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História do Banco do Brasil

História do Banco do Brasil

Organizador:

História do Banco do Brasil

Diretoria de Marketing e Comunicação do Banco do Brasil

Primeira edição atualizada para o novo acordo ortográfico

Título Original:

HISTÓRIA DO BANCO DO BRASIL Primeira edição (atualizada) - 2010

Copyright

©

2010 by Banco do Brasil S.A.

Coordenação editorial:

Fazenda Comunicação & Marketing Ltda.

Capa e projeto gráfico:

Fazenda Comunicação & Marketing Ltda.

Produção:

Fazenda Comunicação & Marketing Ltda.

Revisão tipográfica:

Aline Luz

Fotografias de capa:

Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Fotografia:

Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Banco do Brasil:

Diretoria de Marketing e Comunicação

H673

História do Banco do Brasil

2. ed. rev.

Diretoria de Marketing e Comunicação do Banco do

2010

Brasil. - 2. ed. rev. -- Belo Horizonte : Del Rey, Fazenda Comunicação & Marketing, 2010. 208 p. : il.

ISBN 978-85-63961-00-6

1. Banco do Brasil – História. I. Diretoria de Marketing e Comunicação do Banco do Brasil. Fazenda Comunicação & Marketing. II. Título.

CDU: 336.711(81)(09) CDD: 981

Responsável pela Ficha Catalográfica: CRB-MG 2742

Composição e impressão: Fazenda Comunicação & Marketing Ltda.

(*) Todos os direitos reservados para Banco do Brasil S.A

e impressão: Fazenda Comunicação & Marketing Ltda. (*) Todos os direitos reservados para Banco do Brasil
Sumário
Sumário

Sumário

Sumário
Sumário
Sumário

Introdução

9

A primeira fundação, em 1808

13

A economia floresce. Surgem novos bancos

25

A reforma bancária

39

1864: A grande crise

53

Guerra do Paraguai abala economia

69

A

escravidão chega ao fim. Novas crises

81

O

difícil resgate do papel-moeda

99

Reforma de estatuto ampliou a ação do Banco

111

O

esforço de produção e a crise do café

125

Carteira de Crédito Consolidada. Apoio à produção

143

A

herança da inflação

157

O

esforço de guerra. Redescontos superam limites

169

Democracia, inflação e crises

179

A

reforma bancária de 1964

189

Na era da ciência e tecnologia

199

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Introdução

Introdução
Introdução

Detalhe do interior do prédio do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro: o local serviu de sede para o Banco entre 1926 e 1960.

História do Banco do Brasil

Há, na história das nações, momentos de especial significado, quando são toma-

das decisões que vão marcar e condicionar a evolução futura e ocorrem fatos destinados

a repercutir intensamente, e duradouramente, na vida dos povos. São pontos de infle- xão, a indicar mudanças essenciais que, uma vez consumadas, permitirão afirmar-se que afinação, o Estado, a sociedade não serão mais os mesmos.

O Banco do Brasil tem a particularidade de se mostrar presente a cada vez que o

país enfrenta um desses momentos cruciais. Foi assim quando o príncipe regente Dom João (depois João VI) assinou o alvará que o fundou — o Brasil experimentava mo- mento histórico que, do ponto de vista econômico, costuma ser comparado com o que representou a independência política, ocorrida 14 anos mais tarde. Foi também assim quando, graças à visão de estadista do visconde de Itaboraí, ex-primeiro ministro, ex- ministro da Fazenda e presidente do Banco do Brasil, ocorreu o que se pode considerar sua “segunda fundação”, num instante em que o Império superava os tempos críticos da pós-independência e o conturbado período regencial e inaugurava fase de grande dinamismo econômico.

Hoje, vivemos etapa semelhante. Quer do ponto de vista econômico, quer no que toca à política e às transformações que se operam no tecido social, vive o país período de grandes mudanças, com reivindicações crescentes da sociedade em seus vários segmentos, para a conformação de um novo Brasil, poderoso economicamente, democrático politicamente e solidário socialmente.

Mais uma vez, observa-se que o Banco do Brasil está no centro dessas mudanças. Recuperando aceleradamente o terreno que perdeu em tempos recentes, assume no- vas feições, em consonância com a modernização do capitalismo brasileiro.

É oportuno, por tudo isso, que nos detenhamos um pouco sobre a história da

instituição, até como forma de melhor compreendê-la, conhecendo seu passado para melhor apontar os passos que dará no futuro. E - diga-se - essa compreensão e esse conhecimento não dizem respeito apenas aos que mais de perto respondem pelos des- tinos do Banco, como seus dirigentes e demais funcionários. Isso é da alçada de todos

os brasileiros, tenham ou não responsabilidade administrativa ou interesses financeiros

a defender.

Esta obra é uma tentativa de contribuir para tanto. Baseia-se em trabalho de maior fôlego e envergadura, qual seja, a história do Banco do Brasil, brilhantemente preparada por dois ilustres membros da comunidade do BB: os juristas Afonso Arinos de Mello Franco e Cláudio Pacheco. Este, no caso, diretamente responsável, junta- mente com a profícua equipe sob sua liderança, pelas pesquisas exaustivas realizadas sobre a história do Banco, de cujos resultados oferecemos aqui uma síntese.

Síntese que, por definição, não pretende nem poderia atrever-se a conter toda

a amplitude, ou toda a profundidade da obra completa. Mas que pode prestar-se a

subsidiar todos os interessados em conhecer a história de nossa principal instituição de crédito - que se confunde, como se verá nas páginas a seguir, com a própria história econômica do Brasil.

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Capítulo1

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Capítulo 1 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Capítulo 1 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

A primeira fundação,

 

em

1808

no Rio de Janeiro

aproximadamente

Casa dos Contos, fotografia da Casa Leuzinger (1860). Durante os primeiros cinco anos de funcionamento, o Banco do Brasil ficou instalado

em um prédio na esquina da rua Direita, atual Primeiro de Março, com São Pedro - esta última desapa-

recida com a abertura da av. Presidente Vargas. Em 1815, transferiu-se para um dos edifícios de maior

tradição na cidade, conhecido como Casa dos Contos, também situado na rua Direita,

no mesmo local onde hoje está instalado o Centro Cultural Banco do Brasil. A Casa dos Contos abrigou a sede do Banco do Brasil de 1815 a 1826, sendo demolida em 1870.

História do Banco do Brasil

Havia apenas três bancos emissores no mundo - na Suécia, na França e na Ingla- terra -, quando o príncipe D. João, recém-chegado ao Brasil, obrigado a deixar repenti- namente Portugal, invadido pelas tropas de Napoleão, decidiu criar, em 1808, o Banco do Brasil. As condições, afinal, apontavam para essa necessidade: o processo de mine- ração entrava em declínio, era grande a escassez de moedas e tanto a intensificação das atividades comerciais, com a abertura dos portos, quanto as despesas com a família real e sua corte exigiam que se aumentasse o numerário existente.

A criação do Banco do Brasil foi, então, determinada por um alvará do príncipe

regente D. João, futuro D. João VI, expedido no Rio de Janeiro, em 12 de outubro de 1808. Antes, operavam no setor de crédito apenas alguns capitalistas nacionais e ingle- ses, recentemente estabelecidos, que sacavam sobre as praças europeias e recebiam dinheiro em conta corrente ou depósito, na maior parte das vezes para passá-lo aos

bancos da Inglaterra ou convertê-lo em títulos de renda assegurada. Essas somas eram sempre entregues em ouro e exportadas como mercadorias.

No mesmo ano, por decreto de 3 de setembro, foi iniciada a emissão dos “escri- tos da Alfândega”, conhecidos mais tarde por “bilhetes”, que eram dados como paga- mento nas estações públicas. Precursores dos “bilhetes ou notas de bancos”, os escritos abriam caminho ao papel-moeda do Tesouro. Existia também o “cofre de depósito”, confiado à Câmara. Servia tanto para depósitos judiciais como para a tranquilidade dos particulares que buscavam segurança para seus capitais, preferindo deixá-los inativos. Para os empréstimos a juros recorria-se ao Cofre dos Órgãos, às Ordens Terceiras e à Casa de Misericórdia, que até o século seguinte, ainda serviria de casa sacadora e re- passadora de capitais para a Europa, Ásia, e África 1 .

O alvará do príncipe determinava no típico estilo pomposo do absolutismo mo-

nárquico:

“Eu, o príncipe regente, faço saber aos que este meu alvará com força de lei vi- rem: que atendendo a não permitirem as atuais circunstâncias do Estado, que o meu Real Erário possa realizar os fundos, de que depende a manutenção da Mo- narquia e o bem comum dos meus fiéis vassalos, sem as delongas que as diferen- tes partes, em que se acham, fazem necessárias para a sua efetiva entrada; a que os bilhetes dos direitos das Alfândegas tendo certos prazos nos seus pagamentos, ainda sejam de um crédito estabelecidos, não são próprios para o pagamento, ain- da sejam de um crédito estabelecido, não são próprios para o pagamento de sol- dos, ordenados, juros e pensões, que constituem os alimentos do corpo político do Estado, os quais devem ser pagos nos seus vencimentos em moeda corrente; e a que os obstáculos, que a falta de giro dos signos representativos dos valores põem ao comércio, devem o quanto antes ser removidos, animando e promovendo as transações mercantis dos negociantes desta e das mais praças dos meus domínios, e senhorios com as estrangeiras.”

1. Em março e abril de 1893, o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, publicou, sem revelar a autoria, uma história do Banco do Brasil, bem fundada, à luz da proximidade dos fatos e, presumivelmente, de documentos que, em boa parte, não foram conservados. Utilizamos, por isso, essa fonte. A presente nota refere-se à edição de 26 de março de 1893.

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História do Banco do Brasil

Vinha, a seguir, a principal parte dispositiva:

“Sou servido ordenar que nesta capital se estabeleça um Banco Público, que na forma dos Estatutos, que este baixam, assinados por Dom Fernando José de Por- tugal, do meu Conselho de Estado, ministro Assistente ao Despacho do Gabinete, presidente do Real Erário e secretário de Estado dos Negócios do Brasil, ponham em ação os cômputos estagnados, assim em gêneros comerciais, como em espé- cies; Cunhadas; promova a indústria nacional pelo giro, e combinação dos capitais isolados, e facilite juntamente aos meios, e aos recursos, de que as minhas rendas reais e as públicas necessitarem para ocorrer às despesas do Estado.”

O principal objetivo da fundação do Banco, claramente sobressaía não só na

prioridade como na insistência com que era destacado na introdução do alvará: pro- porcionar, com urgência, fundos para a manutenção da cúpula monárquica, composta principalmente pela rainha, D. Maria I, pelo príncipe regente, esposa, prole, parentes próximos e afastados e pelo numeroso conjunto de fidalguia, administração e serventia doméstica. Estimada em até 15 mil pessoas, a corte mantinha um séquito de usufru- tuários parasitas com os quais D. João deslocava-se, sob o alvoroço com que as tropas francesas invadiram impetuosamente Portugal, de Lisboa para o Rio de Janeiro.

O documento extinguia o Cofre do Depósito e definia, entre outras vantagens, a

remuneração dos dirigentes do Banco:

“Em todos os pagamentos que se fizerem à minha Real Fazenda, serão contem- plados e recebidos como dinheiro os bilhetes do dito Banco Público pagáveis ao portador ou mostrados à vista e da mesma forma se distribuirão pelo Erário Régio nos pagamentos das despesas do Estado: e ordeno que os membros da junta do Banco e os diretores dele sejam contemplados pelos seus serviços com as remu- nerações estabelecidas para os Ministros e oficiais da minha Real Fazenda e ad- ministração da justiça, e gozem de todos os privilégios concedidos aos deputados da Real Junta do Comércio.”

Os estatutos que vinham em anexo ao alvará, extensos e minuciosos, desdobra- vam-se em providências para a organização do Banco e suas operações. O estabeleci- mento era denominado Banco do Brasil e a duração de seus privilégios estava fixada em 20 anos, findos os quais, ou se dissolveria, ou novamente se constituiria, se o gover- no assim entendesse. O capital inicial era de 1.200 contos de réis, dividido em 1.200 ações de um conto de réis cada uma, podendo ser aumentado através de novas ações. O giro poderia ser iniciado logo que houvesse em caixa cem ações. Era proibida e nula toda penhora ou execução, fiscal ou civil, sobre ações do Banco, e os acionistas podiam ser nacionais ou estrangeiros.

As operações do Banco consistiam, então, no desconto mercantil de letras de câmbio sacadas ou aceitas por negociantes de crédito, nacionais ou estrangeiros; na

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História do Banco do Brasil

comissão dos cômputos arrecadados de particulares ou estabelecimentos públicos, ou adiantados através de hipotecas; no depósito geral em prata, ouro, diamantes ou di- nheiro; na emissão de letras ou bilhetes pagáveis ao portador, no mínimo de 30 mil réis; na comissão dos saques particulares ou do Real Erário, de fundos localizados no estrangeiro ou nacional, em área remota; no recebimento de toda a soma, que se lhe oferecesse a juro da lei; na comissão da venda dos gêneros privativos dos contratos e administração reais, como os diamantes, pau-brasil, marfim e urzela; no comércio das espécies de ouro e prata.

O Banco não podia descontar ou receber, por comissão ou prêmio, frutos de ope-

rações que pudessem ser consideradas contrárias à segurança do Estado, assim como de contrabando ou de transações suspeitas. Sua assembleia geral era integrada por 40 dos seus maiores acionistas; a junta, por dez; e a diretoria, por quatro. Em cada ano a

assembleia elegia cinco novos deputados da junta e dois diretores, sendo permitida a reeleição. Os integrantes da assembleia geral deviam ser portugueses, mas qualquer português que mostrasse procuração de um estrangeiro incluído entre os maiores capi- talistas podia representá-lo e entrar.

Para o direito a voto nas sessões do Banco exigia-se que o acionista tivesse o mínimo de cinco ações, e a cada lote de cinco ações o acionista podia exercer o direito a mais um voto, até o limite de quatro votos; se dois ou mais possuíssem juntos cinco ações, podia um deles ter voto, apresentando a procuração. Cabia à junta administrar os fundos e, aos quatro diretores, fiscalizar as transações e operações do Banco em ge- ral. Todas as decisões se faziam pela pluralidade dos votos e os casos de empate eram decididos na assembleia geral.

A ideia da criação de um Banco de Estado, segundo o historiador Afonso Arinos de

Mello Franco, já era familiar nos meios administrativos portugueses alguns anos antes da fundação do Banco do Brasil. Ele assinala que, “como tantas, se não todas as ideias que implicavam em progresso político e econômico, com utilização, no velho reino, de novos processos governativos, veio ela do estrangeiro e foi um estrangeiro o primeiro a agitá-la em Portugal: o italiano Domingos Vandelli” 2 . Arinos refere-se às origens e andanças de Vandelli, aos seus escritos, publicados ou inéditos e a dois projetos que elaborou para a criação de um Banco Nacional, destinado a suprir o governo de numerário, e que datam, seguramente, de fins do século XVIII. Registra também propostas que haviam sido feitas por D. Rodrigo de Souza Coutinho, o conde de Linhares:

“A sugestão de Vandelli, completada pelas de D. Rodrigo de Souza Coutinho, podemos dizer que se encontra, por antecipação, delineado o organismo do pri- meiro Banco do Brasil, com as suas vantagens e inconvenientes, ao mesmo tem- po utilíssimo e inviável, eivado de uma contradição fundamental que, através de turbulentos episódios e, apesar dos imensos serviços prestados por ele ao país, o levaria a estrondoso e melancólico fracasso”.

2. História do Banco do Brasil, 1973, p. 13 a 15.

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História do Banco do Brasil

O historiador Horácio Say analisa, com uma visão abrangente, o processo da fun-

dação e do início do funcionamento do Banco:

“A criação de um Banco de depósitos e de circulação podia ser útil no Brasil no momento em que a abertura dos portos tornava os negócios mais ou menos ativos, os produtos da agricultura chegavam em abundância e vinham fornecer carrega- mento aos navios que começavam a entrar sob todas as bandeiras. Havia necessi- dade de uma massa maior do agente intermediário das permutações: assim é que os bilhetes do Banco entraram facilmente e percorreram a circulação, encheram mesmo um vazio no comércio do país, porque a moeda de 960 réis não deixou de circular ainda por muito tempo ao lado deles.” 3

Mas o desenvolvimento dos portos e dos mercados de produtos agrícolas foi, na verdade, lento e difícil. O próprio Banco enfrentou, inicialmente, dois problemas bas- tante interligados: a demora na captação do capital e do seu funcionamento. E, apesar das facilidades concedidas, somente em 11 de dezembro de 1809 – mais de um ano depois da sua fundação -, é que começou a funcionar, assim mesmo com apenas um décimo do seu capital que, três anos após, ainda não excedia 126:000$000 4 . Em razão desse quadro, o governo resolveu tomar novas medidas em favor do estabelecimento

e baixou o alvará, de 20 de outubro de 1812, ordenando que a Real Fazenda entrasse

como acionista, destinando, para isso, pelo período de dez anos consecutivos, a arre- cadação de antigos e novos impostos, e abrindo mão, durante cinco anos, de qualquer

lucro resultante das suas ações.

O lançamento do “imposto do Banco”, como ficou conhecido, era feito no Rio

de Janeiro e em todas as capitanias, e era de 12$000 anuais sobre comércio, indústrias

e profissões. Mas ficavam isentas as lojas, botequins e tavernas estabelecidas nas es-

tradas, arraiais e capelas, e nas pequenas povoações em que não houvesse magistratura de “vara branca”. O capital do Banco consolidou-se através dessa arrecadação e, poste- riormente, pela própria fluência de capital particular. Desses impostos entraram para os cofres do Banco 576:000$000, correspondentes a 576 ações, sendo 500:000$000 nos primeiros cinco anos (1813-1817) e 76:000$000 entre 1818 e 1822. De 1813 em diante cresceu de tal forma a subscrição de ações que, em 1829, o total chegou a 3.600. Quan- do, no mesmo ano, extinguiu-se o Banco, o Tesouro possuía apenas 80 ações. As 3.520 restantes eram de particulares.

Uma das medidas que mais contribuíram para esse crescimento foi a concessão de títulos e comendas aos capitalistas que subscrevessem ações. Várias pessoas, inclu- sive, chegaram a passar por grandes provações para alimentar essa vaidade, tomando dinheiro emprestado a juros altos para adquirir as ações, que não conseguiam vender depois de receber as condecorações 5 .

3. Histoire des Relations Commerciales entre la France et le Brésil.

4. Valor expresso em moeda da época, o mil réis (1$000). Um conto de réis valia mil 1$000 (1:000$000).

5. Jornal do Commercio, edição de 26 de março de 1893.

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História do Banco do Brasil

A falta de uma administração competente e zelosa e o excesso de emissões foram

as duas causas principais do fracasso do Banco na fase de sua primeira fundação. “A ad- ministração do Banco nunca primou por acertada e prudente, espalhando-se por vezes

boatos tais de malversações e extravios de dinheiro, que o governo viu-se forçado, não

a proceder a rigoroso inquérito, como aconselhava a salvação do estabelecimento, mas

a impor silêncio pela violência aos que davam curso àqueles boatos”, relatou o conse- lheiro Pereira da Silva, no livro História da Fundação do Império.

Ao narrar este fato, Pereira da Silva diz que o Correio Braziliense acusou o governo sem levantar provas. No entanto, tudo indica que Hipólito José da Costa, o responsá- vel pela edição do jornal, não faltou à verdade. O conselheiro José Antonio Lisboa, no livro Reflexões sobre o Banco do Brasil, publicado em 1821, referindo-se aos perigos que correra o estabelecimento, em 1817, diz ter sido público “nesta cidade, que Francisco José dos Santos, negociante desta praça, e José da Rosa Salgado, que exercia o empre- go de corretor, ambos terem sido presos, o primeiro na cadeia, e o segundo na Ilha das Cobras, em consequência de denúncia, que se deu contra eles, por falarem do mau uso que se fazia dos fundos do Banco e das prevaricações de seus empregados”.

Em 1827, o marquês de Queluz afirmou, no relatório da Fazenda, que o Banco do Brasil era um estabelecimento de que se poderia tirar vantagens se estivesse em outras mãos e com outros métodos, mas que, mal administrado como fora, só ocasionaria os es- torvos administrativos em que se achava o governo. “Pelas dilapidações públicas da sua administração, logo nos princípios dela”, relatou, “sabermos que o Banco esteve abisma- do e que só a influência e socorros do governo o levantaram e o restabeleceram”.

Nas análises realizadas por ordem do governo e constantes de documentos que ainda há poucos anos existiam no Tesouro, reconheceu-se que a escrituração do Banco foi sempre irregular, principalmente a especial da caixa. No período de 1817 a 1821, ocorreram transações sem escrituração, como o desconto de letras pelo dinheiro da caixa do troco das notas em metal, e foram descobertos desfalques em diversas caixas, dos quais o mais alto foi de 761:201$491, que no balanço de 31 de julho de 1828 figura como quantia extraviada.

O mesmo tipo de abuso ocorreu no sistema de emissão. Os desvios foram facilita-

dos pelo segredo que cercava as operações, e os acionistas não os ignoravam. Em 1823,

eles rejeitaram medidas propostas por Gervásio Pires Ferreira, possuidor de 40 ações, conforme relatou o ministro da Fazenda Bernardo de Souza Franco:

“Se alguma era intempestiva, como a cessação total de empréstimos ao Tesouro e exigência de prestação fixa para pagamento da dívida anterior e seus juros, não se podia desconhecer a indispensabilidade das que tinham, por fim, melhor regular a escolha, obrigações e responsabilidades dos diretores e mais empregados, para evitar abusos quais os da anterior Junta Diretora, que tudo fizera para se perpetuar na administração” 6 .

6. Jornal do Commercio, edição de 26 de março de 1893.

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História do Banco do Brasil

As emissões feitas pelo Banco foram excessivas. De 1810 a 1827, totaliza- ram 29.726:450$000, dos quais 27.046:450$000 foram emitidos no Rio de Janeiro, 1.490:000$000 na Bahia, 300:000$000 em São Paulo, 500:000$000 em Pernambuco e 390:000$000 em Minas Gerais. Entretanto, foram recolhidos e incinerados, de 1811

a 1823, valores no total de 10.551:530$000, de modo que, em 1829, o saldo em circu-

lação chegava a 19.174:920$000. O fundo do Banco, em 1821, era de 2.474:556$000, formado pelo capital de 2.268 ações realizadas, equivalentes a 2.268:000$000 e fundo de reserva de 206:566$000. Não se podia dizer que estivesse em perfeito estado de solvabilidade uma instituição bancária, cuja emissão já excedia, naquele ano, mais que o triplo do seu capital.

Evidencia-se, nessa época, que o Banco estava insolvente, pois não dispunha de recursos capazes de fazer face ao troco de suas notas em circulação, mesmo que o Te-

souro pagasse os 4.799:415$000 que lhe devia. Segundo Horácio Say, “os bilhetes do Banco tronaram-se excessivos para as necessidades das transações; o seu valor começou

a baixar e correram ao Banco para trocá-los; mas as espécies já não estavam ali. A este

primeiro sinal de depreciação, de 1818 a 1819, as moedas de prata de 960 réis desapa- receram rapidamente da circulação. O real não era mais a expressão do mesmo valor, já deixavam de dar esta moeda por seu valor nominal, obteve prêmio, daí a vantagem de exportá-la. A bela moeda de ouro, de 1809, tinha sucedido a moeda fraca de prata, e esta, em 1818, achou-se substituída pelas miseráveis tiras de papel” 7 .

Em 23 de julho de 1824, a assembleia geral do Banco resolveu fixar a tabela de realização de suas notas na proporção de 75% em bilhetes miúdos, 15% em mo- edas de ouro e prata e 10% em cobre, o que valia como suspensão de pagamento.

Posteriormente, a comissão liquidadora informou aos árbitros nomeados para decidir as pendências entre o Banco e o governo que, depois da data daquela tabela para o troco de suas notas, o estabelecimento continuou a fazer suprimentos ao governo e

a descontar os seus papéis de crédito. Daí por diante aumentaram mais esses supri-

mentos, continuando-se a descontar as letras particulares até 1822, quando cessaram as transações novas. Ao chegar a essa situação, o Banco do Brasil não passava de uma

caixa suplementar do Tesouro, onde o governo ia buscar dinheiro até por pedido verbal do tesoureiro geral do Erário.

Foi somente, em 1827, através do artigo 22 da lei de 25 de novembro, do mesmo ano, que se proibiu o aumento da emissão, a partir de 1.º de janeiro do ano seguinte, e ordenou-se a retirada de 6.000:000$000 da circulação, mediante a troca por apólices de 5% ao par das notas bancárias, o que, no entanto, não se pôde realizar, pois as apólices de 6% eram vendidas a 65 e a 66. A tal ponto caíra o critério do estabelecimento, que suas notas corriam por 45% de abatimento em moeda de prata, ameaçando cada dia maior baixa.

Em abril de 1829, as notas já tinham sofrido 40% de abatimento em cobre, 110% em prata e 190% em ouro, sendo o câmbio para Londres de 23 pence por 1$000. Era impossível ir além, e assim o entendeu o ministro da Fazenda, Miguel Calmon – poste-

7. Jornal do Commercio, edição de 26 de março de 1893.

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História do Banco do Brasil

riormente visconde e marquês de Abrantes -, que apresentou à Câmara dos Deputados proposta do governo para dissolução do Banco através da nomeação de uma comissão liquidadora composta de sete membros, dos quais quatro escolhidos pelo próprio go- verno, incluindo-se o presidente, e três pela assembleia geral.

A Câmara votou pela imediata liquidação do Banco, sancionada em 23 de setem- bro do mesmo ano. No entanto, adiou-se a dissolução para 11 de dezembro de 1829, data que se esgotavam os 20 anos de privilégios previstos na fundação 8 . Mas, pelo me- nos para seus acionistas, o Banco não podia ser considerado uma instituição prejudicial:

as vantagens que auferiram foram grandes e poderiam ter sido maiores se tivessem es- colhido administrações mais competentes, como demonstram os balanços dos dividen- dos pagos anualmente (veja quadro). Dissolvida a instituição, o capital foi distribuído entre os acionistas, que receberam cerca de 81% do valor primitivo das ações.

Dividendos pagos pelo Banco do Brasil

Ano

Valor

%

1810

10$283

1,28

1811

30$680

3,06

1812

40$665

4,06

1813

59$985

5,99

1814

96$717

9,67

1815

137$100

13,71

1816

189$607

18,96

1817

148$315

14,88

1818

171$804

17,18

1819

107$647

10,76

1820

101$062

10,10

1821

153$519

15,35

1822

119$605

11,98

1823

163$878

16,38

1824

163$157

16,31

1825

126$621

12,66

1826

169$869

16,98

1827

176$329

17,68

1828

187$567

18,75

1829

178$927

17,89

O vácuo de suporte bancário resultante da dissolução do banco do Brasil não só provocou críticas como também motivou sugestões de criação de um novo banco de iniciativa governamental. Figuras de destaque da história brasileira, como Cândido Ba-

8. Jornal do Commercio, edição de 26 de março de 1893.

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História do Banco do Brasil

tista de Oliveira, senador Ferreira Soares, J.F. Normano, Pandiá Calógeras, analisaram

e lastimaram a dissolução do Banco 9 . Pandiá Calógeras, por exemplo, assinalou que

na Câmara dos Deputados vários de seus membros insistiram nas vantagens de uma reorganização do Banco do Brasil, ao invés de uma liquidação pura e simples. “A antiga hostilidade contra o estabelecimento de crédito”, disse ele, levou a melhor, “escorada nas acusações de dilapidações praticadas por diretores do estabelecimento e da retirada em massa, por ocasião da volta de D. João a Portugal, em 1821, em metais preciosos que pertenciam ao Banco”.

Transformado numa espécie de bode expiatório, o Banco acabou assumindo, segundo Calógeras, a “responsabilidade pelas dificuldades de uma situação cujos erros cabiam quase que exclusivamente ao governo, por causa dos empréstimos dispensá- veis que solicitou, ou melhor, impôs”. Mas, prosseguiu, “quando votada a liquidação do Banco e apresentado seu balanço, verificou-se que o papel-moeda em circulação excedia apenas de soma ínfima a dívida do Tesouro com a instituição. Os acionistas receberam 90% de seu capital integralizado, pagas todas as dívidas”.

Nenhuma crítica pode ser mais eloquente do que essas cifras, argumentou Co- lágeras, porque “comprovam a solvência do estabelecimento, apesar do descrédito es- palhado pelos exageros e acusações malévolas contra ele arguidos. E, sobretudo, liqui- dado o Banco, a praça do Rio ficou longamente privada desse aparelho indispensável à sua economia comercial, erro extremamente grave que lhe foi imposto por uma decisão inconsiderada. Foi essa última consequência que motivou as críticas muito sérias e amargas a elas dirigidas desde os primeiros momentos por financistas e estadistas, e inspirou a ideia de tentar conter o desencadear das correntes que conduzissem a me- didas extremas”. 10

A primeira tentativa de restabelecimento de um banco nacional ocorreu atra- vés da lei de 8 de outubro de 1833, mas não teve êxito, pela falta de apresentação de acionistas. O governo chegou a nomear uma comissão para organizar o levantamento do capital, mas apenas os integrantes dessa comissão animaram-se à subscrição. Com

a insuficiência de capital, o próprio ministro da Fazenda pronunciou-se, em novembro

de 1834, pela desistência oficial de restabelecimento do Banco, mandando reverter a receita geral dos impostos que a lei criou com o objetivo de compor a cota de capital do governo. E, até 1838, quando foi criado o Banco Comercial do Rio de Janeiro, nenhum outro banco existiu, instruído formal e regularmente, no país.

Havia, naturalmente, financiamentos que proliferavam como negócios rendosos

e sem concorrentes legalmente instituídos, realizados pelos comerciantes, sob a for-

ma de adiantamento ou vendas a crédito, para seus fregueses e fornecedores. Ou, em maior vulto, os empréstimos que os comissários, sobretudo os do comércio de exporta- ção, faziam aos fazendeiros e lavradores, sob garantia da colheita.

Esporadicamente, havia casas bancárias em comandita, ou caixas econômicas de instauração arbitrária ou variada. Também existia a agiotagem, à qual se referiu, em

9. Cláudio Pacheco, História do Banco do Brasil, 1973, vol. II cap. 1§§ 30 a 33.

10. A Política Monetária do Brasil, p. 45 e 46.

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História do Banco do Brasil

relatório apresentado à Assembleia Geral Legislativa do Império, na sessão ordinária de 1837, o então ministro da Fazenda, Manoel do Nascimento Castro e Silva:

parece que, no caso de se não proibir o estabelecimento de casas em que

se fazem empréstimos sobre penhores, ou hipoteca, o que seria mais conforme à moral e à política, atento ao escândalo e ao abuso, com que nela se praticam as usuras e dilapidações, devem elas sofrer uma forte taxa de licença, ou patente, sendo sujeitas a um regulamento”.

me “

Foi nessa época que começou o ocaso do período colonial – marcado inicial- mente pela vinda da corte portuguesa para o Brasil -, com a consequente aceleração do processo de independência política, paralelamente ao processo da independência econômica, impulsionado por medidas como a abertura dos portos. A renda per capita do país vinha caindo, continuamente, já durante o século anterior. Na primeira metade do século XIX ainda não se via uma tendência de recuperação, mas o decesso estacio- nava, em face da germinação profunda dos fatores que haviam de dar partida, embora de forma incipiente, ao desenvolvimento brasileiro.

Esse período da história brasileira, chamado regencial, que englobou o final do pri-

meiro reinado até a consolidação do segundo, caracterizou-se, no plano político, por um processo insurrecional, ao mesmo tempo prolongado e sangrento. Logo no começo vacilou

o trono imperial do Brasil, inclusive porque, sob o impacto da impopularidade e acusado de preocupar-se mais com suas pretensões ao trono português do que com os problemas brasileiros, D. Pedro I renunciou e deixou o trono a D. Pedro II, ainda menino.

Evidentemente, esse quadro influi negativamente na situação econômica e finan- ceira do país. No período de 1836 a 1846, por exemplo, verificou-se que em todos os anos, salvo no último, as somas das importações foram bem mais altas do que as das ex- portações. O desequilíbrio econômico e, especialmente, o financeiro, que já se manifes-

tava anteriormente, tornou-se então, crônico, característica mantida até tempos recentes. Se o período regencial foi, no plano político, marcado pela turbulência das desordens e revoltas, no plano econômico caracterizou-se pela insuficiência da produção exportável

e por saldos negativos na balança do comércio exterior, com constante baixa dos valores externos e internos da moeda. Manteve-se, ademais, o processo inflacionário.

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História do Banco do Brasil

Capítulo2

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Capítulo 2 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Capítulo 2 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

A economia floresce.

A economia floresce.
A economia floresce.
A economia floresce.

Surgem novos bancos

Os primeiros bilhetes emitidos pelo Banco do Brasil a partir de 1810, precursores das cédulas atuais, eram apresentados em talões e tinham uma linha de corte para facilitar a verificação de autenticidade.

Fac-símile de cédulas da primeira e segunda emissão. Impressas no Rio de Janeiro.

História do Banco do Brasil

Ao encerrar o período regencial, o governo tentava sair de uma posição repres- siva, em defesa da ordem, para dar maior atenção aos problemas de administração in- terna. Na pauta das exportações, o café continuava em marcha ascendente como prin- cipal gerador de divisas. Destacaram-se, nessa época, os empreendimentos de Irineu Evangelista de Souza – o barão de Mauá -, considerado o empresário brasileiro mais ativo, responsável pela implantação dos estaleiros fundados na baía de Guanabara, que produziram navios para as marinhas mercante e de guerra, e até canhões utilizados em operações militares no Sul, e pela construção da primeira estrada de ferro, ligando Mauá a Raiz da Serra.

Outros trechos ferroviários foram construídos e postos em funcionamento. De- senvolveu-se a navegação a vapor, ligando o Brasil à Europa e o Rio de Janeiro aos portos nacionais do Norte e do Sul. Corria paralelamente a navegação à vela, não só no litoral como nas vias interiores, fluviais e lacustres. Continuava, no plano social e econômico, a negra mancha da escravidão, mas já surgiam tentativas de importar mão de obra livre, com a vinda para o Brasil de imigrantes europeus.

Esse quadro econômico-financeiro, que se tornava gradualmente fértil, favore- ceu a criação dos bancos. Surgiram, primeiro, iniciativas de firmas comerciais que pro- curavam funcionar como casas bancárias em limitadas operações de câmbio. Em maior âmbito, instalou-se o Banco Comercial do Rio de Janeiro, através de alguns capitalistas da praça que, em 10 de dezembro de 1838, o inauguraram publicamente, sem atenção do governo, que só em 23 de junho de 1842 aprovou seus estatutos. Mais de seis anos depois, na Bahia, instalou-se, a 2 de abril de 1845, o Banco Comercial da Província da Bahia, que iniciou suas operações em 16 de maio, mas só teve os estatutos aprovados em 16 de novembro.

