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Universidade de São Paulo

Escola de Artes, Ciências e Humanidades.

Burocracia e administração no Brasil colonial

SÃO PAULO
Abril, 2011
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
EACH - ESCOLA DE ARTES, CIÊNCIAS E HUMANIDADES

Karina Veglione
Pedro Fujimoto Amorim
Thais Franco

Burocracia e administração no Brasil colonial

Trabalho apresentado à disciplina Formação


Econômica e Social do Brasil I, da
Universidade de São Paulo, na Escola de
Artes, Ciências e Humanidades, sob
orientação do Prof.º Dr. Agnaldo Valentin.

SÃO PAULO
Abril, 2011

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Índice

1. Introdução .................................................................................................................4
2. Burocracia e Administração no Brasil Colonial .........................................................5
3. Mudanças ................................................................................................................13
4. Partes do Sistema ..................................................................................................16
5. Características ........................................................................................................17
6. Conclusão …............................................................................................................18
7. Referências Bibliográficas …...................................................................................20

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1- Introdução

O modelo de organização e administração português foi transplantado para suas


colônias, como o Brasil, trazendo consigo aspectos como o patrimonialismo - que foi
decisivo na maneira como a administração pública brasileira se desenvolveu. Desde a
criação das Capitanias, posteriormente submetidas ao governo-geral, até o modelo de
organização burocrático colonial, o objetivo primeiro era manter o controle do poder nas
mãos da Coroa e impedir a autonomia da colônia.
Na obra de Caio Prado Junior, considerada de grande importância e influência
dentre os estudiosos da formação brasileira, diagnostica o país, em sua obra mais
importante “Formação do Brasil Contemporâneo”, como sendo atrasado e comedido,
devido à herança cultural trazida de seu período colonial. Mesmo com sua aparência
moderna, traz na organização econômica e social uma realidade antiga, quanto a
primeira, o retardamento é expresso principalmente na forma de organização do trabalho,
e na orientação produtiva da economia, onde os métodos de produção agrícolas e
industriais ainda são rudimentares, a economia ainda é primário exportadora, falta
estrutura que permita comunicação entre as diversas regiões do país. No que tange a
esfera social o atraso está consolidado nas diferenças sobre a vida material, ou seja,
sobre a grande diferença entre as classes sociais, e também sobre a “estrutura moral que
orienta a conduta”, demonstrando um comportamento ainda baseado nos dogmas da
igreja, num pensamento atrasado, onde o trabalho e o crescimento pessoal é visto com
maus olhos, o que acaba impedindo também o desenvolvimento da economia,
Dado este cenário que permeia até hoje, a vida econômica e social da população
de todo um país, que apesar das grandes diferenças entre seus estados, são marcados
pela característica básica de atraso, e burocracia, em sua maioria advindas de uma
organização importada pela Metrópole portuguesa na época da colonização. Este trabalho
tem por objetivo discutir a burocracia e a administração no Brasil colonial, sob as
perspectivas de Raymundo Faoro; Caio Prado Júnior e Stuart B. Schwartz. Analisando a
relação entre a herança colonial burocrática patrimonialista e a estrutura sócio-econômica
que serviu e foi utilizada em função dos grupos dominantes de poder.

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2- Burocracia e Administração no Brasil Colonial

