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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA
ESTADO DO PARANÁ

APELAÇÃO CRIME Nº 11530-56.2010.8.16.0025, DO FORO


REGIONAL DE ARAUCÁRIA, COMARCA DA REGIÃO
METROPOLITANA DE CURITIBA, VARA PLENÁRIO DO
TRIBUNAL DO JÚRI.
APELANTE - ROGER DE SOUZA SOARES
APELADO - MINISTÉRIO PÚBLICO DO PARANÁ
RELATOR - DES. TELMO CHEREM

JÚRI – HOMICÍDIO QUALIFICADO – VEREDITO


CONDENATÓRIO.
I. QUALIFICADORA (RECURSO QUE IMPOSSIBILITOU A
DEFESA DA VÍTIMA) – CONFIGURAÇÃO RECONHECIDA
PELOS JURADOS – DECISÃO RESPALDADA NA PROVA
DOS AUTOS. Amparada a deliberação do Conselho de Sentença
em elementos probatórios idôneos, não há cogitar – em atenção
ao princípio constitucional da soberania dos vereditos – da
excepcional hipótese de cassação prevista no art. 593-III-“d” da
Lei Processual Penal.
II. RESPOSTA PENAL.
(A) PENA-BASE – DIRETIVAS CONSIDERADAS
DESFAVORÁVEIS (CULPABILIDADE E
CONSEQUÊNCIAS DO CRIME) – FUNDAMENTAÇÃO
IDÔNEA – AUMENTO DESPROPORCIONAL –
CORREÇÃO. Comporta reparo pena-base fixada acima do
mínimo legal em montante que não se coaduna com as diretrizes
judiciais do art. 59 do Código Penal aferidas em desfavor do
acusado.
(B) CONFISSÃO ESPONTÂNEA – INAPLICABILIDADE.
Inadmissível a incidência da atenuante prevista no art. 65-III-
“d” do Código Penal quando o réu exerce seu direito
constitucional de permanecer em silêncio.
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(C) MENORIDADE – REDUÇÃO DA PENA. Sendo o agente


menor de 21 anos à época dos fatos, irrecusável o
reconhecimento da atenuante prevista no art. 65-I da Lei Penal.
RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.

VISTOS, relatados e discutidos estes autos de APELAÇÃO CRIME


Nº 11530-56.2010.8.16.0025, de ARAUCÁRIA, VARA PLENÁRIO DO TRIBUNAL DO
JÚRI, em que é apelante: ROGER DE SOUZA SOARES e apelado: MINISTÉRIO
PÚBLICO DO PARANÁ.

1. Roger de Souza Soares interpõe apelação da decisão (movs.


273.3/273.7) do Tribunal do Júri de Araucária que o condenou, incurso no art. 121-§2º-
IV do Código Penal, à pena de 24 anos de reclusão (em regime fechado), pelo fato assim
descrito na denúncia (mov. 2.1):

“No dia 04 de novembro de 2010, por volta das 17h00min, na quadra de


esportes do Colégio Estadual Profª. Agalvira Bittencourt Pinto, situado na
Rua Andorinhas nº 640, bairro Jardim Industrial, nesta cidade e Foro
Regional de Araucária, Estado do Paraná, o denunciado ROGER DE
SOUZA SOARES, dolosamente, plenamente consciente da ilicitude e
reprovabilidade de sua conduta, com vontade de matar, se aproximou da
vítima Jhonatan Henrique Nassif Ferreira armado com uma arma de fogo
(não apreendida) e, impossibilitando qualquer atitude de defesa por parte da
vítima, eis que se aproximou por suas costas, sem que a vítima o visse,
efetuou um disparo que atingiu Jhonatan na região da cabeça, provocando
as lesões descritas no laudo de exame de necropsia de fls. 49-IP, consistentes
em ofício de entrada de projétil de arma de fogo, com área de enxugo nas
bordas, na região temporal esquerda; e orifício com bordas irregulares,
aproximadas por pontos cirúrgicos, compatível com saída de projétil de
arma de fogo, situada na região occipital direita, as quais, por sua natureza
e sede, foram a causa da morte da referida vítima por lesões
cranioencefálicas por projétil de arma de fogo.”
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Suscitando a nulidade do julgamento, alega o Apelante que a tese


