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UMA ANÁLISE DA MOTIVAÇÃO BÍBLICA PARA MISSÕES

Por Yago Martins

Um assunto muito esquecido nas pregações atuais é o referente às motivações de um Cris-


tão. E não é por menos, vivemos em uma época que “Graça” tornou-se apenas mais um termo
técnico vazio de significado, fazendo com que a vida cristã baseie-se mais em “fazer” do que
qualquer outra coisa. Olhe para a maioria dos púlpitos atuais e você verá homens ensinando, e-
xortando ou mandando fazer algo. Encontrar alguém focando a motivação por detrás de cada
atitude é como achar ouro em meio a inúmeros pedregulhos.
Eu não consigo entender como falamos tão pouco sobre motivações se a Bíblia é repleta
de mandamentos sobre isso. O famoso Sermão do Monte mostra Jesus interpretando os Dez Man-
damentos de um modo que não se prendia apenas à ordenança, mas ao âmago da motivação
por detrás de cada ensino. Paulo, em Romanos 14, mostra que existem questões secundárias da
Fé que, dependendo da motivação envolvida, pode ser pecaminosa ou não. O mesmo Apostolo
diz em 1 Coríntios 10 que devemos ter a motivação de glorificar a Deus nas menores coisas de
nossa vida, como comer e beber. Esses são tópicos importantíssimos da vida Cristã e pouco é fa-
lado sobre eles.
Não é difícil perceber que o mesmo acontece com as Missões. A maioria das pregações nos
manda fazer algo, em detrimento do por que de fazer. “Faça missões!”, bradam eles; “Cumpra o
Ide”, vociferam. Se, durante uma pregação destas, alguém levantar uma das mãos e perguntar o
que deve motivar isso tudo, creio que teríamos um gago hesitante no púlpito, e não mais um pre-
gador. Quando não é assim, vemos motivações erradas sendo expostas. Você já deve ter visto
CDs e vídeos onde apelos humanistas são feitos para levar-nos às Missões. Eles nos expõem a po-
breza dos povos sem Deus, a dor deles, a perdição deles. Muitos criam vídeos onde homens vesti-
dos como budistas clamam por alguém que os pregue arrependimento. Tudo isso não passa de
lixo carnal e secularizado. Essa não é a motivação que Cristo nos mandou ter para as Missões.
Temos que lembrar que motivações bíblicas geram Missões bíblicas. Se nossas motivações
não estiverem na Palavra de Deus, nossas missões não serão missões baseadas na vontade de
Deus. É por isso que esse tema é importante e precisa ser resgatado na pregação evangélica.
Precisamos de motivações cristocêntricas – e é sobre isso que quero expor. Abramos nossas Bíblias,
primeiramente, em Mateus 28:16,17.
“E os onze discípulos partiram para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes tinha designa-
do. E, quando o viram, o adoraram; mas alguns duvidaram.”
Deixe-me situar-nos geográfica e historicamente. Jesus havia ressuscitado e está em um dos
seus aparecimentos aos discípulos. Ele está em um monte da Galiléia, como havia predito aos
seus seguidores (Mt 26:32;28:7,10). Mateus só diz que os Onze Apóstolos estavam aqui, mas é pro-
vável que esta seja a reunião com "mais de quinhentos" presentes citada por Paulo (I Co 15:6).
Como a Galiléia era o lar da maioria dos discípulos de Cristo, esse era o lugar mais indicado para
uma multidão como essa não ser molestada pelas autoridades. Neste grande ajuntamento, al-
guns duvidaram que Cristo estivesse mesmo ali; porém, grande maioria adorou a Deus. Jesus não
tratou daqueles que não creram e falou especificamente com seus discípulos. Lucas deixa claro
que o Salvador falou sobre vários outros assuntos neste encontro e que a famosa Grande Comis-
são foi apenas um deles. Como esse ponto da conversa foi registrado por três evangelistas e dois
deles registraram apenas essa parte, podemos concluir que esse foi o ponto que mais marcou a-
quela aparição de Cristo. Então, Mateus, nos versos 18 e 19, começa a registrar as falas de Cristo,
dizendo:
“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra.
Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações...”
Acredito que não podemos ter uma noção coerente sobre missões se não tivermos uma vi-
são coerente sobre essas palavras de Cristo; por isso, permita-me ser excessivamente didático.
