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28/5/2009 Noções básicas de acústica para est……

Noções básicas de acústica para estúdios


por Miguel Ratton

É muito comum uma pessoa querer transformar em


estúdio uma sala ou quarto de sua casa, e achar que
para isso basta forrar as paredes com carpete,
cortiça ou até mesmo caixa de ovo. Infelizmente, nem
todos compreendem que as soluções acústicas podem
até ser simples, mas é preciso entender os fenômenos
para buscar as maneiras mais adequadas de resolver
os problemas.

O objetivo deste texto é apresentar conceitos básicos


e mostrar algumas formas de se melhorar a acústica
de um estúdio. Para questões mais complexas,
recomendamos consultar profissionais qualificados.

Dimensões do estúdio
Um aspecto muito importante diz respeito às dimensões físicas do recinto. Geralmente existem
freqüências do espectro de áudio que podem produzir "ondas estacionárias" no ambiente,
quando os comprimentos das ondas sonoras coincidem com as distâncias entre paredes, teto e
chão. A primeira solução para evitar esse fenômeno indesejável é projetar o estúdio com
dimensões que dificultem o aparecimento das ondas estacionárias (alguns projetistas preferem
até criar estúdios com paredes e tetos não paralelos).

Deve-se evitar recintos com distâncias iguais (ou


múltiplas) entre paredes e entre piso e teto, uma vez
que isso facilita a ocorrência de ondas estacionárias.
Além disso, a maior dimensão (digamos, o comprimento
do estúdio) não deve ser mais de quatro vezes maior
do que a menor dimensão (digamos, a altura do teto).
Por outro lado, um recinto muito pequeno poderá
tornar difícil o tratamento acústico para corrigir as
"colorações" criadas no som pelas diversas reflexões.
Salas maiores em geral são mais fáceis de ser tratadas
acusticamente.

É recomendável fazer uma análise do provável


comportamento acústico do recinto, baseado nas
distâncias entre paredes e altura do teto. A partir das
conclusões dessa análise, pode-se saber se as
dimensões são críticas ou viáveis. Se são críticas, devem ser redefinidas. E como nem sempre é
possível determinar as dimensões do recinto mudando as paredes de lugar, muitas vezes a
solução é construir uma nova parede à frente da original, ou rebaixar o teto. Se as dimensões
do recinto são viáveis, é necessário então avaliar quais materiais deverão ser usados - e de
que maneira - para que se possa eliminar as imperfeições acústicas que possivelmente ainda
poderão ocorrer.

Para saber o comportamento acústico de um recinto retangular, sugerimos usar a planilha de


análise disponível na seção Download do site da revista Música & Tecnologia.

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Ainda na fase de escolha da concepção do estúdio, também é importante pensar previamente
nas instalações elétricas e, principalmente, na instalação do sistema de ar condicionado. Se for
necessário construir paredes ou tetos extras, verifique atentamente as possíveis interferências
com eletrodutos (para iluminação e alimentação de energia) e dutos de ar condicionado.
Certifique-se de que as alterações de paredes e teto para a solução acústica não gera
problemas em outras áreas. Lembre-se sempre de que é melhor perder um pouco de tempo
antes de fazer do que ter que refazer!

Isolamento acústico
Cada tipo de material possui uma característica própria, no que se refere a isolamento acústico,
dependente da sua densidade e também de sua espessura. O parâmetro chamado de classe de
transmissão sonora (STC) é um valor numérico de classificação que mostra a redução da
transferência do som através de um determinado material, ou combinação de materiais. Essa
classificação geralmente se aplica a materiais duros, como tijolo, concreto, massa de parede,
etc. É verdade que qualquer material bloqueia uma porção da transmissão do som, mas
efetivamente, os materiais de alta densidade são melhores nesse aspecto do que os materiais
leves. A solução mais comum para reduzir a transferência do som de um ambiente para outro é
o uso de parede dupla, com um espaço entre elas, que pode ter apenas ar ou um material
absorvedor (ex: lã-de-vidro). Quanto maior for o coeficiente, melhor será o isolamento. A
tabela abaixo mostra alguns exemplos de materiais.