A chegada dos portugueses no Brasil ocorreu em 1500, mas a colonização efetiva


do território só aconteceu em 1530. O declínio no comércio com o Oriente e as constantes
ameaças de invasões estrangeiras em território brasileiro, exigiram que Portugal iniciasse
um projeto de colonização do território, com expedições pelo litoral e interior e o
desenvolvimento de uma empresa agrícola açucareira, que se desenvolveu no litoral do
nordeste, tornando a Bahia a primeira capital brasileira.
No que tange a administração e a burocracia das colônias, todas as possessões
lusitanas estavam submetidas aos tipos de governo e instituições predominantes em
Portugal, sendo todos os assuntos referentes à colônia resolvidos nas repartições
ordinárias de administração portuguesa. O sistema e a organização da administração
portuguesa foram transplantados para o Brasil e a lei portuguesa deveria ser a lei dos
novos territórios.
De acordo com Schwartz (1979) os países ibéricos nos séculos XVI e XVII
demonstravam grande preocupação com a administração imparcial da lei e a honestidade
no dever público, pois estes, certamente, assegurariam o bem estar e o progresso do
reino, já a devassidão da justiça por funcionários avarentos ou grupos e indivíduos
poderosos trariam a ruína e provocariam a represália divina.
Martins (1997), entretanto, observa que a expansão ultramarina portuguesa
representou a possibilidade de enriquecimento fácil e rápido, além da necessidade de
centralização e concentração do poder real. Fatos estes que contribuíram para a
degeneração do estado português a partir de suas instituições, principalmente a
monarquia. Dessa forma, na colônia, os reflexos foram a centralização do poder, a forte
influência da igreja e regulações embaralhadas.
Antes de tudo, ao analisarmos o emaranhado de relações e funções do corpo
administrativo do Brasil colônia é necessário desfazer-se de algumas concepções
contemporâneas, as quais não servem para demonstrar o cenário da época. A divisão de
funções entre Executivo, Legislativo e Judiciário é confuso, não havendo uma divisão
clara do que podemos chamar de divisão de poderes, tampouco uma distinção do que é
assunto geral, provincial ou local. Portanto, é normal observamos algumas incoerências
quando tratamos da administração colonial.
Administração, essa, que foi reflexo de Portugal, exceto por algumas
particularidades, podemos encontrar características da administração do Reino
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encontradas no Brasil; talvez a principal delas seja a centralização das autoridades e das
tomadas de decisões. Devido à imensidão territorial do país era impossível atender as
demandas locais, acarretando, assim, uma serie de problemas e ineficiência na
administração.
No estado português, as funções administrativas e judiciais eram exercidas pelo
Conselho, que contava com a atuação de diversos funcionários como o tabelião, meirinho,
almotacel e o alcaide. Entretanto a função judicial mais importante era exercida pelo juiz
de fora, escolhido por indicação régia.
Logo, em seguida, encontrava-se a Comarca, órgão responsável por cuidar dos
assuntos referentes à estrutura administrativa. Em cada Comarca era designado um
corregedor que entre suas funções principais destaca-se: levar criminosos a julgamento,
supervisionar serviços públicos e salvaguardar as prerrogativas reais. Já o provedor das
Comarcas respondia pelos assuntos referentes aos órfãos, hospitais e supervisão de
determinados aluguéis e impostos. O juiz dos órfãos, em nível municipal, cuidava dos
assuntos relativos à guarda dos órfãos e suas heranças. (Schwartz, 1979).
A função do juiz de fora e do corregedor, na realidade, era apenas garantir a
manutenção da centralização do poder real e prevenir a autonomia local das colônias.
O território brasileiro foi dividido em 15 faixas de terras, conhecidas como
capitanias hereditárias, que foram entregues a 12 nobres donatários de origem
portuguesa. Os donatários possuíam o direito de explorar as capitanias, mas deveriam
povoar, defender e torná-las lucrativas. Dois instrumentos jurídicos regulamentaram a
relação entre os donatários e o governo lusitano, foram eles a Carta de Doação e o Foral.
Na primeira, o estado português transferia ao donatário a posse do território, sem deixar
de continuar sendo dono nominal da terra, sendo o donatário apenas um administrador.
Já o Foral determinava os direitos e deveres de cada donatário como cobrar impostos,
defender o território e receber parte dos valores da exploração da terra.
Tais capitanias são divididas em comarcas, que são compostas de termos, que, por
sua vez, subdividem-se em freguesias. Essas freguesias eram sedes de uma igreja de
paróquia, e que tinham também uma função administrativa civil. E elas se dividiam em
bairros e finalmente em ordenanças.
Para garantir a centralização do poder real, a Coroa portuguesa submeteu os
donatários das capitanias a um administrador, o governador-geral (vice-rei). Apesar de ele
estar na mais alta hierarquia administrativa (pelo menos teoricamente), a sua função
estava principalmente ligada ao setor militar; todas as forças armadas da capitania
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estavam subjugadas à autoridade do governador. É, pois, equivocado emanar do
governador essa figura do “todo-poderoso” da capitania, que por vezes é atribuído.
Ademais o próprio sistema metropolitano de administração tem como princípio restringir
uma descentralização do poder, tendo em vista que acima do governador há o Rei que
supervisiona, fiscaliza e limita as ações de seus governadores.
A concentração do poder esteve sempre reunida nas capitanias e sedes, a maior
parte do território brasileiro, até mesmo pela própria extensão e característica,
encontrava-se sem a administração das autoridades.
Para fazer o contrapeso dessa autoridade do governador, existe o funcionamento
de outros órgãos administrativos, que de certa forma, preenchem algumas “lacunas” de
funções deixadas pelo poder restritivo do governador. Tais órgãos administrativos são
categorizados como: militar, geral e fazendário.
O setor militar era composto pelas: tropas de linhas, as milícias e as ordenanças. A
primeira era “tropa regular e profissional, permanentemente sob armas” (Prado Jr. 1942).
Tal tropa era formada por portugueses, homens da colônia (excetos os negros e mulatos)
e criminosos. Quando o alistamento destes não bastava era feito o recrutamento forçado.
As milícias eram as tropas auxiliares das tropas de linhas; era um recrutamento por
serviço obrigatório e não remunerado. Diferentemente das ordenanças, que veremos a
seguir, as milícias eram enquadradas nas freguesias e tinham um número limitado de
unidades
As ordenanças eram, militarmente falando, peças ínfimas que não tinham utilidade
visto que, representavam forças locais que não podiam deslocar-se e dificilmente eram
convocadas para alguma função autenticamente militar. Por outro lado, no que diz
respeito a administração em geral, tiveram um papel importante, pois, as ordenanças
serviram de elo entre uma administração centralizada e as demandas sociais que
estavam distantes do poder:
“Sem exagero, pode-se afirmar que são elas que tornaram possível
a ordem legal e administrativa neste território imenso e população
dispersa e escassez de funcionários regulares. Estenderam com
elas, sobre todo aquele território, as malhas da administração,
cujos elos teria sido capaz de atar por si só, o parco funcionalismo
oficial que possuímos. (Prado Jr., 1942:324)
Na categoria de órgãos administrativos e civis, são englobados tanto os assuntos
de ordem administrativa, tanto de ordem judiciária. Temos que nos rememorar do
pressuposto de que há certa desordem nas funções que competem aos órgãos, então
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não existe uma delimitação razoável em distinguir o que é assunto judiciário e assunto
administrativo.
O órgão de maior importância dentro do sistema de administração geral das
capitanias é o Senado da Câmara em que sua jurisdição é local. Há de se estranhar que
um órgão local quando falamos da administração geral.
“No sistema administrativo da colônia, já o assinalei, não existem
administrações distintas e paralelas, cada uma com uma esfera de próprias
atribuições: uma geral, outra local. A administração é uma só e ver-se-á,
pelo desenvolvimento do assunto, que competem as Câmara que segundo
nossa classificação moderna são tanto de ordem geral como local” (Prado
Jr,1942;314)