Quando eu digo: “Eu te amo. Portanto, quero ver-te feliz” ou “Eu te odeio. Portanto, não vou sair
com você”, eu estou expressando motivos. Eu uso um “portanto” para dizer que quero ver-te feliz
por que te amo ou para dizer que não vou sair contigo por que te odeio. Jesus está nos dando um
motivo – uma motivação – para a obra missionária da Igreja.
1
É POR ELE QUE VAMOS
Vejam, irmãos, estamos falando da grande Obra Missionária. Estamos referindo-nos ao co-
nhecido “Ide”. A famosa e “imaculada” Grande Comissão. Graças a Deus por eu não precisar me
desgastar expondo como esse é um assunto importante. Quero apenas lembrá-los do que vocês
já possuem plena consciência: nós estamos tratando das motivações que estão por detrás do “I-
de”, isso só pode ser de uma importância tremenda. Olhem com cuidado para esse texto e res-
pondam: qual a motivação que Jesus nos deu para as Missões? Resposta: A Sua Soberania.
É baseado em quem Deus é que nós temos força para ir, e em mais nada. É motivado pelos
atributos do nosso poderoso Rei que nosso exercito caminhará para a batalha. Não existe outro
motivo que nos leve a fincar a bandeira de Sião nos lugares mais longínquos senão o de estarmos
maravilhados por contemplar a face do Supremo. Isso releva alguns pontos incríveis sobre Missões.
1. Você, jovem, quer força para ir pregar o evangelho? Quer vencer a timidez, a preguiça e
a mornidão? Conheça o seu Deus. Não existe outro modo eficaz de te motivar a fazer discípulos
de Cristo. Muitas vezes, quando lemos a história dos mártires do Senhor, quando conhecemos os
heróis da fé, os grandes homens da Bíblia, costumamos ficar tristes e abalados. Contemplamos
nosso próprio desleixo com a obra do Senhor e ficamos atônitos. Muitas vezes queremos (e que-
remos mesmo) abrir mão de tudo e viver por uma paixão por Cristo. O problema é que não temos
forças. Nós queremos ir, mas algo prende-nos a nossa cadeira, fazendo-nos ficar. A força que pre-
cisamos está na gloria reluzente de Deus, que brilha na face de Cristo. Conheça quem é Seu
Deus. Mergulhe nas Escrituras e conheça os elogiáveis atributos de nosso Senhor. Conheça o Seu
amor, graça, mansidão, paciência, misericórdia, ira, severidade, justiça, soberania, etc. Tenha
uma visão do trono de Cristo, e você terá toda a motivação para ir.
2. Se nosso evangelismo não é baseado no conhecimento d‟Ele, nossa Missão não é bíblica.
Digo isso por que, se é justamente o conhecimento de Deus que nos motiva a pregar por todo o
mundo, se não tivermos esse conhecimento, teremos motivações anti-bíblicas – e tudo que é anti-
biblico é pecaminoso. Você pode ser motivado por muitas coisas: pena, senso de dever, consci-
ência social, etc. Se sua motivação não vier diretamente do conhecimento de Deus, sua obra
não é de Deus.
3. Só podemos achar que, se o conhecimento de Deus deve ser nossa motivação, eu só
posso ser um missionário verdadeiro se eu possuir esse conhecimento. Se eu não sou apto para
ensinar (I Tm 3:2) sobre o Senhor, eu não estou qualificado para ser um enviado de Deus. Se você,
jovem, não se debruça sobre as Escrituras dia após dia, você deve guardar-se de tropeçar no fa-
lar (Tg 3:2) e não ser um mestre para si mesmo (Tg 3:1); do contrário, ensinará doutrinas de demô-
nios (I Tm 4:1,2). Assim, você não será um enviado de Deus, mas um missionário de Satanás. Se vo-
cê não conhece realmente a Deus, você não cumprirá verdadeiramente o papel missionário:
mostrar Deus para os perdidos.
Então, restam-nos três rápidas perguntas para aqueles que já são dedicados às Missões. Es-
forçamo-nos tanto, mas nos esforçamos motivados por quem Ele é? Se nosso esforço não O tem
como motivo, trabalhamos em vão. Esforçamo-nos tanto, mas nos esforçamos para a glória d’Ele?
Se glorificá-lO não é o motivo de ir, vamos em vão. Não devemos nos gloriar em nosso sacrifício
missionário, mas sim dar a Ele o devido louvor. Esforçamo-nos tanto, mas nos esforçamos por Ele?
Esquecemos, muitas vezes, que Deus é um ser pessoal que devemos amar e agradar. Se nosso
evangelismo não tem a pessoa de Cristo como base, somos tolos em nossa batalha.

