Você está na página 1de 24

A Igreja de Jesus Cristo - Uma

Perspectiva Histórico-Profética-
Éfeso 1ªparte
Arcadio Sierra Diaz : www.aigrejadejesuscristo.blogspot.com
Publicação: 25/09/2007
A Igreja de Deus é uma; nem um só osso do corpo do Senhor foi quebrado.

ÉFESO
(1ª. parte)

SINOPSE DE ÉFESO

Panorâmica sobre o fundamento da Igreja

A encarnação do Verbo de Deus - Seu ministério terreno com Seus discípulos - Sua paixão,
morte, ressurreição, ascensão e vinda do Espírito Santo em Pentecostes.

A Igreja primitiva

Os sete candeeiros de ouro dos finais do primeiro século - O Corpo de Cristo unido em sua
expressão local: uma só assembléia em cada cidade - A aparência do reino dos céus.

Fundamentos legítimos e fraudulentos

Os apóstolos: Os verdadeiros e os falsos - Primeiras heresias: Ebionismo, docetismo,


gnosticismo - As primeiras perseguições.

O começo do deslize

Decai o primeiro amor - Os ágapes se contaminam - Aparição das obras dos nicolaítas -
Raízes do clericalismo.

Os vencedores de Éfeso:

Primeira recompensa: comer da árvore da vida.

A CARTA À ÉFESO

"Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão
direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:
2- Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não
podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se
declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos;
3- e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te
deixaste esmorecer.
4- Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.
5- Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras
obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te
arrependas.
6- Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu
também odeio.
7- Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei
que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.” (Apo. 2:1-
7).*(1)
Panorâmica sobre o fundamento da Igreja

A antiga cidade jônica de Éfeso estava situada na costa oriental do mar Egeu, e chegou a ser
a próspera capital da província romana da Ásia Menor, nos tempos em que o Senhor quis
que fosse marco privilegiado da obra missionaria da equipe apostólica de Paulo. Nesta bela
cidade havia um famoso porto, pois se tratava de um centro comercial da região. Ali se
encontrava uma das sete maravilhas do mundo antigo, o Artemisão, o templo da plurimaria
Ártemis( Diana), a grande deusa da fecundidade da Ásia Menor, muito estimada pelos
efésios, de acordo com o contexto de Atos 19:23-41. Por isso era chamada esta cidade
“Guardiã do Templo”. A cultura desta importante cidade antiga era a herança indiscutível do
mundo greco-romano da época. Cada um dos nomes gregos destas localidades refletia a
condição espiritual da respectiva igreja. Se diz que o significado de Éfeso é “desejo ardente,
desejável”, o que tem haver com o que ao final do período primitivo a Igreja mesmo era
desejável para o Senhor; também significa “soltar”, assim como “afrouxado” ou
“descansado”, aspecto que tem muito haver com essa característica de haver deixado, a
igreja do Senhor na localidade de Éfeso, seu primeiro amor. No matrimônio costuma ocorrer
isso. Nos interessa muito esse vivo retrato que nos faz João das condições reais e históricas
do candeeiro na localidade de Éfeso, porque ali vemos tipificadas as peculiaridades do final
do primeiro período profético, dos sete que caracterizam à Igreja de Jesus Cristo, nos
eventos compreendidos entre a gloriosa ressurreição do Senhor e Seu segundo advento.
Porém mais que o aspecto local da igreja como casa de Deus, nesta perspectiva histórico-
profética nos interessa enfocar as prefigurações das distintas etapas do vital
desenvolvimento do Corpo de Cristo. A seu passo pelos séculos nos anais de nossa era,
incluídos seu nascimento, seus sofrimentos, seu cativeiro, e os passos que têm vindo dando
o Senhor para a restauração total da expressão da unidade de Seu Corpo. Com freqüência
vemos na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, que feitos reais e históricos
alegorizam e tipificam situações, feitos, condições e sentidos mais profundos e espirituais, no
marco dos propósitos eternos de Deus.

*(1) O Apocalipse foi escrito nos tempos do imperador Domiciano, ao redor do ano 95 d.C.

Em que se radica a importância de estudar a Igreja do Senhor em sua etapa primitiva? Que
interesse pode ter para nós conhecer a “gênese” da Igreja depois de vinte séculos? Muito e
em grande maneira, porque por meio desse conhecimento podemos compreender
melhor a perfeita vontade de Deus para com Sua Igreja; a natureza da Igreja, sua
autêntica e original estrutura, características, governo, metodologia, condições
muito diferentes das atuais, pois com o correr do tempo o homem determinou
esquecer-se, apartar-se, deixar as normas, diretrizes e exemplos estabelecidos por
Deus em Sua Palavra, muitas vezes desconhecendo-os, ignorando-os ou
deturpando-os; como se o livro dos Atos houvesse perdido vigência. A igreja
primitiva, conforme se desenvolve no livro dos Atos, é o padrão ou modelo de Deus para Sua
Igreja, válido para todos os tempos. É uma falácia pensar que as normas da Igreja de Jesus
Cristo devam mudar e ajustar-se a determinadas mudanças cronológicas, e que hoje haja
que estudar e por em prática novas estratégias introduzidas pelo engenho humano, como se
o modelo autêntico e original de Cristo para Sua Igreja já fosse anacrônico para os tempos
que vivemos. Toda vez que o Senhor nos dá a oportunidade de conhecer melhor a
verdadeira e normal Igreja de Cristo, podemos apreciar em sua justa medida a forma em
que os homens se afastaram dela. O primeiro período profético da Igreja do Senhor, com
seus sub-períodos apostólico e pós-apostólico, começa quando o Senhor dá suas últimas
instruções no Monte das Oliveiras depois de Sua ressurreição, e ascende ao Pai afim de
enviar o Consolador que havia prometido, período que culmina ao finalizar o primeiro século
da era cristã, nos tempos em que o ancião apóstolo João finalizara sua escritura do livro de
Apocalipse na ilha de Patmos. Uma vez acontecida a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja
no dia de Pentecostes, se cumprem as palavras do Senhor de que estaria sempre com a
Igreja, guiando-a, ensinando-a, transformando-a, enchendo-a de poder e sabedoria, e é
assim como aqueles humildes pescadores foram guiados por Deus desde Jerusalém a
transtornar o mundo inteiro. Deus, desde toda a eternidade, desde antes que o mundo fosse,
tem Seus propósitos com a criação, com a terra em particular, e especialmente com o
homem, e esses propósitos os têm em Seu Filho Unigênito. A Palavra de Deus diz que Deus
nos escolheu em Cristo desde antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e sem
mancha diante dele, para que se cumpra em nós esses propósitos, para qual fomos
predestinados. Quais propósitos? O Pai fez a criação para Seu filho e se propôs reunir todas
as coisas em Cristo, e nós temos sido predestinados para que fossemos feitos conformes à
imagem de Cristo. Todos os escolhidos estão chamados a conformar a Igreja, a qual é
também o Corpo de Cristo, e Ele é a Cabeça. A Igreja de Jesus Cristo é assim mesmo o
verdadeiro templo de Deus, e para isso foi criado o homem, para que conheça a Deus, o
represente; para que Deus se incorpore no homem por Seu Espírito e, como Igreja, o
homem o expresse. Também o homem foi criado por Deus visando a preparação de uma
esposa para Seu Filho, a qual será levantada sem mancha nem ruga (cfr. Efésios 1,3,4,5;
Romanos 8:29,30), ou seja, gloriosa e limpa de todo contágio do velho homem . Por meio da
obra de Seu Amado Filho, Deus quis dispensar-se ao homem; Tem sido Seu desejo e
propósito entregar a Si mesmo ao homem corporativo, para ser contido primeiro pelo
homem, esse ser tripartido, criado por Deus dotado de espírito, alma e corpo, e logo ser
expressado corporativamente pela Igreja. A Igreja estava no plano de Deus antes da criação
do homem. O Filho, chegado o tempo determinado pelo Pai, veio a esta terra e se encarnou
por obra do Espírito Santo em Maria, uma humilde virgem hebréia da família de Davi, e para
ele por sua própria vontade tomou forma de servo, esvaziando-se, despojando-se, despindo-
se de todas Suas prerrogativas como Deus; o que se chama no grego a kenosis; assumindo
assim as limitações inerentes à humanidade, como verdadeiro homem. Com esse
desconcertamento, Cristo se submeteu a uma condição de inferioridade. E assim viveu e
cresceu, em obediência ao Pai, em Nazaré da Galiléia, quando o César Tibério Augusto
reinava sobre todos os domínios do Império Romano, aquela quarta besta sanguinária e
terrível, espantosa em grande maneira, que havia sido revelada a Daniel por Yahveh em
visões nos tempos do cativeiro babilônico (cfr. Daniel 7:7,19-23).Chegado o momento, à
idade de trinta anos foi batizado no Jordão; logo chamou a seus discípulos, dentre os quais
escolheu doze, aos que também, chamou apóstolos. Mas o curioso é que para essa escolha
não necessariamente teve-se em conta a classe sacerdotal de sua nação; não consultou o
assunto com o sumo sacerdote, senão com Seu Pai; não escolheu seus imediatos
colaboradores dentre a tribo de Levi e a família de Arão, senão que se foi à beira do mar de
Galiléia e chamou primeiro a quatro pescadores de profissão, a Simão a quem chamou Pedro
e a seu irmão André, filhos de Jonas; em Betsaida, Galiléia; a João e a Tiago (chamado o
Maior), filhos de Zebedeu e Salomé, naturais também de Betsaida, a quem encontrou
remendando as redes, e lhes disse que desde esse momento seriam pescadores de homem,
e quem mais tarde receberam de Jesus o nome de “filhos do trovão”. Depois chamou a
Felipe, natural de Betsaida; a Bartolomeu, também chamado Natanael; em Cafarnaum
convidou a segui-lo a Mateus, chamado também Levi, um cobrador de impostos na Judéia
por conta dos romanos; a Tomé ou Dídimo, quem mais tarde duvidou do acontecimento da
ressurreição do Senhor até que o viu e tocou Suas chagas; a Tiago (chamado o Menor) filho
de Cleófas e Maria (prima da mãe de Jesus); a Judas chamado Tadeu; a Simão chamado
Zelote ou Cananeu, e a Judas Iscariotes, filho de Simão, natural de Kariot, quem era o
administrador dos fundos do grupo do Senhor e o qual mais tarde chegou a trair-lhe. Com a
companhia íntima desse reduzido grupo, e seguido muitas vezes por outros discípulos e uma
grande multidão, Jesus pregou as boas novas do evangelho do reino de Deus; para ao longo
de três anos e meio ser julgado pelas autoridades políticas e religiosas tanto de sua nação
como da potência dominante em Jerusalém e ser crucificado no monte Cálvario ou da
Caveira, nos arredores da cidade, onde derramou Seu sangue e ofertou Sua vida pela Igreja.
Ao terceiro dia ressuscitou, sendo o primeiro dia da semana se levantou da tumba, e depois
de transcorrer quarenta dias, ascendeu aos céus, ao trono do Pai e enviou o Espírito Santo, o
Consolador, como havia prometido, feito ocorrido no dia da festa dos judeus chamada de
Pentecostes ou qüinquagésima e que no tempo do Antigo Testamento era conhecida como a
festa das semanas ou da sega dos frutos da terra, de modo que o Consolador desceu com
poder sobre a Igreja apostólica cinqüenta dias depois da ressurreição do Senhor, e esses 120
irmãos que estavam reunidos representavam as primícias da sega de Cristo, aos quais Eles
entregavam as primícias do Espírito, provas de nossa herança celestial. Esse dia de
Pentecostes ocorreu a fins da primavera do ano 30 d.C., no qual o Espírito Santo veio a dar-
lhe à Igreja a vida mesma de Cristo. Nesse primeiro Pentecostes da Igreja começou o povo
de Deus a recolher uma grande colheita, e esse labor mesmo não há terminado, pois esse
glorioso Pentecostes que havia sido preparado e prometido, também se têm prolongado,
porque o Espírito Santo sempre têm estado habitando na Igreja, começando pelos apóstolos
do Senhor Jesus, até o mais humilde servo de Cristo que habite nesta terra nesses dias.

Uma Igreja unida

Assim como Gênesis é o livro dos princípios, onde se semeia as sementes da revelação
divina, Apocalipse é o livro da consumação de todas as coisas; um livro profético por
antonomásia onde o Senhor descobre o véu dos acontecimentos finais, pois precisamente o
termo apocalipse significa tirar o véu, revelação, a revelação de Jesus Cristo, verdadeiro
autor e objeto deste maravilhoso livro. Seus primeiros três capítulos se destacam e se
diferenciam devido a que tratam acerca das sete cartas que o Senhor ordena a João que
escreva à igrejas históricas de igual número de localidades na Ásia Menor. A primeira é
dirigida a Éfeso: “A o anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva
na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro::” (Ap. 2:1).
Ainda que a carta está dirigida ao anjo da igreja da localidade de Éfeso, no entanto, é
também para a igreja, para todos e cada um dos crentes do Senhor, e as demais para cada
igreja constituída nas diferentes cidades e aldeias de muita parte do mundo greco-romano.
Nesse tempo o corpo do Senhor era expresso em uma perfeita unidade e comunhão
espiritual em cada localidade onde houvessem redimidos pelo precioso sangue do Senhor. Os
santos não se haviam dividido em seitas separatistas frutos da carnalidade. Isso se sucedeu
em séculos posteriores, e é o que o Senhor está corrigindo na época presente. Não importa
que os homens se oponham a este trabalho de restauração do Senhor. O edifício deve ser
construído conforme o modelo de Deus.

