Você está na página 1de 13

SEMINÁRIO TEOLÓGICO PRESBITERIANO

Rev. José Manoel da Conceição

TRABALHO

Resposta à crítica arminiana ao conceito reformado de liberdade e


responsabilidade humana.

Avaliação parcial da disciplina de


Teologia Sistemática 2 sob a
orientação do professor Rev. Dr.
Heber Carlos de Campos Júnior.

Marcos Cleber Santos Siqueira

2° ANO DO NOTURNO

São Paulo, 01 de novembro de 2010.


2

O conceito reformado de liberdade


Hoekema, em seu livro Criados à imagem de Deus, a titulo de ilustração faz
a seguinte indagação: “O homem decaído possui uma vontade livre?”1
Antes de respondermos esta pergunta é necessário entendermos que o
termo “vontade” pode ser entendido de modos diferentes, isso por causa de dois
conceitos distintos. Segundo Wright:
Quando os arminianos falam da “vontade”, eles estão se referindo a um poder
independente e autodeterminante pelo qual somos capacitados a fazer
escolhas autônomas. Quando os calvinistas se referem à “vontade”, este termo
simplesmente significa a função de desejar ou escolher, não uma parte
independente da anatomia da alma humana. Quando uma escolha é feita, esse
ato da vontade é sempre o ato de uma pessoa que pode ser tanto regenerada
como não regenerada. Isto é, todos os atos da vontade são expressões de um
2
caráter, seja ele bom ou mau.

Quanto a isso as Escrituras afirmam:


O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau,
do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu
3
coração fala a boca.

Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como
ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os
conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos
abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má
produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má
dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no
4
fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.

Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios,


5
prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.

1
HOEKEMA, Anthony. Criados à imagem de Deus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 250
2
WRIGHT, R. K. Mc Gregor. A soberania banida: redenção para a cultura pós-moderna. São Paulo: Editora
Cultura Cristã, 1998, p. 55.
3
Lucas 6. 45
4
Mateus 7. 15-20
5
Mateus 15. 19
3

Percebamos que na citação de Wright ele nos diz que “o ato da vontade é
sempre o ato de uma pessoa”. Com relação ao ser humano Hoekema o define
como uma pessoa criada, e acrescenta:
Ser uma criatura... Significa dependência absoluta de Deus; ser uma pessoa
significa independência relativa. Ser uma criatura significa que não posso mover
um dedo ou pronunciar uma palavra à parte de Deus; ser uma pessoa significa
que, quando meus dedos são movidos, eu os movo e que, quando as palavras são
pronunciadas por meus lábios, eu as pronuncio. Sermos criaturas significa que
Deus é oleiro e nós, o barro (Rm 9. 21); sermos pessoas significa que nós mesmos
6
é que moldamos nossa vida pelas nossas próprias decisões (Gl 6. 7-8).

Como um ser pessoal o homem é “livre” para fazer o que quer (de acordo
com sua natureza), mas não é livre para fazer algo que é contrário a sua
natureza. Com relação a vontade ser livre Wright declara: “Ela pode agir de
modo totalmente livre ao dar expressão ao caráter interior. Isto é, a vontade
pode ser livre na medida em que ela expressa livremente nossa natureza sem
7
ser autônoma ou agindo sem uma causa prévia”.
Podemos, portanto, entendermos que a liberdade é condicionada pela
capacidade e esta pode variar de acordo com estado (natureza) do homem.
Com relação a isto Hodge expõe o ensino de Agostinho e de muitos dos
agostinianos.
(1) A liberdade do homem antes da queda, era a capacidade de pecar ou não
pecar. (2) O estado do homem depois da queda, quando tem a liberdade de
pecar, porém não de praticar o bem. (3) o estado do homem no céu quando terá
liberdade para o bem, porém não para o mal. Esta última é a mais elevada forma
8
de liberdade.
Na declaração acima é omitida por Hodge o estado do homem depois da
regeneração, quanto a este estado podemos defini-lo da seguinte maneira
O estado do homem regenerado é aquele em que se pode agradar a Deus e
buscar as coisas espirituais. Agostinho diz que nessa condição o homem pode
não pecar (posse non peccare). Isso não significa, todavia, que o homem não