MATERIAL DA PAREDE STC

parede dupla de gesso 16mm c/ miolo de 10cm de lã-de-vidro 38

parede dupla de gesso 32mm c/ miolo de 10cm de lã-de-vidro 43

parede de tijolos de concreto com furos cheios de areia 53

Não se esqueça de que o isolamento deve ser eficaz nos dois sentidos, isto é, não deve
permitir a passagem do ruído ambiente (tráfego, etc) para dentro do estúdio, bem como evitar
que o som do estúdio seja ouvido no exterior. Em alguns casos, é fácil isolar o som externo,
mas nem tão fácil evitar que o som produzido no estúdio incomode os vizinhos!

Infelizmente, a maioria das paredes de construções comuns não possui densidade e espessura
suficientes para barrar efetivamente o som (tanto de dentro para fora quanto de fora para
dentro). Além disso, geralmente os cômodos de casas ou imóveis comerciais possuem janelas e
portas sem qualquer tratamento especial, através das quais o som pode passar com facilidade.

No caso de janelas voltadas para o exterior, a melhor solução é eliminá-las definitivamente,


fechando-as com alvenaria. Caso isso não
seja possível, então é necessário transformá-
las em janelas especiais, com vidros mais
espessos (preferencialmente duplos) e
vedações eficientes. Tenha sempre em mente
de que a janela poderá sempre ser um ponto
fraco no isolamento acústico, além de ser uma
fonte potencial de infiltração de água de
chuva, por exemplo. No caso de estúdios de
gravação, que precisam de uma janela interna
entre a sala técnica e a sala de gravação,
esta deverá possuir vidro duplo, montados de
tal forma que não haja contato direto entre a
estrutura de fixação de cada um (veja figura).

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Revestir simplesmente as paredes com carpete ou outro material comum não trará qualquer
resultado prático, pois o som precisa de "massa" para ser bloqueado. Dessa forma, ainda que
eventualmente possa melhorar a acústica interna, diminuindo reflexões, a camada fina do
carpete não oferecerá qualquer resistência à transmissão do som.

No caso de paredes já existentes, uma solução é criar uma outra "parede" de gesso, afastada
alguns centímetros da parede original. O espaço entre a parede original e a nova parede pode
ser preenchido com material absorvedor, como lã-de-vidro, por exemplo. É importante atentar
para os detalhes de fixação das placas de gesso, para que não haja um contato direto entre as
paredes que permita a transferência mecânica do som de uma a outra. Também é preciso
eliminar todas as fendas e quaisquer tipos de frestas, através das quais o som poderá vazar.

O teto e o piso originais do recinto também deverão ser avaliados dentro do mesmo objetivo de
criar barreiras para a transferência do som. O mesmo princípio da parede dupla pode ser
aplicado ao teto, devidamente adequado às condições físicas (estrutura suspensa). Uma
atenção maior deverá ser dada quanto à vedação de frestas e furos, uma vez que o teto
rebaixado geralmente é usado para a instalação de luminárias, passagem de cabos e dutos de
ar condicionado.

O piso pode ser uma parte crítica, pois é nele que ocorrem os maiores níveis de ruído de
impacto, sobretudo no caso de bateria e percussão (pedal de bumbo, tambores colocados no
chão, etc). Colocar um tapete grosso não resolve esse tipo de problema, embora possa atenuar
o barulho de passos, por exemplo. Assim como no caso das paredes e do teto, a solução mais
indicada é criar um piso acima do original, e isolado deste por meio de algum tipo de suspensão
(blocos de borracha, por exemplo).

Além da preocupação com o isolamento do ruído ambiente externo, é preciso avaliar também o
ruído que será produzido pelo sistema de ar condicionado a ser instalado no estúdio. Além do
barulho junto à máquina, deve-se levar em conta ainda a possível transferência desse ruído
através do duto de ar e também por transmissão mecânica, pela vibração da estrutura dos
dutos e contato desta com as paredes e teto do estúdio. Uma das soluções para reduzir o
barulho vindo por dentro do duto de ar é revesti-lo internamento com material absorvedor. E
para evitar a transferência da vibração da máquina pelo duto, é comum fazer um
desacoplamento mecânico do mesmo, seccionando-o e unindo as partes com uma peça flexível.
Tais providências em geral causam perda de eficiência da máquina, o que deve ser também
considerado.

