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A ASTROLOGIA DE

RHETORIUS, O EGÍPCIO.
AFORISMOS NOS QUAIS TRANSPARECE UM
SISTEMA COERENTE DE INTERPRETAÇÃO.

INTRODUÇÃO

Em se tratando de Astrologia, generalizações são comuns. Apesar


da possibilidade de se categorizar diferentes épocas para o saber
astrológico, dentro dessas temos autores com técnicas e
interpretações peculiares. Vislumbrando esses autores, a conclusão
mais comum é a de se perceber neles uma lógica que está presente
em qualquer autor de Astrologia, perigosamente atemporal. A
observância dessa lógica pode programar a mente do estudante
para não perceber as diferentes nuances de cada autor como casos
particulares. Também força conclusões distorcidas: Pode-se
concluir que um autor estava falando a mesma coisa que outro,
quando na verdade eles estavam se referindo a coisas diferentes.

Pode-se até considerar que há um princípio imutável implícito no


saber Astrológico, mas tal raciocínio pode encobrir um grave
anacronismo histórico, no qual projetamos nosso pensamento e
anseios para épocas cujos pensadores não resolviam os memos
problemas da forma que nós, estudantes de Astrologia do Ocidente
Pós-Moderno. Evitando entrar por essa senda, opto considerar as
particularidades de cada autor não como princípios universais da
Astrologia, mas como sistemas auto-suficientes. Foi assim que li
Rhetorius.

O autor desse texto é uma figura obscura. Seu nome nada mais é
do que “orador” em latim. Quando um autor possui o nome de uma
profissão ou função, normalmente isso é uma alternativa ao
anonimato. Além de ter essa denominação, não sabemos nada da
vida do Astrólogo. Devido a isso, Rhetorius tem a aura dos grandes
escritores anônimos de clássicos, como Hermes Trismegistus e
Anônimo de 379 d.C. Sua fama no meio Astrológico popular
Contemporâneo, porém, é pequena se comparada à Ptolomeu e
Vettius Valens. Foi preciso que seu tradutor mais recente – James
Herschel Holden – publicasse uma edição com uma distribuição
maior para que leitores como eu a conhecesse.
Rhetorius é obscuro imerecidamente. Sua obra contém um
reservatório imenso de teoria Astrológica posta em prática nas suas
inúmeras interpretações. Se uma palavra pudesse sintetizar o livro,
poderia ser “articulação”. Na sua obra, vemos a articulação de
conceitos apenas citados por outros autores. Essa articulação
consegue tirar esses conceitos das vitrines de um museu astrológico
para a prática do dia-a-dia. O leitor observará isso quando se
deparar com a Dodecatemoria e o uso dos ângulos como
demarcadores de épocas da vida de um ser humano.

Rhetorius preenche inúmeras lacunas deixadas por Valens no que


tange à Astrologia Natal. Na sua Antologia, Valens reserva a maior
parte do seu compêndio para técnicas preditivas, reservando
apenas os três primeiros livros para desorganizadas considerações
natais. Rhetorius, por outro lado, dá um tratamento extenso a cada
uma das 12 Casas da Figura enquanto representantes de 12 áreas
da vida, com destaque para as diferentes categorias profissionais
no tópico sobre a Qualidade da Ação. O autor obscuro peca apenas
por não oferecer a mesma riqueza em técnicas preditivas de Vettius
Valens, mas se o leitor tiver acesso à Valens ou a Abu Ma’Shar, não
vai sentir falta delas. Afinal de contas, não sabendo interpretar um
mapa natal, de que adianta prever o futuro?

Rhetorius oferece uma das parcas oportunidades de se aprender os


princípios básicos da interpretação natal, oferecendo-nos um
convite à coerência da simplicidade. Seu método não se equivale ao
de Morin, que primeiro dá uma explicação teórica generalizada
para em seguida citar exemplos. Diferentemente do escritor
francês, o autor egípcio não fornece uma teoria, mas parte
diretamente aos exemplos de interpretação. São nesses exemplos
em que o leitor começa a perceber a coerência de um raciocínio
Astrológico.

Em verdade, Rhetorius não traz nenhum método didático inovador.


