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INSTITUTO NACIONAL DE PROPRIEDADE INTELECTUAL - INPI

MESTRADO PROFISSIONAL EM PROPRIEDADE INTELECTUAL E INOVAÇÃO

“Incubation of incubators: innovation as a triple


helix of university–industry–government networks”
ETZKOWITZ, Henry. (2002). Science and
Public Policy, volume 29, number 2, pp
115–128.

Disciplina: Estratégia Tecnológica e Apropriação


Prof. Dirceu Yoshikazu Teruya
Nome: Juliana Morcelli Brandão

2010

1
1. Delimitação do problema:

O texto “Incubation of incubators: innovation as a triple helix of university–industry–


government networks”, de autoria de Henry Etzkowitz, tem por objetivo demonstrar que o
modelo de incubadora universitária, com uma dinâmica de interação entre universidade-
indústria-governo mais acentuada, pode contribuir para o desenvolvimento regional e
aperfeiçoamento do Sistema Nacional de Inovação.
2. Argumentação do autor

De início, o autor introduz o tema com uma abordagem superficial sobre o modelo de
incubadora universitária, conceituando e caracterizando este instituto. Apresenta seu
surgimento nos Estados Unidos, com o Rensselaer Polytechnic Institute (RPI), e sua expansão
para os demais continentes. A realização deste trabalho tem como base entrevistas realizadas
com diretores, fundadores e membros de empresas start-up, professores, empresários, etc, em
diversos países, no qual Etzkowitz, agrupa os resultados finais nas seguintes dimensões:
características das universidades, voltadas a pesquisa ou ao ensino; tipos de sistema de
inovação; países desenvolvidos e em desenvolvimento.
A obra em epígrafe é dividida em quatro partes. Na primeira seção, o autor explicita as
mudanças ocorridas no perfil das universidades, as quais passaram a absorver características
empreendedoras, nos moldes do modelo de Tripla Hélice proposto pelo autor. 12 Desta forma,
a interação entre universidade-indústria-governo se dá a partir de fluxos contínuos, onde os
agentes são incitados a assumir posições híbridas, facilitando a dinâmica nesta relação. Deixa
claro também que a universidade ocupa um papel central neste sistema como força
impulsionadora das demais “hélices”.
Na segunda seção do texto, Etzkowitz traça uma trajetória histórica da evolução do
modelo de incubadora. Os primeiros esboços tiveram origem na fábrica de Thomas Alva
Edison, embrionária da The General Eletric Corporation. O objetivo era sistematizar a
passagem da invenção à comercialização de novas tecnologias. O desenvolvimento do
conceito levou, no período de 1930 a 1940, à criação da empresa de capital de risco na Nova
Inglaterra, que tinha uma estrutura de suporte para fases iniciais de empresas, aliada a um
mecanismo de busca sistemática para identificação de tecnologias potencialmente
comercializáveis. A terceira fase de desenvolvimento é representada por uma espécie de
extensão dos centros de P&D (pesquisa e desenvolvimento), denominados skunkworks. Por
fim, o modelo atualmente utilizado, onde as incubadoras são tidas como empresas
independentes ou como spin-offs de empresas de capital de risco.

1
Em outras obras, Etkowitz acentua o papel da universidade no centro do Sistema Nacional de Inovação,
assumindo um papel cada vez mais empreendedor, híbrido, responsável por “mover” as hélices do modelo Tripla
Hélice por ele proposto. Ver: Entrepeneurial science in the academy: a case of transformation of norms, in
Social Problems (1989); The Triple Helix - University, Industry, Government Relations: A Laboratory for
Knowledge Based Economic Development. (1996); The Second Academic Revolution and the Rise of
Entrepreneurial Science (2001); Reconstrução criativa: hélice tripla e inovação regional (2005); e Hélice
tríplice: universidade – indústria-governo: inovação em ação(2009).
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A Hélice Tripla caracteriza a dinâmica da inovação de maneira evolutiva, numa sociedade baseada em
conhecimento e inovação, onde as relações se estabelecem entre três esferas institucionais, envolvendo três
atores distintos: a universidade, a iniciativa privada e o governo, as três partes distintas de uma mesma hélice. A
Hélice Tripla é uma plataforma para a formação de instituições, a criação de novos formatos organizacionais
para promover a inovação, onde os papéis dos agentes são sucedidos no modelo de espirais, instigando-os a
assumir os papéis uns dos outros.

