no numa sala pintada de branco, com as paredes nuas. Havia uma
secretária, um computador e duas cadeiras. O inspector escondeu-se atrás da secretária e
mandou-o sentar-se na cadeira que estava em frente. O homem ficou em silêncio a olhar
para o António, depois enfiou a cabeça num dossier e esteve quase meia hora a ler uns
documentos, enquanto o António permanecia sentado sem saber o que se passava. Por
fim, o inspector começou a falar, cofiando o bigode:
-Antes de mais, quero lembrá-lo que pode chamar um advogado. O senhor vai
ser interrogado por mim e a lei confere-lhe o direito de ficar calado e de pedir a
presença de um advogado.
-Não preciso de advogado para nada. Não cometi nenhum crime! – interrompeu
o António, elevando a voz.
-Tenha calma! Quer dizer-nos para onde foi a Dona Gina?
-Não sei mas gostava de saber por que razão fui impedido de tomar o avião para
Lisboa! – respondeu o António visivelmente irritado.
-Não se irrite! Aqui quem pede esclarecimentos sou eu. A si, compete-lhe
responder às minhas perguntas. Vá lá, não dificulte. Nós até sabemos para onde é que
ela foi. Não é assim tão difícil, pois não? O senhor não sabe que os aeroportos têm o
registo dos passageiros?
O António tomou consciência de que o inspector já sabia que a Gina tinha ido
para Boston e respondeu:
-Pronto, foi para Boston. O que é que eu tenho a ver com isso? Eu ia para
Lisboa. Não tenho qualquer ligação familiar com ela. Somos apenas amigos!
-Então, eu vou direito ao assunto. Há sérias suspeitas de que a Dona Gina tenha
assassinado o marido e o seu comportamento leva-nos a pensar que o senhor sabe mais
do que aquilo que quer dar a entender.
O António ficou em silêncio. No seu cérebro, começaram a passar imagens da
Gina e das conversas que ambos tiveram nos últimos dias. Agora, havia explicação para
a pressa que ela tinha em deixar os Açores e para a ansiedade e o nervosismo de que
dera mostras nos últimos dias! Percebia, por fim, a razão do seu silêncio.
-Não sei do que é que o senhor está a falar e gostava que me apresentasse provas
do meu envolvimento – disse o António.
-Por agora, não temos provas, apenas suspeitas. Vamos exumar o cadáver e, em
breve, ficaremos a conhecer a verdadeira causa da morte. Só nessa altura, podemos
afirmar se o homem foi assassinado ou se morreu de morte natural. A confirmarem-se
as nossas suspeitas, o senhor teve conhecimento das intenções da Dona Gina; se é que
não colaborou directamente no crime! A opção é sua: pode colaborar connosco,
facilitando a sua vida ou pode ficar calado mas, nesse caso, as coisas ficarão bem piores
para si, caso haja evidências do seu envolvimento.