Ele é mais um dos inúmeros escritores que citam combinações
Astrológicas acompanhadas dos seus significados. Esse sistema
“Configuração A = Evento B” está presente em todos os textos
Astrológicos Clássicos, Medievais e Renascentistas, sendo Morin a
única exceção em prover primeiramente princípios gerais – A
famosa “Teoria das Determinações”. O que faz com que Rhetorius
se destaque perante os outros é que, a despeito de não afirmar que
cria uma Teoria, suas interpretações são translúcidas a ponto de
podermos percebê-la, como um fio condutor que norteia todas
elas. Esse texto é uma tentativa de mostrar ao leitor os princípios
da Astrologia de Rhetorius, esse fio condutor que poderá nos
auxiliar nas nossas interpretações natais, 1500 anos depois.
A DIFERENÇA BÁSICA ENTRE POSIÇÃO E REGÊNCIA

No trecho a seguir, Rhetorius delineia a posição de Vênus na Casa


VI

(...)Vênus ali (na Casa VI) sofrerá


perdas por causa de uma mulher ou
por uma mulher, e terá disputas sobre
1
o nascimento ; ele terá intercurso com
escravas, servas ou mulheres com
deficiência, mas elas faltarão em
desejo e em charme.(...)

Em seguida, observe o que o autor fala do mesmo planeta, agora


porém na posição de Regente da Casa VI:

(...)Vênus regendo a Casa VI, má


situada e em aspecto com Marte e
Saturno, farão aqueles que são loucos
por mulheres, mas se Vênus estiver em
Signo masculino, amantes de meninos,
que sofrem muito devido a isso. E eles
terão doenças nos pulmões.(...)

Nas duas interpretações, o que há de diferente? No primeiro


exemplo, vemos significados essenciais de Vênus. O planeta está
associado a mulheres, sexo, e a Casamento. Enquanto significadora
essencial desses objetos, Vênus tem de se conformar aos
significados da Casa VI, que representa servidão, má-sorte e
doenças. Perceba que temos a simples adição de dois núcleos
simbólicos, a saber, a Casa VI e Vênus, sendo que esses núcleos não
se alteram:

Vênus (Mulheres) + Casa VI (doença,


servidão) = mulheres doentes, servas.

Vênus, na sua presença corporal dentro de uma Casa, sempre será


mulheres, sexo ou Casamento – ou qualquer coisa que ela represente
dentro do mapa por determinação de Regência – também chamada de
“Determinação Tópica”. A superfície dessas pessoas e eventos ganham
tonalidades diferentes, a depender das Casas onde se encontram. Vênus na
Casa I pode representar uma pessoa cercada de mulheres ou com charme
sensual; na II, mulheres que ajudam financeiramente ou sexo que traz
benefícios; na III, relacionamentos sexuais com vizinhos ou uma irmã mais
nova. Em todos esses exemplos, note que o significado essencial de Vênus

1
Pode indicar que o nativo terá problemas para confirmar a paternidade
de um filho gerado por essa mulher vulgar representada por Vênus.
é inalterado; apenas ganha qualificação a depender da Casa onde se
encontra.

Em se tratando da Regência de Vênus sobre uma Casa, Vênus adquire


formas bem diferentes daquelas representadas pelos seus significados
essenciais. Perceba que Vênus regendo a VI representa um tipo de doença.
A natureza e forma da doença é dada pelas atividades venusianas ou pela
parte do corpo que Vênus rege. Perceba que em tempo algum não há
referência a mulheres, sexo ou casamento diretamente, como se fosse com
Vênus presente no Sexto Local. AQUI NÃO TEMOS UM SIGNIFICADO
ESSENCIAL DE VÊNUS, MAS SIM A ÁREA DA VIDA COM
QUALIFICAÇÕES VENUSIANAS.