A carta, a envia o Senhor; João é apenas um escrevente neste caso. A cada uma das igrejas
se apresenta na forma diferente, identificando-se de acordo com a condição de cada uma. A
Éfeso escreve o que tem as sete estrelas em sua destra, e anda no meio dos sete candeeiros
de ouro; é o Senhor Jesus Cristo mesmo dizendo à igreja que Ele tem em Suas mãos as
rédeas de Sua Igreja, tem total autoridade e controle sobre a Igreja, à qual governa, guia,
exorta, alimenta, dá vida, corrige, constrói, alenta, com Sua única potestade. O Senhor
sujeita firmemente as sete estrelas, em sinal de que é dono e Senhor das igrejas; passeia no
meio dos candeeiros, em sinal de constante vigilância. Como a lua alumia com a luz solar, a
igreja alumia na escuridão da noite com a luz do Senhor, e Ele tem também estrelas em Sua
destra, anjos celestiais, que ajudam à Igreja. Essas estrelas também simbolizam os irmãos
espirituais que tem a responsabilidade do testemunho de Jesus. Estamos nas seguras e
poderosas mão do Senhor; o Senhor cuida de Sua Igreja; isso significa que nada pode nos
arrebatar de Sua destra. O Senhor Jesus não pode estar menos senão no meio da Igreja, o
Sumo Sacerdote sempre presente nela, porque sem Ele não pode existir Igreja, e isso é
muito alentador. A Igreja é Sua morada e também Seu Corpo e Ele é o Cabeça, e, por tanto,
está inteirado permanentemente de todos os eventos em todos os lugares, tanto no tempo
como no espaço. É responsabilidade da igreja local dar testemunho do Senhor Jesus pelo
Espírito Santo ante os homens, para que os homens conheçam a Deus pelo testemunho da
igreja. O testemunho e a expressão de Jesus é a Igreja, e Cristo é o Testemunho de Deus.
Mas tenha-se em conta que a Igreja universal se expressa nas igrejas locais. João nos disse
que o Senhor Jesus Cristo é Deus, quando afirma que “Também sabemos que o Filho de
Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no
verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (1 João
5:20). Mas desde sempre o diabo vem querendo desvirtuar a pessoa do verdadeiro Jesus, e
mesmo na atualidade, muitas pessoas, movimentos, organizações, doutrinas e diversas
escolas de opiniões, pregam a um Jesus diferente ao que pregaram João e o resto dos
apóstolos. Nos tempos em que andava com seus discípulos, um dia lhes perguntou: “Indo
Jesus para os lados de Cesaréia de Filipe, perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser
o Filho do Homem? E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros:
Jeremias ou algum dos profetas”. (Mateus 16:13,14). Além disso, algumas pessoas tiveram
a Jesus simplesmente como o filho do carpinteiro do povoado; outros o tinham como um
agente de Belzebú, príncipe dos demônios. Hoje é diferente a visão? É pior; aumenta a gama
de diferentes Jesus. Há pessoas que se inclinam por chamá-lo o filho de Maria, alguns os têm
por um grande político, mas Jesus nunca quis ter nada haver com métodos políticos, e
jamais se enredou nos negócios deste mundo. Outros têm proclamado que foi o primeiro
comunista, ou um guerrilheiro da linha dos zelotes; outros o têm localizado no extremo
oposto afirmando que foi um integrante da seita dos essênios; e mesmo outros querem
capitalizar dizendo que Jesus foi um espiritualista ou grande mestre gnóstico, que adiantou
estudos esotéricos na Índia ou no misterioso Egito. Mas, além de João, Pedro também recebe
revelação do Pai, quando proclama, dizendo ao Senhor: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus
vivo” (Mt. 16:16).

O Reino de Deus

Lemos em Mateus 6:10: "venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no
céu; ". O que significa isto? Desde a queda do homem no Éden, na terra deixou de se fazer a
perfeita vontade de Deus, pois o homem entregou a soberania da terra a Satanás ao
obedecer-lhe; e os filhos da desobediência, a descendência adâmica seguiram a corrente
deste mundo; corrente que não é segundo Deus, e sim conforme Satanás, o espírito rebelde,
o qual usurpou o que era de Deus. Desta maneira a vontade de Deus não pode realizar-se
assim na terra como no céu. E precisamente o Verbo de Deus foi encarnado, entre outras
coisas, para trazer o domínio celestial à terra. Adão perdeu o domínio, e Cristo, o novo Adão,
veio recobrá-lo, como verdadeiro homem, de conformidade com a economia de Deus; e
então seja feita a vontade de Deus na terra como no céu. O Senhor Jesus é o novo Rei! Seus
seguidores, os que têm vencido já vivem a realidade atual do reino dos céus. De maneira
que se amamos esse estabelecimento do reino dos céus na terra, devemos orar que se
manifeste primeiramente em nossa pessoa, e em segundo lugar em toda a terra, até que a
terra seja completa e totalmente recobrada para Deus e Seu Cristo, e que se faça a perfeita
vontade de Deus em toda a terra. Diz a Bíblia que "Depois de João ter sido preso, foi Jesus
para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino
de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho." (Mc. 1:14,15). A expressão
reino de Deus não significa exatamente o mesmo que reino dos céus, pois o reino de Deus é
o reino no sentido amplo, desde a eternidade até a eternidade, e o reino dos céus é apenas
uma parte, a que se inicia com a Igreja no dia de Pentecostes e que compreende a era da
Igreja e do milênio. Para entrar no reino de Deus têm que nascer de novo; é a regeneração
(João 3:3,5); em troca para participar do reino dos céus, há de se cumprir certos requisitos
proclamados pelo Rei no sermão do monte. Antes da vinda de João Batista, o reino dos céus
não havia chegado. Os cidadãos do reino dos céus se caracterizam fundamentalmente por
serem pobres de espírito, porque a Palavra de Deus diz que deles é o reino dos céus. Jesus
começou sua pregação dizendo que o reino de Deus havia acercado; ou seja, o poder de
Deus já estava se manifestando sobre os homens, porque quando Cristo veio o trouxe
consigo, e os demônios estavam sendo privados de seu mortal poder sobre os homens. Mas
o que não nasce de novo, quem não houver experimentado a regeneração espiritual, quem
não houver recebido a vida de Deus em seu espírito pela obra redentora de Cristo e pela
ação do Espírito Santo, não pode perceber o reino de Deus, não pode entrar e pertencer a
ele; nem sequer vê-lo, porque não é uma instituição visível, senão uma possessão interior,
em sua manifestação atual. O atual aspecto do reino de Deus é a Igreja. "Interrogado pelos
fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus
com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está
dentro de vós." (Lucas 17:20-21). Não é possível confundir nem identificar o reino de Deus
com nenhuma organização eclesiástica; pois mesmo que já é uma realidade, entretanto, é
assim mesmo uma esperança para a idade futura, o reino milenar, no qual Cristo e os
crentes vencedores reinarão sobre todas as nações. De acordo com a escala de valores, o
mundo se interessa pelas coisas materiais, as riquezas, as possessões, o conforto, o luxo, os
festivais patronais, o supérfulo; mas, por contraste, o Senhor diz que é tão importante o
reino dos céus, que nossa ânsia deveria concentrar-se em buscá-lo primordialmente, antes
que ao vestido, a comida, por mais essenciais que sejam em nosso diário existir. Diz a
Palavra de Deus que uma pessoa não têm começado realmente a viver e a possuir vida
eterna e abundante, enquanto não pertença ao reino de Deus. Para ver o reino de Deus é
necessário estar localizado em certa posição, em uma perspectiva espiritual adequada; há
crentes que não têm ajustado essa posição e sua visão é confusa. Como se caracterizam os
que pertencem ao reino de Deus? Para compreendê-lo melhor podes estudar todo o Sermão
do Monte, nos capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho segundo Mateus, e em especial nas bem-
aventuranças. O Sermão do Monte descreve a atual realidade do reino dos céus, que está em
nós. Alguns mistérios concernentes ao reino de Deus, os encontram nas sete parábolas de
Mateus 13. Essas parábolas descrevem a aparência do reino dos céus; aspecto que se
cumpre no cristianismo nominal atual. A Palavra que proclama o reino e é semeada no
coração dos homens; o enfrentamento entre as duas sementes: a da mulher, Jesus, e a da
serpente, o trigo e o joio; em um desenvolvimento anormal da aparência do reino, começa
como a mais pequena das sementes e se converte em uma árvore grandiosa onde se
aninham as aves do céu. É um tesouro escondido, ou uma pedra preciosa e excepcional, que
para adquiri-la o Senhor vende tudo o que tem e na cruz compra a terra, a redime, para
obter este tesouro, a Igreja, para o reino; e ao final haverá uma separação entre os homens,
entre os maus e os justos para a possessão do reino de Deus, o qual é de grande gozo. Para
entender estas parábolas há de se levar em conta que a Igreja de Jesus Cristo jamais estará
composta pela maioria do mundo, senão por um pequeno remanescente redimido; e mesmo
dos redimidos, só participarão do reino milenar os vencedores. Em todas as raças da terra,
incluindo os judeus, os autênticos seguidores de Deus e de Seu Cristo sempre tem sido uns
poucos. O Senhor chama a Sua Igreja de “pequeno rebanho”. "Não temais, ó pequenino
rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino." (Lucas 12:32).O mundo está
em aberta oposição ao reino de Deus, devido a que o mundo inteiro está no maligno. Uma
pessoa que segue a corrente do príncipe deste mundo não pode possuir o reino de Deus, a
menos que seja através de um novo nascimento; saindo do mundo e de sua obscuridade
satânica. Desde o ponto de vista objetivo e histórico, porque o judaísmo e o Império Romano
determinaram levar Jesus até a morte? Simplesmente porque essas duas organizações viam
no Senhor um perigo para sua própria subsistência estrutural. Os representantes legais tanto
do sistema religioso do judaísmo como do poder político do Império, percebiam que se Cristo
fosse seguido fiel, firme e massivamente por todas aquelas multidões que o assediavam,
essas duas organizações estavam condenadas a desaparecer. Ainda que faz dois mil anos,
começou com Jesus o reino de Deus no âmbito da Igreja, aliás, há de se manifestar
dispensacionalmente; será o reino de mil anos como o descrevem os capítulos 24 e 25 de
Mateus, e a história sem dúvida chegara a sua culminação, pois é necessário que Deus
julgue a humanidade e se manifeste eventualmente Sua soberania e Seu reino entre os
homens. Os primeiros discípulos do Senhor também compartilhavam a expectativa do povo
judeu contemporâneo acerca da restauração do reino em Israel, e convencidos de que o
Senhor era o Messias esperado, antes da eventual ascensão de Jesus ao Pai, lhe fizeram
essa pergunta, "Senhor,restaurarás o reino a Israel neste tempo?" (Atos 1:6). Mas o Senhor
julgou que não era oportuno falar-lhes nesse momento sobre esse tema, pois era algo que
só o Pai sabia; e ao contrário que se ocuparam de ser Seus testemunhos por toda a terra.
Inclusive mesmo depois do dia de Pentecostes, a igreja apostólica cria no iminente retorno
do Senhor a restaurar o reino de Deus.

O candeeiro

O Senhor Jesus anda no meio dos sete candeeiros de ouro. O número sete significa a
plenitude; é o número que Deus usa para indicar totalidade em Sua obra, que Ele não deixa
nada incompleto nem quer nada incompleto; isso simboliza à totalidade de todas as igrejas
locais em todos os lugares e ao longo de toda história e o Senhor Jesus anda no meio de
todos os candeeiros. Há de se levar em conta que quando esta carta foi escrita estava se
terminando o período de Éfeso. E em ambos os casos, tanto a igreja na localidade de Éfeso,
como o primeiro período profético da Igreja, haviam começado a decair, a deslizar desse
nível alto, dessa plenitude à qual o Senhor havia elevado a Igreja no dia de Pentecostes. O
que significa essa expressão? O que representa o candeeiro de ouro? No verso 20 do capítulo
1, temos a resposta quando afirma: "Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na
minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete
igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas". Isso significa que a igreja de Jesus Cristo
em cada localidade está tipificada por um candeeiro, nas quais Ele se move, como Cabeça
que é; o candeeiro se relaciona com o testemunho. Uma igreja em Éfeso, um candeeiro em
Esmirna, outro em Pérgamo, outro em Jerusalém, outro em Valledupar, outro em
Bucaramanga, assim como outro em Teusaquillo, outro em Usaquén, no marco do Distrito
Capital,*(2) etc. Em uma localidade não pode aparecer mais de um candeeiro. Uma só igreja
em cada localidade, jamais dividida em vários grupos ou congregações ou supostas "igrejas",
porque o candeeiro que fez Moisés no deserto constava de seis braços e um caniço central,
mas era de uma só peça, pois o caniço e os braços terminavam em lamparinas, que a sua
vez eram alimentadas pelo azeite de um só depósito e tudo sustentado em um só pé, porque
Jesus Cristo é o único fundamento da Igreja. Existe como um só candeeiro na igreja local,
mas a suma de todos os candeeiros formam a Igreja universal; daí o número sete, que
significa plenitude.

*(2) Valledupar e Bucaramanga são as capitais dos departamentos colômbianos do Cesar e


Santander, respectivamente. Teusaquillo y Usaquén são localidades das que integram a
Bogotá, Distrito Capital da Colômbia, América do Sul.

O candeeiro estava dentro do tabernáculo (o Corpo de Cristo), mas o candeeiro em si é a


expressão local do Corpo do Senhor. No tabernáculo havia um só candeeiro, mais tarde, no
templo de Salomão haviam dez candeeiros,*(3) e isso mostra que os candeeiros estão se
multiplicando; agora o Senhor se dirige a sete candeeiros, número de plenitude; e em cada
localidade o Senhor está estabelecendo um candeeiro, e anda em meio deles cuidando-os,
alimentando o depósito com mais azeite (Seu Espírito), para que não se apaguem e alumiem
em meio da obscuridade do mundo. No tabernáculo se tipifica a unidade do candeeiro, no
templo de Salomão a multiplicação dos candeeiros, e em Apocalipse a plenitude. No
candeeiro está tipificada a Trindade de Deus: O ouro representa a natureza de Deus Pai, por
ser o ouro o metal mais precioso. O filho é representado na forma que se lhe da a esta
natureza divina, pois Ele é a imagem de Deus, e o Espírito Santo está tipificado no azeite que
alimenta as lamparinas para que alumiem, pois a Igreja é a luz do mundo (cfr. Êxodo 25:31-
40; Mateus 5:14-16; 1 Corintios 12:12). Para isso desceu o Espírito Santo.