QUATRO PERGUNTAS
Depois destas considerações gerais, olhemos mais profundamente para o verso 18 desta
narrativa de Mateus.
“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra.
Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações...”
Nós vemos, pelo texto, que algo foi dado. Há muitas considerações a serem feitas sobre esta
extensa fala de Cristo, onde ele dá o motivo de pregarmos o evangelho pelo mundo. Talvez al-
guém ache que eu passarei tempo demais tratando de assuntos que nada tem a ver com mis-
sões, mas se aqui está a motivação bíblica referente ao evangelismo, precisamos olhar para ela
com muito cuidado e atenção. Façamos, assim, quatro humildes perguntas para este verso.
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A primeira pergunta é: Para quem foi dado? O texto diz: “Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me
dado...”. Nosso evangelismo, indubitável e inegociavelmente, deve ser motivado naquele que
recebeu: Em Jesus. A missão da Igreja é levar “graça e apostolado por amor do seu nome [de Je-
sus], para a obediência por fé, entre todos os gentios” (Rm 1:5). Se apenas levarmos graça para o
mundo, nosso trabalho será incompleto. Graça, sem Jesus, não é graça – desgraça, talvez. Tudo
tem que ser feito por amor do nome d‟Ele. Por amá-lo e querer fazer o nome d‟Ele grande entre as
nações. Faço dois comentários sobre isto:
1. Se nossa motivação é baseada em quem Deus é, devemos, conseguintemente, ser moti-
vados pelo Filho, já que Ele é a perfeita imagem do Pai (Cl 1:15). Muitos desprezam falar de Jesus
para falar apenas de Deus. O problema é que “Deus” tornou-se um conceito genérico: existe o
Deus dos hindus, dos mulçumanos, dos cristãos, etc. Jesus foi claro quando disse: “sereis minhas
testemunhas” (At 1:8). Deus enviou Seu filho – precisamos mostrá-lO como imagem do Pai.
2. Nossa pregação, assim como nossa motivação, deve ser baseada no filho unigênito de
Deus. Ele é o único mediador entre Deus e os homens (I Tm 2:5), pois “não há salvação em ne-
nhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo
qual importa que sejamos salvos” (At 4:12).
Nossa segunda pergunta é: o que foi dado? Lemos: “É-me dado... o poder”. Nossas tradu-
ções em português são meio vagas na tradução desta palavra. Aliás, acredito que qualquer tra-
dução seria vaga. Essa é uma palavra que é usada de um modo interessante por Mateus. Olhe-
mos para ela por um instante.
O termo aqui traduzido como “poder”, no grego, é “exousia”, que significa um “poder de