E suas funções, pelo menos formalmente, além de nomear juízes eram:


“... editar posturas; processar e julgar os crimes de injúrias verbais,
pequenos furtos e as infrações de seus editos, chamadas causas de
almotaçaria; resolver questões entre partes litigantes que versassem sobre
servidões públicas – caminhos águas, etc.; e terras de seu patrimônio.”
(Prado Jr,1942:317)

Porém, na prática, observamos que muitos assuntos que são de função da Câmara
têm intervenção do governador nele. Em contrapartida, muitas atribuições que são de
interesse geral das capitanias e da colônia, o Senado municipal intervém na tomada de
decisões; por exemplo, na nomeação de fiscais na Intendência de Ouro. Em suma, não
existe nessa época uma administração que possa ser considerada geral e outra local.
Por fim, os órgãos fazendários eram responsáveis por arrecadar tributos,
administrar as contas públicas e efetuar despesas, lembrando que eles são
independentes em relação às autoridades representadas, pelo menos na teoria, numa
hierarquia superior. Seu principal órgão é a Junta da Fazenda e seus paralelos: Junta de
Arrecadação do Subsídio Voluntário, Alfândega, Tribunal da Provedoria da Fazenda,
Juízo da Conservatória, Juízo da Coroa e Execuções, Juízo do Fisco, das Despesas, etc.
E todos realizam assuntos que hoje em dia dividiríamos entre administrativos e judiciários.
O principal tributo a se pagar era o dízimo, correspondente a 10% de toda a
produção gerada, enraizado em um antigo tributo eclesiástico. Era feito por meio de um
contrato de três anos em que o produtor era obrigado a pagar pela décima parte de toda a
produção feita nesses três anos. A sua cobrança tinha efeitos catastróficos na vida dos
produtores. Além de ser um imposto pesado, o produtor não tinha nenhuma contrapartida
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benéfica, por parte do poder público, que compensasse o seu pagamento e muitas vezes
a cobrança era feita de uma vez; ou seja, era cobrado pela produção dos três anos
acumulativos. Era como se pagasse pela produção ainda não realizada. Portanto pode-se
imaginar que por onde os dizimeiros passavam deixavam um lastro de prejuízo para os
produtores.
Vimos,então, os cenários civis e militares e suas funções e aplicações na
administração e sociedade colonial. Cabe acrescentar o poder que a Igreja representa no
país. Ela tem uma grande influência na vida cotidiana dos cidadões em que nenhum dos
setores analisados anteriormente pode preencher. A Igreja pressupõe muitas praticas e
crenças que serão acompanhadas pelas pessoas para sempre como o batismo, o
casamento, divórcio, e também nos assuntos relacionados ao pecado.
Esses assuntos eclesiásticos sempre tiveram a ingerência do Rei de Portugal, por
meio do padroado, sendo assim, a Igreja não possuía independência e autonomia.
Segundo Prado Jr. (2000) para cuidar da administração geral das capitanias, bem
como de todas as possessões de Portugal na África e Ásia, havia o Conselho Ultramarino,
responsável por organizar todos os assuntos da colônia, fato este que acarretava atraso
considerável dos assuntos, elevando a anos a resolução de problemas pequenos ou até
mesmo deixando grande parte dos casos sem resposta.
De acordo com Faoro (1979) após a restauração do estado português, consolidou-
se a presença de doze tribunais, dedicados a cinco assuntos: fazenda, paz, guerra,
provimento e justiça. Para os assuntos da fazenda pública e particular havia o Tribunal da
Fazenda e o Juízo do Cível (com sua Relação); para paz a presença de três tribunais no
sagrado (Santo Ofício, Ordinário e o da Consciência) e dois para o profano (Mesa do
Paço e a Casa da Suplicação); para a guerra o Tribunal da Guerra e o Tribunal
Ultramarino; no provimento havia a presença do Tribunal da Câmara e outro dos Estados
e, por fim, no que tange a justiça existia a Mesa do Paço e a Relação.
Dentro da estrutura judicial os Tribunais de Apelação ou Relação, em especial a
Casa da Suplicação, exerceram alguma influência no Brasil no que tange a decisões
importantes relativas a vida na colônia. O primeiro Tribunal Brasileiro de Apelação foi
criado em 1609 e trouxe para a colônia a presença de dez desembargadores, que
