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I-IDENTIFICAÇÃO

1. INSTITUIÇÃO Universidade Federal do Pará 2. UNIDADE ACADÊMICA/ CAMPI/ NÚCLEO DEPARTAMENTO/ COLEGIADO Instituto
1. INSTITUIÇÃO
Universidade Federal do Pará
2. UNIDADE ACADÊMICA/ CAMPI/ NÚCLEO
DEPARTAMENTO/ COLEGIADO
Instituto de Ciências da Educação / Programa de Pós-Graduação em
Educação / Núcleo de Estudos e Pesquisas em Currículo
3.
NOME DO PROGRAMA/ PROJETO
Reordenamento e Integração de Metodologias de Enfrentamento
ao Abuso, Exploração Sexual e Tráfico de Pessoas:
fortalecimento e articulação em redes de proteção às violações
de direitos humanos e sexuais no Estado do Pará
4. ÁREA DO CONHECIMENTO/ ÁREA TEMÁTICA/ LINHA DE EXTENSÃO
Direitos Humanos e Educação Inclusiva
5.
LOCAL DE EXECUÇÃO
Belém, Marituba, Altamira e Marabá.
6. CLIENTELA
Profissionais das áreas de assistência social, médica, educação,
segurança pública, grupos de adolescentes e jovens.
7.
NOME DO(A) COORDENADOR(A)
Genylton Odilon Rêgo da Rocha – Doutor
8. PRAZO DE EXECUÇÃO 9. ÁREA 10. CLASSIFICAÇÃO INÍCIO: AGOSTO DE 2008 URBANA NOVO TÉRMINO:JULHO
8. PRAZO DE EXECUÇÃO
9. ÁREA
10. CLASSIFICAÇÃO
INÍCIO: AGOSTO DE 2008
URBANA
NOVO
TÉRMINO:JULHO DE 2009
RURAL
CONTINUIDADE
DATA:
II-CARACTERIZAÇÃO DO PROGRAMA
/PROJETO
1. JUSTIFICATIVA

São bem conhecidas as multiderteminações do fenômeno da violência sexual, que derivam de diferentes fatores, incluindo aspectos individuais, familiares, interpessoais, sociais, econômicos e culturais, e, além disso, relacionadas ao âmbito da justiça, saúde, educação, segurança e outros, todos igualmente relevantes, tanto nos contextos de respeito à cidadania e direitos humanos fundamentais, quanto nos quadros de grave violação da dignidade humana e da eqüidade social. De acordo com Jurandir Freire Costa (1984) 1 , violência “É o emprego desejado da agressividade, com fins destrutivos”. Para Azevedo & Guerra (1993) 2 , violência sexual “É todo ato ou jogo sexual, relação heterossexual ou homossexual, entre um ou mais adultos e uma criança ou adolescente, tendo por finalidade estimular sexualmente esta criança ou adolescente ou utilizá-los para obter uma estimulação sexual sobre sua pessoa ou de outra pessoa”. E os principais tipos de violência sexual mais comumente descritos são: 1) o abuso sexual; 2) a exploração sexual; 3) a pornografia; 4) os shows eróticos; 5) o tráfico de seres humanos para fins de exploração sexual.

1 FREIRE COSTA, Jurandir. Violência e Psicanálise, Rio de janeiro, Ed. Graal, 1994. 2 AZEVEDO, Maria Amélia. & GUERRA, Viviane. N. A. Infância e Violência Doméstica: fronteiras do conhecimento. São Paulo: Cortez, 1993.

