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Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

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Ficha Técnica

Título

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

Autores

José Zaluar Nunes Basílio (coordenação científica) Simão Cardoso Leitão (coordenação técnica) Gustavo Pereira Joaquim Ramos Helena Neves (conclusão)

Entidade supervisora

Cidater, Cooperativa de Ensino e Cultura, Crl.

Outras colaborações

Maria Belém Leitão Maria Fátima Tremoço Marta Rodrigues Mónica Santos Maria do Céu Franco Myriam Zaluar Basílio

Propriedade

Projecto Alkantara Associação de Luta Contra a Exclusão Social

Patrocínios

União Europeia (Programa Urban) e Câmara Municipal de Lisboa

Data

Novembro de 2008

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

1

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

4

CAPÍTULO 1 - VALE DE ALCÂNTARA UM DIAGNÓSTICO

7

1. Pobreza, marginalidade e exclusão social

7

2. Nota metodológica

15

CAPÍTULO 2 TERRITÓRIO E DEMOGRAFIA

17

1. Localização e acessibilidades

17

2. Evolução demográfica 2002/2008

18

3. Estrutura demográfica actual e tipos de família

22

CAPÍTULO 3 ESCOLARIDADE, FORMAÇÃO PROFISSIONAL E EMPREGO

26

1. Qualificação escolar e profissional da população

26

2. Perspectivas sobre a economia nacional e o mercado de emprego

30

CAPÍTULO 4 SAÚDE NO VALE DE ALCÂNTARA

35

1. Recursos disponíveis

35

2. Estado de saúde da população

38

CAPÍTULO 5 O VALE DE ALCÂNTARA VISTO POR DENTRO

41

1.

O Vale de Alcântara visto por dentro aspectos positivos e negativos dos bairros

41

CAPÍTULO

6

POLÍTICAS

E

PRÁTICAS

DE

INTERVENÇÃO

NO

VALE

DE

ALCÂNTARA

46

1. Vale de Alcântara, uma zona privilegiada de intervenção?

46

2. Problemas e necessidades do Vale de Alcântara a visão das instituições

53

3. Políticas e práticas de intervenção no Vale de Alcântara o estado da arte

57

CONCLUSÃO

61

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2

ANEXOS Inquérito à População dos Bairros Ceuta-Sul, Loureiro e Cabrinha Entrevista às Associações Locais

Índice de quadros

73

Quadro 1: Sistemas sociais básicos

10

Quadro 2: Tipos de exclusão

11

Quadro 3: Modos de vida (marginais)

13

Quadro 4: Datas de construção e ocupação dos bairros do Núcleo Central do Vale de Alcântara

 

17

Quadro 5: Tipos de resposta local disponíveis

48

Quadro 6: Forças, oportunidades, fraquezas e ameaças no Vale de Alcântara (2008)

69

Índice de gráficos

Gráfico 1: Estimativa da evolução demográfica do Vale de Alcântara (2002-2008), por género

19

Gráfico 2: Estimativa da evolução demográfica do Vale de Alcântara (2002-2008), por escalão

19

Gráfico 3: Estimativa da evolução demográfica do Vale de Alcântara (2002-2008), por bairro de

20

etário (%)

(N)

residência (%)

Gráfico 4: Distribuição da população residente no Vale de Alcântara (2002/2008), por bairro de

residência (%)

21

Gráfico 5: Distribuição da população residente por grandes grupos etários (%)

22

Gráfico 6: Distribuição da população residente por género e bairro de residência (%)

23

Gráfico 7: Distribuição da população residente por grandes grupos etários e bairro de residência

(%)

24

Gráfico 8: Distribuição da população residente por grandes grupos etários 2006/2008 (%)

24

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3

Gráfico 9: Distribuição da população residente por nível de escolaridade (%)

26

Gráfico 10: População activa e inactiva do Vale de Alcântara (%)

27

Gráfico 11: População empregada do Vale de Alcântara por profissão (Grandes Grupos CNP) (%)

28

Gráfico 12: Distribuição da população desempregada por ciclo de ensino completo (%)

30

Gráfico 13: Distribuição da população residente por conhecimento e utilização de serviços de saúde (2006) (%)

36

Gráfico 14: Distribuição dos agregados domésticos por tipo de doença presente (2006) (%)

38

Gráfico 15: Distribuição da população residente pelo gosto pelo bairro, por bairro de residência

(%)

41

Gráfico 16: Principais aspectos positivos do Vale de Alcântara, por bairro de residência (%)

42

Gráfico 17: Principais problemas do Vale de Alcântara, por bairro de residência (%)

43

Gráfico 18: Principais medidas para atenuar os problemas existentes (%)

44

Gráfico 19: Principais serviços que fazem falta no Vale de Alcântara (%)

44

Gráfico 20: Principais lojas e serviços que fazem falta no Vale de Alcântara (%)

45

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INTRODUÇÃO

Desde meados do século XVIII, acompanhando as grandes transformações sociais ocorridas por via da revolução francesa e da revolução industrial, que o estudo da realidade social tem constituído uma crescente preocupação dos poderes políticos, seja como forma de gerar conhecimento passível de permitir um maior controlo das populações, ou como forma de contribuir para a resolução de problemas sociais emergentes.

É a partir do momento em que as sociedades passam a ter consciência da possibilidade de interferir

na realidade social, ao mesmo tempo que é reconhecida a dureza que caracterizava as circunstâncias

de vida de algumas populações, que a ideia de diagnóstico social do estudo das condições de vida dos indivíduos passa a ser tida em conta.

Mas se nos primeiros tempos a elaboração de diagnósticos se encontrava frequentemente dissociada

da ideia de intervir ou da auscultação das populações relativamente aos seus problemas, hoje em dia

a sua realização tende cada vez mais a ser entendida como parte integrante dos processos de intervenção social.

Como refere Inês Pacheco, por intervenção social deve entender-se um “processo metodológico de actuação sobre a realidade social que tem como finalidade desenvolver, transformar ou melhorar situações colectivas ou individuais de pessoas que vivem determinados problemas, para facilitar a sua inclusão social e/ou participação activa no sistema social, a nível individual, económico- laboral, cultural e político” (Pacheco, 1999: 4.4).

Ora, ao contrário de tempos passados, actualmente qualquer processo de intervenção sobre a realidade social exige o desenvolvimento de um processo de diagnóstico, no sentido de melhor se promover o conhecimento objectivo da realidade e dos problemas sobre os quais se pretende intervir e que se quer, em última análise, transformar.

Seja concebida como uma tarefa inicial a desenvolver no princípio da intervenção (naquilo que se poderia definir como um modelo linear de diagnóstico) ou como um processo que acompanha a

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execução da intervenção até ao fim, alimentado e alimentando-se no âmbito das transformações a operar (modelo dinâmico de diagnóstico), a realização de diagnósticos (sociais) passou a constituir um elemento fundamental de qualquer processo interventivo, assumindo a forma de uma espécie de «mecanismo de investigação aplicada» um instrumento de análise e síntese de determinada realidade social em que se pretende intervir, num determinado contexto social, espacial e temporal e no âmbito de uma ou várias situações problemáticas (Pacheco, 1999: 4.6-4.7).

No presente caso, o Diagnóstico Sóciodemográfico e Económico do Vale de Alcântara - 2008 surge no contexto do trabalho que o Projecto Alkantara Associação de Luta Contra a Exclusão Social tem vindo a desenvolver desde 1999 junto da população residente naquela zona geográfica, a vários níveis 1 . Não se trata portanto de um trabalho especificamente aplicado a qualquer intervenção em vias de ser desencadeada junto daquela comunidade, ou mesmo de um levantamento de uma zona ainda inexplorada 2 , mas sim de um trabalho de continuidade e de avaliação do estado do território num contexto particularmente propício ao reajustamento das estratégias e intenções de intervenção operantes na zona o Núcleo Central do Vale de Alcântara, constituído pelos bairros Quinta do Cabrinha, Ceuta-Sul e Ceuta-Norte 3 .

Dada a natureza fortemente inestática das sociedades, assim como a evolução constante das ciências sociais, um diagnóstico social nunca é uma entidade acabada e totalmente definida, devendo antes a realidade ser entendida como uma construção social que se vai elaborando por aproximações sucessivas” (Pacheco, 1999: 4.10). O presente momento temporal consequentemente em que se conjuga a data de término efectivo do Programa de Iniciativa Comunitária (PIC) URBAN (fim de 2008) e de arranque do terceiro ano do Quadro de Referência Estratégia Nacional (QREN) 2007- 2013 afigura-se como uma altura particularmente propícia a um exercício do género.

1 Ocupação de tempos livres para idosos, apoio domiciliário, RVCC e alfabetização de adultos, mediação para o emprego, tai-chi-chuan, expressão musical, apoio domiciliário, apoio psicológico e social, saúde preventiva, fisioterapia, actividades comunitárias, apoio a reclusos e ex-reclusos.

2 O Vale de Alcântara e, em particular, os bairros que constituem o seu Núcleo Central e que aqui são tomados como objecto de análise, têm sido alvo, desde a sua criação, de várias intervenções de carácter social, a vários níveis, tendo já sido realizados alguns trabalhos sobre as condições de vida dos seus habitantes. A este respeito ver, por exemplo:

Projecto Alkantara, 2001 e, mais recentemente, Leitão et al, 2008.

3 Ou bairro da Quinta do Loureiro, ou ainda bairro do Loureiro, como também é frequentemente designado o bairro Ceuta-Norte.

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O grande objectivo do presente diagnóstico é, neste sentido, contribuir para a actualização da

informação disponível sobre aquela zona prioritária de intervenção, procedendo à identificação do

estado dos seus principais problemas e necessidades, assim como dos recursos e oportunidades disponíveis para potenciar a sua resolução e ultrapassagem, fornecendo-se assim a todas as instituições que intervêm ou venham a intervir no Vale de Alcântara um instrumento essencial para o desenvolvimento da sua acção de uma forma coerente com a realidade da comunidade.

Neste enquadramento, o presente documento apresenta uma análise detalhada e multidimensional

da zona-alvo circunscrita e das dinâmicas externas pertinentes, focando a sua atenção nas questões

demográficas e de empregabilidade da comunidade local, sem deixar de prestar atenção a outros aspectos fundamentais da integração dos indivíduos e das famílias, como a saúde, o sistema de respostas sociais actuante na comunidade, ou a própria forma como os sujeitos percepcionam os

constrangimentos com que se defrontam.

O texto encontra-se estruturado em seis capítulos distintos. No primeiro capítulo faz-se a revisão

dos principais conceitos em jogo no campo da análise social sobre exclusão social e apresenta-se a

metodologia de investigação seguida; no segundo capítulo procede-se à análise da população do ponto-de-vista da sua localização espacial e evolução demográfica; no terceiro capítulo discutem-se

as questões da escolaridade, formação e empregabilidade; no quarto capítulo aborda-se a temática

da saúde; no quinto capítulo apresenta-se a perspectiva da população sobre o seu contexto residencial; e, finalmente, no sexto capítulo dá-se conta do estado da rede de respostas sociais que abrange a zona em análise. Já depois do sexto capítulo, em jeito conclusivo, apresenta-se ainda uma nota final, onde se procede-se ao balanço da investigação realizada e se dá conta, de forma sistematizada, os seus principais resultados.

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Capítulo 1

VALE DE ALCÂNTARA UM DIAGNÓSTICO

1. Pobreza, marginalidade e exclusão social

Como se encontra inerente a qualquer processo de diagnóstico da realidade social, previamente ao início do processo de recolha de informação propriamente dito, a investigação procurou, em primeiro lugar, discutir os termos de referência sobre os quais esse processo devia assentar, discussão essa mormente situada em torno dos conceitos de pobreza, marginalidade e exclusão social que importa aqui apresentar sucintamente como forma de tornar inteligíveis, tanto os passos seguidos durante o desenvolvimento subsequente da pesquisa, como os próprios resultados que dela surgiram e que aparecem explicitados nos capítulos seguintes do presente documento.

Se a população residente nos bairros Quinta do Cabrinha, Ceuta-Sul e Ceuta-Norte é frequentemente descrita como uma população excluída, a vários níveis, «habituada» a recorrer a actividades ilícitas para financiar o seu modo de vida, e se o objectivo assumido do presente trabalho é em certo sentido proceder à identificação, de forma objectiva e cientificamente orientada, da medida e configuração da exclusão (ou exclusões) de que tal população é objecto, então para onde olhar que dimensões da vida comunitária observar, que indicadores recolher para apreender tal realidade?

A verdade é que tanto ao nível do senso comum, como ao nível da discussão política, a mobilização dos termos pobreza e exclusão social não tem sido feita sem ambiguidade aliás, como a do termo marginalidade sendo tais conceitos frequentemente utilizados para descrever realidades muito variadas, as quais muitas vezes não configuram as situações inicialmente contempladas na acepção técnica dos mesmos.