A partir daí, o processo de fundação de bancos acelerou-se com a criação do Ban-

co Comercial do Maranhão, em São Luís, em agosto de 1846, do Banco do Pará, em Belém, em setembro de 1847 e do Banco da Província de Pernambuco, que teve seus estatutos aprovados por decreto de dezembro de 1851. Em 1851, Irineu Evangelista de Souza e outros capitalistas lançaram uma campanha para a criação de um novo e mais poderoso banco, cujo capital foi fixado em dez mil contos, considerado muito elevado para a época, quando o valor das exportações brasileiras ainda não chegava a 70 mil con- tos. Obtida a aprovação dos estatutos pelo governo, o novo estabelecimento começou a funcionar em agosto do mesmo ano.

De acordo com os estatutos aprovados pelo governo, os bancos podiam emitir vales ou letras ao portador e a prazo determinado, que acabaram circulando como moeda. Ins- talou-se, assim, com a autorização do próprio governo, um poder de iniciativa privada im- portante, mas considerado perigoso pelas pessoas que defendiam que o poder de cunhar moeda deveria ser exclusividade governamental. Na esteira de emissões tão fáceis era de se esperar abuso e o resultado foi, também, a abertura para o processo inflacionário.

O governo, omisso, promulgou o decreto de 10 de janeiro de 1849, considerado

ineficaz, pois, regulando a organização de sociedades anônimas, apenas dispôs nos ar- tigos 9.º e 10.º:

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História do Banco do Brasil

“A instalação da sociedade anônima que tiver por fim fazer operações bancárias só poderá ser autorizada quando se tenha realizada a quarta parte das ações; mas, se não for completado o número total delas no prazo marcado no contrato constitu- tivo, será a sociedade dissolvida, salvo se tiver do governo autorizações para fazer suas operações com número maior de acionistas, do que o marcado no contrato; o governo nomeará, todas as vezes que entenda conveniente, um ou mais agentes para fiscalizar as operações das sociedades e poderá declará-las dissolvidas quando se verificar que não cumprem as condições a que se sujeitaram.”

Alguns autores têm considerado o estabelecimento fundado por iniciativa do barão de Mauá como o “segundo Banco do Brasil”, portanto, um elo da série de bancos com este nome, de 1808 até os nossos dias. Mas, como se tratou de uma instituição exclusivamente particular, sem qualquer iniciativa, ligação ou participação do governo, convém considerá-lo estranho à continuidade da série. Assim, o verdadeiro segundo Banco do Brasil foi criado, em 1853, por lei, sob a iniciativa de José Joaquim Rodrigues Torres, mais conhecido como visconde de Itaboraí, que, por mais de uma vez, exerceu a presidência do estabelecimento, transformando-se numa espécie de seu patrono. Foi a Itaboraí que coube promover a restauração do Banco do Brasil, atuando não somente como ministro da Fazenda, onde tomou posse em 6 de dezembro de 1848, como também na posição de presidente do Ministério, que assumira em 11 de maio de 1852. Acusado de contraditório, porque havia se manisfestado contra a criação do Ban- co, não chegou a se contradizer, pois, na verdade, anteriormente admitiu que, mudadas as circunstâncias, tornava-se admissível essa criação. Ocorrera, realmente, mudança nas circunstâncias, como assinalou Antônio Car- los, ao citar o relatório do conselheiro Ângelo Ferraz, a quem qualificou como “emérito financista e homem de Estado” na comissão de inquérito sobre a crise de 1864. Ferraz asseverou, tratando do período de 1851 a 1856, que a tranquilidade pública do Império cada vez mais se consolidou, “a indústria e o comércio, em sua marcha progressiva e próspera, não encontraram tropeços”, os negócios da Fazenda apresentavam “um belo aspecto”, as rendas públicas continuaram aumentando firmemente, colhera-se o resul- tado de grandes saldos, a amortização da dívida interna não foi suspensa, houve redu- ção de impostos e se elevaram o preço dos nossos títulos da dívida pública interna e externa. Referiu-se, ainda, à grande atividade comercial com negócios satisfatórios 11 . As bases para a fundação do novo banco foram apresentadas por Itaboraí no re- latório de 1853, ainda como ministro da Fazenda, no qual afirmou que era chegada a ocasião para se criar uma banco de emissão, com os objetivos principais de auxiliar o governo no resgate de papel-moeda e promover o progressivo aumento do crédito e das riquezas nacionais. Ele advertiu que o estabelecimento não podia ser oficial, pois o governo não poderia, sem abandonar a posição de protetor imparcial de todos os inte- resses da sociedade, encarregar-se de dirigir operações comerciais.

Ao justificar a proposta, Itaboraí mostrou-se dotado de seguro conhecimento a respeito de instituições bancárias, dos princípios e cautelas ainda hoje aceitos. Assim,

11. Bancos de Emissão no Brasil, 1923, p. 38 e 39.

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História do Banco do Brasil

detalhou as vantagens e também os riscos dessas entidades, a necessidade de regras

e controles e de um grau equilibrado de reserva de recursos, a magnitude da orga-

nização dos bancos, os proveitos da concentração bancária, evitando a dispersão de capitais por diversos estabelecimentos de crédito e o impreterível preceito de mode- ração nas emissões. Ao iniciar a implantação do novo banco, mostrou-se convicto do efeito negativo da multiplicidade de instituições de créditos, partindo para a solução de fundar um novo Banco do Brasil através da fusão do homônimo, criado por Mauá, com o Banco Comercial.

Entretanto, numa posição que hoje se consideraria oposta à moderna tendência de estatizar as atividades econômicas, Itaboraí não admitiu que o governo se encar- regasse de dirigir operações comerciais. Agiu, assim, no sentido de que se procurasse incorporar na capital do Império, através de ações, um banco de depósitos, descontos

e emissões, sujeito, porém, à supervisão governamental, através da nomeação, pelo

imperador, do presidente da nova instituição financeira, com poder de veto suspensivo

sobre qualquer deliberação contrária à lei ou aos estatutos.

A proposta ministerial foi apresentada, no Senado, sob forma de emenda a um

projeto existente e passou por extensos debates e críticas na Câmara iniciadora e na Câ- mara dos Deputados, mas foi aprovada sem muita demora e sem alterações. Surgiram, enquanto isso, dificuldades na praça do Rio de Janeiro que provocaram súbita elevação da taxa de juros, o que levou o governo a prestar substancial auxílio aos dois bancos então existentes – o Comercial e o do Brasil -, sob a forma de empréstimos em bilhetes do Tesouro e sob a caução de apólices da dívida pública, até o limite de 4.000:000$000. Procedendo sem prévia autorização legislativa, o governo teve de pedir ao Parlamento

a aprovação posterior do seu ato, o que só conseguiu depois de acaloradas discussões nas duas casas do Parlamento.

Ficou claro que a ideia de Itaboraí era fundar um banco concentrador, dotado de unidade do poder de emissão, para acabar, assim, com os males das últimas fontes. A razão principal que o levou a fundir os Bancos Comercial e do Brasil, foi a necessidade de instituição do princípio da unidade de emissão. Para evitar o risco de uma ruína provocada pela perda de sua capacidade emissora, os dois bancos foram compelidos, através de negociações e de justas compensações, a aceitarem a sua extinção através da fusão. Da mesma forma, os bancos emissores das províncias aceitaram sua conversão em caixas filiais do novo Banco do Brasil.

O plano de fusão foi consolidado nos estatutos do novo Banco, que o governo

aprovou através do decreto n.º 1.222, de 31 de agosto de 1853. O artigo 2.º dos estatutos estabelecia “que o fundo capital do novo Banco do Brasil seria de 30.000:000$000, di- vididos em 150 mil ações”, das quais, segundo o artigo 70, “80 mil seriam distribuídas aos acionistas dos dois estabelecimentos existentes nesta Corte, a saber: 50 mil ao Ban- co do Brasil e 30 mil ao Comercial”. O artigo 51 dispunha que os estatutos deveriam ser adotados pelos acionistas e aprovados pelo governo e que, preenchidos esses dois requisitos, o ministro da Fazenda faria abrir a subscrição “nesta Corte para distribuir mais 30 mil ações, cujos possuidores seriam convocados, juntamente com os acionistas

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História do Banco do Brasil

dos ditos estabelecimentos, para elegerem a diretoria, que deve instalar o novo Banco e dar princípio às suas operações”.

Segundo os estatutos, o novo Banco do Brasil poderia realizar somente as seguin- tes operações:

1. descontar, sem exceder a décima parte do seu fundo efetivo e o prazo de quatro meses, letras de câmbio, da terra e outros títulos comerciais à ordem e com prazo determinado – garantidos por duas assinaturas de pessoas notoriamente abonadas, uma pelo menos residente no lugar em que se fizer o desconto -, e escritos das alfândegas e bilhetes do Tesouro;

2. encarregar-se, por comissão de compra e venda de metais preciosos, de apólices da dívida pública e de quaisquer outros títulos de valores, bem como de cobrança de dividendos, letras e de outros títulos a prazo fixo;

3. receber em conta corrente as somas entregues por particulares ou estabelecimen- tos públicos e pagar as quantias de que estes dispuserem, até a importância do que houver recebido;

4. tomar dinheiro a prêmio por meio de conta corrente ou letras, a prazo superior a 60 dias;

5. comprar e vender, por conta própria, metais precisos;

6. fazer empréstimos, sob penhor de ouro, prata, diamantes, apólices da dívida públi- ca, de ações de companhias acreditadas que tenham cotação real e na proporção da importância realizada; de títulos particulares que representem legítimas transações comerciais e de mercadorias não sujeitas à corrupção, depositadas nas alfândegas ou armazéns alfandegados, mas não podendo emprestar sobre penhor de suas pró- prias ações;

7. fazer movimentos de fundos de umas para outras praças do Império;

8. efetuar operações de câmbio para importar metais preciosos, ou impedir a exporta- ção deles;

9. emitir notas, isto é, bilhetes pagáveis, à vista e ao portador, os quais terão privilé- gios exclusivos de serem bem recebidos em pagamentos nas repartições públicas.

O artigo 14 autorizava o Banco a ter um cofre de depósitos voluntários para títu- los de crédito, pedras preciosas, moedas, joias e ouro em barra, recebendo um prêmio na proporção do valor dos objetos depositados, que seria estimado pela parte do acordo com a direção do Banco.

Os artigos 16 e 19 refletiam a intenção de regular a autorização concedida ao novo Banco do Brasil para emitir notas ou bilhetes, para evitar repetição dos abusos cometidos anteriormente, através das seguintes regras:

1. a emissão do Banco não podia ser superior ao dobro do fundo disponível, isto é, dos valores que o Banco tivesse efetivamente em caixa, representados por moedas

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História do Banco do Brasil

correntes ou barras de ouro de 20 quilates, avaliados pelo preço legal, excetuado o dinheiro recebido a prêmio ou em contas correntes, que era excluído do fundo disponível; admitia-se, no entanto, aumento da emissão com soma igual à do papel- moeda que o Banco tivesse efetivamente resgatado por conta dos 10.000:000$000 que teria que fornecer para esse resgate, não podendo esse aumento exceder em caso nenhum o triplo do fundo disponível, nem o limite prescrito na regra seguinte;

2. a emissão também não podia exceder a importância dos descontos operacionais que o Banco podia fazer e dos empréstimos sobre penhores de ouro, de prata e títulos particulares representando legítimas transações comerciais;

3. se em qualquer tempo se reconhecesse que as duas regras antecedentes não da- vam garantias eficazes ao pronto pagamento das notas do Banco, poderia o go- verno, após ouvir a diretoria e consultando o Conselho de Estado, decretar que a emissão nunca excedesse a soma dos títulos descontados pelo Banco;

4. além dos limites marcados nas regras 1 e 2, o Banco poderia fazer qualquer emissão adicional, trocando notas por moeda corrente ou ouro em barra do toque de 22 qui- lates, avaliado pelo preço legal, contando que conservasse em caixa não só o fundo disponível correspondente àquele limite, mas ainda à moeda ou barras de ouro que recebesse em troco da emissão adicional.

Estavam ainda contidas nos artigos 21 a 27 dos estatutos medidas destinadas a proteger e garantir as operações do Banco. Eram, por exemplo, proibidos os descontos de letras e outros títulos assinados por diretor que estivesse, na semana, como membro da Comissão de Descontos ou que só tivesse duas firmas de diretores. Nos emprésti- mos sobre penhor de ouro, prata e diamantes, de apólices da dívida pública, de ações de companhias acreditadas, de títulos particulares que representassem legítimas tran- sações comerciais e de mercadorias não sujeitas à correção, depositadas nas alfândegas ou armazéns alfandegados, o Banco receberia, além do mesmo penhor, letras a prazo não superior a quatro meses, as quais poderiam ser assinadas unicamente pelo mutuá- rio notoriamente abonado.

Esses artigos determinavam, ainda, que no caso de penhor de apólices da dí- vida pública ou ações de companhias, o mutuário deveria transferi-las previamente ao Banco. Se o penhor consistisse em papéis de crédito negociáveis no comércio, ou em ouro, prata e outras mercadorias, o Banco exigiria consentimento por escrito do devedor, autorizando-o a negociar ou alhear o penhor se a dívida não fosse paga no seu vencimento.

Um fato extraordinário marcou o lançamento à subscrição pública das primeiras 30 mil ações do Banco. Numa afluência espantosa, 3.087 pessoas apresentaram pedidos de subscrição para 254.305 ações, ou seja, para mais de oito vezes o número oferecido à subscrição. Diante da dificuldade em fazer um rateio para escolher os subscritores a serem atendidos, o governo resolveu anular a primeira subscrição e abrir uma segunda, mediante instruções em que se estipulou restrições e até mesmo a cobrança, aos novos subscritores, de uma ágio de 10% sobre cada ação, “destinado ao melhoramento das

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História do Banco do Brasil

calçadas do Rio de Janeiro”. Mas o ágio não conteve o enorme fluxo de pedidos. Quan- do novamente se abriu a subscrição, no dia 17 de outubro de 1853, em apenas duas horas os pedidos excediam o limite de 30 mil ações.

No início de 1853, o Ministério presidido por Itaboraí demitiu-se, mas deixou nomeado o primeiro presidente do Banco, o deputado e conselheiro Lisboa Serra, mantido pelo novo Ministério, presidido pelo visconde de Paraná. Em novembro, fi- nalmente, foi eleita a diretoria do Banco – exageradamente composta de 15 diretores, além do presidente – , que se reuniu pela primeira vez em 5 de dezembro. Sempre a passos lentos, os preparativos para o Banco funcionar se estenderam por mais quatro meses. E, somente no dia 10 de abril de 1854, sem qualquer comemoração ou registro solene, o estabelecimento abriu suas portas.

No fim de maio de 1854, quando o Banco do Brasil ainda não tinha completa- do dois meses de operação, comentava-se que o seu sucesso já era extraordinário e especulava-se sobre as suas expectativas de crescimento e lucratividade, consideradas auspiciosas, o que provocou alta na cotação de suas ações.

Mas o Jornal do Commercio publicou comentários mais realistas em sua edição de 29 de maio de 1854, ao analisar o primeiro balancete do Banco, concluindo que os lucros registrados não poderiam manter o mesmo nível.

Prematuramente, a diretoria do Banco instalou caixas filiais nas províncias. Em sessões realizadas nos meses de setembro e outubro de 1854 decidiu-se que “a caixa filial do extinto Banco da Província de São Paulo ficasse, na forma dos estatutos, con- vertida em caixa filial deste Banco”, que se criasse uma agência na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, e se estipulassem regras para a conversão da caixa filial do Rio Grande do Sul.

Alguns bancos aceitaram sua conversão em caixas filiais, como os de Pernambu- co, Maranhão, Pará e o Banco Comercial da Bahia. Essas caixas não eram propriamente agências, pois desfrutavam de certa autonomia, inclusive com estatutos e diretoria pró- prios. O objetivo de sua implantação era suprir as necessidades geradas pela vastidão territorial do Brasil e as dificuldades de comunicação, mas essas mesmas circunstâncias impediam que a direção central exercesse o necessário controle e vigilância, para evitar os abusos e desvios que mais tarde acabariam ocorrendo.

Enquanto isso, o ritmo de emissões crescia e o Tesouro dentro da eterna linha de insaciabilidade dos governos, apresentava-se para pleitear empréstimos. O Banco inicialmente resistiu, mas, em novembro de 1854, cedeu emprestando ao Tesouro 500 contos de réis à taxa de 6%. Em 31 de dezembro, foi concedido mais um empréstimo de 200 contos de réis, ao prêmio de 5%.

Cogitou-se, nessa época, da aquisição de imóvel para sede do Banco. Instalado em um edifício, que o Banco Comercial construíra na rua da Alfândega, esquina com a rua da Candelária, o Banco, no entanto, ali continuou por mais de 72 anos, e somente em 30 de abril de 1926 mudou-se para a rua Primeiro de Março, número 66, onde a sede permaneceu até a transferência para Brasília. Segundo o historiador Fernando

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História do Banco do Brasil

Monteiro, ao ser inaugurado, o prédio da rua da Alfândega constituía “belo exemplar da arquitetura civil da época.” De linhas clássicas, severas, com três pavimentos, foi projetado por Manuel de Araújo Porto Alegre, barão de Santo Ângelo 12 .

Em 1855, a diretoria do Banco convenceu-se de que o edifício não comportaria, por muito mais tempo, todas as necessidades de serviço de suas diversas repartições e decidiu adquirir, por precaução, três prédios contíguos, dois pelo lado da rua da Alfândega e outro pelo lado da rua da Candelária. A compra foi justificada com os ar- gumentos da valorização de preços, dada a localização privilegiada dos imóveis, e da perspectiva da renda resultante do aluguel, enquanto não fosse necessário ocupá-los. Segundo Fernando Monteiro, cerca de 20 anos depois ampliou-se o edifício-sede, incorporando-se esses prédios laterais e dando-lhe a feição que manteve até quando foi demolido pela Associação Comercial, que ergueu, em substituição, o atual Palácio de Comércio.

A liquidação dos bancos extintos durou cerca de um ano. Na reunião da dire-

toria, de 9 de abril de 1855, constou a leitura de ofícios das duas comissões liquida- doras, dando por terminadas as suas funções. Os ofícios registraram que, “na hora da fusão dos ditos estabelecimentos, as carteiras de ambos tinham em letras descontadas

20.018:575#983 e caucionadas 8.671:909$504.”

No seu primeiro ano de funcionamento o Banco sofreu descontinuidade de di- reção, pois em janeiro de 1855, seu primeiro presidente, o conselheiro João Duarte Lisboa Serra, afastou-se por doença, não mais voltando ao cargo. Faleceu, em 16 de abril seguinte, e foi substituído em caráter efetivo pelo visconde de Itaboraí, que assim voltava a dirigir o Banco que tomou a iniciativa de fundar. Nessa fase, o Banco fun- cionou com o pessoal das instituições extintas e, quando precisou de novos servidores para atender à demanda dos serviços, promoveu seleção através de concurso.

Partidário da pluralidade bancária emissora, Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá, manifestou seu descontentamento com a fundação do novo Banco do Brasil, demitindo-se do cargo de diretor para o qual havia sido eleito. Logo em se- guida concretizou a sua dissensão criando um novo estabelecimento, sob a forma de sociedade em comandita por ações — a Casa Mauá, cuja razão social era Banco Mauá, Mac Gregor & Cia. Sob seu completo controle, a Casa Mauá começou a operar em 1º de agosto de 1854 e chegou a tentar fazer emissões, mas a diretoria do Banco do Brasil solicitou providências do governo, que proibiu as sociedades em comandita de dividir o seu capital em ações.

A tendência ao excesso de emissões não tardou a afetar o Banco do Brasil, pela

via da pressão de pedidos de créditos, especialmente das pessoas que se endividaram ao tomar dinheiro emprestado para subscrever ações. Uma simples chamada de capi- tal não daria muito bom resultado, porque provocaria atendimentos com as notas do Banco. Inicialmente dentro do limite estatuário, o fluxo das emissões logo se acelerou e, no fim de 1854, aproximava-se perigosamente do seu teto legal, que era o dobro do fundo disponível. Em dezembro, já chegou à faixa de risco, pois a emissão subiu

12. Fernando Monteiro, A Velha Rua Direita, 1965, p. 71.

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História do Banco do Brasil

a 14.564:230$000, enquanto o dobro do fundo disponível, que começou a diminuir,

estava em 15.821:303$514. Durante o mês de janeiro de 1855 a situação agravou-se, provocando apreensão na diretoria. Mas o próprio presidente do Banco do Brasil declarou que “não havia motivo para receio, nem para se tomar qualquer providência extraordinária, pois que, ainda dado o caso de alguma diminuição do fundo disponível, conhecida era a causa dela, a qual, não sendo por depreciação, era uma circunstância transitória que qualquer dia desapareceria pela marcha natural das coisas.”Entretanto, a retirada de moeda do Banco prosseguiu durante os meses de fevereiro e março até chegar a 700 contos de réis, baixando, assim, o fundo disponível, enquanto o volume de emissão acabou rom- pendo o limite estatuário. Em março, esse limite era de 14.767:991$576, enquanto a emissão se mantinha em 15.112:110$000.

Alegando a necessidade de regular esse processo, o presidente do Banco apelou ao ministro da Fazenda, através de ofício em que se reportava às repetidas exigências de emissão de metal para o Norte do país. O governo, atendendo à solicitação, assinou, em 2 de abril, o decreto nº 10581, que autorizava elevar a emissão até o triplo do fundo disponível, por espaço de um ano, mas lhe reservou o direito de cassar esta concessão quando lhe aprouvesse. O processo de emissão manteve-se comedido entre os meses de julho a dezembro de 1855 mas, em fevereiro de 1856, a pedido do Banco, o governo novamente o autorizou a emitir até o triplo do seu fundo, já que a concessão anterior havia perdido o prazo de validade. Esse aumento da emissão, se considerado isolado do movimento global da ex- pansão do meio circulante em todo o país, poderia dar a impressão de um excesso que, em verdade, não chegou a ocorrer. É que o meio circulante nacional, que englobava o conjunto de todas as emissões, não só do Estado, como dos bancos, que estava, de 1853

a 1854, no total de 62.223:505$000, subira de 1854 a 1855 para 67.755:675$000, o que representou uma expansão de pouco menos de 9% 13 .

Pode-se considerar que o fluxo emissor do Banco do Brasil não foi tão excessivo, especialmente porque se implantou à base de um princípio de unidade de emissão e

porque em parte, podia estar preenchendo atrasos ocorridos no início de seu movimento operacional ou necessidades anteriormente acumuladas. É preciso levar em conta que,

a partir daí, o Banco desacelerou o processo emissionista. No período de um ano, por

exemplo — abril de 1855 a abril de 1856 —, subindo para 21.665:120$000, a emissão cresceu com menor velocidade, não chegando a 40%. O Banco sofreu muitas críticas nesse período. A seção do Conselho de Estado deu parecer onde declarou que uma das causas da pressão do momento consistia na “grande massa de transações, fruto de jogatina, sobre as ações do Banco do Brasil, a liquidar-se em abril”. Mas a diretoria do Banco, no relatório aos acionistas apresentado em 1855, dizia que, desde 15 de junho, foi restabelecida a relação normal dos estatutos, “estando, desde então, a emissão em circulação aquém do duplo do fundo disponível, com probabilidade de que nessa situação se conservará, a menos que sobrevenham acontecimentos extraordinários”.

13. J. Pandiá Calógeras, A Política Monetária do Brasil, 1960, p. 105.

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História do Banco do Brasil

A maior dificuldade com que o Banco do Brasil se defrontou nos primeiros anos de suas atividades foi o constante vazamento de seu fundo disponível, causado principalmente pela remessa de reservas para as províncias do Norte. Essas retiradas eram justificadas pela necessidade de pagamentos de escravos vendidos e de aplica-

ções nas safras. De acordo com o relatório do Banco aos acionistas, relativo ao ano de 1857, por causa dessas retiradas foi necessário continuar importando ouro dos merca- dos estrangeiros e comprando no mercado interno. Nesse ano, registrou o relatório,

o ouro comprado na Inglaterra totalizou 9.386:111$204 e, na praça do Rio de Janeiro,

761:717#700, mas, adicionadas outras verbas, o fundo disponível, que deveria ter-se elevado a 22.119:338$271, atingiu somente 13.125:679$057.

Esse quadro motivou o barão de Mauá a apresentar na Câmara dos Deputados um pedido de informações, exigindo que o Banco esclarecesse sobre o montante da emis- são e do fundo disponível, na matriz e nas filiais, e sobre o movimento de fundos entre si, além de outros itens. Esse requerimento levantou a discussão sobre a condição do Banco — se era público ou particular — , e se tinha obrigação de informar a respeito de suas transações. O próprio Banco prestou os esclarecimentos, mas ressaltou que, apesar de suas ligações com o governo, era considerado estabelecimento privado e por isso nem sempre devia prestar informações que expusesse o segredo das suas transações.

A situação do Banco no decorrer do ano de 1857 era, assim, de debilidade, resul- tante do constante escoamento do seu fundo disponível e da dificuldade de recuperá- lo, reforçada pela oposição de grupos que tinham voz no Parlamento.

Além disso, não estava devidamente preparado para enfrentar a depressão fi- nanceira internacional que repercutiu no país a partir de 1857. Em meados desse ano ocorreu mudança na presidência do Banco, com a substituição do Visconde de Itaboraí pelo conselheiro Dias de Carvalho.

Logo em seguida, em agosto, ao dar execução à lei nº 906, o Banco contratou com

o Ministério da Fazenda o recebimento, em depósito, das somas disponíveis existen-

tes no Tesouro e nas tesourarias da Fazenda. Na certeza de que ia, assim, receber um reforço de recursos, a diretoria do Banco preparou-se antecipadamente para aplicá-lo, resolvendo baixar a taxa de descontos. Consequentemente, ampliaram-se as aplica- ções, o que foi prejudicial na crise que se aproximava. De setembro a novembro, meses que precederam a eclosão da crise, a rotina do Banco transcorreu normalmente, sem transparecer prenúncios das dificuldades que em breve se desencadeariam.

Subitamente, na reunião de 27 de novembro de 1857, ao avaliar as notícias vin- das da Europa e o estado do fundo disponível do Banco, a diretoria resolveu suspender certos empréstimos, elevar as taxas dos empréstimos sobre títulos comerciais a 9% e suspender o troco dos bilhetes do Banco por ouro amoedado. Logo depois chegaram da Europa notícias de baixa do câmbio e de suspensão de compras de café. A diretoria, em seguida, obteve do governo confirmação de que daria a garantia prevista na lei de criação do Banco, para um empréstimo equivalente aos três mil contos de réis de notas resgatadas e solicitou consentimento para elevar a emissão ao quádruplo durante a cri- se e realizar saques sobre Londres, a fim de impedir a queda do câmbio.

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História do Banco do Brasil

Em 12 de dezembro, o Banco decidiu não realizar operações novas e limitar-se apenas às reformas. No dia 16, tomou conhecimento de ofício do ministro da Fazenda dizendo que o Banco podia contar, como reserva, com o novo depósito de mil contos de réis, que lhe seria entregue logo que o pedisse. Ainda em dezembro, foi aprovada a elevação, para 11%, das taxas dos descontos. Com muitos reflexos na praça do Rio de Janeiro, a crise, no entanto, teve efeitos atenuados sobre as províncias, pois todas as providências de proteção só se referiram à capital do Império.

Em 11 de janeiro de 1858, a diretoria recebeu ofício do ministro da Fazenda comu- nicando que, “tendo-se preferido saques sobre Londres como meio de coadjuvar o comér- cio desta praça, uma vez que se sustentasse o fundo disponível com uma quantia suficiente em notas do governo para não contrair-se a emissão, ordenou à Caixa de Amortização forne- cer ao Banco a quantia de mil contos de réis para ser empregada na substituição das notas amarelas de 20$000. Maiores quantias seriam fornecidas quando necessárias e requisitadas pelo Banco. Com os saques procurava-se impedir a baixa do câmbio”.

Mas, logo depois, alegando que o Banco não agia prontamente ao fazer os saques

e que não tinha fundos em Londres, o governo preferiu sacar através da Casa Mauá, que

teria maior presteza de ação e dispunha de fundos no exterior. Mais adiante , no entanto, revelou-se que esta Casa possuía apenas insignificantes parcelas de fundos em Londres

e que, se teve presteza em sacar, o fez com recursos fornecidos pelo governo.

O relatório apresentado aos acionistas pelo presidente do Banco do Brasil, em julho de 1858, registrou a eclosão da crise e os esforços do estabelecimento para en- frentá-la, frisando que ela havia começado nos Estados Unidos e depois ramificou-se para as praças de Londres e Hamburgo. Como o Rio de Janeiro estava intimamente relacionado com as duas praças europeias, a crise produziu “fortes abalos no comércio de importação e exportação”, colocando o primeiro “ na posição crítica de avultadas remessas” e o segundo “na impossibilidade de fazer transações convenientes nos seus mercados consumidores”. A consequência foi o estremecimento do câmbio, termôme- tro daquelas operações.

Revelou ainda o relatório descrevendo a difícil posição do Banco e os seus esfor- ços de reação:

“O Banco do Brasil, sendo na praça o único reservatório de capital monetário para a satisfação do comércio exterior, deveria ser o primeiro a sofrer os resultados daqueles acontecimentos. O seu fundo disponível foi seriamente ameaçado, pois, de fato dentro de dez meses este fundo sofrera o desfalque de 4.714:123$847, que prometia aumentar rapidamente pelos pagamentos forçados de recâmbios e pedidos de remessa por parte dos credores nas praças em crise”.

Em outubro de 1859, o governo nomeou comissão de inquérito para investigar

o meio circulante e “as origens e o roteiro da crise comercial”. Somente em 1860, a

comissão apresentou um vasto relatório, de mais de cem páginas, com algumas refe- rências ao Banco do Brasil:

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História do Banco do Brasil

“Não se pode deixar de atribuir grande parte da baixa do câmbio que se dera em 1857 e ainda persistia, em 1860, às emissões excessivas de notas do Banco do Bra- sil; efetivamente, as emissões do Banco, auxiliando o espírito de empresa e de es- peculação, foram além do que comportavam as condições em que nos achávamos; a inconversibilidade dos bilhetes do Banco do Brasil era infringente do intento da lei de 1853, ainda mais quando decidida por um simples ato de gestão ordinária do estabelecimento, requerendo providências no sentido de se definirem terminan- tes disposições para que de uma medida desta, tomada fora das condições e da lei comercial, apenas se lançasse mão em caso extremo de salvação do Estado.”

Na verdade, essa crise representou, para o Banco do Brasil, uma das travessias mais difíceis de sua história. A influência governamental e a pressão dos interesses pri- vados sobre o Banco concorreram para que se tomassem medidas artificiais e precárias de sustentação de câmbio, sem uma previsão de recursos e de apoio suficientes, ou para o qual nem mesmo existisse, naquele tempo, todo o indispensável potencial eco- nômico. Consequentemente, essas medidas trouxeram apenas correções efêmeras para os malefícios da crise que, por sua própria natureza e contingência, eram passageiros e de limitada gravidade.

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História do Banco do Brasil

Capítulo3

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Capítulo 3 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Capítulo 3 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

A reforma bancária

A reforma bancária de grades de ferro pavimento era de
A reforma bancária de grades de ferro pavimento era de

de grades de ferro pavimento era de

A reforma bancária de grades de ferro pavimento era de

Rua Direita. Litografia de P. Bertichen (1856).

O prédio da segunda praça do Comércio, na rua Direita, com dois pavimentos, tinha na frente o peristilo

saliente com oito colunas dóricas, que sustentavam uma varanda ou terraço orlado presas a pilares. Uma gradaria de ferro, entre as colunas, fechava o vestíbulo, cujo

mosaico de mármore. No segundo pavimento funcionou o Tribunal do Comércio, instalado em janeiro de 1851, local onde também, no mesmo ano, foram realizadas as reuniões preliminares da instalação do Banco do Brasil, do grupo Mauá. Em 1864, foi a praça do Comércio ligada à Fortaleza de Santa Cruz, pelo telégrafo elétrico, para melhor recepção dos avisos marítimos, de interesse dos comerciantes. À esquerda, vê-se a Casa dos Contos. A área ocupada por esta e pela praça do Comércio, corresponde à que posteriormente ocupam o Banco do Brasil e o Correio Geral.

História do Banco do Brasil

Em 4 de maio de 1857, ao cair o Ministério de Conciliação que assumira em 6 de setembro de 1853 sob a presidência do visconde de Paraná, instalou-se no poder o Ministério, também denominado de Conciliação, presidido pelo marquês de Olinda. Assumiu como ministro da Fazenda, Bernardo de Sousa Franco, autor do livro Os Ban- cos do Brasil, editado em 1848. Nesta obra, lançada nove anos antes de sua ascensão ao poder, o novo titular da pasta da Fazenda deixou claras suas convicções a respeito da organização bancária, apontando para a necessidade de implantação da pluralidade de bancos emissores.

Argumentava Sousa Franco que era profundamente sentida por todo o Império

a necessidade de se estabelecerem novos bancos e que “tão forte convicção se vai for- mando de suas vantagens em favor da indústria nacional”:

“O que não está suficientemente compreendido nem ainda pelas direções dos atu- ais bancos, aliás compostas de pessoas habilitadas, é que a organização bancária se liga tão estreitamente ao sistema monetário, que exige a maior conformidade de vista. Sem emissões de papéis de crédito dificilmente se podem sustentar os bancos e é muito fraco o auxílio que prestam à indústria: com a emissão, é preciso marcar- lhe regras que a contenham nos justos limites e a conciliem com igual direito que entre nós exerce o Tesouro na emissão de suas notas circulares. Entre nós, portanto, ainda estão tão ligadas as questões de reforma do meio circulante e da organização dos bancos, que indispensável é tratá-las juntas e combiná-las em um só plano” 14 .

A praça do Rio de Janeiro, argumentava Sousa Franco, era pródiga em capitais desempregados, mais por falta de indústria e novos investimentos, que por limitação no campo da produção, vastíssimo, mas ainda inexplorado. Assim, a implantação de novos bancos que facilitassem o uso dos capitais por prazos mais longos e opções de garantia teria a dupla vantagem de melhor atender aos interesses dos depositantes de fundos e de impulsionar o crescimento da produção, tão limitado no Império.

