Analisando © universo do povo do santo, 0
ro ensaios. © primeiro deles aborda as dificuldades
ar 0 outro; o segundo recupera as fungdes dos ogas
-s politico-sociais dos terreiros e detentores de tarefas vitals
\te as cerimOnias; no terceiro relata perseguicdes € repres-
a0s terteiros e praticantes; e, por diltimo, estuda o cults aos
, enquanto mito de brasilidade e em sua consagrac
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A CADEIRA pe OGA
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Julio Braga
A CapeiRA DE OGA
E OUTROS ENSAIOS
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PALLAS:
Rio de Janeiro
2009© 1998 Julio Braga
Editor
Cristina Fernandes Warth
Copidesque
Wendell S, Setubal
Revisao tipografica
Haloisa Brown
Gisele Barreto Sampaio
‘Alda T. Ferraz Sodré
Diagramagéo e editoracao cletronica
Esteio
Capa e concepeao gratica
Leonardo Carvalho
Foto de capa
Célia Aguiar (A cadoira de Jubiabs)
‘Totlos os diets reservados 4 Pallas Edtora @ Distibudora Ltda,
Nao 6 permitéa a reprocucso por qualquer meio mecinico, eletonico,
erogrtico ete de parte ou da lotaidade do contetido e das imagens contidas
neste impresso sem a prévia autorizagan por escito da adltera
arama eetarouncdosea-ronre
SNDICATO NRCIOWAL HE EDIT ADS, Wh
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(2050-840 - Rio de Janeiro - FU ZS
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SUMARIO
Prefécic
Baianos, candomblés & vivéncias 07
Estudando o Outro aneeove hE
[Link] de Og8 on.
Feitigaria e eredulidade publica 111
(© candomblé de caboclo .
Bibiiografia 169In Memoriam
Para Pierre Fatumbi Verger &
Zeferino Santana BragaQlossax -
A Capt 0 Ook
PREFACIO
Baianos, Candombles & Vivéncias
Boas etnogratias s4o necessarias. Sim; sto
fundamentais para andlises dos entornos cultu-
rais, e, de acordo com o desejo, incursdes an-
tropoldgicas mais acuradas conforme o reperté-
tio teérico do autor aparecem, na mesma medi-
da sensivel do olossde, que escolhe e coleta fo-
Ihas segundo saber iniciético e vivencial, ou do ?
alabé, que cuida do seu atabaque enquanto ins. *
trumento sagrado.
E assim a reuniéo de boas etnografias que
faz a publicagdo de Julio Braga — Cadeira de
Oga e outros ensaios — trazendo como tema cen-
tral um estudo de caso sobre 0 poder/religiso
. do personagem oga e um dos seus simbolos de
mando, a cadeira, Recorro ao meu imaginario ¢
trago a eadeira de Jubiab, diria cadefra-trono, queJo BRaca
integra a colecao de objetos religiosos africanos
e afro-brasileiros do Instituto Geografico e His-
t6rico da Bahia registrados no livro Um docu
mento do candomblé na cidade do Salvador (Sal-
vador, 1.G.H.B.A./Funarte, 1985). Assim, pude
trazer ao piblico um preciso conjunto de repre-
sentagSes materiais que identificam momentos
histéricos do candomblé, da cidade do Sao Sal-
vador, da vida cultural do povo baiano. Um re-
pertério de objetos que atesta, especialmente,
relagdes sociais dos terreiros
A cadeira de og ¢ um marco visual do ho-
mem enquanto provedor natural do terreiro, de-
vendo honrar compromissos firmados com deuses
tutelares e ancestrais que integram linhagens e que
constréem identidades comunais e de individuos.
Ainda por meio de boas lembrangas que
chegam dos candomblés baianos e seus rituais
piblicos, seguidores de diferentes estilos ¢ for-
matos, segundo matrizes denominadas Nacées
— construgées etnoculturais em permanente
A Capriea re Ook
processo mantenedor de meméria e provedor de
adaptagdes criativas —, recupero exemplos de
cadeiras e de rituais de entronizacao — confir.
magao de oga.
As cadeiras so personalizadas, algumas tém
elaborados entalhes na madeira, recebem titu-
lagGes, de acordo com 0 cargo de seu ocupante,
deus tutelar; outras so forradas com tecido ou
outros materiais nas cores votivas dos deuses. C.
deira forrada de azul é para o povo de Oxéssis de_
vermelho, para o povo de lansa; de branco, para o
povn de-Ovald.
Julio Braga relata com olhar académico
vivencial particulares que fazem o og importante
personagem social do terreiro, recorrendo também
a autores cléssicos, etndgrafos da vida baiana,
como se estabelecesse uma conversa em tempo
mégico, atualizado pelo observador permanente;
© bom etnégrafo.
Ao resgatar Manuel Querino, 0 autor traz
um dos mais notaveiJunto Braca
obra foi reunida por Arthur Ramos e publicada em
Costumes Africanos no Brasil (1* edicao, 1938).
Querino, com coracao to africano, mistura-se no
coracao geral da gente do Sao Salvador e por todo
© Recéncavo, revelando cotidianos ¢ festas
atestadoras de diferentes Africas no Brasil, especi-
almente na Bahia.
Particularmente, tenho olhiar afetivo sobre
Manuel Querino, Por ocasiéo do | Centenétio da
Aboligao da Escravidao no Brasil (1 988), pude pro-
mover a segunda edicdo, revista, com notas de atua-
lizagdo e bibliografia complementar de Costumes
Africanos no Brasil, que recebeu introducao de
Thales Azevedo.
livro de Querino apresenta a vida so-
teropolitana com seus componentes sociais, cultu-
rais e religiosos, que permanecem especialmente
no Ambito do candomblé, além de descrever festas
¢ jeitos de ser e de representar do homem africano
nna Bahia e também do baiano. Verdadeira celebra
40 de um éthos afro-brasileiro.
A Capuita oF Ook
Julio Braga, como todo bom autor baiano,
sabe citar e recorrer as fontes de maior baianidade
e mergulhar com intimidade ¢ respeito nos segre
dos que fazem um tino de proteeo dos terreiros e
do proprio povo do santo, povo do azeite, entre
outras autodesignacées,
As habilidades e habilitagdes dos ogas, {un-
Ges prescritas pelo mando do terreiro e pelas no-
ticias dos biizios, do Ifé, e pelos sonhos, conta-
tos com deuses e ancestrais, servem para cons-
truir fungdes, desempenhos littirgicos na vida re-
ligiosa do terreiro, e ampliar relagdes com a socie-
dade complexa.
Integrados a0 mesmo mundo sagrado ¢ so-
cial, os terreiros tém formas muito evidentes de se
auto-representar. Sao elaboragdes materiais, ebds,
sacrificios, feiticos, ganhando emocées correlatas
com outros imagindrios conviventes e que dialo-
gam entre si.
Assim, no capitulo Feiticaria ¢ Credibilidade
Publica, Julio retoma anilises de diferentes meiosJu Baaca,
repressores dos terreiros © seu povo, apontando
um momento histérico que expressava amplo e con-
tundente conjunto de preconceitos.
Sem preconceito, sem preconceitos? Na
Bahia, no Brasil, imperam preconceitos sociais, re-
ligiosos, raciais, de género, de cul
Preconceitos agudamente formalizados pela
policia, em evidente desrespeito pelo outro, pela
diferenca, pela [é do outro.
Julio Braga novamente recorre aos documen-
tos para ilustrar como 0 ndo-offcial, popular, 0
especialmente vindo € marcado por presenca afri-
cana foi foco de tantos desmandos e violéncias para
com o candomblé.
E encerra o livro com Candomblé de Cabo-
clo, essa expresso abrasileirada, nacionalizando
estéticas, rituais, mitologias, reinventando concei-
tos de ancestrais, dos indios do Brasil.
Retorno a publicagao sobre a colegao de ob-
jetos africanos e afro-brasileiros do Instituto Geo-
gr fico e Histérico da Bahia, que apresenta escuk
A Capuina 06 Och
turas em papier maché de figuras que representam
caboclos, emblematicamente portando as cores ver-
de e amarelo, além de outros objetos caracteristi-
cos do candomblé de caboclo
0 Caboelo arqu
sobrevive na meméria populer, fixando os valores da
nracicnalidade e da defesa do patriménio native.
‘A concepeae do Caboclo como mito-herdi é
facilmente observada na produgéo do lendério po-
po da valentia e coragem
pular, nas préticas dos terreiros de Candomblés de
Caboelo, nas letras dos Sambas de Caboclo e em
coutras tradigdes orais pertinentes 4 divulgacao da
imagem do Caboclo como aquele que velo para de-
fender e lutar
Assumindo as fungdes de divindade, © Cabo-
lo & encerado ¢ interpretado pelo povo coma um
semideus que velo ajudar ealiviar as pessoas dos seus
problemas, fazendo 0 dia-a-dia mais ameno, humano
© melhor, Intimamente relacionado com os Inquices
cultuados nos terreitos Angola: Congo ¢ Moxicongo,
© Caboclo assimilou valores pertinentes as dvinda:
des africanas, estabelecendo intercambio de influén-
Gia quando as divindades dos terreitos também -
ram transformades em fungo da imagem do Cabo-
clo e sua forte penetracao.
Dentro desse processo de deificagio, a ort
‘gem do Caboclo foi dimensionada e adequada asFO
Juuio Brac
necessidades dos cultos. Grande gama de Caboclos
pode ser observada e os processes de criagéo conti
‘ua atualmente.'
Numa abordagem purista, 0 pavo do santo
afticano no encontra vinculos com os caboclos;
contudo, quase todos os adeptos dos terreiros, in-
formalmente, tém seus eaboclos, cultuam os do-
nos da terra, os donos do Brasil.
Na cidade da Cachoeira ¢ outras do Reeéneavo,
02 de Julho provaca forte comogéo popular, reunin-
cdo lembrancas historias e civicas, ampliadas pelas ati-
vidoes tee ikon vines, Nested and
pra os caboclos:
Julio Braga da énfase toda especial ao cabo-
clo enquanto personagem emblemético do ser bra
sileiro, considerando, contudo, a amplitude
conceitual sobre um mito e suas diferentes formas
de consagragio oficial e popular.
Formado por quatro capitulos, Cadeira de
oga ¢ outros ensaios & um livro de evidente vo-
cago etnogratica que nosso prezado Jilio Braga
soube traduzir de maneira propria e permeada
A Capea oF Ok
por suas experiéncias de antropdlogo e de sacer-
dote.
Nele, o autor apresenta-se como intérprete
do outro, colocando-se, porém, muitas vezes, no
lugar do outro.
E um exereicio de auto-olhar, de recolher
olhares contrastantes dos entornos, dos momen.
tos histéricos, recorrendo a lagos de amizade, de
fami
, de familia de santo
Ao introduzir o livro, aligs, no primeiro capi-
tulo, Jilio Braga oferece ao leitor ampla reflexio
tedrica sobre as relagdes da pesquisa, ¢ a interpre-
taco do lugar do outro, como se também anun
ciasse seu lugar vivencial no meio do povo do
candomblé.
Todas essas relagdes se do por uma mélange
de métodos, de técnicas das ciéncias sociais e an-
tropolégicas e, especialmente, pelas incursdes de
Jtilio Braga aos terreiros da Bahia.
Seu livro & antes de tuda, uma celebragio
do candomblé e, certamente, também, uma cele-A Cacia be Oca
ESTE TEXTO RETOMA A DISCUSSAO sobre o problema
do etnocentrismo como entrave na percepcao dos
fenémenos culturais. Sem pretender esgotar o
estudo dos fatores intervenientes que definem
essa problematica de cunho epistemoldgico, bus-
‘ca-se analisar alguns aspectos ligados ao traba-
Iho de campo, com énfase nas dificuldades
interpostas pelo possivel etnocentrismo cultural
do pesquisador.
M:
jowski, no seu cldssico Uma teoria
cientifiea da cultura, informa que o antropélogo
estuda as realidades da cultura sob as mais dife- 19
rentes condiges ambientais, o que Ihe permite
observd-las com base em uma teoria,cujo resul- f/f)
tado de suas observagées conduzird o pesquisa-
dor & confirmacao ou rejei¢éo empirica dos
problemas tedricos levantados. Desse modo, afir-
ma: “o antropélogo forneceu a maior parte da
inspiragao no sentido das tendéncias realmente
cientificas da sociologia moderna, andlise dos
modernos fenémenos culturais e da observacdoJuuio Beaca
direta convineente, e nao intuitiva, das revela-
g6es de pura elucubraggo.”*
Com efeito, trabalho de campo, para qualquer
cgncia social, pode ser definido, grosso modo, como
uma tentativa empirica de buscar as respostas teo-
ricamente formuladas pelo pesquisador que interes-
sam & compreensio do fendmeno por ele estudado.