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Não querendo entrar aqui em pormenor acerca das origens desse debate, é importante esclarecer que, de facto, se tratam de duas formas de abordar o estudo da situação dos indivíduos na sociedade, formas essas cujo potencial interpretativo singular deve ser resguardado, pois ao remeterem para

diferentes maneiras de observar a realidade dos indivíduos, são produtoras de uma visão mais abrangente e completa dessa mesma realidade, o que pode traduzir-se numa maior coerência das estratégias de intervenção delimitadas para a sua transformação.

Assim, enquanto o conceito de exclusão social, na perspectiva de Robert Castel, remete para a fase extrema daquilo que o autor entende como por um processo de marginalização dos indivíduos, devendo este ser compreendido como um percurso “ao longo do qual se verificam sucessivas rupturas na relação do indivíduo com a sociedade” rupturas essas que podem ocorrer tanto em relação ao mercado de trabalho, como no âmbito da vida familiar ou das relações afectivas e de amizade (Castel, Robert in Bruto da Costa, 2002: 9-10), já o conceito de pobreza, de acordo com Alfredo Bruto da Costa, traduz uma situação dinâmica de privação por falta de recursos (Bruto da Costa, 2002: 18-19), ou ainda, segundo Luís Capucha, de “deficientes condições materiais de existência, ou da insuficiência de recursos de ordem económica, social ou cultural” (Capucha, 1998: 211).

Ambos os autores portugueses, aliás, consideram que a pobreza pode constituir uma forma específica de produção de exclusão social, já que, privado de recursos, o pobre pode não reunir as condições necessárias a uma participação eficaz nas estruturas e instituições sociais correntes da sociedade em que vive (Bruto da Costa, 2002: 19 e Capucha, 1998: 217).

A integração social, como refere Luís Capucha, está associada “à ideia de que a sociedade constitui um todo em que as diferentes partes e indivíduos devem estar articulados, participando de um conjunto mínimo de benefícios que definem a qualidade membro de pleno direito dessa sociedade. A integração social não implica a anulação das diferenças, das clivagens e dos conflitos sociais, mas tem por base a ideia de que tais diferenças, clivagens e conflitos não coloquem certos grupos ou categorias sociais fora das estruturas correntes da sociedade, isto é, de que as diferenças não se tornem moralmente intoleráveis e contraditórias em relação as normas”. E o

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autor acrescenta que a coesão social é atingida “quando se conseguem produzir sociedades «coesas», em que todos se insiram em padrões de vida tidos como dignos” (Capucha, 1998: 213-

214).

No fundo, a questão tanto da integração como da exclusão sociais encontram-se profundamente ligadas à noção de cidadania, sendo que se uma a integração pode ser aferida quando existe uma inserção bem sucedida dos indivíduos em padrões de vida tidos como dignos, a outra a exclusão verifica-se precisamente quando indivíduos ou grupos de indivíduos não conseguem aceder satisfatoriamente a esses padrões de vida.

Qualquer sociedade compreende um “conjunto de direitos e deveres normativamente inscritos nas estruturas sociais”, direitos e deveres esses que “fundam os compromissos” existentes entre os seus membros e cujo usufruto e exercício confere aos indivíduos o estatuto de cidadãos. Entre esses direitos e deveres encontram-se direitos e deveres cívicos, mas também sociais e culturais, sendo que as situações de exclusão se verificam porque “a sociedade não oferece a todos os seus membros a possibilidade de beneficiar de todos esses direitos nem de cumprir alguns deveres que lhes estão associados” (Capucha, 1998: 210-211).

Para Alfredo Bruto da Costa o exercício da cidadania implica e traduz-se no acesso dos indivíduos a um conjunto de sistemas sociais básicos, os quais, apesar das diferenças que possam ser encontradas entre sociedades, podem ser agrupados em cinco domínios essenciais: o social, o económico, o institucional, o territorial e o das referências simbólicas. As situações de exclusão social surgem quando os indivíduos têm dificuldades em aceder eficazmente a esses sistemas, quer de uma forma total, quer de uma forma parcial (Bruto da Costa, 2002: 16).

De referir é que os sistemas designados, tal como os cinco grandes tipos de sistemas atrás definidos, não constituem realidades estanques mas encontram-se profundamente relacionados uns com os outros, podendo verificar-se, em alguns casos, situações de sobreposição entre os mesmos.

Por outro lado, é preciso também salientar que a questão da exclusão não se coloca apenas no simples acesso ou «não acesso» aos sistemas, na sua totalidade ou em parte, mas sim no

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relacionamento mais ou menos facilitado os sujeitos têm com um ou vários componentes do sistema global. Neste sentido e já aqui se havia chamado a atenção para o carácter de processo dos fenómenos de exclusão social existem vários tipos de relação que os indivíduos podem manter com os sistemas, o que configurará também graus diversos de exclusão social relativamente

a um ou mais sistemas.

enquanto percurso ou caminho.

É neste sentido que Castel se refere ao processo de marginalização

QUADRO 1 Sistemas sociais básicos

Domínio

Tipos de sistema social

Sistema social

 

Grupos, comunidades e redes sociais imediatos

Família

Vizinhança

 

Empresa

Grupos, comunidades e redes sociais intermédios

Associação desportiva ou cultural

Social

Grupo de amigos

 

Comunidade cultural

 

Comunidade local

Grupos, comunidades e redes sociais amplos

Mercado de trabalho

Comunidade política

   

Mercado de trabalho (salários)

Mecanismos geradores de recursos

Sistema de segurança social (pensões)

Económico

Activos

Mercado de bens e serviços

Mercado de bens e serviços

 

Sistema bancário e de crédito

Sistema de poupanças

Poupança

   

Educação

Sistemas prestadores de serviços públicos ou semi-públicos

Saúde

Institucional

Justiça

Instituições ligadas ao exercício dos direitos cívicos e políticos

Sistema burocrático

Instituições ligadas à participação política

   

Habitação

Territorial

Território

Equipamentos sociais

Acessibilidades

   

Actividade económica

Simbólico

Referências simbólicas

Referências simbólicas do indivíduo

Fonte: Bruto da Costa, 2002.

É neste sentido que se pode falar de exclusões sociais no plural ou seja, de vários tipos (ideais)

de exclusão, os quais configuram relações diferenciadas dos indivíduos com os sistemas sociais,

relações essas cuja natureza embora deficitária em todos os casos, já que é de exclusão que falamos apresenta características particulares de grau, de configuração que as torna discerníveis umas das outras.

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Uma dessas distinções é ao nível das suas causas, já que situações diferentes podem também contribuir para forjar tipos de exclusão diferentes. O quadro 2 apresenta essa relação.

QUADRO 2 Tipos de exclusão

Exclusão

Características

Causas

 

Más condições materiais de vida

 

Económico

Baixos níveis de instrução e qualificação profissional

Situação de privação múltipla por falta de recursos - pobreza

Emprego precário

 

Actividade no domínio da economia informal

 
 

Privação relacional

Privação relacional resultante do estilo de vida de familiares e amigos, falta de serviços de bem-estar, inserção em culturas individualistas e pouco solidárias, falta de recursos

Social

Isolamento do indivíduo

Falta de auto-suficiência e autonomia pessoal

Cultural

Difícil integração laboral, residencial, comunitária, etc.

Racismo, xenofobia, preconceitos de ordens várias

Patológica

Rupturas familiares por problemas psic./mentais

Factores patológicos de natureza psicológica ou mental

Situação de «sem abrigo»

Comp. auto-

Difícil integração laboral, familiar, comunitária, etc.

Toxicodependência, alcoolismo, prostituição, etc.

destrutivos

Situação de «sem abrigo»

Fonte: Bruto da Costa, 2002.

Mais uma vez, os tipos de exclusão assim definidos encontram-se muitas vezes interligados, não sendo possível definir barreiras estanques entre eles. Também as causas mais imediatas de um certo tipo de exclusão têm frequentemente por trás causas mais profundas que importa tornar inteligíveis se pretende que a intervenção não se quede apenas pela minoração dos seus efeitos mais visíveis.

Para além disso, importa ainda salientar que a exclusão social e a pobreza constituem problemas sociais cujas causas devem ser procuradas na própria forma como a sociedade se encontra organizada e que é geradora dos mecanismos sociais que são os seus promotores e cuja eliminação não se faz sem mudanças sociais (Bruto da Costa, 2002: 38-39).

Em Portugal, por exemplo, a pobreza que ainda constitui a forma de exclusão mais marcante do país tem estado fortemente associada a determinadas franjas populacionais, como os idosos, os camponeses e indivíduos assalariados da agricultura, da indústria e dos serviços menos qualificados e mal remunerados. Já na década de noventa, Luís Capucha dava conta da emergência de então novas categorias de pobres, como os desempregados de longa duração, sintomas que

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eram visíveis através do aumento progressivo da taxa de desemprego e do prolongamento do tempo de desemprego (Capucha, 1998: 217-218).

Em particular, do ponto de vista da exclusão, o fenómeno do desemprego apresenta-se de especial gravidade quando as populações afectadas possuem baixos níveis de escolaridade e qualificação profissional. Do mesmo modo, quando a quebra com o universo laboral e os laços e referências

identitários a ele associados não é total, dá-se lugar a situações de inserção profissional precária, onde o indivíduo alterna entre situações de desemprego e de emprego em profissões sem qualidade e mal remuneradas, frequentemente inseridas em sistemas de economia paralela, configurando situações altamente favoráveis à reprodução da pobreza e da exclusão social (Capucha, 1998: 219).

Outros grupos vulneráveis em crescimento eram ainda os jovens em risco, grupos étnicos e culturais minoritários, toxicodependentes, reclusos e ex-reclusos, assim como famílias monoparentais nomeadamente aquelas que dispõem de poucos recursos e indivíduos portadores de deficiência, uma população cuja taxa de emprego da população activa era, àquela data, bastante reduzida (Capucha, 1998: 220-221).

Já um outro conceito que nos parece de extrema importância quando se discute a questão da exclusão social de indivíduos ou grupos é o conceito de modos de vida e, dentro deste, em particular, a discussão que Luís Capucha faz acerca dos modos de vida que agrupa sob a designação de marginais (Capucha, 1998: 229-233).

Se atrás tínhamos visto, com Castel, que o processo de marginalização remete para um percurso no qual se verificam sucessivas rupturas na relação do indivíduo com a sociedade (Castel, Robert in Bruto da Costa, 2002: 9-10), já o conceito de modos de vida se refere ao cruzamento das condições objectivas de existência das populações configuradas pelas dinâmicas ocorrentes ao nível societal e seu impacto nos fenómenos da pobreza e da exclusão com as referências culturais, os sistemas de valores e as representações sociais que os indivíduos produzem e reproduzem no seu dia-a-dia e que, no fundo, acabam por constituir a dimensão subjectiva construída pelos agentes no contexto daquelas condições (Capucha, 1998: 229).

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Tendo em conta a diversidade de situações e configurações possíveis no âmbito da exclusão, também os modos de vida dos actores que a vivem são muito diversificados e permeados por múltiplas variações e sobreposições, não deixando no entanto de existir proximidades entre a situação de indivíduos confrontados com também muito próximas condições materiais de existência. O quadro 3 identifica alguns desses modos de vida para populações em situações várias de exclusão, de acordo com a proposta de Luís Capucha.