Podemos concluir, só pela observação dos textos acima, que um planeta,


na sua presença corpórea ou por aspecto, traz à tona seus significados mais
essenciais, enquanto seu papel de regência apenas tende a qualificar
objetos e eventos dos temas indicado pela Casa ou Lote. Utilizando uma
teoria reavivada por Robert Hand e oriunda de Platão, o planeta, cúspide
ou Lote que ocupa o Signo seria uma espécie de “MATÉRIA” que ganharia
“FORMA” pelo regente da Casa. Essa forma, porém, nunca desrespeita os
limites da matéria, e ainda mantém os significados originais da última, mas
moldados sob a forma do Regente do Signo. Por exemplo, se Saturno
estiver na Casa VII, ele indicaria algum mal representado pelo maléfico na
área da vida representada pelas mulheres do nativo. Não sabemos a forma
que esse mal terá se não conhecermos o Regente de Saturno. Se a Casa VII
for regida por Vênus, o mal Saturnino das parceiras pode ser ligado à libido,
sexo, ou às partes do corpo Regidas por Vênus, tanto essencialmente
(útero, órgãos genitais) quanto aquelas regidas pelos signos Venusianos, a
saber, Libra e Touro (Rins, quadris, coluna lombar, Pescoço, Tireóide).

Dentro do nosso mundo, os planetas representam inúmeras coisas. Cada


experiência, área da vida, classe social ou objeto pode ser representado
por um planeta. Essencialmente, porém, um planeta está ligado de um
modo indissociável a alguns temas. É impossível não referendar o sexo sem
citar Vênus. O mesmo tipo de ligação atávica se dá entre Marte e as
guerras, Júpiter para a riqueza. Existem, porém, objetos que não são
representados naturalmente por esses planetas, mas que podem
superficialmente adquirir uma forma que lembre a natureza planetária.
Para que isso ocorra, é preciso haver um terceiro fator, a saber, as Casas.
COMO PERCEBEMOS NA OBRA DE RHETORIUS, PARA QUE UM
PLANETA DESCREVA A QUALIDADE DO OBJETO ESTUDADO, ELE
TEM DE ESTAR REGENDO A CASA, E NÃO A OCUPANDO. A
OCUPAÇÃO DE UMA CASA POR UM PLANETA NÃO DESCREVE A
CASA, MAS SIM ENVOLVE O QUE ELE REPRESENTA
ESSENCIALMENTE COM OS CONTEÚDOS DELA.

Por exemplo, a Casa IX representa Religião. Ter Vênus nessa Casa


para muitos Astrólogos significaria ter uma religião Venusiana. De
acordo com Rhetorius, porém, Vênus nessa Casa indica que o
nativo experimentará sexo, romance, ou envolvimento com
mulheres em um ambiente religioso, ou no exterior, ou em
qualquer outro tema indicado pela Casa IX. Essencialmente, Vênus
também representa rituais de purificação – mas é preciso lembrar
que esses rituais são significados essenciais Venusianos que seriam
enfatizados a despeito do planeta ocupar a Casa IX. Seguindo os
princípios subentendidos na Astrologia do escritor egípcio, para que
a religião seja Venusiana, Vênus deve ter uma relação de Regência
que prepondere sobre a Casa IX.

Se o leitor tiver dúvidas sobre como Vênus descreveria uma


religião, bem como qualquer objeto, basta olhar as listas com
dezenas de atribuições planetárias, muito comuns em qualquer
livro de Astrologia Medieval. Abaixo temos uma das listas que é
presente no livro de Al-Biruni:

Indicações de Religiões:
Saturno: Judeus e aqueles que se vestem de preto.
Júpiter: Cristãos e aqueles que se vestem de branco.
Marte: idólatras, aqueles que se vestem de vermelho.
Sol: Magos, Mitraístas.
Vênus: Islam.
Mercúrio: Disputantes de todas as seitas.
2
Lua: Aderentes à religião prevalente .

Durante muito tempo eu tive dificuldade de encontrar utilidade


para essas listas; isso se devia à falta de discernimento meu em
saber se Vênus significaria uma doença dos genitais quando
presente na Casa VI ou na posição de regência desta. Seguindo o
raciocínio de Rhetorius, as partes do corpo regidas por Vênus
seriam aflitas se ela tivesse regência sobre a Casa VI e estivesse
aflita. A presença de Vênus dentro da Casa não falaria de
problemas genitais ou uterinos, apenas indicaria que as mulheres
que se envolvem com o nativo são doentes, sendo a qualidade
dessa doença prognosticada pelo planeta que rege o signo da Casa
VI.

2
Ratificando o que Al-Biruni diz acerca da Lua, Abu Ma’Shar diz que, como
a Lua é o planeta mais rápido do Setenário, modifica sua forma
constantemente e transfere as influências dos outras Estrelas para o
Mundo Sublunar, ela representa os modismos religiosos e as religiões das
massas.
UM EXEMPLO DE GENITURA.