Sousa Franco sugeriu também a criação de bancos em todas as províncias que pudessem sustentar-se. Mas, ao assumir a pasta da Fazenda, apesar das reivindicações da imprensa e das associações de classe para que fundasse mais bancos, mostrou-se hesitante. A princípio, tentou que o Parlamento aprovasse lei autorizando o Tesouro

a depositar seus fundos disponíveis no Branco do Brasil. Depois, levantou a questão

sobre se a implantação de bancos dependia ou não de um novo ato do Legislativo, já

que a criação do Banco do Brasil se fizera por lei.

Apesar das críticas e acusações de inconstitucionalidade, Sousa Franco optou por criar novos bancos de emissão através de simples decretos executivos. Assim, a seu critério, aprovou a criação dos seguintes estabelecimentos emissores: Banco Comercial

e Agrícola, por decreto de 31 de agosto de 1857; Banco da Província do Rio Grande do

Sul, por decreto de 24 de outubro de 1857; Banco da Província de Pernambuco, por decreto de 4 de novembro de 1857; Banco da Província do Maranhão, por decreto de 25

14. Bernardo de Sousa Franco, Os Bancos do Brasil, 1848, p. 49, 85, 86 e 87.

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História do Banco do Brasil

de novembro de 1857; Banco Rural e Hipotecário, que já existia como de Descontos, por decreto de 3 de abril de 1858. Quatro dessas autorizações foram dadas às vésperas da crise de 1857, e as duas últimas quando os efeitos da crise já se abrandavam.

A reforma bancária executada por Sousa Franco foi limitada e imperfeita. Con-

tribuíram para esse medíocre resultado, além das hesitações iniciais do ministro, a vi- gorosa oposição que a reforma sofreu no Parlamento e nos círculos financeiros e a in- terferência da crise, que no Brasil eclodiu no final de 1857, provocando graves efeitos durante quase todo o ano de 1858. Outro fator importante foi a posição do imperador que, conforme Joaquim Nabuco revela, “era contrário às ideias financeiras de Sou- sa Franco, divergia da política financeira do gabinete e até preferia ver encerrada a fase das emissões discricionárias e continuando o ascendente do espírito moderado ou conciliador” 15 .

Com a fundação dos seis novos bancos emissores, o Banco do Brasil perdia a sua maior vantagem, que era a da exclusividade do seu poder de emissão. Continuando obrigado ao recolhimento do papel que fazia funções de numerário e a manter na presi- dência pessoas nomeadas pelo governo, conservava apenas o privilégio de recebimento dos seus bilhetes nas estações públicas. Os novos bancos de emissões, enquanto isso, não sofriam nenhum controle direto do Executivo. Implantada de forma inadequada, a reforma não teve condições de durabilidade.

Destituído de seus privilégios, o Banco do Brasil entrou no processo comum de competição com os outros bancos, mas conservou o prestígio, a capacidade monetária

e o patrimônio, realmente vantajoso, que adquirira nos anos em que funcionou com os benefícios da sua posição monopolística.

Segundo assinalou mais tarde Sales Torres-Homem, sucessor de Sousa Franco na pasta da Fazenda, o Banco do Brasil perdeu também o poder de sustentar o valor do meio circulante, reduzindo a circulação de seus próprios bilhetes, quando isso fosse necessário. Esse poder, para ser eficazmente exercido, pressupunha, como cláusula indispensável, o privilégio da emissão, pois de outra maneira tudo o que o Banco fi- zesse no sentido de alçar o valor da moeda pela redução da quantidade das notas seria completamente anulado pelo procedimento em sentido inverso dos bancos indepen- dentes. Quando ela se contraísse, os outros se expandiriam: o vazio deixado pela re- tirada do seu papel seria preenchido pelos outros. Nenhum fio diretor ligava, pois, as emissões dos diversos bancos; o governo não poderia controlar a circulação e o Banco do Brasil também não 16 .

A 12 de dezembro de 1858, demitiu-se o Ministério presidido por Olinda e do

qual Sousa Franco fazia parte como ministro da Fazenda. O novo gabinete, trazendo

o visconde de Abaeté como presidente do Conselho e Sales Torres-Homem como

ministro da Fazenda, assumiu em 12 de dezembro de 1858, mas não completou um ano no poder, afastando-se, em 10 de agosto de 1859. Contrário à multiplicidade dos bancos emissores, Saltes Torres-Homem apresentou o seu programa em relatório à As-

15. Joaquim Nabuco, Um Estadista do Império, 2ª Edição, 1927, tomo II, p. 28 e 29.

16. Relatório do Ministério da Fazenda, de 7 de maio de 1859.

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História do Banco do Brasil

sembleia Legislativa, em 7 de maio de 1859. Mas, com isso, expôs-se aos ataques dos seus adversários, divulgados abundantemente pela imprensa. Assim, quando o apre- sentou à Câmara dos Deputados, em 15 de julho de 1859, a oposição já estava cerrada contra o programa.

A proposta de Torres-Homem obrigava o Banco do Brasil, suas caixas filiais, criadas através da lei de 1853 e todos os bancos de circulação autorizados por decreto do Poder Executivo, a “realizar suas notas em ouro à vontade do portador”. Pruden- temente, projetava a entrada em vigor dessa obrigação para três anos depois, apenas forçando a emissão dos bancos, enquanto suas notas não se tornassem conversíveis em ouro, à vontade do portador, ao máximo do que a cada um tivesse emitido nos meses de fevereiro, março, abril e maio precedentes.

Os bancos que tivessem excedido este último limite ficariam obrigados a reduzir

a emissão no período de cinco meses, sob pena de perderem a faculdade de emitir

notas à vista e ao portador e de não poderem continuar a funcionar por mais de um ano como bancos de depósitos e de descontos, sem nova autorização do governo. Logo se

estipulava que a essa limitação ficavam sujeitos os bancos que não realizassem suas notas em ouro nos termos da primeira obrigação exposta. O projeto previa, também,

a nomeação, pelo governo, de um fiscal para cada banco, remunerado por este, com

atribuições de vigiar as operações do estabelecimento e fazer cumprir religiosamente as disposições dos estatutos e da lei em que o projeto se convertesse.

De acordo com o projeto, o Banco do Brasil, enquanto sua emissão estivesse limitada, ficaria liberado da obrigação de resgatar anualmente 2.000:000$000 do papel do governo, imposta pela lei de 5 de julho de 1853. Também era dada permissão às cai- xas matriz e filiais do Banco do Brasil para receberem pagamentos em notas dos outros bancos de emissão, criados no lugar em que cada uma dessas caixas funcionasse.

Finalmente, o projeto dava força de lei às anteriores arguições de inconstitucio- nalidade da reforma de Sousa Franco, por dispositivo assim proposto:

“Só ao Poder Legislativo compete conceder autorização para se incorporarem no- vos bancos de emissão ou prorrogarem os prazos dos que já existem, enquanto por lei não forem marcadas as regras gerais a que o Poder Executivo deverá cingir-se no exercício dessa mesma faculdade”.

Embora aprovado com parecer da maioria da Comissão, o projeto sofreu dura oposição. Na votação decisiva, a Câmara o aprovou por pequena maioria. Assim, o Ga- binete alcançou uma vitória mais numérica do que efetiva, com um sabor de derrota. Se o governo contava com a maioria da Câmara para sua proposição, era evidente que não dispunha de apoio sólido no círculo de atividades econômicas. Estava formada, no país, uma nova classe de empresários e investidores, que já alcançava peso, acumulava influências sobre a classe política e que, segundo todos os indícios e pronunciamentos, estava em decisiva maioria contra o governo.

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História do Banco do Brasil

Tudo indicava que o governo havia gastado força preciosa na difícil batalha que tivera de travar na Câmara para fazer aprovar seu projeto de controle dos bancos emis- sores. O dispêndio de força o teria exaurido ainda apenas na metade da luta. O projeto aportou ao Senado, onde a batalha certamente recomeçaria, sem que o Gabinete tives- se meios de se fortalecer, e tudo isso foi, sem dúvida, uma das causas mais importantes da queda do Gabinete.

A questão bancária transformou-se em uma devoradora de governos. Primei-

ramente caiu o Ministério em que Sousa Franco atuava como ministro da Fazenda, dedicando-se a destruir o trabalho iniciado por Itaboraí no sentido de constituir um só grande banco de emissão, depósitos e descontos. Depois veio o Ministério presidi- do por Abaeté, tendo Sales Torres-Homem como ministro da Fazenda, acionando a contrarreforma, mas, desestabilizando-se e ruindo sob o impacto da poderosa corrente de oposição que se levantou contra o seu programa. As opiniões dividiam-se em dois grandes grupos, um defendendo a multiplicidade bancária e outro a favor da restaura- ção da unidade.

O Banco do Brasil estava no centro dessa questão, era o foco principal de todos

os debates, o alvo de ataques e defesas. Além disto, sua posição era de constante em- baraço, não só porque nem sempre coibia excessos emissionistas, como porque não conseguia sustentar, de algum modo por um vício de origem, a suficiência do seu fundo disponível, considerado lastro indeclinável de suas emissões.

O novo governo, cujo Gabinete era chefiado pelo senador Ângelo Muniz da Silva

Ferraz, assumiu em agosto de 1859, mantendo atitude de cautela em relação à questão bancária. É o que denota o discurso, que pode ser considerado de estreia da investidura governamental, pronunciado pelo presidente do Conselho, perante o Senado, na ses- são de 11 de agosto de 1859. Depois de tratar do programa do seu governo em linhas gerais, passando à margem de definições programáticas, aterrou na questão bancária com precaução:

“A nossa situação financeira não é lisonjeira, nem será decerto enquanto diferen- tes causas que são geralmente conhecidas atuarem para o desequilíbrio entre a

receita e a despesa do Estado. (

No nosso sistema econômico se

têm suscitado grandes questões que requerem um exame sério e profundo estudo. Ocuparemos sobre elas a atenção da Câmara Legislativa em tempo oportuno”.

uma lei de necessidade para nós e para vós (

A mais rigorosa e estrita economia é, portanto,

)

).

Provocado, por um deputado, para que se definisse, o presidente do Conselho saiu-se com a mesma cautela. Mas citou exemplos de abusos, como o da circulação de moedas estrangeiras de diferentes países, o da emissão, pelo comércio, de vales de pe- quenas quantias, inclusive no Maranhão e no Ceará, e o do lançamento em circulação, por particulares e em diferentes províncias, de vales ou bilhetes ao portador.

Mas Ferraz era um homem decidido e começou a agir através do decreto nº. 2.457, de 5 de setembro de 1859, com o qual colocou os estabelecimentos bancários

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História do Banco do Brasil

sob um regime de rigoroso controle governamental. A nova lei os obrigava a remeter “no primeiro dia de cada semana, na Corte, à Secretaria dos Negócios da Fazenda e, nas províncias, aos respectivos presidentes, demonstração das operações realizadas na semana anterior, com minuciosa especificação do seu ativo, do estado de seu capital e de sua reserva, do estado do seu fundo disponível e de sua composição, do movimento de sua emissão e do movimento das contas correntes, depósitos, quantias recebidas por empréstimos e quaisquer operações especiais”.

Assim, todos ficariam sob um rigoroso regime de transparência em suas opera- ções, o que não deixava de ser um ato de unificação. No dia 30 do mesmo mês, Ferraz acionou novas medidas, baixando um regulamento sobre os selos dos bilhetes e notas promissórias, que atingia os bancos que não vinham pagando o selo proporcional. Esse regulamento continha preceitos eficazes de controle e repressão às infrações. Provo- cou, por isso, reações, chegando a levantar contra o governo as praças do Rio de Janeiro e da Bahia, onde ocorreram, inclusive, demonstrações de hostilidade contra a presença do imperador em Salvador, com a colocação, à sua passagem, de colchas pretas às ja- nelas, além de outras demonstrações contra Ferraz na Cidade Baixa, que se refletiram sobre as festas imperiais, segundo relatou Joaquim Nabuco 17 .

Referiu-se, também, especialmente ao Banco do Brasil:

“O Banco do Brasil, no Estado em que o colocou a facilidade com que até certa época desenvolveu suas operações, sem atender à sua índole, natureza e fim, e

à necessidade, que depois lhe sobreveio de contraí-las, se viu quase reduzido a

operações de reformar títulos de seus devedores, sem poder auxiliar o comércio nas próprias operações de efeitos essencialmente comerciais. É de se esperar que

a marcha cautelosa, que ora parece seguir, o habilite a conquistar a posição normal, que lhe foi marcada pelos seus estatutos”.

Passo a passo, mas decididamente, Ferraz voltou a agir, em 10 de outubro de 1859, quando nomeou, como prometera, a comissão encarregada expressamente “de proceder a um inquérito sobre vários pontos em relação ao meio circulante”. Em 30 de abril de 1860, a comissão apresentou relatório, com duas conclusões importantes:

houve excesso de emissões bancárias, transtornando a regularidade do volume da cir- culação fiduciária e gerando especulação para além do que comportavam as condições vigentes; seria necessária providência contra a inconversibilidade dos bilhetes do Ban- co do Brasil, estabelecida por simples ato de gestão ordinária do estabelecimento, in- fringindo a lei de 1853, fora das condições e da aplicação da lei comercial, embora fosse uma medida de que só se devia lançar mão em caso extremo de salvação do Estado.

No seu relatório à Assembleia Legislativa, datado de 8 de maio de 1860, Ferraz abordou profundamente a questão econômica, tanto do ponto de vista jurídico da regu- lação legal das companhias e sociedades anônimas, como sob o aspecto financeiro dos bancos e do meio circulante. E destacou o princípio de que a fundação ou incorporação

17. Joaquim Nabuco, Um Estadista do Império, 2ª edição, 1927, p. 55 e 56.

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História do Banco do Brasil

de uma companhia, corporação ou, como modernamente se denominou, sociedade anô- nima, não poderia ocorrer sem autorização e aprovação de seus estatutos, pelo governo. Também exigiu providências legislativas de correção de sociedades que funcionaram sem autorização, de outras que tiveram autorização mas extravasaram e daquelas que, não tendo obtido aprovação para seus estatutos, funcionaram irregularmente.

Recapitulou diversas medidas que o Banco do Brasil solicitou ao governo, nos anos de 1859 e 1860, como garantia para o empréstimo externo e faculdades para exce- der o limite da sua emissão. Desferiu, ainda, impiedoso ataque aos demais bancos, por várias irregularidades cometidas, como por exemplo: transações baseadas na falta de pagamento de títulos; grande parte ou mesmo a totalidade dos devedores dos diversos bancos do mesmo lugar tinham, em geral, nos respectivos cadastros, créditos muito superiores aos seus haveres; o amor ao lucro obscurecia a razão dos seus gerentes; am- pliavam a circulação de seus bilhetes enquanto o Banco do Brasil a reduzia.

O projeto de Torres-Homem, aprovado por apertada maioria da Câmara dos De- putados, chegou ao Senado no momento em que ele deixava o Ministério da Fazenda. Habilidosamente, Ferraz iniciou a sua ação sobre a questão bancária através da apre- sentação de emendas a esse projeto, as quais, longas e minuciosas, eram um verdadeiro projeto substitutivo, bem diferente, pela extensão e pela variedade dos assuntos, do trabalho sintético e simples de Torres-Homem.

Entre as emendas, destacaram-se as seguintes propostas: organização e regime das companhias e sociedade anônimas, civis e mercantis; necessidade de autorização legislativa para a criação e organização ou incorporação, não só de bancos de circulação, como de companhias de construção de estradas de ferro e canis de navegação; proibi- ção a qualquer companhia ou sociedade anônima de emitir título, cautela, promessa ou declaração, enquanto a sua constituição não estivesse autorizada pelo governo; fiscali- zação permanente de todos os bancos; permissão ao Banco do Brasil para receber em pagamento notas dos outros bancos de circulação; regulação de dividendos e fundos de garantia dos bancos.

Propunha-se, ainda, a proibição da emissão bancária de quaisquer títulos de

quantia inferior a 40$000; resgate, pelo governo, do papel-moeda; regras de administra- ção e funcionamento de caixas econômicas, montepios, sociedades de socorros mútuo

e casas de empréstimos sobre penhores; regulação das transações e transferências de

ações de companhias e sociedades anônimas, de títulos de dívida pública e quaisquer outros suscetíveis de cotação; autorização ao governo para fazer as despesas necessárias para a substituição da moeda de cobre; cunhagem de prata por particulares; e conces- são de apólices da dívida pública a acionistas das estradas de ferro que gozassem de garantia de juros.

Essas emendas entraram logo em segunda discussão no Senado, que foi longa

e agitada, com extraordinária atenção do plenário e do público que enchia as galerias, tal como acontecera com as anteriores apreciações da questão bancária, especialmente quando foi discutido o projeto Torres-Homem. Concorria agora, em parte, para o in- teresse geral, a repercussão das medidas adotadas por Ferraz, que decepcionavam os

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História do Banco do Brasil

partidários da solução de pluralidade de bancos emissores. Durante o debate, sobres- saiu um longo discurso do senador Dias de Carvalho, membro da diretoria do Banco do Brasil, que tomou a defesa do estabelecimento. Também se destacou Sousa Franco, que combateu o projeto, sob a alegação de que teria “o efeito de acabar com a criação de bancos de emissão e tornar impossível ou muito difícil a continuação dos existentes, levando ao restabelecimento do monopólio bancário”.

Finalmente aprovado no Senado, o projeto voltou à Câmara, onde foi tranquila- mente discutido e aprovado nas três sessões de 6, 7 e 8 de agosto de 1860. Por último, foi promulgado como lei nº 1.083, de 22 de agosto de 1860. Louvada por uns, como medida salvadora, condenada por outros, como obstáculo ao crédito e ao próprio pro- gresso econômico, essa lei representava, na verdade, uma cautelosa reação, meramente transacional, à proposta de pluralidade de fontes emissoras da reforma bancária em- preendida por Sousa Franco. Um dos seus defensores foi Calógeras, enquanto Amaro Cavalcanti foi um dos seus mais duros críticos.

Entre os seus dispositivos, os mais importantes eram os seguintes:

“Art. 1º - Nenhum dos bancos criados por decretos do Poder Executivo poderá emitir, sob a forma de notas ou bilhetes ao portador, quantia superior ao termo médio de sua emissão operada no decurso do primeiro semestre do corrente ano, enquanto não estiver habilitado para realizar em ouro o pagamento de suas notas; exceto se, além do fundo disponível ou de garantia e das outras condições estabe- lecidas nos respectivos estatutos, tiver em caixa parte de seu capital equivalente ao excesso do dito termo médio de emissão, e for esta parte representada por moeda de ouro ou barras do mesmo metal do toque de 22 quilates, ou por barras de prata de 11 dinheiros na relação fixada pelo art. 3º do decreto nº 1.721 de 5 de fevereiro de 1856, contanto que o valor destas não exceda a quarta parte do da moeda e barras de ouro.

Enquanto o Banco do Brasil não puder realizar também em ouro o pagamento das respectivas notas, só poderá o governo conceder-lhe a faculdade de elevar a emissão além do duplo do fundo disponível, nos termos do art. 1º § 7º da lei nº 683 de 5 de julho de 1853, e do art. 18 dos estatutos do mesmo Banco, quando tal concessão não lhe der o direto de emitir quantia superior ao termo médio da emissão por trimestre desde a sua instalação até o que se tiver completado em março do corrente ano.

§ 1º - Se a emissão atual de qualquer banco exceder os limites fixados no princípio

deste artigo, será ele obrigado a reduzi-la a esses limites, dentro do prazo que o governo determinar, nunca maior que o de seis meses.

§ 2º - Nenhum dos bancos criados por decretos do Poder Executivo poderá emitir

ou manter na circulação notas, bilhetes, e em geral escritos que contenham pro- messa ou obrigação de valor recebido em depósito, ou de pagamento ao portador, de quantia inferior a 50 mil réis na Corte e província do Rio de Janeiro, e a 25 mil réis nas outras províncias.

Se dentro de seis meses, contados da publicação desta lei, o Banco do Brasil não se

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História do Banco do Brasil

achar habilitado para realizar suas notas em ouro, não poderá daí em diante conser- var na circulação mais de 25% da sua emissão total, representados pelos referidos bilhetes de quantia inferior a 50 mil réis na Corte, e 25 mil réis nas províncias.

( )

§ 5º - Será considerado falido o banco de circulação que não satisfizer à vista e em moeda corrente, ou, verificadas as hipóteses do pagamento previstas pelo parágra- fo antecedente, em moeda de ouro, à vontade do portador, a importância de seu bilhete ou nota apresentada ao troco; e pelo tempo da mora o portador terá direito ao juro corrente.

Ferraz iniciou de imediato a execução da lei de reforma bancária que fizera apro- var, expedindo todos os atos governamentais necessários, entre os quais sete decretos executivos, em rápida sucessão. Foi assim, intensa a sua atividade no trato da questão bancária, desde a apresentação das suas emendas até a expedição imediata desses de- cretos que, todavia, foram insuficientes. Foram necessárias novas medidas para com- plementar os dispositivos legais e regulamentares.

Um exemplo foi o ofício que o Banco do Brasil encaminhou ao ministro da Fa- zenda, em 22 de fevereiro de 1861, no qual explicava que somente a sua caixa matriz estava habilitada a realizar em ouro o pagamento de suas notas, e por isso a diretoria considerava inconveniente a abertura do troco unicamente no Rio de Janeiro, pois a praça iria se ressentir com uma rápida e brusca mudança, que causaria a elevação exis- tente. Assim, dizia o ofício, resolvera a diretoria do Banco não abrir o troco e solicitar ao governo a expedição de ordens a respeito.

Ao responder, no dia 13 do mês seguinte, o ministro Ferraz ponderou que a última parte do parágrafo 2º do artigo 1º da lei 1.083 determinava claramente que, se dentro de seis meses o Banco do Brasil não se achasse habilitado a realizar as suas notas em ouro, não poderia, daí em diante, conservar em circulação mais de 25% de sua emis- são total, representados por bilhetes de quantia inferior a 50$000 na Corte e a 25$000 nas províncias, devendo sua substituição ou resgate ser operado dentro do prazo que o governo marcasse. Sendo certo que os bilhetes de 25$000 das províncias não eram emi- tidos pela caixa matriz, mas por suas filiais, nenhuma dúvida havia de que a expressão Banco do Brasil referia-se a um complexo de todas as suas caixas, e que a diretoria não cumpriria a disposição citada se abrisse o troco de suas notas por ouro no Rio de Janeiro e não fizesse o mesmo nas províncias.

Ferraz não completou os atos de execução da lei. Embora se aponte uma causa eleitoral para a mudança de gabinete, a questão bancária pode ter concorrido para a queda do ministro, que acumulou descontentamentos da poderosa corrente que de- fendia a pluralidade emissora. Em 2 de março de 1861, ele se demitiu, formando-se um novo gabinete sob a presidência do Duque de Caxias, tendo como braço direito, na pasta da Fazenda, José Maria da Silva Paranhos.

Assim, a execução da lei de 1860 ficou sob a responsabilidade de um novo ministro da Fazenda, e Ferraz, nas sessões legislativas de 1861, alegou infidelidade

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História do Banco do Brasil

à sua interpretação. Nas discussões a respeito merecem destaque as considerações de Itaboraí:

“A lei de 22 de agosto fundava-se em duas disposições principais: marcava um máximo, além do qual não podia ir a emissão dos bancos criados por decretos do governo, deixando, todavia, ao Banco do Brasil, a faculdade de conservar a emis- são que lhe permitiam seus estatutos; prescrevia mais que, no fim de um ano, os bancos que ainda não tivessem restabelecido o valor das suas notas fossem obri- gados a restringir a emissão que então tivessem, na razão de 3% no primeiro ano, e de 6% em cada um dos seguintes. Eis as duas únicas disposições que se dizem inaplicáveis ou de impossível execução. Quanto à primeira, é fora de dúvida que não só ela tinha sido já executada de acordo com a lei, mas mesmo que alguns bancos haviam restringido suas emissões além do que a lei exigira; e ninguém dirá, portanto, com verdade, que foi ela quem os constrangeu a encurtarem os seus descontos e a não darem maiores recursos ao comércio.

Se procederam assim, foi porque as circunstâncias do comércio e as do país, a convicção de que não deviam descontar firmas que não lhes garantissem o de- vido pagamento, e os inúmeros casos e fatos que lhes tinham provado quanto haviam sido imprudentes a esse respeito, os determinaram a obrar com mais circunspecção e cautela. Nem por isso quero negar o devido louvor aos bancos que procederam desse modo: consultaram seus verdadeiros interesses e os dos país; e sujeitaram-se às regras de semelhantes instituições; mas o que é de fato é que a lei foi nesta parte executada sem nenhuma dificuldade, e a emissão mais restringida do que ela exigia.

A outra disposição fundamental da lei de 22 de agosto é, como já disse, que se,

findo o prazo de um ano, os bancos não estivessem habilitados para restabelecer o valor de suas notas, reduziriam, no primeiro ano, 3% da soma que tivessem a esse tempo em circulação. Ora, poder-se-á, com efeito, acreditar que a redução de 3%

no decurso de um ano inteiro, seria impossível de realizar-se ou mesmo traria difi- culdades ao comércio e aos próprios bancos? Apelo para os homens práticos; para

os diretores do Banco do Brasil, e para os de quaisquer dos outros bancos. Para que eles satisfizessem a essa condição, bastaria que exigissem o pagamento anual de 5% ou 6% das letras que estão continuamente reformando”.

Em agosto de 1859, Itaboraí exonerou-se do cargo de presidente do Banco do Brasil e foi substituído por Cândido Batista de Oliveira. Indícios de dificuldades de posição do Banco, quanto à emissão e ao fundo disponível, surgiram nas reuniões da diretoria a partir de setembro de 1859. Na sessão do dia 1º desse mês, foram apresen- tadas propostas, sob o declarado objetivo de “melhorar as circunstâncias atuais do Ban- co”, que sugeriam: solicitar ao governo a substituição de uma ou mais classes de suas notas, para que pudesse satisfazer os seus deveres estatutários e aumentar o seu fundo disponível; pedir ao governo uma garantia de mais de 3.000:000$000, correspondentes

a valores resgatados e a serem resgatados; exigir-se do correspondente em Londres

a continuação de remessas de metais, à razão de £ 50.000,00 por mês, por conta do

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História do Banco do Brasil

empréstimo feito e até onde chegasse a soma disponível por parte do Banco; e, final- mente, pedir autorização para elevar a emissão além do dobro, com certas restrições, inclusive a de que seria esta uma faculdade de que só faria uso quando circunstâncias imperiosas o aconselhassem para conservar o equilíbrio entre as suas emissões e o fun- do disponível.

Em meados de 1860, foram verificadas diversas irregularidades, omissões e erros nas caixas filiais da Bahia e de Pernambuco. A diretoria, entre outras medidas, resol- veu que a direção dessas dependências devia ser mais concentrada nas mãos de seus presidentes para que melhor se fizesse sentir a ação da caixa matriz e se conseguisse mais ordem e harmonia no seu trabalho. Devia, ainda, ser baixado regimento interno, definindo as atribuições dos diferentes níveis da administração.

Em janeiro de 1861, a diretoria considerou que, para prevenir as eventualidades, devia o Banco do Brasil conservar sua emissão dentro dos convenientes limites e, além de um forte fundo disponível em ouro, ter em carteira títulos de pagamento seguro no dia do vencimento, para que assim pudesse, em qualquer emergência, recolher a emis- são que excedesse. Em março, convenceu-se de que não era possível fugir ao regime da lei de 1860 e tratou de adaptar os seus estatutos à nova regulamentação legal.

Admitiu, também, o Banco, a necessidade de levar ao conhecimento do Poder Legislativo o fato de que, sobrecarregado de ônus tão pesados como os que resultavam do contrato firmado com o governo, não podia continuar a desempenhar as obrigações que contraíra. Afinal, as circunstâncias tinham variado, lutava-se com a concorrência de outros estabelecimentos que gozavam das mesmas vantagens de emissões sem iguais ônus e pesavam sacrifícios sobre os acionistas, que não eram compensados por vanta- gens que deviam recair sobre os capitais.

A direção do Banco do Brasil chegou a considerar a hipótese da rescisão de seu

contrato com o governo, para continuar suas operações como simples banco de depósitos

e descontos, reavendo o valor do empréstimo que gratuitamente lhe fizera. Também foi

levantada outra hipótese, que era a da conveniência de um acordo com os bancos Agríco- las e Rural, para constituir a unidade de emissão no distrito de circulação dessas duas ins- tituições. A diretoria decidiu, então, pedir autorização à Assembleia Geral dos Acionistas para efetuar um acordo com os bancos Agrícola e Rural, visando adquirir os seus direitos de emitir notas à vista e ao portador e solicitar ao Legislativo a aprovação desse acordo e a concessão do privilégio exclusivo ao Banco do Brasil de emitir notas à vista e ao portador nas províncias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Mas a Assembleia Geral, reunida nos dias 1º e 2 de maio de 1861, não tomou co- nhecimento do pedido, e resolveu nomear uma comissão para negociar diretamente com

o governo as novas condições de existência do Banco, autorizando-a até a propor rescisão

do contrato no caso de não serem as suas reclamações atendidas. Sentindo-se despresti- giada, a diretoria renunciou coletivamente. Mas, ao se reunir, em 18 de maio, para eleger os novos diretores, a Assembleia Geral reelegeu a maioria dos renunciantes.

A comissão nomeada pela assembleia para negociar com o governo apresentou

parecer retomando a fracassada pretensão de demonstrar que a lei de reforma bancária

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História do Banco do Brasil

de 22 de agosto de 1860, ao formular condições a respeito dos bancos de emissão, não podia ser aplicada ao Banco do Brasil “sem grave ofensa de direitos adquiridos, sem atentar contra direitos individuais firmados na proteção de lei expressa e sem violar um contrato bilateral que não podia ser alterado sem o indispensável acordo mútuo das partes”. Alongou-se, também, em demonstrar que a obrigação do Banco do Brasil pagar suas notas em ouro e assim manter o valor do papel-moeda ao par, não está na lei, não foi discutida no Senado, nem na Câmara dos Deputados e nem havia passado pela mente de nenhum dos membros da diretoria dos dois bancos que se fundiram. Essa obrigação de pagamento, pelo Banco, de suas notas em ouro nunca foi confirmada na prática nem poderia ser deduzida dos estatutos.

Na sessão de 21 de outubro do mesmo ano, a diretoria resolveu nomear uma comissão para estudar a fusão do Banco do Brasil com o Banco Agrícola. Registrava- se, internamente, no Banco do Brasil, uma divisão de opiniões entre as correntes con- servadora e renovadora. A primeira, oriunda da diretoria que renunciou, preconizava um acordo com os outros bancos emissores do Rio de Janeiro, para adquirir os seus direitos de emissão e garantir ao Banco do Brasil o privilégio exclusivo de emitir no- tas à vista e ao portador nas províncias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. A outra corrente, apoiada pela Assembleia Geral, propunha uma completa transforma- ção no Banco, que abriria mão dos seus direitos de emissão, mediante compensações por parte do governo.

Na verdade, ambas representavam o inconformismo dos acionistas do Banco, inclusive de seus diretores, ante o duro sistema de controle e da exigência de conversi- bilidade que a lei de reforma bancária introduzira. O Banco do Brasil e outros bancos se movimentavam para se livrar das malhas do novo sistema legal da organização bancária. A imprensa do Rio de Janeiro, em outubro de 1861, registrava que o estado de espírito dos acionistas do Banco do Brasil era de decepção e revolta, por entenderem que o seu capital não estava sendo devidamente remunerado.

A solução que realmente ganhou corpo foi a da volta à unidade bancária. Propos- tas com este objetivo vinham surgindo em sessões da diretoria do Banco do Brasil rea- lizadas no fim de 1861 e no começo de 1862, ao mesmo tempo em que as negociações corriam entre os três bancos do Rio de Janeiro. Quando, finalmente, se estabeleceu um ajuste entre as direções bancárias, a Assembleia dos Acionistas do Banco do Brasil foi convocada para o dia 2 de abril de 1862. Já, então, a ideia de um acordo entre os bancos do Rio de Janeiro, para restituir ao Banco do Brasil, pelo menos nas províncias centrais, a exclusividade do direito de emissão, tinha apoio geral.

Reunida efetivamente nos dias 2 e 4 de abril de 1862, a Assembleia dos Acio- nistas, pacificamente e quase por unanimidade, aprovou o ajuste. O Parlamento, com algumas discussões, mas sem maiores dificuldades, aprovou um projeto de resolução legislativa sancionado no dia 28 de agosto de 1862, sob o número 1.172, regulamentado pelo decreto nº 2.970, de 9 de setembro do mesmo ano. Assim, entraram em vigor as seguintes disposições: o capital do Banco do Brasil foi elevado para 33.000:000$000, dividido em 165 mil ações de 200$000 cada uma; o Banco do Brasil cedia ao Banco

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História do Banco do Brasil

Comercial e Agrícola 24 mil ações ao par, para compensar desistência que este fazia do seu direito de emissão; o Banco Comercial e Agrícola pagava ao Banco do Brasil o valor real de 24 mil ações que recebesse na proporção das prestações realizadas, ou de 160$000 por ação, correspondentes ao capital de 3.840:000$000, ficando, além disso, os possuidores das novas ações obrigados a completar o seu valor nominal quando fosse exigido dos demais acionistas; o Banco do Brasil entregava ao Banco Rural e Hipotecá- rio a soma de 400:000$000, para compensar a desistência que este fazia do seu direito de emissão; logo que recebesse as 24 mil ações o Banco Comercial e Agrícola entraria em liquidação, por sua conta e risco; após a entrega das 24 mil ações do Banco Comer- cial e Agrícola e o pagamento ao Rural e Hipotecário de 400:000$000, nos termos do acordo aprovado e dentro de um prazo inferior a 30 dias da data do decreto, começa- riam a sair de circulação as notas dos dois bancos.

Em maio, ocorreram duas rápidas mudanças de governo. Saiu o Ministério presi- dido pelo duque de Caxias, cujo ministro da Fazenda era José Maria da Silva Paranhos. O líder da oposição, Zacarias Góes e Vasconcelos, foi chamado para compor o novo Ministério, que durou apenas três dias, pois demitiu-se após ser derrotado por uma votação na Câmara em questão de confiança. Em seu lugar tomou posse o Ministério organizado pelo marquês de Olinda.

Em dezembro de 1862, surgiu o problema da insuficiência do fundo disponível para a necessidade de emissão, levando a diretoria a solicitar ao governo a faculdade de emissão ao triplo permitida pelo artigo 63 dos seus estatutos, conforme já havia precedentes. O governo, inicialmente, recusou essa autorização, concedendo-a pos- teriormente sob a condição de que, para usá-la, o Banco não podia elevar as taxas de juros. O Banco não aceitou a condição e o governo acabou revogando a autorização. Ocorreram, no período, alguns excessos na emissão, que o governo acabou tolerando, confiante de que, prudentemente, a diretoria empregaria os meios necessários para que não houvesse abusos.

