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Seção : Arte e Livros - 16/04/2011 10:41

Filósofo revela a criação de Tiradentes como símbolo nacional
Sergio Paulo Rouanet analisa as influências intelectuais presentes no ideário dos inconfidentes

João Paulo - EM Cultura

Martírio de Tiradentes, de Aurélio de Figueiredo e Melo, 1893, Museu Histórico do Rio de Janeiro Quem foi Tiradentes? A pergunta parece desnecessária, já que se trata de um dos mais importantes personagens da história brasileira. Mas é exatamente em razão de um consenso construído com elementos ideológicos que a questão se torna sempre necessária, como um processo de sedimentação de conceitos e interpretação renovada dos fatos. Joaquim José da Silva Xavier foi anticolonialista, para os que buscavam a independência; republicano para os fundadores da República; revolucionário para os defensores dos movimentos de origem popular. Em cada um desses momentos, a síntese era construída a posteriori, numa busca incessante de origens e raízes do que se pretendia defender no presente. Ao lado da pesquisa histórica, que foi se renovando com o tempo, com a incorporação de novos elementos concretos e teorias, Tiradentes se tornou um território de mitos, um exemplo de

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a figura do inconfidente. nem sequer os marxistas mais ortodoxos.. que faz questão de dizer que não é historiador. a relação entre os fatos políticoeconômicos e as ideias? O papel das ideias na história social e política é até hoje um terreno controvertido. contradições e humanidade. Pode-se mesmo dizer que na Inconfidência não houve fatos. Ao Tiradentes revolucionário. No século das Luzes.br/html/sessao_7/2011/04/16/ficha_agitos/id_sessao=7&id_.divirta-se. As razões do Iluminismo. Entre seus livros estão O homem e o discurso – Arqueologia de Michel Foucault. Os dez amigos de Freud e Riso e melancolia.” Como disse Afonso Arinos.ideias. O pensador Sergio Paulo Rouanet. A obra de Rouanet é um exemplo de universalidade de interesses e profundidade de análise. Compreender a conjura nos obriga a entender suas ideias. mais que aclarar o passado. No caso da Inconfidência Mineira. elas são superestruturas. do projeto iluminista e sua contemporaneidade à análise da literatura machadiana. em entrevista ao Pensar ele contextualiza a participação do alferes no meio intelectual e político de seu tempo. Mas poucos sustentariam hoje de forma incondicional a primeira posição. é difícil negar a influência das ideias. que há muito conhecem a frase de Marx de que “as ideias se transformam em força material quando se apoderam das massas”. no caso da Inconfidência Mineira. O defensor José de Oliveira Fagundes acertou quando disse que “tudo não passava de um criminoso excesso de loquacidade e entretenimento de quiméricas ideias.com. sempre preocupada em trazer a reflexão filosófica para a compreensão dos dilemas contemporâneos. Um dos mais destacados estudiosos do Iluminismo. dependendo da posição teórica e política do pesquisador. A razão nômade. em todo caso. 21/10/2011 . Minas assistiu a muitas inconfidências. da psicanálise freudiana ao marxismo melancólico de Walter Benjamin. um patrono de causas. Teoria crítica e psicanálise. foi sendo revestida de sentido. o único a morrer pela causa. Como se deu. Para uns. sua substância viva. talvez seja importante incorporar o cenário dos propósitos ainda irrealizado das Luzes que o alimentaram de sonho e razão. conversas. dessa forma. atualizar algumas questões que apontam para o projeto ainda em construção de uma nacionalidade que honre propósitos iluministas e de defesa da modernidade. como um “herói ensandecido de liberdade”. comprometer o futuro. mas somente intenções. De mártir a quase santo. aborda a questão Tiradentes pelo campo do pensamento. http://www. Nesse trajeto.. Édipo e o anjo – Itinerários freudianos em Walter Benjamin. e ideias.uai. enquanto para outros elas desempenham uma função autônoma e determinante. buscando. os fatos eram a matéria morta da Inconfidência e as ideias. Mal-estar na modernidade. meros epifenômenos de práticas e interesses materiais. Razão cativa – As Ilusões da consciência: de Platão a Freud. como retrataram suas muitas imagens deixadas pela literatura e pelas artes. seu diálogo vai da filosofia antiga de Platão ao pensamento contemporâneo de Habermas. Recolocar a pergunta sobre Tiradentes é.

