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DAS FORMAS DE NEGAÇÃO DA FILOSOFIA

A importância da Filosofia para o Direito e para os juristas é um tópico


ambivalente. Vão sendo já poucos os que, de cabeça levantada, ousem dizer,
ao nível científico, em fórum profissional ou em sede acadêmica, que ela lhe
seja nociva ou vã. Porém, muitos troçam dela e dos seus cultores, sobretudo,
ao que parece, porque não ganhariam causas nem agenciariam pareceres.

Mas o mais agudo e dramático ataque à Filosofia em geral,


curiosamente referindo-se à sua imprestabilidade em questões de Direitos
(designadamente para defesa em processo judicial), é o de Calícles a
Sócrates:

“Na verdade, meu caro Sócrates [...] não te parece vergonhoso


comportares-te como, na minha opinião, te comportas, assim como os
que, além de ti, sempre aprofundam mais e mais na filosofia? Agora [...]
supõe que, apoderando-se de ti ou de algum dos teus pares, vos
arrastavam à prisão, argüindo-vos culpados de um crime que não
haveríeis jamais cometido, não sabes tu bem que serias incapaz de te
livrar da situação? Mas não! A vertigem apossar-se-ia de ti; tu aí
estarias, boquiaberto, sem encontrar que dizer; e, no dia em que te
apresentasses na barra do tribunal, deparando diante de ti com um
acusador cheio de malquerença e de perversidade, tu serias,
condenado à morte, se fosse do seu desejo pedir a morte para ti. Que
sabedoria é contudo essa, Sócrates? Uma arte que, uma vez tendo
tocado com a sua mão um homem bem dotado naturalmente, o tornou
pior? Que o tornou tão importante para a si próprio se socorrer como
para salvar dos maiores perigos que a si mesmo quer a pessoa de
outrem? Exposto a ser, pelos seus inimigos, esbulhado de tudo o que
possui? A viver desprezado no seu país? [...]” Platão – Górgias, p.
486.

E, como sabemos, é este um ataque pesadíssimo, porquanto Platão,


jogando com a ironia trágica, nos relembra a factual veracidade dos
argumentos do contraditor do seu Mestre. Sem que, todavia, a um nível mais
profundo, a razão se inverta, mas esse nível não é a todos dado ver, posto que
a anunciação do diálogo predisponha, obviamente, à simpatia pró-socrática do
leitor.

A maioria, de fato, será convencida, seja pela advertência do interlocutor


de Sócrates, quer pelos conselhos que, logo a seguir, lhe prodigaliza –
sensatos conselhos:

“Crê antes em mim, meu caro, põe termo às tuas especulações,


adestra-te [antes] na bela música dos atos, treinas-te naquilo que te
dará os meios de ser considerado um homem de bom senso, deixando
para outros esses preciosismos [...], desejoso de imitar não as pessoas
que disputam sobre nadas, mas [ao invés] os que têm meios de
existência, reputação e uma multidão de outros bem.” Platão – Górgias,
p. 486.
É interessante analisar o comportamento dúplice dos detratores da
Filosofia, Porque se despreza tanto a Filosofia no mundo dos Juristas? E
porque será que, coerentemente, não se tem, não diríamos já a coragem, mas
ao menos a ombridade de o afirmar?

Pode haver muitas respostas corretas a estas interrogações.


Gostaríamos de, sem nos comprometermos com ela, colocar à vossa
consideração uma hipótese.

Não será que negar a Filosofia é já Filosofar? Tal já foi afirmado por
alguns filósofos, a começar por Aristóteles. Ora sustentar com argumentos,
ainda que positivistas, racionalistas, ou pseudocientíficos, isto é, utilizando um
discurso estruturado, com o mínimo de coerência argumentativa, inutilidade ou
a nocividade da Filosofia, ao menos para os juristas, seria já um exercício com
algo de filosófico.

Ora, para negar a Filosofia é preciso fugir a todo o pensamento reflexivo,


especulativo, e a toda a sua exposição de forma lógica e argumentada. O mais
eficaz meio de negar a Filosofia é a corrosão histriônica do riso, do riso daninho
e mesquinho, desse riso a que alguém chamou, com muita propriedade, a raiva
dos imponentes. E, de fato, rir-se da Filosofia, neste risinho vil, nesse desdém
superior da raposa das uvas verdes, é decerto a única forma de negar a
Filosofia sem filosofar. Todavia, mesmo isto seria negado por Pascal: “Se
moquer de la Philosophie, c`est vraiment philosopher” (Tirar sarro da Filosofia é
realmente filosofar – tradução livre) Pensées, I, 4 in fine.

Ao riso vil responde uma canora e franca gargalhada filosófica. O riso é


alvar. A gargalhada é um trovão de inteligência a varrer a mesquinhez. É uma
torrente de confrontação entre o real e o ideal (isso é que nos faz rir) que na
enxurrada lava das máculas e das verrinas.

Da Cunha, Paulo Ferreira. Lições Preliminares de Filosofia do Direito, Ed.


Almedina, Lisboa, 2002, p. 21-23.