Em outubro de 1863, o Banco do Brasil abriu o troco de suas notas. Ao mesmo tempo, a diretoria esforçava-se para sustentar o fundo disponível da forma que deman- dava a amplitude de suas operações. Para isso expedira ordens a Londres, a fim de im- portar regularmente os metais de que precisava. Desse modo, foi feita uma importação de 962.343 ½ soberanos, segundo os relatórios da época, “para fazer face ao troco das notas do Banco”.

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Capítulo4

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Capítulo 4 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

1864: A grande crise

1864: A grande crise
1864: A grande crise
1864: A grande crise

Fac-símile de folha de cheque emitido pelo Banco do Brasil em 1921.

História do Banco do Brasil

Após adquirir os direitos de emissão do Banco Comercial e Agrícola e do Banco Rural e Hipotecário, o Banco do Brasil transformou-se, em 1863, no único órgão emis- sor da capital do Império e das províncias centrais e do Sul, bem como em parte do res- to do território nacional. Os bancos emissores que ainda permaneceram na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão não conseguiram resistir ao regime da lei de 1860 e acaba- ram reconhecendo sua incapacidade de continuar emitindo. Mas o Banco nunca sanou o problema estrutural de insuficiência de fundo disponível para garantir o volume de emissão necessário aos financiamentos exigidos pelo desenvolvimento econômico. E foi em situação de enfraquecimento que se viu atingido pelo impacto devastador da crise de 1864.

Os primeiros indícios da crise surgiram quando, na reunião da diretoria do Ban- co do Brasil, realizada em 18 de maio de 1863, tomou-se conhecimento de que a casa bancária de A.J.A. Souto & Cia. “tinha necessidade real e urgente de que o Banco lhe prestasse auxílio, fornecendo-lhe quantia necessária para satisfazer os empenhos e compromissos do dia, visto que à última hora lhe faltaram os recursos com que conta- va”. A Comissão de Desconto havia se manifestado contra exceder o crédito já conce- dido à casa, que se achava esgotado, mas acabou cedendo antes que a diretoria tivesse tempo de se reunir.

Os diretores do Banco do Brasil discutiram demoradamente o problema, mani- festando preocupação com as garantias e exigindo esclarecimentos sobre a real situação da firma que, porém, nada informou. Apesar das divergências entre seus membros, a diretoria, no entanto, continuou concedendo recursos e o débito chegou a 20 mil con- tos de réis, embora a casa bancária tivesse informado que não tinha mais letras para oferecer a descontos. Nessa época, a diretoria adotava o método de discutir, em suas reuniões, quase todos os problemas do Banco, chegando ao conhecimento do plenário, inclusive, assuntos meramente administrativos como disciplina, admissão, dispensas, ou pretensões dos empregados do estabelecimento, sobre pedidos de pequenos cré- ditos, ou ainda liquidações de toda natureza e até expedição ou alteração de segundas vias de cautelas de ações, bem como locações de imóveis ou simples pedidos de aba- timento de aluguel.

O capital efetivo do Banco tinha-se elevado, de 15 de janeiro de 1857, até então, a 26.400 contos de réis. Mas, dessa data até outubro de 1863, não se fez qualquer nova cha- mada sobre a parcela do capital a integralizar, sob alegação de que isso podia causar difi- culdades na praça. Só em julho de 1863 foi feita uma chamada de 20 mil réis por ações, com a qual, finalmente, se completou o capital do Banco, no total de 33:000:000$000. Chegavam constantemente à diretoria, nessa época, denúncias sobre irregularidades nas caixas filiais, que apontaram para a necessidade de uma reforma nessas dependências. Mas, em virtude de um dispositivo da lei de 22 de agosto de 1860, para isso seria neces- sário autorização do Poder Legislativo, que não foi obtida. Pensou, então, a diretoria em mandar liquidar as caixas filiais de Pernambuco e da Bahia.

Nos primeiros dias de setembro de 1864, as preocupações da diretoria volta- vam-se apenas para a rotina administrativa e bancária, nada ocorrendo que pudesse

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História do Banco do Brasil

ser considerado sinal de alguma crise iminente. Nessa ocasião, o clima de tranquilida- de decorria do estado satisfatório em que se encontrava o fundo disponível, escorado nas remessas de recursos recebidos da Inglaterra. A emissão circulante conservava-se dentro do limite legal. O resgate do papel-moeda prosseguia normalmente; nas épocas determinadas pelos estatutos, a diretoria do Banco retirava de circulação papel-moeda na importância de 2.000:000$000, recebendo em pagamento do Tesouro Nacional o valor equivalente. Nesse quadro destoavam, apenas, em junho de 1864, o aumento na soma dos títulos em liquidação, a baixa das cotações das ações do Banco do Brasil e o decréscimo dos respectivos dividendos.

Em janeiro desse ano, demitira-se o Ministério presidido pelo marquês de Olin- da, após sofrer derrotas eleitorais. Assumiu em 15 de janeiro, mas saiu em agosto, antes de completar oito meses, o Ministério presidido por Zacarias de Góes e Vasconcelos. Em 31 de agosto, tomou posse o Ministério presidido por Francisco José Furtado. Es- sas mudanças, no entanto, não representavam sinal de crise, pois a instabilidade dos ministérios era tradicional no regime parlamentar do Império. Logo em seguida, no dia 10 de setembro, detonou-se o início da turbulência quando Antônio José Alves Souto, o visconde de Souto, proprietário da Casa A.J.A. Souto & Cia., deu ordens para que fosse encerrada a escrituração e suspenso o movimento de caixa e, assim, praticamente se fechasse o seu estabelecimento, um ano e quatro meses depois de apelar ao Banco do Brasil para que a salvasse do colapso. A esta altura, o seu débito nesse Banco subira para mais de 20 mil contos.

O fechamento inesperado da Casa Souto espalhou o pânico por toda a cidade,

provocando a corrida de credores e depositantes aos estabelecimentos bancários. Os

estabelecimentos resistiram o quanto puderam. Durante todo o dia 10, noite aden- tro, fizeram numerosos pagamentos. O Banco do Brasil não somente atendeu aos seus clientes, como prestou socorro a diversos outros estabelecimentos.

A diretoria do Banco decidiu, em 11 de setembro, manter-se em sessão per-

manente, que durou até o dia 19. Resolveu, ainda, representar ao governo pedindo a liquidação administrativa da Casa Souto, com a fiscalização dos maiores credores, mas não foi atendida, sob a alegação de que esse ato seria de competência do Poder Legis- lativo, que não estava reunido. Com a hesitação do governo, os fatos se agravaram e no dia 13 ocorreu uma corrida extraordinária de portadores de notas ao balcão do Banco do Brasil, exigindo que esses papéis fossem trocados por ouro. Casas bancárias e casas comerciais já haviam fechado as suas portas. O tumulto crescia. O fundo metálico do Banco do Brasil estava ameaçado de se esgotar.

No mesmo dia, o Banco solicitou medidas concretas ao governo, a começar pela suspensão de todos os pagamentos na praça, pelo espaço de 30 dias. Pediu, também, autorização para exceder o limite legal de emissão prescrito nos estatutos, alegando a extraordinária demanda de descontos que tinha sido obrigado a fazer para auxiliar os outros banqueiros e cobrir avultado troco de suas notas.

O governo decidiu então, por decreto, autorizar o aumento da emissão até o

triplo do fundo disponível e dar curso forçado, até posterior deliberação, aos bilhetes

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História do Banco do Brasil

do Banco, que ficaria dispensado, transitoriamente, de trocá-los por ouro. No dia 17, baixou novo decreto, mandando suspender e prorrogar por 60 dias, contados a partir de 9 de setembro, os vencimentos das letras, notas promissórias e quaisquer outros títulos comerciais pagáveis na Corte e na província do Rio de Janeiro. Também suspendeu

e prorrogou, pelo mesmo período, os protestos, recursos em garantias e prescrições

desses títulos. A partir daí, a situação começou a acalmar. No dia 20, assinou decreto regulando de modo especial as falências dos bancos e casas bancárias.

Muito se especulou sobre os efeitos e as causas da crise. As principais consequên- cias foram as falências e concordatas que ocorreram na praça do Rio de Janeiro, no total de 25, até o fim de março de 1865, de que resultaram perdas que se aproximaram de 70.000:000$000. Houve também queda do movimento comercial, baixa do câmbio e dos valores dos imóveis, decesso das cotações das ações de companhias, inclusive das ações do Branco do Brasil, elevação do preço da moeda de ouro e aumento extraordinário da circulação fiduciária. A emissão do Banco do Brasil elevou-se quase ao quíntuplo do seu fundo disponível.

Os efeitos da crise nas províncias foram moderados, exceto no Rio de Janeiro,

devido às suas estreitas ligações com a praça da Corte. As opiniões sobre as causas e os efeitos da crise divergiam. Apontavam-se, entre as causas, a legislação econômica de agosto de 1860; os efeitos remotos e mal curados da crise de 1857/1858; a decadência econômica do país; a deficiência de colheitas; os abusos de crédito; os prejuízos de longa data sofridos pelo comércio; a paralisação do comércio e o excesso de despesas do Estado. Ao mesmo tempo, contestava-se a hipótese de decadência econômica, sob

o argumento de que havia muitos indícios de que o país progredia.

A causa mais frequentemente apontada foi o abuso do crédito, acusando-se o Banco de dificuldades e má direção, citando-se como exemplo, a situação de exagerado favorecimento da Casa Souto, que adotava procedimentos de operações e de contabi- lidade bastante peculiares e insólitos. As opiniões de que a causa principal da crise de 1864 foi o abuso de crédito eram majoritárias. Mas é preciso reconhecer que, justamen- te a partir de 1860, e acentuando-se em 1864, uma legislação rigorosa e uma decidida execução governamental estavam produzindo efeitos no sentido de conter as emissões bancárias, restringindo, consequentemente, o crédito. Restaurava-se no país o sistema de unidade bancária de emissões, que decididamente apontava para o saneamento e controle da circulação monetária e da irrigação creditícia. O Banco do Brasil, principal provedor de crédito, vinha sendo contido no limite estatutário da sua emissão e manti- do na rotina do troco de suas notas por ouro.

Com essas medidas não corriam propriamente abuso generalizado de crédito. Existia, sim, uma conjuntura econômica que favorecia a eclosão de crise, agravada pela falta de mecanismos administrativos de defesa. Ocorriam limitados extravasamentos de créditos, praticados em menor escala por determinadas casas bancárias – entre as

quais se destacava, por sua crônica debilidade financeira, a firma A.J.A Souto & Cia. -, escorados pela lacuna que existira na elaboração e na execução da lei bancária de 1860,

e que se refletia na própria ação de vigilância e inspeção das agências governamentais

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História do Banco do Brasil

que lidavam com este setor de atividades. Com efeito, a lei nº 1.083 previu um rígido controle das atividades dos bancos, mas deixou as casa bancárias fora de fiscalização, livres de tutela governamental.

A posição do governo foi, inicialmente, de indecisão, dentro da preocupação de

não praticar atos exorbitantes. Mas houve firmeza no momento de tomar providências para garantir a propriedade particular e a ordem. Desde o primeiro momento a força pública compareceu para conter a multidão, mantendo guarda aos estabelecimentos bancários, garantindo a integridade dos seus dirigentes, evitando distúrbios e excessos. Nisso o governo agiu com eficiência e moderação.

Ao eclodir a crise, estava no poder, apenas há dez dias, o Ministério presidido por

Francisco José Furtado que, reconhecidamente, não era político de primeira linha, de verdadeiro prestígio e experiência governamental. O posto mais importante que exer- ceu foi o de presidente da Câmara dos Deputados, do qual saíra para a presidência do Conselho. Era, assim, compreensível que não tivesse mostrado força de decisão.

Antes da crise, o Banco do Brasil estava devidamente enquadrado na sistemá- tica da lei de reforma bancária de 1860, notadamente pelas duas medidas básicas de contenção de suas emissões no limite estatutário e de rotineira troca por ouro de suas notas, que assim ganhavam foros de conversibilidade. Desencadeada a crise, esse en- quadramento foi interrompido com a autorização dada ao Banco para exceder o limite da emissão e a decretação do curso forçado de suas notas, transgredindo a sistemática da lei de reforma bancária. O governo adotou, então, posição contraditória em relação ao Banco, de um lado exigindo sua volta à normalidade e de outro reclamando dele recursos para cobrir os custos da guerra do Paraguai.

O próprio Banco, que tinha como novo presidente Francisco de Assis Vieira Bue-

no, nomeado em 8 de julho de 1865, admitia estar sob um regime de medidas excep- cionais, entre as quais se destacavam a faculdade de elevar a emissão além do duplo do fundo disponível e a suspensão do troco metálico das suas notas. Mas a diretoria considerava essas providências indispensáveis, face à crise do ano anterior, e alegava que não tinha sido prudente, passada apenas a intensidade visível da crise, retrair de súbito a circulação.

Os dados estatísticos patenteavam a posição de anormalidade do Banco. O fundo

disponível que, em 30 de junho de 1864, se elevava a 14.212:729$637, embora refor- çado com ouro importado, trocado no país, como moeda nacional e notas do governo, reduzira-se a 10.676:931$175. O saldo da emissão que, em 31 de agosto de 1864, tinha baixado para 25.167:150$000, já em 31 de outubro crescera para 45.790:870$000, total mantido por muitos meses.

A soma das operações efetuadas pelo Banco durante o ano subira de

427.467:235$124 para 755.523:873$768. Isto não representava crescente prosperidade dos diversos ramos de produção do país, e sim o resultado da profunda perturbação que se operou em todas as transações, que convergiam para o Banco do Brasil, pois este, como único emissor, é que era capaz de prestar socorro nos momentos de crise. A verba

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História do Banco do Brasil

dos títulos em liquidação que, em 30 de junho de 1864, estava em 753:637$020 subira espantosamente a 13.834:530$900 18 .

Naturalmente, o Banco chegou a ser detentor de uma grande soma de títulos sem possibilidade de resgate a curto prazo ou de liquidação difícil e duvidosa. A sua si- tuação de irregularidade dava ensejo a críticas e até gozações na imprensa, como aquela em que se dizia que “desgraçadamente, nesta boa cidade do Rio de Janeiro, capital do vasto Império brasileiro, o melhor modo de vida, depois do de negociante ou ban- queiro quebrado, é o de diretor do Banco do Brasil”. Na realidade, o último balancete publicado mostrava que havia tocado a cada um dos felizes diretores a alta soma de sete contos e tanto em um semestre, o que representava um belo emprego, melhor do que o de ministro do Estado, sobrando, por isso, candidatos.

Sob a mira de censuras, o Banco estava desacreditado. Temia-se quanto à sua es- tabilidade e solvência. Nas áreas econômicas e, sobretudo, nos conselhos do governo, crescia a convicção de que a instituição não podia continuar em uma situação anômala, gozando os privilégios de uma emissão livre de limite e da inconversibilidade de suas notas. Além do mais, registrava lucros que canalizavam vantagens para os seus acionis- tas, o que era chocante numa época em que a guerra externa era sorvedouro insaciável de recursos, especialmente da preciosa e sempre escassa moeda metálica.

Mas era evidente que cortar a regalia da emissão sem limite e de inconversibili- dade de notas, de imediato, ou mesmo a curto prazo, poderia resultar na ruína do Ban- co e no desencadeamento de uma nova crise de consequências funestas e dimensão imprevisível. Era forte a convicção de que uma circulação meramente fiduciária era inadmissível. Considerava-se que o Banco do Brasil, tendo dobrado a sua emissão des- de 1864 e estando sem meios de retroagi-la, com a sua carteira abarrotada de títulos a longo prazo, muitos de solvência incerta e remota, não mais podia cumprir a finalidade para a qual foi criado, nem continuar como instrumento de emissão, de normalização e saneamento do meio circulante.

Enquanto divergiam as opiniões sobre o caminho a tomar, os defensores do Ban- co alegavam que era remota a possibilidade de sua falência ou insolvabilidade, pois ain- da havia recursos ponderáveis, conservando, somente a matriz, mais de 20.000:000$000 em ouro e papel do governo. Alem disso, o Banco era credor do governo em cerca de 18.000:000$000 e dispunha de recursos sólidos no valor aproximado de 40.000:000$000, enquanto a sua emissão total não chegava ao duplo desse valor. Retinha, portanto, ga- rantia para mais de metade da emissão. A imprensa, em defesa do Banco, afirmava que sua carteira representava a riqueza do país e que a sua emissão podia ser considerada pequena para o movimento da praça.

Foram mencionados, ainda, os serviços que o Banco prestou ao comércio e à lavoura, especialmente depois da crise de 1864, e a dedicação sem limites com que ser- vira ao governo na guerra, pondo à sua disposição todo o dinheiro exigido, em ouro ou papel. O próprio barão de Mauá defendeu o Banco, dizendo que parte das suas emis- sões foram determinadas exclusivamente pelas necessidades da guerra, sendo certo e

18. Relatório do presidente do Banco do Brasil, apresentado em 18 de julho de 1865 à Assembleia dos Acionistas.

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História do Banco do Brasil

inquestionável que, se não tivesse havido tão copiosa emissão adicional de notas, não teria o Tesouro encontrado da parte da praça ou dos particulares o auxílio que obteve. Fora, pois, o Banco, em todas as circunstâncias, o instrumento de apoio às necessidades do Estado, e era essa a verdadeira origem dos seus problemas de emissão 19 .

Sugestões para solucionar o problema do Banco não faltaram, como por exemplo, a de que continuasse como emissor, mas fazendo uso moderado desse poder, restrin- gindo-o ao limite legal; convertê-lo em Banco de depósito, descontos e empréstimos hipotecários, somente; entrar numa liquidação lenta, entregando ao governo todo o seu fundo metálico disponível e renunciando ao seu direito de emissão. O governo, no en- tanto, hesitava. Em janeiro de 1866, limitou-se a pedir um parecer ao Conselho de Es- tado. Em 9 de abril, enviou mensagem com proposta à Assembleia Legislativa, em que declarou a intenção de corrigir os inconvenientes das providências extraordinárias que promulgaram sob a pressão da crise de 1864, notadamente as de autorização ao Banco do Brasil para elevar a sua emissão e para suspender o troco de suas notas por ouro.

Em relatório apresentado à Assembleia Legislativa, em 8 de maio, o ministro da Fazenda, João da Silva Carrão, professor de economia política em São Paulo, analisou a situação do Banco do Brasil, dizendo que a suspensão do troco das suas notas por ouro, decretada para existir enquanto durassem os efeitos da crise de 1864, perdurava por mais de 19 meses sem que o Banco se achasse em condições de voltar à normalidade, ao mesmo tempo em que se tornou uma fábrica de papel-moeda. E apontou como um dos efeitos dessa situação a dificuldade de remessa do dinheiro de umas para outras praças do Império, principalmente do Rio de Janeiro para as praças do Norte.

Enquanto o governo vacilava, a diretoria do Banco do Brasil tentava solucionar, no dia a dia, os problemas de emissão e de reforma ou liquidações de débitos. Através do barão de Mauá, que se encontrava na Europa, tentou obter crédito externo, mas as gestões feitas em Londres fracassaram e a diretoria resolveu aguardar melhor oportuni- dade, enquanto adotava uma orientação de rigor na concessão de créditos.

Em representação ao Parlamento, a diretoria lembrou os importantes serviços prestados durante a crise e admitiu que, para eliminar as dificuldades, bastaria cruzar os braços, suspender as operações de descontos e, deixando vencer os títulos de sua carteira, satisfazer o pagamento das notas que se apresentassem ao troco. Mas, se houvesse assu- mido essa posição negativa de omissão, teria sido considerado culpado de incalculáveis desastres, sem ao menos resguardar seus próprios interesse, pois se tornaria vítima das perdas que a crise necessariamente havia de causar aos seus devedores. Ademais, desa- pareceriam os capitais e o comércio não resistiria e iria à falência, em sua maior parte.

Alegou o Banco, na representação, que suas dificuldades teriam desaparecido se se restabelecesse a confiança na instituição. A garantia dos depósitos permitiria as retiradas dos títulos descontados, a diminuição da emissão e, finalmente, restituiria ao Banco as condições normais anteriores à crise. Com a guerra, o Tesouro passou a absor- ver a maior soma do capital flutuante e disponível, que deveria ter sido destinado ao Banco e aos outros estabelecimentos, para garantir a diminuição da emissão.

19. Jornal do Commercio, edição de 18 de julho de 1866.

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História do Banco do Brasil

Não teria sido inferior a 40.000:000$000 a soma das importâncias que o Tesouro retirou de circulação para cobrir as despesas com a guerra, para a qual teriam concor- rido não só os capitais que se retiraram da praça, como grande parte dos que achavam depositados no Banco do Brasil e outros estabelecimentos de crédito. Se a esse total se acrescentassem os 8.000:000$000 emprestados pelo Banco diretamente ao Tesouro, concluir-se-ia que a emissão não excederia o limite máximo de 50.000:000$000.

Enquanto se mostrava tímido nas medidas que deveria tomar pela via legislati- va, o governo atuou mais decididamente pela via administrativa, ao nomear, em abril

de 1866, o visconde de Jequitinhonha para substituir Francisco de Assis Vieira Bueno na presidência do Banco. Embora tomasse posse com manifestações de moderação,

o novo presidente não tardou a assumir uma atitude agressiva, procurando conter as

concessões de crédito e as emissões e até obrigar o Banco a fornecer ao governo a lista dos seus devedores.

Ao mesmo tempo, contraditoriamente, o governo exercia pressão sobre o Banco para obter recursos acentuadamente, em meados de 1866. Autorizou-o, por exemplo,

a exceder-se na emissão para auxiliar o London and Brazilian Bank, que havia entra-

do em dificuldades. É possível entender que a passividade da diretoria do Banco diante das exigências do governo pudesse ser classificada como patriótica, dentro do princípio de contribuir para aliviar as extremas dificuldades resultantes das grandes despesas para custear a guerra contra o Paraguai. Mas chegou-se a temer que, ao concentrar-se no atendimento das necessidades do governo, o Banco sacrificasse o apoio às indústrias do país.

O Tesouro continuava sugando recursos e, em maio de 1866, a sua dívida junto

ao Banco já passava de 20 mil contos de réis, sem que cessassem as exigências de mais fornecimentos. A partir daí, ao contrário, o governo começou a tirar ouro do Banco, autorizando-o a fazer operações de crédito para importar metais, para reduzir a emissão, mas logo depois se apoderou das cambiais que pagou com bilhetes do Tesouro. Em várias ocasiões, o governo já não solicitava recursos ao Banco e sim mandava-lhe ofícios determinando que fizesse entregas de recursos, inclusive metálicos, ao Tesouro.

Enquanto isso, acentuavam-se as reações, em vários setores do país, principal- mente no próprio Parlamento, ante a incapacidade do governo para tomar medidas positivas de solução dos problemas financeiros. As dificuldades agravaram-se quando chegaram notícias de uma crise financeira que eclodira na Inglaterra e que, natural- mente, provocaram apreensões na praça do Rio de Janeiro. O clima de contestação à inatividade do governo contagiou um dos próprios membros do Ministério, Paula e Souza, ministro da Agricultura, que tomou a iniciativa de apresentar à Câmara, em 11 de junho de 1866, um projeto de lei que divergia da proposta que o ministro da Fazen- da apresentou no começo de abril.

O projeto continha duas autorizações ao governo: a primeira, para permitir ao

Banco do Brasil elevar a emissão de suas notas até 8.000:000$000 além do triplo do fun- do disponível, para atender às necessidades da praça e descontar bilhetes do Tesouro, devendo os lucros provenientes desta emissão adicional serem entregues ao próprio

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História do Banco do Brasil

Tesouro; a segunda, para o próprio governo emitir até 4.000:000$000 em notas do Te- souro, nos valores de 1$000, 2$000, 5$000 e 10$000, com carimbo especial, as quais teriam curso unicamente na Corte e província do Rio de Janeiro e seriam recolhidas dentro de um ano pela renda geral ou por emissão de apólices.

A segunda autorização tinha o objetivo de resolver ou atenuar o problema do

troco na praça do Rio de Janeiro, que se tornava mais premente. Por isso, mesmo a ma- téria do projeto passou a figurar, nos registros parlamentares, sob o título de “Emissão do Banco do Brasil e trocos miúdos”. Esse projeto, apoiado pelo ministro da Fazenda, considerado como do próprio governo, discutido e combatido na Câmara – onde se destacou na oposição, pelo brilho da palavra, poder de argumentação e revelação de co- nhecimentos, o deputado José Bonifácio -, foi parcialmente aprovado. Antes da aprova- ção definitiva, no entanto, o seu próprio autor, o ministro da Agricultura, alegando que as últimas notícias vindas da Europa eram bastante esperançosas, pediu o adiamento da votação do projeto por 48 horas, tirando-o de cena.

O Ministério não foi, assim, capaz de conceber e apresentar um plano de capta-

ção de recursos para o custeio da guerra externa, como a opinião pública e as próprias câmaras desejavam e, certamente, aprovariam. Preferiu ficar no terreno movediço dos artifícios financeiros. Mas, compreende-se esse quadro quando se constata que, a partir do começo de 1866, o Ministério entrou, internamente, num verdadeiro processo de dissolução, acentuado por divergências entre seus membros.

Com as hesitações do governo, acabou sendo aprovado um projeto de iniciativa

individual para solucionar os problemas do Banco. Na sessão de 3 de julho de 1866,

o senador Silveira da Mota apresentou e fundamentou um projeto de lei destinado a

“mudar a natureza do Banco do Brasil” e corrigir os inconvenientes acumulados como banco emissor. Explicou Mota que o objetivo era, “ao mesmo tempo, substituir esse banco de circulação, de descontos, de depósitos, por uma instituição que o país mais altamente reclama, a de um banco hipotecário: o meu fim é melhorar a circulação e al- terar a instituição desse banco de circulação, de modo que ele possa servir mais eficaz-

mente à indústria principal do país, que é a lavoura, oprimida pela falta de capitais que

a alimentem para o futuro, e sob pressão dos pagamentos das dívidas que a oneram”.

Mas o projeto, ressalvou o senador, não representava apenas a sua opinião pessoal, pois

ouvira diferentes especialistas, particularmente Torres-Homem e Itaboraí.

A Comissão de Fazenda do Senado, que o aprovou com poucas alterações, apre-

sentou substitutivo propondo que o governo ficasse autorizado a modificar o contrato primitivo com o Banco do Brasil, mesmo alterando disposições de lei e de estatutos; o Banco cessaria sua emissão e continuaria fazendo as operações autorizadas e os emprés- timos hipotecários; o Banco ficaria dividido em duas repartições, que teriam a mesma administração e fundos separados – uma delas, a de hipotecas, receberia, como fundo exclusivamente destinado às suas operações, a soma de 35.000:000$000 em títulos da carteira, para serem convertidos em títulos hipotecários; o governo pagaria ao Banco a importância do papel-moeda resgatado na forma dos artigos 2º e 4º da lei de 5 de julho de 1853 e dos bilhetes ou letras do Tesouro que existissem na carteira, mas essas duas

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História do Banco do Brasil

parcelas e o produto dos metais que o Banco tivesse em caixa seriam integralmente empregados para retirar da circulação igual valor de suas notas; para esses e outros pa- gamentos o governo tinha de fazer emissão de papel-moeda.

As notas do Banco que restassem na circulação continuariam, de acordo com o substitutivo, a ser recebidas nas estações públicas e seriam resgatadas, anualmente pelo estabelecimento, na razão de 5% a 8% de sua importância primitiva, cabendo ao gover- no, ouvida a administração do Banco, fixar anualmente a cota do resgate. O serviço de emissão do Banco e da guarda do material que lhe pertencia seria entregue à Caixa de Amortização, ficando punível com as penas do Código Criminal quem fosse responsável por emissão ou saída de papel-moeda, a não ser para substituição ou entrega ao Tesouro em virtude de lei autorizadora. Logo que cessasse o estado de guerra, a Assembleia Geral Legislativa consignaria no orçamento quantia a ser aplicada no resgate do papel-moeda em cada exercício. Se o Banco não concordasse, dentro do prazo de 30 dias, com a modi- ficação de seu contrato com o governo nos termos prescritos, ficava revogado o decreto de 14 de setembro de 1864, que o autorizava a suspender os trocos de suas notas por ouro, medida de coação suficiente para afastar qualquer hipótese de recusa.

O Ministério liderado pelo marquês de Olinda demitiu-se em julho de 1866 e foi substituído por outro, presidido por Zacarias de Góes e Vasconcelos, que acumulou a pasta da Fazenda. Torres-Homem foi nomeado para a presidência do Banco do Brasil. Enquanto isso, o substitutivo, discutido na Câmara e no Senado, expressamente adota- do pelo governo, contestado principalmente pelo visconde de Jequitinhonha e defen-

dido por Itaboraí e Zacarias, recebeu apenas leves alterações e foi finalmente aprovado

e sancionado, em 12 de setembro de 1866, como lei nº 1.349.

Entre as justificativas apresentadas para facilitar a sua aprovação, estavam as de que permitira a melhoria do meio circulante, a correção dos abusos cometidos pelo Banco do Brasil como instituto emissor, a provisão de recursos ao governo nas situações de crise e de guerra e a reforma do Banco. O certo, porém, é que o verdadeiro motivo foi a requisição insaciável de recursos, em espécies metálicas, para o custeio da guerra, que colocava e por vários anos iria manter o Tesouro sob déficits orçamentários. Com efeito, o governo precisava, pelo menos para avaliar os desequilíbrios financeiros, das espécies metálicas que constituíam o fundo disponível do Banco do Brasil e que se tornariam dispensáveis, até mesmo inúteis, com a cassação do direito à emissão a que serviam de lastro.

Reunida em 20 de setembro de 1866, a Assembleia Geral dos Acionistas decidiu

aceitar a reforma estabelecida na lei. No dia 11 de outubro, foi assinado com o governo

o contrato da reforma. No mesmo mês, o governo baixou o decreto nº 3.720, que dispôs

sobre a execução da lei nº 1.349 em relação à emissão do Banco do Brasil e ao paga- mento da dívida do Tesouro ao estabelecimento. No dia 30 do mesmo mês, o Banco vendeu ao governo toda a sua reserva metálica, prevalecendo o câmbio de 24 ¼ para

a venda das libras esterlinas e de 25 para a venda do outro amoedado e em barras, no

prazo de seis meses. O valor total, que incluía 2.395:344$000 do ágio sobre o preço de custo, foi de 25.766:781$248.

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História do Banco do Brasil

Em 10 de dezembro, a Assembleia elegeu nova diretoria, indicando Torres-Ho- mem para continuar na presidência. Em 27 de novembro, a diretoria do Banco aprovou uma espécie de consolidação de todas as dívidas e responsabilidades, diretas ou indi- retas, do barão de Mauá, dando início a uma série de providências e concessões que duraram até a falência da Casa Mauá. Na sessão de 8 de janeiro de 1867, a diretoria resolveu instalar um embrião do serviço jurídico ao aprovar proposta do presidente para admitir o advogado Francisco de Paula Negreiros Sayão Lobato, com a incumbência

de tratar de todas as causas judiciais e atuar como consultor. A diretoria ainda se deti- nha na discussão e solução de questões administrativas insignificantes e secundárias.

E nas suas reuniões ainda figuravam, com recomendação de sigilo, alguns pedidos de

empréstimo para o governo, assinados pelo ministro da Fazenda.

No relatório que apresentou à Assembleia Geral Legislativa, em 8 de maio de

1867, o presidente do Ministério, Zacarias de Góes, revelou, finalmente, o verdadeiro motivo que levou o governo a comprar a reserva metálica do Banco do Brasil. Declarou,

a respeito, que “a necessidade de fazer consideráveis e frequentes remessas de moeda

metálica para as despesas do Exército e Esquadra em operações contra o Paraguai”, foi que “levou o governo a aceitar a proposta que lhe fez o Banco do Brasil para comprar

a totalidade da reserva metálica que a lei de 12 de setembro o obrigava a vender, a fim de resgatar as suas notas”.

Sobre a repartição de hipotecas, o Banco desde o começo tergiversou na sua ins- talação e nunca comprovou verdadeiro propósito de dar-lhe eficiência. Assim, a prin- cípio, procurou evitar que lhe fosse marcado um prazo para essa instalação. Não foi consignado no projeto de estatutos submetido à aprovação do governo, mas o decreto forçou o prazo de seis meses. Em junho de 1867, a diretoria aprovou o projeto de regu- lamento para a repartição. O governo, por sua vez, o instituiu pelo decreto nº 3.912, de 22 de julho do mesmo ano.

Por esse regulamento, a circunscrição territorial para as operações da repartição compreenderia somente o município da corte, a província do Rio de Janeiro e os muni- cípios que com esta confinassem, as províncias de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Prescrevia ainda que, excepcionalmente, poderia o Banco admitir hipotecas de imóveis situados em qualquer outro ponto do Império, mas somente se tivessem como único fim reforçar garantias de títulos de dívidas existentes na sua carteira.

Os prazos dos empréstimos hipotecários deveriam ser de um a seis anos, até que

o Banco se julgasse habilitado para conceder empréstimos de longo prazo e emitir letras hipotecárias. Eram de dez a 120 contos, respectivamente, os limites mínimo e máximo dos valores dos empréstimos. Afluíram logo ao Banco numerosas propostas de financia-

mentos hipotecários, em diversas modalidades, como as de conversões de pré-existentes débitos quirografários em títulos hipotecários, com vinculações de imóveis urbanos ou rurais, com aumento de prazos, com exonerações de co-obrigados e também com aumen-

to dos débitos para que os devedores pudessem receber novos provimentos de recursos.

Ao analisar as propostas a diretoria fazia sempre a ressalva de que o seu de- ferimento dependia da disponibilidade de fundos pela repartição. Adotou, também,

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História do Banco do Brasil

orientação a restritiva no tocante às caixas filiais. Já estavam em liquidação as da Bahia

e

Pernambuco, deficitárias. Foram mandadas liquidar as do Rio Grande do Sul, Pará

e

Maranhão, embora tivessem dado lucro no ano bancário encerrado em 30 de junho

de 1867, mantendo-se apenas as de São Paulo e Ouro Preto. Esboçava-se a tendência, devido à importância que assumia o café no movimento econômico do país, de dar pre- ferência, para aplicações de recursos e produção de lucro, às áreas do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

O Banco do Brasil perdia, assim, o seu direito de emissão e passava a ser mero banco de depósitos, descontos e operações hipotecárias, acentuando o seu caráter de empresa privada e debilitando ao máximo a sua vinculação ao governo e a sua função como delegado governamental. O direito de emissão foi para o Banco o meio seguro de captação de recursos para a sua caixa e para aplicações que naturalmente lhe davam maior capacidade de produção de lucros, mas acarretava-lhe deveres de moderação e equilíbrio que nem sempre pôde cumprir.