representavam a classe dos letrados.
O Desembargo do Paço, segundo analisou Schwartz (1979), era o órgão central na
estrutura burocrática e o ápice da carreira no sistema judicial. Por volta de seis
magistrados eram mantidos na função de Desembargo do Paço, que funcionava como
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assessoria para todos os assuntos de justiça e administração legal.
A Mesa da Consciência e Ordens, criada por Dom João III, era composta por
padres e advogados civis. Entre seus principais atributos estava aconselhar a Coroa nas
questões que afetasse a igreja, discutindo e resolvendo problemas morais do domínio
lusitano no Brasil, as ordens militares ou referentes à Universidade de Coimbra. Também
era responsável por coletar o dízimo no Brasil, através de um sistema de impostos, e
designar os provedores dos defuntos.
A Universidade de Coimbra representa um ponto interessante para discussão, pois
a totalidade dos magistrados, tanto os nascidos na colônia quanto na metrópole, eram
formados em direito civil ou canônico por Portugal e estabeleciam uma relação importante
com a monarquia portuguesa. Para o rei era extremante importante contar com o apoio
dos magistrados, a fim de garantir a centralização e o domínio do seu poder nas colônias,
pois só os magistrados seriam capazes de conter a autonomia da colônia frente à
metrópole. É importante observar que grande parte dos magistrados brasileiros eram
oriundos das oligarquias ou tinham algum parentesco com altos funcionários reais.
De acordo com definição de Schwartz (1979) a magistratura tornou-se a espinha
dorsal do governo real, tanto nas colônias quanto nas metrópoles.
Faoro (1979) observou que as funções públicas exigiam características específicas
como ser “homem fidalgo, de limpo sangue ou de boa linhagem”. Entretanto, Schwartz
(1979) argumenta que os cargos públicos eram reservados para a aristocracia, para os
letrados e, alguns poucos cargos, podiam ser de súditos não pertencentes à nobreza,
estratégia da Coroa para mobilizar as forças opostas ao poder e equilibrá-las para obter
vantagens.
A burocracia deveria seguir os ditames reais, mas muitas vezes adquiria autonomia
buscando alternativas para consolidar seus objetivos e ganhos pessoais. Os cargos
públicos era instrumentos de ascensão social e lucro, via que atraía todas as classes e
mergulhava-as no estamento (Faoro, 1979).
Faz-se necessário observar que a Coroa portuguesa encontrou certa relutância por
parte dos magistrados para exercerem suas funções burocráticas na colônia.
“Contudo, a relutância por parte dos magistrados da Coroa para servir nas
colônias não eram um fenômeno novo e a Coroa tinha desenvolvido uma
política de recompensa e tentação para conseguir funcionários para os
cargos além-mar. Tinha-se tornado política normal prometer benefícios
financeiros, honras e promoções futuras como meio de persuasão que
levasse a aceitação de cargos coloniais” (Schwartz, 1979: 64 – 65).
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A magistratura dependia de barganhas, um possível indicativo da falta de
comprometimento dos magistrados em suas funções públicas. Martins (1997) analisa que
na administração da colônia prevalecia o paternalismo e o nepotismo que empregava os
letrados, alguns sem qualidade alguma, na prática do bacharelismo cujos critérios de
seleção e provimento pautavam-se entre o status, o parentesco e o favoritismo.
Grupos do poder econômico local, como os donos dos engenhos de açúcar,
procuravam manter laços com os magistrados, que dotavam de certos prestígios e
favoritismo, para consolidar sua posição de dominância.
O governo português foi fundamentado na patrimonialismo, mas Schwartz (1979)
também observa que a elite burocrática profissional teve papel importante na
administração governamental, pois a Coroa promovia a profissionalização dos burocratas
vinculados a magistratura, definia objetivos e metas e também apoiava-se em motivações
profissionais, como as promoções burocráticas que traziam status, prestígio e dinheiro.
Os desembargadores que chegavam à Bahia possuíam características próprias
como descreve Schwartz:

