A força normativa dos princípios constitucionais

Flávio Ribeiro da Costa

Advogado e Pós-graduando em Direito Público na Universidade Federal de Uberlândia-MG.

Inserido em 15/9/2006

Parte integrante da Edição no 195

Código da publicação: 1543

Resumo: O presente opúsculo tem como finalidade tratar da força normativa dos princípios constitucionais, tema esse que, apesar das intermináveis discussões em torno do direito natural, é reconhecido neste trabalho que os princípios não necessitam estar expressos num determinado diploma jurídico para ter força vinculante, vez que eles podem ser encontrados "de forma latente" no ordenamento jurídico. O objetivo fim é apresentar conforme ensinamento doutrinário que os princípios, ao lado das regras, são normas jurídicas. E mais: os princípios, cuja ambiência natural é a Constituição, são normas jurídicas com um grau máximo de juridicidade, cuja normatividade é, por conseguinte, potencializada. A metodologia constitui na pesquisa doutrinaria e jurisprudencial sobre o tema e a realização de grupos de estudos, no sentido de buscar o melhor entendimento constitucional. O resultado é a afirmação de que o não reconhecimento da força normativa trata-se de uma completa inversão de valores, como se fosse o princípio que girasse em torno da lei, e não o inverso. Logo a falta de concreção normativa dos princípios, expressão da certeza jurídica pode trazer certo grau de insegurança.

Palavras-chaves: Direito Constitucional-principios-força normativa-judicialidade.

Sumário: 1. Acepção do Termo princípio - 2. Normas, princípios e regras - 3. Princípios expressos e não expressos:- 4. Pode um princípio embasar uma pretensão em juízo - 5. Afronta a princípios constitucionais 6. Conclusão – Bibliografia.

1. ACEPÇÃO DO TERMO PRINCÍPIO

Malheiros. pois. exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo. Não é este. Em sentido semelhante. Paulo. "onde designa as verdades primeiras" (Curso de Direito Constitucional. causa.Cretella Júnior. mas a razão de ser da coisa ensina J. já em 1952: . sendo o alicerce. por definição.apud BONAVIDES.. típicas. no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico. principio é o fundamento ou razão para justificar por que é que as coisas são o que são. numa acepção vulgar. os fundamentos da ciência. fundamentais. 230) Dada a fundamental característica normativa dos princípios. começo. do latim pricipium. que dela tira seu fundamento de validade. o sentido que adotamos quando nos referimos aos "princípios constitucionais". Curso. 1998. o termo foi introduzido por Anaximandro com o significado de fundamento. princípios de uma ciência são as proposições básicas. 228). por envolver a idéia de Constituição como norma suprema e condicionante de todo o ordenamento jurídico. o tecido do ordenamento jurídico. embora seja palavra principio um termo equivocado. origem das coisas. “mandamento nuclear de um sistema”. da coordenação e da íntima racionalidade das normas. Não indica a coisa. Tal noção.. significa. aparecendo em sentidos diversos. a Corte Constitucional italiana assim definiu princípios: "são aquelas orientações e aquelas diretivas de caráter geral e fundamental que se possam deduzir da conexão sistemática. é ela indispensável à ciência e a filosofia e. nomeadamente em Direito Constitucional. no âmbito d filosofia. seu significado não difere dos acima mencionados. Na linguagem filosófica. que concorrem para formar assim. num dado momento histórico. ponto de partida. afigura-se acertada a noção desenvolvida por CRISAFULI." . no Direito. São Paulo. início. Mas como. Enfim.p. explica-nos PAULO BONAVIDES. verdadeiro alicerce dele. p. aqui a palavra princípio conota a idéia de "mandamento nuclear de um sistema". deriva da linguagem da geometria.A palavra "Princípio". disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência. 7a ed. porém. logo princípio é. Realmente. que condicionam todas as estruturas subseqüentes.