Por outro lado, o direito de emissão trazia para o Banco um contrapeso de perda

de sua autonomia, pois o tornava vulnerável às interferência oficiais, inclusive à inter- venção permanente representada pela entrega de sua presidência a um agente gover- namental, que podia exercer um direito de veto decisivo sobre suas deliberações. Pelo mesmo motivo, o Banco tinha de suportar ônus, como o da conversabilidade de suas notas em ouro e o de constantes inversões para manter um fundo metálico que sempre se revelou dispendioso, evasivo, e o de cumprir, a cada ano, uma obrigação de resgate de papel-moeda do governo que, durante cerca de 14 anos, pôde desempenhar regular

e pontualmente. Assim, o grave dano da perda da emissão teve boas compensações com o desencargo de todos esses ônus e difíceis obrigações.

Mas não se livrava o Banco totalmente de um certo vínculo com o governo, por- que, na nova fase de maior privatização da sua atividade, ainda lhe restava a obriga- ção do resgate do remanescente da sua emissão, na elevada soma de 45.600:000$000. Segundo dispunha o artigo 5º da lei nº 1.349, que reformou o Banco, as notas desta emissão continuavam com o privilégio de serem recebidas nas estações públicas e o seu resgate feito a longo prazo, de 12 a 20 anos, na razão de 5% a 8% ao ano, condição considerada vantajosa para o Banco.

Nessa nova fase, menos comprometido com o governo, o Banco do Brasil ia afas- tar-se ponderavelmente, por um longo prazo, do foco das atenções em que estivera desde a sua fundação. Passava, embora não completamente, porque ainda se mantinha como o maior estabelecimento de crédito do país, a uma posição menos visada. Na ses- são legislativa de 1867 já não foi, assim, o polo de atração dos debates, da mesma forma como a questão econômica já não vinha influindo predominantemente no jogo das mudanças de cena governamental. Agora, o que prevalecia era o problema financeiro provocado pelo custeio da guerra, que consumia grande soma de recursos, na maior parte em moeda metálica, provocando o aumento das emissões.

Em junho de 1867, Zacarias de Góes, presidente do Conselho e ministro da Fazenda, apresentou à Câmara dos Deputados um projeto de lei que autorizava o

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História do Banco do Brasil

governo “a realizar operações de crédito ou a emitir papel-moeda”, se as operações do Tesouro o exigissem, até a importância de 30.925:371$217, bem como a emitir em notas uma soma correspondente ao resto das autorizações concedidas por diver- sas leis, “no caso de que seja indispensável esse expediente”. Ressalvava que essas emissões, somadas, não deveriam exceder a importância dos bilhetes do Tesouro que estivessem em circulação.

Argumentando que não havia outros meios de levantar recursos, Zacarias lem- brou, no Parlamento, que era inútil falar em empréstimos estrangeiros quando se

estava sustentando uma guerra e os orçamentos estavam sendo votados com déficits.

E que a criação de impostos era um dever de honra, uma medida indispensável, mas

não atenderia às necessidades imediatas do Tesouro. Uma notícia estampada pelo Jornal do Commercio, de 23 de julho de 1867, jocosamente resumiu os debates em torno da proposta nestas poucas palavras: “Num arraial flutua a bandeira dos em- préstimos, noutro a do papel-moeda: ambos caminham a salvar a honra nacional, que pede socorro no déficit do orçamento. O Ministério pede o papel-moeda, a oposição aconselha empréstimos”.

Na mesma ocasião, o governo foi acusado de falhar na execução da lei de reforma do Banco do Brasil, pelo próprio autor do projeto, o senador Silveira da Mota. Ele disse que a organização da repartição hipotecária havia ficado muito aquém do espírito do dispositivo legal que a instituíra e exigiu do governo fiscalização e vigilância sobre a maneira como se fizera essa organização. Silveira advertiu que muitas casas comerciais que tinha débitos grandes, diretos ou indiretos, junto ao estabelecimento, estavam se liquidando para poder pagar. Alegou, ainda, que a atitude do Banco, ao pagar 12% de dividendo, contrariava a lei, que autorizava, quando muito, 10%.

Em 12 de julho de 1867, a diretoria aprovou uma gratificação extraordinária para os empregados do Banco, “como reconhecimento dos seus bons serviços no semestre que acabava de findar”. O sistema de gratificação aparece, assim, como uma antiga concessão. O Tesouro continuava a pedir dinheiro emprestado ao Banco. Na sessão, de 7 de agosto, foi mencionada a reforma de várias letras de dívidas do Tesouro. Houve até ocasião em que o próprio Banco ofereceu empréstimo ao governo: em 3 de dezem- bro de 1867, o seu presidente informou à diretoria que tinha consultado o governo para emprestar-lhe o dinheiro disponível no estabelecimento ao juro de 8% anuais e que o ministro da Fazenda respondera afirmativamente, com a condição de ser o empréstimo a longo prazo.

No mesmo dia 7, a diretoria, considerando que ainda não havia arrecadado na

Caixa Hipotecária soma suficiente para os empréstimos já pedidos, fez novas restrições. Uma delas era que os devedores que quisessem converter seus débitos em emprésti- mos hipotecários e pretendessem algum novo empréstimo, cuja importânica reunida

à dívida já existente alcançasse ao máximo 120:000$000, só poderiam ser atendidos quando fosse de alta conveniência aos interesses do Banco.

Nas hipotecas de imóveis, oferecidas em garantia de dívidas da Carteira Hipote- cária, sempre figuravam, como parte integrante da garantia, os escravos de propriedade

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História do Banco do Brasil

do devedor, descritos e avaliados com a típica desumanidade do regime escravocrata. Para o serviço de lavoura, cabia maior valor aos homens e menor às mulheres; as cota- ções caíam e até desapareciam nos extremos das idades, pois pouco ou até nada vale- riam os velhos que vinham perdendo ou já haviam perdido a capacidade de trabalho e as crianças que ainda não a tivessem adquirido total ou parcialmente. A mesma perda de valor ocorria em relação aos incapacitados por qualquer motivo, inclusive aos porta- dores de doença grave, incurável, ou de cura difícil; também caía o valor dos rebeldes ou fujões. Naquele tempo, o Banco recusava aposentadoria até a funcionários que estivessem incapacitados por falta de visão ou outras moléstias graves.

Durante todo o primeiro semestre de 1868, principalmente de março a maio, trafegou pelas sessões da diretoria grande quantidade de pedidos de liquidações ou re- ajustes, com excesso de propostas de pagamento de dívidas remanescentes com gran- des rebates, inclusive com pedidos de embolsos a prestações. Não faltavam apelos por recomposições ou dilatação de prazo para compromissos que já tinham sido refundidos em termos de prorrogações e abatimentos.

Houve casos em que os reajustes anteriores tinham sido adulterados por meio de sonegações, de vinculações de imóveis artificialmente majorados ou até inexistentes ou não pertencentes aos devedores. Em outros casos, os devedores pediam recursos ou concessões para que, mediante pagamento de débitos a terceiros, ficasse o Banco como único credor, o que levou a Comissão de Concordata a declarar que, se concordasse com isso, seria “um nunca acabar” e o estabelecimento tornar-se-ia “um liquidador geral dos bancos e até da praça”.

Em relatório apresentado à Assembleia Geral Legislativa, em maio de 1868, o ministro Zacarias de Góes registrou censuras, divulgadas na imprensa, contra a gestão da caixa matriz do Banco do Brasil, e reforçou a insistência dos jornais pela nomeação de uma comissão de inquérito. O fato gerou ressentimentos entre a diretoria, provo- cando uma resposta realmente áspera lançada no relatório que o então presidente do Banco, Torres-Homem, apresentou à Assembleia Geral dos Acionistas, em 31 de julho de 1868, quando Zacarias já tinha deixado o governo.

No mesmo documento, Torres-Homem relatou obstáculos, mas garantiu melho- ria da situação do Banco, considerando até provados os salutares efeitos das reformas operadas e das transformações por que passou o estabelecimento em virtude da lei de 12 de setembro de 1866, que lhe permitiria progredir, apesar das graves e numerosas dificuldades que pareciam contribuir para sua ruína. Sobre a repartição de hipotecas, o relatório afirmava que, em 30 de junho de 1868, o Banco realizou operações no total de 8.155:335$767, tinha em letras e saldo de conta corrente 26.254:180$547 e, em di- nheiro, 289:587$021.

O Ministério presidido por Zacarias retirou-se em julho de 1868, alegando não poder concordar com a escolha, pelo imperador, de Torres-Homem para preencher vaga de senador pelo Rio Grande do Norte, motivo considerado estranho, pois Zacarias nomeou Torres-Homem para presidente do Banco do Brasil e o defendera de acusa- ções no Parlamento. Para substituí-lo, o imperador chamou Itaboraí, então chefe do

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História do Banco do Brasil

Partido Conservador. O Partido Liberal, que estava desgastado por dissidências, logo se mostrou unido para se opor ao novo governo.

Um decreto imperial dissolveu a Câmara e fez-se nova eleição, manobrada pelo poder de influências e pressão do governo. Elegeu-se maioria conservadora poderosa, quase unânime. Dissolvida a Câmara antes que estivessem votadas as medidas orça-

mentárias e as autorizações financeiras indispensáveis para o custeio da guerra e para

a própria subsistência governamental, o novo Ministério encabeçado por Itaboraí teve

de lançar mão de um recurso arbitrário. Assim, o Executivo ultrapassou o limite de sua competência baixando um ato de típica função legislativa, o decreto nº 4.232, de 5 de agosto de 1868, que autorizou o ministro da Fazenda a emitir, no exercício de 1868- 1869, até a importância de 40 mil contos de réis de papel-moeda, “para acudir a urgen- tes despesas da guerra contra o governo do Paraguai e às demais obrigações contraídas

pelo Tesouro”, e sob a condição de que seria solicitada a aprovação da Assembleia Legislativa logo que se reunisse.

Prometeu o ministro, perante o imperador, que o Tesouro faria todos os es-

forços para se manter nos limites da emissão autorizada. Pouco depois, o decreto nº 4.244, de 15 de setembro de 1868, autorizou o ministro da Fazenda a contrair, por subscrição pública, um empréstimo que não excedesse a 30 mil contos de réis. O sucesso dessa operação surpreendeu o governo, pois apresentaram-se 4.146 subscri- tos pleiteando a tomada de 105.836 apólices, quando 120.000:000$000 foram postos

à sua disposição. Realizou-se um rateio equitativo e o Banco do Brasil figurou entre os subscritores, com uma proposta de 20 mil apólices. O empréstimo provou que o país ainda mantinha sua vitalidade econômica e deu ao governo meios para evitar ao máximo o apelo à emissão.

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Capítulo5

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Capítulo 5 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Capítulo 5 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
exterior.
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Guerra do Paraguai abala economia

A agência Assunção, no Paraguai, foi a primeira dependência do Banco do Brasil no Fotografia (1941).

História do Banco do Brasil

O ano de 1869 foi, inicialmente, de comemoração patriótica para todo o país. Em

dezembro do ano anterior, o exército paraguaio sofreu decisivas derrotas e, acuado, fugira para o interior do país. A 5 de janeiro, o marechal Luís Alves de Lima e Silva, o

Duque de Caxias, à frente dos exércitos aliados, entrou em Assunção, e depois, alegan- do motivos de saúde, demitira-se do comando, voltando para o Brasil. A obstinação dos paraguaios e de Solano Lopes que, em vez de se renderem, procuraram se agrupar e se recompor para uma nova e desesperada resistência, adiou o fim da guerra, provocando novas lutas. O Exército brasileiro, então sob o comando do conde D’Eu, lançou-se em operações de perseguição que só terminaram com a morte do ditador paraguaio.

Finda a guerra, ainda havia sacrifícios a fazer, com as despesas de transporte e desmobilização do Exército e da Esquadra em seu regresso ao Brasil. O governo, cumprindo a sua promessa, só emitiu, com efeito sobre o aumento do meio circulante, pouco mais de 17 mil contos de réis.

O ano de 1869 marcou para o Banco do Brasil uma completa mudança de direção.

A diretoria, encabeçada por Torres-Homem, sofreu duras críticas, inclusive de que

fizera “operações desgraçadas”, e defendeu-se no relatório apresentado na reunião da Assembleia dos Acionistas de 1869. Sentindo que crescia o descontentamento entre

os acionistas, Torres-Homem alegou motivo de saúde e renunciou, seguido por vários

diretores. Em outubro, a Assembleia dos Acionistas elegeu nova diretoria, presidida por Militão Máximo de Sousa.

Estava sendo articulado, à época, um poderoso movimento de acionista com o pro- pósito de mudar a administração do Banco. Reconhecia-se que a maior parte do capital do estabelecimento se acumulou em mãos de alguns poucos devedores, dentre os quais destacava a Casa Mauá, pela qual o ex-presidente Torres-Homem tinha interesse.

A nova diretoria, dando um primeiro passo no sentido de definir uma orientação

quanto às dívidas da Casa Mauá, que tinham-se elevado demasiadamente, tomou a ini- ciativa de dirigir ao próprio barão de Mauá, que se achava em Montevidéu, uma carta em que lhe pedia a regularização dos seus débitos. Através de longas negociações, foi entabulado um plano de recomposição das dívidas de todo o grupo, englobando as do próprio barão e as das duas firmas – Mauá, Mac Gregor & Cia. e Mauá & Cia. O total do débito chegava a 11.753:766$060.

Posteriormente, a diretoria decidiu extinguir a caixa filial de Ouro Preto. Assim, eliminando a sua ramificação de agências pelo território nacional, o Banco reduzia-se a mero provedor de uma pequena região e seria apenas um estabelecimento da corte, se não tivesse mantido a filial de São Paulo.

Em outubro de 1869, o Banco entrou mais decisivamente no financiamento ao governo, com o qual contratou um empréstimo que consistia em comprar ao Tesouro Nacional 20 mil contos de réis em apólices da dívida pública. Esta operação provocou comentários contraditórios: aprovação, de um lado, à diretoria, por estar prestando ser- viços aos acionistas, agindo para restaurar o capital do estabelecimento e consolidar o seu crédito; mas, de outro lado, alegações de que a transação exorbitava os limites mar- cados pelos estatutos e violava o dever do Banco de manter o maior volume possível de

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História do Banco do Brasil

seus capitais no seu movimento operacional, ainda mais num momento em que havia carência de recursos para financiamentos.

Outra decisão da diretoria que provocou censuras foi a de aplicar recursos da Car- teira Hipotecária na compra de apólices. No Parlamento, na sessão legislativa de 1870, o senador Silveira da Mota declarou que o Banco estava reduzido à função de comprar apó- lices e bilhetes do Tesouro e que, se lhe aparecesse uma letra de lavoura ou do comércio, não a descontaria. Segundo ele, “o Banco estava desnaturado, desvirtuado completamen- te, pois não era de descontos, não era hipotecário. Era só banco para fazer transações com o governo, não servindo à indústria comercial, cujos descontos eram muito limitados”.

Em 22 de abril de 1870, a Assembleia Geral dos Acionistas votou e aprovou emendas aos estatutos, entre as quais as de facilitar as reuniões da Assembleia Geral e compor a administração do Banco com um presidente e um Conselho de seis membros, entre os quais se escolheria o vice-presidente. Pouco tempo depois, Militão Máximo de Sousa renunciou à presidência, sendo eleito para substituí-lo José Machado Coelho de Castro, que permaneceria muito tempo no cargo. Em setembro de 1870, demitiu- se o Ministério presidido por Itaboraí, sob suspeitas de que se opunha às medidas de abolição da escravatura preconizadas pelo imperador.

O Ministério formado para substituir o de Itaboraí, presidido pelo visconde de São Vicente, foi mal organizado e durou pouco mais de cinco meses. Foi chamado o visconde do Rio Branco para organizar um novo Ministério, onde atuou como presi- dente e ministro da Fazenda, por um período extraordinário, pois só se retiraria em 25 de julho de 1875, com mais de quatro anos de trabalho. Um dos seus primeiros atos foi contratar um empréstimo de três milhões de libras na praça de Londres, que já vinha sendo tentado por seu predecessor, para cobrir o resgate da dívida flutuante, o custeio do prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II e a escassez de recursos normais para despesas extraordinárias dos ministérios da Guerra e da Marinha.

Como primeiro resultado de reforma dos estatutos do Banco do Brasil, já a partir do final de 1870, descongestionava-se a pauta das sessões da diretoria. Novo emprésti- mo foi deferido à Casa Mauá e nova compra de apólices feita ao Tesouro, no valor de 18.300 contos de réis. O dividendo pago pelo Banco foi reduzido e fixado, no ano de 1871, em 8$000 por ação, sob o fundamento de “garantir o futuro do estabelecimento e consolidar seu capital e os rendimentos que em alguns anos escassearam com o resgate da emissão a que o Banco estava obrigado”.

Em relatório apresentado à Assembleia Geral dos Acionistas em 31 de julho de 1871, o presidente do Banco propôs a ampliação do crédito agrícola – antes a orientação era de restrição das operações da Carteira de Hipotecas – e apresentou um programa que se poderia considerar adiantado e precursor, pois continha ideias como as de prazos longos, juros módicos, pauta moderada de amortização por parte dos lavradores e até previsão das perdas de safras. Mas a este programa, quando aprovado pela Assembleia dos Acionistas, acrescentaram-se alguns pedidos de compensações, inclusive a prorro- gação do prazo de duração do estabelecimento por mais 14 anos e a redução da amorti- zação das suas notas em circulação.

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História do Banco do Brasil

Em fins de setembro de 1871, a Comissão de Exame e Contas do Banco do Brasil publicou parecer otimista da situação do estabelecimento. Com o capital de 33.000:000$000, emissão circulante ainda no importe de 36.480:000$000, e devendo, em saldo de contas correntes simples e em letras a prêmio, 9.710:044$278, além de outras pequenas somas, havia, para fazer face a esse débito, “todas as garantias e segu- ranças desejáveis”, a despeito dos grandes prejuízos resultantes da crise comercial de 1864. Dizia o parecer:

“Em letras do Tesouro e particulares comerciais, descontadas simplesmente, ou por meio de cauções, soma o haver do Banco 12.845.172$652. Em contas corren- tes com garantia 10.056:616$947. Em títulos em liquidação 16.993:533$586. Além de outros haveres, se acrescentarmos a quantia de 25.725:194$800 em apólices avaliadas pelo seu custo no momento de as receber, a importância das diversas caixas matriz e filiais e bens de raiz, nenhuma dúvida pode restar no ânimo mais prevenido de que o estabelecimento ofereça todas as condições de vitalidade, continuando como o faz em uma liquidação regular do passado e fixando regras salutares nas duas novas operações”.

O parecer da Comissão de Contas do Banco apresentado em outubro do ano se-

guinte abriu-se em elogios à administração do estabelecimento. Referindo-se à eleva- ção do preço das suas ações, considerou, como causa principal e inquestionável, “o re- conhecimento de sua solidez e boa administração”. Nessa época, a diretoria indeferiu um pedido de empréstimo da Associação Comercial do Rio de Janeiro para construção do edifício da praça do Comércio, alegando que a operação era ilegal, já que só podia ser feita pela Carteira Hipotecária. Esta, por sua vez, somente emprestava até 120 con- tos, e no prazo de seis anos. Além de tudo, eram duvidosas a segurança e a vantagem da operação, dada a insuficiência das rendas previstas.

A ideia de impulsionar o crédito agrícola, manifestada no relatório apresentado

à Assembleia dos Acionistas em 1871, começou a ser agilizada em 10 de abril de 1872, através de uma representação entregue ao governo federal, na qual a diretoria do Banco do Brasil expôs os problemas enfrentados pela lavoura – a atividade econômica mais importante do país -, sobrecarregada por dívidas e altos juros e ameaçada com liquida- ções forçadas.

Se, para atender à questão agrícola, o Banco do Brasil precisava baixar juros e aumentar o prazo para reembolso dos seus capitais, necessitaria, em contrapartida, das compensações consistente em prorrogação de prazos, em redução do ônus do resgate de suas notas circulantes e em modificações que alterassem, na legislação sobre hipo- tecas em vigor, os dispositivos referentes à adjudicação forçada dos bens aos credores e aos desmembramentos das propriedades em virtude das execuções.

A questão agrícola, analisada pelo ministro da Fazenda no relatório que apresen-

tou à Assembleia Legislativa em 8 de maio de 1872, foi tema de projeto encaminhado

ao Parlamento, onde suscitou longos e às vezes ásperos debates, nos quais, repeti-

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História do Banco do Brasil

damente, manifestaram-se desconfianças em relação à sinceridade dos propósitos do Banco do Brasil de ajudar a lavoura. Afirmou-se, por exemplo, durante as discussões, que o Banco não tinha em vista apoiar a agricultura mas, sim, utilizar esse pretexto para obter concessões que lhe trariam vantagens. A redução do resgate solicitada pelo Ban- co produziria o lucro de 29 mil contos e os favores que reivindicava eram, de fato, muito superiores e de muito maior importância do que as vantagens prometidas à lavoura. Com essas concessões o Banco monopolizaria o crédito rural, eliminando a concorrên- cia de outras associações de crédito, cuja criação acabava de ser autorizada.

O propósito de desenvolver os empréstimos à lavoura surgira nessa nova fase da

administração do Banco. Anteriormente, a própria diretoria chegou a declarar oficial- mente, no relatório de 30 de julho de 1870, que foi fiel ao pensamento de abster-se de fazer empréstimos hipotecários novos, preferindo empregar em apólices os saldos da Carteira Hipotecária. A proposta de compensações da nova diretoria interessava, no entanto, somente à província do Rio de Janeiro e talvez a mais duas vizinhas, enquanto 17 outras províncias não eram atingidas. Os benefícios eram, ainda, elitistas, já que, mantido o mínimo de dez contos para os empréstimos, a pequena agricultura, não me- nos importante, ficava inteiramente fora.

O Banco, segundo as críticas, visava mais seus interesses do que as necessida-

des da lavoura, e agia no sentido de salvar seus devedores de uma liquidação que lhe pudesse ser desvantajosa. Separava, por exemplo, para a repartição hipotecária, os pio- res títulos que possuía, deixando-a estacionária, enquanto reservava para a repartição comercial os títulos de mais fácil realização. Outra acusação era de que o espírito mer- cantil dominava, então, o Banco do Brasil, impedindo-o de agir como as sociedades de crédito real de outros países, que abriam mão das cobranças judiciais para favorecer os devedores da área agrícola.

As estatísticas mostravam que a dívida hipotecária da lavoura não se concentra- va apenas na corte: havia, em todo o Império, uma grande dívida além daquela que constava da Carteira do Banco. Num sistema injusto, dava-se moratória à custa do Es- tado somente para lavradores que deviam ao Banco, deixando sem apoio aqueles que deviam a outros estabelecimentos, na corte e nas províncias. Assim, a melhor solução seria a fundação de um estabelecimento de crédito real, e talvez, como medida preli- minar, uma moratória a favor da lavoura.

Em defesa do Banco alegou-se que o favor solicitado era insignificante, apenas a prorrogação do prazo de sua duração, o que nenhum governo podia negar. E o único benefício a ser concedido – a redução do resgate de suas notas -, era bem menor do que parecia à primeira vista. Era preciso considerar, dizia-se, que em nenhum país da Europa se conseguia a organização dos bancos territoriais que emprestassem a uma taxa de juros inferior ao juro corrente, sem auxílio de capital estranho. Os próprios ad- versários do projeto reconheciam que o governo devia entrar com recursos do Estado para fundar o crédito real.

Aprovado no Parlamento, o projeto foi sancionado sob a forma da lei nº 2.400, de 17 de setembro de 1873. Em síntese, reduzia a 2,5% anuais o resgate das notas, não

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História do Banco do Brasil

só do Banco do Brasil como dos demais bancos de circulação; prorrogava a duração do Banco do Brasil por mais de 14 anos; obrigava-o a empregar o capital de sua Cartei- ra Hipotecária, nunca inferior a 25.000:000$000, em empréstimos à lavoura; mandava estender o círculo de suas transações hipotecárias além do designado nos estatutos vigentes; fixava em 6% e 5% anuais, respectivamente, os juros e amortizações dos em- préstimos à lavoura; estendia esses favores aos empréstimos já realizados; e determi- nava que o governo, no caso de recusa do Banco em ceder a qualquer das disposições precedentes, fixasse em 8% a cota anual do resgate de suas notas.

Como se vê, a própria lei adotava mecanismos de pressão, apontando para o seu cumprimento como saída mais vantajosa para o estabelecimento. Como o Banco, segundo o relatório de 1873, aplicou em operações hipotecárias de financiamento à la- voura a soma de 17.344:094$452, ainda investiria mais, conforme o artigo 2º que fixava em 25.000:000$000 o mínimo do capital a ser empregado na Carteira Hipotecária e, nas mesmas operações, fundos novos no importe de 7.655:905$548, que teria de transfe- rir da sua Carteira Comercial. Do mesmo modo, preencheria qualquer desfalque que ocorresse no capital depois de convertido em empréstimos hipotecários.

Reunida em 30 de setembro de 1873, a Assembleia Geral dos Acionistas autori- zou o Conselho Diretor a inovar o acordo celebrado com o governo imperial, em 11 de outubro de 1866, com poderes expressos para “aceitar a lei nº 2.400 de 17 de setembro findo, em todas as suas partes”. Era a submissão do Banco a um novo ajuste. O novo acordo entre o governo e o Banco, para execução dessa lei, foi assinado no dia 24 de fevereiro de 1873.

Novas disposições figuraram nesse acordo: o fundo disponível da Caixa Hipo- tecária, que não pudesse ser logo empregado em empréstimos à lavoura, poderia ser aplicado provisoriamente em apólices da dívida pública, bilhetes do Tesouro e letras hipotecárias do próprio Banco ou de outro estabelecimento de crédito real; a repartição hipotecária operaria em empréstimos sobre hipotecas de imóveis rurais ou urbanos de longo prazo, ou de dez a 25 anos em empréstimos sobre hipotecas de imóveis rurais ou urbanos a curto prazo, ou pelo menos de dez anos, ou na emissão de negociações de letras hipotecárias, fundadas sobre os empréstimos de longo prazo; a circunscrição ter- ritorial dessas operações compreenderia o município da corte, as províncias do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina; foi abolido o limite mínimo de dez contos e mantido o limite máximo de 120 contos para os emprés- timos; foram estipuladas regras para emissão de letras hipotecárias pelo Banco.

O Banco, que pedira inicialmente algumas moderadas concessões em troca de uma simples melhoria do crédito à agricultura, obteve realmente os favores pleiteados, mas acabou obrigado a novas e carregadas condições de uma expansão do crédito rural, para a qual não estava devidamente constituído e nem aparelhado. Ademais, a lavoura ainda não reunia condições suficientes para o recebimento sistemático de financia- mentos capazes de impulsionar o setor, em consequência de carência de infraestrutura, especialmente no tocante a comunicações e transportes.

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História do Banco do Brasil

Esperava-se que o Banco não alcançasse condições para desempenhar, satisfa- toriamente, os novos deveres que contraíra. Mas a experiência podia ser válida e pelo menos resultar na aferição dos obstáculos, das necessidades de adaptação e moderniza- ção indispensáveis à introdução e desenvolvimento do crédito rural no Brasil. Inicial- mente, o Banco revelou boa vontade no cumprimento de sua nova obrigação. Cuidou de completar os fundos da Carteira Hipotecária no valor de 25.000:000$000 que, em 31 de dezembro de 1873, chegou a 24.152:873$950.

Em 1874, o Banco tratou do lançamento de letras hipotecárias. No início desse ano, tornou extensivos aos devedores por hipoteca rural os benefícios da amortização de 5% e dos juros de 6% pagos por semestre vencido, mandou restituir a diferença de 9% para 6% aos que, por força de contrato, pagaram adiantadamente e passou a conce- der reforma dos contratos de curto para longo prazo. Em junho, tinha em andamento 256 propostas de empréstimos rurais, para as quais se previa uma aplicação de cerca de 12.000:000$000 e o emprego, até o fim do ano, de todo o fundo de 25.000:000$000.

Nesse mesmo ano, a Casa Mauá passou a apresentar pedidos de financiamento ao Banco do Brasil, que prenunciavam a erosão de sua capacidade financeira e de suas condições de solvência, e o Banco começou a recusá-los. O relatório do ministro da Fa- zenda e o pronunciamento do imperador na abertura da Assembleia Geral Legislativa focalizaram, também naquele ano, a difícil situação da área rural e a carência de esta- belecimentos de crédito capazes de proporcionar aos lavradores, mediante condições menos onerosas, os capitais de que necessitavam.

As dificuldades financeiras que já pairavam no ano de 1874, indicando pre- núncios de crise, chegaram ao auge em maio de 1875. O governo forneceu reforço ao Banco do Brasil para enfrentar a situação. Pediram concordata o Banco Alemão, o Banco Nacional e a Casa Mauá. Os bancos, exceto o do Brasil, chegaram a sofrer corridas de depositantes. No relatório apresentado pelo presidente do Banco do Bra- sil à Assembleia Geral dos Acionistas, na reunião de 31 de julho de 1875, afirmou-se que a situação econômica do estabelecimento era satisfatória, “apesar da perturbação ultimamente trazida às relações comerciais desta praça pela suspensão de três esta- belecimentos bancários”.

Graças à confiança que o Banco do Brasil já adquirira junto ao público, à soli- dez de sua Carteira Comercial e, sobretudo, à eficaz interferência do governo fede- ral, concedendo recursos de meio circulante, que essa perturbação não tomou maiores proporções. Já à data do relatório, o Banco pudera restituir ao Tesouro as somas dele recebidas. O mesmo relatório revelou franco pessimismo a respeito das operações da repartição hipotecária, confirmando que o seu fundo estava esgotado e mencionando a tentativa de angariar novos recursos por meio de emissão de letras hipotecárias.

O presidente do Ministério e ministro da Fazenda, visconde do Rio Branco, havia apresentado na sessão de 14 de maio de 1875, na Câmara dos Deputados, uma proposta destinada a obter autorização para emitir, em bilhetes ao portador ou em moeda corren- te, até a soma de 25 mil contos, para reforçar os bancos de depósitos no combate à crise, sob a garantia de títulos da dívida pública fundada, de bilhetes do Tesouro da então

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História do Banco do Brasil

dívida flutuante, ou, na falta destes, de outros títulos considerados seguros. Transfor- mada em projeto, a proposta foi debatida e aprovada, resultando na lei nº 2.565, de 29 de maio de 1875. Já então havia sido emprestada aos bancos a soma de 16.033:250$000, sob garantias de apólices, paga com presteza.

A crise deve ter influído para que, em julho daquele ano, o visconde do Rio

Branco decidisse exonerar-se, como todo o Ministério, encerrando assim o seu longo governo de quatro anos. Teriam mais decisivamente contribuído para sua demissão, no entanto, as acusações de ter concedido exagerados favores ao visconde de Mauá, causando elevado prejuízo ao Tesouro, entre os quais o de confiar à Casa Mauá 756 mil libras esterlinas, por meio de cambiais negociáveis pelo Tesouro para serem pagas em Londres. O pagamento não foi feito e houve o recâmbio.

Graças ao auxílio do governo, a maior parte dos bancos escapou à derrocada, mas os seus depósitos continuaram reduzidos. O relatório do Banco aos acionistas, em junho de 1877, observava que, embora tivesse ocorrido aumento dos depósitos a juros, tanto em conta corrente, quanto por letras a prazo fixo, não houve correspondente acréscimo de transações, em consequência “de causas gerais e locais que têm provocado liquida- ções parciais em diversos ramos de negócios”. Moratórias foram concedidas a diversos devedores de uma avultada soma de capital. Houve atraso de devedores da lavoura no pagamento de juros vencidos. Tudo isso concorreu para que a conta de lucros deixasse de apresentar resultado mais vantajoso.

O mesmo relatório assinalou movimento muito limitado na repartição hipote-

cária, devido à falta de capital próprio e à acanhada circulação da letra hipotecária. O Banco do Brasil, por sua vez, despojado do poder de emissão, desobrigado de se trans- formar na fonte de pronto-socorro a bancos e casas bancárias ameaçados de ruína, pôde atravessar a crise sem se envolver com riscos de perda, embora tivesse se beneficiado com suporte de recursos do governo, que logo conseguiu repor.

A 6 de novembro de 1875, foi sancionado o decreto legislativo nº 2.687, autori-

zando a fundação de bancos de crédito real, com base no plano traçado na lei nº 1.237, de 24 de setembro de 1864, e engenhos centrais. Essa resolução resultou de um longo parecer e de um projeto de lei, apresentados à Câmara dos Deputados e lidos na sessão de 20 de julho de 1875 pela sua Comissão de Fazenda e por uma comissão especial nomeada para estudar os meios de auxílio à lavoura.

O parecer levantava a tese de que a agricultura era a principal fonte de riqueza

nacional, sendo por isso indispensável à proteção dos poderes públicos para que lhe fosse prestado o necessário apoio pois, desta forma, estaria se equipando o país dos meios capazes de ampliar sua receita. Analisava ainda, com profundidade, as raízes das causas que reduziram o setor agrícola ao estado de atraso e decadência em que se achava, entre as quais relacionava a falta de conhecimentos profissionais e de estradas, os elevados impostos de exportação, carência da mão de obra e escassez de capital.

O projeto passou por longas e acaloradas discussões e por profundas modificações

nas duas casas do Parlamento. Durante os debates surgiram referências ao Banco do Brasil, que se comprometera a dar financiamento à lavoura, até 25 mil contos, a juros de

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História do Banco do Brasil

6% compensando o prejuízo com o decesso do resgate de sua emissão. O Banco já dera mais de 26 mil contos, cumprindo o seu contrato, e até procurou aumentar o seu capital de crédito através da emissão de letras hipotecárias, as quais, porém, não tiveram curso pelo seu valor, pois, emprestando a 6% só podia pagar 5% de juros. A diferença de 1% era margem muito pequena para despesas e prejuízos. O Banco se viu obrigado a parar, porque as letras hipotecárias refluíram sobre sua carteira.

O projeto foi criticado porque não dizia onde o Estado iria obter os 50 mil contos

com os quais concorreria para o capital de bancos de crédito real. Sugeriu-se, então, que os bancos a serem organizados operassem, tanto no crédito agrícola, como no industrial

e no comercial, uma proposta que já preconizava o que modernamente prevaleceu no Banco do Brasil, Banco do Nordeste e outros.