76
-Realmente, não há nada que eu possa dizer sobre esse caso. Cheguei aos Açores
há três ou quatro meses disposto a fixar-me aqui. A minha intenção era montar um
ginásio e a Dona Gina manifestou disponibilidade para ser minha sócia. Só isso: não se
passou mais nada.
-Não minta, por favor. Há mais alguma coisa. Nós sabemos que é amante dela.
Andámos a vigiá-la nas últimas semanas e foi a relação clandestina que ela manteve
consigo que alimentou as nossas suspeitas. É melhor dizer-nos a verdade. O senhor não
vê que ela o deixou para trás?
-Que eu saiba não é crime amar uma mulher, pois não?
-Não, isso não! Mas encobrir um homicídio já é crime!
O António começou a ficar farto de tanta pergunta. Olhou para o relógio: eram
treze horas e trinta minutos. Estava com fome. Pediu ao inspector que lhe desse duas
horas para pensar. Depois do almoço, já com a presença de um advogado, voltariam a
conversar. O inspector aquiesceu e perguntou o que é que ele queria para almoçar. O
António respondeu que podia ser uma piza.
O António comeu uma piza que o inspector mandou buscar a uma pizaria que
ficava a duzentos metros das instalações da polícia judiciária. Tinha mais uma hora para
decidir o que havia de fazer. Começava a perceber que a Gina se tinha metido num
grande sarilho e que o tinha deixado para trás. Se tivesse ido com ela para Boston,
estariam os dois, a salvo, sobre o Atlântico. Queria saber a razão por que ela o tinha
deixado para trás, mas a única explicação que lhe vinha à mente era o excesso de
cautela da Gina. E agora, o que é que ele poderia fazer para salvar a pele?
Impossibilitado de comunicar com a Gina, tinha de tomar uma decisão sozinho. E se
dissesse a verdade? O advogado era um rapaz novo, inexperiente, com boa aparência,
que o António conhecia do ginásio. Usava um fato escuro de bom corte e uma gravata a
condizer e tinha o cabelo curto puxado para trás, preso ao couro cabeludo com gel ou
qualquer outro produto semelhante. Apresentou-se e disse que queria saber a verdade. O
António contou-lhe tudo. O advogado aconselhou-o a contar tudo à polícia. Se fosse
provado que a Gina tinha assassinado o velho, não havia maneira de o associarem ao
crime. Quando muito, podiam invocar conhecimento das intenções da Gina e
encobrimento. Mas, como é que iriam provar um facto inexistente? Não havia dúvidas:
o António não tinha nada a temer.
Às duas horas da tarde, o inspector Martins entrou na sala, cumprimentou o
advogado e disse, virando-se para ele:
-Espero que o tenha ajudado a tomar a decisão acertada. Vai contar a verdade,
não vai? – perguntou, olhando fixamente para o António que não parava de passar a
mão direita pelo cabelo.
-Não tenho razões para ocultar a verdade. Pode escrever o que tenho a dizer.
-Está disposto a assinar uma declaração? – perguntou o inspector, puxando de
um cigarro.
O António acenou com a cabeça e o inspector chamou uma secretária. Era uma
jovem bonita, de cabelos louros e de olhos azuis. Usava uma saia curta, muito travada,
que subiu até ao meio da coxa quando ela se sentou na cadeira. O António reparou que
o inspector não cessava de olhar para as pernas da rapariga e achou graça. A rapariga
pôs o computador a funcionar e ficou uns momentos de pescoço esticado à espera de
ouvir as primeiras palavras do António. À medida que o António falava, ela martelava
nas teclas do computador.
O António contou que, após a morte da sua mulher, num acidente de viação,
recebeu um convite da Gina para viver na Ilha Terceira. Amavam-se havia muitos anos.
Nas primeiras semanas, encontraram-se algumas vezes no apartamento, em Angra.

77
Soube da morte do velho por um telefonema da Gina. Quando enviuvou, a Gina pediu-
lhe para deixarem a ilha. Ele não gostou da ideia porque tinha planos para montar um
ginásio na Praia da Vitória. A Gina insistiu e, de repente, disse-lhe que tinha vendido os
restaurantes e que estava decidida a ir para Boston. Com a saída da Gina, ele não tinha
mais nada a fazer nos Açores. Foi essa a razão que o levou a partir para Lisboa.
-É tudo? – perguntou o inspector. - O António acenou com a cabeça e pediu uma
esferográfica para assinar a declaração. O inspector coçou a cabeça e disparou: - Há
uma coisa que me intriga: por que razão abandonou o apartamento à pressa, deixando lá
a maior parte da sua roupa?
-Olhe, paguei dois meses adiantados e ainda pretendia voltar – mentiu o
António.
-Voltando atrás. Onde é que o senhor estava na noite em que o velho morreu?
-Há pessoas que me viram no ginásio. Estive lá até às nove horas da noite e
depois fui jantar ao restaurante da Gina – respondeu o António.
-Em Angra?
-Sim, em Angra.
-Quando é que soube que o velho tinha morrido? – inquiriu o inspector.
-No outro dia de manhã, através de um telefonema da Gina.
O inspector deu-se por satisfeito, deu-lhe a declaração para assinar e, à saída, da
sala, ainda disse:
-Mantenha-se à nossa disposição! Não deixe a ilha sem nos avisar!
O António deixou as instalações da polícia judiciária na companhia do jovem
advogado que, satisfeito com o interrogatório, não parava de dizer que o caso estava no
papo. O advogado, visivelmente satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos e
certamente eufórico com a publicidade que o caso estava a ter, saltitava de
contentamento e sorria a todo o momento, completando as suas frases com: vamos
ganhar isto!