p. Porém. PRINCÍPIOS E REGRAS Durante muito tempo houve uma dissociação dos conceitos de normas e princípios. tanto que não lhe falta a possibilidade de sancionamento". preferindo incluí-los como parte componente do próprio princípio. apenas dedutíveis do respectivo princípio geral que as contém" (Apud BONAVIDES. Pietro Sanchis e García de Enterria) incluem os valores. os princípios ao exigem um comportamento especifico. isto é.. os princípios comportam avaliações. o que leva. Em sentido contrário. ao contrário. e. ao lado dos princípios e das regras. toda norma jurídica. por transcender aos estreitos limites do objeto desse estudo."Princípio é. sem mais. igualmente. ao contrário. a grandes juristas incorrerem no erro primário de igualar as regras às normas. na atual fase de evolução da Teoria Geral do Direito. tendo em vista a enorme carga valorativa que nele está inserida). que são. Dissertando sobre princípios e regras. NORMAS. estas efetivamente postas. como espécies de norma.p. já as regas embora admitam exceções.p. nada obstante sua força vinculante. que alguns autores (Perez Luño.).. 230. ARNALDO VASCONCELOS: "Os princípios gerais de Direito. 1993. 2 os princípios tem um peso ou importância relativa. 210). mais do que isso: uma norma jurídica iguais às outras. o professor cearense. enquanto considerada como determinante de uma ou de muitas outras subordinadas. cumpre fazer uma melhor distinção entre regras e princípios. 2. estabelecem ou pontos de partida ou metas genéricas. as duas espécies de normas (Deve ser ressaltado. as regras. sustenta que o princípio "não representa mera aspiração ideológica (. não constituem normas jurídicas" (p. o conceito . 3a ed. "(. propõe alguns critérios distintivos: 1. contraditoriamente. deixaremos de tratar dos valores como espécie de normas. não são. Porém. nem menos. sem que a substituição de um por outro de maior peso signifique a exclusão do primeiro. Tercio Sampaio Ferraz Jr.. Curso. Malheiros. Paulo. ao passo que as regras tem uma inponibilidade mais estrita. com efeito. são especificas ou em pautas. o conteúdo: sejam. 210). das quais determinam. sejam. Partindo dessa "pré-compreensão" de princípio como norma jurídica.. portanto resumem.. ainda hoje. quando contraditadas provocam a exclusão do dispositivo colidente. O próximo tópico tratará do assunto. assim. potencialmente. mais à frente..) apesar de terem positividade. 208). pois. 3. que a pressupõem. normas jurídicas no sentido formal do termo" (Teoria da Norma Jurídica. São Paulo. contudo. desenvolvendo e especificando ulteriormente o preceito em direções mais particulares (menos gerais).

em particular. Em segundo lugar. São Paulo. em direito constitucional. 1996. normalmente. os princípios se entendem por normas gerais e fundamentais que inferem leis. Brasília. as normas mais gerais. normas fundamentais ou generalíssimas do sistema. Revista dos Tribunais. e ambos válidos: antes de tudo. Seguindo esta trilha. essa dissociação foi superada: A dogmática moderna avaliza o entendimento de que as normas jurídicas. mas não para os princípios que. tendo como referência a Constituição Republicana de 1891. 1999. As normas-disposição. A meu ver não há dúvida: os princípios gerais são normas como todas as outras. A palavra princípios leva ao engano. também referidas como regras. no meu entendimento. E. Conceito de Princípios Constitucionais. BOBBIO faz um clara análise dos princípios gerais do Direito (Segundo PAULO BONAVIDES. ou simplesmente princípios. princípios são as bases orgânicos do Estado. Ruy Samuel. em geral. E com que finalidade são extraídos em caso de lacuna? Para regular um comportamento não-regulamentado: mas então servem ao mesmo escopo que servem as normas. isto é.de validade cabe bem para as regras. a função de regular um caso. que como naus da civilização devem sobrenadar ás tempestades políticas. através de um procedimento de generalização sucessiva. aquelas generalidades do direito publico. . podem ser enquadradas em duas categorias diversas: as normas-princípios e as normas-disposição. os princípios gerais do direito foram os antecedentes históricos dos princípios constitucionais. e as normas constitucionais. 159). Para sustentar que os princípios gerais são normas. Vale ressaltar que SAMPAIO DÓRIA. p. se são normas aquelas das quais os princípios gerais são extraídos. aos estudos de ROBERT ALEXY e do jus filósofo norte-americano RONALD DWORKIN. 7a ed. Já as normas-princípio. Unb. tanto que é velha questão entre juristas se os princípios gerais são normas. em grande parte. inserindo-os no amplo conceito de normas: "Os princípios gerais são apenas. cujo título era Princípios Constitucionais. já definia os princípios como normas: Assim. mais bem se encaixam no conceito de legitimidade. E por que não deveriam ser normas?"( BOBBIO. Graças. Norbeto. Os princípios constitucionais da União brasileira são aqueles cânones. não se vê por que não devam ser normas também eles: se abstraio da espécie animal obtenho sempre animais. E esta é também a tese sustentada por Crisafulli. p. em trabalho pioneiro escrito em 1926 (!). os argumentos são dois. a função para qual são extraídos e empregados é a mesma cumprida por todas as normas. e ás paixões dos homens. têm eficácia restrita às situações específicas as quais se dirigem. e não flores ou estrelas. maior teor de abstração e uma finalidade mais destacada dentro do sistema. Teoria do Ordenamento Jurídico. sucessor de HERBERT HART na cátedra de Jurisprudence na Universidade de Oxford. por serem submetidos a avaliação de importância. têm. sem os quais não existiria esta União tal qual é nas suas características essenciais" (apud ESPÍNDOLA. 109).

