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#Unico His Brenda Rothert

Enviado por

Erica Garcia
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Tradução: Hera/Cris

Revisão Inicial: Anna Paula/Monaisa


Revisão Final: Flávia R./Janaina
Leitura Inicial: Iris/Luma
Leitura Final: Anfitrite/Higia
Conferência: Mitra
Formatação: Kytzia/Cibele
Disponibilização:
Grupo Rhealeza Traduções
03/2019
Quinn
Eu diria que estou com pouca sorte, mas isso é um
eufemismo. Estou lisa, sem teto, faminta e escondida com
minha irmãzinha, aos 21 anos nunca estive tão desesperada.
Cheguei ao fundo do poço quando recebi uma oferta que
não posso recusar. Vender meu corpo para salvar minha
irmã? Não há nada que eu não faça para mantê-la segura. Eu
faço as regras e não tenho medo de me defender se esse cara
rico cruzar a linha. Mas uma vez que vejo sob sua fachada
fria e calculista, as linhas não são mais tão claras.

Andrew
Ela é uma mistura inebriante de força e vulnerabilidade
que eu nunca conheci antes. Esta mulher sem-teto que não
se encaixa no meu mundo de classe alta está fugindo de
alguém poderoso, e eu farei o que for preciso para protegê-
la. Mas Quinn não é para ser controlada, então sou forçado a
escolher entre possuí-la e amá-la. Eu finalmente encontrei o
meu jogo, e farei o que for preciso para torná-la realmente
minha.
PRÓLOGO
28 de setembro de 2001
Andrew

Dezessete dias atrás, minha vida pegou fogo.

Dois aviões. Duas torres. Nada será como antes.

O fogo no Marco Zero ainda está ardendo, e em algum lugar


embaixo das pilhas de escombros está meu pai. Eu quero que eles o
encontrem? Na primeira semana, eu queria. Eu ficava em casa em
vez de ir para escola e todos os dias olhava para a TV, rezando para
vê-los puxar meu pai do que sobrou.

Eu disse a mim mesmo repetidamente que ele não podia ter


ido embora. David Wentworth era forte demais para ser derrubado
assim. Ele mostraria a todos eles. Meu pai sairia rastejando da pilha
de escombros, ainda usando seu terno escuro. Ele provavelmente
puxaria outras pessoas também. Meu pai é assim. Ele faz coisas que
as pessoas dizem serem impossíveis.

Mas na segunda semana, minha mãe disse que eu tinha que


voltar para a escola. Quando eu disse a ela que não iria porque
estava esperando meu pai ser resgatado, seus ombros caíram.

—Ele se foi, Andrew.

—Você não sabe disso. Papai é um lutador.

Ela balançou a cabeça. —Eu sei que é difícil para um menino


de 13 anos conseguir entender. Eu sei. Você quer que ele esteja aqui
e eu também. Mas ele se foi. É só você e eu agora.
Eu olhei para ela, minha garganta queimando. Como ela podia
desistir dele assim? Eu nunca desistiria do meu pai. Voltei ao meu
lugar em sua poltrona de couro favorita em nossa sala de estar e
aumentei o volume do noticiário na TV.

Mas depois de duas semanas, meu conselheiro da escola veio à


nossa casa para me ver. Ele franziu a testa e me disse que ninguém
poderia sobreviver por duas semanas lá. Então me deu um panfleto
escrito “Está tudo bem chorar”. Eu amassei seu conselho sobre o luto e
joguei no lixo.

Eu não choraria. Meu pai não iria querer isso. Ele sempre me
disse que o verdadeiro valor de um homem era sua determinação.

“Erga a cabeça, Andrew. Você é um Wentworth. Somos feitos de aço.”

Hoje estamos fazendo uma cerimônia para ele. Manterei


minha cabeça erguida e minhas costas retas. Quando olho para as
fotos de família de meus pais e eu, sobre uma mesa comprida na
casa funerária, meus olhos começam a lacrimejar e eu aperto minha
perna pelo bolso da calça. A picada ardente na minha coxa me deixa
com raiva em vez de triste.

Melhor. Papai costumava gritar com as pessoas de sua


empresa às vezes, então sei que ele não se importaria por eu estar
com raiva. À noite, quando estou olhando para as estrelas que eu e
meu pai colocamos no meu teto quando eu era pequeno, meu
estômago revira e dói com a raiva que sinto pelos homens que
mataram meu pai.

Eles assassinaram milhares de pessoas. Eu não sou a única


criança sem pai agora. Todo mundo está com medo.

Nada será como antes.


Minha mãe cobre a boca com a mão, chorando quando uma
de suas amigas toca o seu braço e fala com ela. Eles também fizeram
isso. Eles fizeram minha mãe chorar. Meu pai não suportaria isso.

Já que ele se foi, eu tenho que ser o forte agora. Eu tenho que
cuidar da minha mãe como ele faria. Eu tenho que pensar sobre o
que meu pai iria querer para nós. Eu tenho que manter firme a
minha necessidade de que aqueles homens paguem pelo que fizeram
a ele.

Os bombeiros acabarão por extinguir o fogo latente no Marco


Zero, mas o fogo que queima dentro de mim nunca apagará.
CAPÍTULO UM
Outubro de 2015
Quinn

Não há nada de bom na lixeira do Mauricio's hoje à noite.


Pedaços duros de massa de pizza não consumida e espaguete frio
coberto com azeite de oliva são as únicas coisas comestíveis que
encontrei até agora. E não vai melhorar se eu revirar mais. Então,
por que ainda estou rasgando sacos de lixo nesta noite fria?

Porque minha irmãzinha está com fome. Eu ainda posso ver a


esperança que brilhava em seus enormes olhos azuis quando saí para
procurar comida mais cedo. Se nós aprendemos uma coisa em
nossos quatro anos nas ruas de New York, é que fome e frio são
realidades, mas enfrentá-los ao mesmo tempo é uma merda.

Subo em uma pilha de lixo amontoado próximo à lixeira


enferrujada, apoiando meu pé em uma pilha de caixas de pizza
vazias. Meu cabelo bate no meu rosto quando a brisa fria sopra.

O outono é a temporada que menos gosto agora. Eu adorava


quando era criança, pois significava cidra quente e picante, pilhas de
folhas secas para andar e jogos de futebol para torcer.

Mas agora, outono significa que o temido e amargo inverno


está a caminho. Vou passar meus dias levando Bethy de um lugar
público aquecido para outro em um esforço para nos mantermos
aquecidas. À noite, vamos dormir no subsolo. O frio lá embaixo não
é uma ameaça à vida, mas algumas pessoas são.
Estou tão cansada. Isso me atinge de uma só vez, e eu caio
contra um saco de lixo cheio. Ontem à noite nós fomos expulsas do
parque e perseguidas por um grupo de garotos de fraternidade
ameaçando estuprar Bethy e eu. Se não houvesse nove deles, meu
amigo Bean e eu tiraríamos os sorrisos arrogantes de seus rostos.

Malditos garotos ricos. O senso de direito deles é


impressionante.

Eu suspiro e rastejo de volta pela montanha de lixo. O barulho


de uma sirene aproxima-se enquanto pego um saco plástico do
bolso e coloco o espaguete frio nele.

É comida, e Bethy não vai reclamar. Nós duas já comemos


coisa pior para afastar a dor da fome.

Eu fecho meus olhos, empurrando a onda de raiva dentro de


mim. O cansaço não vai embora se eu dormir bem esta noite. É
profundo, vai até os ossos. Estou cansada de correr. Cansada de
alimentar minha irmã com restos de comida que outras pessoas
jogaram fora. Cansada de me perguntar se o inferno do qual eu a
salvei é pior do que para o qual eu a trouxe.

Pensar nisso vai me esgotar. Eu afasto os pensamentos para


longe, envolvo minhas mãos ao redor da beira da lixeira e balanço
minha perna.

Mais dois anos. É nisso que eu me concentro. Em pouco mais


de dois anos, Bethy completará dezoito anos e poderemos ter uma
vida real. Eu vou conseguir um emprego e ela vai voltar para a
escola. Vamos parar de correr e olhar sobre nossos ombros
constantemente. Nós não vamos para a cama com fome ou com frio
nunca mais. Eu vou me certificar disso.
O beco está tranquilo. Sou apenas eu e um cara gordinho
fumando um cigarro, o brilho laranja de sua ponta na escuridão. Eu
abaixo minha cabeça e enfio as mãos nos bolsos do meu casaco.

—Ei. —A voz do homem é profunda e insistente. Eu não


olho para ele.

—Ei, estou falando com você. —Desta vez, ele agarra meu
braço. Eu tento me afastar do aperto dele e dou um impulso no
chão para fugir, mas o braço dele se fecha ao meu redor.

—Qual é o seu maldito problema? —Seu hálito quente cheira


a cigarro e alho, e eu me viro quando ele atinge o meu rosto.

Eu me debato, lutando para escapar do seu aperto. Ele ri de


mim. —Garota difícil, hein?

Ele é grande e não posso impedi-lo de jogar meu corpo


franzino contra uma parede de tijolos. Quanto mais luto, mais ele ri.

—Solte-me. —Digo em um tom uniforme. Ele pressiona


meus braços contra a pedra fria com tanta força que queima, e ele ri
um pouco mais.

—Você acha que é boa demais para mim?

Eu o chuto na canela e ele puxa meus braços para frente e


depois me bate contra a parede novamente. O impacto estremece
meus dentes e me faz perder o fôlego.

E agora estou irritada.

—Por favor, não me machuque. —Digo baixinho.

—Assustada agora, não é? —A satisfação em seu tom faz


minha adrenalina subir. —É melhor você ficar.