6
HOEKEMA, Anthony. Op. Cit. p. 17, nota 1.
7
WRIGHT, R. K. Mc Gregor.Op. cit. p. 55, nota 2.
8
HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 701.
4

peque mais, mas que ele foi liberto da escravidão do pecado que o influenciava
9
para o mal.
Verifiquemos que no primeiro estado a natureza do homem é pura. No
terceiro estado esta natureza redimida plenamente é aperfeiçoada de modo a
alcançar o ápice da verdadeira liberdade, que é a impossibilidade de praticar o
mau. Esta última é “a liberdade que pertence a Deus”.10 Porém, entre o inicio e
o fim, ou seja, no meio, o homem não regenerado peca livremente segundo
sua natureza e esta inabilitado de agir de modo contrário a essa natureza
pecaminosa.
Esta natureza pecaminosa teve sua origem após a queda, que se deu
depois que Adão tomou para si o fruto proibido. As conseqüências depois da
queda de Adão foram drásticas para toda a humanidade sem exceção.
Aconteceu o que Deus havia dito “... da árvore do conhecimento do bem e do
mal não comerás; porque no dia em que comeres, certamente morrerás”.11 De
acordo com Anglada:
As Escrituras também ensinam que Adão foi o cabeça representativo de todos
os seus descedentes. Todos nós estávamos representados nele. Assim, o seu
pecado é considerado nosso. Nele, todos somos culpados e condenados à
12
morte espiritual. Desde modo, o homem já nasce espiritualmente morto.
Quando utilizamos o termo queda, o que queremos dizer não é
simplesmente uma queda que poderia deixar o homem espiritual apenas
aleijado ou seriamente doente, mas sim que esta queda causou morte
espiritual, e que esta morte não se limitou a Adão, mas passou a todos os
homens, de modo que o Apóstolo Paulo nos diz “Portanto, assim como por um
só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a
morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram”. 13 O termo “total”
não significa que o homem é tão mal quanto poderia ser, ou que é impossível
para o homem qualquer ato benevolente, antes queremos dizer que o homem

9
CAVALCANTI, Carlos. A Soberania de Deus e o Livre-arbitrio. Disponivel em:
http://ubeblog.ning.com/group/grupodoscalvinistas
10
Ibid. p. 702.
11
Gênesis 2. 17
12
ANGLADA, Paulo. Calvinismo: as antigas doutrinas da graça. São Paulo: Editora Puritanos, 2000, p. 21.
13
Romanos 5. 12
5

foi maculado em todo o seu ser e não há uma faculdade humana em que não
habite o pecado. De acordo com Calvino:
Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos
convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma, e
reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humano se têm tornado
14
completamente corrompidos”.
Todas as faculdades humanas – sua mente, sua vontade... Estão
manchada pelo pecado. A Confissão de Westminster expõe o ensino bíblico da
seguinte maneira “e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente
corrompidos em todas as faculdades e partes do corpo e da alma”. 15
O ensino bíblico é de que o homem está morto para Deus, mas ativo para o
pecado (Ef. 2. 1-3), além disso ele é incapaz de deixar esta situação, pelo fato
dele esta morto. O homem é por natureza pecador, ele é pecador não porque
os seus atos o fazem pecador, mas porque nele habita o pecado desde sua
concepção, o passo seguinte de todo o homem é exteriorizar com frutos
pecaminoso a raiz pecaminosa que habita em seu coração (Mt 15. 19). A
natureza pecaminosa do homem impede que este se achegue a Cristo. Assim
como é impossível fazer com que um lobo se alimente de grama como uma
ovelha, por ele ter uma natureza carnívora, é impossível para o homem deixar
de alimentar seu apetite pecaminoso e se voltar a Deus (Jr 13. 23). Além do
mais, o homem sem Deus é escravo de sua própria vontade. Em sua
exposição do estado pecaminoso do homem o Apóstolo Paulo nos mostra o
terceiro fator que impõe uma força pecaminosa dominadora nos homens
alheios de Deus ele nos diz que vivíamos “segundo, as inclinações de nossa
carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”. 16 No que tange a
escolhas no âmbito espiritual o homem é incapaz de agir contrário a sua
natureza pecaminosa. De modo que o homem vive ativamente contrário à lei
de Deus e, inabilitado de fazer algo de acordo com esta mesma lei.
O conceito de liberdade reformado admite a livre-agência que é a liberdade
que o homem tem para decidir questões triviais e questões fora do âmbito
14
CALVINO, João. O livro dos salmos V. 2. São Paulo: Edições Paracletos, 1999, p. 431.
15
Confissão de Fé de Westminster, VI, 2.
16
Efésios 2. 3
6