78
DOZE
A Gina abandonara os Açores há duas semanas e o António andou todo esse
tempo a cirandar pela ilha. Teve de se apresentar todos os dias na polícia. Fora isso, não
sofreu mais nenhum incómodo. Levantava-se tarde, tomava o pequeno-almoço e
apresentava-se na polícia. De seguida, tomava o caminho do ginásio onde permanecia
até à hora do almoço. Como não tinha paciência para fazer o almoço, umas vezes comia
numa pizaria, noutras num restaurante, que ficava em frente do seu apartamento. Depois
do almoço, dava uma volta pelas esplanadas da cidade e, de seguida, regressava ao
ginásio, onde passava o resto da tarde a ler revistas de culturismo. Fora sujeito a mais
três interrogatórios, posteriores à exumação do cadáver. No primeiro, o inspector do
Ministério Público atirou-lhe à cara, com uma voz amarga:
-Temos crime!
A exumação do cadáver não deixou margem para dúvidas: o velho tinha sido
assassinado com veneno. A Gina passou de principal suspeita a arguida em parte
incerta. Ele, por enquanto, era apenas um suspeito. O inspector queria saber se ele tivera
conhecimento do crime. O António manteve sempre a versão da declaração assinada
aquando da sua detenção para interrogatório.
No segundo interrogatório, o inspector informou-o de que o Ministério Público
reunira evidências suficientes para o apresentar ao juiz. O António quis saber quais
eram essas evidências mas o inspector manteve-se calado.
No terceiro interrogatório, o António foi presente ao procurador do Ministério
Público e ao juiz. Só nessa altura tomou conhecimento das evidências reunidas, a
principal das quais era a gravação de uma chamada telefónica na qual a Gina combinava
com ele a saída apressada da Ilha Terceira. No final, o advogado do António acalmou-o:
-Nada daquilo tem consistência. Eles vão tentar convencer o juiz de que há
matéria suficiente para uma acusação de co-autoria do crime, mas eu não acredito que o
juiz acredite nisso. Mesmo que o juiz fique convencido, vai ser fácil desmontar a
inconsistência das provas. Você vai ser absolvido – disse o advogado, sorrindo.
-E se não for? - perguntou o António, visivelmente assustado.
-Vai ser! Vai ser! - respondeu o jovem advogado, levantando-se da cadeira e
dando pequenos saltos de contentamento.
Quando regressou a casa, após o terceiro interrogatório, o telefone tocou, pela
primeira vez desde a partida da Gina. Correu para o telefone, com o coração aos pulos.
Era a Gina.
-Amor. És tu? – perguntou ela.
-Sou, estás bem?
-Tenho estado à tua espera mas tu não apareces! O que é que aconteceu? O meu
plano falhou?
-Não digas mais nada. Liga para o meu telemóvel.
-Não tenho o número!
-O quê, perdeste o número?
O António deu-lhe o número do telemóvel e, de seguida, correu para a cozinha.
O telemóvel jazia em cima do frigorífico. O António pegou nele e ficou à espera do
toque.
-Estou! Sou eu. Agora, podes falar à vontade – disse.
A Gina parecia nervosa e impaciente. Perguntou:
-Onde é que estás? O que é que se passou contigo?