—Eu farei o que você quiser. Somente... por favor, não me


machuque. —Minha voz treme e ele relaxa seu aperto sobre mim.
Levo menos de um segundo para acertá-lo com meu joelho
em sua virilha e pegar a faca no coldre da minha perna. Em um
movimento rápido demais para essa banha de porco ver, muito
menos bloquear, puxo e afundo a lâmina em seu intestino. De
surpresa, mais difícil de bloquear. Se eu quisesse matá-lo, eu tiraria
rapidamente e o esfaquearia novamente com os golpes fortes e
rápidos que Bean me ensinou. Mas ele não vale a pena.

Há resistência por conta de sua roupa e pele, mas depois de


passar por isso, é uma viagem suave através de camadas de gordura.
Meus músculos do braço formigam enquanto seguro a faca no lugar
por alguns segundos.

Eu vejo seus olhos arregalarem-se. Sua boca se abre enquanto


ele olha para mim em descrença.

—Sua puta. —Ele murmura. Eu não sou gentil quando pego


minha faca. Ele grita e coloca as mãos sobre a ferida. Eu
rapidamente passo os dois lados da minha lâmina em sua camisa
para limpá-la.

Ele pega meu pulso, mas eu sou mais rápida. Dou um soco em
seu rosto carnudo antes mesmo de ele perceber o que estou
fazendo.

—Quer um pouco mais? —Pergunto, mostrando a ponta da


minha lâmina.

—Não. —Ele recua alguns passos, balançando a cabeça.

Eu arqueio minhas sobrancelhas para ele. —Quem está com


medo agora?

Eu não espero por uma resposta. Em vez disso, eu me viro e


sigo para a rua, onde mais uma vez as sirenes soam à distância.
Minha faca está escondida em segurança mais uma vez, volto
meus pensamentos para Bethy e Bean. Vai fazer frio esta noite. Por
mais que eu odeie fazer isso, é hora de voltarmos ao subsolo.

Andrew

É possivelmente a pior apresentação de vendas que já vi. O


cara tentando me vender sua empresa de software deu uma bola
fora quando não se apresentou para mim. E agora ele está batendo o
pé no chão como se estivesse prestes a mijar nas calças ou algo
assim. Segunda bola fora.

—Essa coisa pode ser enorme. Você sabe o que estou


dizendo, Sr. Wentworth? —Ele me pergunta, sorrindo.

—De modo nenhum.

Seu sorriso desaparece e ele pigarreia. —Hum, bem... como eu


disse, já fiz quase um milhão nisso.

—Quanto você fez? Precisamente?

Seu pomo de Adão balança enquanto ele engole. —Setecentos


mil ou mais... Senhor.

Eu franzo minhas sobrancelhas. —Setecentos e vinte e um mil


e onze dólares. Isso é de acordo com a documentação que seu
contador preparou e encaminhou para mim a seu pedido.

Ele concorda. —Parece correto.


—Parece correto? —Eu seguro um suspiro de desgosto. —
Esta é provavelmente a maior reunião da sua vida até hoje, e você
não tem a resposta para essa pergunta crítica preparada?

—Bem, eu... Eu sabia que estava nos documentos, então...

—Setecentos e vinte mil não chegam perto de um milhão para


ser chamado de “perto de um milhão”. Especialmente quando você
subtrai suas despesas iniciais desse número. O fluxo de caixa deste
empreendimento é quase inexistente neste momento.

Ele silenciosamente admite meu ponto. —Ainda tem muito


potencial.

Estou prestes a expor uma verdade dura e fria quando minha


secretária, Susan, abre a porta. —Desculpe interromper, Sr.
Wentworth, mas Preston McCoy está aqui e ele diz que é urgente.
—Meu estômago aperta em um nó de tensão enquanto eu me
levanto e abotoo meu paletó.

—Vá em frente. —O homem sem nome oferece, sentando-se


no sofá de couro do meu escritório. —Eu vou ficar aqui.

Sua sugestão de que eu vou sair do meu próprio escritório


enquanto ele “fica” aqui é sua terceira bola fora. —Obrigado pelo
seu tempo. —Digo, indo para a porta.

—Oh. —Sua expressão fica desanimada. —Nós terminamos,


então?

Ele empilha os cartazes e guarda o laptop em sua sacola de


lona coberta com botons defendendo a legalização da maconha.

—Então... quando saberemos? —Ele pergunta.

Eu encontro o olhar de Carla, uma de minhas vice-presidentes,


e posso dizer que ela está segurando um sorriso. —Eu não estou
interessado em comprar sua empresa. —Digo, soletrando.
—Mesmo?

Susan coloca a mão no ombro dele e o empurra do meu


escritório antes que eu exploda. —Como diabos ele conseguiu essa
reunião? —Pergunto a Carla.

—Sua mãe é amiga da mãe dele.

Eu apenas olho para ela por um segundo. —Minha mãe


arrumou isso?

—Bem... ela perguntou se você doaria para o banquete da liga


do hospital, e então ela disse a Susan que aceitaria uma hora do seu
tempo no lugar da doação monetária.

Minha mãe só aceita a palavra não quando alguém diz: "Não


tem problema, Sra. Wentworth." Puxei muito da minha tenacidade dela,
mas não posso deixar com que ela use meu tempo dessa maneira.
Eu faço uma nota mental para discutir isso com ela.

Preston McCoy entra no meu escritório, com menos cabelos


grisalhos do que da última vez que o vi. —Andrew. Carla. —Ele nos
cumprimenta com apertos de mãos e Carla sai. O olhar de Preston
permanece fixo em sua bunda enquanto ela anda. O velho
pervertido nem disfarça.

—Então. —Diz ele, sentando-se em uma das poltronas de


couro em frente à minha mesa.

Eu levanto a mão para detê-lo, vou até a porta do meu


escritório e fecho. Susan geralmente garante que minha porta fique
fechada para reuniões, mas ela provavelmente ainda está se livrando
do defensor da erva.

Preston espera que eu desabotoe meu paletó e que me sente.


Eu encontro seu olhar, não deixando que meu estômago fique
agitado, pronto para derramar seu conteúdo. Eu sei por que ele está
aqui. Ele tem a resposta pela qual tenho esperado sete longos meses.

—Os resultados do teste de paternidade estão prontos, e você


não está de forma alguma relacionado ao filho da Sra. Henley.

Sinto como se algo dentro de mim estivesse se liquefazendo de


tanto alívio. Obrigado, porra. Eu pressiono minhas palmas suadas
nas minhas coxas e espero Preston continuar.

—A senhora Henley desistiu de seu pedido de pensão


alimentícia. Acabou, Andrew.

Eu aceno. —Bom. Obrigado por ter vindo com as notícias.

—Claro. Eu posso registrar uma reclamação pelos dez mil por


mês que você forneceu como apoio durante a gravidez.

Ainda posso ver o lábio inferior de Amber Henley tremendo


quando me disse em minha cozinha que nosso único encontro
sexual a engravidara, e não havia dúvida de que eu era o pai do bebê
que ela carregava. O meu mundo caiu naquele dia. Aos vinte e oito
anos, eu estava apenas acertando o passo com a minha companhia.
Sem mencionar que ela não era alguém com quem eu me via a longo
prazo.

Eu realmente fodi aquela criança antes mesmo de ela nascer.


Não estava apaixonado por sua mãe e não estava pronto para ser
pai. Eu passei os últimos sete meses me odiando por isso.

E depois de tudo, Amber estava mentindo. Eu não posso nem


ficar bravo com isso porque o alívio domina todo o resto.

—Eu não me importo com o dinheiro. —Digo a Preston. —


Como você disse, acabou.

Ele arqueia as sobrancelhas em um olhar crítico. —Bem,


talvez isso seja uma lição para você.
—Eu não estou te pagando mil por hora para ter lições de
vida. —Digo, com o tom áspero. —Agora, se você me der
licença.

—Claro. Peço desculpas. —Ele se levanta e sai do meu


escritório, fechando a porta atrás de si.

Eu viro minha cadeira em direção à janela e olho para a


extensão da parede lateral.

Acabou. Eu não errei com um possível filho. Eu não tenho mais


que lidar com Amber. Se eu chorasse, eu choraria de alívio agora.

Em vez disso, suspiro profundamente e deslizo a mão sobre a


leve barba cobrindo minhas bochechas.

Nunca mais cederei o controle da minha vida a uma mulher


dessa maneira. Eu não vou dar a Preston a satisfação de admitir que
isso foi uma lição para mim. De agora em diante, eu dou todas as
cartas.
CAPÍTULO DOIS
Quinn

Eu esqueci como era escuro nos túneis. É o tipo de escuridão


total onde você nem consegue ver a sua mão na frente do próprio
rosto. Eu ouço os sons de Bethy e Bean respirando ao meu lado e o
leve ruído das pessoas falando à nossa frente.

—Eu odeio esse lugar. —Bethy diz, seu tom baixo quase um
sussurro.

—Melhor do que congelar. —Eu a lembro.

—Eu acho.

O ronco de fome do estômago dela me faz pressionar meus


lábios em uma linha fina. Nós não tivemos uma refeição completa
em quase uma semana. Apenas pedaços do que conseguimos
encontrar aqui e ali. A única sopa grátis que tenho vontade de ir
pegar é em um bairro muito barra pesada a cerca de onze
quilômetros de distância. É uma longa caminhada no frio,
especialmente quando Bethy tem um buraco na sola de um de seus
sapatos.

—Vocês não vão me deixar aqui sozinha, certo? —A voz de


Bethy vacila com nervosismo.

—Nunca. Um de nós sempre fica com você.

—Só para... ter certeza.