“Enquanto grupo, os desembargadores eram burocratas de meia-idade,


experientes e amadurecidos por quinze anos de trabalho. Eram homens que
já não tinham os impulsos da juventude, e que haviam provado sua
capacidade ou, pelo menos, sua habilidade em obedecer aos regulamentos
e expectativas da burocracia real. Leais, dignos de confiança e experientes,
os desembargadores se tornaram os condutores ideais da administração
colonial” (Schwartz, 1979: 236).

O autor acima argumenta que os magistrados que exerceram funções no Brasil não
alcançaram grandes cargos, e se soubessem deste fato, não cumpririam os códigos
burocráticos de comportamento a rigor, buscando priorizar seus interesses em detrimento
dos interesses da Coroa. O Desembargo do Paço prometia diversos cargos no Tribunal
Superior da Bahia para os magistrados que fossem exercer funções de ouvidores tanto no
Brasil quanto na África. Como não conseguia cumprir todos os cargos e barganhas
prometidos , diversas reclamações eram feitas e o Desembargo do Paço buscava realizar
nomeações extranumerárias. Prática comum, aos dias atuais, em que o poder executivo
para ter sua agenda apoiada mais facilmente pelo legislativo barganha cargos, cria
ministérios e realiza nomeações.

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A organização militar, segundo Faoro (1979), é elemento de ordem e disciplina,
auxiliar na garantia da cobrança dos tributos e dos privilégios reais. Assim como a igreja
que também exercia funções de ordem administrativas de grande relevância (registros de
nascimento, casamento e morte) e cuidava da assistência social da colônia.
A magistratura era forma de status e ascensão social legitimada pela própria Coroa,
sendo uma via de mão dupla que beneficiava os magistrados, que adquiriam status da
nobreza, e a Coroa que mantinha o controle de seu poder na figura dos magistrados.
Os magistrados estavam muito mais preocupados com a sua ascensão social e
prestígio do que com a excelência e ética na carreira profissional.

“Quatro princípios cimentavam as diferentes partes da burocracia e serviam


de guia para as decisões acerca dos funcionários. Os pilares sobre os quais
se assentavam a promoção e recompensa eram: antiguidade, mérito,
precedente e nepotismo. Poder-se-ia somar a esta lista o apadrinhamento
[…] O nepotismo, como o apadrinhamento, era um elemento da
administração patrimonial que permaneceu pelo século XVIII a dentro, muito
depois de a magistratura ter se tornado, teoricamente, racional e
completamente profissional” (Schwartz, 1979: 246).

Em relação ao exposto acima Faoro (1979) observa que o estamento burocrático


como grupo de interesses, teve sucesso, na tarefa de manter o poder nas mãos de uma
elite invariavelmente predatória.
Sendo assim é notável que a administração e burocracia esteve pautada nos
interesses da elite dominante, sendo em grande parte exercida pela elite dominante, ou
seja, não era o estado para o povo e sim o povo servindo e sustentando os vícios do
estado colonial.