QUADRO 3 Modos de vida (marginais)

Modo de vida

 

Tipo de população

 

Características do modo de vida

 

Imigrantes campo/cidade mal

Famílias extensas com desvantagens várias (sociais, profissionais, escolares, económicas, culturais, físicas, mentais). A pobreza e exclusão associam-se a outras problemáticas como toxicodependência, alcoolismo, deficiência, doença crónica. Vivem nos limites da sobrevivência e sem capacidade e meios para prover o seu sustento autónomo, vivendo da caridade pública e particular. Têm muitas dificuldades para aceder às instituições ou estabelecer relações se sociabilidade duradouras. Não apresentam estratégia de vida, nem uma percepção do tempo como projecto, mas apenas como ciclo de reprodução fatal da situação presente

Destituição

sucedidos,

famílias

monoparentais em zonas

 

urbanas ou rurais

 

Marginal

Sem abrigo, meninos de rua, toxicodependentes sem laços

Apresentam características muito semelhantes às do modo de vida da destituição, mas adoptam geralmente uma atitude activa perante o meio, mesmo quando essa

familiares, certos sectores dos

atitude é perturbadora e problemática. Dá-se a perda de laços estáveis com a família,

 

delinquentes

 

a

comunidade, o trabalho, as instituições ou outros contextos de integração

 

Operários e empregados dos serviços com baixas qualificações profissionais e

Os bens que consomem e as maneiras como o fazem visam quase exclusivamente a sobrevivência. Estão geralmente conscientes da sua situação de carência, gerando- se por vezes situações de pobreza envergonhada e dependência de patronos, instituições ou autarquias. Quando se manifesta, o ressentimento em relação à sua situação raramente se transforma em energia para o envolvimento num projecto de ruptura com a pobreza. Os recursos são totalmente afectados à estratégia de sobreviência quotidiana, sendo escassos para sustentar processos de mobilidade

ascendente. O passado tem uma conotação negativa, o presente é resignado e o

futuro sem grandes perspectivas ou esperanças

Restrição

escolares, empregos instáveis e rendimentos escassos e irregulares, desempregados, reformados com pensões baixas

e

assalariados agrícolas

   

Compressão do consumo reduzindo-o tanto quanto possível aos produtos do próprio património da casa camponesa. O pecúlio que se pretende acumular resulta do excedente da produção agrícola e do plurirrendimento resultante do assalariamento a

Campesinato

e

campesinato

tempo parcial de alguns membros da família, das remessas de imigrantes e das transferências da segurança social. A estratégia de vida visa garantir a sobrevivência

Poupança

parcial

da família. O passado é valorizado no plano simbólico, mas identificado com a privação material. O presente prolonga esse passado e o futuro envolve um projecto defensivo garantir a velhice e a transmissão do património familiar. A perseverança

 

o esforço podem estar na origem de projectos de investimento capazes de funcionar como instrumentos de mobilidade social

e

 

Famílias de rendimentos incertos

Valorização das dimensões lúdicas da existência, sociabilidades excessivas e

e

relação precária e atípica com

intensas, atracção por objectos simbólicos da modernidade e o sentido agudo das desigualdades sociais, remetendo muitas vezes para o reforço de laços de solidariedade no contexto de redes identitárias que são produtoras de culturas populares e de contraculturas que marcam presença activa na vida societária. Assenta no desenvolvimento de competências sociais e instrumentais expeditas incluindo a dramatização da situação de pobreza que permitem a obtenção de recursos, apoios e subsídios que chegam a constituir parte significativa dos meios de vida. Tem uma relação positiva com o passado do ponto de vista simbólico e afectivo, embora seja negativa no que respeita à carência material e à culpabilização do «destino». O presente é vivido com intensidade, em detrimento da preparação de futuros diferentes

Convivialidade

o mercado de trabalho, recurso frequente a proventos de origem não legal, muitas vezes sustentados e protegidos por economias de base comunitária. Geralmente forma-se a partir de comunidades residentes em bairros antigos das cidades, em bairros de barracas ou em bairros de habitação social

Fonte: Capucha, 1998.

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Mais uma vez, também aqui, deve chamar-se a atenção para o facto dos tipos (ideais) assim definidos para os modos de vida não constituírem realidades estanques ou «puras» mas apresentaram por vezes sobreposições e justaposições que, no limite, podem dificultar a identificação clara da situação em presença nas categorias aqui consideradas e a criação (eventual) de outras categorias mais pertinentes do ponto de vista explicativo.

Por outro lado, muitas pessoas colocadas em situação precária por motivos imprevistos ou até acidentais não chegam a estruturar os sistemas de referência, as disposições e as estratégias de vida ajustadas às novas situações em que se encontram, pelo que acabam por se situar numa espécie de modo de vida transitório que, ou se retraí para o modo de vida anterior caso novos acontecimentos permitam o regresso às circunstâncias «originais» do indivíduo ou, quando a precariedade se prolonga, tende a transformar-se nos percursos de vida da destituição ou marginalidade (Capucha, 1998: 233).

Qualquer que seja o caso, não querendo prolongar mais do que o pertinente uma discussão em que muito mais haveria por dizer, é fundamentalmente nos conceitos de exclusão social, pobreza e modos de vida, assim definidos, que se estrutura o modelo de investigação que foi mobilizado durante o processo de diagnóstico cujos resultados aqui se apresentam. Saliente-se que, em função do tempo disponível para a investigação, assim como dos recursos existentes para a sua implementação no terreno, nem todas as dimensões, associadas àqueles conceitos, foram trabalhadas com a profundidade desejada (a participação política, o acesso à justiça, a igualdade de género, por exemplo), tendo-se optado por focar, por ora, somente os aspectos críticos considerados mais prementes do ponto de vista da intervenção local. Outras intervenções posteriores encontrarão espaço, portanto, para desenvolver outras análises, sobre outras situações não focadas convenientemente aqui, de forma complementar aos conteúdos aqui analisados.

Dito isto, de seguida dá-se conta dos principais aspectos metodológicos da investigação realizada.

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2. Nota metodológica

Como já aqui foi referido, a presente investigação tem por objectivo central contribuir para a actualização da informação disponível sobre o Núcleo Central do Vale de Alcântara, procedendo à identificação do estado dos seus principais problemas e necessidades, assim como dos recursos e oportunidades disponíveis para potenciar a sua resolução e ultrapassagem, tendo para isso sido mobilizados os instrumentos conceptuais expostos no ponto anterior do presente capítulo.

Com este intuito, a estratégia de investigação adoptada procurou, em primeiro lugar, conjugar a informação empírica objectiva existente sobre os fenómenos em estudo naquela população nas suas dimensões consideradas, com informação de carácter mais subjectivo, das representações sociais, proveniente do ponto de vista dos próprios sujeitos que, no quotidiano, habitam o espaço social da comunidade do Vale de Alcântara.

Em segundo lugar, a preocupação foi também no sentido de proceder a um diagnóstico do estado daquela zona residencial sob a perspectiva das instituições, de várias ordens públicas/privadas, locais/não locais, instituições se solidariedade social/associações em geral, etc. que, de acordo com a sua natureza e objectivos específicos, têm intervenção junto (de parte ou da totalidade) da população local.

Neste contexto de necessidade técnica, foi então definida uma estratégia de investigação de síntese conjugando metodologias de carácter extensivo com metodologias de carácter intensivo que permitisse a recolha eficiente da informação desejada junto das fontes pertinentes. A ambição era obter dados abrangentes e representativos da comunidade em estudo, sem no entanto descurar a profundidade da análise efectuada ao nível da contextualização dos dados quantitativos gerados.

Assim, para além da recolha bibliográfica e análise de documentos pertinentes desde bibliografia especializada sobre o tema da exclusão e/ou zona de intervenção e estatísticas várias sobre o mercado de emprego, demografia, situação económica, até documentos de instituições com intervenção junto da população e de projectos actualmente em curso na zona foi realizado, entre finais de Setembro de princípios de Outubro de 2008, um inquérito à população residente no Vale

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

16

de Alcântara, abrangendo uma população de 272 agregados familiares, onde foram colocadas várias questões ao nível tanto dos membros residentes no agregado familiar, como da própria perspectiva dos inquiridos sobre o seu local de residência 4 .

De forma articulada com o inquérito efectuaram-se também, entre os meses e Junho e Setembro do mesmo ano, 18 entrevistas a instituições com intervenção (maior ou menor) junto da população local Juntas de Freguesia, Escolas, Clubes Desportivos, Instituições Particulares de Solidariedade Social, Associações, Instituições de Saúde, Misericórdias e outras entidades pertinentes (Polícia de Segurança Pública, Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, Gebalis, EM).

Para além disso, o trabalho contou ainda, como fontes de informação, com o parecer informal de vários técnicos que em distintas áreas e com diferentes funções desenvolvem actividades junto da população local, e que, em função do contacto privilegiado que têm com a comunidade, apresentam um profundo conhecimento empírico do terreno de intervenção.

Por fim, toda esta informação foi tratada através do recurso às técnicas e instrumentos apropriados, como a análise estatística (inquérito por questionário) e a análise de conteúdo (entrevistas). Os dados, já trabalhados, são os que se apresentam já de seguida.

4 Amostra definida face a um universo de 848 agregados familiares, com um Nível de Confiança de 95,5% e Erro Máximo Permitido de 5%. O formulário de inquérito utilizado pode ser consultado em anexo.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

17

Capítulo 2

TERRITÓRIO E DEMOGRAFIA

1. Localização e acessibilidades

Situado no concelho de Lisboa e dividido entre as freguesias de Alcântara e Santo Condestável, o Núcleo Central do Vale de Alcântara congrega os bairros Quinta do Cabrinha (Alcântara), Ceuta- Sul e Ceuta-Norte (Santo Condestável), bairros residenciais construídos no âmbito do Programa Especial de Realojamento (PER) com financiamento do Programa de Iniciativa Comunitária (PIC) URBAN que acolheram as famílias anteriormente residentes no entretanto demolido Casal Ventoso.

Os três bairros situam-se paralelamente ao extremo sul da Avenida de Ceuta pouco antes de esta desembocar na freguesia de Alcântara tendo o primeiro sido construído no lado oeste da avenida, em 1998, para realojar as famílias do Casal Ventoso de Baixo, e os restantes no lado este da avenida, em 2001 e 2002 respectivamente, para albergar as famílias oriundas do Casal Ventoso de Cima e das vilas outrora existentes na zona da Rua Maria Pia.

QUADRO 4 Datas de construção e ocupação dos bairros do Núcleo Central do Vale de Alcântara

 

Data de

Data de

Nº de

Nº de

 

Bairro

construção

realojamento

edifícios

fogos

Zona de origem dos residentes

Quinta do Cabrinha

1998

1999

10

248

Casal Ventoso de Baixo

Ceuta-Sul

2001

2001

8

205

Casal Ventoso de Cima e Rua Maria Pia

Ceuta-Norte

2002

2002

18

395

Casal Ventoso de Cima

Fonte: Documentos fornecidos pela Gebalis.

Mais precisamente, em termos geográficos, o Núcleo Central do Vale de Alcântara encontra-se localizado entre as freguesias de Alcântara (a sul e a oeste), da Ajuda (a norte), de Santo Condestável (a este) e ainda de Prazeres (a sudoeste), e possui como principais eixos viários a própria Avenida de Ceuta com ligação à Avenida Calouste Gulbenkian a Avenida da Índia com ligações à Avenida 24 de Julho e à Avenida Marginal e ainda o Eixo Norte-Sul (IP7) com ligações à Circular Regional Interna de Lisboa (CRIL/A36/IC17), à Auto-Estrada do Oeste (A8), à

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

18

Auto-Estrada de Sintra/Buraca (A37), à 2ª Circular e, finalmente, à Ponte 25 de Abril e à Auto- Estrada do Sul (A2).

Em termos de acessibilidades, portanto, o Vale de Alcântara parece situar-se numa zona privilegiada, com ligação facilitada a algumas das principais vias da rede viária da cidade de Lisboa, tendo este elemento do bairro, inclusivamente, sido considerado um dos seus principais aspectos positivos durante o inquérito realizado 5 .

2. Evolução demográfica 2002/2008

A nível demográfico, os dados mais precisos que se encontram disponíveis datam de 2002, tendo sido recolhidos pelo já extinto Gabinete de Reconversão do Casal Ventoso (GRCV) por altura em que se verificou o processo de realojamento, e apontam para a existência de 2105 indivíduos residentes nos três bairros que compõem o Núcleo Central do Vale de Alcântara, dos quais 1113 (52,9%) seriam do género feminino.

De acordo com as estimativas que foi possível realizar a partir do inquérito aplicado em 2008, o número de indivíduos residentes no Vale de Alcântara parece ter aumentado ligeiramente desde 2002, situando-se agora nos 2352 efectivos (mais 247, portanto), entre os quais 1240 são mulheres

(52,7%).

Atentando no saldo final desse aumento, constata-se que ele foi positivo na grande maioria dos escalões etários definidos pelo GRCV para a análise da população no ano de 2002, tendo sido particularmente impulsionado pelo acréscimo do número de indivíduos com idades iguais ou superiores aos 66 anos, que conjuntamente contabilizaram 30,1% do aumento absoluto registado.

5 De acordo com os dados recolhidos por via do inquérito realizado, os três aspectos mais positivos do Vale de Alcântara seriam, por ordem decrescente de importância, a Qualidade e condições das habitações (42,6%), as Acessibilidades, localização e transportes do bairro/que servem o bairro (37,5%) e, em terceiro lugar, as Relações entre as pessoas/vizinhos (20,6%).

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

19

GRÁFICO 1 Estimativa da evolução demográfica do Vale de Alcântara (2002-2008), por género (N)

3000

2500

2000

1500

1000

500

0

2352

2105

1113
992

1240
1112

2352 2105 1113 992 1240 1112
2352 2105 1113 992 1240 1112
2352 2105 1113 992 1240 1112
2352 2105 1113 992 1240 1112
2352 2105 1113 992 1240 1112
2352 2105 1113 992 1240 1112
2352 2105 1113 992 1240 1112
2000 1500 1000 500 0 2352 2105 1113 992 1240 1112 2002 População total População feminina

2002

População total

2352 2105 1113 992 1240 1112 2002 População total População feminina 2008 População masculina Fonte:

População feminina

992 1240 1112 2002 População total População feminina 2008 População masculina Fonte: Gabinete de Reconversão

2008

População masculina

Fonte: Gabinete de Reconversão do Casal Ventoso, 2002 e Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Tendo em linha de conta a taxa de variação da população por escalão etário no período de tempo em análise, verifica-se que à excepção da taxa de variação registada no escalão dos indivíduos com menos de 10 anos, que alcançou os 15,8 p.p., foram os escalões etários mais avançados que apresentaram variações (positivas) mais significativas, nomeadamente aqueles que englobam os indivíduos com idades superiores aos 60 anos.

