A VISÃO EGOLÓGICA E A ATIVIDADE JUDICIAL Texto extraído do EVOCATI Revista http://www.evocati.com.br/evocati/artigos.

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Laura Vasconcelos Neves Juíza do Trabalho, Mestranda em Direito Privado pela UFBA 1. Introdução

da

Silva

A sentença é o fenômeno jurídico por excelência, é o que diz Carlos Cossio na introdução do livro “A teoria egológica do direito e o conceito jurídico de liberdade”. Por este motivo a autora, que é Juíza do Trabalho desde 1994, no TRT da 20ª Região, pretende, com o presente trabalho, analisar as influências da teoria egológica do direito sobre a atividade judicial. O tema da sentença judicial é exemplar para a exposição egológica porque este é concreto e imediato para todo homem de direito, além de se constituir no fato mais dramático e decisivo, tanto na teoria como na prática. “Um código processual só contém pensamentos acerca da sentença” (Cossio: 1954, p. 53). A sentença como fato é a conduta do juiz interferindo com a das partes, com o sentido axiológico conceitualmente formulado nas normas processuais. Busca-se aqui compreender o fenômeno da decisão judicial, tanto do ponto de vista da doutrina tradicional que vê a decisão jurídica como construção de juízo deliberativo do juiz, quanto do ponto de vista da concepção egológica do direito. 2. A teoria egológica do direito A concepção egológica do direito é uma das vertentes do movimento culturalista, que concebe o direito como um objeto criado pelo homem, dotado de um sentido de conteúdo valorativo. Para o culturalismo, a ciência jurídica é uma ciência cultural que estuda o direito como objeto cultural, isto é, como uma realização do espírito humano, com um substrato e um sentido. Se o substrato do direito for um objeto físico, tem-se o objeto cultural mundanal ou objetivo, cuja corrente cultural que o estuda é a teoria cultural objetiva, de que é representante, no Brasil, Miguel Reale. Se o seu substrato for a conduta humana, será um objeto cultural egológico ou subjetivo, estudado pela teoria egológica do direito, representada por Carlos Cossio e outros. Machado Neto (1974:79) afirma que a intuição originária da teoria egológica do professor argentino Carlos Cossio teve início com um ensaio escrito em 1925 e publicado em 1927. Em 1939, com o livro “A plenitude do ordenamento jurídico”, a intuição teve a sua primeira aplicação concreta. Em 1941, com a publicação de “A valoração jurídica e a ciência do direito”, aparece a primeira exposição sistemática da doutrina, que se completa com a publicação, em 1944, de “A teoria egológica do direito e o conceito jurídico de liberdade”. Em 1949 o Instituto de Filosofia do Direito e Sociologia da Faculdade de Direito de Buenos Aires publica o “Panorama da teoria egológica do direito”. No México, em 1954, é publicado o livro “Teoria da verdade jurídica”. No Brasil, o professor Cossio participou do IV Congresso Nacional de