Tratamento acústico
Uma vez construídas as paredes e o teto do estúdio (nas dimensões otimizadas e dentro dos
critérios adequados de isolamento), é necessário fazer um tratamento interno das superfícies,
buscando-se as condições ideais para a aplicação que se quer.

Antes de se definir qual o tipo de material a ser usado no tratamento acústico, é importante
conhecer o coeficiente de redução de ruído (NRC). Ele é um valor numérico de classificação
que permite quantificar a capacidade de um determinado material em absorver o som. Esse
coeficiente em geral se aplica mais a materiais macios, como espuma acústica, lã-de-vidro,
carpete, etc, embora também possa ser aplicado a materiais "duros" como tijolo e massa de
parede. O NRC de um material é a média de absorção de várias freqüências centrais entre 125
Hz e 4 kHz. Quanto maior for o coeficiente, melhor será absorção do material. A tabela abaixo
mostra alguns exemplos de materiais.

MATERIAL NRC em 125 Hz NRC em 4 kHz

carpete grosso sobre concreto 0,02 0,65

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piso de madeira 0,15 0,07

concreto pintado 0,01 0,08

Mesmo com um estúdio construído dentro de dimensões otimizadas, muito provavelmente ainda
será necessário fazer algum tipo de correção, devido às reflexões do som que ocorrerão nas
superfícies. O tipo de solução no tratamento acústico vai depender da resposta que o recinto
estiver produzindo. Existem soluções orientadas para cada tipo de problema.

Há algumas décadas, muitos estúdios eram construídos com revestimento acústico


extremamente absorvedor, de maneira a "matar" totalmente as reflexões. Isso, no entanto,
tornava o estúdio um abiente completamente incomum, se comparado aos locais onde
normalmente se ouve música.

Hoje, os estúdios costumam ter uma acústica "neutra", geralmente com uma parede mais
reflexiva e outra mais absorvedora. Para se conseguir essa situação, utilizam-se painéis de
materiais adequados presos às paredes do estúdio, de forma a absorver energia das ondas
sonoras que atingem as paredes. O tipo de recurso a ser usado vai depender da faixa de
freqüências do espectro do som que se queira absorver.

Os materiais porosos (espuma, carpete, etc) em geral


são eficientes para absorver agudos, pelo fato destes
possuirem comprimentos de onda pequenos, e assim
qualquer pequena irregularidade do material é capaz de
diminuir a energia da onda sonora. Já no caso dos
graves, é preciso criar dispositivos compatíveis com os
comprimentos de onda grandes, o que é feito com
painéis especiais de amortecimento (chamados de
"bass-traps"), que vibram com os graves e ao mesmo
tempo absorvem a energia dessa vibração, não
devolvendo a onda ao ambiente. Em algumas
situações, pode ser necessário reduzir a sustentação
de apenas uma determinada faixa de freqüências do
espectro, e para isso são usados painéis sintonizados,
devidamente calculados.

Conclusão
Como se pode ver pelo exposto, o projeto acústico de um estúdio envolve vários fatores, que
devem sempre ser considerados. Ainda que se possa estimar previamente o comportamento do
recinto, somente depois de construído e com todos os equipamentos instalados e operando é
que se consegue ter uma avaliação concreta, pois as superfícies dos equipamentos e do
mobiliário podem também interferir no resultado que se ouve.

Por isso, é aconselhável consultar um profissional experiente, que com sua vivência no assunto
poderá prever com muito mais precisão os resultados.

Re fe rê ncias:

- Ex e m plos de Proje to de Acústica - Audio List FAQ


- Música & Te cnologia - Download
- Pra ctical Guide line s For Building A Sound Studio - Aurale x Acoustics
- Studio Acoustics - Prim a coustic
- Building a R e cording Studio (Je ff Coope r) - Syne rgy Group

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Este artigo foi publicado no music-center.com.br em 2004

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