No caso especial da antropologia, o trabalho de
campo, além de permitir o exercicio metadolégico
a0 antropélogo em formacéo, constitui-se também
em uma maneira de responder perguntas, cujas res-
postas quase sempre ele mesmo responderia com
relativa facilidade, por meio do senso comum. Isto
implica afirmar que ele, a0 formular uma pergunta,
© faz em termos das categorias que Ihe so familia-
res, produto de sua prépria cultura. Naturalmente
esta situagSo ndo é perigosa para outras ciéncias
sociais, pelo menos em termos tedricos, mas consti
tui um sério entrave para o trabalho de campo em
antropologia, jd que tem-se admitido como tarefa
especifica desta ciéncia “o estudo dos povos exéti
‘A Canans 0 Ook
cos, aqueles que praticam costumes € possuem cul
tura diferente em que se situa 0 antropdlogo, mes-
‘mo quando esses povos so encontrados na préxima
esquina”, para ficarmos apenas com a definigéo de
Paul Bohannan.*
Parece-nos, portanta, que uma das formu-
las encontradas pelos antropélogos, visando ame-
nizar 0s perigos que representam a transposigio
de categorias e valores da sua propria cultura,
quando da anélise do objeto especifico de estu-
do, tem sido a de recomendar aos que se iniciam
nna pesquisa, como condigao indispensével para 0
trabalho de campo, ir ao campo efetivamente, e,
como afirma Cazenewve, “ali permanecerem 0 bas-
tante para adquirir uma certa familiaridade com
a populagao e também que se livrem dos precon-
ceitos préprios da civilizagao moderna”’. Ou,
como recomenda Marcel Mauss, deve o antropé-
logo de campo “aprender a observar e classificar
0s fendmenos socials; ter preocupacao de ser exa-
to, completo; ter o sentido dos fatos ¢ as rela-
aJuv0 Brac
Ges entre eles; 0 sentido das proporcées de
suas articulagées"®
Os antropélogos esto inclinados a ac
que suas andlises da cultura s6 poderdo ser perfei-
tamente realizadas a partir do contato direto com 0
material de estudo, por meio da observagao em pro-
fundidade, eliminando 0 perigo da observagao su-
perficial, bem como se exercitando na imparcialidade
da compreensdo dos fatos e suas intrinsecas rela-
es, tais como ocorrem, sem formula juizo de va-
lor. Quando tudo isso nao ocorre, o antropdlogo,
muitas vezes sem se dar conta, se afasta do fené-
meno estudado, avanga o horizonte seméntico para
além dos limites da aceitabilidade cientifica e, como
num passe de mégica, volta-se cada vez mais para
dentro da prépria cultura.” Naturalmente, para al-
cangar o conhecimento de uma determinada cultu-
ra, 0 antropélogo “participa da vida cotidiana do
grupo, aprende o mais que pode de sua lingua, par-
ticipa de atividades familiares, da coleta de viveres,
dos festivais ¢ funerais, faz perguntas e escuta con-
‘A Cantina Dt Oca
versas, fica conhecendo seus melhores informantes”
intimamente.
Essas atividades desenvolvidas no campo per-
‘item, como assegura Keesing, que 0 antropélo-
go estabeleca classes de comportamento com base
principalmente nos termos lingiifsticos usados pelo
povo e & luz deles explore o ambito e a freqiiéncia
dos comportamentos: “paso a passo suas anota-
des de campo vao-se acumulando nos materiais
com 0s quais ele elabora proposigoes gerais sobre
normas de comportamento e com os quais por sua
ver ele se sente capaz de prever o modo de pensar
¢ de agir do povo.” *
O que se questiona, contudo, é até que pon-
to esta visao de conjunto da cultura em estudo,
vivenciada pelo pesquisador, néo estaria compro-
metida com um modelo teérico preestabelecido
que resulta do processo aculturativo a que esteve
submetido, de forma inconsciente, em sua cultu-
ra de origem, Por exemplo, ao abordar a vida re-
ligiosa de um povo dito ‘primitivo', até aue pontoBp
Juuo Braca.
8
a anilise estaria isenta das categorias utilizadas
no estudo das religiGes de povos ocidentais, Po-
der-se-ia mesmo questionar se a construcdo teé-
rica de um modelo de andlise, decorrente do
estudo empirico de uma realidade cultural diver-
gente da do pesquisador, ndo envolveria varis-
veis intervenientes da sua cultura de referéncia.
Isto poderia explicar a visio deformada que se
teve ou se tem das religides tradicionais africa:
nas, especialmente quando se sabe que as andlises
realizadas nesse sentido estiveram profundamente
mareadas por um comparativismo exagerado na
sua formulagdo tedrica, comparando estruturas
religiosas de sociedades distanciadas do ponto de
vista da formago cultural, para nao falar de nf-
veis diferentes de complexidade ideoldgica.
Nao se trata de supor que nao haja regras
universais de comportamento, definidas por um cer-
to estilo de vida que parece comum a todos os po-
Vos, tampouco que essas regras universais no
possam ser detectadas, jd que a andlise estrutura-
A Capea De Oak
lista caminha nessa direc&o, “quando ela se propde
a descer até os fundamentos da cultura e encontrar
todos os modelos das sociedades, partindo da natu-
reza ou antes do ponto de emergéncia da cultura”,
como bem define Cazeneuve a antropologia cultu-
ral de LéviStrauss.® O que se pretende deixar claro
& que a visdo deformada de determinado segmento
de uma cultura parece resultar, quase sempre, de
categorias analitcas provenientes de outra cultura,
as quais parecem ser um acompanhante insistente
do antropélogo, quando realiza trabalho de campo.
Parece-nos, entretanto, que mesmo um es-
Lagio de dois a trés anos no campo, submetendo-
se de forma consciente aos valores que Ihe s4o
estranhos, nao_permite ao antropslogo desvin-
cular-se dos seus préprios padrées e preconceitos
—=——E—E—E error’
_culturais.'Os compromissos culturais a que esté
sujeito © antropélogo, em relagdo & sua propria
cultura, poderdo ser entendidos dentro da evolu-
go da ciéncia antropolégica, de resto muito bem
definida por Copans, quando afirma: "A hetero-
25Juuo BRaca
geneidade da vida em sociedade foi sendo pro
gressivamente constatada com a descoberta e 2
ocupaséo colonial das sociedades nao-européias
Percebeu-se, ento, que as sociedades da Améri-
ca, da Asia e da Africa no eram feitas a imagem
dade europé
por fazé-las um objeto de reflexao filoséfica ou
da soe
. Esta constatagao comeca
politica antes mesmo de se tornarem objeto da
cigncia. A sistematizagao destas reflexdes sob
forma cientifica tornou-se possivel a partig do mo-
mento em que se constituem as ciéncias das for:
magoes sociais e histéricas.”!°
A percepeao da diversidade cultural entre os
povos fora do circuito europeu, embora tenha for-
talecido a nogio de relativizago do comportamento
humano, néo desviou a projecdo que sempre foi
feita da civilizacdo ocidental como matriz
referencial ¢ privilegiada das reflexdes compa-
rativistas. Ao contrério, a possibilidade de constatar
nessas novas sociedades descobertas paralelismos
nas diferentes formas de viver ¢ se relacionar em
A Canta br Oct
sociedade acentuou bastante a visio da sociedade
européia como detentora das melhores condigées
que 0 homem tem para resolver seus problemas ¢
atender suas necessidades fundamentais; deve ser
considerada n sdelo inigualavel, a ser, portanto,
imitada
CCopans chama atencéo para o seguinte fato:
“A descoberta intelectual das sociedades ndo-euro-
péias poe em destaque a diversidade das formas so-
ciais de pensamento e comportamento ¢ das
instituigdes a que elas correspondem. Mas ¢ dificil,
‘em primeiro lugar, separar 0 approach cientifico,
ideolégico ou moral desse fendmeno. A reaco ins-
tintiva do Ocidente em face das humanidades exdti-
cas € 0 etnocentrismo, que julga implicitamente ou
mesmo ex}
iiamente as sociedades nao-europs
segundo as normas européias.""!
‘Aanslise de Copans se encaixa como uma luva
para elucidar a situagdo que o antropélogo tem de
enfrentar durante o trabalho de campo. Por mais que
Ihe seja dada a oportunidade de vivenciar, durante
27Juno Braca,
muito tempo, os momentos, especialmente os mais
critices, da vida sociocultural de um povo — trans-
formado em objeto de estudo —, dificilmente conse-
guird se ajustar completamente aqueles estranhos
padres culturais distintos da sociedade que lhe mol-
dou o cardter e a personalidade, Esta situaco colo-
cao diante da dualidade fundamental que sempre
surge quando 0 pesquisador depara com um grupo
estranho: uma admiragao e aceitago do outro ou
uma reagao de desprezo e rejei¢go." Em nenhuma
dessas situagées 0 antropélogo se ajusta de forma a
‘compreender plenamente os novos valores ¢ aceité-
los em detrimento dos seus. Nao estamos falando
aqui de uma impossibilidade cientifica de compreen-
so da sociedade por meio das reflexdes que so
montadas a partir de um conjunto de elementos cap-
tados na pesquisa de campo. E evidente que isto
possivel, até porque as cigncias sociais, e a antropo-
logia em particular, para realizar seus intentos anali-
ticos, podem prescindir de dados exaustivos para
trabalhar apenas elementos essenciais da formacao
‘A Captita 0 Oak
sociocultural de uma sociedade. Uma etnogratia den-
sa, indispensdvel 8s construgdes tedricas na antropo-
logia, ndo significa necessariamente uma dissecagao
mminuciosa do tecido social. O que se quer acentuar €
que antropélogo, ao aceitar como verdade os valo-
res do outro, no plano de suas elaboragGes tedricas,
sente o indizivel prazer do cagador que aprisionou
sua presa na armadilha cuidadosamente construida,
Mas nao consegue aleancar totalmente o que se pas-
sa no plano mais profundo das reagdes humanas, a
menos que se entregue ou se integre para além da
pesquisa e se coloque também na possibilidade de
caga e nao de cacador.
Ds
ida sua posicéo em termos de admi-
ragdo e aceitagdo do grupo que pretende estu-
dar — 0 que geralmente ocorre —, aliada
necessidade do ponto de vista de sua ciéneia, de
levar em consideracao a situagio social total com
a qual trabalha, poderé limitar suas observagdes
aos aspectos puramente intrinsecos da cultura
‘em questo, sem considerar ndo $6 sua prépriaJuvo Braca
30
presenga, que por si sé j4 modifica, em graus
diferenciados, 0 comportamento de seus exéti-
cos, mas também situagées novas resultantes de
contatos que, porventura, tiveram aqueles indi-
viduos com estrangeiros que o precederam. € ilu-
s6rio imaginar que o pesquisador nao altere de
alguma forma as relagées sociais na comunida-
de que est sendo estudada, Na comunidade re-
ligiosa afro-brasileira isto é tanto mais verdade
quanto mais © pesquisador vive intensamente
esse cotidiano, E essas interferéncias continuam
a existir 4 medida que a comunidade se da conta
das pesquisas e dos estudos feitos e publicados,
Essa questo, no entanto, que nao cabe nos li-
mites deste trabalho.
Beattie lembra que: “em varias comunidades
‘nativas’ atuais da Africa e alhures, administrado-
res distritaise estrangeiros, missiondrios e, algumas
vezes, comerciantes e colonizadores desempenham
ou desempenharam papéis importantes nos assun-
tos da comunidade, e qualquer estudo social que
‘A Capiiea ve OGk
omita referéncia a eles est fadado a distorcer a
realidade. Todo antropélogo deve fornecer uma des-
crigao dos valores e instituigées tradicionais da
sociedade que est estudando, na medida em que
estes ainda sejam fatores vidveis. Mas ele precisa
tomar cuidado para nao permitir uma nostalgia
vicariante de um passado tribal perdido ou de um
desgosto pessoal pelas implicagdes freqiientes do
‘contato cultural’ , que 0 levassem a ignorar os
papéis geralmente vitais desempenhados pelos
agentes de mudanca.”!* Em seguida ele esclarece
que o sentimentalismo pode ser o pior inimigo do
antropélogo: “E 0 leitor das descrigdes antropols-
gicas de alguns povos da Africa e outros lugares
poderd ficar admirado ao saber que o povo sobre 0
qual esta lendo tem funcionérios distritais euro-
peus, cortes do tipo ocidental, missionérios euro-
peus de varias seitas e vendedores jé ha meio século
ou mais."*
sentimentalismo de que fala Beattie pode
ser entendido aqui como uma espécie de etno.
