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AMILCAR DE CASTRO Um outro olhar Poucos são os artistas que dominam bem escultura e pintura, duas importantes técnicas

das artes plásticas, fazendo de seus trabalhos nesses diferentes meios não continuação, mas complemento. O artista plástico mineiro Amilcar de Castro surpreende por ter produzido tanto obras bidimensionais quanto tridimensionais com identidades próprias e propriedade única, digna dos grandes artistas. A busca pelo conhecimento foi o que sempre moveu Amilcar. Após ingressar na Faculdade de Direito, passou a frequentar cursos de Filosofia e escolheu o então recém-criado Instituto de Belas Artes para estudar artes plásticas. Tendo como professor o renomado pintor brasileiro Guignard, Amilcar dedicou-se, primeiro, à prática do desenho, base do ensino de seu mestre, que acreditava que a rigorosa observação do mundo objetivo era essencial para que, dominado, pudesse ser impregnado de fantasia na medida certa, mas sem abandonar a precisão. Em 1948, o escultor Franz Weissmann foi convidado por Guignard para assumir a orientação do curso de escultura. Interessado em conhecer mais uma técnica que ampliaria sua capacidade de expressão, Amilcar passou a frequentar as aulas de Weissmann, ao lado de futuros grandes nomes como Mary Vieira e Leda Gontijo. Durante este período, o artista desenvolveu inúmeras experiências com esculturas, até perceber que, ao fazer uma figura, restava muito espaço fora dela, entre os braços e as pernas. “Pensando nisso, comecei a criar formas organizando o espaço externo à figura”, explica Amilcar, que passou a observar com mais atenção os vazios e as contraformas, traços marcantes de suas obras. O artista mineiro faz reflexões sobre a espacialidade e a relação viva e orgânica entre a figura e o espaço. Assim, adentra o mundo do abstrato, trabalhando com vários planos e matérias-primas diversas, tais como madeira, arame, vidro e metal. Suas esculturas, principalmente as de ferro, material abundante em Minas Gerais, parecem dançar com leveza ímpar, apesar das formas geométricas equilibradas. O ferro torna-se leve e, embora estático, sugere movimento – uma característica particular de sua obra. Ao longo de sua carreira artística, Amilcar de Castro buscou diferentes formas de expressão, fazendo um crossover em arte, coisa que poucos conseguem realizar. Enquanto suas esculturas são extremamente racionais, suas pinturas são praticamente uma catarse. A “linha” negra que corre na tela se torna cada vez mais ampla, como se o pincel obedecesse a um movimento do corpo do artista. Forma de liberação e alívio contaminada pela impulsão, deslocando dessa forma o rigor do projeto para a concisão do poético. Para homenagear este gênio da arte brasileira, a Galeria Millan de São Paulo realizou este ano, com caráter museológico, uma exposição em homenagem a Amilcar. Ao todo, foram 30 peças recentemente encontradas no ateliê do artista e disponibilizadas pelo Instituto Amilcar de Castro, Nova Lima (MG), sendo 12 desenhos inéditos, 15 estudos para esculturas (com contas e anotações de trabalho que permitem um vislumbre do processo criativo de Amilcar) e um poema, peças relevantes para compreender a poética do artista. Quatro dessas peças ilustram essa matéria. Ainda da mostra constam duas mesas de trabalho, construídas em madeira pelo próprio artista com a ajuda de ferramentas como pincéis, escovas e vassouras, e duas pinturas em madeira – que são, na verdade, os tampos das mesas em que Amilcar desenhava (a tinta escapava pelas bordas dos papéis, formando traços, padrões e texturas na madeira) e que eram trocados quando encobertos por completo. Resíduos de sua atividade artística, as tábuas converteram-se também em objetos de arte. Durante a exposição, foi lançada uma reedição do livro Amilcar de Castro, da AD2 Editora. Tendo exposto por todo o Brasil e em vários países, tais como França, Estados Unidos, Suíça e Espanha, Amilcar de Castro mostrou ao público e aos críticos de arte uma maestria ao explorar tanto a bi como a tridimensionalidade, usando materiais diversos e formas de expressão distintas. LEGENDA 1 (QUADRO): Com traços que diferem dos desenhos feitos pelo artista, caracterizados

Traços fortes foram a matriz das obras que realizou com chapas de ferro.por linhas duras. LEGENDA 3 (QUADRO): Para quadros como este. Amilcar escrevia poesias desde sua juventude. LEGENDA 2 (ESCULTURA): Escultura com estrutura geométrica bastante influenciada pelas aulas de desenho que Amilcar frequentou no Instituto de Belas Artes. Muitos de seus textos foram publicados no jornal Estado de Minas e em revistas especializadas. o artista utilizava pincéis redondos. vassoura de piaçava. Estas ferramentas determinavam o formato do suporte e proporcionavam as linhas densas que ele buscava em seus trabalhos. trinchas largas. ou em blocos de madeira rigorosamente cortados. o mesmo rigor e a mesma sabedoria encontrados em sua obra plástica. bem próximas dos projetos de suas esculturas. nanquim e tinta acrílica sobre papéis especiais de dimensões maiores. Recorria à escrita para dar forma literária a suas reflexões sobre arte. como a Galeria. criando formas tridimensionais que se desenvolvem a partir do plano. LEGENDA 4 (POEMA): Poema escrito pelo artista. . onde utilizava a mesma concisão. este quadro pertence a um conjunto de obras de Amilcar de Castro pouco conhecidas pelo público e que foram produzidas majoritariamente na década de 80.