Os valores não pertencem a nenhuma região específica de objetos porque eles são qualidades peculiares dos objetos culturais. para evitar erros metodológicos tão nocivos ao pensamento científico. só que de experiência cultural ou humana e não de experiência natural ou causal. objetos naturais. Os objetos culturais ou bens. o ponto geométrico. por último. o número dois ou o triângulo. como tal. a fenomenologia de Husserl e o existencialismo de Heidegger. em 1962. uma filosofia da ciência do direito. Os objetos naturais são reais. que não se vê nem se apalpa. têm existência. portanto uma ciência de experiências.utilizando a teoria husserliana dos objetos. são alheios ao tempo e. a teoria egológica considera que o objeto a conhecer pelo jurista não são as normas. cujas conferências por ele proferidas foram depois reunidas no ensaio “A teoria egológica do direito: seu problema e seus problemas”. São aqueles estudados pelas diversas ciências da natureza: flores. . No plano estritamente filosóficojurídico. é a história desse fato. pássaros. ex. justo ou injusto. objetos culturais e objetos metafísicos. são reais. bonito ou feio. Cossio começa a investigação sobre o objeto da ciência jurídica – o direito . tal qual os objetos da matemática. a teoria egológica assimilou em sua totalidade a teoria pura de Hans Kelsen e a reduziu à pura lógica jurídica formal. estão na experiência e no tempo e são neutros ao valor. Tudo isto desemboca em uma filosofia culturalista do direito ou. que o empirismo crê que o direito é um fato psicológico com sua circunstancial imbricação ambiental e que para o historicismo o direito é um fato histórico que. Assim. no plano da filosofia pura. que são objetos ideais. Ele escolheu esse amparo teórico porque considerava que toda ciência tem um objeto a conhecer. as supremas regiões ônticas são quatro: objetos ideais. não estão na experiência.. as ciências não conhecem os respectivos objetos da uma mesma forma. publicado em 1964. 49/51). É interessante ressaltar que. publicado em Buenos Aires em 1963. Entre eles estão os objetos a que se referem a lógica e a matemática. mas sim a conduta humana enfocada desde certo ângulo particular. útil ou inútil. pedras. não têm propriamente existência. De acordo com esta teoria geral dos objetos ou ontologia. têm existência. Os antecedentes doutrinários da teoria egológica do direito são. p. são neutros ao valor. além da constante preocupação epistemológica que herdou do pensamento kantiano. enquanto o racionalismo crê que o objeto a conhecer pelo jurista são as normas. p. criados de alguma maneira pelo homem atuando segundo valorações. estão na experiência e no tempo. mas são valiosos com signo positivo ou negativo. Finalmente. São exemplos: uma estátua. uma ferramenta ou uma sentença. A teoria egológica considera que a Ciência Dogmática do Direito é uma ciência de realidades. melhor dizendo.Filosofia. realizado em Fortaleza-CE. porque as normas jurídicas são só conceitos com os quais aquela conduta é conhecida como conduta (Cossio: 1954. entretanto. Os objetos ideais são irreais. Cossio se vale da teoria dos objetos ou ontologia. a exposição mais completa e profunda da doutrina egológica se encontra na segunda edição do livro “A teoria egológica do direito e o conceito jurídico de liberdade”.

p. porquanto Direito é a própria conduta de convivência interferida e compartida. 87) utiliza o exemplo do escultor que. mas a conduta regulada” (Oliveira: 1996). 54/56) diz que os objetos metafísicos não são científicos. aonde uma considerável tradição filosófica. cit. Machado Neto (ob. O direito é um objeto cultural do tipo egológico e seu substrato é a conduta em sua interferência intersubjetiva ou conduta compartilhada. Esse é um dos pontos-chave do pensamento de Cossio. Ao inclinar-se por uma concepção ontológica da ciência e não por uma concepção lógica. não se deve pensar o direito como um conjunto de normas jurídicas. os objetos metafísicos são reais. Se o substrato ou suporte é um pedaço de mundo natural teremos um objeto mundano. Cossio utilizou o termo egológico para ressuscitar em um sentido especial uma palavra cara a Husserl. pois o substrato do Direito é a conduta humana em interação intersubjetiva. Assim. cujo substrato é o próprio ego em seu ser peculiaríssimo que é o seu viver. mas conduta normada. p.. Machado Neto (ob. quer dizer direito. então teremos um objeto cultural egológico. o ego agindo em sua fluente liberdade. Eis porque a teoria cossiana é denominada Teoria Egológica do Direito. Dentro do mundo humano dos objetos culturais. O direito é um objeto cultural e isto já foi visto e dito pelos culturalistas de todos os matizes. razão pela qual o direito não pode ser simplesmente identificado com um conjunto de normas. o que . com um ato gnosiológico da explicação e uma estrutura gnosiológica de um todo composto e aberto. não é a regulação da conduta. cit. Deve-se ter em mente que a palavra norma também se refere a regras de conduta moral e até de conduta técnica. Cossio contribui de maneira decisiva ao descobrir o método empírico-dialético como atualizador da compreensão. Não é correto dizer que o direito é o conjunto de normas que regulamenta a conduta na convivência social. que se manifesta através de um movimento circular semelhante a um diálogo que o espírito estabelece entre os elementos do substrato e do sentido. Como objeto real a estudar o direito não é norma... têm existência. mas se o material utilizado pelo homem está feito do barro mais nobre da própria existência ou vida individual vivente. p. Não obstante. Cossio explica que cada uma das regiões de objetos determina um método especial e uma particular estrutura gnosiológica. para ver como tal substrato alberga esse sentido e como tal sentido encaixa esse substrato (Machado Neto: 1974. a concepção egológica vai mais além dos culturalismos jurídicos ao distinguir os objetos culturais em mundanos e egológicos. p. isto desde a crítica kantiana da razão pura. Por isso. um todo simples e fechado. não estão na experiência e são valiosos. Para os objetos reais naturais haverá de utilizar-se um método empírico-indutivo. como estrutura gnosiológica.Por último. ex. 85). de acordo com o substrato. quando cria uma estátua (objeto cultural) sobre a pedra (objeto natural). Deus que é concebido como a realidade realíssima e a suma bondade. porquanto o adjetivo “jurídico” deriva do latim jus. “A norma é o estilo de pensamento com que se pensa a conduta. vem assinalando o ato gnosiológico da compreensão. Da mesma forma. o que faz do Direito um objeto egológico e o distingue da moral (não-bilateral). os objetos ideais requerem um método puramente racional-dedutivo e constituem. incorpora um sentido à pedra mediante a forma e a expressão que imprime ao substrato. A estrutura gnosiológica da compreensão é um todo simples e aberto. desde Dilthey e Rickert.