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Figura 1 - Mapa natal de um homem jovem.

Para ilustrar aquilo que Rhetorius se refere nos seus aforismos,


vamos analisar a Casa VII do mapa acima, que representa mulheres.

A presença de Saturno na Casa VII implicaria uma mulher Saturnina


para a maioria dos autores. Ter uma mulher com as características
de Saturno equivaleria a dizer que a mulher é melancólica, fria,
envelhecida ou até mesmo feia e obscura. Essa na verdade, é uma
FORMA Saturnina. Enquanto presente na Casa VII, porém, Saturno
é MATÉRIA.

Seguindo os preceitos implícitos nos aforismos de Rhetorius,


Saturno na Casa VII não descreveria a mulher, mas sim indicaria que
uma experiência essencialmente Saturnina a atinge. Tal experiência
pode representar algum impedimento, como por exemplo ser coxa,
paralítica, ou ter uma doença de saúde crônica, ou um problema
congênito, ou um problema moral. Essa fase da interpretação ainda
contém inúmeras especulações, que só confirmaremos mediante
análise do Regente da Casa.

Antes, porém, de analisarmos o Regente de Saturno, é preciso


enfatizar que Saturno é REGENTE DA EXALTAÇÃO do Signo onde
ele se encontra; por ser Regente, também tem um papel
importante na descrição da FORMA que os problemas Saturninos
tomarão. QUANDO UM PLANETA ESTIVER NO SEU PRÓPRIO
SIGNO OU TERMO, ELE É AO MESMO TEMPO MATÉRIA E
FORMA. Podemos dizer com uma certeza maior que Saturno é um
planeta que pode tornar algumas mulheres do nativo com formas
Saturninas: podem ser feias, ou mancas, obscuras, melancólicas,
rancorosas.

Combinando a forma que Saturno representa com a do Regente de


Libra – Vênus – o quadro se torna mais completo. Vênus dá sua
forma a tudo que ocorre na Casa VII – cuja cúspide cai em Libra,
preponderando até mesmo sobre a forma que Saturno proporciona
a essa Casa, uma vez que Vênus tem uma dignidade maior em Libra
do que o Grande Maléfico. Podemos concluir também que
3
algumas mulheres do nativo serão belas, vaidosas, interessadas
4
em arte, extremamente sensuais .

Pelo fato de Saturno estar presente na Casa VII, ele tende também
a ser moldado pela forma Venusiana. O que seria um problema
Saturnino na forma de Vênus? Saturno, enquanto representante
essencial de doenças por excesso de umidade e frieza, pode se
acomodar no corpo das mulheres e prejudicar as partes do corpo e
funções representadas por Vênus: a tireóide, a libido, o útero.

De fato, esse problema é real, e não se restringiu a apenas uma


namorada. O homem em questão já teve relacionamentos com
mulheres no momento em que elas estavam se reabilitando de
problemas tireoidianos; outra nasceu com displasia congênita do
quadril, o que a obrigou a sofrer inúmeras correções ortopédicas no
início da sua vida, outra teve problemas uterinos. Todas essas
experiências confirmam o que Saturno em Signo de Vênus pode
representar na Casa VII e em nenhum caso a mulher é Saturnina em
sua essência.

As dificuldades Saturninas que essas mulheres possuem tomam a


forma de filhos e família, uma vez que Saturno rege as Casas IV e V,
contadas a partir da Casa VII.

Por outro lado, vemos que a essência das mulheres com as quais
me envolvi é Venusiana: esse homem duas mulheres que eram
artistas e se envolviam com estética e teatro; quando uma mulher
não é assim, ela tende a ser extremamente vaidosa, de uma forma

3
“algumas” porque já foi dito que Saturno também dá algumas formas aos
conteúdos da Casa VII. Nem todas as mulheres com as quais o nativo se
envolveu serão belas porque Saturno tem uma natureza muito contrária a
de Vênus: Ao contrário, algumas não serão nem mesmo medianas, mas sim
feias.
4
Qualquer mulher é sensual? É claro que não. Algumas se vestem para não
serem notadas, encobrindo partes do seu corpo sob os mais diversas
causas, sejam religiosas, morais ou psicológicas. Outras não se preocupam
com sua pele ou com seu peso. A mulher venusiana, porém, se aproxima
mais e mais do que se espera do papel sexual de uma mulher na sociedade
ocidental.
tal que se sobressai perante as outras. Todas essas características
reforçam que a “essência” delas é venusiana, partindo-se do
princípio em que emprego o termo “essência” como a forma que a
pessoa se manifesta em suas atitudes, escolhas e comportamento.