Não pode. c) Caráter de fundamentalidade no sistema de fontes de direito: os princípios são normas de natureza ou com um papel fundamental no ordenamento jurídico devido à sua posição hierárquica no sistema das fontes (ex: princípios constitucionais) ou à sua importância estruturante dentro do sistema jurídico (ex: princípio do Estado de Direito). com a ajuda de doutrinadores. norma é o gênero do qual são espécies as regras e os princípios (e os valores. que se diferenciam lógica e qualitativamente. as regras possuem uma abstração relativamente reduzida. ser utilizado os seguintes critérios por ele sugeridos CANOTILHO: "a) O grau de abstração: os princípios são normas com um grau de abstração relativamente elevado. legal ou mesmo infralegal) para bem entender seu posicionamento no ordenamento jurídico. . podendo. pois. as regras podem ser normas vinculantes com um conteúdo meramente formal. o estudioso do direito equiparar a norma jurídica às regras. por serem vagos e indeterminados. entre regras e princípios. Estas são apenas uma das faces das normas. de modo diverso. ao analisá-las. carecem de mediações concretizadoras (do legislador? do juiz?). que. no âmbito do conceito norma. porém. mas se pode.Dessume-se. enquanto as regras são susceptíveis de aplicação direta. d) ´Proximidade da idéia de direito` : os princípios são ´Standards` juridicamente vinculantes radicados nas exigências de ´justiça` (DWORKIN) ou na ´idéia de direito` (LARENZ). chegarem a uma distinção satisfatória. Para saber como distinguir. por conseguinte. é uma tarefa particularmente complexa. de cunho pós-positivista. deve aferir-lhes a espécie (princípios ou regras) e a hierarquia (norma constitucional. na atual classificação. O jurista. b) Grau de determinabilidade na aplicação do caso concreto: os princípios. E qual seria a diferença entre regras e princípios? A resposta não é simples. para os que aceitam essa tese).