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3- Mudanças

Houve no Brasil colonial períodos em que a administração local sofreu algumas


mudanças, devido a fatores externos, como o domínio Espanhol sob Portugal, e a
descoberta de ouro na região de Minas Gerais. Apesar das Características gerais estarem
descritas acima, é interessante demarcar o acontecimento especifico desse período, e as
mudanças que trouxeram na organização local.
Um fato importante que marcou e transformou a administração portuguesa, em
suas colônias, segundo analise histórica de Prado Jr., em sua obra “História Econômica
do Brasil” foi o período de 1580 a 1640, onde a coroa portuguesa esteve reunida à
Espanha, no que ficou chamado de União Ibérica, sob direção da família dos Habsburgo,
e suas desastrosas políticas de guerra. Ao final dessa dominação, tendo contribuído com
recursos e pessoas, Portugal sai econômica e politicamente arruinada, com sua marinha
destruída, e o próprio império colonial foi feito em pedaços – isso porque os Países
Baixos, Inglaterra, e a própria Espanha ocuparam permanentemente boa parte de suas
possessões coloniais.
É nesse momento que a população portuguesa busca na colônia Americana os
meios de subsistência que a metrópole não podia oferecer. Por isso pode-se dizer que a
decadência de Portugal leva ao crescimento desmesurado do nosso país, além de trazer
também grande distúrbio do equilíbrio econômico e social da colônia.
No que tange a administração portuguesa sob sua colônia, é visível a mudança. No
primeiro século de colonização não havia em Portugal aparelhamento algum destinado à
administração da colônia, seus assuntos eram tratados pelas repartições ordinárias da
administração portuguesa. Então em 1640, D. João IV estabelece a unidade
administrativa, criando o Conselho Ultramarino – que permanece até o fim da colônia. Já
na administração local, ainda durante a União Ibérica, há centralização e reforço do poder
real. Os antigos donatários das capitanias serão cada vez mais subordinados à
governadores nomeados pelo Rei. Com o decorrer do tempo o poder dos donatários decai
e cria-se um Governo Geral – que é ainda limitado pelos direitos dos senhores feudais.
É então a partir do fim do século XVII que os poderes e a jurisdição dos donatários
passarão a ser absorvidos pelos governadores reais, seus poderes serão minguados até
que findam no fim do século XVIII, e todas as capitanias terão voltado ao domínio direto
da coroa, e serão governadas por funcionários de nomeação real. Como consequência
disso há a decadência das autoridades locais, chamadas de Câmaras Municipais –
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órgãos eletivos de administração local. Em Portugal esses órgãos já tinham perdido
grande parte do poder e da importância quando da colonização. Mas suas “filiais” nas
colônias terão poder considerável, isso se deve grande parte ao isolamento e debilidade
de uma administração longínqua e mal representada por donatários indiferentes à tudo
que não lhes traria benefícios. Em seu auge chegou a legislar sobre quase todos os
assuntos governamentais.
Os poderes locais diminuem porque os representantes diretos do poder real pouco
a pouco tomam para si toda a autoridade, e acabam transformando as câmaras em
simples executoras de ordens. Em 1696, mostrando o fim do poder local, são nomeados
Juizes de Fora – além de juristas, presidiam a Câmara e não mais eram escolhidos por
voto popular. No geral o que ocorria era, segundo palavras do autor “a medida que a
população colonial vai crescendo e procura outras iniciativas em que aplicar suas
atividades, a política de restrições econômicas se acentua” “a nova política econômica da
metrópole portuguesa, que ao liberalismo do passado substituía um regime de
monopólios e restrições destinadas a dar maior amplitude possível à exploração e
aproveitamento da colônia, e canalizar ao Reino o resultado de todas as atividades”.
A atividade mineradora foi outro caso particular na administração da colônia. Desde
seu inicio teve um regime especial que iria disciplinar as atividades minuciosa e
rigorosamente, mesmo sobre os insignificantes achados de São Vicente. A princípio o
regulamento seria regido da seguinte forma: estabelecia-se livre exploração, embora
submetida a uma fiscalização estreita, e a coroa reserva-se, a título de tributação, a quinta
parte de todo o ouro extraído. Depois da descoberta de maiores reservas em Minas
Gerais, a antiga lei é substituída pelo “Regimento dos superintendentes, guardas-mores e
oficiais deputados para as minas de ouro”, que na prática não muda muito o regime
antigo. No período pós descoberta de grandes reservas das grandes reservas, criou-se
uma administração especial, chamada de Intendência de Minas, sob a direção de um
superintendente, isso acontecia em todas as capitanias que se descobrisse o minério,
essas intendências não eram dependentes de governadores e quaisquer outras
autoridades da colônia, e eram subordinadas única e diretamente ao governo
metropolitano de Lisboa.
A decadência rápida da atividade aurífera pode ser explicada por uma característica
peculiar às colônias portuguesas, onde a população era em grande parte formada por
uma população de baixo nível intelectual, o que inferiu diretamente na economia do país,
já que trouxe grande impasse à introdução de novas ferramentas, tanto no aparato
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administrativo, como nas atividades econômicas, como exemplo disso ficam o modo
arcaico de manejar e produzir açúcar nos latifúndios nordestinos, e nos sítios de
mineração. Nem as administrações locais nem as da metrópole, pensaram em qualquer
medida diferente da cobrança do quinto e posteriormente, quando não mais conseguem
extrair a grande quantidade de minério, instituem a desastrosa e desorganizada medida
intitulada derrama, e nas fazendas de açúcar onde os engenhos não tinham nunca
modernização tanto das ferramentas como dos funcionários de seus engenhos.