—Ei. —O tom grave de Bean chama atenção. —Nós nunca
deixaremos nada acontecer com você, garota. Nada para se
preocupar.

Eu estaria perdida sem ele. Bean tornou-se um aliado muito


improvável. Quando ele se aproximou de nós nesses túneis
abandonados do metrô, há dois anos, achei que ele iria cortar minha
garganta e fugir com a minha irmã. Seus olhos escuros eram
ameaçadores, mesmo na luz fraca da lanterna que ele apontou para
nós. Eu estava muito doente com uma pneumonia para reagir.

Mas ele me surpreendeu e nos ajudou. Eu nunca esquecerei


isso. Agora somos um trio. Eu, minha irmãzinha e um mexicano de
trinta e seis anos com uma cicatriz maligna no rosto e apenas uma
mão.

Mas Bean pode cuidar das coisas com a mão que ficou. Eu
confio nele com Bethy. Sem ele, não sei se ainda estaríamos aqui.
Mesmo com a ajuda dele, em momentos sombrios considerei me
render às pessoas que estão procurando por Bethy e por mim.

Não.

Toda vez que esse pensamento se arrasta, cavo fundo e


encontro forças para continuar. Vivemos assim há quatro anos e
meio. O que são mais dois?

Bethy tosse e eu me enrijeço. Aquele som é uma das razões


pelas quais decidi voltar aos túneis à noite. Bethy está doente e não
podemos continuar a dormir lá fora com este tempo.

O brilho de uma lanterna à frente ilumina as formas de uma


dúzia de pessoas. Minha mão instintivamente se abaixa para a faca
amarrada na minha coxa.

—Eu primeiro. —Bean diz quando estamos perto o suficiente


para que as pessoas comecem a se virar para olhar para nós. Ele abre
caminho pelo grupo e entra na alcova escura onde vamos dormir
esta noite.

Cheira a fumaça de maconha e vômito. Mas o vento frio não


está cortando minha pele como lá fora. Eu vou aceitar essa troca.

Bethy retira o saco de dormir preso em suas costas, e eu a


ajudo a arrumá-lo. Seus olhos encontram os meus quando ela rasteja
para dentro, e mesmo sob a luz fraca da lanterna próxima, vejo a
pergunta ali.

Vamos comer esta noite?

Ela não vai me perguntar em voz alta. Ela aprendeu há muito


tempo que perguntar apenas nos lembra do quanto estamos com
fome. Eu meio que gostaria que ela me perguntasse, no entanto. Eu
gostaria que ela me desse um olhar bravo e dissesse que me odeia
por tirar sua cama quente e estômago cheio em casa em troca disso.

A culpa me consome. Eu gostaria que ela me confrontasse


sobre essa existência miserável. Eu nem tentaria me defender neste
momento.

Mas ela não vai. Ela confia em mim completamente. Ela me


mantém quando eu afundo. E isso torna muito pior quando falo
com ela.

—Eu vou buscar comida. —Digo. Seus olhos brilham


esperançosos.

—Deixa que eu vou. —Bean diz, fechando o casaco de lona


desgastada.

—Tem certeza?

Ele pega uma pequena pistola do bolso e passa para mim. —


Pegue minha arma. —Diz ele em voz alta. —Está carregada.
Várias cabeças viram em nossa direção. Bean apenas está nos
protegendo com suas palavras. Eu pego a arma e aceno.

Suas botas rangem contra o cascalho no chão enquanto ele se


afasta do túnel. Eu me sento de costas para Bethy, a arma no meu
colo. Sua presença assustará a maioria das pessoas que pensariam
em nos atacar, mas outras estão loucas e desesperadas o suficiente
para me empurrar na tentativa de roubar a arma.

Espero que Bean apareça com comida. Com uma refeição


decente e um pouco de descanso, Bethy poderá sentir-se melhor
amanhã.

Um homem de barba longa e olhos selvagens me estuda a seis


metros de distância. Eu engatilho a arma e aponto para ele. Ele se
afasta e eu a coloco de volta no meu colo, suspirando.

Às vezes, sobreviver é cansativo.

***

Bethy está tossindo tanto que precisa parar de andar. Ela se


inclina e respira fundo algumas vezes, mas imediatamente começa a
tossir novamente.

Bean troca olhares comigo por um instante. Ele está


preocupado. Eu também. Estou louca de preocupação.

Já se passaram três dias desde que começamos a dormir no


túnel, e a tosse de Bethy só piorou. —Tudo bem. —Digo,
colocando uma mão nas costas dela.

Mas não está. Ela precisa de descanso e comida, e talvez


remédio também. Temos que sair dos túneis ao nascer do sol todas
as manhãs. Essa é uma regra não escrita ao dormir lá embaixo. Se
formos presos, todos perderemos, então só ficamos lá quando está
escuro.

—Ouvi dizer que há uma clínica gratuita no centro. —Bean


diz.

—Não.

Ele estreita ligeiramente os olhos, mas não me pressiona. Bean


não sabe por que eu me recuso a ir a qualquer lugar que exija
identidade, mas ele sabe que sou inflexível sobre isso.

Bethy se levanta, ajeita os ombros e nos dá um sorriso fraco.


Seus olhos estão vermelhos, e sua clavícula se tornou mais
proeminente. Um nó de tensão se forma no meu estômago.

—Ela pode dar a eles um nome falso. —Bean murmura.

—Não. —Digo bruscamente. —Eu tenho outro plano.

Ele arqueia as sobrancelhas. A dúvida em sua expressão força


meu olhar para Bethy, que ainda está sorrindo para mim. Ao
contrário de Bean, ela confia que eu tenho essa situação sob
controle. Eu não consigo lidar com nenhuma das duas coisas: a
dúvida dele ou a certeza dela. Meu peito aperta com a pressão disso.

—Dê-me uma hora. —Digo para Bean. —Vocês me


encontram aqui de volta.

Ele me dá um leve aceno e se vira para a minha irmã. —Você


está bem para ir até a entrada do metrô? Podemos nos aquecer lá.

—Claro. —Ela tosse novamente e, em seguida, pega o braço


que ele está oferecendo para apoiá-la.

Bean está chateado comigo, e eu não posso culpá-lo. Bethy


está sofrendo aqui fora. Não só ela está doente, com frio e fome,
como ela perdeu os últimos quatro anos e meio de escola. Ela terá
dezoito anos daqui a dois anos e eu terei vinte e três. Eu tinha
dezesseis anos quando viemos para cá e acabo de fazer vinte e um
anos. Mas que opções alguma de nós terá sem um diploma do
ensino médio?

O aperto no meu peito está ficando dolorido. É demais me


preocupar com isso agora. Eu tenho que me concentrar em fazer
Bethy melhorar. E com nada além das roupas no meu corpo e
quarenta e quatro centavos no bolso da mochila, não tenho ideia de
como fazer isso.

Uma dor atravessa o meu estômago, distinta da dor em meu


peito. É a fome. A fome é uma constante e eu não penso muito
mais nisso, mas às vezes meu corpo me obriga.

As pessoas estão andando ao meu redor enquanto estou


parada na calçada. Estou acostumada com os olhares e as sacudidas
de cabeça desdenhosas. É óbvio que estou sem casa. Eu estou
fedendo e uso trapos. Mas ainda assim, quero gritar para eles que
ainda sou uma pessoa. Eu costumava ser como eles, preocupada se
poderia encontrar uma camisa para combinar com uma nova saia ou
completamente absorvida em uma mensagem de texto sobre nada.

Há uma pequena reentrância na parede em um prédio alto e eu


me dirijo para ela, precisando escapar da multidão. Eu apenas
encosto na parede por um minuto, respirando fundo algumas vezes.
Então deixo minhas costas deslizarem pela parede de tijolos, sua
superfície arranhando minha pele através do tecido fino do meu
casaco. Quando estou sentada no chão, puxo minhas pernas até o
peito e envolvo meus braços ao redor delas, descansando meu
queixo sobre meus joelhos. Por apenas um minuto, posso sentar
aqui e admitir para mim mesma que as coisas estão ruins. Pior desde
que chegamos aqui. Desde que eu estou sozinha e não há ninguém
por quem precise ser forte, eu posso ceder ao desamparo.
Uma mulher joga um sanduíche meio comido em uma lata de
lixo de metal perto do meio-fio, e eu me encolho. Por quê? Por que
diabos algumas pessoas têm o suficiente para atirar comida no lixo,
enquanto outras fisicamente sofrem de fome?

Eu sou assombrada pela comida que joguei quando era mais


jovem. Se a nossa cozinheira colocasse pimenta no molho de
espaguete, eu me recusaria a comer. Se ela acidentalmente colocasse
maionese no meu sanduíche, ele ia direto para a lata de lixo no
refeitório da escola.

O que eu não daria para um dos espaguetes de Lydia com


pimentas no molho agora. Eu comeria até meu estômago estar
prestes a explodir e forçaria Bethy a fazer o mesmo. Há uma
insegurança nessa vida que me faz agarrar firmemente o pouco que
tenho. E tudo que tenho é minha irmã. É por isso que a tosse dela
me assusta tanto.

Eu pressiono minha testa nos joelhos, me permitindo manter a


calma. Há sempre um jeito. Às vezes eu tenho que fazer coisas que
nunca imaginei fazer, mas ainda estamos de pé, então vale a pena.

Vou ter que roubar. As ruas me ensinaram a ser furtiva, e


posso pegar uma carteira sem ser notada, desde que tenha tempo de
esperar pela vítima certa.

O tempo não está do meu lado hoje, no entanto. Tenho


quarenta e cinco minutos até que Bethy e Bean voltem. Vou ter que
trabalhar rápido.

