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O que é ruah no contexto bíblico original hebraico

O termo hebraico ‫( רּו ַח‬ruah ou ruach – grego pneuma), geralmente traduzido por “espírito” nas
traduções bíblicas mais conhecidas, significa literalmente “vento“, “sopro” ou “respiração“. No
entanto, por ser uma palavra polissêmica da língua hebraica, outros significados, todos de alguma
forma conectados com essa mesma raiz, são aplicados a ruah em situações diferentes. Neste estudo
bíblico veremos uma explicação um tanto sucinta, mas que definirá por completo o uso dessa
palavra na Bíblia Sagrada.

Significado original de Ruah, por Projeto Bíblico Ezra

Ruah, o ar em movimento.
Em uma nota de rodapé na Bíblia de Jerusalém (BDJ) há uma explicação quase que completa
acerca do significado da palavra ruah (ou ruach). Portanto, vamos tomá-la como ponto de
partida para nossa compreensão. A nota diz o seguinte:

A palavra ruah designa o ar em movimento, seja sopro do vento


(Êx 10,13; Jó 21,18), seja o que sai das narinas (Gn 7,15. 22 etc.),
Ela designa, portanto, a força vital, os pensamentos, os
sentimentos e as paixões, nos quais ela se exprime (Gn 41,8;
45,27; 1Sm 1,15; 1Rs 21,5 etc.). No homem, ela é um dom de Deus
(Gn 6,3; Nm 16,22; Jó 27,3; Sl 104,29; Ecl 12,7). Ela é também o
poder pelo qual Deus age, tanto na criação (Gn 1,2; Jó 33,4; Sl
104,29,30), quanto na história dos homens (Êx 31,3)
particularmente pelo ´órgão dos profetas (Jz 3,10+; Ez 36,28+) e
do Messias (Is 11,2+; Cf. Rm 1,9+).
Bíblia de Jerusalém, pág. 43; nota de rodapé “c” em Gênesis 6:17.
Com essa descrição, podemos destacar um versículo muito popular das Escrituras, no qual algumas
especulações se levantam, mas que na BDJ, por exemplo, foi traduzido de forma mais adequada
comparado às demais traduções. O versículo em questão é Gênesis 1:2, como se segue:

"Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus
agitava a superfície das águas."
(Gênesis 1:2 Bíblia de Jerusalém)

O que é o vento ou sopro (espírito) de Deus?


Portanto, geralmente, quando se fala no vento/sopro de Deus nas Escrituras (‫ – רּו ַח אֱֹלהִים‬ruah
elohim – “sopro/espírito” de Deus) é uma linguagem figurada para descrever Deus “se
movendo”, isto é, agindo, trabalhando, atuando. Essa atuação pode ser na natureza (Gên. 1:2; Nm
11:31; Is 11:15), no homem ou através dele, seja impelindo-o a alguma ação profética (Nm
11:25-29; 24:2; 1 Sam. 10:10; 19:23; Ez 37:9; Mat. 12:18) ou o capacitando com alguma habilidade
(Gn 41:38; Êxo. 31:3; 1 Sm 11:6).

Isso explica ainda porque os discípulos que estavam reunidos no quinquagésimo dia da festa das
semanas, em Atos capítulo 2 (conhecida como Pentecostes), foram impelidos a profetizar
depois de receberem deste mesmo “espírito”, isto é, “sopro”, mover/inspiração profética que estava
nos profetas israelitas antigos (cf. At. 2:11; 10:45,46; cf. 1 Pe 1:10,11).

A ideia sempre foi de que o “sopro santo” de Deus os moveu a falar aquelas palavras, isto é, profetizar,
conforme lemos em Atos 2:4,11. Ora, este dom já era uma promessa desde tempos antigos (vide Atos
2:14-18,37-39; Joel 2:28,29; cf. 1 Sm 10:10,11).

Isso também explica as palavras do apóstolo Simão em 2ª Pedro 1:21, onde normalmente é
traduzido “porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana;
entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (NAA).
Em lugar de que, na realidade, literalmente pode ser traduzido, "homens falaram da parte de
Deus movidos pelo sopro santo“.
O sentido disso é claro, pois assim como um sopro move as coisas para a direção em que está
soprando, o “sopro” de Deus move, impele o homem a falar ou fazer algo, no caso deste
versículo em questão, ele moveu os profetas antigos a escreverem as Sagradas Letras.

Outras aplicações para ruach nas Escrituras Sagradas.


Como vimos mais acima no comentário da Bíblia de Jerusalém, a palavra hebraica ruah também tem
outras aplicações.