p. se faz quando se sentencia. Para Kelsen. A Lógica Jurídica e o Juiz Quando o juiz dita a sentença. considerada o divisor de águas de toda a teoria jurídica contemporânea. 44). Esta descoberta exerce importante influência na obra de Carlos Cossio. sendo a norma jurídica o seu objeto específico. De maneira que a teoria egológica propõe um convite à meditação sobre esta execução musical que. isto é. o juízo em que consiste este conceito se constitui com o verbo “dever ser”. do que é o sentido do caso. logo. vivenciará o sentido do mesmo expressado na lei como se esboçasse uma sentença. a teoria egológica aceita e utiliza de forma simples e fácil” (ob. voltará depois ao sentido que vivencia através das normas.2005-2009 For Evaluation Only. que se conhece como Teoria pura do Direito. que implica um conhecimento por compreensão dos sentidos jurídicos (p. voltará depois a considerar o caso. 3. emitida por Kant e divulgada com erro metodológico por diversos autores cuja filiação intelectual vem de século XIX. do sentido de justiça). em forma circular. Disto resulta que o problema da interpretação da lei. é o homem como . a interpretação da lei se assemelha muito mais com a interpretação de uma partitura musical. destacando por acaso algum detalhe dos fatos que não havia atentado antes. que faz com que certas normas sejam jurídicas. Ainda de acordo com Cossio. o que faz uma norma ser norma é a circunstância de que. mas jurídica.. o juiz vai formando sua idéia. é a conduta em sua interferência intersubjetiva. Convém insistir em que a norma é um conceito com o qual se pensa uma conduta como conduta. Numa mesma partitura. cada executante pode interpretá-la de maneira distinta. Na realidade. ele exercita um conhecimento por compreensão. assim. uma conduta em sua liberdade. o fato de alguém impedir ou não impedir o comportamento de outrem. O juiz parte das circunstâncias que formam o caso trazido a julgamento. dentro da qual cabem logicamente diversas interpretações. uma vez mais retornará ao caso e suas circunstâncias avaliando outro preceito legal. como juízes. Com isso. e. por compreensão. Sendo assim. que chega a admitir: “o que há de Kelsen de descobrimento analítico no mundo normativo. para ver se o esboço da sentença que fez se acomoda bem ou não a ele como seu sentido. retirou do seu âmbito qualquer análise envolvendo aspectos fáticos e valorativos. isto é. resolvendo o problema com o descobrimento da lógica jurídica. não se parece em nada com a famosa teoria do silogismo judicial. mas sempre com um maior afinamento do sentido jurídico do caso. ex.Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Corporation. sendo a norma um conceito com o qual se pensa uma conduta humana como conduta. cit. A doutrina de Hans Kelsen. descobre a lógica jurídica e é. segundo o qual a lei seria a premissa maior. O verbo “dever ser” considera o homem como homem e não como um autômato ou como mais uma coisa no mundo. as circunstâncias do caso seriam a premissa menor e a sentença seria a conseqüência obrigatória. mas dentro de certos limites. por isso. Deve-se refletir sobre esta maneira de executar uma partitura não musical. levaria a uma tautologia. passando dos fatos ao sentido de conduta destes fatos. Kelsen foi o primeiro a responder à pergunta “o que é a norma?”. Kelsen desenvolveu sua teria submetendo a ciência jurídica a uma dupla depuração.