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4. Partes do Sistema
A partir do panorama econômico do Brasil colônia, em que predomina a instalação
de um comércio essencialmente explorador e exportador, em que se reúnem três raças
que fizeram parte desse sistema, sendo eles os brancos europeus, os negros africanos e
os indígenas do continente e as relações de trabalho senhor-escravo, há uma tentativa de
montar um cenário social que deriva dele. E para compreender as relações da sociedade
existem dois instintos primários que são inerentes ao Homem: o econômico e o sexual.
A escravidão resultou em uma alienação e deterioração tanto do dominante como
do dominado. Para os senhores, a escravidão foi fator preponderante para torná-lo um
exemplo típico de homem ocioso, devido à total entrega do trabalho forçado aos escravos.
Estes últimos, por sua vez, serão totalmente alienados não tendo, portanto, qualquer
desenvolvimento de outras aptidões que não sejam de mero caráter produtivo:
“De tudo isso resultará para a colônia, em conjunto, um tom geral de inércia.
Paira na atmosfera em que a população colonial se move, ou antes
descansa um vírus generalizado de preguiça , de moleza que a todos, com
raras exceções atinge” (Prado Jr., 1942:349)
Em relação ao caráter sexual, argumenta que a família brasileira foi formada por
“falhas morais e sociais”. Razão disso foi o alto nível de desregramento, imigrantes que
não possuíam uma base familiar sólida, prostituição, insegurança econômica...; acabaram
por inibir um ambiente familiar sólido. Somado a tudo isso à inaptidão da Igreja em
disseminar dentro da sociedade as doutrinas de moral que a mesma empregava aponta
as “falhas morais e sociais” da família que se formou no Brasil.
Todos esses fatores convergem em uma problemática generalizada na sociedade,
fruto de um sistema colonial que implementou vícios marcantes. O trabalho escravista, as
relações estabelecidas entre três raças diferentes e o povoamento aleatório e disperso
dentre outros fatores que culminariam no processo de Independência.

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5- Características
Cada um dos autores discutidos nesse trabalho desenvolvem linhas de raciocínio
diferentes, no entanto bastante complementares, se usadas para entender as
características tanto da administração e burocracia do Brasil colônia como da herança
que foi carregada até hoje. Para entender melhor então as estruturas apresentadas aqui,
e a peculiaridade apresentada no período de mineração, posto isso é interessante então
denotar as justificativas e o pensamento de cada um deles. Apesar de aparentemente
discorrerem apenas sobre organização dos aparatos administrativos brasileiros esses,
eles tangem tema muito mais profundo, dissertam também sobre as razões de uma
formação tão característica de uma civilização européia em uma realidade completamente
diferente, com funcionalidade peculiar, baseada em relações de amizade e favores.
Stuart B. Schwartz, um dos grandes brasilianistas, traça em suas obras uma
tendência onde mostra o comportamento português de acordo com a personalidade e
motivos individuais. Segundo ele era muito dura a decisão de vir às terras brasileiras, e
por isso quando chegavam aqui havia uma tendência, entre os portugueses, a
estabelecer laços de amizade entre os que já estavam aqui, que se provavam com troca
de favores. Além disso, descreve como sendo característico estabelecer o curso pessoal
e profissional dos componentes da Alta Corte, no Brasil, como sendo na realidade uma
conseqüência da trajetória de vida pessoal e profissional de seus integrantes.
Não muito diferente do que afirmou Schwartz, um outro estudioso da formação
brasileira, Caio Prado Júnior define o Estado português como agente explorador, ou seja,
administrava os territórios do novo mundo, e de todas as suas colônias apenas com o
intuito de extrair a maior quantidade de riquezas e lucro possível. Apesar de não se
prender tanto aos porque de uma ação tão invasiva a um território e povo desconhecido,
Prado insiste que qualquer forma de administração era simplesmente para que fossem
organizados tributos e extraídos riquezas naturais. Por isso de um sistema lento e falho, já
que os que vinham aqui estavam apenas para garantir mérito pessoal, e a coroa ao invés
de regular essa relação apenas exigia maior lucro, e em troca cedia maiores benefícios.