Existem outros exemplos importantes que Rhetorius dá, que


veremos a seguir.

OS MESMOS PRINCÍPIOS, AGORA EMPREGADOS NA


INTERPRETAÇÃO DO LOTE DAS CRIANÇAS.

O leitor já deve ter se deparado algumas vezes com trechos como


este:

Vênus representa as irmãs mais novas; a Lua


representa as irmãs mais velhas; Saturno
representa o irmão mais velho, Marte o
irmão do meio e Mercúrio o irmão mais novo.

A primeira reação à leitura acima seria concluir que essa


categorização é absurda, uma vez que todas as pessoas têm os sete
planetas em seus mapas e não por isso elas dispõem de vários
irmãos. Esta classificação acima também é empregada para a
descrição dos filhos do nativo, e do mesmo modo pode suscitar a
mesma reação. Rhetorius, porém, articula esse conhecimento na
prática com esse aforismo:

O Lote das Crianças num domicílio de


Saturno e com aspectos de maléficos destrói
o primogênito; nos domicílios de Marte e em
aspectos de maléficos, o filho do meio; mas
se o Lote das Crianças cair nos domicílios de
Mercúrio e se um maléfico estiver em
aspecto, ele destrói o caçula.

Com esse aforismo, a teoria acima ganha consistência. Os planetas


somente se referirão à ordem de nascimento dos irmãos se os seus
Signos estiverem determinados aos filhos; essa determinação se dá
por intermédio da presença da Casa V ou do Lote dos Filhos nos
domicílios destes planetas. EM VERDADE, O LOTE SÓ INDICARÁ
O QUE PROMETE SE O MAPA PROMETER FILHOS.

O mesmo não poderia ser dito se maléficos estivessem presentes


no mesmo signo do Lote ou da Casa V. Marte e Saturno são
planetas estéreis e abortivos; a presença desses planetas em
aspecto ou conjunção corpórea com a Casa V ou o Lote dos Filhos
não representa questões ligadas aos filhos mais velhos, mas sim
que um dos filhos do nativo pode morrer. Para sabermos qual filho
será (no caso do nativo ter mais de um), deve-se observar o signo
do Lote ou da Casa V: Saturno e Marte somente indicarão os filhos
mais velhos se eles tiverem relação de regência sobre os Locais
citados. Qualquer outra forma de ligação desses dois planetas com
os locais representantes de filhos apenas representará aflições às
crianças. Isto porque ambos são planetas cuja determinação
essencial está mais ligada à morte do que à vida.
CAPÍTULO 2 – A RELAÇÃO ENTRE UM PLANETA E SEU
REGENTE

Na Astrologia Clássica, um planeta costuma ser vislumbrado como uma


entidade autônoma; mesmo assim, há muitas passagens que tentam
interpretar a presença de um planeta nos domicílios de outro, como se a
expressão do planeta fosse modificada a depender do Signo.

Não vou me ater aos exemplos de outros autores, pois isso implica incluir
na obra de Rhetorius itens que não foram desenvolvidos por ele. De fato, o
autor Egípcio apenas cita a presença dos planetas nas Casas e tende a
ignorar o significado deles nos Signos, salvo em delineações muito
específicas. Apesar dessa lacuna, é possível deduzir como o planeta pode
se manifestar a depender do signo onde se encontra. Basta usar os
princípios dos quais temos conhecimento para as áreas que o autor não
explorou há quase 1500 anos atrás.

Ora, se o planeta que rege o signo costuma dar a forma dos conteúdos de
Casas e Lotes que o ocupam, por que ele não descreveria o planeta que ali
se encontra? Essa forma, porém, nunca será a transformação do que o
planeta representa, mas sim uma qualificação superficial, uma descrição.
Afinal de contas, independentemente do signo que ocupar, um planeta
sempre representará essencialmente os mesmos temas.

Com essas diretrizes em mente, observe a interpretação dos dois exemplos


abaixo.