31Juve Baaca
centrismo, movido pela aceitagdo de valores cultu-
rais diametralmente opostos aos do antropélogo e
que, do ponto de vista da pretenséo cientifica, é 140
prejudicial quanto se ele estivesse em uma atitude
de desprezo pela cultura que estuda, © etnocen-
trismo, qualquer que seja a posi¢do em que se en-
contre © pesquisador, isto é, a de superestimar sua
cultura ou “as avessas”, por meio da superestimaco
da cultura do outro, pode se constituir em sério
entrave para 0 trabalho de campo, devendo o an-
tropélogo se despojar de suas certezas, relativizar
seus valores éticos, para poder se aproximar de ou
tras experiéncias de vida social e cultural, podendo
melhor compreendé-las de um ponto de vista analt-
tico. © desgaste do etnocentrismo cultural, como
acertadamente comentou W. Thomas, *... tem como
resultado pratico 0 de permitir a0 antropélogo a
sua movimentagdo através de categorias culturais
fa
res a outros povos. Aprendendo a responder
a novas fontes de emogo, a apreciar comidas exé-
ticas, a ficar acostumado a entonacoes e preocupa
‘A Cannes pe Oca
‘Bes que Ihe sao estranhas, os antropélogos adqui-
rem, face ao homem e @ cultura, uma atitude
relativista que é vital para suas investigagdes.”'*
A experiéncia tem mostrado a dificuldade
da imparcialidade total, quando se analisa uma
determinada cultura, sobretudo se se trata da
nossa. Mas, o esforgo intelectual orientado para
atingir esta isengao jd se nos afigura como atitu-
de verdadeiramente cientifiea, que deve ser 0
melhor auxiliar do antropélogo quando se encon-
tra com seus exéticos, mesmo quando esto ali
nna esquina, e somos nés mesmos 33
NOTAS
2. — Este artigo, na sua versio original, foi publicado com
© titulo “Etnocentrismo: um problema teérico para o tra-
bho de campo em antropologia”, In: Revista Universitas
Salvador, (82):77-84, jul/set., 1985.
3. — MALINOWSKI, Bronislaw. Uma teoria clentffiea da
cultura, Rio de Janeiro: Zahar. 1970. p. 21Juno Barca
4— BOHANNAN, Paul. Social anthropology, New York:
Rinehart and Winston, 1963. p. 7.
5 —CAZENEUVE, J. LEthnologie, Pars: Librarie Larousse,
1967. p. 9.
6 — MAUSS, Marcel. Manuel d'ethnographie. Paris:
Payot, 1969. p. 7.
7-—0 texto A cadeira de Oga mostra, de certa maneira,
tum pouco dessa distorgdese seus preulzos analiticos quando
se pretende alcancar 0 objeto de estudo pela sua aparente
Visiblidade, sem se dar conta dos profundos compromissos
do que se v8 com 0 que no est exposto, principalmente
‘quando se trata do campo rcligioso, Os eindlogos quase
redefiniram as tungdes do og, colocando-o na categoria de
elemento de pouco significado ritual € praticamente sem
compromissos sagrados com o candomblé a0 quel pertence.
8 —KEESING, Felix. Antrepologia cultural. Rio: Fundo de
Cultura, vol. 1, 1961. pp. 33-34.
© — CAZENEUVE, J. Op. eft
10 — Kem tbdem., p. 10
11 —COPANS, J. Op. cit. p.18.
12 —Ver, sobre ist, LEITE, Dante Moreira. O cariter necio,
tal brite: histére de uma idzologia. Sao Paulo: Biblioteca
Pioneira de Ciencias Sociis, 1969. p.11
13 — BEATTIE, J. Antropologia social. Séo Paulo: Editora
Nacional,1971. p.98,
14 — BEATTIE, J. Op. cit, p. 98.
15 WILLIAM, Thomas Rhys. Field methods in the study of|
culture. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1967. p. 38.
A CADEIRA DE OGA'®‘A Canntes 01 Oc
“0 og6 € tudo dentro do candombié.
E pau pra toda obra.”
(De um informante)
Neste Texto, pRerENDO DIscLMR a presenca do oga!”
nos candomblés da Bahia, especialmente no con-
texto religioso, e avangando na perspectiva de
compreendé-lo em sua trajetéria como elemento
de grande significado no processo de resisténcia
dos candomblés, explicitando algumas praticas de
negociagao utilizadas no confronto com a repres-
s40 policial e outras formas de rejeigo a cultura
religiosa afro-baiana. Por fim, e nem por isso me-
nos importante, situé-lo em sua atual dimensio so-
cial, para compreender os novos papéis que
desempenha, principalmente o de intermediador nas
relagoes do candomblé com o poder e os organis-
‘mos piiblices da Bahia. Valho-me, para tanto, de
‘algumas reflexdes jd aparecidas em Na gamela do
feitico: repressdo e resisténcia nos candomblés da
Bahia'®, onde examino de maneira mais ampla as
reag6es ¢ lutas dos candomblés contra diferentesJuio Braca
formas de rejei¢ao da sociedade baiana, principal-
mente a partir da primeira metade deste século.
A repressao policial aos cultos afro-brasile-
ros, sem diivida, a mais cruel entre tantas tentativas
de exclusdo de valores culturais negro-africanos,
ainda no havia merecido maior ateng3o dos estu-
diosos, muito menos 0 desdobramento em termos
de luta de afirmagéo de valores culturais negros
numa sociedade que se pretendia herdeira de civil
zacdo exclusivamente ocidental. A abordagem tem
sido bastante dificil, ndo s6 pela escassez da docu-
mentag3o — contamos praticamente com o mate.
rial jornalistico e poueas referéncias bibliogréticas
—, sobretudo pela postura das pessoas dos can-
domblés quando chamadas a informar sobre a
repressao policial. Geralmente se mostram extre-
mamente reticentes, tendendo a minimizar as con
seqiiéncias daquele desrespeito aos espacos
objetos sagrados afro-baianos. Em termos gerais,
a comunidade reage como se pretendesse esquecer
os horrores das invasdes aos templos sagrados
tomes
Outros se vangloriam de jamais terem sido vitimas
desses atentados, contrariando, as vezes, evidén-
cias reais. Almiro Miguel Ferreira, ao comentar a
tentativa de invasao do terreiro Viva Deus pelo
delegado Pedro Azevedo Gordilho, 0 famigerado
Pedrito, 0 mais cruel de quantos praticaram a re-
pressao policial aos candomblés da Bahia, chama
atengdo para a aversao que as pessoas tém sobre
esse tema:
436 falaram muito, jé contaram muita coisa, mas isso
no falaram. E talvez nfo esieja nem escrito, Mui
gente de uma certa idade pode saber desse caso ¢, 5¢
quiser falar a verdade, fala, se nfo quisr... Bem, “seu
Pedtito jé foi embora, Entao, em virtude do que ele
tina feito, fizeram uma cantiga assim
Sexta e sabado
Domingo ¢ meu
— Cad seu Pedrito?
—0 gato comeu.
—Se ele era homem,
pra que correu?!®
O texto de Almiro ¢ um raro documento
que alguém de candomblé se refere & repressio
policial como fato historico que deve ser falado,
A Cantina 0 Oca
39Jute Beaca
40
dito ¢ pesquisado, insinuando que muita gente sabe
daqueles acontecimentos, mas prefere nao
comenté-los. Nas minhas pesquisas de campo, pude
constatar, por diversas vezes, certa reacdo as per-
guntas sobre as batidas policiais, com respostas
evasivas formuladas até mesmo por pessoas que
foram pessoalmente vitimas e tiveram suas casas
invadidas de maneira brutal e arbitréria.2°
Nao € propésito desmerecer a bravura de
uantos resistiram, a partir dos candomblés, & re-
ressao policial e eles foram muitos. Destaco nes-
tas anotagées, para fins de andlise, a figura do
084. que teve saliente papel na intermediagao de
conflitos entre 0 grupo religioso ¢ a sociedade
baiana, muitas vezes conseguindo desviar a aten-
‘¢40.e, em certas ocasides, abrandando a ira policial
E de se notar que muitos pertenciam as
corporagées policiais ou desempenhavam funcdes
nos servigos piiblicos, 0 que Ihes permitia, vez por
outra, interceder junto 4s autoridades, evitando
agées mais brutais. Os jornais de maior circulagao.
A Capea br Oca
em Salvador, principalmente na década de vinte,
quando a repressdo foi mais intensa, trazem repor-
tagens que mostram 0 papel dessas pessoas na
pratica de negociago com juizes, delegados ¢
prepostos da policia. A reportagem de A Tarde, de
16 de agosto de 1921, com o titulo “Pai-de-Santo
{foi bater no xadrez”, & bem um exemplo da presen-
ca do og nessas corporacées, e, nesse caso, ocu-
pando posigéo hierérquica de destaque, como
capito-de-Brigada:
A Quinta da Barra vem de algum tempo sen-
do transformada no melhor local para os candom-
blés, Talvez pela escuridio que Is reina ¢ por ser
distante os ogas Ihe do preferéncia, Mas, 0
subdelegado local em boa hora organizou uma “ca-
ea"
As 22 horas, recebendo queixa de varios mo
radores contra os incdmodos que thes causavam a
prética da m: 10 local e dew um cerco,
negra,
prendendo o pai de santo ¢ doze figs. Chegando a0
Posto Policial e como vissem que tinham mesmo de
pernoitar ali, declararam que aquilo era uma injusti-
(2: pois nfo acreditavam como a policia perseguia-os
‘se um capitdo da Brigada era também ogé e na sua
casa fazia botuques.
4Jutto Barca
40
O jornalista parece confundir a figura do
lider sacerdotal, no caso em aprego um pai-de-
santo, com 0 og, que & um posto na hierarquia
religiosa dos candomblés. £ dificil, neste caso,
saber se 0 capitio-de-Brigada era efetivamente
og8 ou reali
ava, como pai-de-santo, culto reli-
gioso afro-brasileiro em sua casa. De qualquer
maneira, seu envolvimento com a religido servi-
ra de argumento para o protesto contra a
perseguicao.2!
Outro exemplo de interferéncia do og.
desta feita tentando dificultar a ago da autori-
dade policial contra um candomblé, esté na re
portagem de A Tarde, datada de 24 de abril de
1922, com o titulo Extinguindo a bruxaria. A po
licia cerca uma casa no Retiro, onde o inspetor de
quarteirdo, gente de santo, tentou evitar a agao
da autoridade policial. Eis o texto, na integra
Na Fazenda Grande, Distrito de So Caetano,
existe um feiticeiro de nome Lourenco José Mathias,
‘que bem perto do posto policialretine todes as notes
‘0 adeptos de sua pseud-religiso
A Capa ot Ook
De algumas fetas, quando Lourenco era int
mado pela policia, declarava sempre que festajava ali
So Cosme e S40 Damigo, Era cosiumada cantilena
Para exercer com mais seguranca a sua fetiaria Lou
rengo mandou pr no umbral de entrada uma incr
$80 com o nome daqueles dots santos.