como são as sentenças. chegando até a constituição positiva e por último ao que Kelsen chama a norma fundamental. não há nem pode haver. A norma fundamental em si mesma é só uma hipótese gnosiológica. é um dos tipos de normas individuais com que se conclui a pirâmide jurídica na parte inferior. O direito é intersubjetivo e implica. mas é uma norma individual. isto é. A teoria pura do direito concebeu a pirâmide jurídica. duas condutas que se cruzam. mas ganhando em generalidade. porquanto a primeira estabelece as possíveis significações da norma e a segunda constitui criação jurídica. as normas aparecem de forma predeterminada por outras normas. Kelsen afirma que o ato é conforme ao Direito quando ele se mantém dentro do quadro ou moldura e que preenche esta moldura em qualquer sentido possível. 391). A partir desse entendimento. vão se cruzando e coordenando com outras no plano horizontal ou em um mesmo plano de normas. no ato do tribunal especialmente. Sendo assim. cada uma representando a conduta de cada uma dessas partes. pelo menos. duas normas coordenadas. uma norma isolada. distingue a interpretação feita pela ciência jurídica daquela realizada pelos órgãos jurídicos. pelo menos. Dentro desta lógica kelsiana.pessoa que se autodetermina em cada momento. por sua vez. isto é. Entretanto. apenas uma dessas soluções se tornará Direito positivo no ato do órgão aplicador do Direito. Cossio prossegue dizendo que o pensamento tradicional buscava a essência da normatividade na generalidade e não na cópula. que considera a unidade e a totalidade do ordenamento jurídico como um mundo de normas. mas sim a várias soluções que terão igual valor. por cima destas vêm outras normas cada vez mais gerais e assim diminuindo em quantidade. evita que o pensamento dogmático resvale para trás em um regresso in infinitum. Esta circunstância de que o direito regula a sua própria criação é uma decorrência da lógica kelsiana. p. Esta é uma condição necessária e iniludível que. na experiência jurídica. O entrecruzamento de normas no plano vertical significa que o direito regula sua própria criação. E estas normas. o que levou ao preconceito de que toda norma tem que ser . uma condição lógica do pensamento dogmático para que este possa valer como conhecimento. Kelsen adverte que a sentença é uma norma porque se conceitualiza com o verbo “dever ser”. Sempre há nessa experiência. O autor esclarece que dizer que uma sentença judicial é fundada na lei significa que ela é “apenas uma das normas individuais que podem ser produzidas dentro da moldura da norma geral” (Kelsen: 2006. A faixa mais próxima e direta com a realidade está composta por normas individuais. os conceitos de aplicação e de criação de normas não são conceitos separados ou independentes. sobre um ponto de partida. Mas isto não quer dizer que a interpretação de uma lei conduza a uma única solução como sendo a única correta. conceitos que se definem um pelo outro. isto é. O autor alemão qualifica as decisões judiciais como atos de vontade que criam o direito. mas sim relativos.