escolher, reger e governar. Liberdade de fazer como se quiser”. Isso foi o que Deus pai entregou
para Jesus. Foi-lhe dado essa “exousia”, esse poder para fazer o que bem desejar, para governar
e para reger o mundo.
Existe uma regra de interpretação bíblica que devemos atentar neste momento. Se quiser-
mos conhecer o significado exato de uma palavra para um escritor, devemos analisar o uso desta
mesma palavra em outros momentos e ver como ela é usada, na esperança de encontrar uma
passagem que explique o que aquela palavra significa1. Ao observarmos o uso de “exousia” por
Mateus, observamos que ele a usa mais oito vezes em seu evangelho. Quatro vezes referente à
autoridade que Jesus tinha para ensinar (7:29; 21:23,24,27), duas referentes à autoridade d‟Ele pa-
ra curar e perdoar pecados (9:6,8), uma sobre a autoridade dos discípulos para curar e expulsar
demônios (10:1). Nenhumas destas sete passagens dão alguma luz sobre alguma peculiaridade
no uso deste termo. Bem, existe ainda uma ultima passagem para olharmos, e é ela que faz toda
a diferença em nossa análise:
“E o centurião, respondendo, disse: Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu
telhado, mas dize somente uma palavra, e o meu criado há de sarar. Pois também eu sou
homem sob autoridade [exousia], e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: Vai,
e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem; e ao meu criado: Faze isto, e ele o faz.” (Mt 8:8,9)
Assim como em Hebreus 11, temos um verso em que um termo é explicado. O que é ter e-
xousia? É ter o poder para dizer a um: vai, e ele ir; dizer a outro: vem, e ele vir; e a outro: Faça isto,
e ele fazer. Essa é a autoridade que Cristo tem! O que Ele disser, é cumprido. Ele tem poder para
dizer e acontecer. Ele tem poder para criar mundo apenas com o poder se Sua voz. “Porque fa-
lou, e foi feito; mandou, e logo apareceu” (Sl 39:9).
Perguntemos, agora, em terceiro lugar: em que extensão isso foi dado? O texto expressa
que foi dado para Cristo “o poder no céu e na terra”. Essa expressão é um hebraísmo para dizer
que Ele tem poder sobre tudo. Se um engenheiro tem autoridade sobre o pedreiro, ele pode dizer:
“construa essa parede, e o pedreiro irá”. Mas esse mesmo engenheiro não pode dizer ao nada:
“construa uma parede”, pois nenhuma parede aparecerá, já que ele não possui tal autoridade.
Cristo pode dizer “haja luz”, e a luz aparecerá (Gn 1:3), não importa a quem Ele o diga. Ele tem
autoridade sobre o que sequer existe para do nada, fazer tudo aparecer (ex nihilo, como dizem).