GRÁFICO 2 Estimativa da evolução demográfica do Vale de Alcântara (2002-2008), por escalão etário (%)

50

40

30

20

10

0

-10

15,8 3,7 13,3 4,3 -2,3 10,0 0 9,8
15,8 3,7 13,3 4,3 -2,3 10,0 0 9,8
15,8 3,7 13,3 4,3 -2,3 10,0 0 9,8
15,8 3,7 13,3 4,3 -2,3 10,0 0 9,8
15,8 3,7 13,3 4,3 -2,3 10,0 0 9,8

15,8

3,7 13,3 4,3 -2,3

3,7

13,3

4,3

-2,3

10,0

0 9,8

31,1

31,1

31,1 15,7 16,4 13,9 13,3 12,9 22,5 30,1

15,7

16,4

13,9

13,3

12,9

22,5

30,1

31,1 15,7 16,4 13,9 13,3 12,9 22,5 30,1
31,1 15,7 16,4 13,9 13,3 12,9 22,5 30,1
15,8 3,7 13,3 4,3 -2,3 10,0 0 9,8 31,1 15,7 16,4 13,9 13,3 12,9 22,5 30,1
15,8 3,7 13,3 4,3 -2,3 10,0 0 9,8 31,1 15,7 16,4 13,9 13,3 12,9 22,5 30,1
15,8 3,7 13,3 4,3 -2,3 10,0 0 9,8 31,1 15,7 16,4 13,9 13,3 12,9 22,5 30,1

0 aos 10

11 aos 19

20 aos 30

31 aos 40

41 aos 50

Escalões etários

11 aos 19 20 aos 30 31 aos 40 41 aos 50 Escalões etários Distribuição do

Distribuição do acréscimo populacional v erificado

51 aos 60

61 aos 65

Tax a de v ariação da população

66 e mais

Fonte: Gabinete de Reconversão do Casal Ventoso, 2002 e Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

20

Este facto, na ausência de outros dados mais precisos sobre o assunto, pode significar que o aumento populacional registado esteve relacionado tanto com o ligeiro aumento da população infantil do Vale de Alcântara, como com a manutenção e reprodução, por inserção de novos moradores, da sua população em idade mais avançada.

Já noutra perspectiva, se em termos de género o aumento populacional registado foi relativamente equilibrado com taxas de variação na ordem dos 11,4 p.p. para o género feminino e 12,1 p.p. para o masculino já ao nível do bairro de residência as coisas passaram-se de maneira diferente, tendo os bairros Ceuta-Sul e Ceuta-Norte sido os únicos responsáveis pelo aumento populacional verificado, enquanto o bairro Quinta do Cabrinha sofreu um decréscimo populacional efectivo na ordem dos 4,7 p.p

GRÁFICO 3 Estimativa da evolução demográfica do Vale de Alcântara (2002-2008), por bairro de residência (%)

100

80

60

40

20

0

-20

63,8

43,4

36,3

63,8 43,4 36,3 0 -4,7 9,9
63,8 43,4 36,3 0 -4,7 9,9
63,8 43,4 36,3 0 -4,7 9,9
63,8 43,4 36,3 0 -4,7 9,9
63,8 43,4 36,3 0 -4,7 9,9
63,8 43,4 36,3 0 -4,7 9,9
63,8 43,4 36,3 0 -4,7 9,9
63,8 43,4 36,3 0 -4,7 9,9

0

-4,7

9,9

Qta. Cabrinha

Ceuta-Sul

Bairro de residência

Ceuta-Norte

Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Bairro de residência Ceuta-Norte Distribuição do acréscimo populacional absoluto por

Distribuição do acréscimo populacional

absoluto por bairro de residência

Tax a de v ariação da população

2002/2008 por bairro de residência

Fonte: Gabinete de Reconversão do Casal Ventoso, 2002 e Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Em particular, destaque-se aqui que o bairro Ceuta-Sul, o menor dos três bairros em análise, aparece como o bairro que registou um maior aumento de população durante o período de tempo estudado 63,8% do total de novos habitantes, como uma taxa de variação 2002/2008 de 43,4 p.p. situação que, de acordo com informações recolhidas junto da Gebalis 6 , não estará relacionada com quaisquer decisões administrativas tomadas por aquela empresa em referência à gestão dos bairros do Vale de

6 A Gebalis Gestão dos Bairros Municipais de Lisboa, EM, é uma empresa pública, de âmbito municipal, que tem como objecto principal a gestão social, patrimonial e financeira dos bairros municipais de Lisboa.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

21

Alcântara, mas sobretudo com a própria dinâmica populacional que caracteriza a comunidade ali residente, que seria dotada de uma extrema mobilidade residencial interna.

A este respeito, aliás, será conveniente realçar que embora não haja dados concretos que indiquem que tal condição constitui um factor explicativo objectivo da situação atrás apresentada 70,0% dos moradores que responderam ao inquérito realizado referiram que possuem familiares a residir noutras habitações nos bairros do Núcleo Central do Vale de Alcântara, situações que, tal como a eventual ocorrência/prevalência de fenómenos de endogamia espacial na comunidade, podem sem dúvida desempenhar um papel estruturante nas dinâmicas demográficas daquela zona habitacional.

Qualquer que seja o caso, o resultado mas visível desta situação é a transformação do peso populacional relativo dos bairros no conjunto do Vale de Alcântara.

Assim, se em 2002 o bairro da Quinta do Cabrinha surgia indisputavelmente como o segundo bairro mais povoado daquela zona de residência, albergando 32,0% do total da população residente, actualmente essa situação encontra-se significativamente alterada, encontrando-se o bairro Ceuta- Sul com um efectivo populacional já muito próximo (25,0%) da percentagem de indivíduos actualmente residentes no primeiro bairro (27,3%).

GRÁFICO 4 Distribuição da população residente no Vale de Alcântara (2002/2008), por bairro de residência (%)

100

80

60

40

20

0

48,5 47,7 32,0 27,3 25,0 19,5
48,5 47,7 32,0 27,3 25,0 19,5

48,5

47,7

32,0

48,5 47,7 32,0 27,3 25,0 19,5
48,5 47,7 32,0 27,3 25,0 19,5

27,3

25,0

19,5
19,5
19,5

19,5

19,5
19,5
19,5
19,5

2002

80 60 40 20 0 48,5 47,7 32,0 27,3 25,0 19,5 2002   Ano Qta. Cabrinha
 

Ano

Qta. Cabrinha

Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Ceuta-Sul

Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Ceuta-Norte

2008

Fonte: Gabinete de Reconversão do Casal Ventoso, 2002 e Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

22

Por outro lado, se tiver em conta a diferente capacidade de lotação dos diferentes bairros do Vale de Alcântara, assim como a baixa taxa de fogos em estado de sobrelotação identificada em 2008 para a zona 4,0% então esta situação pode também ser indicativa da presença, eventualmente mais premente no bairro Quinta do Cabrinha do que nos restantes bairros, de um conjunto de fogos que actualmente não são habitados.

3. Estrutura demográfica actual e tipos de família

Já ao nível da configuração desta população no contexto demográfico nacional e regional, verifica-

se que ao nível do género o Vale de Alcântara apresenta uma situação muito parecida com a situação verificada em finais de 2007 com a população global do Distrito de Lisboa, em que taxa de

feminização é ligeiramente superior aos 52% (52,7% para o Vale de Alcântara, 52,1% para o distrito de Lisboa), um valor mais elevado que a mesma taxa a nível nacional (51,6%), mas que é inferior àquele que é conhecido, para a mesma data, a nível municipal (54,5%).

O Município de Lisboa, aliás, também a nível etário, destaca-se do panorama nacional e regional

(distrital) por apresentar uma população claramente mais envelhecida, onde a percentagem de

indivíduos com 65 ou mais anos atinge os 24,2% da população e a população com menos de 14 anos não passa dos 13,7%.

GRÁFICO 5 Distribuição da população residente por grandes grupos etários (%)

Portugal 2007

Distrito de Lisboa 2007

Município de Lisboa 2007

Vale de Alcântara 2008

15,3

15,3

67,2

67,2
67,2
15,3 67,2 15,7 66,8 13,7 62,2 17,4 17,5
15,3 67,2 15,7 66,8 13,7 62,2 17,4 17,5
15,3 67,2 15,7 66,8 13,7 62,2 17,4 17,5

15,7

66,8

13,7

62,2

17,4 17,5

17,4

17,5

17,4 17,5
15,3 67,2 15,7 66,8 13,7 62,2 17,4 17,5 24,2 19,1 15,2 65,7
15,3 67,2 15,7 66,8 13,7 62,2 17,4 17,5 24,2 19,1 15,2 65,7
24,2 19,1 15,2 65,7
24,2 19,1 15,2 65,7

24,2

19,1

24,2 19,1 15,2 65,7
15,2 65,7

15,2

65,7

0

10

20

30

40

50

60

70

80

90

100

 
  0-14 15-64 65 +

0-14

  0-14 15-64 65 +

15-64

  0-14 15-64 65 +

65 +

Fonte: INE, I.P., 2008A e Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

23

Neste âmbito, o Vale de Alcântara apresenta-se posicionado entre a situação verificada a nível nacional e distrital bastante similar e a situação que caracteriza o seu concelho de inserção, apresentando também uma população mais envelhecida do que a média nacional (19,1%) mas que não chega aos valores calculados para o Município de Lisboa o índice de envelhecimento calculado para Lisboa é de 177,0%, enquanto, que o do Vale de Alcântara é de 125,4%.

Mais uma vez, também ao nível da composição da população os três bairros do Vale de Alcântara apresentam configurações distintas. Em termos de género, por exemplo, os bairros Quinta do Cabrinha e Ceuta-Norte seguem de perto a tendência nacional, com percentagens de população feminina na ordem dos 51%, enquanto o bairro Ceuta-Sul apresenta uma taxa de representação de população feminina mais elevada, 55,6%.

GRÁFICO 6 Distribuição da população residente por género e bairro de residência (%)

Portugal 2007

Vale de Alcântara 2008

Qta. Cabrinha

Ceuta-Sul

Ceuta-Norte

51,6 48,4 47,3 48,5 52,7 51,5 55,6 44,4
51,6 48,4 47,3 48,5 52,7 51,5 55,6 44,4

51,6

48,4

47,3

48,5

52,7

52,7

51,5

51,5

55,6

44,4

51,6 48,4 47,3 48,5 52,7 51,5 55,6 44,4 51,9 48,1
51,6 48,4 47,3 48,5 52,7 51,5 55,6 44,4 51,9 48,1

51,9

48,1

0

52,7 51,5 55,6 44,4 51,9 48,1 0 Feminino 50 Masculino 100 Fonte: INE, I.P., 2008A e

Feminino

50

55,6 44,4 51,9 48,1 0 Feminino 50 Masculino 100 Fonte: INE, I.P., 2008A e Inquérito à

Masculino

100

Fonte: INE, I.P., 2008A e Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Ao nível da idade, o bairro Ceuta-Norte acompanha de perto a tendência central do Vale de Alcântara, enquanto o bairro Quinta do Cabrinha aparece como o bairro mais envelhecido, apresentando tanto uma maior percentagem de indivíduos com idades iguais ou superiores aos 65 anos de idade (23,5%) como a menor percentagem de indivíduos com idades inferiores aos 15 anos (12,3%). Já o bairro Ceuta-Sul aparece como o bairro menos envelhecido dos três, dando-se inclusivamente o caso curioso de inverter a tendência geral da evolução demográfica da população,

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

24

apresentando uma maior percentagem de indivíduos jovens (até aos 14 anos de idade, 19,0%) do que de idosos (com 65 ou mais anos, 14,3%).