No Senado surgiu o projeto de se buscar capital estrangeiro para os futuros ban- cos de crédito rural, mediante garantia do governo a juros e amortizações de letras hipotecárias a serem emitidas nos países ricos da Europa. Alimentou-se então a es- perança, considerada ingênua por muitos, de levantar na praça de Londres a soma de

400 mil contos de letras hipotecárias, ainda que a longo prazo. O projeto foi aprovado

e sancionado como decreto nº 2.687, de 6 de novembro de 1875. Mas foi de fato de-

cepcionante, depois, a tentativa de lançar letras hipotecárias no exterior, pois, apesar

de esforços dos nossos representantes diplomáticos, não apareceram interessados em investir nesses empreendimentos.

As iniciativas para estabelecer crédito rural eram realmente de boa inspiração, mas pareciam prematuras. Naquele tempo ainda era fraca e insuficiente a base de ga- rantia indispensável a todo financiamento agrícola – a propriedade rural. Faltavam as condições mínimas de estabilidade e definição, pois as terras ainda não eram precisa- mente demarcadas, dificultando a sua avaliação. Uma das garantias mais seguras era o escravo, considerado o ativo mais valioso, mas que já se desvalorizava rapidamente, não só pela aplicação gradual da Lei do Ventre Livre, como porque o regime da escravidão se enfraquecia com a conscientização da opinião pública, que conduziria, previsivel- mente, à sua completa abolição.

Até meados de 1877, o Banco do Brasil registrou aumento de lucros, resultantes do recrudescimento das operações e de melhores condições da praça, que pouco a pouco se refazia dos efeitos da crise de 1875. O movimento da Carteira Hipotecária continuava contido pela falta de recursos, em vista do resultado medíocre da colocação de letras hipotecárias.

Nos anos de 1876 e 1877, foram publicamente criticadas as operações com apó- lices da dívida pública, como uma vultuosa aquisição de 30 mil títulos em janeiro de 1877. Logo depois o Banco passou a comprar apólices. Esses fatos, aparentemente contraditórios, não ficaram bem esclarecidos. As críticas apontavam uma versão pela qual o governo, carente de recursos, teria lançado apólices ao preço do par, quando elas se achavam cotadas um pouco acima. Por sua vez, o Banco, ao ver que o governo, não fazendo o lançamento por seu intermédio, negava-lhe uma possibilidade de lu- cros, teria, em represália, mandado vender apólices que já possuía por um preço abaixo

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História do Banco do Brasil

do par. Naturalmente, os tomadores deixariam de comprar os títulos ao governo para comprá-los ao Banco. Sentindo-se prejudicado, o governo teria suspendido sua venda e, mais tarde, teria reagido, impondo ao Banco a compra por um preço pouco inferior ao do par.

Mas convém podar nessa versão algum excesso. Documento oficial do Banco do Brasil demonstrou que a venda de apólices que lhe pertenciam por preço abaixo do par não teria sido autorizada. De qualquer modo, persiste crítica de que o Banco, ao aten- der à absorção de recursos pelo governo, preteriu a assistência creditícia às atividades econômicas, sobretudo porque o próprio relatório do seu presidente reconhece que não se evitou o abalo, e apenas buscou-se atenuá-lo.

Examinando-se os fatos à luz de dados de relatório do Banco do Brasil, é possí-

vel concluir que a compra de apólices pouco prejudicou a sua assistência às atividades privadas, dentro do propósito declarado de minimizar roturas neste setor. Além disso,

o Banco realizou a aquisição de apólices com a mínima inversão de seus próprios recur- sos e com proveito de lucros seguros na percepção dos juros e no ganho dos ágios de revenda dos títulos governamentais.

Em maio de 1877, o Banco pediu auxílio temporário ao Tesouro, alegando ante-

cipadamente a necessidade da expansão de recursos que sempre ocorria em fim de ano

e começo de ano novo, devido a causas como liquidação de contas que eram deixadas

para o fim dos semestres; provisões que faziam as companhias e sociedades anônimas para o pagamento de seus dividendos; remessas para salários a trabalhadores nas diver- sas vias férreas e outras obras em construção nas províncias do Rio, Minas Gerais e São Paulo; a larga e sempre crescente soma que o Tesouro tinha de acautelar na Caixa de Amortização para os juros das apólices; e remessa de capital calculado entre dez e 15 mil contos, às províncias do Norte.

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História do Banco do Brasil

Capítulo6

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Capítulo 6 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Capítulo 6 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

A escravidão chega ao

fim.

Novas crises

 

Antigo prédio da Associação Comercial (1906). Mostra o aspecto original que tinha a fachada antes da aquisição do prédio pelo Banco do Brasil, que o reformou para a instalação de sua sede em 30/04/1926. Prédio que abriga hoje o Centro Cultural Banco do Brasil.

História do Banco do Brasil

Após passar pelas duras provações da crise de 1864, da Guerra do Paraguai e conhecer um período áureo de 1850 a 1860, o segundo reinado ainda se manteve pres- tigiado até meados da década de 1870. A questão religiosa, quando dois bispos foram processados, condenados e presos, e a questão militar, que concorreria para a procla- mação da República, marcaram o início da sua decadência, retratada na própria figura do imperador, cuja saúde e força pessoal começavam a se abalar. O longo reinado se tornou cansativo, para o imperador e para a comunidade. A expectativa de um terceiro reinado, que seria o da princesa Isabel e que se supunha vulnerável à influência de um príncipe consorte estrangeiro, não angariava simpatia nem levantava esperanças.

Com o declínio da instituição monárquica iria agravar-se, também, o mal crôni- co da instabilidade ministerial e novas crises se prenunciavam. No começo de 1878, demitiu-se o Ministério presidido pelo duque de Caxias, dando lugar à rotatividade de partidos, ao assumir o novo Ministério presidido por Cansanção de Sinimbu, um dos chefes do Partido Liberal, que, após a dissolução da Câmara, conseguiu grande maioria através da eleição manipulada pelo governo.

Esse novo governo encontrou, de início, duas grandes dificuldades: a devasta-

dora seca de 1877, que assolou o Nordeste durante dois anos e o estado ruim das fi- nanças, que procurou solucionar com o recurso fácil das emissões. Estando dissolvida

a Câmara, o imperador, como já fizera antes, usurpando função do Poder Legislativo,

baixou o decreto nº 6.882, de 15 de abril de 1878, autorizando, por dois exercícios, a emissão de papel-moeda até a importância de 60 mil contos de réis. Não se procurou adotar uma política de saneamento financeiro e para isso contribuiu a instabilidade governamental, que fez com que, em pouco menos de 12 anos, dez gabinetes ondu- lassem na cúpula da decadente instituição monárquica. Registrou-se, também, nessa época, baixa do câmbio.

No ano de 1878, o Banco fez uma nova e limitada emissão de letras hipotecá- rias e, como o capital da Carteira Hipotecária já estava em 24.954:513$150, resolveu completá-lo com a transferência de fundos da Carteira Comercial. Na verdade, a Car- teira Hipotecária limitava-se a repassar para as mãos de novos mutuários os capitais que recebia em amortização. Em outubro, o parecer da Comissão de Contas do Banco apresentado à Assembleia Geral dos Acionistas mantinha a linha de apoio aos atos da administração. Embora admitindo que houvera pequena redução nas operações do Banco, ressalvou que o estabelecimento não desmerecia a confiança dos capitalistas, já que os saldos dos depósitos em conta corrente e as letras a pagar por dinheiro a prêmio vinham aumentando substancialmente.

O ano de 1879 marcou a reaproximação e o reatamento de relações entre o gover-

no e o Banco do Brasil. Em 8 de fevereiro, Afonso Celso de Assis Figueiredo assumiu a pasta da Fazenda e logo deu início ao processo de negociação com o Banco. Em 20 do mesmo mês, o presidente do Banco informou ao Conselho que o ministro o havia pro- curado para propor medidas “que pareceriam ser de conveniência mútua entre o Banco

e o governo”. O Banco forneceria ao governo o dinheiro necessário para concentrar no

estabelecimento toda a dívida flutuante, a prazos mais ou menos longos; encarregar-

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se-ia de fornecer as cambiais para os encargos do governo na Europa; incumbir-se-ia de todo o serviço no momento a cargo da Caixa de Amortização.

Depois de alentadas negociações, foi assinado, no começo de março, um contrato de conta corrente, pelo qual o Banco abria ao Tesouro um crédito até a quantia de dez mil contos de réis, que podia ser retirada por meio de cheques ou de ordens assinadas pelo Tesouro Geral e o governo, em contrapartida, depositaria no Banco todos os saldos disponíveis na Tesouraria Geral, Alfândega da Corte e Recebedoria do Rio de Janeiro, para serem levados a crédito nessa conta corrente. O Banco, por outro lado, procurou conseguir créditos na Europa para operações de câmbio e a consequente reforma dos estatutos, aprovada pela Assembleia Geral dos Acionistas e pelo governo. Começou a realizar as operações de câmbio no começo de julho e colaborou com providências para levantar a taxa sobre Londres.

Com a ajuda dos bancos, inclusive o Banco do Brasil, em meados de 1879, o go- verno lançou um empréstimo destinado a saldar contas do Tesouro, cuja subscrição foi bem sucedida. Em 30 de outubro do mesmo ano, o Conselho Diretor do Banco do Brasil concordou em receber, pelo valor de 2.500:000$000 os bens da massa falida de Mauá & Cia., ficando ainda com o saldo credor no valor de 3.075:000$000, a ser qualificado como crédito quirografário. A lei nº 2.565, de 29 de maio de 1875, que poderia dar elasticidade ao meio circulante na eventualidade de aperto financeiro, foi revogada pela lei orçamentária de 31 de outubro de 1879. Mas persistiu a necessida- de de autorização legal.

Logo no início de 1880, o Conselho Diretor anunciou uma decisão que gerou expectativas animadoras. Considerando altos os lucros do último semestre, procedeu à distribuição de dividendos na base de 10$000 a cada ação. Por vários anos o dividendo vinha sendo pago, inicialmente na base de 8$000 e, por último, na base de 9$000.

Decorridos apenas dois meses do novo ano, exonerou-se o Ministério presidido por Cansanção de Sinimbu, após encontrar dificuldades no Parlamento para aprovar uma reforma eleitoral. Foi chamado para constituir um novo governo o conselheiro José Antônio Saraiva.

De comum acordo com o ministro da Fazenda e com a aprovação do governo, o Banco adotou medidas que, pelo menos parcialmente, levavam à sustentação do câm- bio e a atenuação das suas habituais oscilações. Mas, na incerteza da orientação do novo governo e devido à redução das suas disponibilidades no exterior, o Banco acabou se retirando do mercado de câmbio, provocando uma baixa, apesar da boa safra de café e da perspectiva de abundante produção algodoeira.

Paralelamente, o Banco começava a retroceder no limitado impulso que vinha dando à Carteira Hipotecária, decidindo que o ano de 1880 não faria nova emissão de letras hipotecárias. Entre os motivos, alegou-se que davam a insuficiente margem de 1% de lucro e que a campanha abolicionista, ao anunciar a libertação da mão de obra escrava, não encorajava os empréstimos à agricultura. Mantendo a linha do retrocesso, o Conselho Diretor mandou, em 29 de setembro de 1880, que a Carteira Hipotecária quitasse junto à Carteira Comercial seu débito de 758:936$029 e que, a partir daí,

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pagasse, regularmente, tudo quanto entrasse em amortização de hipotecas urbanas. Resolveu, no entanto, abrir, a contar de 1º de outubro, o recebimento de propostas para empréstimos hipotecários à lavoura, até o limite de 2.500:000$000, provocando uma demanda intensa com o registro de 124 propostas, num valor muito superior ao previamente fixado.

Ainda em 1880, os funcionários do Banco reivindicaram a criação de uma previ- dência em seu benefício. Apesar do apoio restrito do Conselho Diretor, foi implantada uma Caixa de Montepio, sustentada por um dia de salário, em cada mês, dos funcioná- rios. A participação do estabelecimento nessa iniciativa reduziu-se à decisão do Conse- lho Diretor de obrigar todo empregado admitido a contribuir para a Caixa, e de mandar reverter em favor do fundo os descontos impostos aos servidores por suas faltas. No dia 4 de outubro, a Assembleia Geral dos Acionistas novamente elegeu para a presidência do Banco, José Machado Coelho de Castro.

No período de 1871 a 1880, os lucros do Banco se mantiveram entre 4 mil e pou- co mais de 5 mil contos de réis. Assim, durante esses anos, não se registraram lucros líquidos que indicassem prosperidade, podendo se classificar o período como de ate- nuada estagnação. O comércio geral do país, representado pelas importações e exporta- ções, também não marcou índices de expansão, mantendo-se, sem alterações, na faixa de 300 mil a 350 mil contos. Foi somente no ano de 1880 que ocorreu uma elevação mais acentuada, chegando a quase 400 mil contos.

A soma total das operações do Banco, no entanto, evoluiu, passando, em núme- ros redondos, de 195 mil, em 1871, para 1.512.615 contos de réis, em 1880. A evolução dos lucros não sintonizou com a expansão do movimento operacional, que cresceu muito em toda a década. Comparativamente, o aumento do número de empregados foi muito moderado. Com um pequeno quadro de servidores, que passou de apenas 30 em 1872 para 47 em 1880, o Banco podia movimentar sempre maiores fundos.

Saraiva, o novo presidente do Conselho, não só conseguiu aprovar rapidamente uma reforma eleitoral, como presidiu, com imparcialidade, a eleição da Câmara rea- lizada em outubro de 1881, que apresentou um resultado insólito: foram eleitos 68 deputados liberais e 50 conservadores, ao contrário das antigas esmagadoras maiorias do partido do governo. Logo se formou uma dissidência no Partido Liberal, que ficou como fiel de balança, aliando-se esporadicamente ao Partido Conservador para derru- bar ministérios.

Assim foi que, após cair, em janeiro de 1882, o Ministério presidido por Saraiva, assumiu e saiu, no mesmo ano, o Ministério chefiado por Martinho Campos. Ainda em 1882, tomou posse o Ministério presidido por Lafayete Rodrigues Pereira. Novo Mi- nistério assumiu em junho de 1884, tendo à frente Manuel Pinto de Sousa Dantas. Em

maio de 1885 foi a vez, novamente, do Ministério presidido por José Antônio Saraiva

e,

em outubro do mesmo ano, de novo Ministério comandado pelo barão de Cotegipe,

o

qual, tendo manipulado a eleição e obtido esmagadora maioria para o seu partido,

conseguiu se manter até março de 1888, quando assumiu o Ministério presidido por João Alfredo Correia de Oliveira. Em junho de 1889, toma posse novo Ministério, ten-

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do à frente o visconde de Ouro Preto, que logo em novembro sofreu a derrocada que resultou na proclamação da República.

Em junho de 1881, admitindo que as operações de câmbio davam prejuízo, o Banco retraiu-se no mercado. O fato repercutiu no Parlamento através de pedidos de informações, apreciações e conjecturas que procuraram devassar as suas operações. Respondendo, embora com relutância, a um pedido de informações do Parlamento, o Banco esclareceu que, até 1880, tivera lucros nas operações de câmbio, mas sofrera pre- juízo, em 1881, de 798:403$887. No Senado, Teixeira Júnior, utilizando até cálculos de probabilidades, procurou demonstrar que esses prejuízos foram muito mais elevados.

No relatório apresentado à Assembleia Geral dos Acionistas, em 30 de julho de 1881, o Banco assinalou que, na Carteira Hipotecária, as concessões de créditos con- tinuavam limitadas ao valor das amortizações recebidas, dentro do propósito de não estender o círculo dessas operações, embora continuasse satisfatório o estado da repar- tição hipotecária, com regulares serviços de juros e amortizações. O atraso, afirmou, era meramente de rotina.

Em 1882, divulgou-se que a balança das transações do Brasil com o exterior apre- sentava um desequilíbrio no valor de 49 mil contos de réis, disto resultando a lenta, mas constante baixa do câmbio. Em 1883, o governo autorizou emendas nos estatutos do Banco que haviam sido aprovadas pela Assembleia Geral dos Acionistas, e que am- pliaram algumas operações autorizadas e liberaram outras.

O relatório do presidente do Banco aos acionistas, em 20 de agosto de 1883, registrou reduções no movimento operacional e reconheceu que a má situação da la- voura se acentuou no ano bancário que terminava. Enquanto, no ano anterior, 70% dos contratos hipotecários estavam sendo pagos em dia, no final do ano seguinte essa proporção baixou a 65% para os contratos de agricultura, mantendo-se em 50% para os urbanos. Na Assembleia dos Acionistas, realizada em 9 de outubro de 1883, reclamou- se que a soma confiada pelo estabelecimento ao governo era muito alta, pois chegava a um total de 45 mil contos, superior ao do capital. Esta aplicação, defendeu-se a direto- ria, não levava o Banco a regatear créditos ao comércio e à indústria.

No período de 1883 a 1884, o movimento do Banco do Brasil, que se recuperava da depressão ocorrida no ano anterior, voltou ao normal. Registraram-se, então, altas cotações das suas ações, em torno de 300$000, e elevações no movimento de caixa, nos pagamentos de cheques, nos lucros, nos descontos de letras, nas contas correntes garantidas e nas contas correntes credoras. As perspectivas de uma abolição da escra- vatura próxima geraram incertezas na economia do país e, sem a necessária segurança para a realização de empréstimos à lavoura, o Banco decidiu manter uma atitude de vi- gilância, sustentando os contratos. Nessa altura, somente 54% dos devedores estavam pagando pontualmente as suas prestações.

Pouco tempo depois a situação agravou-se. No segundo semestre de 1884, cresceu o número de pedidos de moratória e de liquidações com abatimentos por parte dos clien- tes. O capital da Carteira Comercial estagnou, sob o peso dos protestos, falências e mora- tórias. Lucros e fundos de reserva foram afetados. Os dividendos baixaram de 10% para

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8,5%. As cotações das ações caíram até 220%. O lucro líquido, que no ano anterior chegou

a mais de 5 mil contos, declinou para pouco menos de 4 mil contos. O fundo de reserva,

que deveria elevar-se para pouco mais de dez mil contos, desceu a 7.775:777$635. O saldo da conta de títulos em liquidação, que em julho de 1884, estava em quase 1.600 contos, subiu no ano seguinte para pouco mais de 5 mil contos. Os índices numéricos do movimento do Banco acusavam baixa generalizada. Registrava-se uma depressão, embo- ra leve e passageira, que já no ano seguinte cederia aos indícios de recuperação.

Os governos sucediam-se a pequenos intervalos, abalados pelas dificuldades fi- nanceiras e pelo movimento abolicionista, que já tinha apoio da Casa Imperial e mar- chava para uma vitória. Não o abrandou a aprovação, pelo Parlamento, de um projeto que tentava atenuar a escravidão, inclusive com a emancipação dos sexagenários. Não existiam propriamente adversários da abolição, mas sim, duas correntes de abolicionis-

tas: uma que a queria logo e total e outra que a preconizava progressiva, para amortecer

o abalo que sofreria a lavoura com a súbita escassez de mão de obra escrava.

O imperador tentou manter o Partido Liberal no poder, mas suas lideranças já

não mais tinham condições de organizar ministérios. Chamou, então, ao governo, em agosto de 1885, o Partido Conservador, conferindo ao barão de Cotegipe a missão de organizar e presidir o Ministério. No mesmo mês, a Assembleia dos Acionistas apro- vou uma reforma dos estatutos – sancionada pelo governo somente dois anos depois, por decreto de 4 de agosto de 1887 -, que prorrogava o prazo de duração do Banco até o ano de 1910 e admitia o voto de acionistas na Assembleia por procuração com poderes especiais.

Em 1886, o Banco, finalmente, mudou de presidente. Coelho de Castro, que du- rante muitos anos vinha exercendo o cargo, demitiu-se e deu lugar ao visconde de To- cantins. No mesmo ano, entre março e abril, o Banco entrou em acordo com o ministro

da Fazenda para encarregar-se de abrir, por conta do Tesouro, subscrição pública “para

o empréstimo de 50 mil contos de réis nominais”, percebendo a comissão de 0,5% so-

bre o valor nominal subscrito. Foi também contratado um empréstimo no exterior, de 6 milhões de libras. Um dos motivos apresentados foi a consolidação da dívida flutuante do Tesouro, já em torno de 100 mil contos de réis.

O ministro Francisco Belisário Soares de Sousa, da Fazenda, apontou na Câmara,

nesse ano, a gravidade de situação das finanças do país e lembrou que “o déficit orça- mentário foi quase uma constante por todo o Império, desde 1826 até 1886, pois, em 60 anos, somente registraram-se saldos em sete exercícios”. No final desse ano cresce- ram, na imprensa, as críticas à administração do Banco do Brasil, ao qual se atribuíram prejuízos de até 8.830:681$000.

Segundo documentos do próprio Banco, ocorreu, no começo de 1887, o aumento de 9% dos dividendos relativos ao segundo semestre de 1886, base mantida no ano de 1887. No começo do segundo semestre de 1887, o Banco envolveu-se com vários casos de liquidações e falências, inclusive de firmas importantes na cidade do Rio de Janeiro.

O movimento abolicionista também contribuía para as dificuldades do Banco,

principalmente nos casos de proprietários que resolviam dar espontaneamente eman-

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cipação a escravos que figuravam como garantia de empréstimos. O Banco chegou a protestar, adotando posição realmente impopular. Em 27 de agosto de 1887, registrou- se em ata que a suspensão dos empréstimos à lavoura havia sido executada com ex- tremo rigor, negando atendimento até mesmo a proponentes que já tinham avaliações feitas. Para sua própria conveniência, o Banco havia concedido empréstimos que visa- vam exclusivamente garantir dívidas em más condições.

No ano de 1887, o Banco continuava com os lucros líquidos estagnados em 4.325:557$875 e a cotação de suas ações entre 278$000 e 265$000. A Carteira Hipo- tecária mantinha-se em sua rotina de liquidação, pois realizou, em 1877, apenas 13 contratos, todos provenientes de novas ações ou vendas de propriedades adjudicadas ao Banco ou para garantia de títulos em liquidação. Por isso, sofria críticas no Parlamen- to, onde Silveira da Mota acusou o Banco de instituição fatal ao país, que embaraçava todos os empreendimentos. Calculando que o Banco chegava a ter mais de 40 mil escravos hipotecados, Silveira disse que a instituição cometeu o abuso de suspender, há quatro anos, os seus empréstimos à lavoura, mas ainda desfrutava dos favores da emissão, em razão da qual ainda possuía 15 ou 16 mil contos de réis.

Houve uma denúncia, na Câmara, de que o Banco não estava cumprindo o con- trato pelo qual se comprometeu a manter a quantia de 25 mil contos de réis empregada em hipotecas de longo prazo à agricultura. Exigiu-se, então, que o governo o punisse através de aumento do percentual que reduzisse sua emissão, mas não se tomou qual- quer providência efetiva.

Em 1888, já se ponderava que a abolição não traria as consequências que se imaginava, pois o escravo não era mais julgado fator indispensável da produção e as estatísticas, principalmente das safras abundantes de algodão, açúcar e borracha nas províncias do Norte, estavam provando de modo incontestável a superioridade do tra- balho livre. A transição não se faria, certamente, sem sacrifícios de interesses individu- ais, mas tudo parecia indicar que os cofres públicos não sofreriam o grande abalo que se receava 20 .

Os números mostravam que a situação econômica e financeira do país era re- almente próspera em meados desse ano, com abundância de ouro. O câmbio subiu para mais de 27, o dinheiro estava acessível, as taxas de descontos regulares, os fundos públicos mantiveram posição relativamente firme, os títulos comerciais e industriais foram negociados sem dificuldades e, até em alguns casos, com movimento avultado. Realizaram-se, de modo eficaz, empréstimos no exterior e na praça 21 .

O Banco do Brasil liderava o movimento bancário, conforme assegurou o minis- tro Francisco Belisário em discurso pronunciado no Senado, em 23 de julho:

“Só um dos dois bancos são obrigados sempre a operar, qualquer que seja a taxa dos descontos. No dia em que sustassem as operações, dar-se-ia uma crise. Na praça do Rio de Janeiro esta função é principalmente exercida pelo Banco do Bra-

20. Retrospecto do Jornal do Commercio, publicado em 9 de janeiro de 1888.

21. Antônio Carlos, Os Bancos de Emissão no Brasil, 1923, p. 201 e 202.

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sil. Todos os outros bancos podem restringir seus negócios. O do Brasil é obrigado a fazê-lo sempre; no dia em que parasse as suas operações haveria uma crise.”

Se a situação econômica e financeira era satisfatória, a evolução social e política trazia as marcas da desagregação. O grande movimento da abolição era irreversível. Reivindicava-se a extinção imediata e total da escravatura, desprezando-se as propos- tas para um processo gradual apresentadas no Parlamento. Muitos senhores de escra- vos começaram a aderir e a abrir mão de seus direitos, concedendo espontaneamente

a alforria. Segundo levantamento feito, em 1883, havia no Brasil 1.584.974 escravos.

Quatro anos depois, de acordo com estatística realizada por força da lei de emancipação dos sexagenários, revelou-se que o número de escravos havia baixado para 723.419.

A supressão do castigo corporal, a debandada dos escravos que abandonavam o

trabalho, a impotência e até o desinteresse da força pública em fazê-los retornar aos “donos” fizeram com que a abolição já estivesse realizada de fato quando, afinal, foi proclamada em lei. A Casa Imperial já tinha aderido ao movimento e a princesa Isabel,

que atuava como regente durante as viagens do imperador à Europa para tratamen-

to de saúde, pressionou a demissão do Ministério presidido pelo barão de Cotegipe,

nomeando para o cargo o senador João Alfredo Correia de Oliveira, que tomou posse em 10 de março de 1888. Em 8 de maio, o ministro Rodrigues Silva, da Agricultura, apresentou, na Câmara dos Deputados, o projeto que simplesmente declarava extinta

a escravidão no Brasil, sancionado em 13 de maio.

Muitos dias transcorreram de comemorações, durante quase todo o mês de maio.

O governo mostrou-se incapaz de prevenir as consequências sociais e econômicas da

abolição. Coube ao Banco do Brasil, que havia suspenso seus empréstimos à agricultu- ra, tomar providências, agindo sobretudo em defesa de seus interesses, afetados pela abolição, que provocou uma baixa geral nas garantias das operações bancárias. Ainda

em maio, o Conselho Diretor do Banco começou a discutir propostas, considerando, in- clusive, a hipótese de pleitear junto ao governo maior prazo para amortizar sua emissão

e, assim, conceder maior folga aos devedores da Carteira Hipotecária. Iniciou, também,

entendimentos com o próprio presidente do Ministério e ministro da Fazenda, João Alfredo, combinando as bases de um acordo.

Em discurso de 25 de julho, o ministro relatou à Câmara dos Deputados os seus

entendimentos com o Banco e pediu uma deliberação a respeito. Explicou que deu preferência ao Banco do Brasil porque já existia desde 1873 um acordo entre este e

o governo para apoio à agricultura, no qual o primeiro se obrigou a constituir uma

Carteira Hipotecária com 25 mil contos de réis. Como esta carteira estava com as suas

aplicações reduzidas a 19 mil contos de réis, o Banco foi convencido a completá-la, fi- cando então sujeito à multa em que incorrera por não ter empregado em empréstimos

à agricultura o máximo fixado.

O próprio governo havia reforçado a carteira com seis mil novos contos de réis, a

fim de que o Banco pudesse emprestar até 12 mil contos de réis à lavoura, a juros de 6%

ao ano, para as necessidades do momento. Além das operações de hipoteca, podiam ser

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feitos empréstimos com penhor agrícola, sob caução de títulos da dívida pública, ou de ações de companhias garantidas pelo Estado e por letras com duas firmas, pelo menos, de lavradores abonados, ou de mutuário lavrador e de outra pessoa abonada, vigorando, nesta parte, a arbítrio do Banco, por um a dois anos.

Foi aprovada, por 70 votos contra 40, na sessão de 26 de julho, uma simples moção dizendo que a Câmara concordava com a solicitude do governo em acudir às urgências da agricultura. Com isso, em agosto e outubro, foram assinados contratos entre o Banco e o governo para conceder auxílios ao campo e estendê-los a agricultores de Pernambuco, Alagoas, Rio Grande do Norte e Sergipe, com um capital de três mil contos de réis, entrando cada parte com a metade. Não faltaram críticas a esses acordos, sob alegação de que o governo tinha tirado recursos do Tesouro a fim de entregá-los a um estabelecimento bancário, para conceder pequenos créditos que serviriam a alguns lavradores, com o agravante da preferência por estabelecimento que não tinha cum- prido o seu contrato anterior. O governo, argumentava-se, iria fazer muitos favores ao Banco para que cumprisse o que já era claramente sua obrigação.

Na realidade, o auxílio à área rural foi prestado, embora deficiente. A utilização dos empréstimos não foi grande e isto permitiu que se publicasse que a abolição não causou, como antes se temia, a perda total da atividade agrícola e nem a ruína das for- tunas. Pelo contrário: as colheitas cresceram. Divulgou-se, também, que o produtor en- frentou a nova situação com coragem e dignidade, tornando atrativo o trabalho agrícola para o trabalhador livre e nacional, empregando o emigrante europeu e comprovando as vantagens do trabalho remunerado 22 .

Ao assumir o poder, presidindo o Ministério, de 7 de junho de 1889, e ocupando a pasta da Fazenda, o visconde de Ouro Preto alertou sobre a insuficiência dos auxí- lios prestados à agricultura e resolveu intensificá-los, não somente com o aumento do valor de recursos fornecidos pelo Tesouro, como pela maior disseminação territorial dos financiamentos, empenhando-se em ampliá-los a um número maior de estabeleci- mentos bancários. Em alguns casos também foram celebrados acordos, estendendo-se empréstimos aos engenhos centrais, indústrias ligadas à agricultura, províncias, mu- nicipalidades e empresas de viação, fábricas centrais e outras. Não faltaram críticas, entre as quais de que o governo fugiu ao seu dever de indenizar a lavoura, preferindo oferecer-lhe o auxílio oneroso do crédito.

Para apoiar a agricultura a longo prazo, o Ministério apresentou à Câmara um projeto de concessão de garantia governamental para a fundação de banco de crédito real, pelo qual o governo era autorizado a conceder a garantia de juros de 5% e amorti- zação de letras hipotecárias, emitidas por bancos que se fundassem sob o plano da lei nº 1.237. Aprovado, não chegou a ser discutido no Senado. Outra proposta de reforma bancária foi apresentada na sessão do Senado, de 19 de junho de 1887, pelo senador Teixeira Júnior, visando à reimplantação dos bancos de emissão. Sua ideia central era de que, com base em autorização do Poder Executivo, poderiam emitir bilhetes ao portador e à vista, conversíveis em moeda corrente do Império, os bancos de depósitos

22. Jornal do Commercio, edição de 24 de abril de 1889.

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e descontos que, em garantia do pagamento desses bilhetes, depositassem na Caixa de Amortização o valor de 90% em apólices da dívida pública interna.

Na esteira desse projeto o governo concedeu facilidades para que se fundasse um banco de grande estatura, denominado Banco Nacional do Brasil, que teve autori- zação para funcionar em estatutos aprovados pelo decreto nº 10.369, de 28 de setem- bro de 1889. Este banco, fundado sob a direção do visconde de Figueiredo, figura de reconhecida competência e prestígio nos meios econômicos, fundiu-se com o Banco Internacional, também criado por ele, e foi lançado com um capital de 90 mil contos de réis. Em 2 de outubro, celebrou-se o contrato para o resgate do papel-moeda entre esse Banco Nacional e o Tesouro.

O visconde de Ouro Preto tomou a iniciativa de criar no Rio de Janeiro uma câmara de compensação para a “liquidação das operações diárias por meio da permuta ou encontro de cheques, cartas ou letras sem dependência da tradição do numerário”. Com a denominação de Clearing House, funcionou eficientemente, mas foi dissolvida em 1º de fevereiro de 1889, em consequência de discordância entre seus sócios.

Intensificando as iniciativas na área econômica, Ouro Preto realizou empréstimo

interno, na praça do Rio de Janeiro, no valor de 100.000:000$000, a juros de 4% ao ano,

o qual, com muito sucesso teve uma cobertura excedente do dobro. Outra operação de

crédito de igual êxito foi feita na praça de Londres, representada pela conversão dos

títulos da dívida pública externa.

Ao mesmo tempo, crescia na Bolsa a febre de negociações e especulações. Ati- vou-se o mercado de ações, mediante copiosos lançamentos de novas companhias de comércio e indústria, que logo saíam com o capital elevado ou, se já existente, aumen- tado. O mesmo fizeram os bancos, já em preparativos para pleitear o poder de emissão. Iniciava-se, assim, um movimento desastroso, que alimentaria a grande crise que iria eclodir nos primeiros anos do regime republicano, ao final do século.

No período de 1887 a 1888, a Assembleia Geral dos Acionistas do Banco do Brasil aprovou três reformas dos estatutos. Entre as alterações estavam a redução para quatro, do número de diretores, que passaram a ter funções de gerentes; o aumento do

capital para 100 mil contos de réis; a permissão para o Banco emitir bilhetes ao portador

e à vista, conversíveis à sua apresentação em moeda metálica; a elevação do mandato da diretoria para seis anos e a continuidade das operações de crédito agrícola.

Em dezembro de 1888, o barão de Cotegipe, que deixou a presidência do Minis- tério, foi eleito presidente do Banco, mas faleceu em 13 de fevereiro do ano seguinte. Seu substituto, visconde de São Francisco, em 12 de outubro de 1889, cedeu lugar ao senador, conselheiro e também antigo presidente do Conselho de Ministros, Manuel Pinto de Sousa Dantas.

Em 16 de abril de 1889, a diretoria resolveu desativar a Carteira Hipotecária, mandando aplicar nas outras operações do Banco os saldos nela existentes e os que estivessem liquidando, sem prejuízo do fundo estabelecido para seção de crédito agrí- cola. O Banco, como informou seu presidente na reunião da diretoria, realizada em 31

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História do Banco do Brasil

de agosto de 1889, havia sido convidado para tomar parte, com outros bancos, em um empréstimo de 100 mil contos a ser lançado pelo governo, e já tinha assinado contrato garantindo, por sua parte, a soma de 25 mil contos de réis.

A abolição da escravatura provocou retrocesso nas operações do Banco do Brasil. No período de 1887-1888, caiu o movimento de caixa. A administração, embora sem recusar a assistência creditícia, dirigiu as operações de modo cauteloso, procurando garantir a sua segurança. Caiu o movimento dos descontos, embora aumentasse o das contas correntes com garantia. O resultado inevitável foi a diminuição dos lucros líqui- dos, que se situaram em 3.889:265$283, ainda assim permitindo a distribuição de um dividendo de 9% e o reforço do fundo de reserva com o valor de 845:150$283. No ano bancário de 1888 a 1889, os lucros líquidos baixaram a 3.551:607$502 e os dividendos foram pagos à razão de 8$000.