Minha impressão é que muitos conjurados conseguiram desfazer-se a tempo dos livros mais comprometedores. o que surpreende num autor com interesses intelectuais tão extensos como Claudio. esses ideais ganhavam feição local e. Vila Rica. integrada por representantes das classes baixas”.Quais eram essas ideias? Incontestavelmente as do Iluminismo franco-americano. como fizeram os “subversivos” de 1964.com. mas é também um personagem simbólico. a baiana. sobre quem ficamos sabendo apenas que ele possuía 83 livros. e não a igualdade. precisam ser interpretados com cuidado. que deixaria intactas as relações sociais internas. a mais perigosa dessas obras diabólicas. logo depois do golpe militar. visando a uma simples ruptura política com a metrópole. incluía também Montesquieu.uai.. Alvarenga Peixoto. anticlericalismo. Há ainda. que se evade do seu tempo e passa a funcionar em nosso presente”. que traduziu Adam Smith e escreveu um poema épico. Muitas vezes os autos da devassa limitavam-se a dizer que havia livros entre os bens sequestrados. muitas vezes. José de Rezende Costa e sobretudo do cônego Luis Vieira. O diabo na livraria do cônego. Presentes em obras encontradas nos bens sequestrados dos conjurados. como a outra inconfidência. o mais culto dos inconfidentes. A dar crédito à relação de livros de Claudio Manuel da Costa. As bibliotecas de Claudio Manoel da Costa. 21/10/2011 . firmemente apoiado em seu espaço-tempo concreto. “Talvez seja por isso que o foco da Inconfidência mineira tenha sido o anticonialismo. Por http://www. pelo exame das bibliotecas dos inconfidentes. para evitar distorções. sem especificar títulos e autores? Sim. Os autos da devassa contêm em muitos casos uma lista dos livros sequestrados. singularidades que distinguem os diferentes projetos políticos. o filósofo afirma: “O alferes é um personagem histórico.divirta-se. nos movimentos que marcaram o período.br/html/sessao_7/2011/04/16/ficha_agitos/id_sessao=7&id_. estudada no livro pioneiro de Eduardo Frieiro. avaliando com olhos de hoje uma realidade em que os conceitos tinham outro peso e definição. analisa Sergio Paulo Rouanet. estavam cheias de autores iluministas. antimilitarismo e antiescravismo são algumas das influências do pensamento iluminista que marcavam a visão de mundo dos inconfidentes. Como se pode detectar a presença dessas ideias? Em parte. é o caso dos livros de Gonzaga. Sobre Tiradentes. A biblioteca de Luís Vieira. Marmontel.. ele quase só possuía obras de direito e dicionários. Entrevista/Sergio Paulo Rouanet Anticolonialismo. Quase todas continham obras de Voltaire. Mably e até dois tomos da Encyclopédie. e nestes é esmagadora a presença dos autores “subversivos”.