acusatória apresentada em Plenário, em relação à configuração da qualificadora, “divergiu
das diretrizes apresentadas na denúncia”. Sustenta, ainda, a manifesta contrariedade da
deliberação do Conselho de Sentença à prova dos autos pelo reconhecimento da
circunstância prevista no art. 121-§2º-IV do Código Penal, uma vez que ele “não se
aproximou da vítima pelas costas, mas lateralmente”, tanto que “foi visto por todos
manuseando a arma” utilizada para a prática do homicídio. Insurgindo-se, também, contra
a resposta penal, argumenta que (i) os motivos do crime não resultaram suficientemente
esclarecidos e inexistem fundamentos idôneos para avaliar desfavoravelmente a
culpabilidade; (ii) os argumentos utilizados para valorar negativamente as consequências
do crime – “as lesões que terceira pessoa teria sofrido em decorrência do disparo da arma
de fogo” – não são aptos a ensejar o respectivo acréscimo, “visto que a lesão em comento
configurou crime, que não foi apurado por omissão da vítima e do órgão acusatório”; (iii)
a fração utilizada para aumentar a pena-base mostrou-se “em total descompasso com a
jurisprudência pacífica”, devendo ser reduzida “para patamar não superior a 1/6”; (iv) faz
jus à incidência da atenuante prevista no art. 65-III-“d” do Código Penal, uma vez que
confessou a prática do crime. Pede, afinal, a cassação do veredito; quando não, a redução
da reprimenda; em qualquer caso, o arbitramento de honorários advocatícios ao
Defensor dativo (mov. 286.1).

Ofertadas contrarrazões (mov. 298.1), a Procuradoria de Justiça, em


parecer subscrito pela Procuradora ELZA KIMIE SANGALLI, recomendou o parcial
provimento do recurso, para “readequar a pena base”, reconhecendo-se, ex officio, “a
atenuante da menoridade relativa”, com a consequente diminuição da pena fixada (mov.
8.1).
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2. Inexiste a aventada nulidade.

Conforme destacou a Procuradoria de Justiça, “a exordial acusatória


imputa ao réu a prática do homicídio mediante recurso que impossibilitou a defesa da
vítima, dizendo que o acusado ‘se aproximou por suas costas, sem que a vítima o visse’;
apesar de, em plenário, a defesa ter dado a entender que ‘o tiro não foi dado pela sua
frente, uma vez que atingiu na região temporal (lateral do crânio), assim, a vítima não viu
o momento do disparo que a atingiu’, verifica-se que em ambos os casos, o elemento
‘surpresa’ encontra-se presente, o que se revela suficiente para o reconhecimento da
referida qualificadora”.

Não houve, como se vê, submissão de nova tese acusatória ao


Conselho de Sentença, que decidiu pela condenação do Acusado com base nas provas
apresentadas em Plenário, as quais levaram os jurados a entenderem pela configuração da
qualificadora imputada.

É dizer, diversamente do alegado, a tese acusatória foi sustentada nos


estreitos limites do art. 476 da Lei Processual Penal1, não havendo cogitar de inovação
em Plenário, consoante, aliás, tem reiterado esta Câmara2.

3. Quanto à questão de fundo, exame do material cognitivo não


permite desconstituir a deliberação do Júri.

Tem se repetido ser manifestamente contrária à prova dos autos –


a autorizar, assim, o excepcional exercício da jurisdição de cassação (CPP, art. 593-III-“d”)
– a decisão que está completamente dissociada de tudo quanto se produziu ao longo da
instrução criminal.

1
“Encerrada a instrução, será concedida a palavra ao Ministério Público, que fará a acusação, nos limites da pronúncia
ou das decisões posteriores que julgaram admissível a acusação, sustentando, se for o caso, a existência de
circunstância agravante”
2
v.g.: APC nº 859-26.2013.8.16.0006, Relator: Des. ANTONIO LOYOLA VIEIRA, J. 16.8.2018; APC nº 27820-29.2013.8.16.0030,
Relator: Des. MIGUEL KFOURI NETO, J. 18.5.2018; APC nº 1.392.875-9, Relator: Des. MACEDO PACHECO, DJe 19.1.2016.
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E tal situação não se verifica na espécie, uma vez que o veredito


repousa em alguns dos elementos de convicção coligidos nos autos, os quais, objetivamente
considerados, levaram os Jurados a reconhecer a qualificadora prevista no art. 121-§2º-IV
do Código Penal.