espiritual, porém, como já dissemos, é impossível para o homem agir de forma


contrária a sua natureza pecaminosa em questões espirituais. Portanto, nestes
termos não há verdadeira liberdade ou livre-arbítrio, como muitos crêem. Do
contrário se o livre-arbítrio é entendido como a capacidade ou liberdade de se
fazer o que se quer, fazemos coro com Lutero ao dizer que: “qualquer suposto
“livre-arbítrio” só pode produzir o mal. Portanto, o “livre-arbítrio” nada é senão
um escravo do pecado, da morte e de Satanás. Tal “liberdade”, enfim, não é
17
liberdade alguma”. Além de Lutero poderíamos citar o enunciado de Wells
sobre este assunto:
O homem não tem poder para a vida piedosa. Chame-o “livre”, se quiser. Diga
que a sua vontade é “livre”. Mas quando tudo tiver sido dito e feito, ele
continuará sendo tão incapaz para a piedade como antes. Ele é incapaz de
realizar um ato piedoso. É incapaz de operar uma mudança interior. Ele é o que
é, um ser que odeia a Deus, um cego para a verdade de Deus. Será que ele é
livre e poderoso como foi Adão? Deixemos Jeremias responder: “pode o etíope
mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Nesse caso também vós
18
podereis fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” (Jeremias 13. 23)
Tendo em mente a depravação e a inabilidade do homem, perguntamos
pode então o homem atender o chamado do Evangelho para crer e se
arrepender? Se o homem é incapaz de assim fazer porque este chamado é
feito?

A critica arminiana
Para que possamos compreender a posição arminiana devemos considerar
seus princípios teológicos expostos no manifesto arminiano (The Remonstrance –
A objeção) que se opunha ao ensino reformado, que posteriormente irá causar o
nascedouro dos cinco pontos do calvinismo em resposta aos cinco pontos do
arminianismo exposto no manifesto. Segundo J. I. Packer, a teologia arminiana
originou-se de dois princípios filosóficos:
Primeiro, a soberania divina é incompatível com a liberdade humana e, portanto,
com a responsabilidade humana; segundo, a capacidade humana limita a

17
LUTERO, Martinho. Nascido Escravo. São Paulo: Editora Fiel, 2007, p. 32.
18
WELLS, Tom. Fé dom de Deus. São Paulo: PES, 1985, p. 39-40.
7

obrigação. Com base nesses princípios, os arminianos extraíram duas


deduções; primeira, visto que a Bíblia considera a fé como um ato humano livre
e responsável, ela não pode ser causada por Deus, mas é exercida
independente dele; segunda, visto que a Bíblia considera a fé obrigatória da
parte de todos quantos ouvem o evangelho, a capacidade de crer deve ser
19
universal.
O homem é responsável ou Deus é soberano, estas premissas, para o
arminianos, são irreconciliáveis. Segundo Olson “Nós arminianos clássicos...–
cremos que Deus poderia controlar tudo mas escolhe estar no comando ao invés
de controlar tudo a todo instante”.20 Para os ariminianos Deus tem todo o poder de
ser soberano, nos sentido de empregar a sua onipotência naquilo que ele mesmo
deseja, porém ele não o faz, pois decidiu respeitar as escolhas de suas criaturas.
Tozer tenta aquilo que ele acha ser uma reconciliação entre soberania de Deus
e liberdade humana:
Deus soberanamente decretou que o homem fosse livre para exercer escolha
moral, e o homem desde o começo tem cumprido esse decreto fazendo sua
escolha entre o bem e o mal. Quando ele escolhe fazer o mal, ele não está
agindo, por meio disso, contra a vontade soberana de Deus, mas a cumprindo,
considerando que o decreto eterno decidiu, não qual escolha o homem deveria
21
fazer, mas que ele devesse ser livre para fazê-la.
Segundo o entendimento de Tozer é de que Deus decretou que o homem
fosse livre para tomar decisões entre o bem e o mau, e este “dom” persiste depois
da queda. Deste modo às escolhas humanas quanto ao bem e ao mal são atos
autônomos sem qualquer inclinação pré-estabelecida entre eles. A implicação
disso é de que a natureza do homem neste caso é neutra. O argumento se
estende até chegar no ponto em que é dito que as Escrituras colocam diante do
homem dois caminhos, cabe o homem decidir, por si só o caminho a ser seguido,
isto o homem faz exercendo sua liberdade e sua capacidade de escolher o bem
mediante a graça preveniente (preveniente significa “vir anteriormente”) quanto a
19
PACKER, J. I. Entre os gigantes de Deus. São Paulo: Editora Fiel, 1996, p. 138.
20
OLSON, Roger E. Não me odeie porque sou arminiano. Christianity Today, 6 de setembro de 1999. Disponível em
http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=917:roger-e-olson-nao-me-
odeie-porque-sou-arminiano&catid=200:vol-43-nr-10&Itemid=100008
21
TOWZER, A. W. A soberania de Deus (Knowledge of the Holy, cap. 22.). Disponível em
http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1081:a-soberania-de-
deus&catid=19:a-w-tozer&Itemid=100026
8