Em 1889, a imprensa advertiu que o Banco do Brasil estava se expondo a riscos, pois não era um só banco, mas dois, sob uma só denominação – um hipotecário e agrí- cola e o outro de depósitos e descontos. Não era possível, argumentava-se, conciliar as exigências dos negócios hipotecários, que eram operações de longo fôlego que re- clamavam empates permanentes de capital, com as exigências das operações de des- contos e depósitos, que só podiam ser feitas com recursos de pronta mobilização. Em novembro, o Exército conquistou o poder, proclamando a República, que representou um ato de intervencionismo militar, recebido sem resistência pela coletividade e pela cúpula monárquica. O novo governo pôs em prática o regime federal de Estado, dando ao país o nome oficial de República dos Estados Unidos do Brasil, adotou nova bandei- ra, estabeleceu a liberdade de cultos, a separação entre o Estado e a Igreja e o sufrágio universal, e eliminou o Conselho de Estado.

Convocou, também, a Assembleia Constituinte que, reunida, em 15 de novembro de 1890, elaborou, com base num projeto apresentado pelo governo provisório, a nova Constituição, promulgada em 25 de fevereiro de 1891. Por pequena maioria, o Congresso elegeu primeiro presidente da República o marechal Deodoro da Fonseca, que procla- mou o novo regime e chefiou o governo provisório. Para vice-presidente foi eleito o marechal Floriano Peixoto, que não era o candidato da preferência de Deodoro.

Os primeiros anos do regime republicano foram de discórdias políticas e difíceis ajustes. O presidente da República chegou a dissolver o Congresso, numa atitude ti- picamente monárquica. Fortes resistências levaram o presidente a renunciar, sendo substituído pelo vice, Floriano Peixoto, que permaneceu no cargo até o fim do manda- to, embora devesse, antes, convocar nova eleição.

Na área econômica, a República estreou com a atuação de Rui Barbosa na pasta da Fazenda. Ele manteve, inicialmente, com prudência, a execução da política finan- ceira conduzida pelo último Ministério imperial. A faculdade de emitir foi concedida

a novos bancos e mantidos os compromissos de auxílio à agricultura. Mas, criticando

a política agrícola e financeira dos governos anteriores, o novo ministro desencadeou, posteriormente, várias mudanças, até que, em 17 de janeiro de 1890, promoveu a sua reforma financeira, através de quatro decretos que foram baixados no mesmo dia.

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História do Banco do Brasil

Sob o nº 175, um deles tratava da organização de bancos de emissão, com as seguintes disposições: poderiam emitir bilhetes ao portador os bancos que, fundados com autorização do governo, tivessem o seu fundo social constituído de apólices da dívida pública, moeda corrente ou ouro; o país ficava dividido em três zonas – Norte, Centro e Sul -, cada uma dotada de um banco; a emissão de bilhetes ao portador, que gozaria das regalias conferidas às notas do Estado, não podia exceder a importância das apólices que constituíssem o fundo social do banco, sob pena de severas sanções.

De acordo com a reforma desencadeada por Rui Barbosa, os bancos poderiam emitir letras hipotecárias, operar em empréstimos, descontos, câmbio, hipotecas, pe- nhor agrícola, em empréstimos industriais para construções de edifícios, obras públi- cas, compra e venda de terras, colonização. Poderiam incumbir-se, por conta própria ou alheia, de drenagem e irrigação de solos, abertura de estradas e caminhos rurais, cana-

lização e direção de correntes, lagoas e rios e de dar meios a qualquer cultura pecuária

e de exploração de minas.

Além disso, os bancos poderiam contrair, em favor do Estado, as seguintes obri- gações: reduzir 2% dos juros das apólices, que constituíssem o seu fundo social, e au- mentar essa porcentagem 0,5% anualmente, até a completa extinção dos juros; cons- tituir, com uma cota nunca inferior a 10% dos lucros, sobre a qual seriam contados semestralmente juros na razão mínima de 6% ao ano, um fundo cuja formação cessaria logo que sua importância atingisse o respectivo limite para representar o capital em apólices, que ficariam anuladas, para todos os efeitos, no fim do prazo de duração dos bancos, que era de cinquenta anos, prorrogáveis; converter em espécie metálica, à von- tade do portador e à vista, apenas as notas que emitissem, um ano depois de o câmbio atingir e manter a taxa de 27% ou mais, tomando igual compromisso quanto às notas do governo em circulação, sem direito à indenização.

Essas disposições foram depois alteradas por sucessivos decretos que aumen- taram o número de bancos e o limite de suas emissões. Assim, os planos de reforma

bancária de Rui Barbosa sofreram variações. Para isso teria concorrido, principalmente,

o fato de que Rui Barbosa havia lançado as reformas apenas com a aprovação do pre-

sidente da República, sem informar aos outros membros do Ministério, que reagiram, forçando novos entendimentos, que resultaram nas alterações do projeto inicial.

As críticas estenderam-se a outros setores, obrigando Rui Barbosa a utilizar toda

a extraordinária força de seu poder verbal para se defender. Pandiá Calógeras, por exemplo, argumentou, em um de seus pronunciamentos:

“Como se vê, esse mecanismo por demais complicado para poder funcionar com segurança era, sobremodo, delicado para ser posto em prática, por conter os ger- mes das mais perigosas aventuras financeiras, como a imobilidade de fundos em empresas a longo prazo e de êxito pouco seguro, comprometendo, assim, a pers- pectiva do reembolso eventual da dívida contraída com o público pela emissão dos bilhetes. Isso era tanto mais arriscado porquanto as ideias financeiras do momen- to, voltadas inteiramente para a especulação, estimularam de maneira irresistível

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História do Banco do Brasil

o pulular de sociedades que tinham por finalidade aparente o aproveitamento dos recursos naturais do país, mas que não passavam, na realidade, de pretexto para um jogo e as apostas sobre títulos. A sucessão dos acontecimentos bem o comprovou” 23 .

A execução dos planos devia ocorrer durante um longo tempo e, assim, dependia vitalmente da continuidade da ação governamental. Mas a gestão de Rui Barbosa na pasta da Fazenda foi breve, pois ele demitiu-se em janeiro de 1891. Julgou, Rui Bar- bosa, que o plano de suas reformas foi uma obra de conjunto, “um sistema cheio de correspondências complexas e sutis, onde não poderia tocar em qualquer parte sem modificar a ação das outras e que então foi fácil destruir este plano, o que se fez a gol- pes cegos, pela introdução de enxertos bastardos” 24 .

Entretanto, bem diferente dessa ideia de um conjunto harmonioso, o que se viu na execução das reformas de Rui Barbosa foram desajustes e desafinações, que exigiram o constante recurso de remendos e correções. Assim, foram desencadeadas medidas sucessivas, que ora significavam avanço, ora retrocesso, ora tomavam uma ou outra direção, de tal modo que a reforma foi criticada por não obedecer a qualquer princípio, justapondo bancos, uns emitindo à base de apólices, outros sobre base de moeda corrente e ainda outros sobre base metálica. Dessa forma acabaram proliferan- do, na massa do papel flutuante, vários tipos de moedas de menor compatibilidade, como o papel-moeda do Estado, o resto do papel inconversível do Banco do Brasil, o papel conversível do Banco Nacional, o do Banco de São Paulo e o papel inconversível de outros bancos.

Naturalmente, tudo isso contribuiu para afetar as atividades econômicas. A cor- rente emissora resultante das reformas financeiras propostas pelo ministro Rui Barbosa não foi o ponto de partida da turbulenta fase de especulações, principalmente da Bolsa, que surgiu nos primeiros anos da República. Esse processo teve início no último ano do Império, quando o visconde de Ouro Preto, à frente do Ministério da Fazenda, procurou coibí-la. No entanto, Pandiá Calógeras, ao mesmo tempo em que descreveu o grau de delírio a que chegaram as especulações, carregou nas acusações de responsa- bilidade a Rui Barbosa 25 .

Apesar de manter cautela perante esse quadro, o Banco do Brasil mostrou-se dis- posto a cooperar na gestão financeira do primeiro governo republicano, realizando, com este fim, entendimentos bastantes cordiais com o ministro da Fazenda que, em fins de abril de 1890, ofereceu-lhe a incumbência de auxiliar o crédito público. Era uma volta ao antigo recurso de sustentação do câmbio, que o Banco não rejeitou.

Em junho de 1890, o Conselho Fiscal do Banco proclamava que a sua situa- ção econômica e financeira era próspera e segura, apesar de ter passado por grande transformação e de ter precisado se reorganizar. A nova emissão sobre base metálica,

23. A Política Monetária do Brasil, 1960, p. 227 a 229.

24. Finanças e Políticas de República, 1812, p. 222 e 223.

25. A Política Monetária do Brasil, 1960, p. 227 a 229.

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História do Banco do Brasil

prudentemente escoada, elevava-se a 17.439:600$000. As operações registraram largo desenvolvimento, o ativo quase duplicou em um ano. Os lucros apurados, em 1889, no total de 6.454:486$001, subiram, em 1890, para 9.237:018$623. Ocorrera redução dos títulos em liquidação. O Banco voltou a operar em câmbio por conta própria.

Foi de bom proveito a providência de cobrar, ao lançar no último aumento de capital, um prêmio de 40$000 sobre o valor de cada uma das novas ações, para reforço do fundo de garantia, que subiu para 18.081:975$106, portanto, mais de 27% do valor do capital e excedendo o percentual apresentado por grandes bancos estrangeiros. Em setembro de 1890, o presidente do Banco do Brasil fez objeções ao ministro da Fa- zenda contra um novo aumento de emissão que o governo ia conceder ao Banco dos

Estados Unidos, considerando-o erro econômico e político, capaz de agravar mais ainda

o estado da praça, e alertando que esse banco vinha alimentando um jogo especulativo. Em novembro de 1890, alguns bancos ingleses, inclusive o correspondente do Banco do Brasil, entraram em liquidação, mas depois se recuperaram. O Banco do Brasil re- solveu, então, fundar em Londres uma agência, escolhendo o barão de Ladário para instalá-la e dirigi-la.

Nessa época, o Banco do Brasil ocupava-se com a administração e custeio de cerca de 40 fazendas, que adquiriu através das execuções de empréstimos hipotecários

e que tinha dificuldades de vender, pois encontravam-se sob fiscalização. No começo

de 1891, o Banco vendeu a sua filial de São Paulo, com a intenção de limitar-se a um só centro de operações, no Rio de Janeiro.

O Banco concedia então, aos seus empregados, em cada semestre, gratificações

especiais que variavam de 20% a 25% do vencimento anual. Em 25 de março, trans- feriu ao Banco da República dos Estados Unidos do Brasil os direitos e privilégios de emissão que havia adquirido no ano anterior, cedendo também a propriedade da soma de 25 mil contos que possuía em ouro, depositada no Tesouro Nacional, para servir de lastro à emissão.

O relatório apresentado aos acionistas, em 1891, mostrava que o Banco conse-

guiu do governo a rescisão do seu contrato para auxílios aos lavradores, obtendo longos prazos para devolver ao Estado os recursos recebidos. Manifestou, também, propósito de liquidar o débito desses lavradores com prudência e critério, sem exercer pressão. Deste modo, livrava-se dos sacrifícios que fizera para manter a Carteira Hipotecária e garantia recursos para movimento mais lucrativo na Carteira comercial. O mesmo do- cumento argumentava que, apesar das dificuldades com que lutava a praça do Rio de Janeiro, o Banco achava-se , como nunca, em condições de maior prosperidade, sem ter jamais recusado os recursos de crédito ao comércio legítimo, nem deixado de amparar as empresas e indústrias.

O relatório, de junho de 1892, já refletia preocupação com o estado da praça,

considerado delicado. Rui Barbosa pediu demissão da pasta da Fazenda, sendo subs- tituído por Rodrigues Alves, com quem o Banco continuou a manter boas relações. O documento assinalava que a liquidação da Carteira Hipotecária continuava sem pres- são contra os devedores e com possíveis vantagens para o Banco.

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História do Banco do Brasil

Em setembro de 1892, Serzedelo Correia, substituto de Rodrigues Alves no Mi- nistério da Fazenda, sugeriu a fusão dos bancos do Brasil e da República dos Estados Unidos do Brasil. Os entendimentos nesse sentido foram difíceis, sobretudo porque a direção do Banco do Brasil resistia, porque entendia que o seu estabelecimento teria posição desvantajosa nessa fusão. Quanto ao Banco da República, revelou-se que suas administrações anteriores tinham cometido muitas erros, que o seu capital não estava integralizado e que devia ser reduzido para a sua admissão no novo estabelecimento.

O Banco do Brasil, conforme revelou o seu próprio presidente em sessão da dire-

toria, enfrentava dificuldade, dado o grande vulto dos negócios inseguros. A sua cartei- ra não continha títulos de pronta e imediata liquidação para oferecer recursos capazes de suprir a emergência de uma corrida de depositantes. A sua caixa decrescia progres- sivamente. A liquidação de muitos títulos de sua carteira só se realizaria com grandes e

inevitáveis prejuízos. Tinha imobilizado grande volume de capitais e não eram poucos os devedores que nem ao menos pagavam juros de suas dívidas.

Todo o país foi envolvido pelo crescimento das emissões bancárias e pelo desre- gramento do crédito, aos quais não escapou o Banco do Brasil que, em 1889, começou a trilhar o perigoso caminho dos excessos de financiamentos. Um dos maiores erros na atuação do Banco durante os anos da crise foi o da prioridade dada aos interesses dos acionistas, principalmente na distribuição de dividendos relativos a lucros fictícios. A soma das contas correntes garantidas subiu de pouco mais de 26 mil contos em junho de 1889 para mais de 182 mil contos em fevereiro de 1893. Em muitos casos as garan- tias eram insuficientes. No balanço de 1890, os depósitos exigíveis importavam em mais de 91 mil contos.

A situação do Banco da República era ainda pior, pois tinha apenas um insu-

ficiente equilíbrio, que resultava da avaliação favorável dos depósitos em ouro que serviam de lastro às emissões. Em discurso que pronunciou na Câmara dos Deputados, em setembro de 1896, quando já não ocupava a pasta da Fazenda, Serzedelo Correia chegou a dizer que tinha em seu poder o documento da falência do Banco do Brasil, o qual lhe foi dado pelo seu próprio presidente, conselheiro Dantas. Diariamente ocor- riam maiores saídas de dinheiro que as entradas. Capitais, depósitos, fundos de garan- tia, tudo havia sido comprometido em títulos, alguns sem valor.

Como em novembro o Parlamento encerrou as suas sessões sem votar solução alguma para o problema financeiro, o governo, invadindo atribuições do Poder Legisla- tivo, baixou o decreto nº 1.167, autorizando a fusão dos dois bancos, por maioria de voto nas respectivas Assembleias dos Acionistas. A nova instituição foi denominada Banco da República do Brasil. O seu capital era de 190 mil contos de réis, reduzido, dentro de seis meses, para 150 mil contos de réis, pelo recebimento e amortização de suas novas ações em pagamento de dívidas.

O novo Banco foi autorizado, para suprir as necessidades das indústrias nacionais

em condições de crescimento, a emitir, até a quantia de 100 mil contos de réis, bônus ao portador nos valores de 200$000 a 1:000$000. Foi encarregado, ainda, do serviço da dívida interna nacional. Ficou estipulado que o governo entraria em acordo com o novo

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História do Banco do Brasil

Banco para o resgate ou substituição do papel-moeda do Estado. Ao Banco coube, tam- bém, o direito exclusivo de emissão de notas ao portador e à vista, na razão do dobro do depósito em ouro, as quais seriam conversíveis em moeda metálica.

A diretoria do novo Banco compunha-se de nove membros, dos quais o presi-

dente, o vice-presidente e mais um diretor eram nomeados pelo governo, competindo ao presidente o direito de veto a todas as deliberações da diretoria que se referissem ao serviço de emissão e com as quais não concordasse, com recurso para o Ministério da Fazenda. O decreto dependia da aprovação do Congresso Nacional em sua primeira sessão. O Banco da República do Brasil tinha, assim, muita semelhança com o Banco do Brasil, fundado por Itaboraí, em 1853.

A Assembleia dos Acionistas do Banco do Brasil, reunida em 7 de janeiro de

1893, aprovou a fusão, mas com relutância, em face dos argumentos de que qualquer outra opção seria desastrosa. Pesou nessa ocasião, como antes, a esperança de que o

sacrifício feito pelos bancos ao se fundirem seria compensado pelas vantagens que teria

o

novo estabelecimento, fundado sobre base sólidas, capaz de inspirar confiança dentro

e

fora do país. Nasceria o novo banco, assim, solidamente amparado nos recursos do

governo. Suas ações seriam altamente cotadas, a ele convergiriam todos os depósitos e seu crédito seria amplo.

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História do Banco do Brasil

Capítulo7

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Capítulo 7 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Capítulo 7 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
O difícil resgate do papel-moeda Bolsa de Fundos Públicos do Rio de Janeiro, instalada na
O difícil resgate do papel-moeda Bolsa de Fundos Públicos do Rio de Janeiro, instalada na
O difícil resgate do papel-moeda Bolsa de Fundos Públicos do Rio de Janeiro, instalada na
O difícil resgate do papel-moeda Bolsa de Fundos Públicos do Rio de Janeiro, instalada na

O difícil resgate do papel-moeda

Bolsa de Fundos Públicos do Rio de Janeiro, instalada na rotunda da terceira Praça do Comércio. Desenho de Bryan de Grineau para La Nación de Buenos Aires (1922).

História do Banco do Brasil

Os primeiros tempos da República foram marcados, no Congresso, pelo distan- ciamento do governo em relação à gravidade da situação econômico-financeira do país, que já assumia contornos críticos. Os poderes Executivo e Legislativo permaneciam estanques, contrastando com sua atuação na Monarquia, quando os ministros constan- temente participavam e interferiam nas sessões do Parlamento. Eram os congressistas ou comissões do Congresso, preocupados com a situação, que tomavam iniciativas.

Na Câmara, em julho de 1891, a Comissão de Fazenda e Indústria, encabeçada por Francisco de Paula Leite e Oiticica, que se revelava um parlamentar atuante, apre- sentou um projeto que, entre outros objetivos, procurava limitar e regular a circulação de bilhetes de bancos e do Tesouro. Como justificativa, argumentava que a situação da praça era insuportável, em virtude da baixa extraordinária do câmbio e da desconfiança reinante, que abalava profundamente as relações comerciais.

Posteriormente, o deputado Demétrio Ribeiro propôs que se nomeasse uma comissão especial para estudar detidamente o assunto e apontar as medidas necessá- rias para o resgate do papel-moeda e a revisão dos contratos com os bancos de emis- são, visando unificar o padrão da moeda fiduciária, limitar as emissões e valorizar o papel-moeda.

Em setembro de 1891, já havia cinco projetos diferentes em discussão nas duas casas do Congresso, todos com o mesmo objetivo – a reorganização do principal banco emissor, que teria abusado dos privilégios excessivos concedidos por uma lei bancária defeituosa. Chegou, então, ao Senado, no dia 19 do mesmo mês, uma exposição de motivos do ministro da Fazenda, o barão de Lucena – monarquista que assumiu o go- verno no começo do ano, com força de primeiro-ministro -, propondo reformas através da reorganização e fortalecimento do Banco da República.

A Comissão de Finanças do Senado formulou com presteza um projeto de lei

que, assinado pela maioria dos seus membros, incorporava as ideias do ministro, já encampadas pelo presidente da República. Mas a minoria restante preferiu apresentar outro projeto, que reproduzia as mesmas ideias, com mais fidelidade. Dispersavam-se, assim, os esforços e cada uma das câmaras propunha, elaborava, discutia, sem a neces- sária articulação em torno dos projetos.

A Câmara, afinal, decidiu reunir todos os trabalhos e propostas sobre o assunto

dentro de uma comissão mista de deputados e senadores, que apresentou, em 7 de outubro, um novo projeto destinado a regular as emissões bancárias. Corriam, então, opiniões de que as emissões deviam cessar, por que o próprio papel bancário já era ex- cessivo, tinha sido mal aplicado e gerou a crise financeira e econômica, que não poupou a Bolsa nem o câmbio – em depressão - até um limite ruinoso.

O golpe de Estado desferido pelo marechal Deodoro, já citado no capítulo ante-

rior, dissolvendo o Congresso, paralisou todos esses trabalhos legislativos. Rodrigues Alves assumiu o Ministério da Fazenda e inspirou um novo projeto, apresentado por senadores governistas, que inicialmente colocava sob a responsabilidade direta do Es- tado as emissões de notas bancárias e passava à propriedade do governo os depósitos feitos em apólices da dívida pública e moeda metálica. Nada disso vingou, nem foi

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História do Banco do Brasil

votado, porque começaram a eclodir as revoltas armadas, levando o Congresso, em 21 de janeiro, a encerrar precipitadamente as suas sessões.

Enquanto isso, caiu a cotação dos títulos do governo em Londres e do câmbio. Pressionado, o ministro da Fazenda resolveu adotar a sugestão da Associação Comer- cial, no sentido de aplicar uma antiga lei monárquica, de 29 de maio de 1875, que autorizava a emissão para fornecer recursos aos bancos. O Banco da República valeu-se dessa concessão, no modesto total de 8.500:500$000.

O ano de 1892 avançou atrelado à crise. Foi um período de falências com ele- vados passivos, de ruína geral do comércio e das indústrias, arrastando boas empresas, destruindo as fortunas fáceis, mas também afetando os capitais sólidos. O governo re- velava-se impotente para adotar medidas eficazes de salvação. Os bancos retraíam-se, limitando e até mesmo suspendendo operações, concorrendo, assim, para o clima de instabilidade. Embora muito criticado, o Banco do Brasil foi apontado na imprensa como o único que não pressionava os seus devedores, facilitando, ao contrário, a liqui- dação e a reforma das operações.

Em 30 de maio, o governo contratou uma operação em Londres, no valor de 2 milhões de libras, mas o câmbio manteve-se em baixa. Em 17 de dezembro, aprovou um decreto de apoio à indústria. No Congresso, Leopoldo de Bulhões alertou sobre os riscos dos compromissos do governo em ouro, que já tinham chegado ao total de 133.204:608$000 por ano – mais de três quintos da receita pública. Em 25 de outubro de 1892, ele advertiu que aquela era a crise mais grave que já tinha ocorrido desde 1832, porque era ao mesmo tempo política, econômica e monetária. E atribuiu grande parte da culpa às desregradas emissões dos bancos.

Finalmente, o Congresso aprovou um projeto, sancionado apenas em setembro de 1893, que consolidou o decreto de 17 de dezembro e introduziu as seguintes provi- dências: a emissão de bônus destinar-se-ia especialmente ao apoio a empresas indus- triais de qualquer natureza, em boas condições de crédito e desenvolvimento; um terço da mesma emissão ficaria reservado às empresas que funcionassem na capital federal e os dois terços restantes àquelas que, tendo ou não a sua sede na capital, estivessem estabelecidas e funcionassem nos estados; o novo banco ficaria encarregado do serviço da dívida internacional e não da dívida interna.

Enquanto isso, os recursos monetários, já bastante escassos, que deveriam estar voltados para garantir o saneamento financeiro, foram desviados para custear ações governamentais de repressão às revoltas, que logo absorveram os lastros de apólices- ouro e de apólices-papel, no total de pouco menos de 30 mil contos de réis. Assim, foi necessária nova emissão do papel-moeda do Tesouro, autorizada por decreto de 23 de dezembro de 1893, e que totalizou 82.000:000$000.

Segundo o relatório do presidente do Banco do Brasil relativo a 1893, o entrosa- mento entre o governo e o Banco tinha resultado “num jogo isócrono de oscilações”, no qual o crédito público, nas épocas de retração, vinha em auxílio do Banco para que pudesse prover as justas necessidades de sua clientela, ou então, ao contrário, era o Banco que, nos períodos mais férteis, reforçava o Tesouro com as suas reservas.

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O primeiro grande problema que o Banco da República do Brasil, herdeiro das dificuldades dos dois bancos que lhe deram origem, enfrentou, logo no início do seu funcionamento, foi o da deficiência de caixa. Para tentar solucioná-lo, a diretoria resol- veu que os bônus, emitidos para auxílio às indústrias, deveriam formar caixa uma vez recolhidos, e solicitou ao ministro da Fazenda remessa de saldos do Tesouro. Mas a dificuldade ainda iria persistir, pois a caixa do Banco tornou-se insaciável.

Ao mesmo tempo, a diretoria tomou uma decisão arriscada, estendendo aos agri- cultores os benefícios dos financiamentos através de emissão de bônus concedidos à indústria. Ocorreu, inevitavelmente, um acúmulo de pedidos de empréstimos, cujo valor chegou a 170 mil contos, excedendo as possibilidades de atendimento. Verificou- se, também, que os bônus não estavam tendo boa aceitação, não inspiravam confiança, nem alcançavam valorização satisfatória.

A distribuição dos empréstimos às indústrias foi lenta e difícil, devido aos cui-

dados necessários com o processo de seleção. Não tardou a se esgotar o limite para

a

emissão de bônus e a se registrarem atrasos dos devedores no pagamento de juros

e

amortizações. O maior prejudicado com essa emissão foi o próprio Tesouro, pois

as empresas financiadas procuravam imediatamente livrar-se deles, devido, à grande desvalorização que sofriam. Os bônus eram revendidos, com abatimento, àqueles que tinham pressa de quitar seus impostos junto às repartições fiscais. Desta forma, ao saí- rem do Banco faziam, em sua maioria, apenas o curto percurso de volta para o Tesouro através das estações fiscais.

Analisava-se, na pauta das reuniões da diretoria, grande volume de propostas de devedores, entre os quais bancos e importantes empresas, para liquidações com

abatimentos, prorrogações, conversões e outros tipos de recomposição de seus débitos.

A maioria desses reajustes foi feita na forma de auxílio às indústrias através de bônus,

dos quais o Banco se valia mais para defesa de seus interesses e recuperação de seus capitais do que para salvar os meios de produção. Muitas liquidações haviam se consu- mado desde 1893 e permaneciam ocorrendo, em índices alarmantes em 1895. Nessas circunstâncias, o Banco foi obrigado a receber em pagamentos bens de diversas espé- cies, desvalorizados, e de difícil vendagem, administração e manutenção.

Apesar de tantas dificuldades e do alto índice de liquidações com abatimentos,

o Banco anunciou que havia produzido lucros líquidos durante o ano de 1893, no valor

de 12.729:339$823, aplicados em dividendos, fundo de reserva e lucros suspensos. No começo de 1894, faleceu o presidente do Banco, Manuel Pinto de Sousa Dantas. Fran- cisco Pestana o substituiu.

Em maio, o barão de Ladário, alegando doença, pediu exoneração da gerência do Banco de Londres, e a diretoria resolveu suprimir essa agência. No mesmo ano, o Banco negociou e contratou, de maio a agosto, a transferência para o Banco Hipotecá- rio do Brasil, com aprovação e até estímulo do governo, das Carteiras Hipotecárias dos extintos Banco do Brasil e da República dos Estados Unidos do Brasil.

Em 21 de julho, a Câmara dos Deputados recebeu um requerimento para que se nomeasse comissão destinada a examinar a aplicação que o Banco da República fez dos

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História do Banco do Brasil

bônus emitidos e a eficiência das garantias oferecidas em cada empréstimo. Isto ali- mentou novas críticas ao Banco, com acusações de irregularidades cometidas à sombra desses auxílios. Os deputados Francisco Glicério e Sebastião de Lacerda defenderam

o Banco, que acabou enviando à Câmara relação das empresas beneficiadas e a especi- ficação das somas emprestadas a cada uma delas.

O ano de 1894 marcou, também, mudança no governo federal. O vice-presidente

Floriano Peixoto, já sem saúde, não contou com apoio suficiente para continuar no poder. Sem concorrentes, Prudente de Morais foi eleito presidente da República. A partir de agosto, a diretoria do Banco, com vistas a tratar de uma revisão do acordo so- bre o débito do estabelecimento com o governo, fez uma investigação interna, na qual verificou que o capital estava reduzido a 12.000:000$000. O novo ministro da Fazenda, Rodrigues Alves, realizou entendimentos com o Banco para analisar a possibilidade

de obter recursos para o Tesouro. Foi atendido, com restrições e condições. O lucro líquido do Banco, durante o ano, baixou para 11.938:397$220. Ainda assim, foi mantido

o dividendo de 6% por semestre.

No princípio de 1895, o governo realizou com sucesso um empréstimo externo,

no valor de 100.000:000$000, com a colaboração do Banco da República, em parte com

o objetivo de resgate de papel-moeda. Preocupado com a baixa do câmbio, o ministro

Rodrigues Alves conseguiu dois empréstimos no exterior, mas o problema persistiu. O ministro solicitou, então, a intervenção do Banco da República, que, embora relutante, decidiu agir, impedindo que a taxa cambial descesse a menos de nove.

Em setembro do mesmo ano, Rangel Pestana renunciou ao cargo de presidente, em caráter irrevogável e foi acompanhado por alguns diretores, sob motivos que não ficaram bem esclarecidos. Por propostas do ministro Rodrigues Alves, foi nomeado Afonso Pena para a presidência, tomando posse em 19 de outubro.

Logo, o novo presidente mostrou capacidade e segurança no desempenho das suas funções, mantendo na diretoria um ambiente de bom entendimento, sem discri- minações de caráter pessoal ou funcional, mesmo em relação aos dois grupos de dire- tores – os nomeados pelo governo e os eleitos pelos acionistas. No dia 28 do mesmo mês, a diretoria resolveu restaurar, em nova tentativa, a Câmara de Compensação, ou Clearing House, dissolvida em 25 de fevereiro de 1890.

O governo mostrou-se omisso e indeciso na execução de vários dispositivos da

lei de fusão dos bancos, como no caso da conversão dos lastros das emissões bancárias

e da indenização, aos bancos emissores, das vantagens e direitos que lhes foram cassa- dos. O ministro da Fazenda havia adiado essas medidas, primeiro por falta de verbas

e depois para permitir uma decisão do Congresso que, no entanto, discutiu o assunto

sem chegar a nenhuma conclusão. Terminava o ano de 1895 sem que o decreto e a lei sobre a fusão tivessem sido adequadamente executados. A fusão foi realizada, mas as disposições reguladoras do meio circulante não foram cumpridas.

No relatório apresentado à Assembleia dos Acionistas, reunida em abril de 1898,

o presidente do Banco da República, Afonso Pena, argumentou que seria mais con-

veniente atribuir exclusivamente ao Estado a responsabilidade pelas emissões bancá-

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História do Banco do Brasil

rias, passando a pertencer ao Tesouro os lastros que lhes serviriam de base. O Banco mantinha, então, a preferência e os privilégios, assegurados por lei, no caso de futuras emissões em notas ao portador, conversíveis em ouro e resgate do papel-moeda. Os acionistas aprovaram moção de apoio à ideia.

Era de se presumir que Afonso Pena e o ministro da Fazenda agiriam de comum acordo, pois Rodrigues Alves, logo em seguida, pronunciou-se a favor da ideia em re- latório ao presidente da República. No documento, destacou que a União dispunha de um forte direito creditório sobre o Banco da República – dívida que o estabelecimento não podia solver rapidamente sem comprometer a sua própria existência -, e que se encontravam aí os recursos adequados ao resgate do papel-moeda, sem necessidade de aumentar as responsabilidades do Tesouro e provocar abalos na circulação. Encam- padas as emissões bancárias pela transferência ao Tesouro das apólices e do ouro que lhes serviram de base, o primeiro efeito, explicou Alves, seria a redução do quantum da dívida consolidada atribuída à nação.

Mensagem apresentada pelo presidente da República ao Congresso, em maio de 1896, também apoiava a ideia de encampação das emissões bancárias pelo Estado, que habilitava o Tesouro a acelerar o resgate, no momento oportuno, por meio das apólices tiradas da circulação. Em 31 de julho de 1896, a Comissão de Finanças do Senado, em sintonia com essa orientação, apresentou projeto de lei. Durante discussões do projeto revelou-se que a dívida do Banco da República ao Tesouro chegava à soma de 184.000:000$000, maior, portanto, do que o seu capital e a sua capacidade de pagar.

Aprovado e transformado em lei, o projeto foi logo executado através de uma série de decretos do Poder Executivo. Merece destaque a disposição que autorizou a substituição do bônus por notas do Tesouro Nacional. Regularizando e uniformizando o meio circulante, essa providência contribuiu eficazmente para diminuir as dificul- dades com que lutava a praça. Também foi determinando o resgate gradual do papel- moeda, reservando-se recursos para isso.

Aprovada pela Assembleia dos Acionistas em abril e pelo governo, em decreto de maio de 1897, realizou-se uma reforma nos estatutos do Banco da República, que intro- duziu, entre outras, as seguintes alterações: redução do capital social, em três anos, para 100 mil contos; supressão das disposições estatutárias que autorizavam e regulavam o direito de emissão do Banco e as incumbências relativas ao resgate ou substituição do papel-moeda da União ao serviço da dívida interna nacional, ficando expresso que o Banco passaria a operar somente como de depósitos e de descontos; redução, para cin- co, do número de membros da diretoria, que ficaria com um presidente nomeado pelo governo e quatro diretores eleitos pelos acionistas.

Durante 1896 e no começo de 1897, acentuou-se a preocupação da diretoria a respeito de um reajuste dos débitos ao Tesouro. Com base no artigo 2º da lei nº 427, de 9 de dezembro de 1896, foram realizados entendimentos entre o Banco e o Tesouro. Afinal, foi formalizado um acordo, em 18 de maio de 1897, com essas disposições: o Banco desistiu de qualquer direito a reclamar contra a extinção da sua faculdade emis- sora e dos demais favores de suas concessões; o remanescente da dívida foi apurado

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História do Banco do Brasil

em 159.190:537$010 em papel e 547.621.71 em libras-ouro; o governo recebeu bens imóveis, títulos e direitos creditórios do Banco, como pagamento. Ficou estipulado que outros bens ainda seriam recebidos pelo preço combinado, depois de avaliados e que o restante da dívida seria pago a longo prazo.

Esse ajuste foi considerado vantajoso pela diretoria do Banco, mas foi criticado em diversos setores da opinião pública. O governo fez acordos para resolver, também, a questão das indenizações aos bancos regionais, comprometendo-se a pagar em di- nheiro. Continuavam a surgir indícios de agravamento da crise e prosseguia a baixa do câmbio que, em 1897, chegou à mínima de cinco e cinco oitavos. As consequências desse desmoronamento manifestavam-se não só no encarecimento de todos os produ- tos, como principalmente sobre os orçamentos, cujos destaques para as diferenças de câmbio beiraram um terço da despesa pública. A caixa do Banco da República tornava- se cada vez mais fraca.

