Você está na página 1de 2

Com a palavra, o Senador Aloysio Nunes Ferreira, para encaminhar a

matéria.
O SR. ALOYSIO NUNES FERREIRA (Bloco/PSDB – SP. Para encaminhar a
votação..) – Sr. Presidente, Srs. Senadores, eu não tenho vocação nem
autoridade moral para me arvorar em Catão do Senado, mas, obviamente, o
desrespeito à Constituição, o desrespeito às normas, até mesmo à
necessidade de se argumentar é de tal ordem que se nós não pusermos um
paradeiro nisso eu não sei onde nós vamos parar. Não adianta dizermos:
“Olha, vamos mudar as regras de emissão de medida provisória”. É preciso
mudá-las, não tenho dúvida nenhuma. Mas, na verdade, Srs. Senadores, a
letra da Constituição, o texto atual é tão claro, tão evidente quanto as hipóteses
excepcionalíssimas de legislação via medida provisória em matéria
orçamentária que não é preciso mudar a Constituição, mudar rito, coisa
nenhuma. Basta obedecer à Constituição.
A Constituição diz, com toda a clareza, que essa competência é do
Congresso Nacional de legislar sobre matéria orçamentária, que é própria da
instituição parlamentar, ela é sua essência há séculos, essa competência só
pode ser derrogada, ainda que provisoriamente, por uma iniciativa do Executivo
que tenha força de lei imediata em casos excepcionalíssimos, como, por
exemplo, aqueles que justificam a decretação do estado de sítio, a decretação
do estado de emergência, circunstâncias de tal maneira imprevisíveis, fatos
que fazem a sua erupção na vida normal dos Estados requererem providências
de tal forma urgentes que não podem ser adiadas nem um minuto e que, se
não forem tomadas com essa urgência, acarretarão gravíssimos prejuízos à
paz social, à ordem pública. Somente nessas circunstâncias.
E não adianta dizermos que o Congresso não aprovou esses créditos no
ano passado. Se o Congresso não aprovou é porque o Congresso tinha razões
para isso. Admita V. Exª que o Congresso tenha tido razões legítimas para não
aprová-los. E parece que V. Exª, diante dessa constatação de que o Congresso
não os aprovou no ano passado, afira que agora o Congresso tem que ser
punido engolindo medida provisória dessas proporções.
Não há nada que justifique a equiparação, por exemplo, da concessão
de bolsas para atletas selecionados em 2009, há três anos, como uma
circunstância imprevista que ameace a paz social que não possa merecer um
projeto de lei.
Da mesma forma, os recursos para a Telebrás, com a finalidade de criar
infraestrutura para o programa da banda larga, anunciado há três anos pelo
Governo, em que há imprevisibilidade.
Eu já me referi a outras circunstâncias. O plano previdenciário dos
servidores do Banco Central. Isso faz parte dos estatutos do Banco Central há
décadas. Não é possível, Srs. Senadores, tamanha transigência com as
formas, tamanho desrespeito à Constituição, e não é mudando as regras de
emissão da medida provisórias.
As formas são importantes. As formas, de alguma maneira, são como o
mastro que prende Ulisses e que impede que ele se lance nos braços das
sereias que procuram encantá-lo com promessas; que ele ouça o canto da
sereia dos demagogos, dos liberticidas, mas as formas não existem se os
homens não derem vida a elas. E o que está acontecendo, na tarde de hoje, é
que o Senado está absolutamente despreocupado com as formas, com os ritos
e com as exigências da Constituição.
(Interrupção do som.)
O SR. ALOYSIO NUNES FERREIRA (Bloco/PSDB – SP) – Ao concluir,
lamento profundamente tamanha indiferença diante do exercício de uma
prerrogativa absolutamente fundamental que identifica o Congresso Nacional
no contexto das instituições, que é a sua prerrogativa de legislar sobre matéria
orçamentária.