Os marcos históricos de enfrentamento à violência sexual no Brasil e no mundo, desde a década de 40 do século passado, tais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, passando pela Declaração Universal dos Direitos da Criança em 1959, reiterada na Convenção Internacional dos Direitos da Criança em 1989, na Constituição Federal de 1988, e por todos os congressos e conferências mundiais e nacionais sobre os direitos sexuais e proteção integral à criança e ao adolescente, em sua maioria derivados dos movimentos sociais organizados, com ênfase crescente a partir das décadas de 80 e 90 do século XX, criaram condições para que, no ano de 1990, o enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes ganhasse um de seus mais fortes aliados: o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, um instrumento jurídico inovador, por ter como base a concepção de proteção integral, doutrina defendida pela Organização das Nações Unidas - ONU na já citada convenção de 1989 e ratificada pelo Brasil em 1990. Considerar a violência sexual como fenômeno social significa estudar e entender suas múltiplas causas, a partir das especificidades que o compõem, para que sejam elaboradas as estratégias de enfrentamento. Pensar tal tarefa significa construir de forma participativa mecanismos de reordenamento, tendo como ponto de apoio as políticas públicas, devendo ser também considerados os aspectos administrativos e legais, previstos no Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, datado de junho de 2000. A partir das diversas experiências desenvolvidas através do poder público e da sociedade civil, nos anos 90, envolvendo debates a respeito da temática violência sexual, vem sendo construída a resposta ao enfrentamento, que tem como marco a criação do “Programa de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes – Sentinela”, no âmbito da política nacional de Assistência Social.

As discussões relacionadas à violência sexual contra a criança e o adolescente foram acontecendo, sendo este tema considerado como paradigma de estudo dos direitos humanos, visto que o fenômeno apresenta diferentes aspectos a serem considerados, tais como a questão cultural, social, política e legal, as quais

estão entrelaçadas de forma dialética, e configuram um crime de violação de direitos humanos. O atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual compreende as dimensões individuais, grupais e familiares dos usuários, considerando o seu contexto de vida, as problemáticas sócio-econômicas, as disfunções psicossociais e as possibilidades de intervenção, resgate da convivência familiar e dos vínculos parentais de amparo, responsabilidade e autonomia, devendo ter, sempre, um alcance abrangente, com diversos serviços ao cidadão, de forma a integrar em rede todos os serviços existentes. A Violência Sexual no Município de Belém:

Segundo Hazeu & Fonseca (2004) 3 , no período de 1998 a 2002, ocorreram em Belém 7.231 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, sendo 2.185 casos de atentado violento ao pudor, 1.187 estupros, 158 tentativa de estupros e 177 outros tipos de violências sexuais. Por tal motivo, o programa Sentinela de Belém foi implantado em outubro de 2001, tendo iniciado os atendimentos com vítimas de violência sexual e familiares em março de 2002, sob o nome fantasia de Tamba Tajá, referência a uma erva comumente encontrada na amazônia, muito utilizada pelos indígenas nos rituais coletivos das tribos locais, e associada a proteção, cuidado, paz e solidariedade (Brasil & Silva, in Neves, Quintela & Cruz, 2004) 4 . Em um estudo realizado por Rodrigues & Santos (2005) 5 , a partir dos atendimentos do programa sentinela de Belém, intitulado “Estudo Estatístico dos Casos de Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes Registrados no Projeto Sentinela - Belém de 2002 - 2004”, foi avaliado o atendimento de três anos consecutivos dessa unidade de atendimento, e os resultados quantitativos apontam que na capital do estado do Pará, dos 50 bairros existentes, 35 apresentaram casos

3 HAZEU, Marcel & FONSECA, Simone. Violência contra Crianças e Adolescentes na Região Metropolitana de Belém: 1998 e 1999 – dados e reflexões sobre a problemática. Movimento República de Emaús – Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Emaús. 2001.

NEVES, Rosa H. N.; QUINTELA, Rosângela. & CRUZ, Sandra H. A política de Assistência Social em Belém. Belém: Paka - Tatu, 2004. 5 RODRIGUES, Pedro Raimundo R. & SANTOS, Rodrigo M. Estudo Estatístico dos Casos de Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes Registrados no Projeto Sentinela - Belém de 2002 - 2004. 2005. Monografia (Especialização em Estatística UFPA, Belém - PA, Brasil).