Enquanto isso, aquele que tinha uma opinião mais amena, Raymundo Faoro,
enxergava o Estado português como agente empreendedor, ou seja, colocava como seu
objetivo maior construir e desenvolver as terras encontradas. O autor explica também com
o período colonial trouxe as características burocracia e corrupção que atem hoje estão
impregnadas nas relações pessoais, administrativas e burocráticas. Além dessas duas

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características ele afirma também que a origem do característico Estado Patrimonialista
brasileiro, situação em que não há distinções claras entre os limites do publico e do
privado, muito marcante em regimes absolutistas, os monarca muitas vezes usavam
rendas do estado com gastos pessoais, com ofertas de casamentos e roupas, e por vezes
usavam com gastos de governo, como construção de estradas, tem também origem
portuguesa.

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6- Conclusão

O estado só existe porque o povo estabelece um contrato social, então,


teoricamente, o estado deveria servir aos interesses do povo e não o povo servir como
meio de exploração para que se mantenha no poder uma elite dominante, como conclui-
se a partir da leitura dos três autores que embasaram esse trabalho, onde há explicitado
um interesse em ceder gratificações àqueles que levam mais lucros à colônia.
A administração e burocracia brasileira foram fundamentadas nos moldes do
Estado Português, tal fato acarretou diversos efeitos negativos, como, por exemplo, a
forte característica patrimonialista na administração colonial, que traz resquícios disso ate
hoje nas Instituições brasileiras. Como prova disso, foi observado que a administração e
burocracia estiveram sempre pautadas nos interesses da elite dominante, mesmo porque
os poderes ficavam nas mãos da própria elite, ou seja, não era o estado para o povo e
sim o povo servindo e sustentando os vícios do estado colonial. Outro fator que muito
prejudicou a administração burocrática foi a atuação daqueles que ocupavam os cargos
públicos, já que estes estavam mais preocupados com seu prestígio e status social, do
que o a organização da sociedade e regulamentação do sistema em si, se não fosse
suficiente, aqueles no poder públicos estavam aliados aos grandes donos do poder
econômico, o que permitiu que perpetuasse um sistema perverso de exclusão e
exploração das classes mais desfavorecidas.
É interessante relembrar também que apesar das diferentes visões das funções
tanto da metrópole como dos colonos, apresentadas pelos autores tratados aqui, a
estrutura administrativa é sempre vista da mesma forma, ou seja, extremamente
burocrática, fundamentada em uma estrutura weberiana, bastante intrínseca e
complicada, pautada nas relações de coleguismo e troca de favores. Mesmo sob uma
ótica de atuação e objetivos distintos cada um dos autores mostra que em muitos níveis, a
coroa e os colonos agiam de forma abusiva apenas para ganho próprio, sem nenhum
interesse aparente em renovar metodologias nem de ação em de inovação em processos
de produção.
Diante dessa isso é imprescindível que se repense qual é a verdadeira função do
Estado, atualmente, e até que ponto o mesmo se vê preso em sistemas arcaicos e
ultrapassados de tradição estrangeira, para que possam buscar alternativas e soluções
para dirimir os problemas existentes dentro da sua falha atuação.

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Referências Bibliográficas

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 2v., 5ª


edição. Porto Alegre: Globo, 1979.

MARTINS, H. F. A ética do patrimonialismo e a modernização da administração


pública brasileira. In: MOTTA, F. C. P.; CALDAS, M. P. (Orgs.). Cultura organizacional e
cultura brasileira. São Paulo: Atlas, 1997.

PRADO JR., C. História Econômica do Brasil. 21ª edição. São Paulo: Brasiliense,
1978.

PRADO JR., C. Formação do Brasil Contemporâneo (colônia). São Paulo:


Brasiliense; Publifolha, 2000.

SCHWARTZ, S. B. Burocracia e sociedade no Brasil colonial. São Paulo:


Perspectiva, 1979.

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