por outro lado. decida agora sobre certo caso de uma maneira diferente do que decidiria se este mesmo caso se lhe apresentasse daqui a uma semana. o erro jurídico sendo a arbitrariedade (Machado Neto: 1988). Por outro lado.ex. estrutura lógica. O Direito seria uma coisa concluída que o juiz aplica como quem “cola uma etiqueta numa garrafa”. há de se concordar com tal assertiva a respeito da verdade jurídica e do erro jurídico como arbitrariedade.geral. etc. se trata de uma determinada conduta humana. a maior ou menor força de convicção da sentença. As leis não têm outra existência que a das normas individuais. valores jurídicos. Graças a Kelsen. não só o erro jurídico seria fruto de uma arbitrariedade como também todas as outras valorações de conduta. não é algo feito e concluído. 4. os sentidos jurídicos de justiça ou de ordem. como a própria matéria está (Cossio: 1954). em parte. mas sim algo que se está fazendo sempre. a respeito da aplicação do método empíricodialético à valoração jurídica. Como já foi dito alhures. pois. no caso. deve-se recorrer ao método empírico-dialético. Em uma primeira análise. mas sim o jurídico mesmo por excelência. é a imanência material do juiz no Direito. estabelecendo um movimento contínuo de ida e volta do substrato ao sentido até que o espírito sinta-se suficientemente inteirado do sentido que se deve aferir ao substrato em questão. doutrina etc. com o que a sentença. que apresentavam o juiz como um ente externo ao Direito. O Direito. se todo o processo do ordenamento jurídico tem por objetivo chegar ao individual. é o próprio fato do juiz. tão ou mais importante que a primeira. que se observa a maior aproximação entre os demais elementos da Ciência Jurídica (normas. Tal pensamento não foi de todo descabido.. como realidade. nada impede que uma mesma pessoa. posto que é no juiz onde estão. A valoração jurídica e a sentença A Estimativa Jurídica é o ponto culminante da teoria egológica de Cossio. mas. a lei só existe na sentença e demais normas individuais. então. na valoração.). significa que o juiz está integrando o ordenamento jurídico. Com efeito. que é um pensamento normativo. Mas a investigação da Lógica jurídica demonstrou que. p. Desta explicação de Kelsen resulta mais de um fato que contradiz os ensinamentos tradicionais em matéria jurídica. É no momento da aplicação estimativa jurídica. superficial. a valoração está na conduta. pode ocorrer o pensamento de que. podemos hoje recolocar a sentença dentro do ordenamento jurídico e considerá-la como sendo não uma conseqüência apendicular do jurídico. o Direito. pelo simples fato de que nessas . ao passo que a norma é tida como expressão conceitual da conduta. desta maneira. Disto advêm duas conseqüências muito importantes: por um lado. pois se é o espírito que interrompe o processo de compreensão em um dado momento. à sentença judicial mais precisamente. ficava fora do pensamento dogmático. que. É uma imanência formal do juiz no Direito.. fundada na lógica jurídica. vista como fato ou situação. todas as sentenças judiciais. que têm que ser vivenciados quando se aplicam as leis. para conhecer um substrato. fora delas é um pensamento e nada mais. Disto se conclui que a verdade jurídica será. um mesmo juiz.