Enquanto isso, ocorria a luta fratricida da campanha de Canudos, onde, comba- tendo os fanáticos jagunços de Antônio Conselheiro, o governo sofreu humilhantes re- veses. Foram grandes as despesas, até que se conseguiu extirpar o foco da sublevação. Como se agravasse o déficit do orçamento para 1897, o governo novamente recorreu ao crédito, lançando um empréstimo interno com a colaboração do Banco da República e conseguiu um empréstimo em Londres, no montante de dois milhões de libras.

Os estados, por sua vez, também em arrocho financeiro, realizavam emissões particulares de apólices, concorrendo para ampliar a crise do meio circulante. Para coi- bir esses abusos, que chegavam a extremos insuportáveis, o Congresso aprovou e o presidente da República sancionou o decreto nº 561, de 31 de dezembro de 1898, que vetou o recebimento como moeda ou a circulação, nessa qualidade, de quaisquer títulos de crédito ao portador, emitidos pelos governos dos estados ou dos municípios, fossem apólices ou outros documentos de denominação diferente.

A crise chegou ao extremo no fim de 1897. O déficit crescia, agravado com a queda constante do câmbio. A gestão de Prudente de Morais chegou ao seu último ano, marcada pela ruína. Fracassaram não só as tentativas de arrecadamento das es- tradas de ferro, como outras medidas destinadas a sanear a situação financeira. Não se podia cogitar em aumento de impostos, pois os contribuintes não suportariam uma nova carga tributária.

Em 1º de março de 1898, Campos Sales foi eleito presidente da República. Já era, então, evidente a impossibilidade de o país manter em dia os serviços da sua dívi- da externa. O próprio ministro da Fazenda, Bernardino Campos, enviou relatório aos agentes brasileiros em Londres, explicando a gravidade da situação.

Campos Sales seguiu para a Europa a fim de tentar uma solução junto aos cre- dores. Ao mesmo tempo, no entanto, vinha para o Rio de Janeiro um representante de grande grupo de portadores de títulos brasileiros, que, apoiado por banqueiros ingle- ses, trazia uma proposta de acordo sobre a dívida externa. Discutida entre as partes, adaptada, a proposta transformou-se em contrato celebrado em Londres, a 15 de junho de 1898, com a presença de Sales.

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História do Banco do Brasil

Por este ajuste, o governo pagaria aos seus credores, durante três anos, os juros a vencer da dívida externa e mais as garantias de juros prestadas às estradas de ferro, com títulos de um novo empréstimo, até o total de dez milhões de libras esterlinas. Esti- pulou-se, ainda, que a amortização das dívidas ficaria suspensa durante três anos. Este acordo, o primeiro dessa espécie a ser firmado pelo Brasil, foi denominado de funding loan. Aqui e no exterior o acordo foi recebido, com poucas exceções, de modo favorá- vel. Defendendo-o das violentas críticas feitas no Senado por Oiticica, Rodrigues Alves expôs as vantagens do contrato, mas, cautelosamente, declarou que o acordo atendia realmente às grandes necessidades do momento, mas não resolvia a crise financeira.

O próprio governo estava convencido disso. O momento exigia que o governo e

o Congresso unissem seus esforços, de forma que o ajuste celebrado tornasse possível seguir, segundo Alves, o “bom caminho de uma perfeita reconstituição financeira”. Também defendendo o acordo, Serzedelo Correia advertiu, na Câmara:

“A crise é de ordem econômica e financeira, a crise é vasta, profunda: já ganhou raízes, afetou a mais de um ponto do nosso organismo nacional e o acordo é apenas o armistício dentro do qual devemos executar as medidas que nos salvem.”

Realmente, o acordo seria apenas o primeiro passo do longo caminho de auste- ridade que deveria ser percorrido. O governo de Prudente de Morais conquistou certo alívio, com o qual podia resistir às pressões do momento. Mas ao governo de Campos

Sales é que caberia o difícil e demorado trabalho de restauração financeira, com o qual

o novo presidente estava comprometido desde sua interferência nas negociações e na

efetivação do contrato celebrado em Londres, assessorado pelo seu ministro da Fazen- da, Joaquim Murtinho.

Em mensagem ao Congresso Nacional, apresentada em 3 de maio de 1899, o presidente da República anunciou que o meio de agir, de forma definitiva e com efi- cácia, contra o excesso de emissão de papel-moeda de curso forçado, seria uma contra- ação pelo resgate, para cujo serviço deveria ser constituído um fundo especial. Com isso quis dizer que o resgate constituía um dos pontos capitais da política financeira do governo. Acrescentou que, além desse processo indireto, pelo qual a parte do papel que se retirava valorizaria a que ficava em circulação, podia-se também realizar a valori- zação direta, instituindo-se em fundo de garantia para esse papel, o que era outro ponto capital da mesma política financeira.

Apontou, então, os meios para compor os dois fundos: o de resgate poderia ser constituído pelo produto do arrendamento das estradas de ferro, pelos saldos orçamen- tários, pela quantia proveniente do pagamento de dívidas de diversos bancos e por to- das as rendas eventuais. O de garantia poderia ser constituído pelo produto da taxa de mais de 5%, ouro, sobre a produção e sobre o saldo do produto de todas as arrecadações em ouro. O Congresso procurou colaborar e aprovou, rapidamente, proposta no sentido de pagamento em ouro de 10% dos direitos de importação.

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História do Banco do Brasil

Também foi aprovado pelo Congresso um projeto que criava os fundos de res-

gate e garantia de papel-moeda, com a cláusula de flexibilidade pela qual, sempre que

a situação cambial e o estado de circulação aconselhassem recursos de um dos fundos,

poderiam ser empregados no aumento do outro, até metade dos seus importes. A exe- cução desse programa de contenção foi lenta e difícil e os primeiros sinais de melhoria surgiram a partir do ano de 1899.

A mensagem apresentada pelo presidente da República ao Congresso Nacio-

nal, em maio de 1900, abriu-se em previsões otimistas, chegando a firmar que eram evidentes e incontestáveis os sinais de redução da intensidade de crise financeira e econômica. O relatório do ministro da Fazenda, em 1901, anunciava bons resultados na execução do programa governamental, como o restante de 100.000:000$000 de papel- moeda; dotação ao fundo de garantia no valor de um milhão e meio de esterlinos; ele- vação da taxa cambial a 10,5%; acumulação de recursos de Londres, da ordem de mais de dois milhões de esterlinos; pagamento de dívidas do Tesouro e aperfeiçoamento da arrecadação das rendas federais.

O governo conseguiu algum resultado no esforço para arrendar estradas de ferro

e encampar ferrovias, visando acabar com o sistema adotado no Império e seguido pela

República, segundo o qual o Estado concedia garantia de juros de 7% sobre o capital ne- las empregado. O artigo 5º da lei nº 741, de 26 de dezembro de 1900, que orçou a receita geral para o exercício de 1901, apresentou uma disposição elevando de 15% para 25% a cobrança em ouro dos direitos de importação, reservados 5% ao fundo de garantia.

Em 1898, as atividades do Banco da República transcorreram num clima de se- gurança e otimismo, como se deduz do parecer do Conselho Fiscal e do relatório do

presidente do Banco à Assembleia dos Acionistas, em 1899. De acordo com esses do- cumentos, o Banco, auxiliando o comércio, obteve um lucro líquido de 7.657:826$000,

o que permitiu dividendo ainda maior do que o proposto pela diretoria. Assim, tão

estável, o Banco decidiu propor um acordo ao governo para liquidar a sua dívida de 186.000:000$000 com o Tesouro, pagando à vista a quantia de 50.000:000$000. Lavrou- se, então, o acordo, em 10 de março de 1900, com prévia autorização de decreto presi- dencial. Dele constou que o Banco da República pagaria à vista metade daquela impor- tância de 50 mil contos de réis e em quatro prestações semestrais a outra metade.

O acordo foi duramente criticado, sobretudo devido ao grande abatimento, mas

o próprio ministro da Fazenda, na sua exposição de motivos, explicou que o desconto

era vantajoso e a operação constituía uma verdadeira antecipação de pagamento, sem prejuízo algum para o Tesouro. Além de outras vantagens, a operação libertava o Ban- co dos seus vínculos com o governo. Em 26 de abril do mesmo ano, a Assembleia dos Acionistas reuniu-se e aprovou as modificações estatutárias que adaptavam o estabele- cimento ao regime comum das sociedades anônimas, passando a sua administração a ser exercida por uma diretoria composta de um presidente e quatro diretores, todos eleitos pela Assembleia. Assim, deixavam de existir diretores nomeados pelo governo.

Ganharam corpo, novamente, as acusações de que o governo lesava o Tesou- ro, liquidando uma dívida de 186 mil contos por 50 mil. E, novamente, o governo

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História do Banco do Brasil

defendeu-se, alegando que a dívida só teria aquele alto valor ao fim de 18 anos. Não se tratava, na versão oficial, de uma dívida de 186 mil contos, mas de uma dívida que, no fim de 18 anos atingiria essa importância. Para atualizar o valor e fazer a liquidação, o governo empregou os mesmos processos de descontos que eram realizados em milha- res de transações diárias entre o comércio e os bancos.

A desvantagem do acordo veio à tona posteriormente quando o Banco entrou em colapso e então se verificou que foram desembolsados, para antecipar pagamentos ao Tesouro, recursos de que o Banco não podia abrir mão para manter-se estável e justa- mente numa ocasião em que os bancos estrangeiros ganhavam a preferência dos depó- sitos do público, já decrescentes nos bancos nacionais. De acordo com documentos in-

ternos do Banco, o declínio da instituição tinha raízes nos anos de 1898 e 1899, quando

a diretoria ocupava-se em apreciar propostas de liquidações nas múltiplas modalidades. Era baixo o volume de decisões sobre propostas de novos empréstimos, denotando que

o Banco perdia a capacidade ou retraia a sua disposição para distribuir o crédito.

Em novembro de 1898, Afonso Pena pedira demissão do cargo de presidente do Banco, sendo substituído por Luiz Martins do Amaral. Na mesma ocasião, Campos Sales tomou posse como presidente da República.

Até 6 de setembro de 1900, as atas da diretoria não abordavam as grandes difi- culdades que assoberbavam o Banco e que o levariam a um verdadeiro colapso. Subi- tamente, na ata da sessão de 10 de setembro, o presidente Luiz Martins do Amaral relatou um quadro de verdadeira derrocada. Explicou que diversas retiradas enfraque- ceram a caixa do Banco, obrigando-o a apelar ao governo por recursos de reforço. No entanto, estes só viriam através de cambiais, que o Banco ainda teria de vender, para obter o numerário em moeda nacional.

As dificuldades de caixa continuavam. O Banco apelou ao governo para que fi- zesse emissão e lhe fornecesse até 50 mil contos de réis. O governo alegou que o seu programa e a própria lei vedavam emitir. Os entendimentos se processaram no mais alto nível, até com a presença do presidente da República. Cogitou-se, então, em en- tregar a direção do Banco ao próprio governo, e foi admitido, como diretor, Otto Peter- sen, designado pelo governo e ligado a um banco estrangeiro.

A divulgação das notícias de que o Banco e o governo não chegavam a um acordo sobre o apoio que deveria ser dado à instituição acabou provocando uma cor- rida de depositantes. Finalmente, o governo assumiu a direção do estabelecimento, com a intenção de organizá-lo com duas carteiras, a antiga liquidação e a nova em operações de depósitos e descontos. Precisou, no entanto, solicitar provimento ao Congresso. Coube ao deputado Serzedelo Correia apresentar na sessão da Câmara, em 18 de setembro de 1900, em nome da Comissão de Orçamento, um projeto de lei que, simplesmente, autorizava o governo a recolher em conta corrente do Banco da República até a soma de um milhão de esterlinos, retirados do fundo de garantia criado pela lei nº 581, de 20 de julho de 1899.

Em 14 de setembro, o deputado apresentou um aditivo ao projeto. Foi incluída uma autorização ao governo para emitir até 100.000:000$000 em apólices nomina-

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História do Banco do Brasil

tivas destinadas a pagar os credores do Banco e abrir, ao mesmo Banco, uma conta corrente de até 25.000:000$000, para auxiliar operações de descontos ao comércio. Apesar das críticas, o projeto foi finalmente aprovado e sancionado como lei nº 689, de 20 de setembro de 1900.

Por exigência dessa lei, reuniu-se a Assembleia dos Acionistas para aprovar o novo regime do Banco. Com poucos votos contrários, decidiu-se que a administração do estabelecimento seria confiada ao governo, com faculdade de dar-lhe a organização que julgasse mais conveniente. Também ficou expresso que a Assembleia Geral Ordi- nária seria convocada anualmente, mas apenas para que a administração fornecesse aos acionistas informações sobre a situação do Banco.

Em 16 de outubro de 1900, acordo firmado entre o governo e o Banco consolidou a transferência, ao primeiro, da administração e de todo o patrimônio social do segun- do, e estipulou que os acionistas não teriam direito a reclamar do Tesouro qualquer in- denização pelo resultado da liquidação. O governo baixou decreto dispondo que a nova administração seria exercida por dois diretores nomeados pelo ministro da Fazenda, ao qual competiria também demiti-los e decidir nos casos de desacordo entre os dois.

Otto Petersen e Custódio de Almeida Magalhães foram os primeiros diretores nomeados pelo governo para dirigir o Banco da República na sua nova fase. Petersen, cuja inclusão na diretoria havia sido muito criticada por ser estrangeiro e com uma administração classificada de infeliz, pediu exoneração, alegando motivos de saúde, em setembro de 1901. Foi substituído por Raimundo de Castro Maia, que se manteve até julho de 1906. Em novembro de 1902, o governo aumentou o número de diretores para três. Serviram como diretores, em sequência de substituições, Carlos Augusto de Carvalho, Custódio José Coelho de Almeida, Duque Estrada, Ubaldino do Amaral, Bulhões de Carvalho e José Inácio Everton de Almeida.

Os primeiros diretores do Banco sentiram-se forçados pelas circunstâncias a par- tirem para uma decisão drástica de sacrificar, pelos preços de um mercado em crise, bens ou títulos que em épocas normais alcançariam melhores cotações. Durante esta gestão a rotina do Banco transcorreu em quase completa obscuridade. Não se divulga- ram relatórios, nem balanços, não se reuniu a Assembleia dos Acionistas, não se distri- buíram dividendos e nem se lavraram atas de sessões dos órgãos dirigentes. Nem se cumpriu o mínimo dever de prestar contas aos acionistas e à opinião pública.

É de se reconhecer, no entanto, que não houve excesso de crédito, mas alegou- se que, no início, muitas irregularidades foram cometidas nas operações de câmbio. Ao longo de uma linha restritiva de financiamentos, os lucros foram muito reduzidos. No período de 5 de novembro de 1900 a 31 de dezembro de 1901, por exemplo, o lucro líquido da nova Carteira Comercial chegou a apenas 724:926$964.

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Capítulo8

Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Capítulo 8 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil
Capítulo 8 Foto: Acervo Arquivo Histórico do Banco do Brasil

Reforma de estatuto

Reforma de estatuto funcionamento no
Reforma de estatuto funcionamento no

funcionamento no

Reforma de estatuto funcionamento no

ampliou a ação do Banco

Agência Manaus (AM). Fotografia sem data. Prédio onde funcionava a Agência Manaus, segunda agência do Banco do Brasil em país, inaugurada em 14/01/1908.

Em 1908, quando a Amazônia vivia o ciclo da borracha, o Banco do Brasil instalou em Manaus sua primeira filial - a Sede e Agência Central eram no Rio de Janeiro -, materializando a vocação para dinamizar o interior e apoiar no processo de integração nacional. Nesse mesmo ano, eram também inauguradas sucursais em Belém e Santos, esta última pioneira na assistência financeira ao café.

História do Banco do Brasil

Em 1º de março de 1902, Rodrigues Alves foi eleito presidente da República, sem concorrentes. Tudo indicava, por sua atuação anterior, que estava comprometido

a dar continuidade à política financeira do seu antecessor, com a grande vantagem de

pegar o programa de restauração financeira em sua fase mais flexível, pois Campos Sales já havia implantado a etapa mais dura. Ao assumir, Alves dispunha, assim, de base estável implantada por Sales e da restauração de crédito, com as quais pôde partir para a realização de um programa de reformas e obras de grande porte, beneficiando, sobretudo, a cidade do Rio de Janeiro com serviços de embelezamento, urbanização, saneamento e instalação portuária.

Servindo-se de autorizações legais já existentes para investimentos em obras, o novo governo contraiu em Londres um empréstimo externo, no valor de 8,5 milhões de esterlinos, através de contrato, celebrado em 20 de maio de 1903, com a Casa Ro- thschild. Ajustou também um empréstimo interno, mediante emissão, até a quantia de 17.300:000$000, de apólices especiais ao portador, para aplicação em melhoramentos do porto do Rio de Janeiro. No plano financeiro, destacou-se pela reorganização do Banco da República, destinando-o a atuar como regulador de câmbio e a oferecer ao comércio meios mais abundantes de descontos de letras. O governo vinha gerindo o Banco e dele se servia como valioso auxiliar de sua política financeira.

Em 29 de julho de 1905, os acionistas do Banco foram convocados a se reu- nir em Assembleia, na qual o ministro da Fazenda expôs os objetivos do governo e propôs que fosse nomeada uma comissão para avaliar as reivindicações de todos e elaborar um plano de reorganização. Sugeriu, ainda, que se mantivesse a situação vigente até 31 de dezembro do ano corrente ou 31 de janeiro do ano seguinte, já que qualquer reforma teria de ser submetida ao voto do Congresso Nacional. Os acionis- tas haviam sido privados, por um longo período, de receber dividendos e do acesso às informações sobre as atividades do Banco. Luiz A. da Silva Porto, que por muitos anos participou da diretoria, sustentou que o governo deveria prestar contas do seu mandato e indenizar os acionistas.

Em nova reunião da Assembleia, realizada em 28 de agosto do mesmo ano,

a comissão apresentou o seu parecer, aceitando a ideia de reorganização. Mas Luiz

Porto apresentou proposta no sentido de que a Assembleia nomeasse uma nova co- missão de três acionistas para tratar diretamente com o governo sobre medidas que sanassem os grandes prejuízos causados ao Banco pelos representantes governamen-

tais. Essa proposta foi aprovada, ficando a Assembleia suspensa até que se chegasse

a um resultado.

Reiniciada a reunião em 9 de setembro, Porto relatou que, após entendimentos com o presidente da República e o ministro da Fazenda, foi decida a inserção de diver- sas alterações no projeto, entre as quais, ao conceder aos acionistas – para compensação dos prejuízos na liquidação da conta antiga -, uma parte nos lucros da conta nova do Banco, o governo entraria com 2.500 contos para valorizar as ações. Desse modo, seu ativo, fixado no projeto em 20 mil contos, a ser convertido em ações destinadas aos seus acionistas, ficaria elevado a 22.5 mil contos. A Assembleia aprovou, por grande

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História do Banco do Brasil

maioria, o parecer de primeira comissão e as emendas apresentadas pelo segundo. Foi elaborado, então, um projeto que aprovava os estatutos do Banco do Brasil e autorizava o Poder Executivo a abrir os créditos necessários para as medidas de execução.

Após extensos debates, com críticas contundentes aos fatos ocorridos desde que o Banco passou à administração do governo, o projeto, finalmente, foi aprova- do e sancionado como decreto nº 1.455, de 30 de dezembro de 1905. Entre outras disposições, aprovava os estatutos do Banco do Brasil tal como foram propostos pela Assembleia dos Acionistas; considerava prescritas todas as ações judiciais que não fossem intentadas contra o extinto Banco da República do Brasil até o dia 15 de ju- nho de 1906; e mandava aplicar ao restante do papel-moeda os dividendos das ações que pertencessem ao Tesouro.

Os estatutos consideravam liquidado o Banco da República e incorporados e sub-rogados os seus bens, direitos e ações ao Banco do Brasil que ia ser criado. O governo, pagando, nos termos da lei de 20 de setembro de 1900 e do acordo de 16 de outubro do mesmo ano, as inscrições ainda não resgatadas, transferia o ativo do Banco da República ao Banco do Brasil, que o recebia pelo valor de 20 mil contos em ações.

O Banco do Brasil ficou responsável, junto ao Tesouro Federal, pela restituição

da soma adiantada pelo pagamento das inscrições não resgatadas. Dava em caução os bens, direitos e ações do ativo do Banco da República, que, por esse motivo, ficavam sob a gestão exclusiva do presidente do novo estabelecimento, até que fosse completa- mente realizada a restituição. Cessava, porém, esse regime provisório, logo que entre o governo e a diretoria fosse convencionada outra garantia para o débito.

Com prazo de duração de 30 anos, o Banco do Brasil poderia estabelecer filiais em qualquer ponto do país ou fora dele. O seu capital, no valor de 70.000:000$000, dividido em 350 mil ações de 200$000 cada uma, era assim distribuído: 112.500 ações, representando 22.500:000$000 nominais, para serem entregues aos acionistas em troca de suas ações do Banco da República; 112.500 ações do mesmo valor, para serem tomadas pelo Tesouro Federal e 125.000 ações no valor de 25.000:000$000, destinadas à subscrição pública mediante pagamento parcelado, com preferência aos mesmos acionistas.

O presidente e o diretor do câmbio, nomeados pelo governo, e mais três diretores

eleitos por três anos pelos acionistas, compunham a administração. Havia um Conselho Fiscal formado de cinco membros e respectivos suplentes, eleitos anualmente pelos acionistas. Determinou-se que o governo daria ao Banco o direito exclusivo de emitir vales-ouro para movimentação dos impostos aduaneiros em toda República. Quando fosse possível a circulação metálica em ouro e se tivesse instituído o regime bancário, o Banco teria o privilégio exclusivo de emissão.

Ressurgira, assim, o Banco do Brasil, com o aproveitamento das instalações e do acervo do Banco da República. Mas esse renascimento à base de uma arruinada estru- tura não permitia, segundo os críticos, boas previsões. Na realidade, certamente havia apreciáveis vantagens para o Banco do Brasil ao optar por uma linha de continuidade, assumindo o que já havia de estrutura, de tradição, de clientela, no Banco da Repúbli-

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ca. E o destino de grandeza que o Banco conseguiu realizar, apesar das dificuldades, tropeços e até retrocessos, provou que não houve erro em simplesmente dar continui- dade ao que estava feito, em lugar de se fazer tudo de novo.

Vale ressaltar que o Banco do Brasil reatou suas atividades, em 1906, com uma participação que o renovava e que ia manter-se e ampliar-se para o futuro: era o ingresso do governo como acionista, com metade do capital, o que reforçava o seu poder de inter- ferência nas Assembleias Gerais, às quais os acionistas particulares compareciam, geral- mente dispersos, com limitado poder de voto. O controle do governo reforçava-se com a faculdade que lhe cabia de nomear o presidente e o diretor da Carteira de Câmbio.

Consolidando os dispositivos dos estatutos, o presidente da República baixou o decreto nº 6.169, de 31 de outubro de 1906, concedendo autorização ao Banco do Brasil para receber depósitos de ouro e em moeda legal, entregando aos depositantes quantia equivalente em notas conversíveis à vista, fornecidas pelo Caixa de Amortização. O Banco podia, também, emitir cheques-ouro, pagáveis à vista, ou requisitar da Caixa de Amortização notas conversíveis à vista, desde que provasse ao ministro da Fazenda a existência, em seus cofres, de depósitos de ouro de sua propriedade, que garantissem o valor da emissão. A providência tinha o objetivo de facilitar o manejo do numerário metálico e de retê-lo em circulação. As notas eram um instrumento mais útil do que os vales, que vinham sendo empiricamente utilizados.

Apesar de sua pouca ligação com a história do Banco do Brasil, duas providências governamentais da época merecem ser destacadas: o Convênio de Taubaté e a Caixa de Conversão. Os preços do café estavam, há tempo, em baixa, e o problema carecia de solução, através de medidas estáveis que provocassem a valorização do produto. Mas o governo de Rodrigues Alves conservava-se inativo, sem romper a política de contenção rigidamente executada por Campos Sales.

A interpretação, então, era de que a baixa cotação do café resultava da superpro- dução, cuja solução só podia estar na contenção ou mesmo na redução das colheitas. Mas, nas regiões cafeeiras e, sobretudo, no estado de São Paulo, levantou-se um mo- vimento de reivindicações de uma política de valorização, encabeçado pelo presidente do Estado, Jorge Tibiriçá, e com base na lei da receita orçamentária para 1906. Essa lei deu autorização ao governo federal para entrar em acordo com os governos dos estados produtores para regular o comércio do café, promover a sua valorização, organizar e manter serviço de propaganda do produto, a fim de aumentar o seu consumo e, ainda, para endossar as operações de crédito.

Reunidos em 25 de fevereiro na cidade de Taubaté, já ao final do governo de Rodrigues Alves, os presidentes Jorge Tibiriçá, de São Paulo, Nilo Peçanha, do Rio de Janeiro e Francisco Sales, de Minas Gerais, convocados por Peçanha, resolveram solicitar ao presidente da República que convocasse o Congresso Nacional, em sessão extraordinária e urgente, para a decretação de uma lei criando um órgão destinado à emissão de papel-moeda conversível em ouro, a uma taxa prefixada, ao qual se deno- minaria Caixa de Conversão. O lastro seria a importância do empréstimo contratado pelos estados com o endosso da União.

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História do Banco do Brasil

Nessa mesma ocasião foi aprovado um convênio, mais tarde aditado por outro em Belo Horizonte, reunindo um elenco de medidas de intervenção governamental no mercado de café, e cuja execução coincidiu com uma grande safra, nos anos de 1906 a 1907. O plano consistia em retirar do mercado a produção excedente, o que requeria recursos para adquiri-la. Mas não foi possível obter logo um empréstimo externo pre- visto no acordo. O governo de São Paulo, com insuficiente cooperação dos governos dos dois outros estados, procurou sustentar os preços, através da compra do produto no mercado de Santos e, depois, no mercado do Rio de Janeiro. Empréstimos parciais obtidos no exterior e no Banco do Brasil foram empregados para comprar e afastar do mercado uma parte da produção, conseguindo-se atenuar a depressão de preços, cuja tendência era se agravar.

O Convênio de Taubaté visou também a criação da Caixa de Conversão, que concorreria para a estabilidade do câmbio, evitando principalmente as elevações das respectivas taxas, que reduziriam internamente os rendimentos dos produtos em pa- pel-moeda. Sancionado como decreto nº 1.575, de 6 de dezembro de 1906, instituiu a Caixa, especialmente destinada a receber moedas de ouro de curso legal, entregando- se, em troca, bilhetes ao portador, com valor igual aos das moedas de ouro recebidas, fixado em 15 esterlinos por mil réis.

De acordo com o decreto, os bilhetes teriam curso legal, possuindo, assim, efeito liberatório para contratos de pagamentos que seriam resgatados e pagos à vista, a quem os entregasse, para serem trocados por moeda de ouro na Caixa. O ouro recebido pela Caixa, em troca dos bilhetes que emitisse, seria conservado em depósito e não poderia ser destinado, em caso algum, a outro fim que não fosse o de converter os bilhetes ao tipo de câmbio fixado. Cessariam as emissões da Caixa quando os bilhetes emitidos por ela atingissem o valor de 320.000:000$000. Seriam transferidos, sem mudança de apli- cação, para a Caixa de Conversão, os fundos de resgate e de garantia do papel-moeda.

Inicialmente, a Caixa funcionou com grande êxito. Houve até fluxo de capitais estrangeiros. Mas a situação mudou quando o dinheiro inconversível do Tesouro alcan- çou melhor câmbio, e piorou com a guerra europeia de 1914. A Caixa sofreu um duro golpe, que provocou sua extinção, quando, entre as medidas governamentais para fazer face à crise provocada pela deflagração da guerra, foram suspensas as suas operações.

Como era de se prever, o novo Banco do Brasil enfrentou dificuldades, pois o sistema de continuidade ao Banco da República transmitia-lhe o legado de uma crise prolongada, que obrigou a diretoria a ocupar-se, por longo tempo, em avaliar uma va- riada gama de propostas de liquidações e de compras de bens adquiridos em muitas liquidações anteriores. Decorridos quatro anos da transformação, em julho de 1910, ainda assinalavam-se em ata da diretoria liquidações diárias de contas com abatimentos de 80% a 90%.

Em março de 1908, o presidente do Banco, João Ribeiro de Oliveira e Souza, apresentou à diretoria os resultados medíocres dos dois semestres do ano anterior, confessando-se apreensivo. Com dificuldade, foram distribuídos escassos dividendos, em meados de 1907 e no começo de 1908. Em 45 falências abertas, coubera ao Banco,

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largo quinhão de prejuízos. Assim, só era possível prever pequenos lucros líquidos. As cotações das ações do Banco subiram de 114$000 para 197$000.

No relatório que apresentou, em 1909, o ministro da Fazenda disse que a esta- bilidade do câmbio, então verificada, devia-se “a ação conjugada da Caixa de Conver- são e do Banco do Brasil, que em todos os tempos contou com o auxílio do governo”. Nesse ano, o presidente do Banco, João Ribeiro, exonerou-se e foi substituído por Ubaldino do Amaral Fonseca.

Em agosto de 1910, o presidente da República, Nilo Peçanha, que sucedeu Afonso Pena, falecido em 1909, enviou mensagem ao Congresso, pedindo permissão para subscrever mais 62.500 ações do Banco, ou seja, metade da emissão de 125.000 ações que, pelos estatutos, deviam ser lançadas à subscrição pública. Assim, o governo iria manter-se como detentor definitivo da metade do capital do estabelecimento.

O país foi sacudido, em 1910, pela campanha da eleição presidencial, quando, pela primeira vez, defrontaram-se dois fortes candidatos à Presidência: Rui Barbosa e o mare- chal Hermes da Fonseca. Rui Barbosa levantou a bandeira da preservação civilista, en- quanto o seu adversário era acusado de ser um candidato militarista. Apoiado pela grande maioria da classe dominante nos estados, Hermes da Fonseca foi eleito e empossado.

Em abril de 1911, foi nomeado presidente do Banco do Brasil, João Alfredo Cor- rea de Oliveira, o estadista, já então com 75 anos de idade, que se distinguira politi- camente no regime monárquico, especialmente por sua participação como presidente do Conselho de Ministros, na abolição da escravatura. Oliveira anunciou que havia anormalidades a corrigir, especialmente quanto à quebra da antiga tradição pela qual o Banco esmerava-se em sua função essencial de fazer circular rapidamente o dinheiro por todo comércio.

Nada menos de dois terços do capital formado pelo Banco tinham sido, até en- tão, colocados em poucas mãos e nelas ficaram represados pelas contínuas reformas e prorrogações de prazos. O novo presidente preconizou a volta à disseminação de cré- dito. Como se verificaram graves desvios nas agências do Pará e de Manaus, para elas foi mandado o próprio advogado do Banco, para tomar medidas corretivas. Naquele tempo, o Banco ainda não aproveitava como gerente de suas filiais os seus próprios funcionários. Em 1913, a diretoria aprovou um regulamento para as agências e a criação de um órgão central destinado a fiscalizá-las.

Na sessão de abril de 1913, da Assembleia Geral dos Acionistas, foi aprovada, embora sem o apoio do representante do Tesouro, uma proposta de Pedro Betim Paes Leme destinada a beneficiar os funcionários através das seguintes medidas: aquele que fosse considerado inválido por uma junta médica, se contasse mais de dez anos de serviço ativo teria direito à aposentadoria com tantas trigésimas partes dos vencimentos do seu cargo quantos fossem os anos de serviços apurados; para esse fim o cálculo seria sobre o vencimento do trabalho exercido durante dois anos, pelo menos, ou sobre o do ano anterior quando o tempo não tivesse sido preenchido; quem contasse mais de 30 anos de serviço efetivo teria direito a ser aposentado com todos os vencimentos do cargo que exercesse, se provasse invalidez.

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Divulgou-se, naquele ano, que a situação bancária apresentava estabilidade dos saldos em caixa, aumento dos depósitos em mais de quatro mil contos, dos descontos em mais de nove mil contos e regularidade dos empréstimos. A indústria e o comércio tiveram forte impulso, decorrente de incentivos oficiais. As fábricas, favorecidas pela oferta de crédito, desenvolveram seus meios de produção e aumentaram consideravel- mente a sua capacidade de operação. O comércio crescera em decorrência do aumento da capacidade aquisitiva e de consumo do público.

Em discursos na Câmara, a 26 de novembro de 1913, Pandiá Calógeras chegou

a conclusões otimistas sobre a evolução do país, mas outros observadores, no final do

ano, começaram a apontar sinais da crise que se avizinhava. Passou-se, de súbito, a falar na redução dos depósitos bancários, na alta das taxas dos descontos, na escassez e em dificuldades cada vez maiores das operações de crédito e do comércio. Registraram-se

previsões de uma derrocada e advertências em relação ao extraordinário aumento dos encargos do serviço da dívida externa.

A guerra balcânica, que aconteceu na Europa, em 1912, levou o mercado europeu

ao retraimento, tornando difícil ao Brasil importar dinheiro. Ao mesmo tempo, registrou- se, no segundo semestre de 1913, tremenda baixa dos preços do café e da borracha. O Brasil, nesse ano, teve redução de cerca de dez milhões de esterlinos em sua exportação,

e a questão, em 1914, era como o Brasil poderia pagar as grandes obras em construção e as importações encomendadas, bem como os juros de sua dívida 26 . Cresciam, também, protestos contra o custo de vida, que vinha aumentando desde 1912.

O déficit orçamentário disparou. Em 1910, chegou a quase 100 mil contos de réis. Retrocedeu, em 1911, para 72.150 contos de réis, mas logo voltou a se elevar para 140.758 contos, em 1912. A receita crescia, mas a despesa aumentava em proporção maior. Em 1912, por exemplo, a receita chegou a 613.043 contos de réis, mas a despesa subiu a 753.801 contos. Segundo o parlamentar Homero Batista, ao discursar em 15 de junho de 1914, desde meados do ano anterior já estavam em crise o comércio e a indús- tria, a população em geral e o Tesouro da União – este em falência -, com os agravantes do aumento do custo de vida e da escassez de recursos para realização dos pagamentos. Os funcionários recebiam seus vencimentos com atraso.

A despeito de tudo isso, continuava como antes, conforme o parecer da Comis-

são de Finanças da Câmara dos Deputados, levado a plenário no dia 12 de agosto de 1913. De acordo com o documento, prosseguiam o mesmo gastar sem conta, com ou sem autorização legal, o mesmo abuso do crédito em emissões e empréstimos de so- mas avultadas, o mesmo desmando e a mesma desordem, mantendo-se o governo na execução febril de empreendimentos de todo o tipo, construindo estradas, vilas, hotéis suntuosos, oficinas, quartéis, palácios, portos, fábricas, colônias, indústrias novas, cen- tros magnificentes de diversões e até de tavolagem.

Ao mesmo tempo, os mercados monetários da Europa, sob a pressão da situação de