*(3) O 10 é o número das nações; significa que a Igreja é sacada de todas as nações da
terra, de todas as etnias, de todas as línguas, mas é representada por um candeeiro em
cada localidade.

O Senhor está edificando Sua Igreja, e na Bíblia, desde o livro de Êxodo, o candeeiro está
relacionado com essa edificação de Deus. O candeeiro por sua estrutura é uma unidade
coletiva. Neste tempo é necessário que os crentes recebam revelação a fim de compreender
este mistério dos sete candeeiros de ouro, e ver as igrejas locais, as quais conjuntamente
formam a Igreja universal. Não encontramos no Novo Testamento nem um só versículo em
que o Espírito Santo autorize e permita aos apóstolos edificar "igrejas" de apóstolos em
particular, ou de missionários ou pastores, ou de nenhuma outra índole ou doutrina, que não
seja a igreja de Jesus Cristo unificada em cada localidade. Uma igreja local é uma igreja
integrada por todos os filhos de Deus em uma cidade, localidade, povoado, vila, vereda;
unidos em atitudes inclusiva, no amor e na comunhão do Espírito, que tenham por única
Cabeça ao Senhor Jesus, que participem de um mesmo pão e que obedeçam um só
presbitério. A Igreja não é construída com madeira, ladrilhos e pedras naturais, senão com
pedras vivas, cuja verdadeira vida é Cristo. “Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos
os santos em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos que vivem em Filipos" (Fp. 1:1). Eis aí
uma igreja local normal. A exceção de algumas dirigidas a certas pessoas, as cartas
neotestamentárias foram dirigidas às igrejas locais, e o livro do Apocalipse foi escrito para
ser enviado às igrejas locais. Há muita desorientação quando não se compreendem estas
coisas. A Bíblia não registra outro tipo de igreja que não seja as igrejas locais. O pregar o
evangelho e estabelecer igrejas locais foi o trabalho que o Espírito Santo assinou ao apóstolo
Paulo e sua equipe de apóstolos, desde o momento em que foi apartado para a obra em
companhia de Barnabé na localidade de Antioquia, de acordo com o contexto dos capítulos
13 e 14 do livro dos Atos. Quando o povo hebreu recebe a ordem de Deus de tomar um
cordeiro por família para sacrificá-lo com motivo da grande salvação e libertação da
escravidão egípcia, esse cordeirinho imolado na festa da páscoa era uma figura perfeita,
admirável e magnífica, de Cristo crucificado por amor de nós; e o caso é que não foi um só
cordeiro por toda a congregação dos filhos de Israel, senão um cordeiro por família, para
tipificar, dentro dos detalhes da grande maquete veterotestamentaria da Igreja, que cada
família comendo o cordeiro com ervas amargas, expressava a igreja local ao redor do
Cordeiro de Deus, dentro do marco da Igreja de Jesus Cristo, igreja unida em cada
localidade, reunida no nome do Senhor Jesus pela comunhão do Espírito Santo. Os israelitas
não se reuniram ao redor do cordeiro com outro pretexto, nem pessoa, nem objeto, nem
mandato, nem centro, nem sistema, nem doutrina, nem ordenança, nem determinação
particular, nem nome que não foram ordenado por Jeová. Cada família era a expressão local
do povo de Deus, assim como a igreja de cada localidade é a expressão local da Igreja do
Senhor, e a nenhuma família lhe foi dado imolar mais de um cordeiro. Assim mesmo agora
também na Igreja somente participamos de um pão não fracionado e dividido, senão um
único e mesmo pão, para alimentar-nos Dele e mantermos em uma santa comunhão com
Ele, porque esse é o testemunho de Deus. A Igreja de Deus é uma; nem um só osso do
corpo do Senhor foi quebrado.
A Igreja de Jesus Cristo- Uma
Perspectiva Histórico-Profética
Éfeso 2ª parte
Arcadio Sierra Diaz
Publicação: 23/10/2007
"Se abandonamos nosso primeiro amor, perdemos nosso testemunho e o candeeiro é
tirado".

Uma Igreja cheia de amor

"Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes
suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e
não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do
meu nome, e não te deixaste esmorecer " (Ap 2. 2, 3).

É absolutamente inegável que a profunda experiência pentecostal da Igreja apostólica, a


mudou radicalmente, iluminando o entendimento dos irmãos acerca das verdades de Deus;
puderam ver com clareza o que realmente era o reino de Deus; foram transformados em
verdadeiras novas criaturas; Deus provendo um odre novo para que contenha e preserve
Seu vinho novo; foram cheios de poder espiritual, da autoridade representativa de Deus,
sabedoria divina, poder de convicção; foram confirmados os dons, ministérios e operações
no âmbito individual para o serviço corporativo, e começaram alumiar as lâmpadas
começando desde Jerusalém. O Senhor ressalta as boas obras e virtudes da igreja em Éfeso;
o árduo trabalho, a paciência, que os movia a difundir as boas novas, aperfeiçoar os santos,
a esmerar-se pelo cuidado das necessidades dos santos pobres, a edificar a unidade do
Corpo e a edificação da casa de Deus. A igreja em Éfeso não se descuidava no trabalho para
o Senhor. Também era sofrida e paciente. Nesses primeiros tempos a Igreja
corporativamente trabalhava movida pelos estreitos vínculos do amor de Deus, do amor
ágape, o amor que os crentes devem sentir uns pelos outros, e a unidade no Espírito.
Tenhamos por claro que o Senhor sempre nos ama. O crucial é que nós o amamos , e que
esse amor permaneça, que não se desfaleça; quando nosso primeiro amor não se afrouxa,
então há vida, e o amor nos proporciona as condições para alimentar-nos da árvore da vida,
que é Cristo; e quando na Igreja há vida, então há luz, a luz do candeeiro. O assunto está
em nós, não no Senhor. Quando a igreja primitiva se reunia, com freqüência celebravam um
ágape, no qual também partiam e comiam o pão e bebiam do cálice em memória do Mestre,
porque Ele havia ordenado que fizesse isto até que Ele voltasse. Eles comiam o pão da
unidade, e o Senhor quer que nós hoje sigamos participando daquele mesmo e único pão;
não um pão fracionado e sectário, porque fazemos parte de um só Corpo. A Palavra de Deus
nos dá testemunho dessa unidade de vida e desse obrar pela vida do Senhor em Sua Igreja.
“Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava
exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum. Com
grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos
eles havia abundante graça. Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que
possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam
aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha
necessidade. "(At 4. 32-35). Durante o sub-período apostólico, a Igreja se caracterizava por
sua absoluta obediência à vontade do Senhor glorificado. Já ao final desse período, a Igreja
mesmo era desejável ao Senhor, e Deus havia encontrado fidelidade e obediência entre os
redimidos, em contraste com a infidelidade e rebelião das criaturas começando no céu com
Lúcifer, o querubim protetor, quem a sua vez havia feito cair no mesmo pecado a toda
humanidade através do primeiro par. Na história, havia encontrado Deus um homem
obediente, Abraão, e através dele formou o povo de Israel, mas esse povo também falhou.
Finalmente a Igreja lhe foi obediente, vivendo a comunhão do Espírito, a vida corporativa, de
maneira que o testemunho dos irmãos constituía nesse tempo uma poderosa influência pelo
meio da qual transtornara o mundo. Era uma Igreja; todos davam testemunho do
evangelho; todos se esforçavam porque estavam cheios do amor de Deus e amavam ao
Senhor e a Sua obra, e o Senhor se manifestava com a realização de grandes prodígios e
milagres. A Igreja não tinha faltas; quando alguém ousou incorrer no egoísmo, avareza e
falsidade, imediatamente caiu morto. Reinava o gozo na comunhão e no corpo se vivia o
interesse por ajudar aos mais necessitados, os santos pobres. Nesse tempo mesmo a Igreja
estava integrada em sua totalidade por judeus, com a exceção de alguns prosélitos que,
como Nicolau o diácono e o etíope eunuco, se tratava de gentios que inicialmente haviam se
convertido à fé dos judeus, e agora haviam crido no Senhor Jesus pela pregação dos
apóstolos, como aparece no livro dos Atos no dia de Pentecostes (At 2. 10). Não obstante
estes e outros exemplos, as declarações das Escrituras e as próprias palavras do Senhor em
suas instruções finais, nenhum deles podia nem sequer imaginar que os gentios pudessem
chegar a serem admitidos; não havia sido plenamente revelado o mistério sobre a Igreja,
que "os gentios são co-herdeiros e membros do mesmo corpo, e co-participantes da
promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho" (Ef 3.6). Foi conflitante para muitos dos
primeiros cristãos terem clareza se a Igreja se configurava como uma seita mais dentro do
judaísmo, ou uma assembléia independente e distinta. Daí a razão pela qual o apóstolo
Pedro necessitava de uma visão do Senhor e a insistência do Espírito Santo para que se
submetesse a ir à casa de Cornélio, o centurião romano, para pregar o evangelho a ele junto
com toda sua família, o qual se registra no livro dos Atos como o terceiro gentio convertido.
É necessário esclarecer que é compreensível que no alvorecer da Igreja, alguma facção ultra
judia, sobre tudo da seita dos fariseus, contendia que não podia haver salvação fora de
Israel, e com muita energia apregoavam que os discípulos gentios deviam observar todas as
regras da lei judaica, como o do sábado como dia de descanso, circuncidar-se, a distinção
entre os alimentos limpos e os impuros, etc..., como meio para se justificar ante Deus. A raiz
desta forte controvérsia, se viu ameaçada a unidade da Igreja, pelo qual foi necessário que
no ano 50 d.C. se realizasse um concílio com os apóstolos e anciãos em Jerusalém, por meio
do qual chegaram a um sábio acordo, por momento, debaixo da iluminação do Espírito
Santo, pois a lei só ata aos judeus, e não aos gentios crentes em Cristo. Uma parte
destacada dos cristãos, entre eles Paulo, insistiam que se os discípulos de Cristo se
submetiam a observar a lei, depreciavam a graça de Deus em Cristo e caíam dela, dando
mostras de não entender a essência do evangelho (Atos 15 e Gálatas 5.1-6). A Igreja do
Senhor Jesus é para toda raça e nação e não exclusiva para os judeus. Era necessário, além
disso, que a Igreja não parecesse como uma das seitas do judaísmo, ou uma mais das
múltiplas religiões que brotavam por todo o império romano. Não obstante a Escritura
registra que o trabalho de escavação dos judaizantes continuou por muito tempo em várias
localidades como as da região da Galácia, com as consequências que presenciamos inclusive
no dias de hoje. Por ser em sua maioria de raça judia os santos da igreja em Jerusalém,
costumavam em certas horas do dia, ir ao templo orar, como fizeram Pedro e João,
entretanto, é notório que desde seu nascimento a Igreja se reunia nas casas para celebrar a
Ceia do Senhor, sua reunião principal, como registra Atos 2.46: "Diariamente perseveravam
unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria
e singeleza de coração". Eles foram iluminados pelo Espírito Santo para compreender que o
verdadeiro templo de Deus é a Igreja, composta pelos santos redimidos; que não deviam dar
importância aos edifícios feitos pelos homens. O diácono Estevão explicou diante do sumo
sacerdote e os anciãos do Sinédrio de Israel, quando disse: "...Entretanto, não habita o
Altíssimo em casas feitas por mãos humanas;..." (Atos 7.48), e este discurso o levou ao
apedrejamento até o martírio. Mais tarde, passada uma geração, o Senhor permitiu que o
templo da obsoleta religião judia, fosse destruído totalmente, sem que até o momento de
escrever estas cartas (1997) haja sido novamente construído. Nesse ardoroso sub-período
apostólico, quem ia à vanguarda da Igreja do Senhor, indiscutivelmente era o apóstolo
Pedro; defendendo-la, estendendo-la, representando a autoridade e o poder do Senhor em
todas as frentes do desenvolver da Igreja. Este ato de nenhuma maneira significa que o
apóstolo Pedro tenha sido papa, ou que haja recebido do Senhor algum encargo do tipo
político ou governativo. O mesmo declara que não foi papa, quando escreve aos santos
expatriados da dispersão na região do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, dizendo: "
Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos
sofrimentos de Cristo..." (1 Pe 5.1). Aqui a palavra ancião significa também, e assim é
traduzida em diferentes versões por presbítero, pastor, bispo; sem que necessariamente se
constituíra no bispo dos bispos. O papado é uma instituição italiana de origem pagã,
desenvolvido nos tempos da idade média, que está muito longe de ter raízes na Bíblia e na
revelação dada pelo Senhor, de maneira que um homem da estatura espiritual de Simão
Pedro, longe está de haver sido o primeiro papa romano. Mesmo entre o tempo em que
viveu Pedro e o início do papado em Roma, mais ou menos ao redor de uns cinco séculos.
Estaremos rondando sobre este tema no capítulo IV, quando estaremos estudando o período
de Tiatira. Com o ministério de Paulo, o apóstolo do mundo não judaico e especialmente o
mundo helenista, na segunda metade do primeiro século, se desenvolveu o ensinamento das
grandes e profundas doutrinas e dogmas da Igreja cristã. Em sua terceira viajem missionária
veio até Éfeso, onde permaneceu por mais de dois anos ensinando cada dia na escola de um
discípulo chamado Tirano; constituindo assim a Éfeso como centro neurálgico da obra, cujos
resultados foram manifestos não só na igreja dessa localidade, senão também na
propagação do evangelho por toda a província da Ásia, onde estavam localizadas as sete
igrejas da Ásia que são objetos de sendas cartas em Apocalipse, assunto que estamos
examinando. Indubitavelmente nesse tempo a igreja na localidade de Éfeso passava por um
período de grande amadurecimento espiritual, tanto que ao redor do ano 64, Paulo, na
inspiração do Espírito Santo, escreveu uma das cartas mais profundas que poderia ter
escrito.