1 Um exemplo: se eu quero entender o que “fé” significa para o autor de Hebreus, eu preciso ver como
essa palavra aparece ao longo de toda a carta. Quando você depara-se com o Capítulo 11, você lê: “Ora,
a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem” (v. 1), seguido
de uma lista de exemplos sobre Fé. Entender esse capítulo, especialmente o verso 1, é essencial para enten-
der o que o autor quer dizer sempre que usa a palavra “fé”.

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O salmista diz: “Nos céus estabeleceu o Senhor o seu trono, e o seu reino domina sobre tudo”
(103:19). Vejam: ele domina sobre céu e terra, sobre tudo que há para ser reinado. Toda a criação
está nas palmas das mãos de nosso Senhor. Ele sustenta “todas as coisas pela palavra de seu po-
der” (Hb 1:3). Todas as coisas! Do céu a terra, Deus domina tudo o que há.
Deus tem autoridade sobre a matéria inanimada. “E disse Deus: Haja luz; e houve luz. E disse
Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi. E
disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segun-
do a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi” (Gn 1:3,9,11). Ele mandou, e
houve luz; Ele ordenou, e a vegetação se fez. Ele desejou, e o mundo foi alagado por águas:
“Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra...” (Gn 6:17). Ele é aquele que até o
vendo e os mares lhe obedecem (Mc 4:41): “E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao
mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança” (Mc 4:39).
Deus tem autoridade sobre as criaturas irracionais. “Havendo, pois, o SENHOR Deus formado
da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão...” (Gn 2:19). “E de
tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca, para os conservar
vivos contigo; macho e fêmea serão. Das aves conforme a sua espécie, e dos animais conforme a
sua espécie, de todo o réptil da terra conforme a sua espécie, dois de cada espécie virão a ti,
para os conservar em vida” (Gn 6:19,20). Nem foi Adão que procurou os animais e nem foi Noé
quem os pôs na arca. Deus levou os animais até eles. Deus governa-os. Se Ele diz: “vá até lá”, eles
certamente irão. “Depois veio a ele a palavra do SENHOR, dizendo: Retira-te daqui, e vai para o
oriente, e esconde-te junto ao ribeiro de Querite, que está diante do Jordão. E há de ser que be-
berás do ribeiro; e eu tenho ordenado aos corvos que ali te sustentem” (I Rs 17:2-4).
Deus tem autoridade sobre os homens e os filhos dos homens. Ouçam as Escrituras: “O cora-
ção do homem planeja o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos” (Pv 16:9). “Do homem
são as preparações do coração, mas do SENHOR a resposta da língua” (Pv 16:1). “Como ribeiros
de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer” (Pv
21:1). “Muitos propósitos há no coração do homem, porém o conselho do SENHOR permanecerá”
(Pv 19:21).
Deus tem autoridade sobre criaturas espirituais, sejam anjos ou demônios. “... o Senhor envi-
ou o seu anjo, e me livrou da mão de Herodes...” (At 12:11). “E Deus mandou um anjo a Jerusalém
para a destruir...” (I Cr 21:15). “Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu
reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniqüidade” (Mt 13:41). “Enviou Deus um
mau espírito entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém...” (Jz 9:23). “Agora, pois, eis que o SE-
NHOR pôs o espírito de mentira na boca de todos estes teus profetas...” (I Rs 22:23). “... e atormen-
tava-o [a Saul] um espírito mau da parte do SENHOR” (I Sm 16:14). Até sobre Satanás, lemos que
“... disse-lhe Jesus: “Vai-te, Satanás...”, e “Então o diabo o deixou...” (Mt 4:10,11).
Não existe nada, entre todo o cosmos, que escape da mão do Senhor.
Em ultimo lugar, observemos o quanto desta autoridade foi dada a Jesus. Não nos é penoso
ler as palavras de nosso mestre: “É-me dado todo o poder no céu e na terra”. Todo o poder. Todo
ele. Nenhuma gota de poder foi retida para Cristo. Nenhuma fagulha de autoridade lhe falta.
Embora tenha vindo em humildade, Ele voltará poderoso como agora Ele o é. O nível mais pro-
fundo de soberania lhe foi concedido. Nada pode resistir ao Seu querer e até o menor dos elé-
trons move-se debaixo de Seu cuidado. “Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou; quem o
invalidará?” (Is 14:27). “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó
42:2). “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade,
ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão,
nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4:35). “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl
115:3; cf Ef 1:11).
Sei que pareço ter saído do assunto proposto, mas precisamos entender bem as palavras de
Cristo se quisermos viver de acordo com as ordens d‟Ele. Resumindo com uma frase tudo que foi
digo até aqui: o que nos motiva para ir é a soberania infinita de Cristo sobre tudo. Sabendo disto,
vamos olhar para algumas aplicações disto no nosso evangelismo.

COMO A SOBERANIA NOS MOTIVA?