GRÁFICO 7 Distribuição da população residente por grandes grupos etários e bairro de residência (%)

Portugal 2007

Vale de Alcântara 2008

Qta. Cabrinha 2008

Ceuta-Sul 2008

Ceuta-Norte 2008

15,3 15,2 12,3 19,0 23,5 67,2 17,4 65,7 19,1 64,2 66,7 14,3
15,3 15,2 12,3 19,0 23,5 67,2 17,4 65,7 19,1 64,2 66,7 14,3
15,3 15,2 12,3 19,0 23,5 67,2 17,4 65,7 19,1 64,2 66,7 14,3
15,3 15,2 12,3 19,0 23,5 67,2 17,4 65,7 19,1 64,2 66,7 14,3
15,3 15,2 12,3 19,0 23,5 67,2 17,4 65,7 19,1 64,2 66,7 14,3

15,3

15,2

12,3

15,3 15,2 12,3
15,3 15,2 12,3 19,0 23,5 67,2 17,4 65,7 19,1 64,2 66,7 14,3
19,0

19,0

15,3 15,2 12,3 19,0 23,5 67,2 17,4 65,7 19,1 64,2 66,7 14,3
23,5
23,5
23,5

23,5

67,2

17,4

65,7

19,1

64,2

23,5 67,2 17,4 65,7 19,1 64,2 66,7 14,3

66,7

14,3

19,0 23,5 67,2 17,4 65,7 19,1 64,2 66,7 14,3 14,8 66,0 19,2

14,8

14,8 66,0 19,2
14,8 66,0 19,2
14,8 66,0 19,2
14,8 66,0 19,2

66,0

19,2

14,8 66,0 19,2
14,8 66,0 19,2

0

10

20

30

40

50

60

70

80

90

100

 
  0-14 15-64 65 +

0-14

  0-14 15-64 65 +

15-64

  0-14 15-64 65 +

65 +

Fonte: INE, I.P., 2008A e Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Independentemente das diferenças que se possam estabelecer em termos da origem residencial dos seus habitantes, em termos globais há que destacar que, a par do aumento significativo do número de efectivos populacionais desde 2002 (um aumento de 11,7 p.p.), a população residente do núcleo central do Vale de Alcântara apresenta uma percentagem de idosos superior à média nacional e, sobretudo, trata-se de uma população que tem vindo a envelhecer, tal como demonstra a comparação destes dados com os dados recolhidos em 2006 por um projecto local.

GRÁFICO 8 Distribuição da população residente por grandes grupos etários 2006/2008 (%)

Vale de Alcântara

2006

Vale de Alcântara

2008

19,2

64,2

19,2 64,2 16,6

16,6

19,2 64,2 16,6 15,2 65,7 19,1
19,2 64,2 16,6 15,2 65,7 19,1
19,2 64,2 16,6 15,2 65,7 19,1

15,2

65,7

19,1

0

20

40

60

80

100

 
  0-14 15-64 65 +

0-14

  0-14 15-64 65 +

15-64

  0-14 15-64 65 +

65 +

Fonte: Leitão et al, 2008 e Inquérito à população do Vale de Alcântara 2008.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

25

Já no que diz respeito à composição dos agregados familiares presentes no Vale, já aqui se disse que o número de fogos em situação de sobrelotação é relativamente reduzido, quedando-se pelos 4,0% do total de fogos existentes. Em termos do número de indivíduos presentes nos agregados, a média é de 2,8 indivíduos/fogo sendo mais comuns os agregados com 2 ou 3 indivíduos (52,9%), com 1 indivíduo (19,9%) ou com 4 indivíduos (15,8%) do que com 5 ou mais indivíduos (11,4%).

Ao nível do tipo de famílias presentes, o tipo mais significativo é a família nuclear (46,3%), na maioria dos casos com filhos (28,7%), ao que se segue os agregados domésticos constituídos por indivíduos isolados (19,9%) e ainda as famílias monoparentais (15,4%).

De destacar, a este nível, por um lado, a percentagem elevada de indivíduos a viver de forma isolada, já que se tratam sobretudo de indivíduos com 65 ou mais anos (55,6%) e que podem apresentar necessidades de saúde especiais e, por outro lado, o facto das famílias monoparentais simples serem sobretudo, do ponto de vista do progenitor, famílias femininas (80,8% dos casos), configurando situações clássicas de monoparentalidade, em que a figura masculina é a principal ausência do quadro familiar, e que, em situações de baixo nível de rendimentos, tendem a configurar cenários altamente permeáveis a situações de falta de recursos e exclusão.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

26

Capítulo 3

ESCOLARIDADE, FORMAÇÃO PROFISSIONAL E EMPREGO

1. Qualificação escolar e profissional da população

O acesso a um emprego que permita um retorno económico regular e suficiente para a reprodução, por parte do indivíduos e sua família, das condições de vida consideradas «normais» em determinada sociedade, constitui um dos mecanismos fundamentais de inclusão simultaneamente económica e social dos cidadãos. Actualmente, e talvez mais do que nunca, a formação escolar e profissional são factores essenciais para esse processo, factores esses que quando descurados podem limitar fortemente as hipóteses de inserção profissional bem sucedida por parte dos sujeitos.

De acordo com os dados recolhidos por via do inquérito realizado (2008), em termos escolares a população residente no Núcleo Central do Vale de Alcântara caracteriza-se na sua generalidade pela posse de qualificações escolares muito baixas, com 67,3% da população a apresentar níveis de escolaridade inferiores ao 3º ciclo (escolaridade mínima obrigatória) e somente 7,5% dos indivíduos a apresentar níveis idênticos (6,7%) ou superiores (0,8%) ao ensino secundário.

GRÁFICO 9 Distribuição da população residente por nível de escolaridade (%)

50

40

30

20

10

0

36,3

2,5 0,8 8,4 25,1 19,3 6,7 0,8

2,5

2,5 0,8 8,4

0,8

8,4

2,5 0,8 8,4
2,5 0,8 8,4 25,1 19,3 6,7 0,8

25,1

19,3

19,3 6,7 0,8
19,3 6,7 0,8

6,7

19,3 6,7 0,8

0,8

2,5 0,8 8,4 25,1 19,3 6,7 0,8
2,5 0,8 8,4 25,1 19,3 6,7 0,8
2,5 0,8 8,4 25,1 19,3 6,7 0,8
2,5 0,8 8,4 25,1 19,3 6,7 0,8
2,5 0,8 8,4 25,1 19,3 6,7 0,8
2,5 0,8 8,4 25,1 19,3 6,7 0,8

Não sabe ler

Sem grau de

Menos que o

1º ciclo

2º ciclo

3º ciclo

Ensino

Ensino

nem escrev er

ensino

1º ciclo

secundário

superior

Fonte: Inquérito ao Vale de Alcântara, 2008.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

27

Para além disso, de acordo com dados recolhidos por via de um inquérito realizado em 2006, a grande maioria da população inquirida não tinha tido qualquer tipo de formação de carácter profissional (83,3%), nem tinha também qualquer interesse em fazê-lo (84,1%), ou apresentava

sequer um tipo de contacto com meios informáticos que permitisse antever um conhecimento básico dos mesmos na altura 85,4% dos indivíduos que respondeu ao inquérito afirmou que utilizava raramente ou nunca qualquer tipo de equipamentos informáticos, nomeadamente o computador (Simão et al, 2008).

Por outro lado, das 65 crianças e jovens do Vale de Alcântara que até finais de 2007 tinham sido acompanhadas por um projecto de intervenção, cerca de 90,2% daquelas a respeito das quais se dispunha de informação escolar tinham já reprovado pelo menos 1 ano durante o seu percurso escolar, o que pode ser indicativo da presença de taxas elevadas de insucesso escolar na população infanto-juvenil daquela zona residencial.

GRÁFICO 10 População activa e inactiva do Vale de Alcântara (%)

100

90

80

70

60

50

40

30

20

10

0

62,7

59,0

28,1

19,4

6,0

8,3

8,4

2,8

3,5

1,7
1,7
1,7
1,7
1,7
1,7

1,7 62,7 59,0 28,1 19,4 6,0 8,3 8,4 2,8 3,5

1,7
1,7
1,7
1,7
1,7

População activ a

Domésticos

8,4 2,8 3,5 1,7 População activ a Domésticos Estudantes Vale de Alcântara 2008 Portugal 2008 Reformado

Estudantes

Vale de Alcântara 2008

activ a Domésticos Estudantes Vale de Alcântara 2008 Portugal 2008 Reformado Outros inactiv os Fonte: INE,

Portugal 2008

Reformado

Outros inactiv os

Fonte: INE, I.P., (2008B) e Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

28

Já a análise da relação dos indivíduos com o universo laboral, tomada em referência à população com 15 ou mais anos de idade, permite que se constate que o Vale de Alcântara apresenta uma taxa de actividade inferior à média nacional em 3,7 p.p., e compreende uma percentagem elevada de

reformados (28,1%) comparativamente ao cenário nacional verificado no 2º trimestre de 2008, situação apenas parcialmente pode ser explicada pela maior taxa de indivíduos com idades iguais ou superiores aos 65 anos, já que, entre a população reformada do Vale de Alcântara conta-se uma percentagem significativa de indivíduos que ainda não atingiram essa idade 25,8% do total de indivíduos reformados têm menos de 65 anos (INE, I.P., 2008B).

Relativamente à população empregada, de forma coerente com as baixas qualificações escolares e profissionais que caracterizam estes indivíduos, as profissões mais recorrentes são geralmente profissões pouco exigentes do ponto de vista das qualificações e da especialização e com baixos índices de remuneração, encontrando-se entre as mais representativas profissões que envolvem trabalhadores não qualificados (31,1%) nomeadamente empregados domésticos e de limpeza pessoal dos serviços e vendedores (30,4%) vendedores, assistentes familiares, vigilantes de crianças, empregados de mesa ou balcão, cozinheiros e ajudantes de cozinha e ainda operários, artífices e trabalhadores similares (14,0%) trabalhadores da construção civil, operadores gráficos, electromecânicos e electricistas, etc.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

29

GRÁFICO 11 População empregada do Vale de Alcântara por profissão (Grandes Grupos CNP) (%)

50

40

30

20

10

0

30,4

31,1

6,3

14,0

8,0

    5,2 1,1 1,1 2,1 0,4 0,4  
 
    5,2
 

5,2

1,1

1,1

2,1

1,1 1,1 2,1 0,4 0,4

0,4

0,4

1,1 1,1 2,1 0,4 0,4
 
 

Quadros

Especialistas

Técnicos e

Pessoal

Pessoal dos

Agricultores e

Operários,

Operadores de

Trabalhadores

Membros das

Outros

superiores da

das profissões

profissionais

administrativ o

serv iços e

trabalhadores

artífices e

instalações e

não

forças

administração

intelectuais e

de nív el

e similares

v endedores

qualificados da

trabalhadores

máquinas e

qualificados

armadas

pública,

científicas

intermédio

agricultura e

similares

trabalhadores

dirigentes e

pescas

da montagem

quadros

superiores de

empresas

Fonte: Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Para além desta situação, ao nível do emprego, o Vale de Alcântara caracteriza-se também, actualmente, por apresentar uma taxa de desemprego muito elevada, na ordem dos 23,7%, isto é, mais do que o triplo da taxa de desemprego registada, a nível nacional, no 3º trimestre de 2008 (7,7%) (INE, I.P., 2008C).

O bairro de residência parece não ter influência na situação relativamente ao emprego dos moradores, com os bairros a apresentarem poucas variações na sua taxa de desemprego (Quinta do Cabrinha, 23,5%, Ceuta-Sul, 23,8% e Ceuta-Norte, 23,7%). Já ao nível do género, e contrariamente à tendência nacional, no Vale de Alcântara são sobretudo os homens que se estão mais em risco de se encontrarem numa situação de desemprego, apresentando 28,0% contra uma taxa de 19,6% entre a população feminina. Do mesmo modo, em termos etários, é a população jovem que está mais permeável ao desemprego (26,5%).

Ao nível da escolaridade, as categorias que apresentam um índice de desemprego mais elevado do que a taxa global registada são aquelas que integram os indivíduos com menores qualificações,

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

30

nomeadamente aqueles que têm níveis de escolaridade inferiores ou iguais ao 1º ciclo (taxas de 35,7% e 29,2%, respectivamente), enquanto a categoria que apresenta um índice mais baixo é a do ensino secundário, com uma taxa de desemprego (ainda assim elevada) de 12,5% 7 .

GRÁFICO 12 Distribuição da população desempregada por ciclo de ensino completo (%)

50

40

30

20

10

0

35,7

29,2

14,5

18,9

12,5

35,7 29,2 14,5 18,9 12,5

Nenhum

1º Ciclo

2º Ciclo

3º Ciclo

Secundário

Fonte: Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Dito isto, atente-se agora no panorama global do emprego, a nível nacional, assim como nas perspectivas para a economia global para o futuro próximo, como forma de contextualizar os dados até agora apresentados.

2. Perspectivas sobre a economia nacional e o mercado de emprego

De acordo com as Estatísticas do Emprego do Instituto Nacional de Estatística (INE) para o 3º trimestre de 2008, Portugal registou uma contracção de 0,3% da população activa relativamente ao trimestre homólogo de 2007 e de 0,2% face ao trimestre anterior (INE, I.P., 2008C).

Para a diminuição homóloga contribuiu tanto a diminuição da população empregada, que decresceu 0,1% face ao mesmo trimestre de 2007, como a redução da população desempregada, onde se registou uma diminuição homóloga de 2,4%, apesar de ter aumentado 5,8% face ao 2º trimestre de 2008 (idem).