Os apóstolos

De acordo com os versículos 2 e 3, a igreja de Éfeso recebe palavras de aprovação do


Senhor, e um dos motivos é devido a que eles provaram em seu tempo aos que se diziam
ser apóstolos e na realidade não o eram, senão que haviam comprovado que eram falsos. Os
acharam mentirosos, hipócritas, com a aparência de piedade própria dos mestres
relacionados com o gnosticismo, os quais já começavam a contaminar as igrejas com seus
erros. Também nos indica que além dos doze, o Espírito Santo já havia constituído outros
apóstolos, entre os quais se camuflavam alguns falsos, para semear a confusão e o engano.
Que significa ser um apóstolo? A palavra apóstolo vem do grego apóstolos (απόστολος), que
significa enviado ou apartado para. Conforme a Palavra de Deus, os apóstolos são os que
Deus escolhe e envia a fim de que trabalhem em Sua obra, seguindo a linha de Sua
soberana vontade e iniciativa. As três Pessoas da Trindade se encarregaram de enviar
apóstolos. O Pai enviou a Seu próprio Filho, o Senhor Jesus, que foi o primeiro Apóstolo
(Hebreus 3.1). Assim como o Pai enviou ao Filho, o Senhor chama e envia Seus doze
apóstolos ao trabalho que Deus havia determinado previamente (João 20.21; Éfesios 2.10).
O Pai os toma do mundo, e sendo de propriedade do Pai, se lhos dá ao Filho, quem a Sua
vez os envia (João 17.6). De maneira que a primeira e mais importante característica de um
verdadeiro apóstolo de Jesus Cristo, é que não é voluntário; não se foi feito apóstolo por sua
própria vontade, senão que é enviado por Deus. Aí temos o exemplo nos doze que o Senhor
escolheu, pois nem mesmo Matias, o que substituiu a Judas Iscariotes, se ofereceu
voluntariamente, senão que o Espírito Santo o confirmou, segundo Atos 1.15-26. O Senhor
Jesus ascendeu ao Pai, mas enviou um outro Consolador, o Espírito Santo; quem desde esse
tempo retomou a responsabilidade de nomear a outros apóstolos com o encargo de
continuar com o trabalho da obra de Deus iniciada pelo Senhor e os doze, na edificação e
crescimento do Corpo. Existem algumas escolas de pensamento no campo teológico que
sustentava que fora as testemunhas da ressurreição do Senhor, não há mais apóstolos; mas
de acordo com Palavra do Senhor, por exemplo, os versos 11 e 12 do capítulo 4 de Efésios,
os sucessores dos doze são ministros da edificação do Corpo de Cristo, assunto este que nos
ensina claramente também a Palavra em Atos 13.2 e versos seguintes, quando o Espírito
Santo aparta e envia a Saulo e a Barnabé à obra do Senhor, e a quem também se lhes
chama apóstolos (Atos 14. 4,14). Os ministérios de Efésios 4.11, incluindo o apostolado,
existem e existiram na Igreja do Senhor, para o trabalho de capacitação e aperfeiçoamento
dos santos, a fim de que todos nos ocupemos "na edificação do corpo de Cristo, até que
todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, a um varão
perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo" (Ef 4. 12-13). Não devemos ignorar
que o Senhor está trabalhando para que essa unidade se aperfeiçoe e se reflita em nosso
tempo. Agora bem; no livro dos Atos dos Apóstolos, assim como nas cartas do apóstolo
Paulo, encontramos com freqüência evidências de que o Espírito Santo havia constituído a
muitos outros irmãos como obreiros de Deus, enviados a efetuar a obra à que Ele
previamente os havia chamado; mas o assunto é que começaram a aparecer falsos
apóstolos, que inclusos recorriam às igrejas da obra, entre os quais era possível que se
encontrassem os judaizantes, que pretendiam que os santos procedentes dos gentios, se
escravizassem a guardar certos ritos da lei judia como: a circuncisão e o observar as festas
religiosas judias; isto, além de perverter o evangelho de Cristo, produziu perturbação entre
eles, já que, como é de se supor, denegriam a Paulo, dizendo que não era um autêntico
apóstolo, segundo eles, porque não fazia parte dos doze e alegavam que Paulo não pregava
o legítimo evangelho. Com base principalmente nessas considerações, Paulo escreveu a
epístola aos Gálatas, e por outro lado faz a defesa de seu apostolado nos capítulos 11 e 12
da segunda epístola aos Corintios. “Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros
fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porque o
próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios
ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas
obras." (2 Co 11. 13-15). De acordo com o contexto dos capítulos 11 e 12 da segunda
epístola do apóstolo Paulo aos Coríntios, falsos apóstolos houveram desde a igreja primitiva,
e por serem falsos não são enviados por Deus senão que são ministros de Satanás; e aí
confirma que suas características principais, entre outras, pelas quais se podem detectar, é
que se gloriam na carne, se enaltecem em seus conhecimentos, se envaidecem em suas
posições; que desejam ser exaltados e glorificados, muitas vezes pregando um evangelho
diferente; mais centrado no homem, buscam o que tem o homem; preferem mais receber
que dar, e serem atendidos e regalados; destacam sua necessidade; dá gosto a eles
escravizar aos santos, impondo-lhes cargas doutrinais e econômicas que eles mesmos não
podem suportar; os devoram, e é tão forte tudo isso, que os tratam como se usassem de
violência para atingir seus fins. A igreja primitiva, pelo menos em sua etapa apostólica,
soube descobri-los a tempo, e isso foi elogiado pelo Senhor.

Primeiras heresias

Dentro da atividade dos falsos apóstolos pode se levar em conta a difusão de erros
doutrinais e heresias para confundir aos santos. Antes que terminasse o primeiro século, já
alguns estavam negando que Cristo houvesse vindo em carne, já prefigurando movimentos
hereges com as idéias e princípios relacionados com o judaísmo, o docetismo e o
gnosticismo. Em sua obra "A Refutação", Hipólito de Roma (o primeiro chamado antipapa)
refuta as ramas filosóficas gregas que deram origem a heresias. Diz o irmão Witness Lee que
"o inimigo, Satanás, tem usado três pontos principais para ferir a Igreja: a religião judaica, a
filosofía grega e a organização humana. Estas são as fontes principais das divisões, a ruína e
a corrupção da Igreja"*(2). Aqui somente nos limitaremos a expor sucintamente as
principais heresias que perfilavam contra a unidade da Igreja, da doutrina dos apóstolos e da
preciosa verdade da Palavra de Deus no período de Éfeso, e que no segundo século
fomentaram maiores fontes de divisão.

*(2) WITNESS LEE, A História da Igreja e das Igrejas Locais. Living Stream Ministry, 1991,
pág, 8

Ebionitas

É difícil descrever com objetividade algo relacionado com os ebionitas. A maneira de


ilustração anotamos a existência de uma linha de opinião que, nos ensinamentos que se
trata de uma seita integrada pelos seguidores de Ebion, judeu de Samaria do século I,
negavam a filiação divina de Jesus, considerando-o um mero homem, um profeta, um porta-
voz de Deus, como o eram os grandes profetas hebreus do passado, de extraordinária
sabedoria e poder, adotado por Deus; que negavam o nascimento virginal, e que só
aceitavam o evangelho de Mateus, ao qual consideravam dirigido aos hebreus, e mesmo dele
suprimiam alguns capítulos. A cópia que eles usavam deste evangelho tinham certos desvios
típicos ebionitas, como a de que Jesus era filho de José e Maria. Uma das colunas da Hexapla
de Símaco, líder ebionita, era esta versão do evangelho de Mateus. Por outra parte se diz
que Ireneu utilizou pela primeira vez o termo ebionitas para referir-se a uns judeus cristãos
que viviam ao leste do Jordão. Também é provável que esse nome, ebionita, seja derivado
do hebreu ebyon (pobre) e que guarda alguma relação de origem com a igreja de Jerusalém
anterior ao ano 70 d. C., a qual se trasladou a Pella, cidade gentia ao leste do Jordão, e ali
sobreviveu por algum tempo, atendendo a recomendação do Senhor Jesus em Mateus 24.
15-18. Alguns observam que com o decorrer do tempo, seus descendentes, por falta de
contato com o resto da Igreja, conceberam algumas idéias heterodoxas acerca da
encarnação. Há de se levar em conta que dentro dos cristãos que saíram de Jerusalém havia
um grupo de irmãos que fazia parte dos fariseus relacionados com o sinédrio de Atos 15, que
pretendiam obrigar aos cristãos gentios a guardar a lei. Mas se pode afirmar que os ebionitas
faziam parte dessas minorias de judaizantes que afirmavam que os discípulos de Jesus
deveriam ficar dentro do redil judaico. Os ebionitas estavam, como se diz, entre a espada e
a parede porque eram considerados pelos judeus como apóstatas, e melhor, por sua atitude
fechada e exclusivista, não eram muito bem vistos pelos cristãos gentios. Curiosamente,
uma facção da igreja local de Jerusalém, liderada por Tiago, irmão do Senhor Jesus, tendia a
este ponto de vista dentro do processo de judaização e o esclarecimento dos fundamentos
cristãos. Destacamos que Tiago chamava Senhor a Jesus. Os ebionitas repudiaram a Paulo,
declarando que ele era apóstata da lei, o mesmo que a seus escritos por quanto suas
epístolas reconheciam aos gentios como cristãos (Atos 21. 17-27). Mas provavelmente a raiz
dos ensinamentos de Paulo e a epístola aos Gálatas, chegaram a compreender que as
práticas do judaísmo não eram obrigatórias para os cristãos gentios. Alguns escritores os
mencionam como nazarenos, e entre eles houveram escritores que afirmavam que Jesus era
o Messias, o Filho de Deus, e que Seus ensinamentos eram superiores aos de Moisés, mas
que os cristãos judeus deviam observar as leis judaicas relativas à circuncisão, a observância
sabática, e os alimentos. Alguns deles aceitavam o nascimento virginal de Jesus; mas
outros, talvez os "ebionitas gnósticos", propagavam a doutrina de que o Senhor era Filho de
José e Maria, que ao batizar-se, foi quando o Cristo descendeu sobre o homem Jesus em
forma de pomba, proclamando logo ao desconhecido Pai, mas que o Cristo, quem não devia
sofrer, se afastou de Jesus antes de Sua crucificação e ressurreição. Do ebionismo surgiram
várias ramos heréticos que alimentaram o unitarismo e alguma variedade de gnosticismo.
Outras datas acerca dos ebionitas se encontram na história eclesiástica de Eusébio de
Cesaréia. São de corte ebionita alguns escritos primitivos como os chamados evangelhos
apócrifos dos ebionitas e nazarenos, e as chamadas Homilías Pseudoclementinas (atribuídas
a Clemente de Roma). Estes documentos deram base à escola modernista de Baur de
Tubingem, para sua interpretação dialética do cristianismo primitivo. Sem lugar a dúvidas, os
modernos "messiânicos" são os defensores das idéias ebionitas.

Docetismo

O docetismo, palavra que vem do grego doceiko, "aparência", dokeo, "parecer", consistia na
opinião de que Jesus Cristo, o Filho de Deus, realmente não se fez carne, senão que só
pareceu fazê-lo; que não é verdadeiro homem, senão em aparência, negando assim a
encarnação e, por conseguinte, a expiação e a ressurreição. Por Eusébio sabemos que
Cerinto, herege docetista e gnóstico da Ásia Menor, foi em Éfeso um opositor do apóstolo
João. Daí que João enfatiza reiteradamente as palavras carne e sangue escrevendo contra
esta heresia, e declara que "e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus;
pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e,
presentemente, já está no mundo." (1 João 4.3). A origem desta heresia está em uma
mescla da filosofia grega com as religiões orientais. Inácio de Antioquia faz menção desta
heresia, anotando: “...ele sofreu verdadeiramente, assim como verdadeiramente ressuscitou
a si mesmo, não segundo dizem alguns infiéis, que só sofreu em aparência. Eles sim que são
a pura aparência!” E, segundo como pensam, assim lhes sucederá, que se fiquem em figuras
incorpóreas e fantasmais" (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Carta aos Esmírnios, II,1, BAC,1985).
Cerinto, com seus princípios gnósticos, ensinava que o mundo não havia sido criado pelo
único e supremo Deus, senão por um demiurgo. Negava que a pessoa do Senhor Jesus fosse
a vez divina e humana. Dizia que Jesus havia sido só um homem comum e corrente ao qual,
no ato do batismo no Jordão, no momento em que desceu o Espírito Santo em forma de
pomba, foi quando desceu o Cristo espiritual, o Logos ou Verbo divino; e com base nestas
premissas o que seguia era negar a encarnação do Verbo e desvirtuar de passo Sua
crucificação, afirmando que na crucificação somente havia sofrido Jesus, o humano, pois
Cristo, como Deus, era impassível e não podia padecer. Também havia correntes gnósticas
que afirmavam que o Verbo divino voltou ao homem Jesus na cruz, quando exclamou: "Deus
meu, Deus meu, por que me desamparaste?". O apóstolo Paulo contradisse também a
heresia de Cerinto na epístola aos Colossenses, como o apóstolo João, tanto em seu
evangelho como na primeira epístola. As Escrituras dizem que "o Verbo foi feito carne", e
isso significa que a preexistente Pessoa divina do Filho estava com o Pai desde antes da
fundação do mundo, que é consubstancial com o Pai e de sua mesma essência, porque no
princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o Verbo era Deus, e aquele Verbo se fez
carne. Na formação e desenvolvimento destes erros, teve muito haver a filosofia grega. De
acordo com o pensamento helenista, sobre tudo pelos princípios do platonismo e
neoplatonismo, havia uma rígida separação entre o espírito e a matéria. Contrastando com a
tradição judaica, e em particular com os ensinamentos do Senhor Jesus, essas disciplinas
filosóficas consideravam a matéria, incluindo a carne, como mal, e o puro espírito como bom,
onde concluíam que o homem devia emancipar seu espírito da contaminação da carne, o que
gerou conflitos com os ensinamentos da encarnação e a crucificação. Também reflete num
grande dano na aparição posterior do ascetismo e o pseudomisticismo, que não são outra
coisa senão rudimentos do mundo.“Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo,
por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não
proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois
que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de
sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não
têm valor algum contra a sensualidade” (Cl 2. 20-23).