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de violência sexual, num total de 411 casos atendidos, com idade entre 02 e 18 anos, sendo 60,1% de crianças e 39,4% de adolescentes, dos quais 21,7% eram do sexo masculino e 78,3% do sexo feminino, e incidência de 90,3 % abuso sexual, e 9,7% de exploração sexual. Também no ano de 2005, nos meses de novembro e dezembro, foi realizado por uma equipe de pesquisadores do programa Sentinela de Belém um mapeamento de casos de exploração sexual na região metropolitana de Belém, com relatório lançado em 2006 pelo órgão municipal responsável, intitulado “Mapeamento das Situações de Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes em Belém” e foram localizados 60 pontos de exploração sexual em 13 bairros da cidade, em locais como vias, esquinas, bares, boates, praças, feiras, portos, drive- ins, hotéis e móteis, entre outros, num total de 624 registros, seja de exploração propriamente dita, explícita e ao ar livre, principalmente em situações noturnas, seja em situações de vulnerabilidade à exploração, em locais públicos e privados. Em Belém, as entidades locais que atuam nos segmentos de proteção à criança e ao adolescente, agruparam-se a partir do ano de 2001, em duas frentes de discussão, articulação e mobilização, visando o controle social e a contribuição para melhoria dos serviços, compostas basicamente pelas mesmas entidades, na Rede Estadual de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes (2001) e o Fórum Municipal de Combate à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes (2002). Mas apesar da criação desses fóruns de discussão, se evidencia claramente uma fragmentação entre os diversos órgãos que oferecem algum tipo de atendimento às vítimas e familiares, os quais terminam por executar o seu trabalho isoladamente, não havendo um protocolo unificado de acolhimento, encaminhamento, avaliação e acompanhamento entre as instâncias existentes, sejam governamentais (saúde, assistência, educação, segurança, justiça, direito humanos, cultura, etc.), de defesa, controle social, mobilização e garantia de direitos (conselhos de direitos, tutelares e outros; fóruns, comissões, comitês, etc.) ou não governamentais (projetos, serviços, convênios, centros comunitários, associações, entidades e organizações independentes, entre outros).

Nesse contexto, Belém é um dos Municípios incluídos na Matriz Intersetorial de Enfrentamento da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, com ocorrência de prostituição de crianças e adolescentes, e tráfico de adolescentes para fins de exploração sexual, com IDH 0,806, ocupando a 445ª no ranking nacional, e ainda, com um alto número de ocorrência de casos de abuso sexual na região metropolitana, conforme aqui demonstrado. Não obstante, a região norte do Brasil, segundo a Pesquisa Nacional sobre o Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para fins de Exploração Sexual – PESTRAF, publicada em 2002 e coordenada pelo CECRIA – Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e adolescentes, apontou o maior número de rotas interestaduais de tráfico de pessoas na região norte (36 rotas), o segundo maior número de rotas internacionais (31 rotas, atrás apenas da região nordeste), e o segundo maior número de rotas intermunicipais de exploração sexual (09 rotas, de novo perdendo apenas para a região nordeste), no cômputo geral a região norte aparecendo com a maior quantidade de rotas de tráfico para fins sexuais (76 rotas, no total, o nordeste em segundo lugar com 69 rotas), sendo que a capital paraense, Belém, é uma das principais metrópoles da Região Norte em quantidade de rotas identificadas de tráfico de crianças e adolescentes para fins de exploração sexual comercial, fato que exige ações prementes e intervenções mais eficazes na redução dessa atividade de violação de direitos sexuais e humanos. A Violência Sexual no Município de Marituba:

Outro município paraense também incluído na Matriz Intersetorial é Marituba, situado às margens da Rodovia BR 316, distante 5Km de Ananindeua, 7Km de Benevides e 13Km de Belém, com uma população projetada em 101.346 habitantes, de acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE / 2007. Por sua localização estratégica na área metropolitana de Belém, Marituba recebe imigrantes de várias localidades do território nacional atraídos pelas grandes áreas de ocupação de terras, ocasionando aumento constante no índice demográfico e, conseqüentemente, o aumento da pobreza e da exclusão social, face o município ainda não apresentar uma estrutura política, social e econômica