7 A categoria que engloba os indivíduos com o ensino superior não foi aqui contemplada dado o número reduzido de efectivos para que remete.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

31

No que se refere à população empregada, a diminuição registou-se sobretudo ao nível da população masculina, que diminuiu 0,2% enquanto a população feminina empregada aumentou 0,1%, da população empregada com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos, que sofreu o decréscimo mais acentuado de todas as categorias etárias em contracção (3,5%), e da população cujo nível de escolaridade completo corresponde, no máximo, ao 3º ciclo do ensino básico, cuja diminuição foi

de 2,0% enquanto a população empregada com níveis de escolaridade ao nível do ensino secundário

e superior aumentou (3,0% e 6,3% respectivamente) (ibidem).

O sector de actividade que registou uma maior perda homóloga foi o da indústria, construção,

energia e água, que decresceu 4,7% (perda em muito explicada pela diminuição empregada na indústria transformadora, que perdeu 54,1 mil indivíduos), enquanto o sector da agricultura, silvicultura e pesca o emprego diminuiu apenas 0,5%. O único sector que registou um ganho ao nível da população empregada foi o dos serviços, com um aumento homólogo de 2,4%, com destaque para os ganhos registados ao nível da população empregada nas actividades de educação

(15,1%) e do alojamento e restauração (12,9%). A população empregada nas actividades de saúde e acção social decresceu 12,2% (INE, I.P, 2008C).

Esta situação, aliás, tem vindo a ser recorrente pelo menos desde 1998, com os sectores da indústria, construção, energia e água e da agricultura, silvicultura e pesca a perderem progressivamente peso, em termos de emprego, para o sector dos serviços, sector que, em 2007, dava já trabalho a 57,6% do total da população empregada (OEFP, 2008).

Já ao nível do desemprego, o INE estima que no 3º trimestre de 2008 estivessem em Portugal 433,7

mil indivíduos em situação de desemprego, tendo-se registado um decréscimo homólogo de 2,4% e um crescimento trimestral de 5,8%. A taxa de desemprego registada para o período de tempo em análise foi, como já aqui se disse, de 7,7%, o que configura um decréscimo de 0,2 p.p. face ao mesmo período de 2007 e um aumento de 0,4 p.p. face ao 2º trimestre de 2008 (INE, I.P, 2008C).

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

32

A diminuição homóloga registada na taxa de desemprego ocorreu tanto na população masculina (-

0,2 p.p.) como feminina (- 0,1 p.p.), mas a taxa registada para os homens foi bastante inferior àquela

que foi registada para as mulheres (6,5% e 9,1% respectivamente). O desemprego entre a população jovem (15 a 24 anos) parece estar a aumentar em Portugal, tendo-se registado, no 3º trimestre de 2008, uma taxa de 17,1%, valor que representa quer um crescimento homólogo relativamente a 2007 (+ 1,1 p.p.) quer um aumento relativamente ao 2º trimestre do mesmo ano (+ 2,8 p.p.). O número de desempregados jovens representava, na data em análise, 20,1% do total de indivíduos desempregados, percentagem que é superior à registada para o trimestre anterior (17,6%) e à do trimestre homólogo de 2007 (18,8%) (idem).

Ao nível da escolaridade, é de salientar que, em termos de variação homóloga e em contexto de abaixamento da taxa de desemprego, todas as categorias contempladas pelo INE apresentaram quebras menos 0,2 p.p. na população com o ensino básico, menos 0,3 p.p. na população com o ensino secundário ou pós-secundário e menos 0,1 p.p. na população com o ensino superior enquanto ao nível da variação trimestral somente a taxa de desemprego dos indivíduos com níveis de escolaridade correspondentes ao ensino secundário ou pós-secundário sofreu uma diminuição, ainda que ligeira (- 0,1 p.p.). Em termos líquidos, de facto somente a população com níveis de

escolaridade correspondente ao 3º ciclo do ensino básico decresceu, tendo o número de indivíduos nesta situação diminuído 4,4%, enquanto o número de indivíduos com ensino secundário/pós- secundário se manteve praticamente inalterado e a população desempregada com ensino superior aumentou 6,2% (ibidem).

Em termos regionais, a Região de Lisboa apresentou, no 3º trimestre de 2008, o maior decréscimo absoluto na população desempregada verificado no país (13,3%, 17,6 mil indivíduos) face ao trimestre homólogo de 2007. Do mesmo modo, a maior variação da taxa de desemprego verificada

ao

nível das NUTS II do país foi em Lisboa, tendo a respectiva taxa passado de 9,2% no 3º trimestre

de

2007 para 7,9% no trimestre homólogo de 2008. Apesar disso, em Lisboa residem 26,4% do total

de

desempregados existentes no país (INE, I.P., 2008C).

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

33

A par da variação homóloga registada ao nível do desemprego, convém também ter em conta a tendência de longo prazo, já que esta, em período de grande incerteza quanto ao funcionamento da economia e dos mercados, poderá dar uma perspectiva mais sólida do estado do mercado de trabalho nacional.

A este nível, é importante ter-se em conta que a taxa de desemprego em Portugal,

independentemente do valor médio que assumirá em 2008, aumentou progressivamente de 2001 até 2007, com uma variação total de 4,0 p.p. nesse período de tempo, e que no ano de 2007 essa taxa (8,0%) foi pela primeira vez superior à taxa de desemprego média registada na União Europeia a 27 (7,1%) tendência que, a ter em linha conta os dados actualmente disponíveis, é provável que se mantenha em 2008 de acordo com os dados do Eurostat a taxa de desemprego da UE 27 em Setembro de 2008 era de 7,0%, valor idêntico registado no trimestre homólogo de 2007 (OEFP, 2008 e Eurostat, 2008).

Por outro lado, de acordo um estudo recentemente divulgado, Portugal era em 2005 um dos países

da OCDE onde o fosso entre ricos e pobres, em termos de rendimento, era mais elevado, e a

percentagem de portugueses em situação de pobreza relativa era também superior à média dos países daquela organização. Entre as populações em maior risco de incorrer numa situação de

pobreza (ou de um acesso a menores rendimentos em geral) encontram-se os indivíduos em idade idosa (nomeadamente pessoas com mais de 75 anos de idade), adultos jovens (18 aos 25 anos), famílias monoparentais e indivíduos com baixos níveis de escolaridade e parcos níveis de especialização/formação profissional (OECD, 2008).

Finalmente, a conjuntura económica actual caracteriza-se por um forte período de crise financeira que deverá afectar fortemente as economias da UE e, em particular, o comportamento do mercado de emprego.

As previsões económicas do Outono para 2008-2010 da Comissão Europeia não obstante os

elevados riscos inerentes a qualquer análise prospectiva em contexto de crise dão conta que o

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

34

crescimento da economia mundial deverá abrandar fortemente, devendo vir a situar-se, na União Europeia, à volta dos 1,4%, em 2008, e em 0,2%, em 2009, antes de recuperar ligeiramente em 2010 (1,1%) (European Comission, 2008).

O investimento deverá cair gravemente e o consumo deverá manter-se relativamente fraco, sendo de

esperar uma descida do Produto Interno Bruto na UE no terceiro trimestre de 2008 e espera-se também que várias economias da união entrem em recessão ou evoluam para uma situação próxima.

O défice das finanças públicas deverá aumentar tanto na UE como na área do euro, mas a taxa de

inflação, pelo contrário, deverá começar a diminuir em 2009 e 2010 (idem).

Neste contexto, a previsão da comissão preconiza que a criação de emprego na UE será reduzida nos próximos dois anos ¼ milhão de empregos na UE e ½ milhão na área do euro no período 2009-2010 e que a taxa de desemprego deverá aumentar cerca de 1,0 p.p. no referido período, atingindo os 7,8% na UE já em 2009 (ibidem).

Neste contexto das coisas, de contracção das economias, de parca criação de emprego e de um expectável aumento das taxas de desemprego, será portanto de esperar um agravamento das dificuldades que se colocam ao nível das condições das famílias e, em particular, daquelas que já à partida se encontram em condições económicas e materiais frágeis e que dispõem de menos recursos (nomeadamente escolares e profissionais) para fazer face aos constrangimentos com que se debatem.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

35

Capítulo 4

SAÚDE NO VALE DE ALCÂNTARA

1. Recursos disponíveis

De acordo com o levantamento efectuado para o presente diagnóstico, uma das grandes reivindicações da população do Vale de Alcântara, por altura do processo de realojamento, estava

relacionada com a instalação de um Centro de Saúde no então recém-criado parque habitacional local (cf. entrevista V10).

A princípio, a Câmara Municipal de Lisboa procurou corresponder a tais necessidades, tendo sido construído um edifício especificamente para o efeito no extremo sul do bairro Ceuta-Norte. Essa construção, no entanto, acabaria por nunca chegar a albergar qualquer organismo de saúde do Serviço Nacional de Saúde (SNS), tendo permanecido desocupada até Julho de 2004, data em que a sua gestão é atribuída à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e que o seu espaço passa a ser utilizado pelos serviços sociais e efectivamente de saúde desta instituição (idem).

Actualmente, portanto, não tendo sido satisfeitas pelo menos por completo as pretensões iniciais da população, o Vale de Alcântara, por via da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, para além dos serviços de apoio social que ocupam parte do edifício referido, dispõe de uma Unidade de Saúde com várias valências saúde infantil e juvenil, saúde de adultos e idosos, saúde mental (também infantil/juvenil/adultos), saúde materna/planeamento familiar/ginecologia e apoio domiciliário e que abrange uma vasta área residencial que ultrapassa, em muito, o próprio Vale freguesias de Sta. Isabel, Sto. Condestável, Santos-o-Velho, Alcântara, Ajuda, Sta. Maria de Belém, S. Francisco Xavier, Campolide, Lapa e Prazeres. Não se sabe se, assim estruturado, este tipo de serviço veio responder às necessidades originais da população dos bairros do Vale de Alcântara, ainda mais porque apesar de contemplar vários tipos

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

36

de apoio a utentes em situações social ou economicamente desfavorecidas não se trata à partida de um serviço gratuito, pelo que, tanto por esse facto, como pelo desconhecimento das reais condições

(e potenciais facilidades) de acesso ao serviço por parte da população, alguns moradores continuam não recorrer a este recurso disponível na sua área residencial.

Pode-se adiantar, no entanto, que de acordo com os dados recolhidos por via do inquérito realizado, somente uma pequena percentagem da população total continua a considerar actualmente que um Centro Médico constitui um dos serviços cuja necessidade no Vale se faz mais sentir (4,0%).

Por outro lado, e independentemente do desconhecimento que alguns residentes possam ainda ter relativamente à Unidade de Saúde existente na zona, é também um facto que, em função da sua localização, mais de 50% dos seus utilizadores 8 tem como origem residencial os bairros circundantes, nomeadamente aqueles que estão integrados no Núcleo Central do Vale de Alcântara.

GRÁFICO 13 Distribuição da população residente por conhecimento e utilização de serviços de saúde (2006) (%)

100

80

60

40

20

0

47,5 70,7 34,8 9,4 59,2
47,5 70,7 34,8 9,4 59,2

47,5

70,7

34,8
34,8

34,8

34,8

9,4

34,8 9,4

59,2

39,8

47,5 70,7 34,8 9,4 59,2 39,8
47,5 70,7 34,8 9,4 59,2 39,8
20,9

20,9

14,1

14,1
47,5 70,7 34,8 9,4 59,2 39,8 20,9 14,1
47,5 70,7 34,8 9,4 59,2 39,8 20,9 14,1
47,5 70,7 34,8 9,4 59,2 39,8 20,9 14,1
47,5 70,7 34,8 9,4 59,2 39,8 20,9 14,1

Centro de

Unidade de

Hospital

Outros

Centro de

Hospital

Unidade de

Outros

Saúde

Saúde da

saúde

Saúde da

SCML

Serv iços de saúde que conhece

Fonte: Simão et al, 2008.

SCML

Serv iços de saúde que utiliza

8 Relativamente ao ano de 2007 o serviço dá conta de 4168 utentes inscritos, 6903 consultas médicas, 10360 consultas de enfermagem e 204 consultas de psicologia.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

37

Apesar disso, dados obtidos em 2006 permitem que se constate que, não obstante a consciência demonstrada ao nível dos recursos disponíveis na sua área de residência, o equipamento de saúde mais utilizado pela população local, em caso de necessidade, é, em primeiro lugar, o Centro de

Saúde 9 (59,2%), ao qual se segue o Hospital 10 (39,8%) e, somente em terceiro lugar e apesar de surgir em segundo em termos de conhecimento, a Unidade de Saúde da SCML (20,9%) (Simão et al, 2008).