isso Olson enuncia, “Também acreditamos com Jacob Arminius e John Wesley
que a graça preveniente é a única base para a livre aceitação da graça salvadora
de Deus”.22 Quanto a graça preveniente, de início ela muito se assemelha ao
conceito reformado de graça comum, como veremos na primeira citação de
Wesley, porém percebemos um distanciamento do conceito reformado nas
citações posteriores. Esta graça vem antes da salvação e todos os homens a
recebem, segundo Wesley:
Todas as bênçãos que Deus tem concedido ao homem são de Sua simples
graça, doação ou favor; Seu favor gratuito imerecido; favor completamente
imerecido; não tendo o homem direito à menor de Suas misericórdias. Esta é a
graça gratuita que “formou o homem do pó da terra, e soprou nele uma alma
vivente e imprimiu em sua alma a imagem de Deus, e pôs todas as coisas sob
seus pés”.Esta mesma graça gratuita continua para nós nestes dias, vida,
respiração e todas as coisas. Não existe nada que somos, tenhamos ou façamos
que justifique a mínima coisa das mãos de Deus. “Todo nosso trabalho, Tu, ó
Deus, tens feito em nós”.Estas, portanto, são tantos mais exemplos de gratuita
misericórdia: qualquer integridade que possa ser achada no homem, isto
23
também é dom de Deus.
Segundo Cox:
Embora os Wesleyanos possam consentir que tudo o que é afirmado para a
graça comum pode também ser afirmado para a graça preveniente, todavia eles
defendem que o propósito primário da graça preveniente não é restringir o
pecado e dar bons desejos e bênçãos ao homem; esta graça é dada a fim de
24
levar os homens ao arrependimento e à salvação.
Wesley escreveu:
Por admitir que todas as almas dos homens estão mortas no pecado por
natureza, isto não justifica ninguém, visto que não existe nenhum homem no
estado de mera natureza; não existe nenhum homem, a não ser que tenha
extinguido o Espírito, que esteja absolutamente vazio da graça de Deus.
Nenhum homem vivo é inteiramente destituído do que é vulgarmente chamado

22 OLSON, Roger E. Não me odeie porque sou arminiano. Christianity Today, 6 de setembro de 1999. Disponível em
http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=917:roger-e-olson-nao-me-odeie-porque-sou-
arminiano&catid=200:vol-43-nr-10&Itemid=100008
23
WESLEY, 1872. Apud COX, Leo G.
http://www.arminianismo.com/index.php?Itemid=100009&catid=173:vol-12-nr-3-verao-de-
1969&id=776:leo-g-cox-graca-preveniente-uma-visao-wesleyana&option=com_content&view=article#_ftn1
24
Ibid.
9

de consciência natural. Mas isto não é natural: é mais apropriadamente


chamado, graça preveniente. Todo homem tem uma maior ou menor quantidade
desta, que não espera pelo convite do homem. Todos têm, cedo ou tarde, bons
desejos; embora a maioria dos homens sufoque-os antes deles poderem
enraizar-se ou produzir algum fruto considerável. Todos têm alguma quantidade
dessa luz, algum fraco raio lampejante que, cedo ou tarde, mais ou menos,
ilumina todo o homem que vem ao mundo. E todos, a não ser que ele seja um
dos poucos cuja mente está cauterizada com ferro quente, sente mais ou menos
incômodo quando age contrário à luz de sua própria consciência. De forma que
ninguém peca porque não tem graça, mas porque não faz uso da graça que
25
tem.