em condições de ofertar espaços mais satisfatórios para o desenvolvimento humano. Portanto, considere-se a violência sexual cometida contra crianças e adolescentes no município de Marituba, também a partir de um fenômeno social complexo e multicausal, existindo de forma concreta e alarmante no município. O Programa de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, aqui chamado Projeto Lumiar, desde sua implantação em 22/02/2006, desenvolve ações integradas e específicas através de equipe técnica multiprofissional, composta por Assistente Social, Psicóloga e Pedagoga, além da equipe de apoio, com interligação na rede pública de serviços. Preventivamente, o Projeto Lumiar realiza palestras informativas com temáticas pertinentes à problemática, sistematizadas por agendamento semanal nas escolas, instituições governamentais e não governamentais, religiosas, etc. Além disso, é realizada distribuição de material educativo e preventivo, como folders, cartazes e panfletos; por outro lado, trabalha – se com pesquisa e levantamento das áreas de maior vulnerabilidade no município, como é o caso das áreas de ocupação, acrescidas do território limítrofe com a rodovia BR 316, estrada federal que atravessa o município, separando-o em bairros de maior e menor incidência de violação de direitos; a partir dos levantamentos feitos pela equipe, chega-se à estatística dos índices de ocorrência de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes; por fim, no trabalho articulado com a rede de proteção às vítimas de abuso e exploração sexual, percorre-se os diversos órgãos locais, no intuito de assegurar a defesa aos direitos violados junto aos meios competentes, dentre outras ações. Nesse contexto, a maior visibilidade local do fenômeno da exploração sexual de crianças e adolescentes ocorre às margens da Rodovia BR 316, principalmente no horário noturno, por conta da grande movimentação de pessoas nos postos de gasolina, além de trechos da principal praça pública localizada no centro do município, onde segundo investigação da polícia federal, há a presença constante de agenciadores de meninas para a exploração sexual, ambos circulando livremente entre a população, também com grande movimentação de caminhoneiros e outros tipos populares da sociedade local.

Medidas preventivas e até repressivas foram tomadas, porém ainda há várias ocorrências nesses locais, tais como o estacionamento de carretas ao redor da praça, caracterizando, assim, “clientes” em potencial – uma vez que o município não oferta espaços adequados para o estacionamento desse tipo de veículo. Especula-se, através da denúncia de uma escola local ao Conselho Tutelar do município, e deste órgão ao Ministério Público da Comarca, a existência de gangues de adolescentes do sexo feminino coordenadas por adultos, com o exclusivo interesse em amealhar integrantes para a finalidade da exploração sexual, as quais teriam recebido denominações como: “As incríveis do Sexo”, “As Doadoras de Charque” e “As Meninas do Poder”, entre outras. Some-se a isso a ação do tráfico de drogas e o inchaço da demanda pelo uso de várias substâncias, não apenas do município de Marituba, mas em toda a área metropolitana, já que é possível encontrar meninas e mulheres em situação de dependência química, moradoras das cidades próximas, como Belém, Ananindeua e Benevides. O Projeto Lumiar, até os dias atuais, contabiliza 94 casos atendidos, tendo o padrasto como majoritário agressor. Nesse arranjo considere-se 88 vítimas, sendo 79 do gênero feminino e 19 do gênero masculino. Esclareça-se que os atendimentos se expandem para os adolescentes autores de abuso sexual, em número de 06, sendo 05 masculino e 01 feminino. Em todos os casos, as famílias também estão em acompanhamento, conforme previsto na Política Nacional de Assistência Social – PNAS. A Violência Sexual no Município de Altamira:

O fenômeno da violência e exploração sexual de crianças e adolescentes no município de Altamira tem seus primeiros registros oficiais na década de 1980, com os casos de emasculação e morte de 11 crianças e adolescentes. Na época, órgãos internacionais de defesa dos direitos humanos e representantes do Governo Federal, bem como organizações não governamentais e órgãos de defesa dos direitos da criança e do adolescente, estiveram no município acompanhando de perto aqueles fatos, sendo que muitos deles continuam, até hoje, acompanhando o processo “ainda não concluído”.