4
Agora que contemplamos (talvez, para alguns, exaustivamente) a Soberania de Deus, va-
mos olhar para como isso influi e motiva diretamente nosso evangelismo.
Em primeiro lugar, Deus ser Soberano mostra que Ele merece discípulos. Ninguém no céu, na
terra ou debaixo da terra é digno de louvor e adoração, senão Aquele que é Soberano. Todo o
mundo é d‟Ele e devemos fazer este mundo cativo a Cristo.
Em segundo lugar, precisamos considerar a motivação que temos em perceber que Ele po-
de, verdadeiramente, nos comissionar. Se um pobre engraxate tentar enviar alguém para uma
missão, ele será desprezado pelos homens ao seu redor. “Quem ele pensa que é para me mandar
fazer algo?”, dirão. Deus, o Soberano-mor do universo, enviou-nos em uma missão – não há ho-
mem no mundo que, em sã consciência, negue este envio.
Em terceiro lugar, somos motivados porque Deus é Soberano sobre a salvação. A graça de
Deus é soberana! Já disse nosso Cristo que ninguém pode ir a Ele, se pelo Pai não lhe for concedi-
do (Jo 6:65). É Deus quem, soberanamente, traz os salvos para Si, preparando-os para a ressurrei-
ção (Jo 6:44). É o próprio Senhor quem abre os corações dos infiéis para atentar às palavras de
salvação (At 16:14). Aprendemos, em Romanos 9, que é o próprio Deus quem prepara os homens
para a perdição (v. 22) ou para a glória (v. 23). Não há ninguém além d‟Ele que, pelo Seu Espírito,
pode convencer “o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16:8). Ele é completamente So-
berano sobre a salvação dos homens, nenhum deles é salvo sem a mão de Deus estar operando
em seus corações (Ez 37).
Como saber disto motiva o cristão a pregar para os perdidos? Exatamente pela deliciosa
verdade de que Deus é quem salva os homens, não eu. John Alexander, primeiro presidente da
Associação Cristã Interuniversitária, disse em uma pregação na Urban 67:
"No começo da minha carreira missionária, afirmei que, se a predestinação fosse verda-
deira, eu não poderia ser um missionário. Agora, após mais ou menos vinte anos de luta
com a dureza do coração humano, asseguro que nunca poderia ser um missionário, a
menos que eu acreditasse na doutrina da predestinação"2
João 10:16 apresenta muito bem como a Graça Soberana nos motiva a fazer missões: “Ain-
da tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha
voz; então, haverá um rebanho e um pastor”. Cristo tem, certamente, outras ovelhas. Os filhos de
Deus "andam dispersos" (Jo 11:52) entre “toda tribo, língua, povo e nação" (Ap 5:9). Todos aqueles
que querem fazer missões tem uma santa confiança n‟Aquele que salva o pecador. Deus salvará,
sim, Seus Filhos. Estamos indo numa missão certa. Motive-se! Existem outras ovelhas fora do aprisco
que só precisam ouvir a mensagem do evangelho, a fim de que sejam salvas - o Bom Pastor co-
nhece as que são Suas e as chamará pelo nome. Isto me dá uma força sem igual, espero que te
motive também. John Piper comenta sobre o incentivo que este verso de João 10 traz, dizendo:
“[Um dos incentivos] desse versículo é que as ovelhas que ele chama virão com certeza.
„É preciso trazer também essas, e elas ouvirão a minha voz.‟ O que é impossível aos ho-
mens, é possível para Deus! Quando Paulo terminou de pregar na cidade de Antioquia
[da Pisídia], Lucas descreve assim os resultados: „Creram todos os que haviam sido desti-
nados para a vida eterna‟ (At 13:48). Deus tem uma pessoa em cada povo. Ele a chama-
rá com poder criador. E eles crerão! Que poder há nessas palavras para vencer o desâ-
nimo nos lugares difíceis da vanguarda!”
Acredito que a história de Peter Cameron Scott exemplifica perfeitamente como a Graça
Soberana de Deus nos motiva ao Ide. Scott nasceu em 1867, na Cidade de Glasgow. Motivado
para pregar o evangelho na África, viajou corajosamente para este continente. No entanto, sua
viagem findou em um ataque grave de malária, forçando-o a voltar para sua cidade.
Depois de se recuperar, ele resolveu voltar; desta vez, na companhia do irmão. Em pouco
tempo, o irmão de Scott morre por conta de uma febre. Mesmo só, Peter continuou motivado pa-
ra pregar o evangelho na África. Mas, pela segunda vez, sua saúde cedeu, fazendo-o retornar à
Inglaterra.
Peter Scott estava simplesmente desolado. A depressão tomou conta dele devastadora-
mente. Ele desejava pregar na África, mas onde encontrar a força para isto? Deus proveu uma

2 Citado por John Piper em: Alegrem-se os povos: a Soberania de Deus em Missões. Editora Cultura Cris-
tã. São Paulo, 2001.