Mas para além da utilização desses serviços, sabe-se também que, a par da SCML, outras instituições e projectos que intervêm no Vale 11 desenvolvem também regularmente actividades no âmbito da saúde, seja ao nível da saúde preventiva rastreios ao colesterol, glicemia, tensão arterial, sessões de esclarecimento e informação e workshops/grupos de discussão no âmbito da saúde ou acompanhamento especializado de casos acompanhamento psicológico, terapia da fala, psicomotricidade o que configura, portanto, no local, a existência, para além dos recursos correntes no âmbito da saúde, de todo um conjunto de serviços, com carácter eminentemente gratuito, de diagnóstico, esclarecimento, acompanhamento e encaminhamento da população que, tanto quanto nos foi possível avaliar, tem tido pelo menos a alguns níveis uma forte adesão da população residente 12 .

Não obstante, e como o inquérito realizado permitiu apurar, para além das dificuldades que alguns moradores em idade mais avançada (nomeadamente do bairro Ceuta-Norte) têm em deslocar-se para o Centro de Saúde de Sto. Condestável (por falta de um transporte directo para o local), um serviço de apoio domiciliário para idosos continua a ser sentido como uma necessidade para uma parte significativa da população (36,4%), especialmente onde a presença de indivíduos daquela

9 Dado que a área residencial a que nos referimos se encontra dividida por duas freguesias distintas Alcântara e Santo Condestável quando a população inquirida de diferentes bairros se refere ao centro de saúde, está no fundo a referir- se, apesar da uniformidade da designação utilizada, a dois lugares físicos diferentes, sendo que, no caso da população residente no bairro Quinta do Cabrinha esse lugar é o Centro de Saúde de Alcântara, e no caso da população residente nos bairro Ceuta-Sul e Ceuta-Norte a invocação remete já para o Centro de Saúde de Santo Condestável.

10 Hospital Egas Moniz e Hospital S. Francisco Xavier. 11 Projecto Alkantara, Associação Crescer na Maior, Linadem, Médicos do Mundo, projecto «Crescer em Rede», projecto «Fazer a Ponte».

12 Uma das instituições que realiza regularmente actividades de saúde preventiva no Vale de Alcântara contava, em Outubro de 2008, com 134 utentes inscritos.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

38

faixa etária é mais representativa e, talvez por isso, mais visível, o bairro Quinta do Cabrinha, onde a percentagem de inquiridos que sentem essa necessidade chega aos 50,6%.

Para além dessa carência, entre os inquiridos que consideraram que a introdução de lojas e serviços constitui uma necessidade fundamental do vale (60,3%), o maior consenso gerado foi em torno da abertura de uma farmácia na zona (47,7%), que permitisse o acesso mais facilitado a medicamentos por parte da população.

2. Estado de saúde da população

Já em termos do estado de saúde da população, de acordo com uma das instituições locais de referência na matéria, não parecem existir no Vale de Alcântara grandes diferenças, em termos de problemas de saúde, relativamente às problemáticas que caracterizam as populações oriundas de outras zonas habitacionais do concelho de Lisboa (cf. entrevista V10).

Em 2006 um projecto local dava conta da situação global de saúde do Vale de Alcântara, destacando que mais de metade dos agregados domésticos locais (55,3%) incluíam, pelo menos, um indivíduo com problemas de saúde, problemas esses que se situavam, na maior parte dos casos, ao nível das doenças do foro cardiovascular (48,7%), metabólico (27,0%), osteoarticular (23,4%) e/ou respiratório (13,5%) (Simão et al, 2008).

GRÁFICO 14 Distribuição dos agregados domésticos por tipo de doença presente (2006) (%)

100

80

60

40

20

0

48,7

27,0

23,4

13,5 12,6 8,1 6,3 6,3 5,4 2,7
13,5
12,6
8,1
6,3
6,3
5,4
2,7

Cardiov asculares

Metabólicas

Neurológicas

Oncológicas

Osteoarticulares

Psicológicas

Renais

Respiratórias

Outras doenças

Problema não

 

identificado

Fonte: Simão et al, 2008.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

39

Para além disso, outros dados apresentados indicavam ainda que a população do Vale de Alcântara apresentava ainda uma auto-imagem da sua condição de saúde pouco positiva, ainda que esta não se distanciasse muita auto-imagem que a generalidade da população portuguesa apresentava também, a este respeito, em 2005 (idem).

De qualquer modo, de acordo com outra instituição local com intervenção na área da saúde (entrevista V4), os principais problemas ao nível da saúde do Vale de Alcântara não estarão directamente relacionados com os problemas de saúde que afectam a população, em si, mas com outras situações problemáticas, de ordem social e económica, que acabam por ter uma influência determinante na estrutura dentro da qual os indivíduos e as famílias fazem a gestão das questões da saúde e da doença.

O que eu noto é desemprego, falta de ocupação, baixos rendimentos e tudo isso associado a determinados

comportamentos, não é? E depois aquilo que a pessoa faz quando está desocupada, desempregada (

facto, por exemplo, dos idosos terem baixos rendimentos ou terem famílias disfuncionais implica que, muitas vezes, as pequenas atenções que têm da família ou dos netos, sendo necessárias, não são suficientes, e depois não têm dinheiro para os medicamentos (entrevista V4).

O

).

Um outro indicador claro deste tipo situações é aquele que se relaciona com a falta de limpeza dos bairros. Sendo aparentemente mais sentido na Quinta do Cabrinha do que nas restantes zonas residenciais do Vale, a falta de limpeza parece constituir actualmente, do ponto de vista dos residentes, o principal problema do Vale de Alcântara (43,3% para o Núcleo Central do Vale de Alcântara, 55,7% para o bairro Quinta do Cabrinha) 13 , constituindo um elemento visível marcante dos bairros e que, conjuntamente com a degradação dos prédios, muitos moradores relacionam com falta de civismo de «alguns residentes».

Ora, esta questão é fundamental, já que pode ser indicativa do modo como os indivíduos encaram a dimensão da gestão da ocupação do (novo) espaço residencial, em geral, mas também das práticas de higiene e saúde (pública), em particular. Deixando de parte a omnipresença de dejectos caninos em algumas zonas dos bairros, o aparecimento de piolhos em algumas crianças do bairro Quinta do

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

40

Cabrinha, por exemplo, tem sido um problema relativamente recorrente desde pelo menos 2006, e de difícil tratamento, já que a situação é frequentemente ignorada pelos seus cuidadores, e a abordagem directa das situações existentes pelos técnicos presentes corre o risco de ser por estes mal entendida.

Tratam-se portanto de situações estruturais, seja do ponto de vista económico, seja do ponto de vista das competências básicas de higiene e sociabilidade, mas que, mais do que a estrutura de recursos médicos disponíveis para os indivíduos, configuram situações passíveis de ter um impacto (potencial ou efectivo) muito significativo no estado saúde da população.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

41

Capítulo 5

O VALE DE ALCÂNTARA VISTO POR DENTRO

1. O Vale de Alcântara visto por dentro aspectos positivos e negativos dos bairros

De acordo com dados de um inquérito realizado em 2006, a população residente no Núcleo Central do Vale de Alcântara é oriunda sobretudo ou do antigo Casal Ventoso (64,3%) ou de outra zona de Alcântara ou Santo Condestável (27,2%). Trata-se, sobretudo, de uma população que veio residir para o Vale de Alcântara logo que os bairros foram construídos (84% dos inquiridos afirmaram no inquérito que residiam naquele lugar desde o processo de realojamento) e que, em grande parte, tem familiares a viver na mesma área de residência (64,8% em 2006, 70,0% em 2008) (Simão et al,

2008).

Ao contrário de outros contextos de realojamento, em que frequentemente se verifica, nas populações realojadas, um sentimento de desgosto pelo bairro e, simultaneamente, de satisfação pelas condições proporcionadas pela nova habitação. A maioria da população do Vale de Alcântara refere que gosta de morar no bairro em que vive (62,8%), uma realidade se reflecte de bairro para bairro, ainda que com algumas variações.

GRÁFICO 15 Distribuição da população residente pelo gosto pelo bairro, por bairro de residência (%)

100

80

60

40

20

0

66,9 62,8 62,5 56,0 44,0 37,2 37,5 33,1
66,9
62,8
62,5
56,0
44,0
37,2
37,5
33,1
66,9 62,8 62,5 56,0 44,0 37,2 37,5 33,1
66,9 62,8 62,5 56,0 44,0 37,2 37,5 33,1

Vale de Alcântara

Quinta do Cabrinha

Ceuta-Sul

Ceuta-Norte

Gosta do bairroVale de Alcântara Quinta do Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte Não gosta do bairro Fonte: Inquérito à população

Não gosta do bairroQuinta do Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte Gosta do bairro Fonte: Inquérito à população do Vale de Alcântara,

Fonte: Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

42

Assim, são os indivíduos que moram no bairro Ceuta-Norte aqueles que em maior grau gostam do bairro onde residem (66,9%) e os da Quinta do Cabrinha aqueles que em menor grau referem gostar do seu bairro (56,0%). Coerentemente com aquela teoria, no entanto, está o facto de serem muito mais os que referem que gostam da casa em que vivem (94,3%) do que os que gostam do bairro em que vivem.

No que diz respeito aos principais aspectos positivos evidenciados pela população a respeito dos da sua zona de residência encontram-se, por ordem decrescente de importância, a qualidade e as condições das habitações (42,6%), as acessibilidades, transportes e localização (37,5%) e, finalmente, as relações entre as pessoas/vizinhos (20,6%). Por outro lado, são muitos, aqueles que consideram que não «vêem» nada de positivo na zona em que vivem (19,1%).

GRÁFICO 16 Principais aspectos positivos do Vale de Alcântara, por bairro de residência (%)

100

90

80

70

60

50

40

30

20

10

0

57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1
57,0
42,6
40,5
38,3
37,5
33,8
32,3
31,6
27,7
26,6
23,1
21,1
20,6
20,3
19,1
18,4
17,7
18,0

9,2

10,9

57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4
57,0 42,6 40,5 38,3 37,5 33,8 32,3 31,6 27,7 26,6 23,1 21,1 20,6 20,3 19,1 18,4

Acessibilidades, localização,

Qualidade e condições das

Relações entre as

Rendas acessív eis

Nada

transportes

habitações

pessoas/v izinhos

Nada transportes habitações pessoas/v izinhos Vale de Alcântara Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte Fo

Vale de Alcântara

habitações pessoas/v izinhos Vale de Alcântara Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte Fo nte: Inquérito à

Qta. Cabrinha

pessoas/v izinhos Vale de Alcântara Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte Fo nte: Inquérito à população do

Ceuta-Sul

Ceuta-Nortepessoas/v izinhos Vale de Alcântara Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Fo nte: Inquérito à população do Vale de

Fo

nte: Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Já entre os principais problemas sentidos pela população estão sobretudo a falta de limpeza (48,4%), a degradação dos prédios (29,8%), a toxicodependência/tráfico de drogas (19,9%), o barulho (19,5%) e ainda a delinquência juvenil (11,4%).

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

43

A falta de limpeza aliás, aparece como o problema mais referenciado pelos habitantes dos três bairros do Vale de Alcântara, sendo mais premente no bairro Quinta do Cabrinha (55,7%) do que nos bairros Ceuta-Norte e Ceuta-Sul (39,1% e 36,9%, respectivamente).

Outros problemas bastante referenciados de forma transversal aos bairros de intervenção são a degradação dos prédios Ceuta-Sul (38,5%), Quinta do Cabrinha (35,4%), Ceuta-Norte (21,9%) e a toxicodependência/tráfico de droga, o barulho e a delinquência juvenil, especialmente sentidos no bairro Ceuta-Norte (26,6%, 25,8% e 18,0%, respectivamente).

GRÁFICO 17 Principais problemas do Vale de Alcântara, por bairro de residência (%)

100

90

80

70

60

50

40

30

20

10

0

55,7 43,4 39,1 38,5 36,9 35,4 29,8 26,6 25,8 21,9 19,9 19,5 18,0 16,5 13,9
55,7
43,4
39,1
38,5
36,9
35,4
29,8
26,6
25,8
21,9
19,9
19,5
18,0
16,5
13,9
13,8

10,8

11,4

8,9

1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5
1,5

Falta de limpeza

Degradação dos prédios Vale de Alcântara
Degradação dos prédios
Vale de Alcântara

Tox icodependência/tráfico

prédios Vale de Alcântara Tox icodependência/tráfico de drogas Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Barulho Ceuta-Norte

de drogas

Qta. Cabrinha

Tox icodependência/tráfico de drogas Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Barulho Ceuta-Norte Delinquência juv enil Fonte:

Ceuta-Sul

icodependência/tráfico de drogas Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Barulho Ceuta-Norte Delinquência juv enil Fonte: Inquérito

Barulho

Ceuta-Norte

Delinquência juv enil

Fonte: Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Finalmente, quando se trata de indicar as principais medidas a tomar que poderiam contribuir para atenuar os problemas verificados, os maiores consensos formados são gerados em torno de um maior desempenho e proximidade das principais entidades com responsabilidades pelos bairros (principalmente a Câmara Municipal de Lisboa e a Gebalis) (39,3%), de uma maior regularidade e frequência na limpeza dos bairros (28,3%), da construção e melhoramento de infraestruturas (27,9%), de um reforço quantitativo e qualitativo da intervenção policial nos bairros (23,9%), e ainda da criação de serviços e comércio (22,4%) e mais civismo dos residentes (21,3%).