Descrições adicionais dela são encontradas no Dicionário Internacional de Teologia do Antigo


Testamento (DITAT). Portanto, vamos conferir e coletar mais esclarecimentos.
2131a ‫( רּו ַח‬ruah) vento, sopro, mente.
Esse substantivo ocorre 387 vezes no AT, sendo geralmente de gênero feminino […] é
preferível entendê-lo como um substantivo primitivo, relacionado com a raiz ‘ayin-waw ruh,
“respirar”, “soprar” […]

A ideia básica de ruah (grego pneuma) é “ar em movimento”,


tanto o ar que não pode passar entre as escamas de um crocodilo (Jó
41.16) até a ventania de uma tempestade (Is 25.4; Hc 1.11) […]
Nos seres vivos o ruah é a sua respiração, quer de animais (Gn
7.15; Sl 104.29), de seres humanos (Is 42.5; Ez 37.5) ou ambos (Gn
7.22-23); é o ar inalado (Jr 2.24) nos lábios (Is 11.4; cf Jó 9.18;
contrastem-se os ídolos mortos, Jr 10.14; 51.17).
Deus o cria: “o ruah [‘espírito’; ARA, ‘sopro’] [da parte] de Deus está em
minhas narinas” (Jó 27.3).

As conotações de sopro incluem:


força (1 Rs 10.5, em que se diz que a rainha de Sabá não tinha mais
ruah, i.e., ela ficou com a respiração suspensa, surpresa),
coragem (Js 2.11; 5.1, em que literalmente se diz que não “permanece mais espírito” nos
inimigos de Israel; ARA, “desmaiar-se o coração de alguém”) e
valor (Lm 4.20, que declara que o rei da dinastia davídica era literalmente “o fôlego de
nossas narinas”, isto é, “a valiosa esperança” […]
De outro lado, falsos profetas tornam-se ruah, “vento”, porque lhes falta a palavra (Jr 5.13),
sendo que aí a conotação é de vacuidade, a futilidade do simples “vento” (Jó 7.7; Is 41.29) […]
Com o sentido de um movimento forte e rápido de ar, de uma bufada pelas narinas, ruah
descreve emoções de agressividade (Is 25.4) ou ira (Jz 8.3; Pv 29.11).

Uma última conotação de “sopro” ou “respiração” é atividade e vida.


O “espírito da pessoa se consome quando ela fica doente ou fraca (Jó 17.1), mas volta como
um novo fôlego e a pessoa revive (Jz 15.19; 1 Sm 30.12; cf. Gn 45.27).
Nas mãos de Deus se encontra a ruah, “fôlego” de toda a humanidade (Jó 12.10; Is 42.5). De
modo que a melhor tradução de Gênesis 6.3 e “o meu espírito [‘fôlego de vida’ que vem da
parte de Deus] não habitará [tradução que segue a LXX] no homem para sempre, pois ele é
carne [ou seja, é ‘mortal’]…
Ademais, o substantivo ruah descreve uma disposição da mente ou atitude. O
espírito de Calebe foi diferente do de seus companheiros sem fé (Nm 14.24; cf. o espírito de
Senaqueribe, i.e., a sua decisão em 2 Rs 19.7).

O ruah de alguém pode estar triste (1 Rs 21.5), surpreso (Sl 77.3 [4]) ou contrito (Is
57.15). Pode estar sereno (Pv 17.27), ciumento (Nm 5.14) e paciente ou orgulhoso (Ec
7.8). As pessoas podem se caracterizar por um espírito de sabedoria (Dt 34.9) ou de
prostituição (Os 4.12).
Finalmente, ruah denota toda a consciência imaterial do homem:
“com o meu espírito dentro de mim, eu te procuro diligentemente” (Is 26.9);
uma pessoa sábia “domina o seu espírito” (Pv 16.32; cf. Dn 5.20);
no “espírito [do homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade] não há dolo” (Sl 32.2)…

Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, págs. 1407-1408.


A ruah (espírito) descrevendo o ser interior de alguém.
Queremos destacar aqui ao menos dois trechos da explicação do DITAT acima que trazem luz a
algumas passagens bíblicas nos escritos nazarenos (Novo Testamento).

A primeira é o trecho que explica “o ruah (espírito) de alguém pode estar triste ou contrito”
(1 Rs 21.5; Is 57.15; cf. Is 54.6; Dn 7:15; Jó 17:1; Sl 77:3; 143:4), do mesmo modo que pode estar
alegre (Lc 1:47; 1 Cor. 16:18; Sl 16:9). Nestes casos o “espírito” (ruah) da pessoa se refere ao seu ser
interior, seu íntimo, sua força vital ou ânimo (cf. Js 2:11; At 18:25; Rm 12:11). Assim, podemos
entender melhor o que Paulo registrou em Efésios 4:30, dizendo que não entristeçamos o
espírito santo de Deus.

Ou seja, um “ruah” (espírito) estar triste não é uma ideia nova criada por Paulo nem exclusiva deste
versículo, mas as próprias Escrituras hebraicas já mencionaram uma situação em que o espírito de
Deus foi entristecido por seu povo antes, quando violaram sua aliança (vide Is 63:10).

Por isso, entristecer o espírito santo de Deus é, basicamente, entristecer ao próprio Deus no final das
contas, isto é, deixá-lo, por assim dizer, chateado (ex.: Gn 6:5,6).

A ruach como conotação do ser.