79
-Apanharam-me quando estava a embarcar. Fizeram a exumação do cadáver e
acusam-te de homicídio. O velho foi morto com veneno e foste tu que o mataste! Agora,
acusam-me de co-autoria do crime! – respondeu o António, enquanto andava de um
lado para o outro.
-Tudo o que fiz, foi por nós. Peço-te desculpa por tudo.
-Podias ter-me contado. Assim eu não seria apanhado de surpresa!
-Não vês que eu te quis proteger?
-Não percebi por que razão me deixaste para trás. Se eu tivesse ido contigo para
Boston, não estaria agora a passar por isto! – disse o António.
-Não sei o que me passou pela cabeça quando resolvi alterar a reserva do teu
voo. Nunca me perdoarei por ter tomado uma decisão tão estúpida! – volveu a Gina
com a voz trémula.
-Já estás no Rio? – perguntou o António.
-Estou mas não é por muito tempo. Lembras-te de te ter falado naquela
cidadezinha do interior? Vou para lá e por lá ficarei até te livrares dessa embrulhada.
Lembra-te que te amo e que estou à tua espera!
-Eu também te amo.
-Achas que eles podem provar alguma coisa contra ti? Afinal, tu nunca soubeste
de nada!
-O meu advogado diz que não podem mas eu tenho medo que eles queiram
arranjar um bode expiatório. Uma vez que tu fugiste, talvez eles queiram que seja eu a
pagar pelo crime. Não imaginas as repercussões que o caso está a ter na imprensa dos
Açores!
-Ai meu Deus, nem quero pensar numa coisa dessas! E se eu me entregasse? –
perguntou a Gina, com uma voz aflita.
-Nem penses numa coisa dessas! Eles não podem arranjar provas de uma coisa
que não aconteceu. Como é que eles vão provar que eu participei no crime se eu só
soube do homicídio quando eles me contaram?
-Achas que é assim tão simples?
-Estou confiante. Vou estar contigo em breve. Espera por mim. Por favor, não
voltes a ligar para o telefone fixo. Nem para este número! Podem estar sob escuta!
-Amo-te! Tem coragem! Lembra-te de que eu vou recompensar-te dos
incómodos por que estás a passar. Quando chegares ao Brasil, vais realizar todos os teus
sonhos. Vais ter uma ginásio só teu, uma coisa de luxo com sauna, um bar simpático e
uma loja de venda de produtos dietéticos e suplementos alimentares.
-Mal posso esperar por isso! Amo-te!

No dia seguinte, de manhã, teve uma visita do inspector Martins.


-Então não me convida para entrar? – perguntou o inspector.
-A que é que devo a sua visita?
-Ora, você conhece a resposta. Com que então, a Dona Gina não resistiu e
telefonou. E logo para o telefone fixo! Foi pena não termos podido apanhar o que ela
lhe disse depois. Se você estivesse com a folha limpa, não lhe pediria para ligar para o
telemóvel, não acha? Infelizmente, ainda não tínhamos o seu telemóvel sob escuta!
-Ai não! Foi pena! Se tivessem, veriam que eu não tenho nada a ver com a morte
do velho!
-Pois, pois! O inferno está cheio de inocentes!
-Eu sou um deles, pode crer!

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-Bom, vamos lá ao que interessa! Onde é que ela está? – perguntou o inspector.
– O António guardou silêncio e o inspector continuou: - Não precisa de dizer. Nós já
sabemos: está no Rio. Então, você continua a afirmar que não sabia de nada?
-É a verdade. O facto de ela me amar não significa mais do que isto: ela ama-me
e eu amo-a. Não é crime, pois não?
-Amar não é crime. O que é crime é matar uma pessoa.
-Lá está o senhor! Como é que pode provar que eu estive envolvido na morte do
velho se eu só soube o que se passou quando o senhor me contou?
-Bom, não vale a pena continuarmos a filosofar. Aproveito para lhe dizer que
você vai ser, de novo, presente ao juiz na próxima segunda-feira pelas dez horas. Passe
bem!