© subdelegado Abslio de Jesus, apesar de no
‘ato no cargo & no oficio, & que nao se conformou
com ahistéria, Assim € que, & frente de algumas pra-
a8 de policies, deu um cerco & casa prendendo em
flagrante muitas dezenas de adeptos e assistentes,
inclusive o feticero-chefe, 05 quais passaram a noite
no posto policial.
mais interessante da diligéncia € que o ins
petor de quorteirdo, de nome Joo Rufino do Bontim,
também é oga e, no momento do assalto, e rebelou,
tentando frustrara ac3o daquela autoridade. O dle
‘ado Lustose de Aragéo teve por offcio conhecimen-
to do ocortido
Entre diversas fungées e papéis intrinsecos
as suas responsabilidades formais, os ogas foram,
além disso, importantes na intermediagao de con-
flivos entre 0 grupo religioso e a sociedade baiana,
Antes de mats nada, quero deixar claro que
os ogas devem ser vistos na sua dimensdo mais
ampla, enquanto membros efetives dos candom-Juuo Barca
blés, com direitos, deveres e prerrogativas religio-
sas definidas no interior dessas comunidades. Ha
uma tendéncia generalizada a acreditar que o can-
domblé se valeu sempre do expediente de escolher
pessoas importantes, de preferéneia de cor bran-
a, para thes conceder o titulo de oga e fazé-las
protetoras da comunidade religiosa. E essa esco-
tha recafa sempre nas pessoas que desfrutavam de
maior poder aquisitivo ou detinham algum tipo de
poder na sociedade:
Ao analisar 0 grupo dos ogas e suas atri-
buigGes especificas no interior dos candomblés,
percebe-se verto exagero nessas afirmativas, que
se tornaram, ao longo do tempo, lugar-comum
nos estudos afro-brasileiros. © que parece mais
freqiiente, incluindo as casas mais bem articula-
das com a midia — para os leigos referéncia de
qualidade e poder —, é a escolha de pessoas mais
hhumildes que podem colaborar e participar dos
servicos religiosos de maneira mais regular e que
8 so portadoras de alguma nocao do universo
A Capita pi Oca
sagrado, do andamento de rituais e da prépria
vida da comunidade como um todo. £ bem verda-
de que, em tais casos, a escolha recai nos que
sinalizam potencialidades pessoais ¢ sociais indis-
pensdveis as funcoes extensivas de protetores dos
candomblés. Mas, em linhas gerais, os ogas, na
sua maioria, so menos protetores, no sentido
exclusiva que se quer, e muito mais auxiliares per-
manentes de pais ou maes-de-santo em seus afa-
eres religiosos. Esses colaboradores permanentes
quase nunca aparecem nos lugares onde se discu-
tem problemas da comunidade religiosa, tais como
encontros e conferéncias; esto, essencialmente,
ocupados com a luta pela sobrevivéncia, muitos
deles operarios, afastados das fofocas dos can-
domblés, dispondo de pouco tempo para apari-
Ges puiblicas,
Donald Pierson, estudando a composigao de
um terreiro de candomblé, na Bahia, na década de
trinta, oferece um perfil do grupo de ogas, que
parece nao ser tao distinto do grupo dos dias de
eee
45
aJuuo BRAcA
hoje, em relagdo aos estratos sociais em que se
situam:
Os dezesseis gas tinham entre vite esessenta anos
de tdade, com exceco ce um menino de cinco anos.
‘0 mais velho" fore ‘confirmado' havia trintae dois
‘anos, Eram todos pessoas de classe ‘inferior’ que,
com excega0 do menino, tinker trabalho regular
havendo entre eles vendedores ambulantes,
estivadores, um carroceito, um furileiro, um pintor,
tum padeiro, um alfaiate, um linotipista, Apenas trés
(ou seja, menes de um quinto] moravam nas imedi-
ag6es do terrero, vivendo os demais esparsos por
nove diferentes zones da cidade.”
Eram e ainda so escolhides na vasta rede
das relagdes pessoais do lider religioso, onde se
incluem: parentes de filhos-de-santo, vizinhos que
prestavam, vez por outra, algum tipo de ajuda in-
formal durante as festas piblicas ou auxiliavam
nos momentos de necessidade do terreiro, e por
isto se agregaram a comunidade religiosa. Nao é
raro ser escolhido para o cargo de og uma pessoa
da famflia, parente por afinidade ou consan-
gliinidade. A compreensdo que se tem € de que
parece existir uma necessidade de o lider se cercar
A Cacia bF Oc’
de algumas pessoas de confianca a quem atribui,
além das fungdes normais do cargo, outras tarefas
do dia-a-
fa que exigem grau maior de con-
fiabilidade, como cuidar das economias pessoais €
resolver outros tantos problemas especificos da co-
munidade religiosa. Alguns ogas se fazem merece-
dores da confianga do pai ou mae-de-santo,
tornam-se confidentes e participam da vida intima
da comunidade religiosa, despertando o citime de
outros que nao desfrutam da mesma situacéo.
No interior dos candomblés, existe uma per-
manente rede de ajuda métua, troca de favores,
que termina por engendrat relagdes mais proximas,
contatos mais efetivos ¢ afetivos, muitas vezes con-
solidados pelo estabelecimento de lagos religiosos
duradouros. Assim, muitos se transformam em og8s
por terem antes protegido um determinado can-
domblé, tornando-se dessa forma, merecedores de
tal honraria.
No plano das opées de escolha, merecem
tendo especial os intelectuais, professores, médicosEI
Juuo Braca
ou alguém que tenha se notabilizado por alguma
razo na sociedade. E evidentemente se fazem mais
notados por suas qualidades pessoais ou conquis-
tas, circulam nos meios sociais, s4o citados nas co-
lunas sociais e parecem usulruir do status religioso,
jactando-se de revelar a condicgao de possuidores de
titulo honorifico ne interior dos candomblés. Entre
esses ogas de fora, por oposigao aos de dentro, isto
6, escolhidos na malha interna da comunidade, Nina
Rodrigues merece ser citado por tudo 0 que repre:
sentou para a religido afro-brasileira,
‘Médico por formagdo e etnslogo por gos-
to, (¢ que} teve de enfrentar a arrogancia e a vio-
léncia de senhores acostumados a oprimir, a
explorar, a espancar os seres humanos que se en-
contravam a seu servico,”## exatamente por se mos-
trar interessado pela cultura dos negros humildes
nna Bahia, em que pese sua dose de preconceito,
tantas vezes denunciado em estudos posteriores,
Nina Rodrigues terminou por ser escolhido como
ogi de um dos mais prestigiosos terreiros da época,
‘A Canara be Oct
o do Gantois. Ressalte-se o cardter humanistico de
Nina Rodrigues, que provavelmente nao se recusa-
va a intermediar interesses de pessoas dos candom-
blés dentro da sociedade mais ampla, tampouco
deixar de atender como médico um negro doente e
prescrever-lhe algum tratamento, ou encontrar, com
a ajuda de seus colegas de profissdo, um apoio
qualquer para atender a gente pobre de Salvador,
aviando uma receita, facilitando um internamento
na incipiente rede hospitalar da época.
E 0 prdprio Nina Rodrigues, em seu lio O
animismo fetichista do negro baiano, que fornece re-
feréncias preciosas sobre a func3o politica dos ogas,
os protetores dos terreiros, embora traga escassas
noticias sobre suas principais atribuigées religiosas,
A perseguigdo de que eram alvo os candomblés ¢ a
‘mé fama em que s80 tidos os feiticeiros tornavam
uma necessidade a procura de protetares fortes e po-
derosos que gorantissem a tolerdncia da polici. A
estes protetores, que podem ser iniciados ou nao,
smas que acreditam na fetigari, ou tém um interesse
qualquer nos candomblés, do eles em recompensa o
titulo e as honras de opis.Juuo Braca
Ele comenta sucintamente as obrigagSes
giosas dos ogas de um terreiro, como a de oferecer,
a0 santo protetor, animais para as festas e sacrificios
votivos, ¢ fala dos direitos que tm, como o de se-
rem cumprimentados pelos filhos-de-santo que Ihes
pedem a béngSo; mesmo assim, garante que seria
um equivoco imaginar que o titulo de oga fosse es-
pinhoso e pouco ambicionado.?> Aqui, Nina
Rodrigues trata de um aspecto até hoje pouco dis-
cutido. Se o candomblé se valeu e ainda se vale des
se jogo de aliancas em momentos de dificuldades, &
igualmente verdadeiro que ser og de um candom-
big, tanto no passado como nos dias que correm,
significa deter um certo prestigio dentro e fora do
grupo religioso, independentemente da situagae
social de quem é portador do titulo; preto ou bran-
€0, rico ou pobre. Nao s6 as pessoas humildes se
comprazem de seu status dentro do grupo, para mui-
tos é tao-somente o iinico referencial de prestigio
social. Outros, de situagdes privilegiadas, também
se jactam desse posto e acenam como figuras
A Capers 08 Och
importantes por terem sido aceitos dentro do gru-
po; no lugar de serem protetores, so, sobretudo,
protegidos, amparados pelas benesses das divinda-
des. Muitos, e nao sao poucos, como as intelectu-
ais, se valeram e ainda se valem da situagao para
terem acesso comunidade e dali tirar algum pro-
veito para elucubragées intelectuais ou inspiracéo
para trabalhos escritos e obras de arte. E natural
que isto aconteca, e se a utilizagdo dos valores reli
giosos, signos, emblemas e dados etnogréficos for
feita de maneira consciente, sem prejulzo formal para
2 comunidade, ndo ha problema.
Os principais estudiosos do candomblé e da
cultura negro-africana de maneira geral foram ou
sdo ogas e tém prestado relevantes servicos 8 pre-
servagao e valorizagao do aludido universo
sociocultural
Arthur Ramos, depois de criticar Etienne Bra-
sil, colocando-o entre os abservadores apressados
por ter este tiltime confundido a figura do babalaé
coma do oga, tudo isto fruto de uma leitura répidade um trecho do Animismo fetichista do negro
baiano, garante que “entre os afro-brasileiros, 0
og nao tem nenhuma fungdo sacerdotal. Neste
ponto, as observagées de Nina Rodrigues e Manu-
el Querino foram confirmadas pelas minhas pré-
prias, poi
para fins de pesquisa cientifica, nos
submetemos, eu e meu prezado amigo, o Dr.
Hosannah de Oliveira, docente da Faculdade de Me-
dicina da Bahia, a ceriménias de iniciagéo de ogas,
no terreiro do Gantois."** Em seguida, descreve a
cerimdnia de suspensdo da qual participou:
Conduzide pela mée de tereiro, 0 aspirante
4 og8 € sentado numa cadeira de bracos sobre ele
‘estende-se um pano-da-costa, Em seguids, levanta-
s¢ e dé uma volta completa na sala sob novo manto,
seguro nas extremidades por quatro filhas-de-san
to, Ao passar pelos tocadores de atabaques, deixa
cair alguns niqueis num pequeno receptéculo, Fin-
da esta ceriménia, que € acompanhada pelo pai e
mfe de terreiro, que entoam canticos africanos,
senta-se na cadeira ¢ recebe as homenagens dos
presentes.2?
Mas toda vez que se fala de estudiosos, pes-
quisadores e intelectuais de maneira geral, que se
A Capers
tornaram ogas ou que tenham recebido outros ti-
tulos honorificos nos candomblés, é como se esses
individuos fossem absolutamente isentos de qual-
quer sentimento r.
80, estando ali sé para tirar
proveito, Nao so raros os que se aproximam do
candomblé por motives puramente religiosos. Eles
buscam na participagdo comunitéria explicagées,
metafisicas para seus conflitos e, dio vazdo 4
espiritualidade as vezes retida pelas pressées soci-
ais, tornando-se crentes fervorosos dos orixés, sen-
tindo-se religiosamente compensados e disso
fazendo proselitismo.
Ainda hoje, na Bahia, em determinados cir-
culos sociais mais sofisticados ou nos ambientes
em que circulam intelectuais e pesquisadores soci-
ais, ser ogd de candomblé & bem simbélico da ex-
trema importancia para afirmacao pessoal,
despertando, no minimo, certa curiosidade naque-
les que nao esto familiarizados com os aspectos
mais especificos da cultura religiosa afro-baiana,
Mas existe os que confessam, sem qualquer cons-|
|
Jatio BRAGA,
54
trangimento, terem se beneficiado de alguma ma-
neira do status de oga de candomblé.