Gnosticismo

Movimento filosófico-religioso que surgiu nos tempos da Igreja primitiva, composto de


diversas seitas e alimentado em uma grande variedade de mananciais, como as filosofias
gregas e correntes religiosas de tipo orientalista, armas com as quais Satanás quis destruir a
Igreja do Senhor desde suas raízes. O gnosticismo recebeu contribuições do dualismo órfico
e platônico, dualismo persa, as religiões dos mistérios, a astrologia mesopotâmica e a
religião egipcia. É provável que haja tido sua origem na Ásia Menor, que alguns
consideraram como um foco de idéias fantásticas da mente de gregos místicos e
desequilibrados. Mas há consenso na opinião de que um personagem proeminente na criação
do gnosticismo é Simão o Mago. A Palavra de Deus no livro dos Atos dos Apóstolos afirma
que Simão exercia a magia em Samaria antes de professar sua conversão, mas foi registrado
que foi acusado por Pedro de querer comprar o poder de dar também o Espírito Santo ao
impor as mãos. De acordo com uma tradição, se têm conhecimento de que Simão foi o
iniciador de algumas derivações falsas do cristianismo. O gnosticismo é um movimento
altamente sincretista, e entre os sistemas filosóficos gregos, foi o platônismo o que mais
influenciou para dar um verniz intelectualóide a esse fenômeno do gnosticismo; e o
neoplatônismo foi a base para a união da filosofía com a religião, com o resultado de que a
religião começou a ser ensinada saindo dos esquemas puramente religiosos, envolta em
mitos de origem pagãs. Também tem raízes no panteísmo estoico, o qual está relacionado
com os espíritos do mundo, ou elementais do cosmos o qual todo ele enquadra com a
chamada "nova era". Seu nome se origina pela pretensão deles de dizer que possuíam uma
gnose ou conhecimento secreto sobre a origem do universo e o destino do homem. Enfocam
sua doutrina não bem definida através de uma cosmogonia que ensinava que o mundo é o
resultado da intervenção do Demiurgo (alguns o identificam com o Deus do Antigo
Testamento) de categoria inferior ao Ser Supremo (o Deus do Novo Testamento). Ensinando
assim mesmo que entre o Ser Supremo e o mundo material intermediavam uma série
escalonada de entidades (eons) que emanavam Dele, entre os quais estavam os arcontes ou
poderes demoníacos que habitavam os planetas, e quem governavam o universo. Isto tem
haver muito com a astrologia e a grande mentira dos horóscopos, pois eles ensinam que os
homens, estão submetidos aos planetas, ou seja, aos arcontes. Tudo isto, como é de se
supor, para jogar por terra tudo o que é relacionado com a salvação por meio de Jesus
Cristo. Os gnósticos sustentavam que os homens somente podem salvar-se de sua miserável
condição mediante a Gnosis ou conhecimento de sua verdadeira natureza; uma espécie de
luz mística interna. Que esse conhecimento é superior à fé simples dos crentes. Então, quem
é Cristo para os gnósticos? Para eles o Senhor não é o Unigênito de Deus, o Verbo Eterno, e
sim apenas um dos seres mais Notáveis da Divindade absoluta, uma dessas emanações de
Deus, uma espécie de fantasma, afirmando que veio a salvar aos homens não com Seu
sacrifício expiatório, senão através do conhecimento (gnosis) que nos trouxe da parte de
Deus. A filosofia gnóstica se baseava na distinção moral dos gregos entre matéria e espírito,
considerando assim que a matéria era intrinsecamente mal, e por tal razão, não podia
conceber uma autêntica encarnação do Verbo, senão aparente. O mesmo que afirmava
Cerinto, mas com outras palavras e outro enfoque. A carta de Paulo aos Colossenses é
decisiva para rebater as doutrinas gnósticas, este espantoso engano, e onde se insiste com
muita clareza na divindade essencial de Cristo. “... dando graças ao Pai, que vos fez idôneos
à parte que vos cabe da herança dos santos na luz. Ele nos libertou do império das trevas e
nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão
dos pecados. Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele,
foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam
tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e
para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da
igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a
primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a
paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas,
quer sobre a terra, quer nos céus” (Cl 1. 12-20)." “... em quem todos os tesouros da
sabedoria e do conhecimento estão ocultos. Assim digo para que ninguém vos engane com
raciocínios falazes. Pois, embora ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito, estou
convosco, alegrando-me e verificando a vossa boa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo”
(Cl 2. 3-5). Também pelos escritos do apóstolo João nos inteiramos que nas igrejas
primitivas houveram muitos cristãos de tendência gnóstica entre os quais haviam assinalado
manifestações de falsos dons carismáticos, até que foram expulsos da comunidade cristã por
hereges. Outros se organizavam em congregações a parte, com seus ritos peculiares,
inclusive semelhante a clubes de mistérios, tão comuns no Império Romano, provenientes
por sua vez de mistérios anteriores; gregos, egípcios e mesopotâmicos. Mas João nos
adverte: "Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se
procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto
reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é
de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este
é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já
está no mundo. Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque
maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo" (1 João 4. 1-4). A gnose
é um amálgama de crenças e dogmas de origem orientalista sob um verniz bíblico. Afirmam
que o sentido alegórico da Escritura é mais importante que o literal, pelo qual só pode ser
entendida por uma elite de "iniciados", ou seja, os que possuem essa iluminação especial de
que falam. Tinham incorporado tradições esotéricas como a metempsicosis ou transmigração
das almas, que não é outra coisa senão a falsa doutrina chamada reencarnação. Também
incluem a astrologia babilônica, o dualismo persa, a cabála judia, e o hermetismo de Hermes
Trimegisto do Egito. Se diz que o maniqueísmo foi praticamente uma seita gnóstica. O
historiador cristão Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica, nos diz que no
primórdio do cristianismo houveram muitos cristãos de tendência gnóstica ou abertamente
gnósticos, dentro dos que se encontram Cerinto (da Ásia Menor, séculoo I); do século II
temos a Basílides (de Alexandria), Bardesanes, Valentino (de Alexandria), Marcion (do
Ponto), Ptolomeu e Heracleon (154-180), discípulo de Valentino. Mas essa informação
Eusébio obtém dos tratados deixados por Ireneu, quem escreveu suas obras contra os
hereges (Adversus Hæresus), para refutar os desvios gnósticos e defender a pureza do
depósito deixado pelo Senhor. Outros que em sua oportunidade se opuseram ao gnosticismo
foram Tertuliano com suas obras a Prescrição e Contra Marcion, Hipólito de Roma com sua
obra A Refutatio, e Epifânio de Salamina, cuja obra chave foi "Panærión". Nos séculos
posteriores, o gnosticismo chegou a tomar tanta força, que até Clemente de Alexandria foi
influenciado no pensamento por alguns de seus postulados. Na prática, os gnósticos são
antinomianistas por excelência. O antinomianismo*(3) tende a sacar conseqüências falsas de
Romanos 6:15. Agora estamos embaixo da graça, mas isso não significa que nos é permitido
desobedecer a lei. Não nos salvamos por cumprir a lei, senão que a cumprimos pela graça do
Espírito que mora em nós.

*(3) Antinomianismo vem de anti, contra, e nomos, norma, lei. Heresia dos que se opõem à
lei. Mas o antinomianismo é o oposto à heresia do legalismo; é dizer, converter em
libertinagem a graça.

O amor é sofrido e paciente

A Palavra declara enfaticamente que Deus é amor, um amor sublime que se revela em Seu
Filho, Jesus Cristo, e que consiste em dar a Si mesmo totalmente, e o ideal da Igreja se
encaminha à plena expressão e realização deste amor em cada um dos santos, e assim
mesmo corporativamente. Quando a Igreja é impulsionada por este amor, na unidade e a
vida no Espírito, nada a detém para o cumprimento da obra de Deus, nem mesmo a
perseguição. A igreja, desde seus primeiros dias em Jerusalém, foi objeto de perseguição e
sofrimento, cárceres e martírios. O livro dos Atos narra com detalhes os padecimentos de
Pedro e João e a grande perseguição que se desatou no tempo em que dirigentes religiosos
como Saulo de Tarso perseguiram aos santos; como o caso do primeiro mártir, o diácono
Estevão. Mais tarde, o mesmo Saulo, convertido já no apóstolo Paulo e em nova criatura, foi
objeto de muito sofrimento, pois desde a primeira viagem recebeu em sua carne os embates
da violência, a tal ponto que na cidade de Listra o apedrejaram com tanta ira, que lhe
arrastaram fora da cidade, pensando que estava morto. Por causa da perseguição, muitos
crentes foram espalhados por diferentes cidades e povos, mas aonde fossem, pregavam o
evangelho e estabeleciam igreja em cada localidade: Damasco, Samaria, Antioquía, Jope,
Cesaréia. A igreja primitiva era sofrida e tinha paciência porque estava cheia do amor de
Deus. Essa é a máxima prova do poder espiritual. Neste campo se destaca também o caso
de Tiago, irmão de João, que no curso de uma perseguição na qual também encarceraram ao
apóstolo Pedro, foi morto a espada em Jerusalém por ordem do rei Herodes Agripa I, neto de
Herodes o Grande, que por sua vez morreu comido pelos vermes sentado em seu tribunal,
no ano 44 d.C. (Atos 12). Não deve confundir-se este Tiago com o irmão do Senhor, que se
diz foi o primeiro dirigente da igreja em Jerusalém, e que foi morto por ordem do sumo
sacerdote Anás no ano 62, conforme o afirma Flávio Josefo, quando diz: "Sendo Anás deste
caráter, aproveitando da oportunidade, pois Festo havia falecido e Albino (o novo procurador
romano) estava a caminho, reuniu o sinédrio. Chamou a juízo ao irmão de Jesus que se
chamou Cristo; seu nome era Tiago, e com ele fez comparecer a vários outros. Os acusou de
serem infratores da lei e os condenou a serem apedrejados".*(4) Uma das primeiras e mais
famosas perseguições foi a desencadeada por Nero, o pior e mais cruel de todos os
imperadores romanos. Se diz dele que para desvirtuar o rumor de que havia mandado
incendiar a Roma, culpou aos cristãos, pois eram acusados por seus contemporâneos de
ódio. Muitos gostaram do martírio. Despedaçados pelos cães depois de haverem sido
envoltos em peles de animais; outros foram crucificados, ou envoltos em chamas, como
tochas vivas, para iluminar um circo nos jardins privados do imperador, que hoje são os
assentos dos palácios do Vaticano. Há uma tradição que diz que o apóstolo Paulo foi
decapitado na mesma cidade no ano 64 d.C, por ordens de Nero. Não obstante que sobre o
apóstolo Pedro se têm afirmado que foi decapitado em Roma no ano 67 d.C. também por
ordem de Nero, não há evidência bíblica que diga que ele esteve em Roma.
*(4) FLAVIO JOSEFO, Antigüidades dos Judeus, CLIE, Tomo III, libro XX, capítulo IX,1

Éfeso se desliza

"Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde
caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do
seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas" (vv.4, 5). Ao analisar a igreja histórica na
cidade de Éfeso, simultaneamente o estamos fazendo com a condição do período profético
correspondente aos tempos da Igreja do Senhor, e temos diante de nós uma Igreja
enamorada do Senhor, de Sua obra; uma Igreja em perfeita comunhão no Espírito, cheia de
amor pelo Senhor. Os irmãos vivendo na unidade, no Espírito; estava mesmo longe de se
perder a vida corporativa da Igreja e a obediência absoluta à vontade de Deus; uma Igreja
cheia de gozo na comunhão dos santos e na vida interior; um período no qual havia um só
candeeiro em cada localidade e se vivia a unidade da igreja local; se conservava fresco o
odre novo que Deus havia dado como provisão para Seu vinho novo; se vivia sob o senhorio
de Cristo, o kyrios, a autoridade espiritual e o apostolado. Mas depois da morte do apóstolo
Paulo, começou a se cingir sobre a Igreja o que alguns costumam chamar "a idade das
trevas"; ora pelas contínuas perseguições, ora pelo vazio de informação sobre esse período
subapostólico. Mas o tempo verdadeiramente sombrio radica em que a Igreja começou a se
deslizar, a decair; o primeiro amor se foi esfriando na segunda geração, e do avivamento
inicial não ficava senão as obras, pois com freqüência pode se dar o caso de que haja muita
atividade sem que realmente se ame ao Senhor, e ao Senhor o que lhe agrada é o trabalho
de nosso amor, porque "Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os
mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes,
se não tiver amor, nada serei" (1 Co 13. 2). Mais interessa ao Senhor que se lhe ame e se
lhe obedeça, que o afã excessivo de fazer muitas coisas externas, nas quais às vezes se
ufana a carne e se infla o ego. Isso vem a constituir uma traição ao Senhor. O Senhor não
quer que lhe façamos nada sem amor; Ele quer nosso coração; quer que amemos mais a Ele
que a Sua obra. Uns trinta anos antes, o apóstolo Paulo havia escrito aos irmãos de Éfeso:
"Por isso, também eu, tendo ouvido da fé que há entre vós no Senhor Jesus e o amor para
com todos os santos, não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas
orações" (Ef 1. 15,16). Quando uma igreja local não mantém o testemunho de Deus no
mundo, seu candeeiro é retirado. Éfeso caiu de seu nível original e foi baixando tanto que lhe
foi retirado o candeeiro de seu lugar até que deixou de ser uma cidade cristã para converter-
se em um centro muçulmano. Em Apocalipse, não há palavras que indiquem que o candeeiro
de Éfeso havia de continuar existindo até a segunda vinda do Senhor Jesus. Igual sucede
com Esmirna e Pérgamo. Esse período histórico-profético corre com a mesma sorte da cidade
de Éfeso, cuja importância se perdeu nos anais históricos, e no lugar que ocupou se levanta
hoje uma aldeia turca. Ao deslizar-se, a Igreja começou a deixar seu primeiro amor. Qual é
esse primeiro amor? Não pode ser o amor do corpo, o erótico, biológico e carnal, que vem do
grego eros; tampouco pode ser o amor entre marido e mulher, nem entre os irmãos, entre
amigos, ou afetivo, da alma, do grego psiqué, senão o amor derivado de uma terceira
palavra grega, agape (αγάπη) e esta de agapao (amar), a classe de amor manifestado por
Deus em Cristo, e por Cristo ao dar-se a si mesmo. Ágape designa o amor que os crentes
sentem por Deus, e uns pelos outros. O amor é um dos dons mais excelentes que nos têm
dado o Senhor. Ao falar do primeiro amor, a palavra grega que se traduz primeiro é a
mesma que em outros textos se traduz melhor, como em Lucas 15.22. De modo que
devemos amar ao Senhor com o melhor e mais excelso de nosso amor. Recorda, reflita de
onde tens caído; volte como o filho pródigo (Lucas 15. 17). Na Igreja primitiva, e se dá
notícia disto sobre tudo em Jerusalém e Corinto, a Ceia do Senhor ocupava um lugar
proeminente na vida comum da Igreja; e a Palavra deixa entrever que havia uma comida ou
ceia fraternal, o ágape, ou "festa do amor", que os primeiros cristãos celebravam juntos
antes da Ceia do Senhor. É possível que Paulo mesmo as houvesse estimulado na igreja da
localidade grega de Corinto, a julgar pelo contexto de 1 Corintios 11. 17-34. Inácio de
Antioquia e a Didache mencionam esta comida em relação com a santa ceia, apesar de que
Paulo havia indicado, já que não formava parte da ordenança que o Senhor Jesus instituiu,
senão que ao contrário era suscetível de abusos que deviam ser evitados. Cada um trazia
seus próprios alimentos e bebidas, e os melhores aprovisionados não costumavam
compartilhar com os irmãos que traziam pouco ou nada. Desafortunadamente, e para pena
de Paulo, com o tempo surgiram abusos graves nestas festas, porque a raiz do anterior se
fomentou nelas a glutonaria, imoralidade, e alguns ficavam bêbados, e outros, por contraste,
ficavam com fome. Como se começasse as disputas entre os ricos e os pobres no seio da
Igreja do Senhor. Aos finais do século I, já se celebrava a ceia do Senhor sem ser precedida
por nenhuma comida. "Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor
que comeis. Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há
quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. Não tendes, porventura,
casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada
têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente, não vos louvo. Por isso, aquele que
comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do
Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice;
pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. Eis a razão por que
há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem. Porque, se nos julgássemos
a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo
Senhor, para não sermos condenados com o mundo. Assim, pois, irmãos meus, quando vos
reunis para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa, a fim de
não vos reunirdes para juízo. Quanto às demais coisas, eu as ordenarei quando for ter
convosco" (1 Co 11. 20-22, 27-34).