—Desculpe.

Eu olho para a fonte da voz masculina calorosa que me puxou


dos meus pensamentos. Ele é um pouco mais alto que a média, com
um corpo magro e cabelos pretos curtos em um falso moicano. Seu
cachecol de cashmere e casaco de lã de aparência cara me faz desejar
que ele não tivesse me notado, porque esse cara teria sido uma
ótima vítima.

—O quê? —Pergunto, minha voz calma e apática. —Eu não


estou invadindo. Isso é propriedade pública.

Ele curva os lábios em um leve sorriso. —Eu só queria


perguntar se você gostaria de tomar uma xícara de café. Talvez um
café da manhã? Parece que você poderia aproveitar uma pausa.

Franzo minha testa enquanto olho para ele. —E por que você
me daria uma pausa? —Ele dá de ombros. —Alguém me deu uma
pausa uma vez.

Meu estômago me pede para dizer sim. Eu me levanto e


encontro os olhos castanhos do homem. —Eu não tenho dinheiro.
Você está se oferecendo para pagar?

—Estou.

—E o que eu tenho que lhe dar por isso?

—Nada. Vamos conversar e comer e depois seguir caminhos


separados, se você quiser. Sem ressentimentos.

—Eu não vou te chupar ou deixar você me dobrar em algum


canto. —Digo em um tom calmo e óbvio.

Ele se encolhe. Encolhe. Eu cheiro tão mal assim?

—Ah... Eu não estou interessado nisso. —Ele diz balançando


a cabeça. Eu dou de ombros e aceno para um restaurante do outro
lado da rua. —Lá?

—Claro. —Ele puxa uma luva escura de uma mão bem


cuidada e oferece para mim. —Eu sou Dawson Wright, a propósito.

Eu dou-lhe um aperto de mão superficial. —Então vamos,


Dawson. —Ele ainda está olhando para mim.
—E seu nome é... ?

Eu zombo. —Isso importa?

—Por que não? —Ele enruga a testa confuso.

—A maioria das pessoas nem sequer me vê, muito menos se


importa com qual é o meu nome. Eu sou tão importante quanto a
sujeira na sola de seus sapatos.

—Eu não sou a maioria das pessoas. Qual é o seu nome?

Estou surpresa, mas não demonstro. —Quinn.

Ele balança a cabeça, satisfeito, e conduz o caminho


atravessando a rua até o restaurante lotado. Assim que entro, os
cheiros de bacon, torradas e canela me atingem com força. Meu
estômago ronca dolorosamente. Faz muito tempo desde que pisei
em um lugar como este.

Uma garçonete que está passando me dá um olhar rude


enquanto caminhamos até uma pequena cabine próxima às janelas,
de frente para a rua. Eu me arrepio, me preparando para ser expulsa
do lugar. Ela volta para a nossa mesa e vê Dawson. Sua expressão se
transforma em um sorriso.

—O que posso pegar para vocês dois? —Ela pergunta.

Eu olho para um cardápio enquanto Dawson pede café. A


garçonete olha para mim com expectativa.

—Café e uma omelete dupla com duas camadas de bacon e


duas torradas. E mingau de aveia em um recipiente para viagem.

Dawson nem sequer pisca no meu grande pedido. A garçonete


desaparece e ele apoia os antebraços na mesa e me estuda.

—Então, qual é a sua história, Quinn?


Eu arqueio uma sobrancelha. —É um pouco cedo para as
histórias de vida, não é?

—Eu suponho. —Diz ele, sorrindo. —Eu sei que você parece
ter o peso do mundo em seus ombros. E você gosta muito de
bacon.

Nossa garçonete reaparece e enche as canecas brancas na


nossa frente com café fumegante. Eu dou um gole com gratidão. Eu
não tomo café quente há algum tempo. Há algo de reconfortante
nisso. Eu saboreio outro gole quando a garçonete se afasta.

—Então. —Dawson diz, limpando a garganta. —Eu sei que


isso parece repentino, mas tenho uma proposta. Eu gostaria de
comprar uma noite com você.

Eu tomo meu café e tento decidir como levar isso. Eu não


posso arriscar irritá-lo e não conseguir essa comida.

Eu decido ganhar algum tempo com o estilo conte-me mais


sobre isso. —Uma noite?

Ele concorda. —Você precisa fazer um teste rápido de sangue


primeiro com uma enfermeira. É um procedimento padrão. E então
você passaria uma noite mutuamente agradável fazendo sexo
consensual com um homem que eu acho que você gostaria.

Eu abaixo a minha caneca, a curiosidade despertada. —Não é


você?

—Não, eu não. É meu chefe.

—Oh.

Ele dá um sorriso irônico. —Se eu gostasse de passar noites


com mulheres, tenho certeza que amaria passar uma noite com
você. Mas eu tenho namorado.
Eu aceno. —Entendo. Bom, agradeço a oferta, mas vou
precisar...

—O pagamento é de quinhentos dólares adiantados.

Suas palavras me congelam.

Cinco.

Centenas.

De Dólares.

Isso é mais do que posso roubar. O suficiente para levar Bethy


a um médico e comprar comida pelo próximo mês ou mais. E
dinheiro adiantado? Eu poderia sair pela janela do banheiro antes
que o cara tirasse minha calça. —E você acha que seu chefe gostaria
de mim? Ele curte mulheres sem teto? Ou... espera. Você acha que
sou uma prostituta?

O pensamento envia uma onda de inquietação em mim. Por


que, eu não tenho certeza, porque não é como se eu tivesse muito
orgulho.

—Não. Meu empregador definitivamente não gosta desse tipo


de coisa.

—Que tipo de coisas ele gosta?

A garçonete entrega a comida à nossa mesa, arrumando cinco


pratos na minha frente. Eu devoro a omelete enquanto Dawson
responde.

—Ele gostaria de você. Eu sei disso. Eu a colocaria em um


hotel em uma tarde para que você pudesse se preparar e
providenciaria roupas para você.

As engrenagens em minha mente estão girando enquanto


tento parar e realmente sentir o sabor dos ovos quentes e cheios de
queijo derretendo na minha boca. A comida é tão boa, mas eu estou
devorando.

—Eu ficaria no quarto a noite inteira?

—Bem, você estaria na casa dele à noite.

—Eu sei, mas... minha amiga. Ela poderia dormir lá enquanto


eu estiver... você sabe.

—Claro, isso não seria um problema.

Isso é bom demais para deixar passar. Eu puxo guardanapos


de um dispensador e envolvo o bacon e a torrada neles enquanto
penso na ideia de Bethy e Bean se aquecerem em um hotel por uma
noite. E alimentados pelas próximas semanas.

É inesperado, mas esta é a pausa que eu estava esperando.


Aceitar dinheiro para fazer sexo com um homem estranho em sua
casa me deixa mais do que inquieta, mas vou ter que lidar com isso.

—Eu não sou muito experiente. —Confesso a Dawson. —E


eu não devolveria o dinheiro só porque ele não ficou feliz comigo.

—Ele vai gostar de você. Estou certo disso.

Eu aceno com a cabeça ligeiramente. —Vou precisar do


dinheiro em espécie. E quero algum tipo de identidade desta
enfermeira que você mencionou.

Ninguém vai enfiar uma agulha em mim se eu não tiver


certeza de que é mesmo uma enfermeira. —Compreensível.

Eu encontro seus olhos por sobre a mesa. —E vou manter


minha faca comigo.

Os lábios de Dawson se separam um pouco. —Bem... armas


podem cortar o clima, não acha?
—Eu mantenho minha faca. Isso é inegociável. E você pode
deixar seu chefe saber que sou muito boa com ela. —Ele hesita por
um segundo. —OK. Se isso te deixa mais confortável.

Eu guardo o bacon e a torrada na minha mochila e coloco


minhas mãos ao redor da tigela de mingau de aveia que estou
tomando.

—Um cara. —Digo com firmeza. —Não vários parceiros.


Ninguém assistindo. Nenhum vídeo assustador.

—Claro que não. Meu empregador quer que seja uma noite
mutuamente agradável.

—Ele faz isso o tempo todo, então?

Um sorriso surge nos lábios de Dawson. —Eu não diria isso,


mas você não é a primeira.

—Quão feio ele é, só entre você e eu? Estamos falando de


feridas abertas ou qualquer coisa? Só para saber.

—Não. —Dawson ri, mas rapidamente recupera a


compostura. —Ele é realmente muito atraente.

—Humm. —Resmunguei com ceticismo.

Deve ter um pau pequeno, então.

Uma olhada no relógio me diz que preciso ir. —Eu espero que
tenha proteção. Preservativos, quero dizer.

—Claro.

—Está bem então. Acho que estou dentro, mas posso mudar
de ideia e reembolsar o dinheiro se eu chegar lá e ver uma masmorra
sexual ou algo assim.

—Excelente. Não há masmorra.


Dawson pega um bloquinho e anota o nome e o endereço de
um hotel. —Amanhã. Venha pelo meio-dia. Isso nos dará tempo
para fazer o exame de sangue e prepará-la para a noite.

Eu aceno e deslizo pelo meu lado da cabine. —Vejo você


então. Obrigada pela comida.

—Vejo você amanhã, Quinn.

Enquanto ando até a porta do restaurante lotado, percebo que


faz um tempo que ninguém, a não ser Bethy ou Bean, me chama
pelo meu nome. Para a maioria das pessoas, eu nem tenho um
nome. Eu sou apenas uma estatística.

Eu nunca previ isso sendo a minha vida. A falta de moradia


nem estava no meu radar antes de eu pegar Bethy e fugir. E agora
afundei um pouco mais ainda, vendendo meu corpo.