MERCÚRIO EM SIGNO DE SATURNO, SATURNO EM SIGNO


DE MERCÚRIO.

Será que Saturno em Virgem representa a mesma coisa que Mercúrio em


Capricórnio? Seguindo as teorias acima, a resposta seria negativa.

Tomemos o exemplo de Saturno em Virgem. Saturno em signo de Mercúrio


fala dos conteúdos Saturninos encarnados numa forma mercurial. Como
Saturno é um maléfico, ele leva sua maldade e potencial danoso para
aquilo que Mercúrio representa, coisas como a escrita, a fala, os estudos e
a mente – bem como as demais coisas indicadas pelas Casas que Mercúrio
reger numa figura natal.
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Figura 2 - Mapa Natal de Mulher Jovem.

Nesse momento, é necessário um alerta para não nos esquecermos dos


princípios básicos: Saturno será sempre Saturno: sua presença em Signo
Mercurial apenas qualificará superficialmente aquilo que ele representa no
mapa. Para sabermos o que Saturno representa, seria interessante vermos
as Casas que ele rege, e não a Casa na qual ele se posiciona, uma vez que o
planeta descreve as Casas que se encontram nos signos que ele rege. A
Casa na qual ele se posiciona apenas indica uma área na qual o que
Saturno representa tem de se adaptar. No caso em questão, a área seria a
escrita, os estudos, a religião e todas as coisas representadas pela Casa III.

Só pelo fato do planeta em questão ser Saturno, independentemente dos


aspectos que recebe e da sua condição zodiacal, representa experiências
mais difíceis, uma vez que é Maléfico. Marte compartilha do mesmo
raciocínio. Quando chegarmos ao momento de estudarmos a situação
inversa, veremos que Mercúrio nos Signos de Saturno pode se expressar
melhor mais facilmente.

No mapa acima, Saturno em Virgem é regente das Casas VII e VIII, estando
em signo mercurial. No mapa da nativa, Saturno descreve seu parceiro e
aquilo que a fazia angustiar (um dos significados da Casa VIII). Em signo de
Mercúrio, essas coisas ganham contornos mentais, cuja qualidade depende
da disposição de Mercúrio. O parceiro é Saturnino (Saturno Regendo a Casa
VII) no sentido mental-intelectual (Saturno em signo de Mercúrio): ele pode
esconder coisas, ser manipulador, rancoroso, sarcástico ou melancólico. Ao
mesmo tempo, as dificuldades e a angústia que a nativa enfrenta (Casa VIII)
são bloqueios, melancolia e lentidão (Saturno) mentais, acadêmicas e
intrigas (Saturno em Signo de Mercúrio e Mercúrio regendo as Casas III e
XII). Por Mercúrio estar no seu próprio termo, essas dificuldades são mais
ainda voltadas para os processos Mercuriais – a fala, o ensino, a mente.

MERCÚRIO EM SIGNO DE SATURNO inverteria o processo acima, pois o


primeiro passa a ser a matéria, enquanto o último (Saturno) seria a forma
que Mercúrio tomará, sempre enfatizando que Mercúrio não se transforma
em Saturno, mas Saturno descreve o processo Mercurial. A depender da
disposição Saturnina, Mercúrio pode operar com dificuldade, lentidão e
bloqueios – significados essenciais Saturninos que sejam negativos – ou
com método, análise, discriminação, significados Saturninos positivos.

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Figura 3 - figura Natal de um Homem de meia idade.Mapa sem Ascendente nem Lua devido
à ignorância do Horário de Nascimento.

Independentemente das Casas que Mercúrio rege, ele é significador


essencial de Escrita, fala e dos processos intelectuais em qualquer mapa. O
mapa acima não tem um horário definido e por isso não incluímos na figura
o Ascendente nem a Lua; portanto só podemos inferir a condição de
Mercúrio pela sua posição em relação ao seu dispositor e em relação ao
Sol. Note que Mercúrio está num Signo de Saturno; este, por sua vez, não
aspecta Capricórnio e está sob os raios do Sol, sendo ambas as condições
consideradas ruins pela maioria dos Astrólogos Clássicos. Saturno está
ineficaz, e do mesmo modo a descrição que Saturno tem a oferecer de
Mercúrio. No caso em questão, o nativo tem um problema fonoaudiológico
que compromente a compreensão pelas outras pessoas daquilo que fala.
Usando os termos empregados pelos Egípcios, Mercúrio está no seu
próprio termo, o que faz com que a natureza Mercurial se expresse na sua
forma mais pura, mostrando que o problema é mesmo adstrito a
significados mercuriais puros, como veremos a seguir.