contém toda a sua estrutura. b) circunstâncias comuns ou gerais que se repetem em indefinidos casos. sendo. é interessante ressaltar que. Como já foi dito. mas não estão mencionadas na lei que se aplica ao caso. que considera como sendo um momento vivo da interpretação. de 1954. E. inclusive. na doutrina egológica. Os valores jurídicos não são como uma estrela polar. egológico. afirma que eles devem ser realizados em conjunto. paz. O juiz há de descer da lei para a sentença com método dedutivo.duas ocasiões tal juiz estava com diferentes disposições de espírito. Ordem e Cooperação. São três tipos de circunstâncias: a) aquelas mencionadas ou representadas no conceito legal. posto que esta é uma porção desta experiência: (1) A lei é uma estrutura da sentença que lhe é antecipada. De acordo com a egologia existencial. o juiz não deve se limitar à interpretação literal da lei ou à intenção do legislador como faziam os exegetas. Solidariedade. A questão da verdade jurídica foi bastante explorada por Cossio. posto que não pode existir segurança se a ordem vigente a exclui. também a norma é composto de elemento lógico. portanto. o jus-filósofo argentino afirma com propriedade que a conduta é sempre alguma Justiça. não há como negar a exatidão com que Cossio captou a essência da vivência jurídica em seu momento valorativo. a menção do substrato e a menção do sentido em sua unidade cultural . Nesse sentido. do geral para o particular. valores a serem realizados e estes valores são inerentes a qualquer conduta. a solidariedade há de se dar dentro da paz e a justiça dentro da solidariedade. A norma em si traz valorações sobre a conduta a que se refere. A lei estabelece disposições gerais sobre a conduta. No entanto. Ou seja. a sentença é uma criação dentro da subsunção. como espécie em relação ao gênero. (2) as circunstâncias do caso. isto é. para chegar às várias soluções possíveis e. não são ideais teleológicos. Poder. norma é a menção conceitual da conduta. mas sim como se a vivencia. nesta menção. está sempre em função da lei. A lei em seu aspecto gramatical não passa de um mero objeto mundanal. Uma razão para tal ênfase. escolher a que melhor realize os valores jurídicos. incluindo seus valores pessoais. A lei é o âmbito da sentença e. pois por um lado. Paz. portanto. Ao analisar o substrato. Basta levar em conta que aquilo que Cossio pretendeu transmitir com seu método de compreensão não é a valoração jurídica como algo fictício. em tal sentido. alguma solidariedade. mas são valores que devem ser realizados. a Teoria de la verdad jurídica. dentre elas. eles não são fins a ser alcançados. embora Cossio conceba estes valores como hierarquicamente dispostos em um plexo axiológico. São. segurança. Três componentes da experiência jurídica em geral têm que aparecer na sentença. Em relação a estes valores jurídicos. algum poder ou alguma ordem. compreendidas. antes disso. o juiz faz uso das normas e dos valores. tema central de uma de suas obras. Segurança. é que Cossio ressalta sobremaneira a importância da valoração da sentença judicial. A sentença. c) . diz Cossio em La Valoración Jurídica y la Ciência del Derecho. dada a priori. estimativo e dogmático. isto é. o juiz deve optar pela espécie que realize o máximo possível de Justiça. em função da qual se guiam os juristas.