Sobre a mencionada qualificadora, anota GUILHERME DE SOUZA


NUCCI: “Recurso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima, consubstanciado,
como exemplos, na traição, emboscada e dissimulação: Quando o agente aborda o
ofendido de maneira inesperada, gera um contexto próprio para a aplicação desta
qualificadora, pois a defesa é dificultada ou até mesmo impossível. Formas disso são a
traição (investida do agente por trás da vítima, que nem mesmo vê o algoz), a emboscada
(ficar à espreita, aguardando a passagem inocente da vítima) e a dissimulação (apresentar-
se pela frente da vítima, mas ocultando sua verdadeira intenção e simulando gestos
opostos à agressão iminente).”3

A prova formada em Juízo autoriza, com efeito, a decisão do


Tribunal do Júri4: Roger entrou na quadra de esportes da escola e, sem motivo aparente e
mediante surpresa, alvejou Jhonatan, impossibilitando sua defesa.

Essa, também, a conclusão do Órgão Ministerial, cuja cuidadosa


análise do conjunto probatório está a merecer transcrição:

“Perante a autoridade policial, o acusado Roger de Souza Soares


afirmou que foi o autor do disparo, todavia, relatou que havia pegado a arma emprestada,
minutos antes, de ‘Luquinhas’, que lhe havia dito que a arma estava sem munição, porém,
ao segurá-la, esta disparou contra sua vontade (mov. 1.38). Em juízo, apenas aduziu que
não pulou o portão da escola, permanecendo em silêncio acerca dos outros fatos (mov.

3
Manual de Direito Penal, Rio de Janeiro: Forense, 2017, 13ª ed., p. 618.
4
Quesito 5: “O réu praticou o crime à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte
ou torne impossível a defesa da vítima, eis que ‘se aproximou por suas costas, sem que a vítima o visse, efetuou um
disparo que atingiu Jhonatan na região da cabeça?” Resposta: SIM (mov. 273.2, f. 4).
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52.6), enquanto, em plenário, não compareceu para prestar sua versão do ocorrido, sendo
decretada sua revelia.

Em plenário, a testemunha Bruno Nilson Costa, que presenciou o


ocorrido, afirmou (mov. 272.1): ‘nós estávamos jogando bola como sempre, toda tarde
juntava tudo os amigos e ia pra quadra jogar bola, aí a bola espirrou, foi para o outro lado
do alambrado, da quadra, tem uma vizinhança lá e caiu para o outro lado do terreno, aí
nessa hora os outros amigos nossos foram buscar a bola e nós sentamos lá na escada,
esperando, aguardando a bola voltar; nessa hora nós estávamos sentados conversando,
normal; aí ele veio vindo na nossa direção, nós nem demos bola, aí ele parou na nossa
frente, assim, sacou a arma e apontou na nossa direção; nós estávamos de costas, um de
frente pro outro, só que meio de lado (...) questionado se imaginava o que iria acontecer,
afirmou: não, porque nós não devíamos nada (...)’

Nesse mesmo sentido, a testemunha Everson Kaique de Mello


consignou (mov. 272.2): ‘a gente juntou os amigos no final de tarde para jogar bola ali na
quadra; a bola espirrou e a gente ficou na arquibancada aguardando, esperando a pessoa
ir buscar a bola; o Roger entrou na quadra e veio se mostrar com uma arma, veio mostrar
poder, não sei o que passou na cabeça dele; ele apontou a arma na nossa direção e puxou
o gatilho uma vez, girou o tambor e, na segunda, aconteceu o disparo; a gente estava de
lado, não viu ele vindo; de onde a gente estava sentado até o portão tem uns vinte metros,
mais ou menos; ele foi sacar a arma faltando questão de cinco a sete metros. Questionado
se eles tiveram alguma chance de defesa, afirmou: nenhuma, não deu nem tempo de
reagir; pelo simples fato de a gente não fazer nada de errado, não se envolver com nada
de errado, a gente não esperava (...)’.

Por sua vez, a testemunha Haroldo Lourenço de Oliveira Júnior,


que também presenciou os fatos, aduziu que estava sentado na arquibancada com a vítima
e mais alguns amigos, esperando outros meninos retornarem com a bola para a quadra,
momento em que o acusado adentrou o local com o revólver já em mãos, apontando-o para
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cima; como não tinham nenhum problema com Roger, acreditavam que ele apenas passaria
por eles e iria embora, entretanto, o acusado se aproximou e, sem motivo aparente, apontou
a arma para o ofendido e desferiu os disparos; Jhonatan estava sentado no degrau de baixo
e ele (testemunha) no de cima da arquibancada. Esclareceu que estava meio de lado e
apenas conseguiu ver o acusado de relance, tendo sido baleado na perna (mov. 272.3).