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

44

GRÁFICO 18 Principais medidas para atenuar os problemas existentes (%)

100

80

60

40

20

0

55,4

39,3

45,6

35,4

37,5

32,8

43,1

55,4 39,3 45,6 35,4 37,5 32,8 43,1 29,1 28,3 28,1 27,7 27,9 25,3 25,8 23,9 24,1
55,4 39,3 45,6 35,4 37,5 32,8 43,1 29,1 28,3 28,1 27,7 27,9 25,3 25,8 23,9 24,1
29,1 28,3 28,1 27,7 27,9 25,3 25,8 23,9 24,1 22,4 21,3 20,3 16,9 15,6 15,2
29,1 28,3 28,1 27,7 27,9 25,3 25,8 23,9 24,1 22,4 21,3 20,3 16,9 15,6 15,2
29,1
28,3
28,1
27,7
27,9
25,3
25,8
23,9
24,1
22,4
21,3
20,3
16,9
15,6
15,2
9,2
8,9

Maior desempenho e

prox imidade de entidades

Maior regularidade e

frequência na limpeza dos

Construção e

melhoramento de

Maior e melhor

interv enção da polícia nos

Criação de serv iços e

comércio

Mais civ ismo dos

residentes

com responsabilidades

bairros

infraestruturas

 

bairros

pelos bairros

 
  Vale de Alcântara Qta do Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Vale de Alcântara

  Vale de Alcântara Qta do Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Qta do Cabrinha

  Vale de Alcântara Qta do Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Ceuta-Sul

  Vale de Alcântara Qta do Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Ceuta-Norte

Fonte: Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Já no que diz respeito aos serviços que mais falta faz na zona de residência em que habitam, a maior parte dos inquiridos considera que são sobretudo lojas e serviços (60,3%), apoio escolar a crianças e adolescentes (40,1%), apoio domiciliário (36,4%), serviços de apoio à procura de emprego (29,4%) e ateliers e cursos de educação/formação (17,3%).

GRÁFICO 19 Principais serviços que fazem falta no Vale de Alcântara (%)

100

80

60

40

20

0

70,3 66,2 60,3 51,9 50,6 40,1 39,2 36,7 36,4
70,3
66,2
60,3
51,9
50,6
40,1
39,2
36,7
36,4
70,3 66,2 60,3 51,9 50,6 40,1 39,2 36,7 36,4 32,3 31,3 30,5 30,4 29,2 29,4 26,2
70,3 66,2 60,3 51,9 50,6 40,1 39,2 36,7 36,4 32,3 31,3 30,5 30,4 29,2 29,4 26,2
70,3 66,2 60,3 51,9 50,6 40,1 39,2 36,7 36,4 32,3 31,3 30,5 30,4 29,2 29,4 26,2
32,3 31,3 30,5 30,4 29,2 29,4 26,2 19,5 17,7 17,3 12,3
32,3
31,3
30,5
30,4
29,2
29,4
26,2
19,5
17,7
17,3
12,3

Lojas e serv iços

Apoio escolar para

 

Apoio domiciliário

 

Apoio na procura de

Ateliers e cursos de

crianças e adolescentes

 

emprego

educação/formação

 
  Vale de Alcântara Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Vale de Alcântara

  Vale de Alcântara Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Qta. Cabrinha

  Vale de Alcântara Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Ceuta-Sul

  Vale de Alcântara Qta. Cabrinha Ceuta-Sul Ceuta-Norte

Ceuta-Norte

Fonte: Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

Diagnóstico Sociodemográfico e Económico do Vale de Alcântara

45

Entre as lojas e serviços elencados encontram-se fundamentalmente uma farmácia (51,9%), estabelecimentos comerciais de produtos variados (65,8%) supermercado (33,5%), minimercado/mercearia (32,3%) e ainda, já para uma menor parte da população, um talho (16,1%), uma peixaria (12,3%) ou uma padaria (10,3%).

GRÁFICO 20 Principais lojas e serviços que fazem falta no Vale de Alcântara (%)

100

90

80

70

60

50

40

30

20

10

0

47,7

33,5

32,3

16,1

12,3

10,3

47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3
47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3
47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3
47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3
47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3
47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3
47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3
47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3
47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3
47,7 3 3 , 5 32,3 16,1 12,3 10,3

Farmácia

Supermercado

Minimercado/mercearia

Talho

Peix aria

Padaria

Fonte: Inquérito à população do Vale de Alcântara, 2008.

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Capítulo 6

POLÍTICAS E PRÁTICAS DE INTERVENÇÃO NO VALE DE ALCÂNTARA

1. Vale de Alcântara, uma zona privilegiada de intervenção?

Como se tem vindo a dar conta no presente relatório de investigação, a zona do Vale de Alcântara e, em particular, o seu Núcleo Central, constituído pelos bairros aqui em diagnóstico Quinta do Cabrinha, Ceuta-Sul e Ceuta-Norte não constitui um terreno desconhecido no âmbito da intervenção social, isto é, da acção que visa como já se disse anteriormente promover a integração, a vários níveis, dos indivíduos e famílias/grupos domésticos ali residentes considerados em situação de exclusão social.

Desde logo, trata-se da zona habitacional que alberga a população outrora residente no antigo Casal Ventoso e que ali foi realojada após o processo de demolição daquele bairro, marcadamente conotado com o tráfico de droga e a criminalidade.

Trata-se também de uma zona integrada pelo programa de iniciativa comunitária URBAN, tendo sido caracterizada como uma zona com elevados níveis de exclusão social e sido aprovados, entre os anos 2000 e 2008, vários projectos/iniciativas que visam exactamente promover o desenvolvimento social e urbanístico da zona.

Do mesmo modo, e no que se refere somente ao seu Núcleo Central, bastará um passeio pedonal pela zona para se dar conta do número volumoso (por área) de instituições de cariz associativo que têm sede naquele lugar ou nas suas proximidades. De acordo com o levantamento efectuado, foram identificadas 43 instituições, de naturezas e objectivos muito diversos, desde associações e clubes desportivos, organizações não governamentais para o desenvolvimento (ONGD), instituições particulares de solidariedade social

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(IPSS), associações de doentes, de cidadãos portadores de deficiência, associações ou sindicatos de profissionais de diferentes áreas, associações culturais ou científicas ou associações de imigrantes.

Para além disso, assentes em parcerias formadas por instituições locais e em alguns casos não locais, foram também recenseados pelo menos 6 projectos de intervenção, actualmente em curso, no Vale de Alcântara, com naturezas e fontes de financiamento diversas, que focam essencialmente públicos infanto-juvenis (no caso de 5 dessas iniciativas) ou institucionais (1 projecto).

Saliente-se, no entanto, ainda ao nível das instituições presentes no Vale, que para além de alguns espaços ocupados nos bairros se encontrarem frequentemente encerrados ou, em alguns, até mesmo numa situação relativo abandono (facto que, em certos contextos, tem merecido críticas por parte da população residente, que considera que os espaços deviam ser reutilizados para a disponibilização de serviços úteis à população 14 ), outras organizações sedeadas no local ou não desenvolvem actividades junto da população residente, ou fazem-no somente de forma muito esporádica. Por outro lado, verifica-se também o caso de instituições cujo âmbito de intervenção não se restringe ao Vale de Alcântara, mas tem uma abrangência maior que em alguns casos pode ser ao nível da freguesia, ou de parte ou totalidade do Concelho de Lisboa, de vários municípios do distrito ou ainda a nível nacional.

Para além disso, em certas instituições, deu-se ainda o caso da intervenção local ser proporcionada justamente pela própria implementação geográfica da organização no Vale, ou seja, a instituição não veio para o Vale de Alcântara para intervir, mas começou a intervir no Vale de Alcântara justamente porque se deu conta das necessidades existentes a partir do conhecimento do terreno, após a sua implementação no local.

É uma lógica de espaço (

provavelmente

estávamos no bairro

) a autarquia cedeu-nos este espaço porque era o que estava disponível na altura

não teve objectivo nenhum relativamente a intervenção no próprio bairro (

(Entrevista V6)

e portanto

as coisas extrapolaram-se para a comunidade

)

14 “Vieram para aqui todas as associações de Lisboa. O Dr. hoje não tem que ter dúvidas, quando ouvir falar de uma associação ou quando tiver que se deslocar a uma associação, pode ter a certeza que está aqui na Quinta do Loureiro.

) (

carne

No entanto aquilo que fazia falta aqui às pessoas não há. Um minimercado que vendesse peixe, que vendesse

(Entrevista V7)

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Feitas as devidas ressalvas, portanto, a partir destas instituições e dos projectos delas imanentes, o Vale de Alcântara, ao nível da acção social, apresenta-se, por altura da realização deste diagnóstico, como um lugar que congrega vários tipos de resposta para a população local.

QUADRO 5 Tipos de resposta local disponíveis

Âmbito de intervenção

Actividades

Prevenção da toxicodependência e minimização de riscos/danos entre a comunidade toxicodependente

Ocupação e orientação de crianças e jovens, actividades desportivas, centro ocupacional para arrumadores

Saúde preventiva

Realização regular de rastreios, sessões de esclarecimento e informação no âmbito da saúde (educação para a saúde), actividades desportivas

Prevenção de comportamentos desviantes e de situações de risco entre crianças, jovens e suas famílias

Actividades lúdicas e desportivas, cursos de competências pessoais e sociais, cursos de competências parentais, orientação vocacional e profissional, apoio na construção de projectos de vida, terapia da fala, psicomotricidade apoio psicológico e educacional

Apoio à população idosa

Centro ocupacional, apoio domiciliário, apoio psicológico e social, actividades de ocupação de tempos livres

Promoção da empregabilidade da população jovem e adulta

Estudo acompanhado, orientação vocacional e profissional de crianças e jovens, apoio na construção de projectos de vida, apoio psicológico e educacional, cursos de informática, cursos profissionais, RVCCs

Fonte: Entrevistas, documentos vários respeitantes às instituições e projectos presentes no Vale de Alcântara.

Junte-se a isto a intervenção de instituições não locais como a Direcção Local de Acção Social de Lisboa Ocidental da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), ou de instituições de carácter público como a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco de Lisboa Ocidental (que aliás funciona em estreita articulação com Equipa de Crianças e Jovens em Risco da SCML), as autarquias ou a Gebalis que, apesar de em alguns casos (a Gebalis é aqui a excepção) não desenvolverem quaisquer tipos de actividades específicas direccionadas para aquela população particular, acabam também por disponibilizar um conjunto de serviços bastante alargado ao nível da acção social apoio à população idosa, acompanhamento directo e sistemático de crianças e jovens em risco, apoio ao nível da saúde, avaliação e encaminhamento de casos, apoio financeiro, esclarecimento e informação da população sobre temas vários, ocupação de tempos livres, apoio à família, apoio escolar, etc.

São, portanto, vários e muito diversificados os tipos de respostas existentes no Vale de Alcântara e que podem ser utilizados pela população em caso de necessidade. Mas se essas respostas existem e se encontram disponíveis, a adesão da própria população às actividades e serviços disponíveis,

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parece constituir, sobretudo nos casos em que essa adesão é voluntária e não remunerada, um factor de risco do sucesso das iniciativas realizadas.

De facto, quando questionados directamente sobre a receptividade da população relativamente às actividades de intervenção social, a maioria das instituições entrevistadas responde positivamente, que existe de facto receptividade por parte da população. No entanto, outras afirmações proferidas durante as entrevistas são indicativas de que essa receptividade não é extensiva, em todos os casos, nem a todos os grupos populacionais nem a todos os tipos de actividade. No excertos das entrevistas seguintes os entrevistados dão conta das principais dificuldades com que as instituições se defrontam frequentemente ao nível do desenvolvimento das suas actividades.

Imensas [dificuldades]. Porque as pessoas inscrevem-se para aderir e quando começamos não aparece ninguém. Tivemos aqui algumas acções de formação, fizemos a divulgação, as pessoas inscreveram-se e quando foi

Não sei o que fazer! Nós falamos

com as pessoas, convidamo-las, chamamo-las, dizemos que

gratuito, as pessoas inscrevem-se, (

que é bom para as pessoas, informamo-las que é

as pessoas não aparecem, que mais podemos fazer? Não podemos ir

busca-las a casa, não é? É difícil. (Entrevista V5)

começar não apareceu ninguém. E não foi uma vez, nem duas, nem três. (

)

)