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PENSAR

ESTADO DE MINAS

PENSAR ESTADO DE MINAS Última flor do Lácio N a era da informação globalizada, a comunidade

Última flor do Lácio

N

a era da informação globalizada, a comunidade de língua portuguesa caminha para a ‘‘segregação digital’’

VIRGÍLIO FERNANDES ALMEIDA *

“Flor do Lácio sambódromo Lusamérica, latim em pó O que quer O que pode Esta língua?”

‘‘Língua’’, Caetano Veloso

Coincidem: 500 anos da chegada dos portugueses e a explosão do mundo eletrônico! Di- vergem: a língua portuguesa e o linguagem do mundo eletrônico. Televisão, internet, saté- lite, software, celular, computador e a web. Tudo e todos, cada vez mais, on line. De repen- te, nos damos conta de que o inglês é a língua franca da era da informação. E aí lembra- mos dos versos de Olavo Bilac sobre a língua portuguesa: “Última flor do Lácio, inculta e be- la/ És a um tempo esplendor e sepultura”. Seria essa visão pessimista do poeta o destino da língua portuguesa? Será que a era da informação irá sepultar a nossa língua, empobrecen- do-a fatalmente? Será que informação só existe em inglês? Será que o mundo digital não saberá apreciar a musicalidade da língua portuguesa? Será que na era dos computadores perderemos a chance de ouvir a sonoridade do português, como na poesia de Murilo Men- des: “Os erres do erro. O erre da culatra. O erre do erpe. O erre do tambor. Os erres da er- rata. Os erres do erradio”. Já estamos praticamente no século XXI e a celebração do descobrimento do Brasil deve buscar também o entendimento do tempo que estamos vivendo. E suspeito que o mundo dos dias de hoje seja quase incompreensível para a maioria de nós. A era da informação e do co- nhecimento, que de uma forma ou outra atinge todos os países, é ainda uma incógnita, de efeitos imprevisíveis. Entende-se bem o que está na super- fície dessas transformações. É fácil argumentar com a razão dos nú- meros, quando se pensa, por exemplo, na velocidade e no custo de transmitir informação com uso das novas tecnologias. Se enviado pelo correio tradicional, um pequeno livro de 50 páginas levaria de Belo Horizonte a Macau por volta de dez dias, e custaria algo em torno de R$ 60,00. Por fax, em uma hora o mesmo livreto poderia ser enviado a um custo de R$ 130. No entanto, pela internet em me- nos de 5 minutos o livro poderia estar na tela do com- putador do destinatário em Macau, a um custo infe- rior a R$ 1,00. Por outro lado, as mudanças estruturais trazi- das pela concentração do conhecimento e da tec- nologia, aliadas à hegemonia da língua inglesa nos meios eletrônicos de comunicação, tendem a asfixiar a cultura de países em desenvolvimento, como o nosso. Os particularismos e a diversidade de cada cultura têm de ser preservados a qualquer preço. Num recente encontro sobre o futuro da lín- gua portuguesa, o Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, queixou-se do fim do século, da era da infor- mação, afirmando “que cada vez mais há miséria e igno- rância no mundo, cada vez mais os que sabem muito são minoria”. No palco do fim do século, o teatro da globalização reservou um papel intricado para países como o Brasil. Até mesmo nos Estados Unidos o acesso às tecnologias da informação e comunicação tem contribuído para aumentar a diferença entre grupos raciais e étnicos existentes na sociedade americana. A expressão “segregação digital”, cunhada numa clara alusão à segregação racial, tem sido freqüentemente usada para diferenciar os americanos que têm acesso às tecnologias da informação e aqueles que não têm aces- so. Estudos do governo americano indicam que a distância entre essas duas classes de cidadãos tem ampliado constantemente. Estatísticas recentes mostram que quase meta- de das famílias americanas têm computadores em casa e que 25% de todas as casas es- tão conectadas à internet. Entretanto, foi constatado também que os brancos têm muito

mais chance de acessar a internet que pretos e hispânicos. Conse- qüentemente, as novas oportunidades de trabalho, as novas profis- sões e as possibilidades de qualificação profissional se abrem primei- ro para aqueles que têm acesso aos recursos da chamada sociedade da informação. Ainda no domínio seco dos números, tem-se que a lín- gua inglesa é a língua nativa de 60% da população mundial que aces- sa a internet, que hoje já passa de 200 milhões de pessoas, em todos os cantos do planeta. Nós, que possuímos uma língua rica, musical e sensual, como o português, representamos apenas 1,5% da popula- ção mundial on line. Corremos o risco de nos tornarmos habitantes de uma ilha no mundo virtual da informação. Há, portanto, uma premência em preservar e ampliar o mundo lusó- fono na era da informação. O português, com sua variedade fonética e 150 mil palavras dicionarizadas, sendo 10% de origem indígena e 5% africana, é falado por 200 milhões de pessoas. No entanto, nos sete paí- ses de língua portuguesa – Brasil, Portugal, Moçambique, Ângo- la, Guiné-Bissau, Porto Príncipe, Macau e Goa – a maior parte da população se encontra completamente à margem da sociedade da informação do mundo globalizado. Como numa reprise da expedição

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A celebração do descobrimento do Brasil deve buscar o entendimento do tempo que estamos vivendo

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dos portugueses em busca da terra desconhe- cida e da expansão do império lusitano, o ponteiro da bússola dos novos tempos aponta para o Brasil. Com seus 160 milhões de habitantes, o País parece ser a grande e real esperança de se ampliar o mundo da língua portuguesa no universo virtual da era da informação. As sociedades da informação vão sendo erguidas so- bre três pilares básicos: as telecomunicações, a informá- tica e a chamada indústria de conteúdo. As duas primei- ras partes desse trinômio dizem respeito básicamente ao desenvolvimento tecnológico e à infra-estrutura de comunicação. A terceira perna do trinômio, a indústria de conteúdo, deve brilhar mais que as outras, pois está diretamente vinculada ao homem, suas particularidades, seus sonhos e sua cultura. No contexto da era da informa- ção, o termo “conteúdo” vem sendo usado para designar to- do e qualquer segmento da informação, abrangendo desde áreas como cultura, educação, formação profissional, até a in- dústria do entretenimento. Em resumo, a indústria do conteúdo tem tudo a ver com a cultura de um povo, seus objetos, instituições, conceitos, idéias, costumes, crenças e imagens. E o que permeia tudo isso é a língua, que deve ser cultivada e preservada como o elemento cen- tral da identidade cultural de um povo. Como dizem os versos da música de Caetano: “O que quer, o que pode esta língua?”. O mundo globalizado e a era da informação, as grandes marcas do fim do século, apertam países como o Brasil contra a parede. O fortalecimento da cultura brasileira, a educação ma- ciça do povo e a inserção do País na era da informação devem ser os eixos centrais da resis- tência da língua portuguesa no século XXI. Como bem lembrou a escritora Nélida Piñon ao celebrar os 500 anos da língua portuguesa no Brasil, “a convicção de que estaremos todos nós sujeitos ao mais penoso exílio se perdermos a memória da língua, se permitirmos que nos roubem a linguagem, os mitos e nossa inextinguível capacidade de recriá-los”.

* Virgílio Fernandes Almeida é professor titular do Departamento de Ciência da Computação da UFMG

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Sábado, 25 de setembro de 1999