"Estes homens são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade,


banqueteando-se juntos sem qualquer recato, pastores que a si mesmos se apascentam;
nuvens sem água impelidas pelos ventos; árvores em plena estação dos frutos, destes
desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas" (Jd 12).

É mais provável que o texto de 2 Pedro 2.13 seja "enganos" em vez de "ágapes" em
algumas versões, não obstante o contexto fala sempre de comilões. Precisamente devido a
estes abusos foi desaparecendo a festa, ao menos como celebração ao lado da Ceia do
Senhor. Entretanto, há sido recuperado entre algumas agrupações cristãs, como entre os
irmãos Morávios no século XVIII, de onde John Wesley introduziu aos primeiros metodistas,
particularmente entre pequenos grupos. Hoje se pratica de maneira especial nas igrejas do
Senhor de cada localidade já recuperadas e não vinculadas a organizações denominacionais,
o candeeiro em cada localidade. "As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios,
afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de todo
desprezado" (Cantares 8.7). A igreja na localidade de Éfeso chegou a crescer até alcançar
um alto grau de maturidade espiritual e fidelidade ao Senhor. Paulo dedicou suficiente tempo
de seu ministério, ocupado principalmente em ensinar na escola da obra, e mais tarde,
desde sua prisão, chegou a escrever uma de suas mais profundas epístolas, onde
compartilha de alguns mistérios e revelações relacionadas com a pessoa de Cristo, e da
Igreja como casa de Deus. Nessa carta não há repreensões, não era necessário naquele
momento. Paulo se interessou muito pela obra do Senhor entre os efésios, e durante sua
última visita pela região, em vista de que não podia chegar até Éfeso, desde Mileto mandou
chamar aos anciãos da igreja, e entre outras coisas lhes disse: "Atendei por vós e por todo o
rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de
Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida,
entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós
mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás
deles" (At 20. 28-30). Aos finais do século primeiro, quando o ancião apóstolo João escrevia
as visões do Apocalipse em Patmos, a igreja de Éfeso havia caído de sua posição original. É
ilustrativo o caso da igreja na localidade de Corinto. Tanto havia degradado a Igreja na perca
de seu primeiro amor, que encontramos em Corinto uma mostra muito diferente à de sua
posição original em Jerusalém. Até aos ouvidos de Paulo chegou a notícia da situação da
igreja de Corinto na Grécia, a tal ponto que no ano 55 d.C, de Éfeso lhes escreve a que se
conhece como a primeira epístola aos Coríntios, na qual o problema que trata primeiro é o
âmago ou intenção de divisão que pairava sobre essa igreja local. "Rogo-vos, irmãos, pelo
nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre
vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo
parecer. Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há
contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de
Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. " (1 Co 1. 10-12). Estava ameaçada a unidade da
igreja, e a causa era a falta de amor entre os irmãos. A Igreja é o Corpo de Cristo. No verso
seguinte Paulo lhes diz: "Acaso está dividido Cristo?". De acordo com o contexto da carta,
isso estava ocorrendo ali simples e sutilmente pela carnalidade e falta de amadurecimento
dos irmãos, mas concretamente o mal se originava pela falta de amor, como se declara no
capítulo 13. Nos tempos em que Clemente de Roma escreve sua epístola aos Coríntios, já se
havia protocolizado outra divisão nessa igreja.*(5) A Palavra de Deus não autoriza senão que
condena enfaticamente toda insinuação sequer de divisão em Sua Igreja, porque isso destrói
a unidade de Seu Corpo. Não há sequer indícios na Palavra de Deus de que as diferentes e
legítimas equipes apostólicas do primeiro período da Igreja, ou alguns dos apóstolos a título
pessoal, pretenderam constituir "missões" cismáticas e denominações, que fossem exemplos
de protótipos e padroeiros para legitimar as divisões dos últimos séculos. Mesmo que o
Senhor Jesus dera pouca atenção a uma organização permanente e à instituição de um
governo central, é inegável e bíblica a realidade da comunhão apostólica e o amor fraternal
dos santos desde os primórdios da Igreja. O ideal proposto pelo Senhor para Sua Igreja no
Novo Testamento foi o da unidade inclusiva.

*(5) CLEMENTE DE ROMA, Epístola aos Coríntios XLVII:1-7.

Em seguida, o Senhor recomenda à igreja de Éfeso a recordar de onde caiu, qual era o nível
que ocupava ao princípio, que veja a causa pela qual se deslizou, que veja tudo o que se
havia perdido; trata de ajudar a voltar a essa posição do princípio, pois já começaram a ver
certas conseqüências negativas. O candeeiro tem um depósito, e esse depósito estava
começando a se perder. O livro dos Atos dos Apóstolos e as epístolas de Paulo e os apóstolos
dão testemunho do estado original desse depósito deixado pelo Senhor para Sua Igreja. O
Senhor convida à igreja a que se arrependa e a que faça as primeiras obras, as obras em
amor, pois tudo o que se faz sem amor não serve de nada. O Senhor convida a que volte a
ser fiel; se pode fazer muitas coisas sem ser fiel ao Senhor, e sem levar em conta que Cristo
é o Senhor, o que deve ordenar as coisas conforme Sua vontade. Se podem estar fazendo
muitas coisas na Igreja sem que necessariamente o Senhor esteja intervindo. Se a igreja
não se arrependesse, o Senhor tiraria o candeeiro de Éfeso. Essa igreja seria disciplinada
pelo Senhor, pois o candeeiro é a igreja, e o Senhor esta no meio dos candeeiros. Sem a
presença do Senhor, do Espírito Santo, não pode haver luz no candeeiro, e nessa forma não
se pode fazer a obra de Deus nem dar o testemunho de Sua presença. Historicamente o
primeiro que começou a se perder na Igreja do Senhor foi o primeiro amor. Com freqüência
descuidamos do amor ao Senhor por amar Sua obra, no qual há o perigo de confundir os
termos, e em vez de tê-la por "Sua obra", nos tenta o pensar que é "nossa" obra, e a carne
começa a requerer elogios. Para que quer o Senhor uma grande obra sem amor? Se
abandonamos o primeiro amor ao Senhor, é inevitável que sobrevenham as degradações.
Sem amor não há vida, e sem vida não há luz. O Senhor não quer que Sua noiva não o ame,
nem quer que esteja morta, caminhando em trevas. Na medida em que finalizava o período
apostólico, iam se temperando no panorama judeu alguns atos que mudariam por muito
tempo a história do povo terreno que Deus escolheu para manifestar-se e bendizer ao
mundo, trazendo consigo conseqüências que repercutiriam também na Igreja. Não muito
depois que a Terra Santa sucumbiu abaixo do domínio do Império Romano, no ano 42 a.C
começou a surgir um forte ressentimento entre os judeus contra Roma, em forma tal que
uma geração depois da crucificação do Senhor Jesus, o ódio que sentiam amadureceu tanto,
que degenerou em uma estrondosa rebelião no ano 66 d.C., que trouxe como resultado a
destruição de cidades e enormes matanças por parte das tropas romanas ao mando do
general Vespasiano, que foi chamado a Roma para ocupar o trono imperial, deixando à
frente do exército na Palestina a seu filho o general Tito. Como as coisas pioravam, depois
de um prolongado sítio, finalmente, no ano 70 d.C ocorreu a destruição de Jerusalém e do
templo judeu, sob o mandato de Tito, cumprindo-se assim o dito pelo Senhor: " Ele, porém,
lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra
que não seja derribada" (Mt 24. 2). Esta profecia do Senhor advertiu aos irmãos, para que
pudessem sair a tempo da cidade antes que sucumbisse, e este feito serviu para que se
rompesse toda relação entre o judaísmo e a Igreja, pois nos primeiros anos, no Império
Romano tinham à Igreja como uma seita a mais da religião judia. A vontade do Senhor foi a
de que se estabelecesse uma clara diferenciação entre Israel e Sua Igreja; que não se
confundisse a figura da adoração com a verdadeira adoração, nem a sombra das coisas com
a realidade . A nação dos judeus foi destruída, até o dia 15 de maio de 1948, dia em que se
produziu sua restauração como o moderno estado de Israel. A intenção inicial do general Tito
não era destruir a formosa cidade de Jerusalém, nem muito menos ao prodigioso templo,
mas a teimosia dos judeus e suas contendas desde as muralhas, o obrigaram a tomar a
decisão de atacar tão ferozmente, que sobreveio o pior. Relata o historiador judeu Flávio
Josefo, testemunha presencial deste histórico evento, que Tito havia dado a ordem de não
destruir o templo mesmo quando houvesse sido tomada a cidade. Mas dentro as tropas de
assalto tiveram mais fome de apoderar-se de todo esse ouro e riquezas do templo que,
acidentalmente, foi provocado um voraz e incontrolável incêndio que deu lugar a que todo
esse ouro se fundisse introduzindo-se entre os interstícios das grandes pedras das paredes
do templo; o que obrigou aos ávidos soldados a irem arrancando e derribando pedra sobre
pedra, a fim de sacar o cobiçado ouro que com o fogo se havia derretido. O templo de
Jerusalém não foi reconstruído desde sua destruição no ano 70 d.C até o dia de hoje, mesmo
que profética e eventualmente deverá ser construído antes da vinda do Senhor, no mesmo
lugar que ocupa o templo muçulmano chamado a Mesquita de Omar ou Domo da Rocha. Se
diz que usando essas antigas pedras do autêntico templo jerosolimitano, com o tempo os
judeus construíram o famoso Muro das Lamentações no mesmo recinto, e o único que
atualmente se conserva dele, ao que comparecem os judeus clamando pela vinda do
Messias. Durante o sítio a Jerusalém por parte dos exércitos do Império Romano ao mando
do general Tito, pode haver sucedido algo similar ao ocorrido no sítio da cidade santa por
Nabucodonosor e seu exército babilônico, por volta de seis séculos e meio atrás. Em ambos
casos os sitiadores não tinham em primeira instância o propósito de destruir a cidade e o
templo, mas os judeus resistiam, pensando que pela presença do templo em meio da cidade,
Deus não permitiria que os incircuncisos pudessem penetrar nela e a destruíssem junto com
o templo e a saquearem tudo. Também alimentaram a crença de que Israel estava destinado
a conquistar e dominar ao mundo inteiro, e que isso os fazia inexpugnáveis. O templo de
Jerusalém foi tirado; o mesmo ocorreu com o candeeiro em Éfeso. Os judeus chegaram a
amar mais sua religião e seus interesses que a Deus; os crentes primitivos se foram
degradando, perdendo o testemunho do Senhor. Se abandonamos nosso primeiro amor,
perdemos nosso testemunho e o candeeiro é tirado.
Igreja de Jesus Cristo-Uma Perspectiva Histórico-Profética - 3ª parte - Os
nicolaítas
Arcadio Sierra Diaz : www.aigrejadejesuscristo.blogspot.com
Publicação: 23/11/2007

"Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também
odeio". (Ap 2.6)