O encontro com o juiz foi pesaroso. O advogado de defesa parecia ter perdido a
fala e limitou-se a abanar a cabeça e a tamborilar com os dedos no tampo da mesa. O
procurador do Ministério Público foi incisivo: o chamada para o telefone fixo do
António não deixava margem para dúvidas acerca da cumplicidade de ambos no caso da
morte do velho. Mas havia mais: a Gina tinha feito duas reservas de avião para Boston,
para o mesmo dia e no mesmo voo. A mudança de planos deveu-se apenas ao receio de
que a reserva para os dois pudesse levantar suspeitas. Por último, fez referência ao facto
de o António habitar num apartamento alugado pela Gina, onde aliás se encontravam às
escondidas, antes e depois da morte do velho.
Perante a consistência e a lógica da argumentação do procurador do Ministério
Público e o silêncio do advogado de defesa, o juiz decretou a prisão preventiva do
António. O advogado de defesa não foi capaz de desmontar os argumentos da acusação
e o António já tinha sido julgado na praça pública nas semanas anteriores. Havia que
encontrar um culpado. A verdade é que ele não podia ficar mais tempo em liberdade. A
cidade era pequena e toda a gente o tinha como cúmplice. Na impossibilidade de
capturar a Gina, era preciso lançar a mão ao seu amante. Tudo parecia estar contra ele.
O velho morreu pouco depois da chegada do António. A Gina era amante dele e via-o às
escondidas antes e depois da morte do velho. Havia uma reserva de avião para ambos,
no mesmo dia e para o mesmo destino. A alteração da reserva do António foi feita pela
Gina, na véspera do voo. A gravação do telefonema da Gina para o António confirmava
a existência de um plano de fuga. O juiz acreditava que o António fora co-autor do
assassinato do velho! Não foram recolhidas evidências da sua presença no local do
crime, mas havia sérias suspeitas de que o António estava a par do plano da Gina. Como
o António fora detido a fugir apressadamente da Ilha Terceira, tudo indicava que ele
voltaria a fugir se fosse deixado em liberdade. Quando o juiz anunciou a prisão
preventiva do António, ele foi conduzido por dois guardas para dentro de um carro
celular. A primeira coisa que fez ao chegar à cela foi escrever uma carta para a Gina.
Ela dera-lhe o número de uma caixa postal que alugara no Rio e foi para lá que o
António endereçou a sua primeira carta.

Oito dias depois, a Gina recebeu a carta com o carimbo de Angra. Abriu o
envelope e pôs-se a ler.
Gina, meu doce
Aconteceu o que eu mais temia: o juiz decretou a minha prisão preventiva. A
sessão não podia ter corrido pior e o meu advogado parecia que estava feito com o
ministério público: em vez de me defender, enterrou-me. Vou estar um ano fechado
numa cela à espera de julgamento, acusado de um crime que não cometi. E se for

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condenado? Ficarei engavetado pelo menos dez anos! Não há dúvida: os nossos
tempos não se combinam. Quando fiquei livre, tu viste-te aprisionada à doença de um
velho que se recusava a morrer. Cortaste as amarras que te prendiam ao velho e ficaste
livre. E eu fiquei a pagar pelo crime que tu cometeste. Esperaste muitos anos por mim e
agora vais ter de esperar mais não sei quantos. Espera por mim mas não te feches em
casa. Viaja, vai à praia, faz compras e cuida do teu corpo. Vive! És tu que sabes o que
deves fazer à tua vida pois o meu conselho não passa disso mesmo, um conselho vindo
de alguém que está engavetado numa prisão. Seja qual for a tua decisão, há um pedido
que tenho de te fazer: manda-me dinheiro. A fortuna que herdaste do velho pertence
aos dois. A ti, pertence-te por direito. A mim, por conquista. Além disso, preciso de
dinheiro para contratar um bom advogado. Acabo de despedir o sacana que me
defendeu. Defendeu? Seria mais apropriado dizer que me afundou. Vou contratar um
advogado do Continente. Afinal, sou eu que estou a pagar pelo crime que tu cometeste
e, ainda por cima, sem ter sido consultado. Foi esse o preço do desejo! Parece-me justo
ficar com metade, não achas? Não te esqueças do nosso juramento de sangue feito há
muitos anos. Apesar de os nossos tempos andarem trocados, ficámos unidos a partir
daí. Unidos no amor, na vida e na morte. Na alegria e na tristeza! Com a morte do
velho e a minha prisão, essa união ficou ainda mais forte. Estamos separados por
milhares de quilómetros mas unidos por um juramento que nenhum de nós irá quebrar.
Amo-te. Lembra-te de que, quando estiver sozinho na minha cela, à espera que a noite
dê lugar ao dia, estarei a pensar em ti.

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