sem descrever uma situação jurídica. não se reportam a um fato específico. Livraria do Advogado. sem qualquer exceção. Porto Alegre. extraindo a conseqüência prevista normativamente. a diferença entre os princípios e as regras são quantitativas e qualitativas. p. dando unidade e harmonia ao sistema normativo. P. b) os princípios. P. expressam um valor ou uma diretriz. Possuem um maior grau de abstração e.e) Natureza normogenética: os princípios são fundamento de regras. antinômicos entre si" (Direitos Fundamentais. a ser levada em conta na apreciação jurídica de uma infinidade de fatos e situações possíveis. porém. proíbem ou permitem algo em termos definitivos (direito definitivo). "todos são iguais perante a lei".. por isso. as regras "possuem a estrutura lógica que tradicionalmente se atribui às normas do Direito. da melhor maneira possível. Eles devem ser entendidos como indicadores de uma opção pelo favorecimento de determinado valor. ex. processo e princípio da proporcionalidade. onde a igualdade surge como a instância valorativa adotada pela Carta Magna. 1999. Já os princípios fundamentais prossegue o jurista -. amparada em uma sanção (ou na ausência dela. Ed. In: Dos Direitos Humanos aos Direitos Fundamentais. que em determinado caso concreto podem se conflitar uns com os outros. no caso da qualificação como "fato permitido"). exigem. nem se reportar a um fato particular. exigindo. 1997. "aquele que detiver a coisa em nome alheio. informando a compreensão das regras. a realização de algo. observadas as possibilidades fáticas e jurídicas (reserva do possível). quando já não são mesmo. por sua vez. preenchidos os pressupostos por ela descrito. são normas que estão na base ou constituem a ratio de regras jurídicas. Ruy Samuel. Conceito de Princípios Constitucionais. Como se observa. in abstracto. irradiam-se por diferentes partes do sistemas. juntamente com outras tantas opções dessas. ex. 65). igualmente dotados de validade positiva e de um modo geral estabelecidos na constituição. deverá nomear à autoria o proprietário ou o possuidor" (art. uma função normogenética fundamentante" (Apud ESPÍNDOLA. sendo-lhe demandada em nome próprio. Revista dos Tribunais. p. portanto. ao que se acrescenta a sua qualificação prescritiva. Em outras palavras: a) as regras descrevem uma situação jurídica. WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. desempenhando. São Paulo. outros princípios igualmente adotados. isto é. 62 do CPC). . que. Na lição de WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. que se possa precisar com facilidade a ocorrência. Coor. 17). com a descrição (ou "tipificação") de um fato. vinculam fatos hipotéticos específicos. ou melhor.

São Paulo. assim. do balanceamento de valores e interesses. dizia: "Há entre princípio e regra jurídica não somente uma disparidade de importância mas uma diferença de natureza. p. pois..). foi o mais insigne predecessor da normatividade dos princípios. Fernando Ferreira dos. p. JEAN BOULANGER. ao hermeneuta extrair da regra o sentido que melhor se coadune com a diretriz dada pelo princípio que fundamenta essa regra mesma). 14. Raimundo Bezerra. Ressalte-se que Alexy é um dos grandes expoentes dessa dogmática principialista que domina os discursos constitucionais da atualidade) das regras. Pode-se dizer. Cabe. 16). Afinal. a inexistência de regras precisas.legalismo .. que é necessariamente um sistema aberto. Por outro lado. É a natureza normogenética dos princípios.) levar-nos-ía a conseqüências também inaceitáveis. A indeterminação. São Paulo. 265).do mundo da vida. um legalismo estrito de regras não permitiria a introdução dos conflitos. pois. O modelo ou sistema baseado exclusivamente em princípios (. a dependência do ´possível` fático e jurídico. a coexistência de princípios conflitantes. mas não haveria qualquer espaço livre para a complementação e desenvolvimento de um sistema. Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana. 1999. de uma sociedade pluralista e aberta. p. Malheiros. só poderiam conduzir a um sistema falho de segurança jurídica e tendencialmente incapaz de reduzir a complexidade . segundo PAULO BONAVIDES. que as regras são "concreções dos princípios" (GRAU. Licitação e Contrato Administrativo. Conseguir-se-ia um ´sistema de segurança`. 1997. fixando. na lição de CANOTILHO: "Um modelo ou sistema constituído exclusivamente por regras conduzir-nos-ia a um sistema jurídico de limitada racionalidade prática. e estes são "mandamentos de otimização" (A expressão é de Alexy. Importante salientar que tanto as regras quanto os princípios são necessários à composição do sistema jurídico. Exigiria uma disciplina legislativa exaustiva e completa . São Paulo.. Malheiros. p. conforme SANTOS. as premissas e os resultados das regras jurídicas. a regra "tem no espírito do intérprete sua usina e complemento de produção" (FALCÃO. Celso Bastos Editor. Corresponderia a uma organização política monodimensional (.Já no século passado. Uma vez mais o vocábulo é a fonte de confusão: a generalidade da regra jurídica não se deve entender da mesma maneira que a generalidade de um princípio" (BONAVIDES. por trás de toda regra há um princípio que a fundamenta (Dessa assertiva. Paulo. vem logo à tona a famosa frase do jurisconsulto WACH de que "a lei é mais sábia que o legislador". Hermenêutica. 239). ou seja. das concordâncias. em termos definitivos. 1995.. que. como o constitucional. Eros Roberto. Idem.