No entendimento arminiano o homem é capacitado por Deus através da graça


preveniente para ter atos bons e também esta mesma graça preveniente o
capacita a escolher Cristo e ser salvo. Já o ensino reformado é de que a graça
comum é para todos os homens, diferentemente da graça especial (para salvação)
que é dada somente aos eleitos de Deus. O conceito arminiano busca se
enquadrar na premissa: “ora, se o homem é responsabilizado pelos seus atos,
logo se pressupõe, que ele tem a capacidade de tomar decisões no que concerne
sua salvação, do contrário não haveria base para responsabilizá-lo pelos seus
atos”.
Deste modo, se a Bíblia exorta aos homens que creiam para serem salvos, é
porque eles são capazes de cumprir com essa condição. No que tange a este
ponto Geisler enuncia: “a fé é nossa responsabilidade, e ela está enraizada em
nossa capacidade de responder ”.26 Geisler conclui: “ao contrário do que pensam
os calvinistas extremados, a fé não é um dom que Deus oferece somente a
alguns. Todos têm a responsabilidade de crer, e quem quer que decida crer pode
crer”.27
Portanto, vemos um distanciar dos arminianos em relação aos calvinistas no
que se refere às conseqüências do pecado e a ação de Deus. Para o arminiano a
queda não trouxe tanto danos aos homens. O homem ainda conserva alguns

25
Ibid.
26
GEISLER, Norman. Eleitos mais livres. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 39.
27
Ibid.
10

dons, ele até mesmo escolhe crer deliberadamente antes de ser regenerado,
quanto a Deus ele abre mão de sua soberania para validar a livre escolha de suas
criaturas.

A responsabilidade do homem segundo a teologia reformada


Já dissemos como o homem alienado de Deus é “livre” em seus atos,
no sentido desses atos serem a expressão de sua natureza pecaminosa. Suas
escolhas expressam o que ele é em essência, assim como a árvore boa produz
bons frutos, e árvore má produz maus frutos. Portanto declara Wells:
Num sentido não há nada de errado com a vontade do homem. Seu mecanismo
de fazer escolhas está intacto. Suas faculdades funcionam. Ele faz escolhas
reais o tempo todo, e por essas escolhas é responsável diante de Deus. O
problema do homem é de diferente espécie. Não está em seu mecanismo. Está
28
em sua disposição.
Por o homem agir deste modo ele é também responsável por estes atos e
Deus o julgará. Wright enuncia aquilo que ele chama como uma explicação
calvinista do significado de responsabilidade:
Responsabilidade é simplesmente um sinônimo de “prestar contas”, e significa
que devemos responder diante de Deus, o juiz, por nossas ações. Isso quer
dizer que, se Deus nos chama para tratar de uma de nossas ações, ficamos
moralmente obrigados a responder por ela diante de Deus. Somos
“responsáveis” diante de Deus.29
Portanto declaramos nas palavras do Rev. Samuel Falcão “o homem
[caído] age sem coação, naquilo que faz, de acordo com a sua natureza e
tendências, e portanto é responsável”.30
Porém, como poderemos ser responsáveis se por nós mesmos somos
incapazes de agir em direção a Deus? Deveríamos admitir a doutrina arminiana do
livre-arbítrio para concebermos o conceito de responsabilidade humana? A única
regra de fé e prática do verdadeiro cristão é a Bíblia, e quanto a responsabilidade
28
WELLS, Tom. Fé dom de Deus. São Paulo: PES, 1985, p.40.
29
ibid. p. 61
30
FALCÃO, Samuel de Vasconcelos. Predestinação. Pernambuco: Edição da JUNTA DE PUBLICAÇÕES
DA MISSÃO PRESBITERIANA DO BRASIL, 1967, p. 173.
11

