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17/09/2021 15:30 Casal de coelhos

Casal de coelhos

Diário do Comércio, 18 de julho de 2013

Ainda a propósito da entrevista do sr. Alberto Carlos Almeida, suspeito que uma
pergunta continua zumbindo nas cabeças dos leitores: se a culpa da má educação
brasileira não foi da Igreja Católica, foi de quem?

Não sei, nem me considero presidente de um Tribunal de Crimes Educacionais,


mas uma coisa é certa: o desprezo pelo conhecimento, neste País, veio sempre
junto com o culto dos signos exteriores que o representam e que, aparentemente
com vantagem, o substituem: títulos, diplomas, cargos, honrarias, espaço na
mídia, boas amizades nos altos círculos, etc. O fenômeno já foi tão  documentado
e satirizado na nossa  literatura (Lima Barreto e Graciliano Ramos, por exemplo),
que não há necessidade de insistir nele.        Mas o pior é que entre esses dois
vícios complementares  se formou, há tempos, um círculo de reforço mútuo que
parece impossível de romper.

Funciona assim: como nossa elite empresarial e política não é das mais cultas, as
almas bem intencionadas que dela emergem com o propósito louvável de
remediar os males nacionais não têm por si próprias a capacidade de avaliar, pelo
exame direto das obras e ideias, quem, entre os intelectuais disponíveis, é
competente ou um emérito medalhão de cabeça oca. Resultado: têm de julgá-los
pelos sinais exteriores, os  títulos e cargos, e acabam dando ouvidos a quem não
tem nada de sério a lhes informar nem de útil a lhes sugerir. A incultura gera
incultura com a fecundidade de um casal de coelhos.

Mais grave ainda é quando o prestígio enganador vem de fora, desembarcando


aqui com as pompas do “ultramoderno”. No governo Vargas, um belo projeto de
educação popular acabou tomando por modelo as ideias de John Dewey, então
celebrado na mídia dos Estados Unidos como um grande inovador. Hoje sabe-se
que Dewey foi, de fato, o destruidor da educação americana, até então a melhor
do mundo. Dos anos 60 em diante – sim, já em pleno governo militar – veio a
moda do socioconstrutivismo, adornado com os nomes de Jean Piaget, Emilia
Ferrero, Vigotsky e não sei mais quantos.

Há meio século a aplicação dessa teoria insensata vem embrutecendo a


inteligência das nossas crianças, ao mesmo tempo que a expansão triunfal do
número de escolas e o controle cada vez mais centralizado da educação nacional
levam a democratização da inépcia aos rincões mais afastados e às populações
mais pobres. Com muita coerência aliás, o sr. Almeida prefere culpar por isso os
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jesuítas do tempo do Brasil-Colônia em vez de enxergar o que está ocorrendo bem


diante do seu nariz.

E por que acontecem essas coisas? Porque a elite inculta se deixa levar pela mídia
e pelos prestígios fosfóricos do dia em lugar de examinar e testar, e assim acaba
somando erros e desastres com uma persistência obscena.

Quem nota esse fenômeno não pode deixar de concluir que o problema do Brasil é
o inverso daquele apontado pelo sr. Almeida: em vez de educar apenas a elite sem
dar atenção ao povo, temos tentado dar educação a todo o povo antes de ter uma
elite qualificada para educá-lo, ou até mesmo  para examinar seriamente o
problema da educação popular.

Quem quer que tenha lecionado ao menos por um dia percebe que o processo
educacional tem uma estrutura irradiante: primeiro você educa dez, que educam
cem, que educam mil, que educam um milhão e assim por diante. Inverter essa
ordem é como querer que os filhos gerem os pais.

Os governos deste país prometem educação a milhões antes de poder reunir dez
educadores sérios para discutir como fazê-lo. Por que não formar os dez primeiro?
Os que objetem que isso é elitismo direitista deveriam  ler Lênin e perguntar por
que ele organizou primeiro a elite do Partido e depois a massa. Lênin sabia que o
rabo não abana o cachorro.

Como quebrar o círculo vicioso de uma elite inculta, guiada por palpiteiros tão
ineptos quanto ela mesma?        Só há um jeito, no meu entender: criar, fora do
sistema educacional, longe da grande mídia, longe dos prestígios consolidados,
uma nova intelectualidade preparadíssima, sincera e agressiva o bastante para, no
momento devido, cortar as cabeças ocas, expulsar as vacas sagradas e começar a
tratar dos problemas com seriedade.

***

Não por coincidência, é por isso mesmo que, em geral, acho inútil ficar “tomando
posição”, a cada momento, ante os descalabros do dia. Pois já não sabemos de
onde, em última análise, provêm todos eles? Não sabemos que, por trás de tudo de
mau que acontece no País, está a ignorância pomposa e irresponsável de uma elite
que só dá ouvidos a medalhões ainda mais ignorantes, pomposos e
irresponsáveis? Para que ficar criticando políticos de alta rotatividade se sabemos
que um só pseudo-intelectual basta para gerar milhares deles e substituí-los por
outros piores a cada dez ou quinze anos?

Para que ficar tentando matar baratas pelo método de jogar uma naftalina na
cabeça de cada uma que aparece? O que é preciso é armar umas quantas centenas
de jovens com um spray intelectual capaz de, amanhã ou depois, sanear o
ambiente.

***

Mudando de assunto: a revista alemã Der Spiegel está chamando os Estados


Unidos de “United Stasi of America”. Stasi era a polícia secreta da Alemanha
Oriental, comunista. Depois de instituir o grampo universal que resultou no maior
vazamento de informações de todos os tempos, o sr. Barack Hussein Obama quer
agora que todos os funcionários públicos se espionem obrigatoriamente uns aos
outros. É uma ideia que já aparece em Maquiavel, no seu projeto da “Terceira
Roma” – a tirania indestrutível.

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