Bem, prometendo vendê-lo, de qualquer maneira. Mas essa é


uma promessa da qual estou planejando sair. Estou esperando que
esse cara misterioso se contente com um boquete. A última coisa
que quero que ele descubra é que sua acompanhante paga é na
verdade virgem.
CAPÍTULO TRÊS
Andrew

Uma nuvem de vapor condensado se forma na frente do meu


rosto quando saio do meu carro na garagem subterrânea. O inverno
está chegando rapidamente, e no estilo típico de New York, ele se
recusa a ser ignorado.

Pressiono meu polegar no teclado ao lado do elevador na


minha garagem e dou um passo, chegando ao nível principal da
minha casa estilo loft e ouvindo o ruído da abertura automatizada da
fechadura. Quando entro, sinto o cheiro de carne assada. Porra, isso
cheira bem. É um pouco depois das seis e meia, e estou pronto para
o jantar.

Mas não por causa da comida. Tenho certeza de que


desfrutarei do que minha chef e governanta, Turner, tem preparado
agora, mas principalmente estou ansioso para passar uma noite com
a última descoberta de Dawson. Para um homem gay, ele realmente
tem um gosto incrível para as mulheres.

Eu não posso ser visto tentando pegar mulheres que pretendo


pagar por sexo. E não tenho tempo para estragar tudo. É por isso
que tenho Dawson. Ele vale cada centavo dos seis dígitos que lhe
pago para ser meu assistente pessoal. Eu confio nele implicitamente,
o que não é pouca coisa para mim.

No último fim de semana, ele me trouxe Olivia, que quase


engoliu meu pau enquanto trabalhava para provar o quão fundo ela
poderia aguentar. Ela gritou meu nome como uma estrela pornô
quando gozou, e eu sabia que seu desempenho era um esforço para
uma segunda vez.
Mas comigo não existe segunda vez.

Eu tiro meu paletó e coloco sobre o encosto de uma cadeira.


Tudo parece estar em ordem quando olho em volta dos ambientes
abertos da minha casa. Um leve aroma de limão e um brilho no meu
piso de madeira me dizem que hoje Turner trabalhou duro aqui.

Depois de um longo dia de negociações para comprar um


novo aplicativo de tecnologia, eu preciso relaxar. Fiz uma oferta
justa, mas o garoto maluco da faculdade com o qual estou tentando
negociar é ganancioso. E por mais que eu queira esse aplicativo, eu
me recuso a pagar mais por isso, mesmo que signifique perder para
outra pessoa.

Eu começo a tirar minha gravata azul-marinho e abro o botão


de cima da minha camisa. Estou indo para o meu quarto quando
uma batida na porta da frente me faz virar. Depois de jogar a gravata
no meu sofá de couro, ando até a porta larga de madeira maciça e
pressiono o polegar no teclado ao lado para abrir. A tranca desliza e
abro a porta.

Por uma fração de segundo, percebo Dawson. Mas minha


atenção é rápida e inteiramente focada na mulher ao lado dele.

Porra, sim. Ela é exatamente o que preciso. Altura mediana,


com uma estrutura esbelta e cabelo loiro até os ombros. Sua pele
sedosa está rosada por causa do frio, combinando com seus belos
lábios carnudos. Ela me estuda com enormes olhos cor de avelã e
percebo seu desconforto.

—Oi. Entre. —Digo, me afastando da porta.

—Que lugar é esse? —Ela murmura enquanto segue Dawson.


A mão dela está em sua coxa sob um casaco escuro que parece
novo.
—É um pouco decepcionante, eu sei. —Digo. —Mas eu amo
o Meatpacking District.

—Você mora aqui? —Seu olhar se move ao redor do espaço


enorme e aberto que é a minha sala e cozinha.

—Eu moro.

Dawson intervém. —Andrew, esta é Quinn. Quinn, Andrew.

Eu estendo minha mão para Quinn, e ela hesita um segundo


antes de sacudi-la brevemente. Ela inclina o rosto para me olhar, e
me pergunto o que ela está tentando saber. Talvez ela tenha se
surpreendido com o meu tamanho. Com um metro e oitenta e oito,
sou muito mais alto que ela e meus ombros largos combinam com a
minha altura. Eu tenho uns bons vinte e tantos quilos a mais do que
Dawson.

—Prazer em conhecê-la. —Digo.

Seu olhar cético me diz que ela não tem certeza do prazer
ainda. Eu vou mudar isso. —Estou indo, então. —Dawson diz,
trocando olhares comigo. —Está tudo em ordem.

Eu dou um breve aceno de aprovação. Então o teste de


sangue de Quinn deu limpo e ela foi paga. Agora tudo o que resta é
terminar esse longo dia na cama com ela. Depois de deixá-la à
vontade durante o jantar, é claro.

Dawson sai, e Quinn me olha com cautela. Ela deve estar


nervosa. —Posso pegar o seu casaco? —Eu ofereço.

Ela tira o casaco, revelando uma simples camisa preta com


decote em V e calça de linho cinza escuro. Eu não posso deixar de
deslizar meu olhar sobre as curvas dela. Ela é deslumbrante. Minhas
mãos grandes vão quase cobrir toda a sua cintura delgada. A sua
clavícula marcada está implorando para ser beijada e provada em
todo o comprimento.

—Recusei-me a usar qualquer um desses vestidos que Dawson


trouxe para mim. —Ela explica. —Eu não sou uma prostituta.

Eu contenho o sorriso em meus lábios. Eu gosto dela, e não


estou disposto a discutir se usar um vestido ou aceitar dinheiro por
sexo faz de uma mulher uma prostituta.

—Você está linda. —Digo, em vez disso. —Se você está com
fome, podemos jantar.

Ela balança a cabeça e se vira para a cozinha. Eu finalmente


vejo em que a mão dela está descansando, e não posso deixar de
reagir.

—Que diabos...? Isso é uma faca de caça?

Seu olhar se volta para mim. —Eu disse a Dawson que vou
mantê-la. Ele disse que está tudo bem.

Meu coração bate loucamente no meu peito. Ela tem medo de


mim? Ela não percebe que não tem chance contra mim mesmo com
essa coisa?

—Bem... —Eu esfrego meu queixo e penso em como deixá-la


à vontade. —Você não precisa disso. Curto apenas sexo consensual.

—Mesmo assim, prefiro mantê-la.

Há uma dureza nos olhos dela agora. Eu me pergunto o que


fez essa linda mulher sentir a necessidade de amarrar uma faca na
coxa e estar pronta para usá-la a qualquer momento. Porra de
humanidade. É por isso que moro nesse depósito com vários níveis
de segurança. É discreto do lado de fora justamente para não atrair a
atenção. Eu não sou um tipo de cara de viver numa cobertura
chamativa. Eu prefiro exercer poder de maneira mais furtiva.
—Claro. —Digo, liderando o caminho para a cozinha. Quinn
segue sem dar um pio. —Você gostaria de um pouco de vinho?

—Não, obrigada. Eu aceito um pouco de água, no entanto.

Eu sirvo meia taça de vinho tinto e um copo cheio de água


Perrier e coloco ambos na frente dela. Eu não vou empurrar o
vinho, mas claramente ela poderia tomar alguns goles para relaxar.

A taça de vinho que me servi cheira a maçãs e pimentões. Eu


tomo um gole lento, me inclino contra a ilha de cozinha e deixo
meu olhar percorrer a mulher linda e vigilante diante de mim.

—Então me fale sobre você, Quinn.

Ela dá de ombros. —Não há muito para contar. Estou sem


casa, mas acho que você sabe disso.

—Eu não sabia. Eu sinto muito.

—Eu não estava procurando por sua pena. Eu só imaginei que


todas as mulheres que Dawson pega para você são sem-teto.

O seu tom me irrita. Não só porque ninguém fala comigo


desse jeito, mas também por causa de sua insinuação.

—Você está sugerindo que caço mulheres desesperadas?


—Pergunto friamente.

Ela dá de ombros. —É caça se elas aceitam sua oferta?

—Oferta de Dawson.

—Claro. Suas mãos estão limpas.

Eu limpo minha garganta e lembro-me de manter a calma.


Nenhuma das mulheres que Dawson trouxe antes chegou assim tão
arisca. Pelo contrário, elas ficavam tontas de entusiasmo.
—Olha, Quinn, se você não quer estar aqui, você está livre
para ir. Guarde o dinheiro.

Ela se eriça visivelmente, estreitando os olhos. —Não, eu fiz


um acordo e vou mantê-lo. Mas não acho que tenhamos muito em
comum. Conversar será apenas estranho. Talvez devêssemos apenas
acabar logo com isso.

Eu arqueio minhas sobrancelhas com diversão. Ela não pode


pensar seriamente que estou excitado agora. —Acabar com... ?

Suas bochechas coram. —Comer. E depois... tanto faz. Olha,


eu sinto que devo dizer que sou muito inexperiente. Talvez eu
devesse ter contado isso a Dawson. Estou esperando que um
boquete seja... o suficiente.

Eu não posso segurar um leve sorriso. Há algo sobre a fachada


dura de Quinn que eu acho incrivelmente vulnerável.

—Ei. —Digo baixinho. —Relaxe. Vamos apenas jantar e


conversar.

—Você não está pagando quinhentos dólares por minhas


habilidades de conversação.

Eu olho para o teto. Isso é como tentar seduzir um cacto, seus


pontos espinhosos me cutucando a cada canto. —Isso pode ser
verdade, mas... Eu não vou forçar você.

Sua expressão é cética. Pego os botões dos punhos da camisa


e abro, enrolando as mangas devagar. Eu gosto do jeito que ela me
observa, seu olhar vagando pelos meus antebraços.