Dado esse processo, houve então a necessidade de implantação e criação de órgãos e entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente em Altamira, quando em 22 de maio de 1991, através da Lei Municipal Nº 223 / 91, foi criado o Conselho Tutelar, com o objetivo de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, e conseqüentemente, através da mesma Lei, foi criado o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Altamira, com o objetivo de acompanhar e fiscalizar pelo controle social as políticas públicas de promoção e defesa dos direitos da criança e do adolescente. Assim organizados, começaram então as primeiras mobilizações concretas dos movimentos sociais, Prelazia do Xingu, CMDCA, Conselho Tutelar, Comitê em Defesa da Vida das Crianças Altamirenses, Promotoria Publica e Juizado da Infância e Juventude, fortalecendo então as ações municipais em defesa dos direitos da criança e do adolescente. Nesse contexto, a Secretaria Municipal do Trabalho e Proteção Social, órgão da administração direta do poder publico municipal, que tem por objetivo a promoção dos direitos humanos e o pleno exercício da cidadania, considerando os índices de violência e exploração sexual de crianças e adolescentes no município de Altamira, implantou no ano de 2000, através de co-financiamento do Governo Federal, o Programa Municipal de Erradicação da Exploração e Abuso Sexual- SENTINELA. A partir de Janeiro de 2005, o Programa tomou dimensões significativas no combate ao abuso e exploração sexual em Altamira. Com sede própria, equipe profissional exclusiva e implementação das ações propriamente ditas, o programa passou a ser denominado FLORESCER, trabalhando na prevenção e combate a violência sexual, e hoje é referencia no atendimento às vitimas, mantendo parcerias significativas com órgãos e entidades locais, sem prejuízo à idoneidade e identidade de sua clientela. Nesses quase (05) cinco anos de atuação o programa atendeu a 1.628 casos de exploração, abuso e outras violências sexuais, violência física e negligência. Só no ano de 2007 já foram registrados 669 casos, e desses, 169 estão sendo acompanhados diretamente pela equipe do Programa.

Segundo dados do CMDCA / Conselho Tutelar locais, somente no período de 2005 a 2007, foram registrados 3.779 casos de violência contra a criança e o adolescente em Altamira, sendo 99 atendimentos a vitimas de abuso e exploração sexual, somados a 72 casos de aliciamentos, 33 casos de prostituição, 08 casos de estupro, 28 registros de gravidez, 124 casos de espancamento, 134 casos de maus tratos, 33 registros de trabalho infantil e 258 crianças e adolescentes abandonadas por pais ou responsáveis, e ainda 12 casos de desaparecimento. Em função das crescentes ocorrências e pela deflagração de casos de prostituição e pornografia infanto-juvenil, foi criada a Comissão Municipal de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, a qual veio fortalecer os mecanismos de defesa dos direitos da criança e do adolescente em Altamira. Diante do exposto, a Comissão Municipal vem atuando no sentido de reduzir os danos causados às crianças e adolescentes, no que se refere a ações de enfrentamento ao abuso e exploração sexual, havendo a necessidade de ampliar e fortalecer a rede municipal quanto ao tráfico infanto juvenil para exploração sexual comercial. A Violência Sexual no Município de Marabá:

O município de Marabá, situado no sudeste do Estado do Pará, aproximadamente a seiscentos quilômetros (600 km) da capital Belém, é considerado pólo de desenvolvimento econômico da região sul e sudeste do Pará, e se constitui há quase quatro décadas em região de considerável concentração migratória, em função sobretudo dos grandes projetos de interesse nacional instalado em seu território. Esses grandes projetos inauguraram na região um novo ciclo econômico e um processo migratório intensos, decorrentes de fatores de atratividades exercidas pela expectativa de novas fontes geradoras de emprego. Nesse contexto, o município de Marabá com suas vantagens locacionais e infra-estruturais, tais como localização estratégica no cruzamento de importantes eixos rodoviários, existência de infra-estrutura aeroviária e ferroviária, constitui-se como ponto de interligação com os demais municípios da região e com outros estados, e por isso tornou-se ponto de convergência desse processo migratório e de seus impactos indesejáveis.