em que o Fanfarrão Minésio é investido de todos os atributos do déspota. Seu http://www. a baiana. transplantadas da Europa para uma realidade inteiramente diferente. e sim usado conforme as conveniências da elite de proprietários que participou da Inconfidência. Não está ausente. Mas a censura férrea instalada no Brasil não impedia os autores da época de exprimirem opiniões heterodoxas? Sim. o antimilitarismo das Luzes ecoa em Gonzaga. comerciantes. somente por ser “filho de marquês”.divirta-se. É a essência das Cartas chilenas. tanto no poema saudando a aclamação de D. e não a igualdade. Entre eles estão os depoimentos dos próprios Inconfidentes. como na própria poesia lírica. “ideias fora do lugar”. portanto. tem uma dimensão de crítica dirigida à aristocracia (parasitária) e outra destinada ao povo (incapaz de ascensão por seus méritos). temos que examinar outros textos. Foi em função desses interesses que Silvério dos Reis delatou seus companheiros. magistrados./ Um salteador valente”. Talvez seja por isso que o foco da Inconfidência mineira tenha sido o anticonialismo. e deplora o hábito de confiar altas funções a um incapaz. tal como figuram nos autos da devassa. a antiaristocrática e a antipopular? Sem nenhuma dúvida. Outro tema típico do Iluminismo europeu foi a condenação da tirania. O tema do antiescravismo. Histoire philosophique des deux Indes. que deixaria intactas as relações sociais internas.com. tampouco. por exemplo. foi tratado pelos inconfidentes num sentido em geral favorável à abolição. Maria I. teria o discurso inconfidente também essas duas vertentes.br/html/sessao_7/2011/04/16/ficha_agitos/id_sessao=7&id_.isso. que condena o colonialismo europeu e prega uma verdadeira guerra de libertação dos países subjugados. integrada por representantes das classes baixas. no sentido de Roberto Schwarz? Não. O tema iluminista que mais aflora nesses depoimentos é o anticolonialismo. o autor condena “a estéril. metáfora central do Iluminismo.uai. O tema do anticolonialismo está no Canto genetlíaco. eram todos proprietários./ Já produz frutos do melhor da Europa”. Por um lado. Se é verdade que a base ideológica da Inconfidência é o Iluminismo. Não seriam as ideias iluministas. Assim. o anticlericalismo. O Iluminismo europeu. que esta terra ensopa. embora nem sempre por razões humanitárias. enquanto projeto de hegemonia burguesa. embora sob a forma moderada de uma crítica a padres grotescos. a que subam/ Aos distintos empregos as pessoas / Que vêm de humildes troncos”. o macedônio fora somente “um ditoso pirata. porque o estoque temático do Iluminismo não foi simplesmente importado. mas dito isto os inconfidentes tinham algo de muito importante em comum: salvo engano. aparece na lírica de Cláudio e de Gonzaga. a dimensão popular não teve especial importância na Inconfidência. de Alvarenga Peixoto: “O vosso sangue. Tanto quanto sei. religiosos e militares? Existia alguma dimensão popular no movimento? É preciso ter em mente essa variedade para evitar generalizações apressadas. que estimulam o fanatismo dos simples para submetê-los à dominação dos tiranos. Conheciam também uma antologia em francês das várias constituições americanas. que na Europa mobilizou a tal ponto o Padre Raynal que ele foi levado a pregar uma insurreição armada dos escravos. Quase todos conheciam o livro do Padre Raynal. Além disso. acha desaconselhável “franquearem-se as portas. mas havia textos clandestinos como As cartas chilenas.. Como entender a variedade intelectual e humana do grupo dos inconfidentes. Mesmo Tiradentes fala em “homens de possibilidades”. Assim. não é difícil “decifrar” todo um discurso iluminista latente em obras aparentemente anódinas. corruptos ou tartufos. mortal genealogia”. Enfim. Quando Claudio Manuel da Costa fala nos “interesses da capitania” estava pensando nos interesses dos proprietários. que abrigava poetas. se quisermos rastrear a presença das ideias iluministas em Minas. como a outra inconfidência. Mas por outro lado. 21/10/2011 . o grande simbolismo solar da luz varrendo a noite do obscurantismo. Tiradentes andava com o livro a tiracolo e pedia a todos que o traduzissem. Mas é por razões humanitárias que as Cartas chilenas defendem a formação dos quilombos – ela seria uma forma de resistência a “senhores desumanos”. visando a uma simples ruptura política com a metrópole. As duas aparecem com toda clareza nas Cartas chilenas. Todos os conjurados tinham interesses pecuniários. no século 18. Outro método é pesquisar as obras dos inconfidentes.. ele adverte Marília contra as falsas glórias de Alexandre: no fundo.