O Senhor volta a comparar-se com a igreja de Éfeso e a louvar de novo, dizendo que lhe
agrada que Éfeso aborreça o que Ele aborrece, as obras dos nicolaítas. Quem são os
nicolaítas? O termo nicolaíta, vêm do grego "nikoláos", das raízes nikaos, governante,
dirigente, guia, também tem a conotação de conquistar ou vencer, e laite ou laos (λαός),
gente comum, secular, povo, laicado; da qual se deriva a palavra laico, significando, pois,
"os que vencem ao povo", ou os que exercem autoridade sobre o povo, os que vencem aos
laicos, pessoas que se têm por superiores aos crentes comuns; é esse afã de exercer
autoridade e domínio sobre o povo, formando assim um tipo de hierarquia (governo da casta
sacerdotal). De onde se deduz que aqui o Senhor condena a mesma incipiente tendência na
Igreja, de criar um partido de pessoas ambiciosas que se erijam por cima das demais, ávidas
de poder, e que finalmente haviam de criar um sistema clerical divisório e exclusivista,
formando assim dois grupos na Igreja: um minoritário, elitista e soberbo, chamado clero, e
outro integrado pela grande massa dos santos, o laicado, governado e submetido pelo
primeiro, hierarquia que vemos tomar força nos sistemas do catolicismo e o protestantismo,
estorvando assim a economia de Deus. Isso aborrece o Senhor da Igreja. O Senhor aborrece
os ambiciosos de poder ao estilo Diótrefes. Mesmo no povo hebreu, Deus quis que Seu povo
fosse todo um reino de sacerdotes (Êxodo 19.6), mas devido à adoração ao bezerro,
perderam esse privilégio, e foi escolhida a tribo de Levi para exercer (Êxodo 32;
Deuteronômio 33.8-10). A respeito dos nicolaítas, diz Matthew Henry:"É, pois, possível que
se trate de uma seita de "iniciados" (gnósticos), que pretendiam estabelecer uma divisão do
povo de Deus em castas, o qual havia de derivar, no decorrer do tempo, no estabelecimento
da casta sacerdotal dentro da Igreja oficial do Império; isto havia de comportar os ritos e
ceremônias que abundam em todas as religiões mistéricas, como pode ver-se mesmo na
Igreja Romana, e mais todavia na chamada Ortodoxia. Mesclando o cerimonialismo judeu
com a filosofia grega, temos já uma seita que combina o entusiasmo espiritual com o
relaxamento moral; muita fantasia religiosa mesclada com despreocupação ética; orgulho e
vaidade de mística retórica e de caráter "superior" que, na realidade, introduzia na Igreja o
egoísmo, a soberba, o descuido do amor fraternal; afinal de contas, a mesma ortodoxia
estava também em perigo. Como se defender de tais inimigos? Nos diz claramente a palavra
de Deus: "Minhas ovelhas ouvem minha voz", diz o Senhor (João 10.27). E o próprio João
nos diz: " E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento....
Permaneça em vós o que ouvistes desde o princípio.... Isto que vos acabo de escrever é
acerca dos que vos procuram enganar. (1 João 2.20, 24, 26)". (Matthew Henry. Comentário
Bíblico do Apocalipse. CLIE. 1991. Pág.: 334).

A Igreja de Jesus Cristo toda é sacerdotal, e a imposta classe clerical mediadora


prejudica o sacerdócio universal dos crentes. O Senhor não tolera que nada venha a se
assenhorear de Sua Amada, a que Ele comprou com Seu sangue. O livro dos Atos e as cartas
de Paulo determinam o governo da igreja local em mãos de um presbitério ou grupo de
anciãos ou bispos (pastores). Não obstante, se adverte que no período de Éfeso só se
conhece certos esforços pessoais, como o caso de Diótrefes (cfr. 3 João 9,10), de exercer
autoridade sobre os santos; mas há indícios de que ao final do primeiro século e
concretamente no segundo, ao redor do ano 125, talvez em um intento de imitar o
cerimonialismo judeu, começou a dar-se a inclinação de elevar a um bispo sobre seus
companheiros anciãos, assunto este que paulatinamente conduziu ao clericalismo, em
detrimento da autêntica dependência do Senhor e do sacerdócio de todos os santos. A
institucionalização da tribo de Levi e a família sacerdotal de Arão, não foi a intenção inicial de
Deus no povo hebreu, e no Novo Testamento Deus volta a Seu propósito original (cfr. 1
Pedro 2.5,9; Apocalipse 1.6; 5.10). Hoje se desenvolveu o clericalismo no sistema babilônico
e suas ramas. No começo do século segundo, Inácio, bispo da igreja de Antioquía, registra o
Ato que já se estava dando em alguns lugares com relação à errônea diferenciação entre
bispo e presbítero. Inácio, no curso de sua viagem a Roma como prisioneiro, rumo ao
martírio, escreveu cartas a várias igrejas locais, quase todas na Ásia Menor (Éfeso,
Magnésia, Trália, Filadélfia, Roma, Esmirna, e a Policarpo), nas quais encontramos a cita
mais antiga sobre a distinção entre bispo e presbítero. Ali pela primeira vez aparece o que
estava dando de colocar hierarquicamente o bispo por cima dos presbíteros e declarando que
o bispo (o nomeava em singular) era o representante de Deus o Pai, e que os presbíteros
são o sinédrio de Deus, a assembléia dos apóstolos. (Favor ler a carta de Ignácio aos
Esmírnios no apêndice ao final deste capítulo). Com o tempo isto degenerou na nefasta
divisão entre o clero e laicos. Foi se introduzindo a hierarquia na Igreja. Foi se estabelecendo
e generalizando sutilmente essa "vaidosa" forma episcopal de governo, a qual chegou a ser
dominante e universal. É possível que até o final do período de Esmirna hajam persistido as
duas modalidades, a do bispo de uma só igreja local, e a do bispo que agia como se tivesse o
direito de dirigir-se com autoridade às igrejas em outras localidades. Se diz que depois do
ano 150 d. C., os concílios eram celebrados unicamente com esta classe particular de bispos,
e logicamente que as leis eram ditadas só por eles. Muitos alegam um acervo de razões para
que isto se sucedesse, mas ante as razões do Senhor não há justificação alguma. Com quais
razões lutam? Entre outras, como o crescimento e extensão da Igreja, as perseguições, fazer
frente ao surgimento de seitas, heresias e divisões doutrinais. Mas devemos em justiça
observar a constância que durante os períodos de Éfeso, Esmirna, e muita parte de Pérgamo,
nenhum bispo reclamou para si autoridade de caráter universal sobre o resto dos bispos e da
Igreja inteira, como mais tarde o fez o bispo de Roma. Conforme a Palavra de Deus, um
bispo (em grego episkopos, supervisor) não é de maior hierarquia que um ancião. Tomemos
novamente o exemplo de Atos 20, no qual o apóstolo Paulo chama anciãos aos dirigentes da
igreja da localidade de Éfeso; e a esses mesmos anciãos, no verso 28 lhes chama bispos e
também pastores, porque diz: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito
Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes( ofício de pastores) a igreja de Deus, a qual
ele comprou com o seu próprio sangue. ". Os líderes das igrejas locais são os anciãos,
constituídos pelos apóstolos da obra (Atos 14.23; Tito 1.5), sem que ele signifique que
ocupam hierarquicamente uma posição mais elevada. Legítimos pastores são aqueles irmãos
mais maduros espiritualmente da igreja local, quem, por seu amadurecimento e visão mais
ampla de Cristo, se constituem em desinteressados e humildes servidores de seus irmãos. O
Senhor Jesus foi enfático quando afirmou: “Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os
governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não
é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que
vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do
Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por
muitos." (Mt. 20.25-28). O ancião ou bispo não deve assenhorar-se da igreja do Senhor,
senão a supervisar e a vigiar no amor do Senhor. A igreja apostólica se distinguia porque em
cada igreja local não havia um mas vários bispos (episkopoi) ou presbíteros (presbuteroi),
que eram os mesmos anciãos ou pastores, pois se tratava de títulos que se davam aos
mesmos ofícios, como atesta a Bíblia em Atos 20.17,18; Tito 1.5,7; 1 Timoteo 5.17; 1 Pedro
5.1; Filipenses 1.1; a primeira de Clemente aos Coríntios, capítulos 42, 44 e 57. Também
Jerônimo, Agostinho de Hipona, o papa Urbano II (1091) e Pedro Lombarde admitiram que
em sua origem bispos e presbíteros eram sinônimos, mas com o tempo o homem foi
mudando as coisas de Deus, e o concílio de Trento (1545-1563) se encarregou de que esta
verdade fosse convertida em uma heresia. Tem havido uma interpretação errônea quanto a
alguns versos de Hebreus 13. No versículo 7 diz: "Lembrai-vos dos vossos guias,(1*) os
quais vos pregaram a palavra de Deus...". No versículo 17 diz: "Obedecei aos vossos guias e
sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar
contas...". No verso 24 diz: "Saudai todos os vossos guias...". Em primeiro lugar se observa
que sempre se fala no plural ao referir-se aos guias ou pastores; como quando Paulo escreve
à igreja da localidade macedônica de Filipos, e na saudação lhes diz: "Paulo e Timóteo,
servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os
bispos e diáconos". Isto é saudável porque evita que um só indivíduo se assenhoreie da
igreja, como se vê atualmente em certas congregações. Em segundo lugar, voltando ao
Hebreus, essa obediência dos santos a seus pastores de nenhuma maneira deve ser cega,
senão que deve tratar-se de uma sujeição à luz dos postulados do evangelho; uma
obediência na comunhão espiritual, na qual tome parte ativa o Espírito Santo; uma
obediência iluminada e guiada inteligentemente pelo Espírito do Senhor, no conhecimento do
amor de Cristo, o qual se faz corporativamente. Qualquer sujeição forçada e hierarquizada
na Igreja, é abominável ao Senhor.*(1) Em Hebreus 13.7,17 e 24, o original grego para a
palavra pastores usa hegouménon, que significa "guias" ou "dirigentes". Pela frase que
segue no verso 7 se deduz que a expressão não pode limitar-se só aos pastores (os que
governam), mas também aos mestres, os que ensinam.

O clericalismo dos sistemas religiosos cristãos é uma mescla de elementos do judaísmo com
alguns traços da organização sacerdotal da religião babilônica, com suas distintas variantes
culturais. Babilônia é a berço da religião satânica, e tudo o que provém de Satanás vai de
rumo a desvirtuar os princípios do Senhor para Sua Igreja. Na religião babilônica, com suas
variantes egípcia, grega, romana, etc..., havia uma casta sacerdotal dominante. No judaísmo
houve uma organização sacerdotal temporal, que foi mudada por um sacerdócio eterno, que
inclui a Igreja. Na legítima Igreja do Senhor não existe o clericalismo, pois todos somos
sacerdotes. O apóstolo Pedro o manifesta com suma clareza em 1 Pedro 2.5, assim: "...
também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes
sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por
intermédio de Jesus Cristo ". Outros textos que fortalecem e confirmam esta afirmação
podemos tomar em Apocalipse 1.6 e 5.10:"... e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu
Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém! ". "... e para o nosso
Deus os constituístes reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra". Não há lugar a dúvida
alguma de que não é a vontade do Senhor que em Sua Igreja haja posições e classe
clericais, nem muito menos que os homens se assenhoreiem de algo tão importante para o
Pai, como é a Igreja, a Esposa que Ele se propôs conseguir a Seu Filho. A autoridade na
Igreja é o Espírito Santo. Quando o ancião da igreja atribui a si essa autoridade emanada de
seu cargo, acarreta conseqüências desastrosas no rebanho do Senhor. Tem se confundido o
ministério, trabalho ou serviço de pastor com um cargo revestido de uma autoridade mal
interpretada e pior aplicada, devido a que se há substituído a norma bíblica pela
interpretação humana (cfr. Colossenses 2:20-22). Nas igrejas locais, os anciãos presidem,
pastoreiam, ensinam, guiam, mas não governam com senhorio, pois essa classe de governo
implica certa cota de poder, e o poder quer controlar tudo, convertendo-se em abuso do
poder, tratando com dureza as ovelhas. Há de se levar em conta que todo poder tende a
personalizar-se e a assenhorear-se. É um princípio claro do Senhor que em Seu Corpo não
haja distinção entre clerigos e laicos. Na época em que se reuniu o concílio de Jerusalém, ao
redor do ano 50 d. C., na Igreja não havia distinção mesmo entre ministros e laicos. Ali diz
que "Então, se reuniram os apóstolos e os presbíteros para examinar a questão." (Atos
15.6). Diz o apóstolo Pedro em sua primeira epístola 5.1-3: "Rogo, pois, aos presbíteros que
há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-
participante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós,
não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida
ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes,
tornando-vos modelos do rebanho." Isto escreve, abaixo da inspiração do Espírito Santo, o
homem que o catolicismo romano proclama como o primeiro papa; sistema hierarquizado,
clerical e assenhoreador por excelência. Mas lastimosamente não só esse sistema adoece
dessas exaltações, mas os diferentes sistemas religiosos dentro do cristianismo, que se vão
desmembrando do sistema mãe, herdando, como é de se supor, muitas de suas formas
externas, incluindo metodologias, liturgias, clericalismos e sistemas eclesiológicos extra
Bíblicos. Mesmo que os primeiros passos firmes se deram no século segundo, período de
Esmirna, entretanto, a carta à igreja de Éfeso nos indica que já se levantavam homens
interessados em promover a perda da igualdade entre os irmãos, foi quando começou a se
deteriorar o sacerdócio de todos os santos. A Igreja do Senhor começou quando existia a
escravidão institucional mesmo entre os santos; mas tanto o escravo como o amo eram
iguais na igreja e diante do Senhor. Eventualmente podia dar-se em qualquer das igrejas
locais que o escravo fosse bispo enquanto que o amo não. Se observares detalhadamente os
sistemas religiosos cristãos de hoje, verás que no catolicismo romano persiste o sacerdócio,
nas igrejas nacionais e denominações institucionalizadas existe o sistema clerical e nas
igrejas congregacionais e independentes, o sistema pastoral.