Tais impactos se traduzem em problemas ambientais e sócio-econômicos, entre os quais estão a ocupação e a utilização desordenada do espaço urbano, com insuficiência de infra-estrutura física e social para o atendimento das necessidades básicas da população. Atualmente o Município de Marabá conta com aproximadamente duzentos mil (200.000) habitantes, segundo o Censo Demográfico / 2000, e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,563. De acordo com a PNAD / 98 (Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar), apresentando o seguinte perfil: 40% de seus habitantes possuem pouca ou nenhuma escolaridade, 30% das famílias são chefiadas por mulheres e em 70% dessas famílias não existe profissionalização. A contradição entre a riqueza econômica do município, por um lado, e a existência de um perfil social de exacerbada pobreza, por outro lado, gerou inúmeros problemas sociais, destacando-se entre eles a violência sexual contra crianças e adolescentes, ao lado de outros igualmente graves, entre eles a evasão do lar e da escola, a gravidez precoce, as doenças sexualmente transmissíveis, a prostituição infanto juvenil e o envolvimento com drogas, todos esses muito provavelmente resultantes, em grande medida, dos quadros de negligência e abandono gerados pela situação de miséria absoluta e falta de perspectiva social e econômica da maioria da população local. Assim, a Prefeitura Municipal de Marabá, preocupada com os índices municipais e regionais alarmantes acerca do abuso e da exploração sexual de crianças e adolescentes, engajou-se na luta para traçar estratégias eficazes de enfrentamento a esta realidade, visando o exercício da cidadania com dignidade e respeito. Desta feita, o Município abraçou essa luta em parceria com os Governos Estadual e Federal, sendo que o combate ao abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes foi contemplado no Programa Avança Brasil, sendo inserido portanto na “agenda política e social do país” e do município. No ano de 2000, a cidade de Marabá foi inserida no Programa Sentinela com grande sucesso, tendo sido altamente favorecida com as ações voltadas à garantia de direitos de crianças e adolescentes previstas no E.C.A. As situações de violência sexual contra crianças e adolescentes tomaram visibilidade no âmbito

municipal, pois o Programa foi amplamente divulgado, e várias ações foram desenvolvidas, tendo como foco os cinco eixos do Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes: Análise da Situação, Atendimento, Mobilização e Articulação, Defesa e Responsabilização, Prevenção e Protagonismo Infanto Juvenil. Dessa forma, fortaleceu-se a Rede de Enfrentamento e Combate à Exploração Sexual no município de Marabá. As reuniões da Rede para planejamento das ações foram pautadas para ocorrerem mensalmente, e a execução se deu de forma articulada, incluindo o Poder Legislativo, o qual criou campanhas e audiências públicas para combater a exploração sexual. Diante de tudo isso, os casos começaram a aparecer e a serem encaminhados ao Projeto Colibri para atendimento, conforme quadro em anexo. Dados Estatísticos do Programa Sentinela/ Projeto Colibri:

Período: 2001 a 2004 Modalidade-Tipo de violência sofrida

Abuso sexual

109

56,2%

Estupro

15

7,7%

Negligência

12

6,2%

Violência psicológica

11

65,6%

Violência física

47

24,3%

Total

194

100%

Período: 2005 a 2007 (1º semestre) Modalidade-Tipo de violência sofrida

Abuso sexual

361

63,3%

Exploração Sexual

56

9.8%

Negligencia

57

9,9%

Violência psicológica

37

6,4%

Violência física

60

10,6%

Total

571

100%

Conforme os quadros representados acima, nota-se um grande aumento no que diz respeito aos registros das violências cometidas contra crianças e adolescentes no município de Marabá nos anos de 2001 a 2007. É importante observar que os dados apresentados são de demandas espontâneas que procuram o programa, bem como os encaminhamentos feitos pela Rede de Enfrentamento, tendo como porta de entrada o Conselho Tutelar e as Delegacias de Polícia. Tais indicadores são reflexo de um quadro de crise social marcado pelo aumento do desemprego, da pobreza, da violência e da vulnerabilidade social, tendo como conseqüência o surgimento de meninos e meninas que buscam as ruas da cidade para exercerem alguma atividade com fins lucrativos, sendo uma dessas atividades a exploração sexual. Ainda assim, os baixos registros no que diz respeito aos casos de tráfico para fins de exploração sexual, não significam dizer que o problema não exista no município, mas sim que precisa ser enfrentado com mais ênfase nas ações e metodologias que permitam maior visibilidade desse problema a nível municipal. Assim sendo, os dados relativos à violência sexual nos 04 municípios paraenses aqui considerados demonstram que as medidas adotadas para o enfrentamento do abuso, exploração sexual e tráfico de seres humanos para fins de exploração comercial e sexual, por um lado permitem visualizar a dimensão deste problema, derivada de multicausalidades, conforme foi demonstrado, sendo que medidas para o enfrentamento, tais como as redes de proteção às vítimas e familiares, são uma realidade nos mais diversos pontos do país, e no Estado do Pará não tem sido diferente, evidenciando a batalha travada por segmentos da sociedade civil e poder público contra o fenômeno da violência sexual. Por outro lado, o aperfeiçoamento crescente das estatísticas demonstra a necessidade de construção de novas estratégias metodológicas de atuação conjunta, de forma a contribuir para a redução dos quadros apresentados a partir do fortalecimento reordenado das redes municipais de proteção a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, promovendo a articulação do trabalho e a mobilização dos atores envolvidos.