passando de normas generalíssimas abstratas (dos textos normativos-constitucionais) a normas concretas de decisão (contextos jurídicos-decisionais). Ainda hoje. impondo sua aplicação sempre e sempre. na verdade. na maioria dos casos. De regra. uma prescrição. Densificar. Assim. não haveria um "direito" líquido e certo a ser protegido. p. de uma visão distorcida e desatualizada que. elas contêm um mandamento. 1999. seguindo a lição de CANOTILHO. As disposições constitucionais são não apenas normas jurídicas. na antiga noção que distinguia as normas dos princípios. tinham valor suplementar. o certo é que ela enfatiza a força normativa e vinculante dos princípios. porquanto. As normas constitucionais. . é um documento jurídico. por exemplo. quando muito. Revista dos Tribunais. com força jurídica e não apenas moral. Conceito de Princípios Constitucionais. mero ideário não-jurídico. De fato. considerando-as prescrições desprovidas de sanção. Constituição. complementar e precisar o espaço normativo de um preceito constitucional. porém. como espécie do gênero normas jurídicas. apto a garantir-lhe a imperatividade. ou seja. dentre os quais a imperatividade. há juristas que não compreendem a verdadeira força normativa dos princípios. há quem entenda que a violação a um princípio não justifica a concessão de um mandado de segurança. por esse preceito. retira grande parte da eficácia protetiva do mandado de segurança. Logo. estes. significa preencher. Ruy Samuel. é fazer com que ele chegue até a norma de decisão. por sua vez. São Paulo. uma vez posta em vigência. Concretizar o princípio. como qualquer outra norma. meramente indicativo. Trata-se. considerando que a Constituição é um sistema de normas. é um sistema de normas. a sua inobservância há de deflagrar um mecanismo próprio de coação. por possuírem grande traços de indeterminação. como têm um caráter hierarquicamente superior. no caso. de cumprimento forçado. Malgrado possa parecer que essa idéia de sistema jurídico como o somatório de regras e princípios tenha valor meramente doutrinário. 186). é fazer com o princípio "construa" a norma jurídica concreta. não obstante a paradoxal equivocidade que longamente campeou nesta matéria.do próprio sistema" (Apud ESPÍNDOLA. Realmente. uma ordem. vez que. Tratava-se mais de disposição política do que jurídica. conservam os atributos essenciais destas. inclusive pelo estabelecimento das conseqüências de insubmissão ao seu comando. subsidiário. a fim de tornar possível a solução. especialmente carecido de concretização. a violação a direito líquido e certo ocorre por transgressão a princípios. dos problemas concretos.

da CF/88. buscando os contornos capazes de preencher o significado do princípio. Ou seja. na jurisprudência etc. associadas: densifica-se um espaço normativo (= preenche-se uma norma) para tornar possível sua concretização e a conseqüente aplicação a um caso concreto. Seria o caso então de indagar da força normativa dos princípios. e. ninguém duvida que o "princípio da função social da propriedade". se os mesmos tem alguma ou acentuada expressão normativa. sobretudo por se tratar de norma elevada à categoria de cláusula pétrea ou. entre principio e normas jurídicas não resulta na negação dos princípios como espécie normativa: uma vez positivados no texto constitucional. Ademais. XXIII. portanto. podem ser encontrados tanto no próprio texto constitucional. isto é. sendo de se destacar que a recente Lei do Processo . por isso mesmo. bem mais difícil é admitir a juridicidade de princípios tais qual o da proporcionalidade. é de se anotar que várias leis infraconstitucionais fazem a ele referência. que carecem de disposição expressa. É de grande importância ter em mente que a densificação não é tarefa apenas do legislador. uma vez incorporados a Constituição. 5o. a densificação do princípio é qualquer atividade capaz de fornecer subsídios hábeis a melhorar a compreensão do significado da norma. 3. pois. a partir daí. A distinção. Com efeito. pelo que devem ser tidos como normas jurídicas. Quanto ao princípio da proporcionalidade.As tarefas de concretização e de densificação de normas andam pois. inc. a densificação de um princípio é uma tarefa complexa. De fato. passando. Por outro lado. os princípios fundamentais passam a suscitar interesse no tocante a sua tipificação ou enquadramento normativo. ascendem os princípios a categoria normativa . garantia de eternidade. deve ser por todos observado. ou mesmo da unidade da Constituição. quanto na lei. o mesmo não se pode afirmar quando nos referimos aos princípios não expressos. Esses "contornos". em uma segunda fase. que se inicia com a leitura isolada do texto que enuncia o princípio. devem ser tratados como normas capazes de impor obrigações e direitos no mundo fático. como preferem alguns. explícito no art. PRINCÍPIOS EXPRESSOS E NÃO EXPRESSOS: "DESCOBRINDO" OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS Se por um lado parece fácil aceitar a idéia de que os princípios expressos são normas jurídicas e. na doutrina. por uma análise sistemática do texto constitucional.