humana e livre-arbítrio Wright declara “em nenhum lugar na Bíblia a


responsabilidade esta vinculada ao livre-arbítrio. Ela nunca usa o livre-arbítrio
como uma categoria de explicação, nem uma só vez sequer”.31
A incapacidade espiritual do homem de fazer por si só o bem que Deus
exige, não é pretexto para não responsabilizá-lo, porque é o próprio homem
responsável pela sua condição de incapacidade. De acordo com Anglada:
O estado de depravação e incapacidade espiritual é decorrente da sua própria
decisão no Éden, quando, livremente (ainda em estado de inocência) decidiu
pecar. Adão poderia ter escolhido não pecar, apesar de haver sido alertado para
a trágica conseqüência que adviria daquela decisão. Logo, se o próprio homem é
o culpado pela sua incapacidade espiritual, este seu estado não o torna
espiritualmente irresponsável. Alguém isentaria de responsabilidade um
motorista embriagado que atropela e mata uma criança, por estar incapacitado
32
de frear ou desviar o carro?!
Sabemos que Adão era o cabeça representativo de toda a humanidade,
quando Deus por sua condescendência fez um pacto com Adão, quando este
quebrou o pacto toda a humanidade, a qual ele representava, tornou-se culpada.
Quando Adão caiu, nós caímos, quando Adão escolheu pecar, nós escolhemos
pecar em Adão. De modo, que culpados e responsabilizados em Adão, somos
também alvos das conseqüências do pecado de Adão (Rm 5. 12). Além disso, se
estivéssemos no lugar de Adão teríamos tomado a mesma decisão.
Portanto, é porque o homem segundo sua natureza não é coagido fazer
algo contrário a sua vontade ele é responsável. E, além disso, nas palavras de
Grudem, “Deus considera a raça humana como um todo orgânico, uma unidade,
representada por Adão, como cabeça”33. De modo que todos os homens são
culpados e responsabilizado em Adão.

31
Wright
32
Anglada, p. 28.
33
GRUDEM. Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Editora Vida Nova, 1999, p. 408.
12

Bibliografia

ANGLADA, Paulo. Calvinismo: as antigas doutrinas da graça. São Paulo: Editora


Puritanos, 2000, 151p.

CALVINO, João. O livro dos salmos V. 2. São Paulo: Edições Paracletos, 1999,
679 p.

FALCÃO, Samuel de Vasconcelos. Predestinação. Pernambuco: Edição da


JUNTA DE PUBLICAÇÕES DA MISSÃO PRESBITERIANA DO BRASIL, 1967,
200 p.

GEISLER, Norman. Eleitos mais livres. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 318 p.

GRUDEM. Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Editora


Vida Nova, 1999, 1046 p.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Hagnos, 2001,1711 p.

HOEKEMA, Anthony. Criados à imagem de Deus. São Paulo: Editora Cultura


Cristã, 1999, 288 p.

LUTERO, Martinho. Nascido Escravo. São Paulo: Editora Fiel, 2007, 101 p.

PACKER, J. I. Entre os gigantes de Deus. São Paulo: Editora Fiel, 1996, 389 p.

WRIGHT, R. K. Mc Gregor. A soberania banida: redenção para a cultura pós-


moderna. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1998. 267 p.
13

Artigos consultados na internet

OLSON, Roger E. Não me odeie porque sou arminiano. Christianity Today, 6 de


setembro de 1999. Disponível em
http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=91
7:roger-e-olson-nao-me-odeie-porque-sou-arminiano&catid=200:vol-43-nr-
10&Itemid=100008

TOWZER, A. W. A soberania de Deus (Knowledge of the Holy, cap. 22.).


Disponível em
http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=10
81:a-soberania-de-deus&catid=19:a-w-tozer&Itemid=100026

COX, Leo. G. Graça preveniente uma visão Wesleyana. Disponível em


http://www.arminianismo.com/index.php?Itemid=100009&catid=173:vol-12-nr-3-
verao-de-1969&id=776:leo-g-cox-graca-preveniente-uma-visao-
wesleyana&option=com_content&view=article#_ftn1