Por fim, a testemunha Jhonatan Lemos do Prado relatou: ‘nós


estávamos na arquibancada, ele chegou meio que do nosso lado; (...) aí nisso que ele
chegou na nossa frente, deu um tiro pro lado que não disparou, daí ele já mirou em nós e
deu um tiro (...); ele estava do nosso lado (quando dos disparos); foi rápido, questão de
segundos, ele chegou, deu o tiro e correu. Questionado se tiveram alguma chance de
defesa, afirmou que não, porque ‘nós não estávamos esperando, estávamos jogando bola;
ele chegou, assim, questão de segundos, quando nós vimos ele já tinha dado o tiro’.”

Corroborando a prova oral colacionada, o Laudo de Exame de


Necropsia (mov. 1.29) atesta que a Vítima foi atingida na região lateral da cabeça (“orifício
de entrada de arma de fogo em região temporal esquerda”), o que também permite concluir,
consoante destacado nas contrarrazões recursais, que Jhonatan sequer “visualizou o
momento do disparo” (mov. 298.1 - f. 9).

Referenciada, portanto, em elementos reunidos nos autos, a decisão


não pode ser reavaliada na instância recursal em sobreposição à estimativa dos Jurados, a
pretexto de ser arbitrária ou injusta.

Seja como for, sempre que o acervo probatório respaldar mais de


uma versão sobre o fato incriminador, a opção pela que pareça mais verossímil e coerente
situa-se no âmbito da soberania constitucionalmente concedida ao Conselho de Sentença,
conforme, inclusive, orienta o e. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA: “Havendo duas
versões a respeito do fato, ambas amparadas pelo conjunto probatório produzido nos
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autos, deve ser preservada a decisão dos jurados, em respeito ao princípio constitucional
da soberania dos vereditos”5.

Daí a pertinência do magistério de ESPÍNOLA FILHO: “ao Júri é


assegurado o privilégio de escolher, na prova feita, aquilo a que quer dispensar
consideração, desprezando o mais. Tão-somente quando o veredito do Tribunal leigo é
arbitrário, porque se dissocia integralmente da prova dos autos, isto é, não há qualquer
elemento de prova que ampare, que apoie a solução adotada, surge a possibilidade de,
repelindo o arbítrio, entrar o Tribunal de Recurso no mérito”6.

4. No que tange à resposta penal, merece reforma, em parte, a


sentença impugnada.

Verifica-se que a pena-base foi fixada em 24 anos de reclusão, pela


avaliação desfavorável de duas circunstâncias judiciais (CP, art. 59): culpabilidade e
consequências do crime.

Adequada se mostra a fundamentação enunciada na sentença em


relação à culpabilidade – “trata-se de crime cometido contra adolescente, com apenas
quinze anos de idade na data dos fatos e sem nenhum envolvimento com a criminalidade,
que estava no pátio de sua escola praticando esporte” –, dado o elevado grau de
censurabilidade da conduta (STJ: “Embora a morte das vítimas seja elementar do tipo,
quando as consequências extrapolam as normais do crime – como in casu, em que duas
das três vítimas eram adolescentes, com 16 e 18 anos de idade –, podem ser consideradas
negativamente para aumentar a pena-base”7).

Na avaliação dessa diretiva, segundo CEZAR ROBERTO


BITENCOURT, deve ser analisada “a maior ou menor reprovabilidade da conduta

5
AgRg no REsp nº 1.660.745/RO, 5ª Turma, Relator: Min. REYNALDO SOARES DA FONSECA, DJe 31.8.2017.
6
Código de Processo Penal Brasileiro Anotado, 3ª ed., Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1954, p. 720.
7
AgRg no REsp nº 1.707.982 MG, 5ª Turma, Relator: Min. JORGE MUSSI, DJe 26.4.2018.
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praticada, não se esquecendo, porém, a realidade concreta em que ocorreu, especialmente


a maior ou menor exigibilidade de outra conduta. O dolo que agora se encontra localizado
no tipo penal – na verdade em um dos elementos do tipo, qual seja, a ação – pode e deve
ser aqui considerado para avaliar o grau de censurabilidade da ação tida como típica e
antijurídica: quanto mais intenso for o dolo, maior será a censura”8.

Igualmente idônea a motivação acerca das consequências do crime


(“além da morte da vítima, houve grave lesão na perna da testemunha Haroldo, que
declarou ter perdido uma oportunidade de ser jogador de futebol profissional, eis que o
ferimento impossibilitou tal prática desportiva”), porque condizente com os danos
ocasionados pela conduta do Sentenciado, que extrapolam os elementos inerentes ao tipo
penal (STJ: “As consequências do crime estão ligadas à extensão do dano produzido pela
prática criminosa. A repercussão do ilícito para a vítima, seus parentes e para a própria
comunidade”9).