Eu posso comandar qualquer coisa. Meu pai me ensinou isso.


O controle não precisa ser uma experiência desagradável para
nenhuma das partes. Se eu quero deixar Quinn relaxada e fazê-la
sorrir, eu vou conseguir.
—Sente-se. —Digo baixinho. —Eu vou servir o jantar. Nós
vamos comer e conversar. Você não vai me esfaquear. Ok?

Ela balança a cabeça, a cautela aparentemente se dissipando, e


afunda em uma das cadeiras de madeira da mesa da minha cozinha.

—Este lugar é incrível. —Ela diz baixinho. —Eu vi muitas


casas chiques, mas nenhuma delas se compara a essa.

—Obrigado. Eu mesmo supervisionei a reforma. Tem um


estilo industrial, então acho que é apenas o tamanho que faz parecer
luxuosa.

Eu puxo a carne assada do forno quente, corto e sirvo porções


generosas em dois pratos. Depois de acrescentar batatas assadas
douradas e aspargos salteados, levo os pratos para a mesa e coloco
um na frente de Quinn.

—Uau. —Ela olha para mim. —Isso parece delicioso. Você


que fez?

Eu balanço a minha cabeça, desejando por um segundo que


tivesse. —Não, eu tenho alguém que cozinha para mim.

Ela olha para a comida, seus olhos cheios de emoção. Estou


tentando descobrir o que está acontecendo.

Ela está chateada? Ela aperta os lábios e finalmente entendo.

Ela está com fome. O pensamento envia uma sensação de


queimação no meu peito. —Vamos comer. —Digo, sentando-me
rapidamente.

A total satisfação de Quinn ao provar a primeira mordida de


carne é algo que não vou esquecer tão cedo. Sua expressão relaxa
enquanto mastiga e dá outra mordida.
Eu também estou comendo, mas tudo o que posso pensar é
em alimentar essa mulher. O corpo esbelto que eu acho tão sexy é o
resultado de não ter o suficiente para comer? O pensamento me faz
sentir como um imbecil insensível.

—Você gosta? —Pergunto.

Ela acena com a cabeça. —É delicioso. Obrigada.

Espero até que ela tenha comido mais da metade da comida


em seu prato para interrompê-la com a conversa novamente. —
Posso perguntar como você acabou nas ruas? —Pergunto. —Você
não parece do tipo que acaba lá.

—Muitas pessoas decentes são sem-teto. —Diz ela com um


toque de defesa.

Eu fico em silêncio enquanto ela dá uma mordida nas batatas,


me estudando. Ela está me avaliando, ou está atraída por mim?
Normalmente posso ler as pessoas melhor do que a estou lendo
agora.

—Foi apenas... as circunstâncias. —Ela finalmente diz. —Eu


precisava me afastar de alguém. É fácil ficar invisível nas ruas daqui.

—Quantos anos você tinha? Quantos anos você tem agora?

—Eu tinha dezesseis anos quando cheguei aqui e tenho vinte e


um anos agora.

Ela corta seus aspargos com cuidado. —Como você ficou tão
rico? Quantos anos você tem?

—Eu tenho vinte e oito. Eu invisto em empresas que tenho


interesse de comprar e compro outras diretamente.

Ela balança a cabeça quando termina sua última mordida de


comida.
—Mais? —Pergunto, pegando o prato.

—Estou cheia, mas obrigada.

Sua expressão se transforma em nervosismo, e ela pega o


vinho e toma um pequeno gole. Eu não posso deixar de rir da
expressão dela.

—Não gostou?

Ela sacode a cabeça. —Não é o que eu estava esperando.

—É um gosto que se adquire com o tempo.

Eu limpo os pratos enquanto ela toma alguns goles de água.

—Então. —Ela diz, levantando-se. —Estou muito curiosa


sobre por que você paga às mulheres para ficarem com você. Você é
rico e é bastante atraente. Muitas mulheres matariam para estar com
você de graça.

—Nada é de graça. Não sou eu que elas querem, é o dinheiro.


Eu prefiro ser sincero sobre minhas intenções.

—E suas intenções são...? —Ela me olha, e eu gosto do


interesse que vejo em seus lindos olhos cor de avelã.

—Sexo. Eu não quero me envolver. O companheirismo é


bom, mas não gosto das expectativas.

Ela acena com compreensão. —Eu posso ver isso. E seu


trabalho deve mantê-lo ocupado.

—Sim.

Deixo os pratos no balcão para Turner lidar amanhã. Quinn


está encostada na minha grande ilha da cozinha, e eu me aproximo
dela, meu sangue bombeando mais forte a cada passo.
—Você é excepcionalmente bonita. —Digo, me sentindo um
pouco como um garoto do ensino médio com uma paixãozinha.

Ela sorri, seus dentes brancos perfeitos sendo adicionados ao


seu mistério. Em algum momento, ela obviamente usou aparelho e
teve o melhor atendimento odontológico. Não é só isso, no entanto.
É também a postura de seus ombros e o jeito que ela
destemidamente sustenta meu olhar. Ela poderia estar usando
trapos, e ainda teria um ar de classe.

—Obrigada. —Diz ela. —É apenas o cabelo e maquiagem que


o estilista de Dawson fez.

Eu me aproximo, balançando a cabeça. —Tenho a sensação


de que você seria perfeita até saindo do chuveiro. —Digo em voz
baixa. Quando alcanço seu queixo e deslizo meu polegar, seus olhos
se fecham por uma fração de segundo.

Deixo meus dedos passarem pela pele sedosa de seu longo


pescoço, passando por seus cachos dourados e macios.

Ela arregala os olhos e endurece.

—O quê? —Pergunto baixinho, puxando minha mão. —Você


não gosta disso?

Ela engole e olha nos meus olhos. —É difícil. Isto é... mais
difícil do que eu pensava que seria. —Eu dou um passo para trás, e
ela morde o lábio inferior e franze a testa.

—Meu instinto é reagir como se você fosse me sufocar. —Ela


admite. —Ninguém nunca me tocou aí. Ou em qualquer lugar.
Exceto... uma pessoa. Eu só deixo uma pessoa me tocar.

Uma nuvem de ciúmes escurece meu campo de visão. Quem é


essa pessoa que a toca e como ele merece? Claramente ele não cuida
dela.
—Você tem um namorado. —Digo, surpreso com o quanto
isso me decepciona.

—Não. Eu não quis dizer alguém assim. É... da minha família.

—Oh.

Eu cruzo meus braços sobre o peito e me inclino contra a ilha


ao lado dela.

—Desculpe. —Ela diz suavemente. —Eu sei que não estou


fazendo isso direito.

—Conte-me mais sobre a pessoa da sua família. —Digo.


—Homem ou mulher?

—Eu não posso. —Ela se vira para mim, inclinando o rosto


até os nossos olhos se encontrarem. A mescla de dourado, verde e
castanho em seus olhos é hipnotizante. —Eu poderia me sentir mais
confortável se... em vez de você me tocar primeiro, eu pudesse tocar
em você, posso?

Meus lábios se separam por apenas um segundo pela pergunta.


Eu sinto um desejo primitivo de pegar as mãos dela e colocá-las em
mim, dizer a ela que porra, sim, ela pode me tocar. Em qualquer
lugar. Em toda parte. Quero que esses dedos finos explorem o
corpo que passo tanto tempo aperfeiçoando na academia.

Mas em vez disso, eu apenas aceno, tentando o meu melhor


para não assustá-la. Eu nem me importo com essa sedução
terrivelmente lenta. Na verdade, agora estou totalmente duro.

Há segredos nas profundezas de seus olhos. Eu vejo dor e


vulnerabilidade lá, com uma força que me excita. Hoje à noite, eu
mostrarei a essa mulher intrigante e incrivelmente sexy que nem
todo mundo quer machucá-la.
CAPÍTULO QUATRO
Quinn

Eu estendo a mão hesitante, meus olhos fixos em Andrew


enquanto minha outra mão encontra seu peito. O tecido macio de
sua camisa cobre um peito musculoso e tenso. Meus dedos arrastam
para cima e para baixo, deslizando sobre os cumes dos músculos.

Ele é forte. Em forma. Masculino. Todas as coisas que a


maioria das mulheres de vinte e um anos acha sexy em um homem.
E enquanto percebo tudo isso fico excitada? Eu quero que ele me
leve para o quarto e balance meu mundo?

Não.

Eu estou fora do meu elemento, usando essas roupas de grife


e cheirando a perfume caro. Como eu caí tão baixo que estou
vendendo meu corpo para um estranho? O que minha mãe diria se
pudesse me ver agora?

E Bethy? Estou preocupada com a minha irmã. É um


conforto que ela esteja aquecida e segura em um quarto de hotel
agora, mas ela ainda está doente e eu não estou com ela. Nós
raramente nos separamos. E nos quatro anos e meio que estamos
nas ruas, eu nunca passei uma noite longe dela.

Bean vai cuidar dela. Eu sei disso. Mas ainda assim acho
impossível pensar em sexo agora. Como muitas outras coisas, é um
luxo que não faz parte do meu mundo.

—Você parece tensa. —Andrew diz. Sua voz é muito


masculina, assim como o resto dele. É uma voz profunda e
imponente. Eu dou de ombros, deslizando minha mão de seu
abdômen para sua cintura. —Estou bem.

—Quando você disse que é inexperiente, o quão inexperiente


você quis dizer?

Eu afasto a minha mão e suspiro profundamente. —Isso é


meio pessoal. Eu não estou pedindo sua história sexual completa ou
qualquer coisa.