Portanto, é facilmente verificável a necessidade de ampliação do trabalho de integração da rede de serviços locais, nos 04 municípios do Estado do Pará abrangidos pela Matriz Intersetorial de Enfrentamento da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, em acordo à metodologia de expansão do PAIR - Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes no Território Brasileiro, cuja implantação não tem, até o momento, privilegiado nenhum município paraense com a inclusão em seu programa de execução. Diante do exposto, em conformidade ao Programa Nacional de Direitos Humanos, a Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos do Pará – SEJUDH, sob a interveniência do Governo do Estado do Pará, e em parceria com a Fundação de Amparo e Desenvolvimento à Pesquisa – FADESP, da Universidade Federal do Pará – UFPA, (a qual será a Instituição de Ensino Superior responsável pelo suporte teórico necessário ao desenvolvimento da metodologia do projeto, bem como pelos componentes que envolvam diagnóstico, pesquisa, capacitação, sistematização, entre outros), vem propor habilitação técnica, através de convênio, para execução do Projeto ora intitulado “Reordenamento e Integração de Metodologias de Enfrentamento ao Abuso, Exploração Sexual e Tráfico de Pessoas: fortalecimento e articulação em redes municipais de proteção às violações de direitos humanos e sexuais no Estado do Pará”, a ser financiado com recursos da Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SPDCA / SEDH), e do Fundo Nacional para a Criança e o Adolescente – FNCA / Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente - CONANDA.

2. OBJETIVO

Objetivo Geral:

- Reordenar e integrar as redes de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes nos municípios paraenses de Belém, Marituba, Altamira e Marabá, assegurando a participação de órgãos governamentais e não governamentais envolvidos com a problemática, fomentando a construção de um processo coletivo que fortaleça os serviços já existentes, oportunizando o

conhecimento do quadro atual e a socialização das metodologias exitosas, visando a promoção de novas parcerias nos municípios. Objetivos específicos 1- Realizar mapeamento diagnóstico da situação atual da violência sexual contra crianças e adolescentes, bem como da estrutura organizacional e qualidade operacional da rede de serviços dos municípios de Belém, Altamira, Marabá e Marituba, com ênfase na exploração e tráfico para fins sexuais 2- Construir quatro Planos Operativos Locais nos municípios de Belém, Altamira, Marabá e Marituba, garantindo sua publicação e divulgação com ampla participação dos atores das redes de proteção social 3- Promover oficinas de capacitação, nos 04 municípios, dos operadores da rede de atendimento, prevenção, defesa e responsabilização 4- Acompanhar as atividades em cada município através de monitoramento, avaliação e supervisão técnica, a fim de sistematizar resultados, custos e impactos do projeto 5- Publicar o registro sistematizado das atividades desenvolvidas e resultados alcançados em cada município.

3. METAS

1) Realizar levantamento e mobilização dos órgãos e entidades das redes municipais de proteção de crianças e adolescentes vítimas de abuso, exploração sexual e tráfico de seres humanos em 04 municípios; 2) Promover reuniões de articulação política visando parcerias e mobilização das forças e entidades locais; 3) Definir metodologia e instrumentais de diagnóstico participativo das redes municipais, incluindo os conselhos tutelares; 4) Mapear informações sobre crianças e adolescentes em situação de violência sexual, pontos de exploração sexual comercial incluindo situações de tráfico sexual, e ainda a organização e estruturação dos serviços da rede;