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Na terceira seção do texto, o autor aprofunda a sua caracterização do modelo
contemporâneo de incubadora universitária, que mescla as características da empresa de
capital de risco, e a disponibilidade de um ambiente propício ao seu crescimento e
“amadurecimento”. Não obstante, Etzkowitz dá ênfase ao processo educativo como
sustentáculo deste modelo, pois as novas empresas, além das introduzir no mercado novas
tecnologias, devem também aprender a desenvolver novas competências, científicas e
administrativas, garantindo maiores chances de sucesso.
O papel da academia nesse processo educativo é essencial. A universidade não só tem
a função de ensinar (ensino), investigar (pesquisa), como também servirá como um canal com
a indústria, onde o fluxo de conhecimentos/tecnologias contínuo poderá influenciar ambos os
agentes.
Na última seção, o autor apresenta, partindo da experiência brasileira, um novo
modelo de incubadora: incubadora de incubadoras. Uma rede seria instituída tendo por base
uma incubadora interligada a uma universidade mais “antiga”, mais experiente, replicando-se
para outras incubadoras, em universidades menores. O aproveitamento de um ambiente
sistêmico e em rede, e uma maior capacitação tecnológica e administrativa poderá facilitar o
desenvolvimento das incubadoras “menores”, alargando as chances de seu sucesso.
Etzkowitz conclui o texto ressaltando que o futuro da universidade reside em alianças
estratégicas entre acadêmicos e outras organizações baseadas no conhecimento, nos institutos
virtuais e grupos de pesquisa que reúnem estudantes e professores, em vários níveis, em
projetos conjuntos e na educação das organizações, bem como indivíduos em centros de
empreendedorismo e incubadoras.
3. Análise crítica
A interação entre Universidade – Empresa te despertado crescente interesse por parte
de entidades governamentais, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento. A
idéia consiste em que o estreitamento das relações entre esses parceiros pode gerar benefícios
mútuos, além de contribuir fortemente para a melhoria da competitividade industrial dos
países.
As universidades, como geradoras e repositórios de conhecimento científicos e
tecnológicos e recursos humanos altamente qualificados, podem transferir parte desse
conhecimento para as empresas, através de mecanismos articulados de maneira adequada.
Em assim, com o objetivo de facilitar essa transferência, surgiu, na segunda metade do século
XX, nos Estados Unidos, um novo modelo de geração de empresa baseado simultaneamente
no conhecimento e no empreendedorismo: as incubadoras de empresas.
As incubadoras de empresas destacam-se como ambientes propícios ao
empreendedorismo. Etzkowitz as descreve como um espaço comum, subdividido em
módulos, onde empresas compartilham infra-estrutura e serviços, reduzindo custos e se
beneficiando de uma série de oportunidades facilitadas pela incubadora. Andino (2005)3
destaca entre os principais objetivos à criação de incubadoras o oferecimento de infra-
estrutura física e administrativa, a assessoria técnica e gerencialmente às empresas, o
fortalecimento das habilidades das empresas para sua introdução e consolidação no mercado,
além do desenvolvimento de trabalho cooperativo e a participação em redes e parcerias.