Nesse aspecto, bem observou a Dra. Promotora de Justiça, nas


contrarrazões, que “a indiferença do recorrente em adentrar em escola pública e efetuar
disparos de arma de fogo em direção ao grupo de amigos, vindo a atingir não somente a
vítima, mas também a testemunha Haroldo Lourenço de Oliveira Júnior, que ficou inclusive
impossibilitado para a carreira esportiva que tanto almejava, evidentemente transcende o
resultado típico e, por conseguinte, merece maior reprovação”.

Por outro lado, conquanto não existam critérios objetivos para


análise das diretivas do art. 59 do Código Penal, “o consagrado parâmetro de aumento de
1/8 (um oitavo) para cada circunstância judicial desfavorável, fazendo-as incidir sobre o
intervalo de pena em abstrato do preceito secundário do delito”10, tem sido considerado
razoável por esta Primeira Câmara:

8
Tratado de Direito Penal. 21ª ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 774.
9
AgRg no REsp nº 1.695.310/PA, 6ª Turma, Relator: Min. MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, DJe 20.11.2017.
10
STJ: HC nº 285.490/PE, 5ª Turma, Relator: Min. RIBEIRO DANTAS, DJe 25.10.2016.
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“Embora inexistente previsão legal acerca do ‘quantum’ a ser aplicado por


vetorial [do art. 59, CP], a jurisprudência entende razoável adotar como
parâmetro a fração de 1/8 do intervalo máximo e mínimo da pena.”11

“APELAÇÃO CRIMINAL. TRIBUNAL DO JÚRI... DOSIMETRIA...


PERCENTUAL DE 1/8 (UM OITAVO) APLICADO SOBRE O
INTERVALO DA PENA. DISCRICIONARIEDADE CONFERIDA AO
MAGISTRADO...”12.

In casu, a exasperação13 da reprimenda em quantidade superior à


fração de 1/814 impõe a redução da pena-base para 16 anos e 6 meses de reclusão.

Na segunda etapa da operação dosimétrica, inviável a incidência da


atenuante prevista no art. 65-III-“d” do Código Penal, visto como o Apelante não confessou
a prática do crime (não compareceu à Sessão do Júri para apresentar sua versão dos fatos e,
em Juízo, exerceu seu direito constitucional de permanecer em silêncio 15).

Presente a atenuante do art. 65-I da Lei Penal, conforme observado


pela Procuradoria – “verifica-se que o acusado nasceu em 20/03/1991 (mov. 1.38), portanto
ele tinha 19 anos de idade na data do fato, que ocorreu em 04/11/2010 (mov. 2.1)” –, de
rigor o abrandamento de 1/6, resultando a pena em 13 anos e 9 meses de reclusão, que,
diante da ausência de causas especiais de aumento e diminuição, torna-se definitiva.

5. No que se refere aos postulados honorários advocatícios, o


Advogado Cid Ferreira de Camargo Junior (OAB/PR nº 59.650), nomeado para
promover a defesa do Réu (mov. 22.1), já obteve o arbitramento, na sentença, do importe
de R$ 4.200,00 (quatro mil e duzentos reais), quantia que se mostra suficiente para
remunerar toda sua atuação no processo, inclusive em segundo grau, considerados, para

11
AC nº 1.440.709-9, Relator: Des. MACEDO PACHECO, DJe 26.9.2016.
12
AC nº 1.378.832-2, Relator: Des. MIGUEL KFOURI NETO, DJe 16.9.2015.
13
6 anos para cada circunstância judicial desabonadora.
14
Correspondente a 2 anos e 3 meses, considerado o intervalo da sanção abstratamente cominada para o homicídio
qualificado (12 a 30 anos).
15
mov. 52.6.
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tanto, o grau de zelo profissional, o tempo exigido para o serviço, bem como a complexidade
da causa, conforme os critérios elencados no §2º do art. 85 do Código de Processo Civil 16.

ANTE O EXPOSTO:

ACORDAM os integrantes da Primeira Câmara Criminal do


Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em DAR PARCIAL
PROVIMENTO ao recurso, para reduzir a pena do Apelante a 13 anos e 9 meses de
reclusão, mantida, no mais, a sentença impugnada.

Participaram do julgamento os Excelentíssimos Desembargadores


CLAYTON CAMARGO (Presidente) e MIGUEL KFOURI NETO.

Curitiba, 14 de fevereiro de 2019.

TELMO CHEREM – Relator

16
Por analogia – art. 3º do Código de Processo Penal.