Ouvidos surdos

"Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se
alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus". Há um adágio popular que
diz: "Não há pior surdo que aquele que não quer ouvir", e algo disso encerra o contexto da
vez que o Senhor ensinava usando a parábola do semeador, e ao final da exposição da
mesma, diz: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça". Quando Seus discípulos lhe pediram
alguma explicação tanto da parábola como do porque lhes falava por parábolas à multidão,
uma das razões que o Senhor responde é "... Por isso, lhes falo por parábolas; porque,
vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem, nem entendem. De sorte que neles se cumpre a
profecia de Isaías: Ouvireis com os ouvidos e de nenhum modo entendereis; vereis com os
olhos e de nenhum modo percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, de mau
grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os
olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim
curados. (Mt 13.9, 13-15).A frase: "O que tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas",
é uma constante que aparece em todas as 7 igrejas e cada uma das sete cartas que estamos
desmembrando. Por que se repete esta frase e aparece a palavra igrejas no plural? Porque
estas sete cartas de Apocalipse não necessariamente estão dirigidas só às igrejas históricas
nas localidades de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia, mas
também a todas as igrejas que estejam vivendo a mesma situação e características que
aparecem em cada uma destas igrejas da Ásia Menor, através do tempo, como também é
uma profecia que nos diz que essas mesmas condições históricas e num lugar geográfico,
prevaleceram em determinada época de toda a Igreja. Mas acontece que através da história
se vai tendo ouvidos para ouvir, mas não se têm ouvido a voz do Senhor, e a Igreja
começou a perder paulatinamente esses princípios de vida corporativa previstos e revelados
pelo Senhor em Sua incorporação à Igreja. Nesta mesma ordem de idéias, parece ser que se
há semeado a semente em terreno rochoso. O Senhor fala às igrejas, não a denominações,
seitas, religiões ou grupos particulares. Se o cristão vive nesta perspectiva, corre o risco de
não ouvir nem entender o que fala o Espírito. Se tens capacidade para ouvir, poderás ver
muitas coisas espirituais. Primeiro tem que ouvir a voz de Deus, e logo se tem a visão de
Deus. O Espírito não fala a uma igreja única em particular nem às que não a são. O Espírito
fala a Seu verdadeiro candeeiro em cada localidade. No candeeiro se ouve a voz do Senhor,
e por isso se pode ver o que Deus está fazendo em Sua Igreja conforme Sua economia. A
casa de Deus tem sua própria economia; e a economia de Deus tem haver com a
administração de Sua casa, e é necessário que essa administração produza o efeito que Deus
deseja, conforme Seus propósitos eternos. Em grego, a palavra oikonomía se compõe de
oiko, que significa casa, lar, e nomia, norma ou lei; a lei da casa ou norma do lar. Devemos
obedecer essas normas da casa de Deus. Há muitas congregações denominacionais que
erroneamente a si mesmas se chamam igreja local, e isso se deve a que não têm tido
ouvidos ungidos para ouvir o que esta falando o Senhor em Sua Palavra. De acordo com o
anterior cabe perguntar, que diz aqui o Espírito Santo, que o Senhor convida às igrejas a
ouvir? O Senhor deixou um depósito e os homens começaram a esquecerem desse depósito
e se afastarem da vontade do Senhor para sua Igreja. O depósito é todo o conjunto doutrinal
revelado, assim como as promessas, as esperanças e os privilégios que comporta a condição
cristã. O depósito encerra a vida, o dogma e vivência do andar da Igreja. Diz em 2 Timóteo
1.12-14: " e, por isso, estou sofrendo estas coisas; todavia, não me envergonho, porque sei
em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até
aquele Dia.Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que
está em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em
nós.". E em Judas 3, se fala de " exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que
uma vez por todas foi entregue aos santos", significando o conjunto de crenças ou
ensinamentos considerados básicos para o cristão.O Senhor quer que trabalhemos com Ele
para a recuperação da unidade do candeeiro em cada localidade. O Senhor diz que
constantemente esta observando a obra das igrejas; que está atento quanto a autenticidade
na nossa alegria em servir-lhe, se o fazemos com amor, com esse bendito e grande amor
com que Ele trabalha em nós e nos dá tudo, pois quando o motor ou força que nos move a
servir ao Senhor, é o amor a Ele e não a nós mesmos, a glória é Dele e não a nossa, Seus
interesses são Dele e não os nossos, o exaltar é a Ele e não a nós mesmos, essa é a obra
que lhe agrada. Também diz que leva em conta nosso sofrimento e nossa paciência ante as
adversidades, e que isso não significa que nos abandona a nossa sorte. O Senhor tem
palavras aprobatórias sobre o sofrimento na Igreja; mas o cristianismo contemporâneo
despreza o sofrimento, o evita, e em troca proclama e se ocupa da prosperidade nesta terra,
o poder conjuntural. Paulo escreve a Timóteo: "Participa dos meus sofrimentos como bom
soldado de Cristo Jesus. Se perseveramos, também com ele reinaremos" (2 Tm 2.3,12).
Assim mesmo se adverte que o Senhor descarta a moderna teologia da prosperidade,
quando diz a seus discípulos: "Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após
mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua
vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o
homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da
sua alma? " (Mt 16.24-26). Também o Senhor nos abre os olhos ante os falsos obreiros; que
voltemos ao primeiro amor de onde nós caimos. A Igreja como Corpo do Senhor não tem
apego nem interesses terrenos, e sim espirituais e celestiais, mas no curso da história os
papéis foram se trocando e a escala de valores se modificou de tal maneira, que as pessoas
perderam o ouvido espiritual, e começaram a não entender a linguagem de Deus. Chegou o
momento em que se esqueceram das verdades bíblicas e a substituíram pelas tradições, os
estatutos e regulamentos dos homens, invalidando a Palavra de Deus. Na igreja primitiva
começou a lagarta a comer a vinha do Senhor, mas no curso dos seguintes períodos da
Igreja, "O que deixou o gafanhoto cortador, comeu-o o gafanhoto migrador; o que deixou o
migrador, comeu-o o gafanhoto devorador; o que deixou o devorador,comeu-o o gafanhoto
destruidor" (Joel 1.4).

Recompensa para os vencedores

Outra frase constante nas sete cartas é: "Ao que vencer". O Espírito fala às igrejas, ou seja,
à Igreja como um todo, mas a Igreja não ouve e fala, vai deslizando, piorando. Então o
Senhor se dirige às pessoas individualmente para que se esforcem e vençam, sejam
vitoriosas, e, conforme à história da Igreja, em todos os tempos tem havido pessoas
vitoriosas; em todas as épocas se têm registrado pessoas vencidas, mas também
vencedores, e para todos eles há galardão. Analise a parábola das dez vírgens. É necessário
vencer a respectiva situação degradada, e no caso de Éfeso se refere a recobrar o primeiro
amor pelo Senhor e recusar o ensinamento e a hierarquia dos que querem se assenhorear da
obra do Senhor. Também em todas as cartas há uma recompensa diferente para os
vitoriosos. A recompensa aos que vencem na carta à igreja em Éfeso é, diz o Senhor: "Ao
vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus".
O paraíso de Deus é a Nova Jerusalém vindoura, distinto do paraíso que aparece em Lucas
16.23-26 e 23.46, onde aguardam a ressurreição, os santos que provaram a morte. A árvore
da vida é o próprio Cristo, é a vida que nos alimenta. "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai
é o agricultor" (João 15.1). É uma videira verdadeira que está a um e outro lado do rio da
água da vida no meio da praça da Nova Jerusalém, a cidade esposa do Cordeiro, na qual
culminará a Igreja dentro da economia de Deus (cfr. Apocalipse 22.1-2). Há vários tipos de
Cristo como alimento, como o maná, o produto da boa terra de Canaã e sobre tudo a árvore
da vida, que se remonta ao Gênesis. O comer da árvore da vida era o propósito original de
Deus, e agora ele o restaura com Sua redenção. A Igreja deixa de alimentar-se de Cristo,
por receber outros alimentos fornecidos pela religião através das doutrinas de Balaão, dos
nicolaítas, de Jezabel e das profundezas de Satanás. Mas a Igreja deve voltar ao banquete
oferecido pelo Senhor, porque o caminho à árvore da vida foi aberto de novo, um caminho
novo e vivo em Cristo (Hebreus 10.19-20). É necessário abandonar a religião e nos
alimentarmos de novo de Cristo, desfrutar, voltando a Ele com o primeiro amor. O Senhor é
nosso pão da vida (João 6.35, 57). Não é o mesmo alimentar-se de ensinamentos doutrinais,
mas de Cristo como nosso pão de vida. Sempre há circulado falsas doutrinas que tem trazido
perturbação ao povo de Deus. Esta promessa é um incentivo para estimular aos filhos de
Deus para que não se deixem enganar com doutrinas perturbadoras e em troca desfrutem ao
Senhor, e se fará efetiva como galardão no reino milenar; mas todo vencedor pode começar
a desfrutar desde agora, porque a vida da Igreja hoje é um gozo antecipado da Nova
Jerusalém. O vencedor que se alimenta de Cristo hoje, tem já assegurado que o comerá
como árvore da vida na Nova Jerusalém. Os galardões são muito diferentes à salvação. Os
galardões são prêmios para os vencedores receberem no reino milenar, e a salvação é um
presente de Deus para seus escolhidos desde antes da fundação do mundo, e um presente
se ganha, não se merece, e nem se perde.

A continuidade apostólica

Como decorreu o enlace e continuidade apostólica do período de Éfeso com o de Esmirna? Há


consenso em que o período de Éfeso, ou primeiro grande período da Igreja, finalizou com a
morte do apóstolo João o evangelista, ao redor do ano 100 d. C. Se sabe por Policarpo, o
grande bispo de Esmirna, que João se estabeleceu em Éfeso desde o ano 60 d. C. e ali
supervisionou e salvaguardou as igrejas da Ásia Menor. Se indica assim mesmo que nos
últimos anos do imperador Domiciano, ao redor de 86 d. C., foi deportado à ilha de Patmos,
frente à costa ocidental da Ásia Menor, por causa de seu testemunho firme no Senhor Jesus
Cristo, mas voltou a Éfeso de novo nos tempos do Imperador Nerva, onde morreu. Disto o
sabemos por Papias e Eusébio de Cesaréia. No curso do período de Éfeso foi escrito todo o
Novo Testamento, cujo último livro, como se sabe, é o Apocalipse de João, o discípulo
amado, o último a morrer de todos os apóstolos do círculo do Senhor. Mas essa linha,
tradição e ensinamento apostólico não se perdeu com a morte do apóstolo João, pois
discípulos e companheiros dele continuaram; homens de Deus como Policarpo (69-156),
bispo de Esmirna, haviam sido ensinados pelos apóstolos, em especial por João. Policarpo foi
queimado vivo nos tempos do imperador Antonino Pío. Policarpo por sua vez seguramente
influenciou na formação de Irineu (130-195), outro nativo de Esmirna, e que mais tarde
formou parte de um grupo de evangelistas enviados desde Esmirna como missionários às
Gálias (hoje França), e chegou a ser bispo de Lyon. Se deve muito a Ireneu haver combatido
os erros e heresias, em especial ao gnosticismo. Em uma visita a Roma, escreveu um
extenso tratado "Contra heresias", afirmando que os apóstolos haviam transmitido fielmente
o que haviam recebido do Senhor Jesus, sem mesclar esse depósito com idéias estranhas.
Discípulo de João, e companheiro de Policarpo foram assim também Inácio (31 - 107), bispo
da igreja da localidade de Antioquía, e martirizado pela perseguição do imperador Trajano.
Outro discípulo do apóstolo João foi Papías (60 - 130), quem chegou a ser bispo de
Hierápolis, na Frígia (hoje região da Turquia). Por Eusébio conhecemos um testemunho de
Ireneu que afirma que Papías foi ouvinte ou discípulo de João, e companheiro de Policarpo.
De Papías se diz que escreveu cinco livros, "Explicação de sentenças do Senhor", a primeira
obra de exegese do Novo Testamento, desafortunadamente perdidos, exceto os fragmentos
conservados na "História eclesiástica" de Eusébio de Cesaréia. Mas há quem afirma que
Eusébio se absteve de conservar mais dos escritos de Papías por não compartilhar de suas
idéias milenaristas, como também sobre a queda dos anjos e a explicação dos primeiros
capítulos de Gênese, que constitui uma exegese acerca da simbologia de Cristo e a Igreja.
Por Papías se conhece a autenticidade dos autores dos evangelhos de Mateus, Marcos, João,
as cartas de João e o Apocalipse. Padeceu o martírio em Pérgamo. É importante mencionar
também a Clemente, que foi bispo de Roma nos anos 90-100, e é autor de uma carta aos
coríntios, a qual é considerada por muitos como um dos documentos mais valiosos e mais
antigos depois do Novo Testamento, a qual, antes de que se formasse o cânon definitivo da
Bíblia, foi considerada como inspirada por algumas igrejas primitivas. O nome de Clemente
aparece em "O Pastor" de Hermas, e se supõe que se identifica com Clemente que Paulo
menciona em Filipenses 4.3, um colaborador íntimo da equipe de obreiros do grande
apóstolo. Além do mais, da carta mencionada, a Clemente falsamente se atribui a autoria de
outros livros apócrifos como "Segunda epístola aos Corintios", “Cartas às Vírgens", "Homílias
Pseudoclementinas" e "Relatos". A fim de que o leitor vá se familiarizando mais com alguns
detalhes destas sete igrejas do Apocalipse, notamos que no período da Igreja
correspondente a Éfeso, Esmirna e Pérgamo, ou seja, os três primeiros, o Senhor não
menciona sua vinda; portanto se considera como períodos que expiraram sem que se
registre continuidade e existência histórica perdurável até a segunda vinda do Senhor. Não
ocorre assim com as quatro restantes, como veremos mais adiante, aos quais o Senhor lhes
revela Sua vinda. Isto significa que quando ocorre eventualmente a segunda vinda do
Senhor, não encontrará santos na situação de Éfeso, nem de Esmirna, nem de Pérgamo.
Notemos que a chamada que o Senhor faz ao final a todas as igrejas ("o que tem
ouvidos...") e a promessa aos vencedores ("ao que vencer...") se invertem nas quatro
últimas cartas (Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia). Esmirna e Filadélfia são as únicas que
não recebem reprovação alguma; em troca, Laodicéia é a única que não recebe nenhum
louvor. Éfeso e Laodicéia encontra-se em grave perigo; Esmirna e Filadélfia, em excelente
situação; Pérgamo, Tiatira e Sardes, atravessam por um estado espiritual medíocre.