Donald Pierson, que realizou pesquisa de con-
tato racial na Bahia, diz ter entrado em contato
com “cores e classes”. “Para melhor conhecé-las,
escolhemos certas pessoas e familias, que repre-
sentavam essas diferentes cores e classes. Fizemos
a escolha baseando-se na contribuigdo que pare-
cet poderem oferecer para a compreensao das ‘re-
lagées raciais’ do lugar.” Pierson escolheu o
babalaé Martiniano Eliseu do Bonfim, o antigo au-
xiliar das pesquisas de Nina Rodrigues e uma das
figuras mais proeminentes da comunidade religio-
sa afro-baiana da primeira metade do século. Es-
colheu também uma mée-de-santo “de aparéncia
majestosa, que nesse tempo era provavelmente a
mais capaz e mais respeitada chefe de candomblé
nna Bahia.”2* Dessas fontes, Pierson obteve infor.
magGes preciosas para seu estudo das relagées en-
tre negeos e brancos na Bal
Em um paragrafo
especial, afirma:
A Capra be Och
Tivemos a sorte de ser feito og6 num dos centros do
culto afro brasilero, tornando-nos “ajuante” do s3
cerdotee “psi espiritual” das fhas-de-santo, com di
reito de admissio 20 pegi(santustio)e de participar
dos mistérios do culto."®
Edison Carneiro foi outro que seguramente se
beneficiou do fato de ter sido ogé ‘suspenso’ no
terreiro do Axé do Op6 Afonjé da época de Aninha,
Se, por um lado, a situago de oga suspenso limita-
vva sua participaggo no interior do candomblé, por
outro, este status certamente facilitou suas
andancas, pesquisas e estudos na Bahia, No caso
em aprego, & possivel que a situacdo de oga apenas
suspenso Ihe permitisse transitar de um candomblé
para outro, sem despertar as naturais reagdes de
ciime to comuns, especialmente em se tratando
cde uma pessoa como Edison Carneiro, que se tor:
nou um dos mais combativos defensores da religiso
do negro na Bahia. Era natural, portanto, que os
candomblés que ele freqiientava desejassem té-lo
como ogi, para monopolizar suas atengdes ¢ sua
protec3o. Ruth Landes, que realizou pesquisas sobreJuH0 Baca
|
36
a Bahia dos anos trinta, ao comentar que 0 posto
de ogi era oferecido aqueles que dispunham de boas
condigées financeiras e posigao social, afirma
“Edison era og de Aninha e, no momento, no En:
genho Velho, uma simpatica sacerdotisa 0 pressio-
nava para que protegesse o seu Xangé. Assim como
qualquer pessoa tem um anjo da guarda ‘na vida
catdlica’, tem na cabeca um deus 'na vida africa.
na’; e 0 og4 ¢ solicitado a ajudar uma sacerdotisa
dedicada a0 mesmo deus que reside na sua cabeca,
O deus de Edison era Xang6...”2! Mas Edison Car-
neiro no se confirmou e é ele mesmo quem diz, em
nota de pé de pagina, no livro de Ruth Landes: “Eu
era ento disputado como og pelo Engenho Velho
@ pelos candomblés de Aninha e de Procépio, mas
‘do me ‘contfirmei’ em nenhur.”*
Nina Rodrigues, apés lembrar que efetiva-
mente os ogs sdo recompensados pela protecao
que dispensam ao terreiro, comenta 0 valor que
tinha essa protecdo, nos fins do século passado —
‘mas que se prolongou por toda a primeira metade
A Capuiny De OGA,
deste século —, sobretudo enquanto durou a per-
seguicdo policial:
Em todo caso, esta protecao ¢ real e efetiva.
As proibigoes policials mals terminantes e rigorosas
desfazem-se por encanto diante dos recursos e empe-
nhos que os ogas pdem em acéo. A mola € sempre 0
interesse eleitoral, que neste pats faz de tudo
catavento.e nas grandes influéncias polticas vao eles
buscar os seus melhores protetores. Sei de um sena-
dor e chefe politico local que se tem constituido pro-
tetor-chefe dos ogas e pais de terreiro. *
Ele acrescenta, as suas anélises, um dado
essencial bastante revelador da situagao de troca
simbélica que se estabelece entre o oga, qualquer
que seja ele, e 0 seu grupo de referéncia. Se o
candomblé pode ser eventualmente beneficiério de
uma ajuda, o ogé esté permanentemente protegi-
do do ponto de vista religioso, o que para muitos
traduz-se em satisfago e recompensa indes-
critiveis. Mas, sentencia criticamente: “E acres-
cente-se aos interesses materiais e diretos a crenca
supersticiosa nas praticas fetichistas por parte de
pessoas influentes e poder-se-é fazer uma idéiaJuuo Bran.
38
do grau de protecéo indireta de que hoje podem
dispor os feiticeiros,”*
Embora seja dificil acreditar que Nina Rodri-
gues comungasse da experiéncia religiosa afro-bra-
sileira, tornou-se, pelo fato de ser pesquisador e,
por forca disto, freqiientador assiduo do candom-
big, um de seus aliados politicos que podia, de certa
maneira, tomar posigdes publicas contra as perse-
guicdes policias. Isso Ihe deu crédito na comunida-
de religiosa, que findou por estabelecer com ele lagos
mais sdlidos de participagdo no contexto dos rituais,
Como assinala Renato Silveira, “era o advogado que
defendia diante do publico bem-pensante, embora
dentro de uma dtica evolucionista, a dignidade da
cultura negra, Por esta razao, sempre foi recebido
com estimas e honrarias pelo povo do candomblé, e
terminou consagrado ogé confirmado para Oxali
do terreiro do Gantois."** Isso se deu no tempo de
Pulquétia, filha de Maria Jitia da Conceigéo que,
com outros dissidentes do lé ly Nass6, fundow
aquele terreiro.
A Cannas 1 Ook
O trecho seguinte ajuda a esclarecer o signi-
ficado da presenga de uma figura eminente da so-
ciedade baiana, ainda que muitas vezes criticada
por seus pares, na qualidade de oga de um terreiro
de candomblé:
Este fato é da mais alta importdncia no proceso
de constituigSo da religido afro-baiana e de uma socie
dade civ em Sahador, No euto de origem africana, os
‘gas compdem um sacerdécio espectlico; so 8 mem
bros masculinos do candomblé que nunca entram em
Iranse e se encarregam tanto de tarefas acministrativas.
¢ diplomaticas, como da miisica e dos sacrificios. Na
estruturag3o dos cultos na Bahia, este sacerdécio foi
‘mantido em toda sua complexidade, acrescentando-se
um ramo especial: certos braneos que detinham um es-
tatuto elevado no seio da sociedade oficial e que eram
simpatizantes do candomblé receberam, enquanto ogas,
‘a fungéo de protetores do culto.”**
Na verdad, generalizou-se a idéia de que 0
‘ogas tém no candomblé apenas uma fungéo
honorifica, servindo para aumentar o prestigio da
casa e possibilitar @ entrada de mais recursos que
ajudam a cobrir as despesas com as ceriménias sa-
gradas, Isto reduziria as fungées do og& a um papel
39|
i
|
|
I
|
\
Juno Brac,
puramente social na estrutura do candomblé sem
levar em consideracéo as diferentes responsabili-
dades religiosas que thes so inerentes.2” Na ex-
pressao de um informante, respeitado babalorixd
na Bahia, esta contida a melhor definigéo que se
possa ter da figura do og6:
Dé-se 0 nome de og8 a uma pessoa que se
submete a grandes cbrigagSes internas de um axé,
para se confirmar a um determinada orixé, A es-
tes, 0s portadores do santo tomam como Pai, ten-
do ele autoridade sobre o santo e muito mais 20
filho do tal orixd. Tém 2 obrigacao de zelar pelo
orixé 90 qual {oi confirmado, especialmente nas
suas obrigagdes. Existem os ogss de sala, que s80
08 responsaveis pela ornamentagio e disciplina do
barracao.?*
Manuel Querino, emA raga africana e os seus
costumes, descreve o og como pessoa de candom-
blé que, embora nao tome parte nos preceitos
religiosos, goza de inestimdvel regalia:
Ao penettar na casa do Candomblé, os tabaques
{sic) déo sinal de cortejo, conforme o santo a que
ele € consagrado; as mulheres prestam-ihe reverd
cia, tam o direito de transpor a porta de chapéu na
A Captira bt Ok
cabega, percorrer toda a casa sem autorizagao es-
pecial, e se the reservam os melhores lugares, nas
ocasises de festa, At mutheres que tém o mesmo
santo s30 chamadas — suas filhas, 20 verem 0 og
curvam os joelhos ¢ the pedem a béncéo, em
qualquer lugar.”
Querino assinala que o ogé toma posse duas
vezes: na primeira, é escolhido em dia de festa pu
blica, ocasido em que é apresentado aos circunstan:
tes pelo lider religioso, dentro de um cortejo em que
todos exteriorizam alegria e jibilo pela nova esco:
tha, Efetivamente, nesse dia 0 ne6fito senta-se em
uma cadeira, &s vezes posta de iiltima hora,
que
de uma maneira geral o ato de suspender um oga
no & premeditado. Posteriormente, realiza-se a con-
firmagao:
© og oferece um animal de quatro pés para
‘0 sactifci, concorre com as despesas de modesto
banquete, destina certa quanta para 0 irméo
sacrificador do animal oferecido, dé espértulas aos
misicos ou tocadores de tabaques, ¢ a algumas de
suas filhas, Se 0 og’ dispde de recursos e pretende
dar certo relevo, pois se protonga por muites dias em
0.”
‘que sobressai a matanga de um bovine ou caJato Baca
Mas é absolutamente necessaria, para que seja
aceito e respeitado como oga, a sujeicao aos rituais
proprios dessa it
cdo, incluindo-se sempre a ceri-
ménia do Bori,*além de outros andamentos rituais
complementares e igualmente i
portantes na iturgia
de consagracao. Caso nao se submeta a essa inicia-
go, permanecerd na categoria de og suspenso,
sem merecer 0s beneficios e o tratamento que tém
aqueles que assim procederam.
Edison Carneiro descreve com riqueza de de-
talhes, no seu Candomblés da Bahia, 0 procedi-
mento de suspender ou levantar uma pessoa para
ser ogd de um terreiro, incluindo também algumas
justificativas da razdo de a escolha recair sobre
uma determinada pessoa.
Certo dia, a mée decide levantar og do seu
candomblé um cavalheiro que conquistou as simpatias
gerais da gente da casa, seja pela liberaidade, soja
pele sus atracdo pessoal. seja pela posigdo que des-
{ruta, Em meio 2 uma ceriménia piblica, a filha A,
possuida por Xangé, por exemplo, toma pela méo o
indicado e o leva até diante do altar de Xango, onde
interroga 0 orixd, em lingua africana, sobre a conve
‘A Capua De Ock
nigncia de tomé-lo como seu oga. Volta depois com
cle para o barracio e, enquanto 03 atabaques se fa
om ouvir festivamente, outros ogas da casa 0 carre
gam e o passeiam carregando em volta da sala, sob
os aplausos da assisténcia, Outras vezes 0 orixé es
colhe 0 og8 entregando:he as suas insignias — no
caso, 0 machado de Xangé.*
A desei
0 se aplica exclusivamente para 0
‘caso do og suspenso, numa evidente alusio ao ri-
tual de apresentacdo do candidato. Durante a festa
pablica, outros ogas carregam-no por toda a exten-
sao do barracdo, levando-o em procisséo 3 porta da
rua, ao local onde se encontram 03 atabaques, mos-
trando-o aos mais velhos da casa. £ momento de
grande alegria para a comunidade religiosa, que se
compraz em receber 0 novo membro, Em muitas
casas de candomblé o novo oga é convidado a dan-
gar, 0 que faz acompanhado por outros ogés da
casa. Os alabés puxam cantigas préprias para esta
circunstancia ¢ todos respondem num evidente si-
nal de confraternizagéo. Uma das mais freqiientes,
cantigas parece aludir a0 ato especifico de levantar
de escolha
© og@, outro nome para a ceriméniJuto Barca
08 aloju
Pelé, pelé, cide
Og@ aloju
Esta outra, mais elaborada, assinala o santo
Para 0 qual est sendo escolhido 0 novo ogi. No
texto Ogd oloid/kobele ir , o nome Oia ¢ indicative
de que 0 og seré consagrado & divindade Oid ou
lansa, como & mais conhecido o orixé dos raios e
das tempestades.
E Oga ko bel ie iré
E kobelé
Og’ oloi kobel® iré
E kobelé
E quando 0 oga € suspenso para ser Alabé,
isto 6, tocador de atabaques, a cantiga entao indi-
a claramente esta situago:
Ala 6 Alabé é koin
‘Ala 6 an dena
Ala kein mi 8
Als 8
Apds os canticos especificos para essas ceri-
ménias, o lider religioso e outros dignitérios con-
duzem 0 novico até uma cadeira colocada adrede
A Captra 8 Ok
‘em lugar de destaque, denominada Cadeira de Oga,
fazem duas vezes mengao de senté-lo, para, defi-
nitivamente, na terceira vez tomar assento. Logo
depois, as divindades presentes, seguidas de mem-
bros do candomblé, vao cumprimenté-lo ¢ a festa
segue seu curso normal.
A cadeira de Oga
Entre os simbolos de prestigio do candom-
bié, a cadeira do og reveste-se de importéncia
excepcional, Geralmente é colocada em lugar de
destaque, quase sempre muito préxima de onde
senta o sacerdote. A hierarquia religiosa dos can-
domblés se manifesta na distribuicao do espago
sagrado, A cadeira do oga, especialmente no dia
de consagragao de um novo oga, est4 quase sem-
pre colocada em lugar de destaque, préxima &
cadeira onde senta o pai ou mée-de-santo, o que
indica sua importéncia na hierarquia religiosa €
de onde & efusivamente saudado logo apés sua
consagragao. Roger Bastide, certamente o pri-
meiro a estudar a fungdo sécio-religiosa daJuno Brac,
cadeira do ogi, ficou impressionado com as ca-
deiras que
iu, quase sempre trabalhadas com
requinte nos detalhes esculpidos, verdadeiras
obras de arte. Associou-as aos belos tronos de
reis e soberanos mortos de varias regides da Atri-
ca. “Ora, no Daomé, existem tronos de reis ¢
soberanos mortos, entre os iorubés, trono de
deuses; e por toda a costa, em geral, até Ango.
la, cadeiras que apresentam curioso aspecto.”**
E avanga Bastide na compreensao de uma rela-
40 profunda, eésmica, para usar sua linguagem,
entre a cadeira de oga e o poste central (coluna
central encontrada em barracdes de alguns can.
domblés) que serve de sustentéculo para as
imagens de ligagao entre o céu e a terra, iden
tificadas em diferentes mitologias.