5
motivação santa na abadia de Westminster. Ao chegar defronte ao túmulo de David Livingstone
e ajoelhar-se para orar, leu naquela lápide: “TENHO OUTRAS OVELHAS QUE NÃO SÃO DESTE REBA-
NHO; PRECISO TRAZER TAMBÉM ESSAS”. Scott levantou-se com as esperança renovadas, voltando
à África. A missão fundada por ele é atuante no continente africano ainda hoje. Deus tem outras
ovelhas que serão salvas soberanamente por Sua maravilhosa graça – sê forte e corajoso, nosso
Deus é Soberano.
Além disso, somos motivados pelo fato de Deus proteger Seu povo do mal, a fim de cumprir
Seus supremos propósitos na evangelização. O Senhor, em Atos 18, anima Paulo em sua obra mis-
sionária, dizendo: “Não temas, mas fala, e não te cales; porque eu sou contigo, e ninguém lança-
rá mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade” (v. 9-10). Deus motivou Paulo
a continuar pregando pelo fato de que havia muito povo d‟Ele naquela cidade – novos converti-
dos pela pregação do Apostolo (v. 8). Nosso Salvador protege seu servo a fim de que ele continu-
asse ensinando a Palavra (cumprindo completamente o Ide, vide Mateus 28 e Marcos 16) dentre
os que iam sendo salvos, como lemos: “E ficou ali um ano e seis meses, ensinando entre eles a pa-
lavra de Deus” (v. 11).

ELE VAI FAZER A SUA OBRA


Conclusivamente, deixe-me considerar, brevemente, o verso 19 deste texto. Meu propósito
era que foquemos o verso 18, mas como há uma continuidade na fala de Cristo, olhemos rapi-
damente para o que Jesus continua dizendo:
“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações...”
Deus é Soberano. Cristo recebeu toda a autoridade do Pai – toda a exousia. Quando Ele nos
manda ir, nós vamos; quando Ele nos manda ficar, nós ficamos. Ele é Deus, nós não. Ele é quem
comanda todo o universo. No que isso se relaciona com esta ordem de Cristo? Se Deus nos man-
dou ir, e se o propósito d‟Ele é que a Igreja vá; não importa como, mas a igreja irá. Não importa se
você não vai, Deus usará outro; não importa se uma denominação não vai, a Igreja estende-se
além disto; não importa se parece que todo o corpo de cristo está morno, haverão sete mil que
não dobrarão seus joelhos. As pedras não precisarão clamar, pois se Deus deseja que Sua Igreja
clame, de um modo ou de outro, ela clamará. Quando Jeremias pensou em parar de proclamar
a palavra de Deus, por conta da dureza do povo de Israel, o texto diz que “isso me foi no coração
como fogo ardente, encerrado nos meus ossos” (Jr 20:9), de um modo que o profeta não pôde
calar-se, como é expresso por Pedro: “Nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e
ouvimos” (At 4:20).
André Aloísio comenta o texto de Atos 1:8 usando as seguintes palavras:
Quando Jesus disse “e sereis”, Ele não estava dando um mandamento aos discípulos. Se
fosse um mandamento Ele teria dito: “vocês deverão ser”. Mas Ele não está dando um
mandamento, Ele está afirmando um fato inevitável: “vocês serão minhas testemunhas”.3
Assim, precisamos lembrar que Missões sempre é algo que Deus faz, e nunca algo que nós
fazemos. Se chamamos o evangelismo de “A obra de Deus”, isso significa que Ele é o principal
agente de tudo. Somos bisturis nas mãos do Supremo médico, nada mais – Ele é quem abre os
corações, não eu. Como disse Agostinho, “Deus é Senhor das vontades humanas”. Assim, Deus
motivará Sua Igreja: Ele é Soberano.
Então, examine suas motivações e as analise. Confira se elas estão na gloriosa Soberania de
Deus. Se não estiverem, contemple a face de Cristo revelada nas Escrituras. Que Cristo brilhe sobre
nós. Amém.

Por Yago Martins. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com


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3 Exposição de Atos 1.8: Características da Evangelização Bíblica. Pode ser lido em teologiaevida.com