Ele arqueia as sobrancelhas um pouco. —Eu vou te dizer


qualquer coisa que você queira saber. Eu não estou tentando me
intrometer, mas não quero te deixar desconfortável mais tarde. Você
não é virgem, é?

—Então, e se eu for?

Ele exala sua frustração pelo nariz. —OK... bem, eu preciso


saber com o que você está confortável.

Eu considero, ainda olhando em seus olhos azul-escuros. —


Beijar. Tocar... e boquetes.

Os cantos de seus lábios se curvam ligeiramente. Ele está


tentando não rir, eu posso dizer. —Olha. —Digo defensivamente.
—Podemos apenas fazer isso? Estou pronta.

—Eu não estou rindo de você, Quinn. —Diz ele, sua


expressão se tornando séria. —É só que posso ver como você está
desconfortável. Talvez isso não seja para ser. —Seus olhos se
iluminam com uma epifania. —Ei você é... você tem certeza que é
hétero? Se você não se sente atraída por homens, explicaria isso.

Eu reviro meus olhos. —Sim, sinto atração por homens. Eu


simplesmente não me sinto atraída por pessoas pretensiosas e
arrogantes.

Sua diversão está de volta. —Eu, arrogante?


—Sim, você. Como se a única maneira de uma mulher não
querer transar com você é porque ela é gay. Procure arrogância no
dicionário e você verá uma foto sua com aquele sorriso idiota no
rosto.

—Arrogância é antes ou depois de tensa no dicionário?

Minha mão instintivamente envolve o cabo da minha faca. —


Você realmente disse isso para mim? Seu flerte precisa ser
trabalhado seriamente...

—Meu flerte nunca foi um problema com outras mulheres.

—Outras mulheres provavelmente estão impressionadas com


seu dinheiro e arrogância. Eu vivi uma vida privilegiada antes. Não é
tudo que parece.

Eu seguro seu olhar, meu queixo inclinado para cima,


enquanto espero sua resposta. Mas em vez disso, ele apenas me
estuda em silêncio.

—Diga-me o que você quer. —Ele finalmente diz.

Eu quero que ele pare de me olhar desse jeito. Como se o que


eu quero, importasse. Como se isto fosse um simples encontro ou
algo assim. Eu quero que seu cheiro de couro e colônia não seja tão
bom. Eu quero que seus olhos sejam menos azuis e seus ombros
não sejam tão largos. Um homem com quase trinta centímetros e
provavelmente uns quarenta e cinco quilos a mais do que eu, deveria
me fazer sentir mais cautelosa do que estou agora.

—Eu quero fazer o que for preciso para você... ficar satisfeito
e eu poder sair.

—Satisfeito? —Ele faz uma pausa, seus olhos ainda nos meus,
e eu quero saber como ele pode comunicar essa intensidade sem
palavras. —Estou muito intrigado com você, Quinn. O que
me satisfaria é compreender mais sobre você com uma garrafa de
bom vinho.

—O acordo era sexo.

Ele concorda. —Se você preferir isso, vamos começar. —Ele


pega a fivela do cinto e a desabotoa, puxando em uma extremidade
até que ela rapidamente serpenteia através dos passadores em sua
calça. —Vá em frente, tire a roupa e deite-se no sofá. Pernas abertas.
E segure seus tornozelos.

Eu engulo em seco. Porra, isso é mais difícil do que eu


pensava que seria. Nem o sexo nem o compartilhamento de
informações pessoais me atraem no momento.

—Tudo bem. —Eu admito. —Ok. Vamos conversar, e eu vou


tentar tomar um pouco de vinho.

Meu tom ranzinza o faz sorrir levemente. —O que você


prefere?

—Algo quente seria bom. Café ou chá.

—Está com frio?

Eu balanço a minha cabeça, orgulhosa demais para dizer a ele


que uma bebida quente é um deleite raro para mim. Eu basicamente
bebo água de bebedouros públicos.

—Chá Chai. —Diz ele, caminhando até um alto armário de


cozinha e abrindo-o.

Eu estudo as costas dele enquanto ele faz isso. Ele é


excepcionalmente alto e largo, temo encontrar homens do tamanho
dele nos túneis. Eles batem pesado e são, geralmente, incrivelmente
fortes. Aprendi rapidamente que é melhor fugir dos homens desse
tamanho em vez de lutar contra eles.
—Qual a sua altura? —Pergunto, deslizando em uma cadeira
da mesa de madeira da cozinha.

—Um metro e oitenta e oito.

—Pais altos?

Ele balança a cabeça ligeiramente enquanto pega uma chaleira


inoxidável de chá de um armário. —Meu pai tinha um metro e
noventa.

—Há quanto tempo ele se foi?

—Eu tinha treze anos quando ele morreu.

Ele está olhando para a chaleira enquanto a enche na pia da


cozinha, mas posso ouvir pela tensão em sua voz que a ferida ainda
parece crua para ele. Algo em mim amolece, porque nunca teria
imaginado que tivesse algo em comum com um homem como ele,
mas eu tenho.

—Eu sinto muito. —Digo. —Meu pai morreu quando eu


tinha treze anos também.

Ele encontra meu olhar do outro lado da cozinha. —Eu sinto


muito. O que aconteceu?

—Ele tinha câncer de estômago. —Eu balanço minha cabeça


tristemente com as memórias. —Foi terrível. E o seu pai?

—11 de setembro.

—Oh. —Meu coração bate de uma nova maneira por Andrew.


—Então você nunca chegou a dizer adeus?

Seus lábios se fixam em uma linha tensa. —Não. Nem mesmo


um funeral de verdade. Seus restos mortais nunca foram
identificados.
—Isso é terrível. Eu sinto muito.

Andrew dá de ombros e liga o queimador de gás de seu


enorme fogão de aço inoxidável, colocando a chaleira sobre ele. —
Já faz quatorze anos. Estou bem.

—Eu não. —Admito. —Sinto tanta a falta dele que dói.


Todos os dias.

—E sua mãe? Ela ainda está por aí?

Eu solto um suspiro. —Até onde sei.

—Não é muito próxima a sua mãe, eu entendo. Onde você


morou antes de acabar nas ruas?

—Eu não posso falar sobre isso.

Ele franze a testa. —Você não pode? Ou não vai?

—Não vou. —Admito.

—Ok. Bem, e quanto à pessoa da sua família que você


mencionou anteriormente? Mais velha ou mais jovem?

Eu balanço minha cabeça. —Vamos falar sobre outra coisa.

—Tipo favorito de sanduíche?

Eu sorrio ao notar o brilho em seus olhos azul-escuros. —


Queijo grelhado. Você?

—Pastrami de centeio.

—Minha vez. Com quantas mulheres você já fez isso?

—O meu sanduíche favorito, você quer dizer? —Seu tom é


leve quando ele se levanta para tirar a chaleira do fogão.

—Ha-ha. Pagou por sexo.


Ele fica quieto por alguns segundos. —Muito pessoal?

Ele se vira para olhar para mim. —Não. Estou contando. É...
doze, eu acho.

—Uau. E você não se preocupa em engravidar alguém ou


pegar alguma coisa?

—De jeito nenhum. O exame de sangue, lembra?

Eu concordo. —Certo. E suponho que você usa camisinha.

Andrew limpa a garganta enquanto caminha até a geladeira,


que é a maior que eu já vi. —Ah... sim.

—O que foi isso? —Pergunto.

—O que foi o quê?

—Você está escondendo alguma coisa. O que é?

Eu o vejo sorrindo enquanto coloca um pouco de leite nas


canecas com saquinhos de chá e água quente. Ele mexe com um
pouco de açúcar e coloca os saquinhos de chá em uma caneca vazia.
Eu posso sentir o cheiro doce de canela da bebida enquanto ele a
carrega.

—Eu vou te dizer se você realmente quer saber. —Diz ele.

—Eu quero. —Pego a caneca e tomo um gole para provar. O


chá quente, picante e doce me aquece toda enquanto desliza pela
minha garganta. —Isso é realmente bom.

Ele acena com a cabeça em reconhecimento do elogio antes de


falar. —Eu normalmente só tenho... tipos peculiares de sexo.

Eu abaixo a caneca, os olhos arregalados pela surpresa. —


Oh... Entendo. Então oral e...?
Ele sorri timidamente. —Sim.

—Oh, merda. —Digo baixinho. —Isso é... nunca aconteceu


comigo.

Andrew encolhe os ombros. —Todos nós temos as nossas


esquisitices, Quinn.

—É a sua? —Eu envolvo minhas mãos ao redor da caneca e a


aperto.

—Eu gosto de sexo em todas as suas formas. E algumas


mulheres gostam disso também. Também tende a ser menos
emocional para elas, o que é uma vantagem.

—Argh. —Eu me encolho. —Eu não faria isso por qualquer


quantia de dinheiro. Eu prefiro morrer de fome.

Agora ele que se encolhe. Eu endireito minha coluna,


lembrando que ele e eu somos de dois mundos diferentes.

—Você já pensou em conseguir ajuda? —Ele pergunta. —Por


que você não vai a abrigos ou cozinhas que doam sopa?

Eu me ergo defensivamente. —Tenho meus motivos. Nós


vamos sobreviver. Eu não preciso da sua piedade.

—Quem somos nós?

Eu encontro seus olhos e balanço minha cabeça


silenciosamente.

—Você e pessoa da sua família? Há mais alguém? —Seu tom é


sério.

—Não é da sua conta.

—Existe um homem? Um namorado? Um amigo que te


mantém aquecida à noite? Alguém?
—O que importa para você?

Seu olhar é de aço agora. —Eu só estou curioso.

—Para um homem que gosta de sexo anônimo, você faz


muitas perguntas pessoais.

—Você já fez sexo oral, Quinn?