Quando se pereorre 0 mundo dos eandomblés, fica
se admirado com a importancia considerével dada
A cadeira do oga. Se se visita um terreiro no inter
valo das festas, véem-se cadeiras cuidadosamente
recobertas de pano, que as protege da pocira, ©
ue se tira ne momento das ceriménias. Toda vez
que um orixé escolhe um oga, a primeira obriga
poe
A Captixa pe Ock
go deste & comprar — quase sempre manda
fazer por conta prépria, por um marceneiro — uma
cadeira especial, que sers doravante a sede de onde
assistird as festas religiosas da seita, O ogé mes
imo s6 poderé ser consagrado definitivamente quan:
do essa cadeira estiver pronta e colocada no
berracio. Ainda mais, em geral, 0 og8 s6 poder
instalar-se ai quando 0 pai ou 2 mae-de-santo 0
tiverem conduzido & sala, tiverem-no feito dar uma
volta ne meio das aclamagdes dos fiis, tiverem-no
apresentado aos outros ogds ja feitos: eto & que
ele se assentard em sua poltrona, perto do altar,
a0 passo que Ié fora (como isso se realiza por oca.
sido das cerimOnias de confirmagdo de um novo
og na casa de Oxumaré) os fogos de arti
crepitam e as foguetes sober no céu.**
Roger Bastide termina seu cléssico artigo,
afirmando que a cadeira de oga e, da mesma ma-
neira, o paste central do barracdo s6 assumem toda
sua significagéo quando recolocados na estrutura
jejenagé “da qual sao sobrevivéncias certas, pro-
vando a fidelidade da afeigéo do preto a uma tra.
dicdo mitica e mistica que continua assim a viver
até nossos dias, sem que, como nos dois casos que
nos ocupam, tenham sido conservadas as suas
4Jutio Brac
rafzes culturais.”*® Com a presenca das novas es-
truturas de concreto e madeira de lei, vao se extin-
guindo 03 postes centrais, os chamados opds, dos
candomblés jeje-nagés, para surgirem outras arqui-
teturas que retomam, igualmente, na sua dimen-
sao de espaco sagrado, os significados metafisicos
nao anunciados, mas que, certamente, ali estéo
instalados. A cadeira de ogi, se nao esta
declaradamente associada aos tronos reais e de deu-
ses e soberanos mortos, guarda, para o seu ocu-
ante, a metafisica de seu significado na complexa
estrutura dos candomblés que incluem, para além
da projecao do contetido da heranga cultural afri-
cana, outros valores hodiernos que os fazem diné-
micos e atuais, sem desfazer os lagos atdvicos de
sua histéria.
Edison Carneiro, referindo-se aos antigos
barracées (lugares destinados as festas publicas)
de candomblés famosos como o do Gantois, do
Engenho Velho (Casa Branca) ¢ do extinto can-
domblé de Sabina, das Quintas da Barra, entre
A Cavern oF Ook,
outros, descreve com detalhes os equipamentos
encontrados em dias de festas piiblicas, com des-
taque para os assentos, os bancos de madeira para
os assistentes, as cadeiras de brago, as poltronas
¢ sofés para pessoas de destaque dentro do
candomblé.
de assentos se encontram no
Todas as espé
barracéio num dia de festa, desde a cadeira primi-
tiva, incdmoda, de alto espaldar, até 0 sofé de
vime € a poltrona moderna, Haverd também ca-
deiras de desenho antigo, pintadas a tinta cor de
prota, estufadas ou empalhadas: s40 as cadeiras
dos ogas (e das ekédis, no Engenho Velho) hé
pouco confirmados.”
mente
A confirmagao do oga esta est
relacionada com sua cadeira que definird, no es-
paco do barracdo, seu lugar dentro da organiza-
40 sécio-religiosa do candomblé, Mas s6 apés a
ceriménia publica de confirmagao, que inclui, so-
bretudo, 0 antincio de seu nome ritual, geralmen-
te feito pela divindade a qual esté vinculado e
para quem foi confirmado, e a ocupagéo da ca~
deira ritual, é que passa a usufruir plenamente da
6Jute Banca
70
PosicSo de prestigio e ser respeitado por todos
do candomblé.
Ainda na categoria de Oga Suspenso esté 0
Oga Apontado. Como o nome indica, a pessoa é
apontada como possivel candidate a og. Nesse
caso, & quase sempre a mae ou pai-de-santo que
apresenta o candidato a uma das divindades, ro-
gando-he para que aceite aquela pessoa nessa ca
tegoria. Em caso afirmativo, 0 Oga Apontado deve
esperar © momento em que a comunidade decida
pela efetiva iniciagdo.
A deserigao de Edison Carneiro de uma ce-
riménia de suspenso de oga ainda permanece
valida, pois 0 que acontece, nos dias atuais, séo
variagées formais que nao alteram, significat
vamente, 0 essencial do ritual que consiste, em
tiltima instancia, em apresentar ao piiblico a pes-
soa escolhida. Entretanto, sé a partir deste es-
tégio pré-inicidtico & que o candidato suspenso
passard a assumir maiores compromissos com 0
candomblé que 0 escolheu. Muitos permanecem
A Capua De Och,
© tempo todo nesta categoria e terminam por
néo freqiientar, com assiduidade, os locais de
culto, Sao freqiientemente censurados e seus no-
mes so lembrados com certo desdém, pois, do
ponto de vista do candomblé, ndo respeitaram
0s desejos sagrados. Os que continuam freqtien-
tando a comunidade religiosa sao pressionados
a que realizem suas iniciages. Essas pressdes
podem ser feitas de maneira discreta, por meio
de insinuagdes, como a de falar de pessoas que
j4 cumpriram seus deveres formais com a co-
munidade. Lembram de outras que, por ndo rea-
lizarem a iniciagéo no tempo devido, foram
vitimas de algum acontecimento desagradavel,
ou as que, por terem realizado suas obrigacées,
na hora certa, terminaram por alcancar sucesso
pessoal. Entre os que efetivamente nao se ini-
ciaram, esto muitos dos que intermediaram os
conflitos dos candomblés com a sociedade
baiana, em especial durante a época de maior
‘al.
perseguigao polDe qualquer maneira, é a cerimdnia de con-
firmaco que consagrard em definitivo o candida-
to na categoria propriamente dita de confirmado.
Valho-me, uma vez mais, da descrigao de
Edison Carneiro, sobre preparativos e etapas de con-
firmagao de um og, por conter dados essenciais
explicativos dessa ceriménia, vdlidos para enten-
der as da atualidade, Essa ceriménia varia, como
sempre, de casa para casa, em detalhes ope-
raci
nais, pelo menos para os candomblés que tri-
tham a tradigéo jeje-nagé:
© futuro ogs deve, nesse intervalo, submeterse a
tum processo que varia muito de candomblé para can,
domblé, mas inclul vastos sacrificios de animais, ba-
hos de folhas, invocagSes. Depois desses | 7 dias de
retiro, teré de passar algum tempo dormindo obriga-
toriamente no candomblé, embora possa passer o dia
2 tratar dos seus afazeres no exterior. Naturalmente,
desde endo j4 ndo precisa obedecer a certos tabus,
coma, por exemplo, as relagées sexuais, Terminada a
‘sua iniciagéo como og, restathe, entretanto, dar uma.
festa — paga do seu préprio bolso — para o orixs
que © protege. Para isso, deve comprar uma cadeira
nova, de bragos, de onde assistird 3 festa, que real:
A Cantina De Oca
‘mente redunda em homenagem 8 sua pessoa. A mae,
paramentada em grande gala, o toma pelo brago, de-
pois de bejarthe a mio e abrecéo, e com ele pas-
seia pelo barracio, sob 0 ruido ensurdecedor das.
palmas ¢ dos gritos especiais para 0 seu orixd. As
fihas cobrem de flores 0 novo oga e, uma por uma,
the vem pedir a béngéo, depois de a mae o haver dei-
xedo no seu trono, onde o og recebe, sorridente,
todo de branco, a homenagem dos assistentes, Com
jpequenas variantes, especialmente quanto a0 tempo
de reclusfo e aos animais a socrifcar, este € 0 pro-
cesso de confirmagao dos ogas na Bahia,**
Na verdade, € muito diffcil estabelecer um
modelo ideal de ceriménia ritual de confirmacéo
do oga, to numerosas séo as variéveis rituais que
‘ocorrem e existem, nfo s6 dentro de um mesmo
segmento religioso, dentro da mesmanagéo, como
se diz, mas, sobretudo, quando se comparam rituais
em diferentes nagées, para nao falar do poder aqui
sitivo, que, se nao reelabora o ritual, pelo menos 0
faz mais grandioso na contingéncia exterior. De
qualquer maneira, o candidato deve submeter-se a
um grande nimero de rituais propiciatérios ¢
iniciéticos que 0 preparam para a ceriménia final
73Juuio Beaca
74
de confirmago, quando recebe publicamente o
nome inicidtico geralmente anunciado pelo santo
para o qual ele se consagrou. E Vivaldo da Costa
Lima quem esclarece:
A confirmagao do ogé obriga a pessoa distinguida
a uma série de ritos propiciatérios até a festa pi
blice da apresentacéo formal do oga, vestido de
branco, como todo iniciado, pelo santo que o es
colheu, Isto se faz geralmente no dia da obrigagao
desse préprio santo no candomblé. Ou também,
no dia da obrigagéo de sete anos de um filho-de-
santo, quando a ceriménia & sempre muito solene
¢ movimentada.*
Os rituais propiciatérios a que se submete
© og nao diferem em substancia dos que em ge-
ral so administrados a tantos quantos se iniciam
nos candomblés da Bahia, pelo menos nos cha.
mados terreiras jeje-nagés. Em linhas gerais, co-
megam com uma série de banhos purificatérios e
ebés de limpeza de corpo, e outros mais especifi-
0s, tirados por meio da consulta aos bizios em
diferentes sessdes divinatorias. Nessas sesses,
também s4o identificados os orixés protetores do
A Gouna or Oca
0g, caso ainda nao se tenha feito um jogo ante-
rior; nesse iltimo caso, ainda se joga para confir-
mar definitivamente os santos que acompanham
0 ogi e para definir os que serao obrigatoriamen-
te assentados.® A obrigacdo de assentar o santo
do og néo difere em nada da que é feita para
outros que se iniciam no candomblé. O tempo de
reclusio conventual é varidvel, embora a duragao
de sete dias parega ser a mais freqtiente.* No
interior da camarinha (espaco conventual), 0 og
se submete aos preceitos de praxe e observa, como
outro iniciando qualquer, o rigor ritual préprio
da casa em que esta sendo iniciado.
Na grande maioria dos candomblés j
nagés da Bahia, o og ndo ¢ raspado, isto 6, no
se submete aos rituais préprios da feitura de san-
to de uma iad (noviga), ocasido em que, em ce
ménia fechada, a cabeca é raspada e implantados
ali os elementos que a tornam adoxu, portanto,
preparada para receber o santo quando do transe
© possessao pelo orixé para o qual foi consagrada.uo Beaca
76
Contudo, dispomos de informacdes de que exis-
tem alguns candomblés que procedem assim, e os
rituais de confirmagdo obedecem praticamente a
todos os andamentos litdrgicos préprios da it
agdo de um filho-de-santo.®
De toda maneira, qualquer que seja a me-
nor ou maior complexidade do ritual de confirma-
40, 0 que importa para o candomblé é 0 aniincio
piblico da obrigacdo, em geral realizado em fes-
ta de grande gala e muito concorrida. £ neste dia
que o oga é definitivamente apresentado 20 pu-
blico na sua condigdo de confirmado. Vestido sem-
pre de branco, trazendo uma faixa atravessada
em diagonal sobre o peito, na qual esta inscrito 0
nome iniciatico, é apresentado ao piiblico pelo It
der religioso. A divindade para a qual ele se ini-
1u, posto que 0 oga sempre se confirma para
uma divindade especifica, passeia com ele no bar-
racdo e quando solicitada pula e dé o nome para
regozijo geral. Depois dos cdnticos préprios para
a ocasiao, é levado para a ceriménia que consiste
iia
A Capers be Oc
em fazé-lo sentar na cadeira inicidtica. Em geral,
6 lider religioso ou outro por ele escolhido faz um
pequeno discurso, explicando aos circunstantes a
razao da festa, o que é ser ogé e quais suas res-
ponsabilidades maiores dentro do grupo religio-
80, procurando enaltecer as qualidades do novo
membro, conclamando-o para que seja bom filho,
um exemplar pai, enfim, que seja sempre merece-
dor da honraria de ter sido eleito por uma divin-
dade, para ocupar cargo de grande relevo na
estrutura da casa.