5) Avaliar as condições de funcionamento das instituições que prestam serviços nos municípios, seu funcionamento em rede, bem como o perfil dos profissionais e condições de trabalho; 6) Analisar as informações coletadas e elaborar relatório sobre as demandas e oferta dos serviços; 7) Desenvolver pesquisas acadêmicas com base nos dados do diagnóstico, em parceria com a FADESP – Universidade Federal do Pará – UFPA, nas cidades abrangidas pelo PAIR. 8) Promover em cada município reunião preparatória para organizar atividades de elaboração dos Planos Operativos Locais participativos; 9) Realizar de seminário para construção do Plano Operativo Local, com a participação dos principais atores do Município; 10) Publicar e divulgar os Planos Operativos Locais participativos dos 04 municípios do PAIR; 11) Eleger nos 04 municípios Comissões de articulação e acompanhamento do Plano Operativo Local, formalizadas por resolução do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. 12) Elaborar Matriz Curricular Pedagógica das Oficinas para os 04 municípios; 13) Proceder à seleção, preparação e publicação de material instrucional das oficinas; 14) Realizar de oficinas de capacitação dos operadores de rede atendimento, prevenção, defesa e responsabilização, com carga horária sugerida de 80 horas (60 horas / aula – formação geral, e 20 horas / aula - capacitação específica), conforme Matriz Curricular Pedagógica; 15) Elaborar e oportunizar Pactos com a Sociedade para a articulação e integração do trabalho em rede para a proteção das crianças e adolescentes vítimas de violência sexual e tráfico para fins sexuais. 16) Elaborar metodologia para o monitoramento e avaliação do projeto PAIR nos 04 municípios; 17) Operacionalizar coleta e tratamento de informações sobre as atividades, resultados, custos e impactos do projeto;

18) Realizar supervisão e assessoria técnica continuadas para validação dos Planos Operativos Locais nos 04 municípios paraenses do PAIR.

19) Identificar e sistematizar as experiências bem sucedidas a serem divulgadas e

disseminadas;

20) Analisar e sistematizar os registros feitos e os relatórios de monitoramento e

avaliação. 21) Elaborar e publicar relatos de boas práticas identificadas nos 04 municípios paraenses.

4. ATIVIDADES PREVISTAS

a) Diagnóstico rápido e participativo da exploração sexual de crianças e

adolescentes, incluindo o tráfico interno e internacional de pessoas, visando 1)

mapeamento e avaliação do fluxo e qualidade do atendimento em 04 municípios;

2) mapeamento e avaliação da estrutura organizacional e operacional dos

programas, serviços, e redes de serviços de enfrentamento da exploração sexual e do tráfico a ela associados, existentes em cada município.

b) Construção de Planos Operativos Locais participativos nos 04 municípios do

PAIR, em acordo aos resultados obtidos nos diagnósticos realizados e, caso

possível, com o respaldo de outras pesquisas existentes relacionadas aos temas do abuso, exploração sexual e tráfico de pessoas para fins comerciais.

c) Capacitação dos principais atores que compõem as redes de atendimento,

prevenção, defesa e responsabilização, para qualificação dos Planos Operativos

Locais, consolidação dos Pactos com a Sociedade e instalação de processos de trabalho articulados, a partir da percepção da importância na atuação integrada e do aprimoramento no conhecimento do fenômeno em todos os municípios.

d) Realização de Monitoramento e Avaliação sistemáticos que permitam a

supervisão e o acompanhamento das atividades realizadas, para subsidiar a troca de informações e experiências.

e) Sistematização e publicação de manual de referência, com as atividades

desenvolvidas e resultados alcançados em cada município, visando disseminação

dos instrumentais teóricos e metodológicos nos demais municípios onde exista o problema.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AZEVEDO, Maria Amélia. & GUERRA, Viviane. N. A. Infância e

Violência Doméstica: fronteiras do conhecimento. São Paulo: Cortez,

1993.

FREIRE COSTA, Jurandir. Violência e Psicanálise, Rio de janeiro, Ed.

Graal, 1994. HAZEU, Marcel & FONSECA, Simone. Violência contra Crianças e Adolescentes na Região Metropolitana de Belém: 1998 e 1999 –

dados e reflexões sobre a problemática. Movimento República de Emaús – Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Emaús.

2001.

NEVES, Rosa H. N.; QUINTELA, Rosângela. & CRUZ, Sandra H. A política de Assistência Social em Belém. Belém: Paka - Tatu, 2004. RODRIGUES, Pedro Raimundo R. & SANTOS, Rodrigo M. Estudo Estatístico dos Casos de Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes Registrados no Projeto Sentinela - Belém de 2002 - 2004. 2005. Monografia (Especialização em Estatística UFPA, Belém - PA, Brasil).