55). O resgate da imperatividade do texto constitucional. sendo que. os princípios não necessitariam de formulação normativa explícita. No entanto. mas sim elevá-lo à condição de norma. 2o. pensamos que a falta de concreção normativa dos princípios. Assim como quem tem vida física. deve-se ter em conta . expressa e explicitamente. Ruy Samuel. na medida do possível. destarte. que parece estar superada em face do surgimento dessa nova teoria pós-positivista que. pois ele tem sido menos que isto. 1999. .e isto já é pacífico. os princípios jurídicos podem estar expressamente enunciados em normas explícitas ou podem ser descobertos no ordenamento jurídico. a fim de que se prestigiem a segurança jurídica e a harmonia sistemática do direito Neste sentido. normatividade não só aos princípios que são. também os princípios ´gozam de vida própria e valor substantivo pelo mero fato de serem princípios. por óbvio que possa parecer. defluentes de seu sistema. Conceito de Princípios Constitucionais.sugerir. eles continuam possuindo força normativa. ao "valorizar" a norma. No entanto. Crítica interessante acerca da necessidade de se "normatizar" a Constituição em matéria de Direito Constitucional. Apesar disso. inclui expressamente a proporcionalidade entre os informadores do procedimento administrativo.Administrativo Federal (9. expressos. figurem ou não nos Códigos. Revista dos Tribunais. São Paulo. Ou seja. de 29 de janeiro de 1999). apesar das intermináveis discussões em torno do Direito Natural. esteja ou não inscrito no Registro Civil. p. considera que o Direito Natural está "positivado" que os princípios não necessitam estar expressos num determinado diploma jurídico para ter força vinculante. ser positivista não significa reduzir o direito a norma. é fundamental que se diga. o mais prudente é que os princípios sejam. alvitrar. Reconhece-se. mas também aos que.784. em seu art. não é por não ser expresso que o princípio deixará de ser norma jurídica. aconselhar. vez que eles podem ser encontrados "de forma latente" no ordenamento. Com efeito. São elas comandos imperativos. neste último caso. são anunciados pela doutrina e descobertos no ato de aplicar o Direito (ESPÍNDOLA. contemplados no âmago da ordem jurídica. expressão da certeza jurídica. é uma instigante novidade neste País habituado a maltratar suas instituições. JOSÉ DE ALBUQUERQUE ROCHA: "Segundo alguns. pode trazer certo grau de insegurança. Não é próprio das normas e das normas constitucionais .