Desta maneira se faz clara em seu fundamento a conhecida verdade de que. mas que são singulares e únicas do caso que se considera. mas sim a encarnação da ordem. o que não é novidade para todos os que conhecem a prática do Direito. mas sim cai em alguma outra estrutura legal posto que o ordenamento jurídico é uma finitude lógica. Paz. Pelo contrário. essa justiça. mas sim um juízo. para ser um protagonista do processo. tanto na linguagem como com seus problemas. Considerações finais A Teoria Egológica do Direito surge para rever o paradigma dominante. aquele baseado na ordem. ao apresentar os magistrados como . assim. Poder. da segurança e da justiça positivas. Solidariedade. O juiz é parte do processo jurisdicional e o é necessariamente. isto é. etc. A ordem de que se trata é a ordem da natureza e a ordem da sociedade. que são Justiça. e que existia possibilidade de criação judicial do direito. Os ensinamentos da teoria egológica servem para alertar o Juiz de que ele perdeu o contato com a Filosofia. A teoria egológica não dá ao juiz nenhum novo poder. essa ordem. o direito se submeteu à ciência moderna e tornou-se ele também científico (Santos: 2001). uma plenitude hermética. Cossio (2002: 20) afirma que “isto quer dizer que o problema da interpretação é um dos capítulos da teoria do conhecimento e que para esclarecê-lo de verdade só cabe filosofar sobre ele e filosofar com autenticidade no âmbito do Direito”. Por esta razão. O positivismo de Hans Kelsen abalou as estruturas do pensamento jurídico tradicional ao afirmar que direito não é norma. expressão de todos os valores jurídicos vigentes. só significa que participa com uma iniludível tomada de posição. por seu sentido intrínseco. que transforma o conhecimento científico num conhecimento regulador hegemônico. em um pleito ou fora dele. 5. o Juiz cumpre sua missão optando pela menos injusta de suas soluções e não de outra maneira. É certo que o intelectualismo dominante em suas formas de racionalismo e de empirismo. A sentença deve ser. porquanto no caso de recusar ou rechaçar uma estrutura legal o juiz não fica livre no vazio. O juiz. O Juiz. Coube ao direito moderno a tarefa de assegurar a ordem exigida pelo capitalismo. Mas ser parte não significa que haja de sê-lo com parcialidade. com uma lei injusta. levado por uma ideologia de segurança capitalista. ou como se diz dogmaticamente. Cossio repele a existência de lacunas no direito. desde a ordem positiva até a justiça positiva: a sentença é. essa segurança. (3) A valoração jurídica como conteúdo necessário. Segurança.circunstâncias que não estão mencionadas na lei. Entretanto. O egologismo pugna pela aplicação dos valores máximos do direito. Na verdade a teoria egológica se limita a revelar um poder que o juiz sempre teve. e somente dentro daquele âmbito é que poderia buscar para cada litígio particular uma solução eqüitativa e razoável. Ordem e Cooperação. a imparcialidade que se reclama do juiz denota claramente que o juiz ocupa um lugar privilegiado dentro da controvérsia. deixa de ser um auxiliar do legislador. assim. tem ocultado a existência e a natureza desse imenso poder que possui o juiz. não é a encarnação desta ou daquela figura legal. o juiz estava limitado por uma moldura. que a norma não é imperativa. com sua conduta interferindo na conduta das partes. Não há lacunas ou espaços sem juridicidade.

wsp?tmp_codartigo=140 >. Teoria Pura do Direito. In “Estudos de Direito – Homenagem ao Prof. ___________. Oliveira. este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: SILVA. A visão egológica e a atividade judicial. 2001. Informações bibliográficas: Conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). 6ª edição. 1964. Carlos. 1988. 2002. 20.: Juan Carlos Manzanares. Buenos Aires: Editorial Universitária de Buenos Aires. SANTOS. 1974. 1998. La valoración judicial. _________. Trad. Buenos Aires: Libreria El Foro. São Paulo: Cortez. in “A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência”. 2ª edição. El derecho en el derecho judicial.evocati. Buenos Aires: Abeledo-Perrot. Tradução: João Baptista Machado. Direito do trabalho e previdência Social. Boaventura de Sousa. Estudos. La teoria egológica do Direito y el concepto jurídico de libertad. Hans. L. 1954.. A. São Paulo: Saraiva. Fundamentación Egológica da la Teoria General del Derecho..Evocati Revista n.com. coordenação de Antônio Carlos de Oliveira e Rodolfo Pamplona Filho – São Paulo: Ltr. Las lagunas del derecho. Referências Bibliográficas Cossio. São Paulo: Ed. 2007 Disponível em: < http://www. A. Ago. Kelsen. Washington Luiz da Trindade”. Os significados jurídicos da conduta humana. Acesso em: 12/04/2011 .br/evocati/artigos. Buenos Aires: Editorial Losada S.. _______________. Antônio Carlos de. Capítulo VIII: A Interpretação. 1996. Teoria de la verdad jurídica. Laura Vasconcelos Neves. 2006.autômatos silogísticos dos preceitos legais. MACHADO NETO. Martins Fontes. Capítulo 2: Para uma concepção pós-moderna do direito. São Paulo: LTr. _________. Compêndio de introdução à ciência do direito. Sobre Texto inserido Elaborado o no EVOCATI Revista em nº 20 texto: (06/08/2007) .

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