CAPÍTULO 3 – UM PLANETA NOS TERMOS DE OUTRO.

Os TERMOS (chamados também de LIMITES, CONFINS ou


FRONTEIRAS) são usados por muitos autores Clássicos para três funções:

1. Saber se a aplicação de um planeta a outro é efetiva;


2. Saber se como funciona um determinado planeta pela sua posição
nos termos de outro planeta;
3. Usar os termos onde um planeta ou ponto se encontra como
ponto de partida para a direção primária do significador.

De todas as funções mais comuns, aquela que nos interessa agora é a de


número 2, porém ela pode ser deduzida pelo que vemos nos itens 1 e 3. A
função dos termos é muito confundida com a dos Signos, pois em ambas as
divisões os planetas governam sobre eles; os termos, portanto, seriam uma
subdivisão dos Signos que teria a mesma função deles numa escala mais
específica.

Os autores Clássicos como Rhetorius davam o mesmo grau de importância


aos Signos e aos Termos. Um planeta em seu próprio termo funciona tão
bem quanto um planeta em seu próprio Signo. Assim sendo, qual seria a
função específica dos Termos?

É uma assunção corrente de se atribuir aos termos o mesmo papel dos


Signos, porém com restrição de suas atividades a uma determinada época
da vida do nativo. Abu Ma’Shar sugere essa restrição quando aplica o
conceito de Termos nas Direções Primárias. Sendo assim, os Termos
indicariam uma sub-disposição temporária dos planetas que transitem
sobre eles. Por exemplo, o Ascendente pode aparecer numa Figura Natal
nos Termos de Mercúrio mas, à medida em que o indivíduo envelhece, o
Ascendente “transita” por Direção Primária pelos Termos de outros
Planetas e com isso muda a sua disposição conforme a condição do
Regente do Limite onde ele se encontra no momento da análise da técnica.
Esse modo de aplicação dos Confins, porém, não aparece na obra de
Rhetorius. Se considerarmos a utilidade dos Termos pelo autor, apenas os
itens 1 e 2 da lista de funções são mencionados.

Um planeta nos termos de outro costuma ser interpretado da mesma


forma que um planeta no signo de outro, porém é de se estranhar que
muitas vezes os autores prefiram a informação do Termo à do Signo. Sendo
assim, é mais comum perceber autores se referindo a “Vênus nos termos
de Marte” ao invés de “Vênus nos Signos de Marte” para saber indicações
de promiscuidade. Essa preferência de informação, contudo, se inverte em
alguns autores. Assim sendo, é com muita dificuldade que prosseguimos na
diferenciação da função dos Termos, chamados também de Limites.

Quando há muita controvérsia entre autores acerca da aplicação de um


conceito, é porque poucos autores – ou nenhum deles – conseguiu
encontrar uma função clara para o que discutem. O único autor que os usa
de um modo consistente é Abu Ma’Shar, mas esse uso se restringe à
técnica preditiva das Direções Primárias: há pouca menção dos Termos em
natividades.

Talvez os exemplos abaixo possam elucidar nossas dúvidas. O trecho


abaixo foi extraído de um Forum público de Astrologia Helênica; é de
autoria de Robert Schmidt:

5 6
Aphroditē nos domicílios ou Termos de Kronos :

1- Tornam o nativo estéril ou sem filhos;

2- Aqueles que têm intercurso com suas madrastas ou


as mulheres dos seus irmãos mais velhos.
7
Arēs nos domicílios ou Termos de Aphroditē:

A - Faz adúlteros; aqueles que arruínam as mulheres


dos irmãos, e muitos destroem suas próprias
mulheres.

B - E sempre o nativo vê a morte das suas mulheres.

Em 1, nós vemos que a significação natural de Vênus


para crianças se conforma à natureza de Saturno,
tornando o nativo sem filhos.

Em “A”, nós vemos que a natureza sem lei de Marte


se conforma à significação geral de Vênus para sexo,
resultando em adúlteros.