Se a comunidade religiosa empenha-se para
que 0 ogi faca sua abrigacao, e isto acorre apés a
‘observacdo de suas qualidades pessoais, religiosas
e econémicas, maior interesse tera o candidato que
ddeseja participar ativamente do mundo religioso afro-
brasileiro. $6 a confirmacao conferird ao oga a pro-
jeco e o reconhecimento dentro e fora do candomblé
e the permitiré 0 exercicio pleno de suas funcdes
precipuas. O texto seguinte, de Vivaldo da Costa
Lima, retrata, com grande pertinéncia, nao s6 osJuuo Baca
78
fun-
simbolos distintivos mas também as princip
ges do ogé uma vez confirmado:
© og8, desde que confirmado, teré vérios simbolos
expressivos de seu status: teré um novo nome, um
nome inicistico, que é gritado no barraco pelo orixd
que o trou, no dia da contirmagéo: terd uma cadeira
especial, muitas vezes com 0 nome do og gravado
ina madeira ou numa placa de metal; receberd as re-
vertncias dos filhos da casa, que, se forem filhos do
‘mesmo santo que escolheu o oga, 0 chamarso de meu
pai’. As obrigag6es aumentam, por sua vez, com a
confirmagio. © og passa a colaborar nas obriga
gies da casa; da festa do ebé do orixd que o suspen
9 € de sua familia. Os
filhos carnais de sua fiha 0 chamardo de avé.°*
dew; do bemestar de sua
Acrescente-se ainda um distintivo bastante
buscado e até mesmo exigido pelo ogé confirma
do: seu reconhecimento piblico no local no qual
esté se realizando alguma ceriménia piiblica. Ao
chegar a porta do barracdo, por exemplo, ele olha
incisivamente em direcdo aos alabés na expecta-
tiva de que se déem conta de sua presenca e do-
brem 0s atabaques, isto é, com um tipo de toque
especifico anunciem sua chegada, 0 que deve ocor
;
A Cantina De Ock
rer, mesmo interrompendo um cdntico qualquer.
E assim, com certa imponéneia, se dirige ao local
dos atabaques tocando-os e levando as maos até
a altura da cabega.
Em sintese, os ogds constituem, na expres-
sio de Edison Carneiro, uma espécie de conse-
Jho consultive informal ao qual poderd recorrer
0 lider religioso quando necessitar de uma ajuda
complementar, tanto do ponto de vista religioso
como do ponto de vista das relagdes sociais en-
volvendo o candomblé com outros segmentos da
sociedade
Segundo Edison Carneiro: “Em qualquer di-
ficuldade, a mae recorre as suas luzes, a sua capa-
cidade de trabalho ou ao seu dinheiro, seja para
auniliar na manutengao da ordem nas festas pibli-
cas, seja para tratar com a policia, seja para finan-
ciar este ou aquele conserto na casa. S40 0
brago-dir
0 da mae, em todas as questées ndo
diretamente ligadas a religiéo."* Discordamos, po-
rém, desta diltima frase, pois o lider religioso tam-
79June Baan
80
bém recorre, e com freqiiéncia, aos ogas da casa
para ajudao em quase todas as ceriménias inter-
nas do candomblé.
Do ponto de vista funcional, existe uma espé-
cie de especializacao desses ogas em razdo das ta
refas que executam na estrutura religiosa do grupo.
© AXOGUN
E 0 caso do ogé Axogun, figura da maior
importancia, por ser responsdvel pela execugso,
da matanga dos animais votivos. © axogun é, a
rigor, um especialista do qual o candomblé ndo
pode prescindir. Além disso, deve ser uma pessoa
de absoluta confianca do lider religioso, de me-
moéria privilegiada para guardar a técnica, bas-
tante complexa, de execugao de suas tarefas sem
erro e de forma continuada, sem que haja inter-
rupgao do andamento do ritual do qual ele é 0
principal responsdvel.®® A necessidade de elevada
especializagao para que o axogun saiba, com efi-
ciéncia, pegar no obé, pegar na faca, sem come-
ter nenhum equivoco, talvez explique o fato de
‘A Cantina vt Oca
que grande parte dos candomblés da Behia nao
tenha um axogun préprio, iniciado na casa, va-
lendo-se do expediente de convidar alguém de
outra casa para aquela finalidade, Nesse caso, 0
convite é quase sempre dirigido a uma pessoa da
mesma tradicao ¢ linhagem religiosa, que certa-
mente utilizaré da mesma técnica ritual no ato
sacrificial dos animais votivos.
© axogun deve ser, preferencialmente, um
filho do orixd Ogun, pelas relagoes miticas dessa
divindade com os metais e instrumentos de cor-
tar — no caso a faca—, com que se realizam
quase todos os sacrificios de animais. Ele & tam-
bém conhecido por Oga de Faca, numa ébvia alu-
80 a0 instrumento com o qual realiza sua tarefa
durante as ceriménias religiosas.** De qualquer
maneira, & evidente as estreitas relacdes do
axogun com a divindade Ogun nos candomblés
da Bahia,
Em muitas casas, essas relagdes sao expos-
tas durante o ato de sacrificar animais, quandoaxogun transfere para Ogun a responsabilidade
da matanga, Ao terminar a cerimdnia, o axogun,
cruzando os pés por cima dos animais sacrifica-
dos, e batendo a faca por cima deles, diz: “Emi
kosi lop, Ogun lop”, entre tantas expressdes
que indicam claramente o respeito e, de certa ma-
neira, 0 temor que tem pelo “dono da faca”.
[Link] ALABE
Também de extrema importancia dentro do
candomblé & 0 Oga Alabé, 0 tocador dos ata-
baques, os instrumentos de percussdo, chamados
de rum, rumpi e I, nos terreiros jeje-nagés. Ele se
submete, também, aos rit
ais de consagragao e tem
a obrigagao principal de conduzir os toques, em
especial durante as festas publicas. O Oga Alabé
deve conhecer praticamente todas as cantigas
litdrgicas e & pega fundamental na organizagso
sécio-religiosa de um terreira. Diz-se, com freqiién-
cia, que o atabaque é a fala dos orixas, o instru-
‘mento principal do seu apelo, o que pode dar uma
medida exata dos compromissos e responsabi
A Capenea oF Ook
des religiosas dos Ogas Alabés que manipulam esse
instrumento de comunicagéio com 0 universo sa-
grado, Quase sempre, ele tem uma segunda e ter-
ceira pessoa, um Otun (auxiliar da direita) e um
Ossi (auxiliar da esquerda) alabé, e todos podem
receber, durante sua confirmagdo, um nome
inicidtico. Esclarece um informante:
$80 em niimero de trés, por serem trés 08 atabaques
utilizados nos candombiés. Sao eles que devem to-
mar conhecimento de todas as obrigagses dos
atabaques, pois hé um dia que os atabaques comem.
Estes ogas também so chamados de Puis pelos iads
{iniciados} que foram puxados no toque dos seus
atabaques
Todos so reverenciados como pai, mesmo
pelos iniciaticamente mais velhos, que the pedem a
béngo publicamente. Os alabés so também cha-
mados de Ogas lu, pois sdo responsdveis pelos
atabaques. Nao sé tocam esses instrumentos como
séo responsaveis pela sua conservagio, mudanca
do couro, afinagao, além de guardé-los apés as
fungées religiosas; séo também responséveis pela
obrigagdo de consagracao de novos atabaques,Jutio Braca.
84
durante a qual se fazem oferendas e sacrificios de
animais votivos Aqueles instrumentos
Cacciatore registra o nome Og’ Calofé e
remete 0 leitor para o verbete Calofé, 0 chefe dos
tocadores de atabaques e conhecedor dos toques
para 0s orixés, orientador dos cnticos sagrados &
de confianga do chefe do terreito:
(Oga Calofé. Em alguns terreiros & 0 greu maximo,
apés 0 chefe. Sabe tratar os otas, conhece at ervas
do amaci
dos e riseados, as comidas de santo, sabe sacrificar
‘0s animais para as divindades.
nas cerimdnias mats importantes. 7
pode colhé-las, conhece os pontos canta:
ige 05 trabalhos
Na Bahia, nao foi possivel identificar a ocor-
réncia da expresséo Ogé Calofé nos terreiros jeje-
nagés para designar o chefe dos alabés. Pelo verbete
citado € possivel que seja uma denominagao sé
usada nos terreiros de umbanda,
E bem verdade que entre os trés alabés, que
formam o grupo responsdvel pelos atabaques, exis-
te lider, geralmente aquele que “puxa” os c&nticos
para os orixés e goza de grande prestfgio no seu
‘A Capea be Oca
meio. $40 pessoas dotadas de excepcional memé
ria, detendo 0 conhecimento de praticamente to-
dos as cantigas utilizadas no terreiro. Muitos se
notabilizaram no mundo dos candomblés da Bahia
¢ ficaram famosos nacionalmente, ¢ os jé falecidos
so lembrados com reveréncia. Mas hé verdadeira
disputa, ao longo do tempo, para assumir a lide-
ranga no grupo de alabés, que se acirra quando de
um impedimento qualquer do lider ou no caso ex-
tremo de sua morte. Os que estéo na linha
sucesséria se fazem mais presentes durante as fes-
tas puiblicas e se desdobram para mostrar compe-
téncia no tirar das cantigas e na observagao da
cadéncia dos toques. As vezes, exageram nessas
observagdes do bom andamento dos toques, cau-
sando, vez por outra, sérias desavengas entre si,
com prejuizo para o desenrolar da festa. Alguns,
de maneira mais espetacular, se colocam de frente
a0s atabaques e déo o compasso de sua maestria &
eficiéncia. De qualquer maneira, € preciso dar pro-
va publica de capacidade e competéncia paraJunto Baca
assumir a lideranga. A escolha quase sempre rec
no mais eficiente, no que melhor tira as cantigas,
© que conhece nos minimos detalhes os meandros
dos rituais, as seqiténeias dos canticos litirgicos,
enfim, 0 que melhor coordena as atividades do gru-
po. A sucesso, entretanto, deve passar pela ob-
servagao da senhoridade, pelo tempo de iniciacéo,
que é elemento decisivo na aceitagao do novo It-
der, Em outros termos, 0 candidato deve alinhar,
além de sua demonstrada competéncia, o fator tem-
po de iniciagéo, sem o qual pode haver algum tipo
de objecao. Tudo se resolve com a discreta mas
incisiva participacao do pai ou mae-de-santo do ter-
reiro, a quem cabe a palavra final
Maria Stella de Azevedo Santos, em Meu tem-
po 6 agora, escreve algumas paginas sobre 0 ogé
no Terreiro do Axé Opé Afonja, que ela ditige na
qualidade de lalorixé, e assim se refere ao proble-
ma da béngao:
© Ogi deve ser chamado de pai pelo filho do dig)
{que 0 apontou e por todos os outros daquela casa,
A Capita of Oca,
independentemente do tempo de iniiagéo. Se ¢ Og6
de
un, as fihas de Osun pedirshe-do as bengaos
dd mais velha & mais nova, e ele é obi
ear e pedir a béngao a elas, ‘trocando as béncéos”,
como se diz. Mas, muitas vezes, por vaidade ou por
ignordncia, isso ndo acontece. Hé um ditado que diz:
“Antiguidade € posto.” Ele € pai espritual da filha,
la € mais velha na religido, sendo o Ogé obrigado
— torno a repetir — a também prestarihe as devi
das homenagens rituals, Estar, agindo assim, esten-
dendo a grandiosidade do Oyé que recebeu. Esse no
ser “Oga de benga”, mas um Oloyé de primeira li-
nha. E por falar em troca de bengios, também é im-
Portante ser dito que o Oga é obrigado a tomar as
béngdos @ todos os Adésir e Oloye Adési.**
Em muitos terreiros de candomblé, na
Bahia, a reciprocidade da béneao também ocor-
Fe entre 0 oga ¢ os filhos-de-santo mais velhos,
0 ebomis, incluindo, nao raro, a propria mae
ou pai-de-santo que freqiientemente se ante
pa na solicita¢do. O autor observou, durante
uma festa de confirmagao de Oga, uma respei
tavel e conhecida ebomi (pessoa velha na seita)
da Bahia pedir a béngdo a um oga que acabava
de ser confirmado e este, apés abencod-la,
87Juuo Barca
pediu-the igualmente a béngao. Enfim, a bén-
40, além das motivagées religiosas que the sio
inerentes, é também um ritual de delicadeza bas-
tante observado no interior dos candomblés da
Bahia. Serve para marcar as relagées de estima
@, neste caso, é solicitada e retribulda com
maior énfase e indisfargavel afeto. A maneira
pouca efusiva de pedir a béncao revela, de pi-
blico, as possiveis desavencas entre as pessoas
envolvidas que, respeitando a hierarquia e a
obrigatoriedade formal da béngio, deixam
transparecer as eventuais tensdes e conflitos
nas relagdes humanas. Caso extremo e raro € 0
de se negar a pedir a béngdo e se furtar a
respondé-la quando as nocdes de mando ¢ hie-
rarquia exigem que assim procedam. Mas tais,
situagées praticamente desaparecem quando se
trata de pessoa manifestada com o santo, O
mundo sagrado, dos orixds, € regido por um
cédigo comportamental que se distancia das fra-
quezas ¢ hostilidades humanas,
;
i
[Link] 0& Oca,
0 OGA DE SALA
Existem também os ogs que realizam tra-
balho de assisténcia aos que visitam o terreiro, So
‘gas como outros quaisquer e, da mesma forma,
importantes na estrutura organizacional dos can-
domblés. $0 comumente denominados Ogas de
Sala, A expressao se refere ao fato de nas festas
pablicas terem a tarefa especial de receber os visi
tantes, cuidar da boa ordem no interior do barra-
cio, enfim, realizar o trabalho de relagdes piblicas,
sob a orientagao do lider religioso.