mas é também um personagem simbólico. segundo o qual Tiradentes teria sido o precursor da independência do Brasil. Você termina suas perguntas com uma belíssima frase: qual é o Tiradentes necessário no século 21? No que me diz respeito. A figura de Tiradentes. mas não implantar uma democracia no estilo de Rousseau. pelo contrário. O que há de histórico e ideologicamente recriado no personagem de Tiradentes? Único inconfidente de origem popular. Em suma. Acompanhe também o Divirta-se pelo Twitter http://www.. possuindo jazidas. Tiradentes não era visto como a figura central da Inconfidência – afinal. intelectual e econômica para todos os homens e mulheres do mundo. e de uma inconfidência que através de Tiradentes tinha uma articulação com o povo. Depois veio o mito republicano. que a conspiração de que ele era a figura emblemática tinha um horizonte regional. Durante o Império. Consequentemente. mártir ou personagem? Cada corrente intelectual e cada época constroem um Tiradentes à sua imagem e semelhança. e não dos nativos. participando de uma conjuração de proprietários. Com a República. com seu camisolão e sua longa barba (que ninguém usava no século 18) uma espécie de Cristo da República. Veio o mito nacionalista. dizia-nos. sem qualquer contestação da instituição militar em si. espero que seja um Tiradentes iluminista. Tiradentes teria dado uma dimensão não elitista à conspiração. há quase 200 anos. e outra a situação de classe. mas não tinham nenhum entusiasmo pela ideia da insurreição dos escravos. na Câmara dos Deputados. só acolheram do estoque temático do Iluminismo os tópicos que fossem congruentes com sua prática.. o único a pagar com a própria vida o crime de acreditar na liberdade. poderemos fazer deste país uma grande nação”. Estavam mais interessados na defesa da propriedade individual que nas utopias coletivistas de um Mably ou Morelly. Surgiram então mitos sucessivos. Para muitos autores seria uma noção falsa.uai.br/html/sessao_7/2011/04/16/ficha_agitos/id_sessao=7&id_. segundo o qual em sua qualidade de único inconfidente de origem popular. Mas se trata também de um personagem histórico… Qual é o Tiradentes necessário para o século 21? O alferes é um personagem histórico. Quando os inconfidentes foram presos. a ideia de um Tiradentes popular.anticolonialismo visava à libertação dos descendentes de portugueses. Talvez tenhamos sempre a necessidade do mito.divirta-se. firmemente apoiado em seu espaço-tempo concreto. cavalgando por Minas e pelo Brasil com sua mensagem de autonomia política. de mitos de origem que mostrem aos homens as glórias do passado. é preciso observar que uma coisa é a origem. Segundo se sabe hoje. deve ser vista com suspeita. que poderíamos chamar de populista. fazendas. exaltando os feitos heroicos dos antepassados. logo depois de sua vitória no Colégio Eleitoral: “Se todos quisermos. presta-se como nenhum outro a esse investimento pelo mito. Tiradentes não podia mais ser considerado um representante das classes populares. e não ficaria bem cultuar como herói um homem executado por ordem da bisavó do soberano reinante. rebanhos. que se evade do seu tempo e passa a funcionar em nosso presente. quando Tancredo Neves fez seu discurso à nação. Seu antimilitarismo se limitava à pregação de um pacifismo discreto. como preconizada pelo padre Raynal. Tiradentes. aquele herói enlouquecido de esperança. sesmarias e escravos. E não falta um terceiro mito. sem chegar ao anticristianismo radical da Inglaterra e da França. Isso não quer dizer que a dimensão mítica possa ser rejeitada de todo. porque o peso dos interesses locais faz crer. Sua campanha antirreligiosa seguiu o paradigma moderado do Iluminismo alemão e ibérico. ele não era formado em Coimbra.com. Tiradentes não somente foi reabilitado. e não nacional. Quanto a isso. Ele podia portanto ser posto na mesma categoria que os outros inconfidentes: também ele era um proprietário. 21/10/2011 . foi herói. Esse Tiradentes supra-histórico mas atuante historicamente estava presente em 15 de janeiro de 1985. como passou a ocupar o lugar principal na história da Inconfidência. que se confunde com a própria visão da historia como produtora de relatos fabulosos. e nesse sentido as ideias que circulavam na capitania nada tinham de deslocadas. ele era um homem abastado. que fez de Tiradentes . Muitos queriam abolir a escravidão. Queriam abolir o despotismo.