Algo curioso acontece em Atos 5:3,4, quando Simão Pedro fala sobre a ruah santa de Deus. Ali,
conforme traduções da Bíblia, Simão afirma que Ananias mentiu ao “espírito santo” (v. 3), e
logo em seguida diz que também mentiu contra Deus (v. 4). Não se tratava de que aquele homem
proferiu mentira contra duas pessoas diferentes, ou literalmente contra o “sopro” de Deus, mas
mentir contra a ruah de Deus é, por fim, mentir contra Ele mesmo.

Em outros trechos das Escrituras as pessoas se referem ao seu próprio “espírito” (ruah) também. Mas
isso não quer dizer que o espírito delas era algo à parte delas, mas é uma referência ao seu próprio
interior, o íntimo do seu ser (cf. Jó 6:4; 32:18; Sl 77:6). Como ruah designa o ar em movimento dentro
do ser, essa palavra também designa figuradamente os pensamentos interiores, a consciência, o
centro dos sentimentos, conforme as bibliografias lidas acima. Por exemplo, quando o texto bíblico
fala do “espírito” de Paulo, está se referindo às reações que ele teve em seu interior diante de
certas situações, ou se refere à sua consciência/intenção (At. 17:16; 18:5; 19:21).

A ruah como uma presença.


Outra situação interessante do uso de ruah nas Escrituras Hebraicas que explicam situações no “Novo
Testamento bíblico” está em Isaías 26:9, onde normalmente as palavras do profeta são traduzidas
por “com meu espírito dentro de mim, eu te busco“:

Yeshayahu (Isaías) diz que busca/procura a Deus com seu “espírito” ou seja, em seu interior, no mais
íntimo de seu ser e na sua consciência. Da mesma forma, o Mestre afirma no livro de Yohanan
(João) 4:23,24 que Deus não seria mais adorado apenas em Jerusalém ou em Samaria, antes seria
adorado por aqueles que o adorariam “em espírito” e em verdade, isto é, aqueles que, em
qualquer lugar, o buscassem e o adorassem em seu próprio interior, no mais íntimo de seu ser, isto é,
na sua ruah (espírito, mente, consciência).
Isso significa que, assim como o vento (significado original de ruah) não é visto, mas está em todo
lugar e pode-se percebê-lo, Deus também é ruah (v. 24), ou seja, Ele é invisível, mas está presente,
vivo e ativo, e pode ser encontrado e adorado em todos os lugares do mundo.

(Para mais detalhes veja o estudo “Adorar a Deus em espírito e em verdade” no blog Bíblia se
Ensina).

Ruah (espírito) como a mente de alguém.


Ademais, na Concordância Bíblica Strong, que é o dicionário
bíblico mais popular de todos os tempos (embora nem todos os
significados de ruah expressos ali reflitam o significado e conceito
original da palavra), é afirmado que ruah pode se tratar ainda da
mente, pensamento ou intenção de quem se fala. Isso também já
vimos nas bibliografias citadas antes aqui.

Na página 957 da Concordância é registrado o significado de ruach


como vento, hálito, mente, espírito.

Ora, na Septuaginta, a tradução grega das Escrituras hebraicas feita


em meados do século 3 AEC, ruah (espírito de Deus) foi
traduzido por “mente” (grego nous) no versículo de Isaías
(Yeshayahu) 40:13.

"Quem dirigiu o espírito de Iahweh ou, como conselheiro, o instruiu?"


(Isaías 40:13 na Bíblia de Jerusalém, traduzido do texto hebraico)

"Quem conheceu a mente do Senhor, sendo o seu conselheiro a fim de ensiná-lo?"


(Isaías 40:13 traduzido diretamente da Septuaginta)

O texto antigo de Isaías 40:13 da Septuaginta, como vimos, publicado ainda antes do Senhor vir
ao mundo, refletiu-se nas traduções gregas das cartas de Paulo em Romanos 11:34 e 1ª Coríntios
2:16, onde em ambos versículos lemos: “quem conheceu a mente do SENHOR?”

Logo, ruah (espírito), também trata-se da “mente de Deus”, ou seja, de sua intenção. Outras
semelhanças com isso são Jó 20:3, Sl 77:6, Dn 7:15, Atos 19:21.

Concluindo, ruah significa vento e designa o ar em movimento. É dado por Deus e a causa da
existência, isto é, o fôlego de vida, a vitalidade do ser humano e dos animais. Também exprime o
sentimento, as intenções e reações humanas e divinas. Ruah (espírito) nunca foi, em sua etimologia
original, uma pessoa à parte do indivíduo ou uma espécie de alma que pode viver separadamente de
seu corpo, mas é algo intrínseco a ele, o seu ser interior, seu íntimo, o próprio indivíduo. Todos temos
uma ruah (espírito, mente, consciência), e é através dela, isto é, de nosso próprio ser interior, que
pensamos e nos conduzimos.

Autor original: Gabriel da Rocha Filgueiras.


Projeto Bíblico Ezra.
Blog Bíblia se Ensina.

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