Na linguagem interna dos terreiros, os outros
membros dos candombiés a ele se referem com certa
dose de desprezo, até mesmo um pouco de maldade,
visando a diminuilo na sua importancia dentro da
estrutura religiosa, Porém, esse tipo de incontinéncia
verbal esta muito presente no discurso do grupo reli-
gioso, em que as relagdes jocosas servem muito para
definir papéis, reforgar as responsabilidades de cada
um, e, de certa maneira, para aproximar cada vez
e das
mais as pessoas sem prejuizo da hierarq
89Juuto Brac,
90
funges de mando.*? De qualquer maneira, os Ogas
de Sala também passaram pelagamela do feitigo, quan-
do se quer dizer que realizaram, como todos 0s ou-
tros, suas obrigagées religiosas. Os que freqiientam
‘com maior a
idade os candomblés da Bahia sa-
bem da importéncia das atividades desenvolvidas pelo
‘Oga de Sala e reconhecem-no como figura indispen-
sével na boa condugdo da comunidade religiosa nos
dias de festas piiblicas.
Nos candomblés, existe uma infinidade de ati-
vidades que so distribuidas entre os que detém pos-
tos ou posigo de destaque na organizagdo e na
estrutura sécio-religiosa, Os ogas sao responsaveis
por um grande nimero de papéis e praticamente rea-
lizam todas as atividades exclusivas dos homens. Exis-
tem muitas tarefas que sio atribuidas a diferentes
gis, criando-se, assim, uma espécie de especializa-
80 dentro desta categoria, Caso tipico ¢ 0 Babi
bd, também chamado de Oga de Rua por se encar-
regar das oferendas que séo feitas fora do terreiro,
nna maioria das vezes sacrificios votives para a
A Canerea DE OA
divindade Exu. Em algumas casas so conhecidos por
Oforeré, o mensageiro, 0 que leva para Exu os ebds
(oferendas) que the so ofertados. Contudo, na maio-
ria dos candomblés baianos, essas tarefas podem ser
realizadas indistintamente por qualquer og, sem que
se tomnem atributivas de um ogi adredemente prepa-
rado para essas atividades. Nesse sentido é que advém
a pertinéncia do informante quando diz que “ogs é
pau pra toda obra”, numa alusdo a sua disponibilida-
de para realizar tarefas religiosas, 3s veres as que
imais exigem competéncia e forte sentido de crenca
no mundo sagrado dos candomblés.
© que fica claro & que algumas fungdes reli
giosas atribuidas a certas categorias de ogas jamais,
poderiam ser realizadas por pessoas que nao dedi-
cassem parte importante do seu tempo 8 comunida-
de, ou que nao tivessem passado por um processo
demorado de aculturagio, capaz de absorver os ele
mentos essenciais da prética religiosa.
£ certo também, sobretudo durante a perse-
guicdo policial, que o candomblé se valew comJiao Braca
92
freqiiéncia do expediente de colocar como negoci-
ador frente as autoridades ogs oriundos de seg-
mentos sociais mais altos e em melhor condicéo de
cbterem resultados positives e benéficos para o
grupo religioso. Atente-se também que esses ogas
negociadores encontravam, vez por outra, aliados
dentro da burocracia policial, onde era considerd-
vel o contingente de negros que nao se escusavam
de prestarthes algum tipo de ajuda na dificil rare-
fa de contemporizar interesses téo distintos ou de
atenuar a ira de um delegado mais recalcitrante.
Ainda hoje, © candomblé, nas suas relagées
com a sociedade mais ampla, especialmente quan-
do est em jogo alguma ajuda oficial das instancias
governamentais, solicita de um oga que realize esse
contato, preservando-se, assim, 0 pai ou maede-
santo do dissabor de eventual resposta negativa,
que de certa maneira comprometeria a nogdo de
prestigio e autoridade
Os ogis so sempre chamados para servir
de negociadores toda vez que existe a possi
|
dade de atritos do candomblé com segmentos da
s
dade baiana. Em fungao disso, desenvolve
ram bem articulada capacidade de negociagio, que
se traduz numa maneira especial de resisténcia
mareada basicamente por uma interlocugio as-
sentada nas relagdes de prestigio e inter:
penetragéo de interesses. Afinal de contas, Id esto
também o og branco, 0 oga rico, a clamar por
respeito, justiga e liberdade religiosa. A condu-
do da negociagao € também fator importante na
produgao de bens simbélicos que operam na cons-
trugdo e na dimensao do prestigio dentro e fora
do terreiro.
Atualmente, alguns ogas se langam candi-
datos a cargos eletivos, principalmente para a
Camara Municipal de Salvador, e, se eleitos ve-
readores, pretendem desenvolver trabalho poli-
tico voltado para a assisténcia e apoio a esas,
comunidades religiosas, dentro de planos mais
ambiciosos de protecao formal a cultura afto-
baiana. A rigor, so os novos tempos exigindo a
A Capea of Oca
98
‘imJuu0 Bras,
34
articulagdo de novas e mais eficazes estratégias de
luta, institucionalizando a prética de defesa dos
interesses maiores da comunidade afro-brasileira.
‘Mas s6 0 comprometimento do ogi com a
cultura negro-baiana ou o seu envolvimento reli-
gioso com 0 culto afro-brasileiro poderia, talvez,
explicar o quanto essa gente se expunha ao defen-
der 0 candomblé, em particular na época de inten-
a persegui¢do a que esteve submetido, na primeira
metade do século,
A conviesio religiosa e a crenga nos orixds
talvez expliquem, em iiltima anélise, 0 denodo e a
maneira aguerrida com que ogas saem A luta, dis-
cutem com autoridades reclamando apoio oficial,
planejam ¢ executam projetos coletivos, muitas
vezes em detrimento de seus interesses pessoais,
Para ndo falar daqueles que desembolsam, anual
mente, vultosas quantias para a realizagao de ritu-
ais ciclicos e preservacao do patriménio religioso.
Essas observagées sobre os papéis ¢ as fun-
Ses do ogé na complexa estrutura dos candom-
A CaDtina DE OCA,
blés jeje-nagds da Bahia parecem desmentir ou pelo
menos reavaliar uma etnografia superficial que, a0
sabor do tempo e das ligeirezas interpretativas —
¢ muitas vezes por absoluta inconsisténcia meto-
dolégica das pesquisas —., findou por masearar ou
dessacralizar suas fungdes religiosas, quase o trans-
formando, para os leigos, em figura decorativa e
de pouca importincia sagrada para evidenciar e
enaltecer, tdo-s6, as fungdes sociais, igualmente
necessérias ao bom andamento ritual, como se tais
fungdes ndo fossem apenas uma decorréncia do seu
envolvimento magico-religioso
GLOSSARIO
Ogi Alabé — O tocador dos atabaques, os instru-
mentos de percusséo.
Oga Apontado — Pessoa, como 0 nome indica,
apontada como possivel candidato a oga. Equive-
le a og suspenso.
95
=
—Junio Brac
96
ai
Ogi de Atabaque — Oga tocador dos tambores
sagrados. O mesmo que alabé. O mesmo que og3-
de-tambor e oga ilu.
Oga Axogum — Oga responsavel pela execugio
da matanga de animais votivos.
Ogi de benga — Termo depreciativo para 0 oga
que nao cumpre com seus deveres
Oga Confirmado — O oga que realizou suas obri-
gages religiosas e sentou definitivamente na sua
Cadeira Ritual.
Oga de Faca — O mesmo que axogun, numa éb-
via alusao ao instrumento com o qual realiza sua
tarefa durante as ceriménias religiosas. Também o
“Dono da Faca”, 0 “Dono do Obé”.
(Oga flu — © mesmo que oga alabé.
Ona de Rua — O ogi que se encarrega das ofe-
rendas que sio feitas fora do terreiro, na maio-
Exu.
Ogé de Sala — O og responsdvel pela disciplina
do barracao.
j
‘A Capers be Oca
Og de Sopro — Termo depreciativo para 0 oga
escolhido de maneira excepcional,
Ogi Suspenso — O oga que ainda néo realizou as,
obrigagées religiosas de confirmacio.
NOTAS
16 — Com 0 titulo A cadeira de oga, 0 autor presta home-
nagem a Roger Bastide, que escreveu o artigo A cadeira de
one 0 poste central, hoje classico da etnografia afro-brast-
bei,
17 — ABRAHAM, R. C. (Dictionary of modern Yoruba,
London: University of London Press, 1958, p. 506) abona a
palavea ago: ones superior (chefe), ¢ CACCIATORE, Gudolle
(ilga (Dicionsrio de cultos afre-bra
rene Universitéria, 1977, pp.196/197) diz que talvez ana
selizagio ocorra por forca da lingua Ewe, produzindo opa
ros. Rio de Janeiro: Fo.
Trata-se, possivelmente, de mais um empréstimo Fon, decor’
Chefe
de la porte, 9 autoridade que guardava a porta de rei, cargo
rente da patavra Hongan = Premier concienge dur
de certa importancia na organizagdo administrative do antigo
Reino de Porto Novo, no antigo Daomé. A transteréncia de
postos administrativos da organizagéo sociopolitica dos iorubss
dos daomeanos para a orgenizacéo e a hierarquiareligiosas
parece ter sida comum na formagao dos candomblés da Beha,
como no caso de Balogum (lorubs) e Akplogon (Fon), entre
‘outros, No caso de Hangan, talvez uma possivel aproximagioJutio Baca
semintica com as fungSes rtuais dos ogas de sala, nos can
domblés da Bahia, que tém 0 dever de zelar pela porta do
barracio, cuidando de quem entra e colocando as pessoas
‘nos devidos lugares, Sobre Hongan, consultar: A. Akindele &
C. Aguessi, Contribution a Métude de histoire de Vancien
royaume de Porto Novo. IFAN-Dakar, 1953, p.152.
18 — Este trabalho foi publicado, em 1995. pela Editora da
Universidade Federal da Bahia, EDUFBa, Trata se da prime
Fa publicasdo resultante de pesquisa intitulada A presenca
ddo negro na Bahia na primeira metade do século XX, realiza-
da no Centro de Estudas Alro-Orientais, sob minha coorde.
hago ¢ com apoio financeiro da Fundacéo Ford. Quero
agradecer 0 apoio que recebi de Fundacée Ford enquanto
exerci a fungéo de diretor do CEAO, de 1991 2 1994
Este texto é dedicado 2 Antonio Luiz. Obs de Xangé, Obé
Tomi Sanya, do Ié Axé ld Nass6 Oké (Terreiro da Casa Brant