3
ANDINO, Byron F. A. Impacto da incubação de empresas: capacidades de empresas pós-incubadas e
empresas não-incubadas. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Administração.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2005. Disponível em :
<http://volpi.ea.ufrgs.br/teses_e_dissertacoes/td/004058.pdf>

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Contudo, uma das grandes problemáticas referentes a este modelo refere-se à questão
gerencial. Os jovens empresários encontram profundas diferenças entre o ambiente científico
e o ambiente empresarial. Faltam-lhes, na maioria dos casos, as competências gerenciais.
(Corman,1988)4. Esta questão impacta principalmente a transformação da descoberta em um
projeto empreendedor. Neste momento faz-se necessário a concepção do desenvolvimento
tecnológico e desenvolvimento comercial que demandam planejamento e visão de negócio
(Cheng et al., 2005).5
Neste sentido, estudos sobre o empreendedorismo tecnológico, como os conduzidos
por Baeta6, e Abreu, Souza e Gonçalo (2006)7, atestam que em incubadoras tecnológicas a
maioria dos gestores tem uma forte qualificação técnica, contudo, a formação na área de
gestão é insuficiente. Este quadro evidencia, assim como tratado por Etzkowitz, a importância
da criação de condições capacitadoras por parte das instituições de ensino, a fim de que as
empresas incubadas desenvolvam e utilizem ferramentas e técnicas de gestão, possibilitando
melhores condições de sobrevivência e competitividade no mercado.
Ainda sob o escopo gerencial, um importante desafio no processo empreendedor de
incubadoras é a busca de capital. Isto é, o financiamento o projeto do empreendimento a partir
de capitalistas de risco é uma modalidade comum no setor de alta tecnologia, mas há
percalços a serem transpostos. Poucos capitalistas de risco investem na fase inicial do projeto
devido às incertezas do mercado high tech. (Reitan, 19978).
Outro ponto que merece destaque é a análise inicial da situação da instituição
mantenedora com relação a suas competências reconhecidas nas áreas de Pesquisa e Pós-
Graduação, identificando quais são suas áreas de excelência, ou seja, onde a instituição tem
competências para transferir conhecimento para uma empresa incubada.
Apesar de todos os fatores aqui apontados (competência gerencial, técnica, acesso a
financiamento, diferenças ambientais e características regionais), que devem ser
obrigatoriamente considerados, o modelo de incubadora de empresas teoricamente pode ser
considerado como um avanço na dinâmica da relação entre universidade-empresa.
Contudo, para que essas relações se efetivem e possibilitem o surgimento de canais,
não apenas de transferência de tecnologia, mas de aprendizado mútuo de conhecimento e de
tecnologia, é preciso aperfeiçoá-lo. E o autor entende que este desenvolvimento deverá ser
fundamentado num processo educativo, e será facilitado, com base nos exemplos brasileiros,
pela existência de um ambiente próspero, em rede, que facilite o amadurecimento das novas
empresas a serem criadas.

4
CORMAN, J.; PERLES, B.; VANCINI, P. Motivational Factors Influencing High-technology
Entrepreneurship. Journal of Small Business Management, p.36-42. January1988.
5
CHENG, L.C., DRUMOND, P, MATTOS, P. O Planejamento Tecnológico de uma Empresa de Base
Tecnológica de Origem acadêmica: Revelando Passos Necessários na Etapa de Pré-incubação. Anais do
ALTEC. Salvador – BA Outubro de 2005.
6
BAÊTA, Adelaide M. C.; BORGES-JR, Cândido; TREMBLAY, Diane-Gabrielle. Empreendedorismo
internacional: o desafio das incubadoras de empresas de base tecnológica. In: II Seminário Internacional -
Empreendedorismo, Pequenas e Médias Empresas e Desenvolvimento Local, Rio de Janeiro, RJ, 2004.
<Disponível em: http://www.itoi.ufrj.br/seminario/anais/Tema%2032%5B1%5D.%20ADELAIDE,%20JUNIOR
%20E%20TREMBL AY.pdf - acesso em: 19/12/2007.
7
ABREU, Flávio C.; SOUZA, Yeda S.; GONÇALO, Cláudio R. Aprendizagem e Criação do Conhecimento em
Incubadoras. Anais do XXX ENANPAD. Salvador, 2006.
8
REITAN, B. Fostering Technical entrepreneurship in research communities: granting scholarships to would-
be entrepreneurs. Technovaton 17(6), 287-296. 1997.