Eu mantenho que 1 e “A” são as delineações de um


planeta nos Termos de outro planeta.

O Segundo grupo de delineações em cada caso (2 e


“B”) diz respeito ao planeta no domicílio de outro
planeta:

Em 2, Saturno provê madrastas (pais não-biológicos


são um dos significados essenciais de Saturno) ou as
mulheres dos irmãos mais velhos (outra significação
de Saturno) para Vênus, a fim do nativo ter intercurso
com aquelas.

Em “B”, Vênus provê um dos seus significados


essenciais (mulheres ou esposas) para Marte arruinar
ou destruir.

5
Vênus.
6
Saturno.
7
Marte.
Perceba o modo como Robert Schmidt entende a diferença entre os
Termos e os Signos. Quando um planeta A estiver nos Termos de B,
normalmente os SIGNIFICADOS ESSENCIAIS E TÓPICOS de A se
restringem à NATUREZA de B, regente do Termo. Quem fornece
significado é o Planeta presente no Termo, mas a natureza do Regente
tende a impedir ou ajudar aquilo que o planeta ocupante representa na
Figura analisada. Assim sendo, se Vênus estiver nos Limites de Saturno,
sendo esta uma das significadoras de Crianças (notadamente mulheres),
isso é ruim porque pode indicar a falta de Crianças, uma vez que a natureza
de Saturno é fria e seca e contrária à fecundidade. Esse processo, porém,
não se restringe somente a filhos, mas a todas as áreas da vida com as
quais Vênus mantiver uma relação na Figura em questão.

Por outro lado, quando Vênus estiver nos Signos de Saturno, o exemplo
mostra que o nativo terá sexo com mulheres mais velhas ou madrastas.
Nesse caso, os significados Saturninos dão forma àquilo que Vênus
representa, mas eles não inibem Vênus com sua natureza. A forma
Saturnina tende a se adaptar ao que Vênus representa, sem contudo tolhir
a natureza venusiana, que é sensual. Assim sendo, Vênus nos Signos de
Saturno tende a representar intercurso sexual com mulheres mais velhas.

Vejamos o mesmo exemplo acima – Vênus enquanto representante de


sexo – nos Termos de Saturno. Ora, a natureza de Saturno é fria e seca,
melancólica, e tende a inibir aquilo que Vênus representa. Vênus nos
termos de Saturno representaria mais um problema sexual do que sexo
com pessoas mais velhas.

No primeiro mapa de exemplo, Vênus rege a Casa VII – mulheres – e está


nos termos de Marte. A natureza marcial quente e seca se mistura àquilo
que Vênus representa e indica que as mulheres do homem dono do mapa
em questão são extremamente sensuais. O mesmo não poderia ser dito se
Vênus estivesse nos Confins de Saturno.
CONCLUSÕES

• A presença de um planeta dentro de uma Casa qualifica os


significados essenciais do planeta, e não a da Casa. Vênus
na Casa VI fala de mulheres doentes; na Casa XII, mulheres
inimigas.
• A regência de um planeta sobre uma Casa ou Lote
qualifica a experiência destes; dá a “forma” que o assunto
indicado pelo(a) Casa/Lote terá. Vênus regendo o Lote das
doenças representa problemas Uterinos, Tireoidianos ou
Vaginais; Vênus regendo a Casa IV representa uma casa
bonita, bem decorada, com estilo, desde que Vênus esteja
em boa condição na figura. Caso contrário, a Residência é
bonita, mas sua beleza é impedida por alguma coisa: Vênus
em aspecto com Marte pode indicar incêndio, vândalos; em
aspecto com Saturno, negligência, podridão, vazamentos.
• Um planeta tem os seus processos essenciais e acidentais
(aquilo que ele rege essencialmente) descritos pelo
planeta que rege o signo onde ele está.
• Quando um planeta estiver nos Termos de outro, ele tem
seus significados tolhidos ou beneficiados pela natureza
do planeta que rege o Termo.
• A diferença entre os Signos e os Termos é que os primeiros
fornecem as formas do planeta, Casa ou Lote que nele se
encontrar, enquanto o último impede ou ajuda aquilo que
o planeta/Casa/Lote representa conforme a natureza do
Regente dos Termos.

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