Conceito de Princípios Constitucionais. Diz respeito às condições da ação. Aliás. podemos agora formular e responder uma questão processual que atormenta deveras os juristas. é a de que a consideração de princípios constitucionais não escritos como elementos integrantes do bloco da constitucionalidade só merece aplauso relativamente a princípios reconduzíveis a uma densificação ou revelação específica de princípios constitucionais positivamente plasmados" . de per si. enumera alguns princípios que. o certo é que não foi fácil .Vale a pena reproduzir o ensinamento de CANOTILHO sobre o assunto: "Mas o que deve entender-se por princípios consignados na constituição? Apenas os princípios constitucionais escritos ou também os princípios constitucionais não escritos? A resposta mais aceitável. Ruy Samuel. fundamentar autonomamente pretensões: "enquanto um direito constitucional pode ser diretamente invocado em tribunal como justificativo de um recurso de direito público. princípio da unidade da Constituição. 1999.como ainda hoje para alguns juristas não o é . 5o). São Paulo. embora não constem no texto constitucional. dentro da perceptiva principialista. Revista dos Tribunais. PODE UM PRINCÍPIO EMBASAR UMA PRETENSÃO EM JUÍZO? Feitas essas considerações. pois decorrem do próprio sistema em que estão inseridos. é interessante notar que a própria Constituição pátria vigente "positiva" este entendimento quando afirma que "os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados" (§2o. do art. 198) LUÍS ROBERTO BARROSO. enquanto normas jurídicas podem fundamentar autonomamente uma pretensão! Embora possa não parecer difícil essa assimilação. por si só. são de comum observância: princípio da supremacia da Constituição. fundamentar uma pretensão em juízo? Em outras palavras: decorrem direitos subjetivos dos princípios ou seria "juridicamente impossível" recorrer ao judiciário fundamentado tão-somente em um princípio constitucional? Nossa resposta a essa pergunta é categórica: é óbvio que os princípios. nos seus primeiros estudos. sobretudo em face de tudo o que foi exposto acerca da normatividade dos princípios. no mesmo texto já citado. já a . princípio da continuidade da ordem jurídica. 4.ESPÍNDOLA. Até CANOTILHO já defendeu. Em suma: são princípios que. embora não expressos no texto constitucional ou em qualquer outro diploma escrito. estão positivados. princípio da interpretação conforme a Constituição. que os princípios não poderiam. mais especificamente à possibilidade jurídica do pedido: pode um princípio.aceitar que os princípios podem gerar direitos subjetivos. p.

Primeiro. de 1977). Seria. Os princípios fundamentais. após seu "encontro teórico" com ALEXY e DWORDIN. fornecendo embora directivas jurídicas para uma correta análise dos problemas constitucionais. o princípio constitucional seria mero ideário político. por conseguinte. CONCLUSÃO Os princípios. Se isso é verdade . porque os princípios constitucionais são normas jurídicas e. passando a reconhecer a força normativa imediata dos princípios constitucionais. a). AFRONTA A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS E O RECURSO EXTRAORDINÁRIO No nosso entender. potencializada. e todos se sentiriam "à vontade" para os contrariar. por que então os nossos Tribunais insistem em não reconhecer a força normativa dos princípios. Nem se diga que.inobservância de um princípio é considerada insusceptível de. quando a Constituição determina que caberá recurso extraordinário quando a decisão recorrida contrariar dispositivo da Constituição (art. por exemplo. segundo.e. por si só. Tudo quanto escrevemos fartamente acerca dos princípios. parece que não há mais tanta discussão quanto havia outrora -. Somente posteriormente. é que o mestre português passou a ter um posicionamento mais principialista. 6. como se fosse o princípio que girasse em torno da lei. a contrariedade seria "reflexa" ou "mediata". os . nesse ponto. E mais: os princípios. no caso. difícil fazer valer uma pretensão em tribunal invocando-se tão somente o princípio da proporcionalidade. em busca de sua normatividade. sempre que a decisão contrariar o princípio estará contrariando a norma constitucional diretamente e na sua pior forma de violação. III. 102. são normas jurídicas. ao lado das regras. que é a contrariedade a princípio. fundamentar autonomamente um recurso contencioso. se resume no seguinte: não há distinção entre princípios e normas. fazendo com o princípio tenha que se rebaixar à lei para ser aplicado. é inegável que. 5. configurado está o pressuposto para o cabimento do recurso extraordinário. não possuem normatividade individualizadora que os torne suscetíveis de aplicação imediata e autônoma" (Esse texto pode ser encontrado na primeira edição de seu Direito Constitucional. violar um princípio constitucional não é violar a própria Constituição. de forma direta? A resposta para todas essas questões é bem simples: os nossos juristas ainda não dão o devido valor à força normativa dos princípios. destituído do força sancionatória. porque a Constituição não exige que a contrariedade seja direta. cuja ambiência natural é a Constituição. por isso. Do contrário. se a decisão recorrida contrariar princípio constitucional. e não o inverso. E o pior: fazem uma completa inversão de valores. são normas jurídicas com um grau máximo de juridicidade. cuja normatividade é.

e as regras e os princípios a espécie. as normas compreendem regras e princípios. .princípios são dotados de normatividade. como nos primórdios da doutrina. sendo as normas o gênero. entre princípios e normas. a distinção relevante não é. mas entre regras e princípios.

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