—Eu chupei um cara nos túneis há dois anos por vinte


dólares. Isso conta?

—Claro.

—Pensando que você me pagou muito?

Ele balança a cabeça. —Estou apenas curioso sobre o que


você fez antes.

Eu não posso evitar um leve riso de diversão. —Andrew, você


realmente não entende. Ter o pau do velho na minha boca há dois
anos é meu currículo sexual completo. Eu nunca beijei um homem.
Minha vida inteira é sobre encontrar a próxima refeição e um lugar
seguro para dormir. E normalmente minha aparência não é essa. Eu
uso roupas velhas que não servem, e cheiro mal. Você acha que os
caras querem ficar entre as minhas pernas?

Ele não hesita. —Sim. Eu não me importo com o que você


está usando ou como você cheira. Você ainda é linda.

Um leve sorriso escapa dos meus lábios. —Bem, eu não os


deixo. Sexo não está na minha lista. Sobrevivência é todo o meu
foco.

—Então, se você só sobrevive, por que está aqui agora? E por


que fez o que fez dois anos atrás?

—Desespero. —Admito. —Nós temos... uma situação, e eu


preciso do dinheiro.
Andrew só olha para mim por alguns segundos. Seus olhos
tem algo que não posso definir. Parece mágoa e raiva.

—Isso é para que você possa financiar o consumo de drogas


de outra pessoa? Ou jogo?

—Não. —Digo indignada. —Foda-se por pensar isso.

—Eu só estou tentando entender você, Quinn.

Eu olho para ele, exasperada. —Eu pareço o tipo que financia


alguns hábitos de caloteiros?

—Você tem uma boca suja quando está com raiva.

Eu balanço minha cabeça silenciosamente. Ele olha para mim


por mais alguns segundos.

—Eu não vou me aproveitar de uma mulher desesperada. —


Diz ele. —Você parece exausta e preocupada. Eu quero que você
durma no meu quarto de hóspedes. De manhã, vou fazer o café da
manhã e levá-la de volta ao hotel.

—E... é isso?

—É isso.

Uma onda de culpa cai sobre mim. Eu peguei o dinheiro dele e


definitivamente não dei o que ele esperava. —Eu sinto muito. —
Digo baixinho. —Não é você.

—Eu vou levá-la para o seu quarto. —Ele leva minha caneca
quase vazia para a pia, coloca-a lá e, em seguida, segue por sua sala
de estar enorme. Chegamos a uma escadaria aberta, com degraus de
aço presos por cabos grossos.

Andrew me conduz por um corredor curto para um quarto


com uma cama queen-size, forrada de branco.
Há travesseiros sobre ela e um vaso de tulipas frescas na mesa
de cabeceira. —Tudo bem? —Ele pergunta. De pé na porta, mãos
nos bolsos das calças.

—Sim. Obrigada.

—Há pijamas na cômoda. —Seus olhos azuis estão fixos em


mim, seu olhar intenso. —Boa noite, Quinn.

—Boa noite.

Ele fecha a porta e eu ouço seus passos recuarem pelo


corredor. Meu suspiro não é de alívio, mas de exaustão. Eu não
dormi bem nos túneis ontem à noite porque Bean saiu depois que
eu disse a ele e a Bethy o que eu faria hoje à noite. Ele estava tão
chateado que não voltou até de manhã, e mesmo assim não falou
comigo. E o dia todo eu fiquei preocupada pelo que aconteceria
hoje à noite.

Eu jogo os travesseiros no chão e empurro o colchão para fora


da cama. Movê-lo pelo chão de madeira escura me deixa sem fôlego.
Eu o empurro contra a porta fechada para que ninguém possa
entrar.

Esqueça o pijama. Eu não mudo de roupa para cama desde


que eu tinha dezesseis anos. Eu me enrolo no colchão macio e
envolvo minha mão em torno do cabo da minha faca.

Eu penso em Bethy. A febre dela melhorou? Ela está


dormindo? Bean está sendo legal com ela, apesar de estar com raiva
de mim?

As perguntas giram em minha mente e, por mais que tente,


não consigo dormir. Quando não estou pensando em minha irmã,
estou pensando no homem alto e musculoso, com olhos azul-
escuros e cabelos curtos e escuros em cuja casa estou dormindo.
Andrew está dormindo agora? Ele está desapontado comigo?
Não importa. Amanhã de manhã a realidade volta para mim. E
a realidade vem como um soco frio e brutal. Eu puxo o edredom
sobre mim, desejando que pudesse acumular um pouco desse calor
para as noites que virão nos túneis.
CAPÍTULO CINCO
Quinn

Estou tão quentinha. Está claro e eu preciso acordar, mas é


difícil quando estou cercada por tanto calor e suavidade.

Mas espere, por que eu estou tão quente? É inverno. O pânico


bate no meu peito e respiro pesado enquanto me sento.

Eu estou no quarto de hóspedes do Andrew. Meu coração


batendo rápido desacelera um pouco antes de eu lembrar que Bethy
está doente.

Como eu pude dormir assim enquanto minha irmã está


doente? Eu estava tão preocupada com ela, mas de alguma forma
adormeci mesmo assim. E dormi como uma pedra.

Eu exalo profundamente e corro minha mão sobre o lençol


liso e frio do colchão. Eu costumava dormir em lençóis assim todas
as noites, antes de fugir.

“Você vai pagar por isso, sua putinha. Corra o quanto quiser. Não há
como escapar.”

Mas eu escapei até agora, não foi? Ainda assim, quero Bethy à
minha vista. De preferência ao meu alcance. Eu não posso relaxar
totalmente a menos que eu saiba que ela está segura.

Eu empurro as cobertas quentes para o lado e coloco o


colchão de volta na armação da cama. Olho ligeiramente confusa
enquanto observo em volta do quarto lindamente mobiliado. A
fileira de janelas deixando a luz do sol entrar no quarto são tão altas
que eu não posso ver do lado de fora. Esquisito. Eu me pergunto
para o que este antigo armazém foi construído.

Há um banheiro privativo e a luz branca ilumina o ambiente


quando ligo o interruptor da parede. É elegante, mas discreto, com
piso de pedra escura e balcões de granito claro. Eu pego um
vislumbre de mim mesma no grande espelho acima da pia e faço
uma careta.

A maquiagem dos olhos está borrada sob meus olhos, e meu


cabelo está indo em várias direções diferentes. Eu abro um armário
alto ao lado da pia e encontro várias escovas de dentes novas, ainda
nas caixas. Há também caixas de pasta de dente fechadas, novas
escovas de cabelo, lâminas de barbear, creme de barbear e frascos de
xampu e condicionador.

Eu penso brevemente sobre as mulheres que vieram antes de


mim, todas de pé aqui na manhã seguinte. Mas depois de um
segundo, sigo em frente, lembrando que minha mochila está no
andar de baixo. Deixo meus sapatos aqui, pego minha mochila
quando desço e, quando volto para pegar meus sapatos, posso enfiar
na mochila o maior número possível de suprimentos do armário.

Depois de abrir uma escova de dentes roxa e um novo tubo de


pasta de dente, passo vários minutos curtindo as bolhas de hortelã
enquanto escovo os dentes. Bethy e eu sempre achamos um lugar
para escovar os dentes, mas racionamos a pasta de dentes, então
esse é um bom luxo.

Enquanto limpo a maquiagem do meu rosto com uma toalha


molhada, sinto uma nova onda de culpa por não cumprir a minha
parte do acordo com Andrew. Devo oferecer parte do dinheiro de
volta? O pensamento faz meu coração doer. Nós precisamos tanto
desse dinheiro. Comprará um casaco novo e sapatos para Bethy,
remédio se precisar e comida por semanas... talvez até alguns meses,
se eu for cuidadosa com isso.
Talvez eu lhe ofereça um boquete hoje de manhã. Eu prefiro
fazer isso do que devolver o dinheiro que está guardado em
segurança com Bean e Bethy no hotel.

Eu passo o dedo no meu cabelo o melhor que posso e saio do


quarto e desço a escada aberta. O cheiro de bacon no ar me leva
para a cozinha, onde Andrew está sentado à mesa, vestindo uma
camiseta cinza e lendo alguma coisa em um laptop.

—Bom dia. —Ele diz, pegando uma caneca de café e tomando


um gole. —Há bacon, ovos e café, se você estiver com fome.

Eu encho o prato que ele deixou no balcão. Há muita comida.


Eu sinto uma pontada de tristeza que estou prestes a comer isso
enquanto Bethy e Bean estão com fome. Pelo menos eles têm o
dinheiro agora, e talvez até mesmo peçam o serviço de quarto antes
de saírem do hotel.

Lembrando o acordo que fizemos, limpo minha garganta


enquanto me sento à mesa.

—Assim... Eu estava pensando que ainda temos algum tempo


para... você sabe. Se você quiser...

Ele franze a testa. Aqueles óculos de leitura realmente


funcionam nele. Seus vibrantes olhos azuis olham de volta para
mim.

—Não, o quê?

Eu ergo minha cabeça e arqueio minhas sobrancelhas com


impaciência. —Chupar seu pau. Você quer que eu chupe o seu pau?

Seu leve sorriso presunçoso me diz que ele só queria que eu


dissesse isso. —Tudo bem.

—Você não gosta de mim? —Pergunto defensivamente. —É


porque sou virgem?
—Eu gosto muito de você, e não, não é isso. —Ele olha para
o meu prato. —Coma. Eu tenho algo para discutir com você.

Eu mordo um pedaço de bacon, esperando. —Eu estive


pensando. —Ele começa.

—Você quer o dinheiro de volta. E eu entendo isso, porque eu


não...

Ele me interrompe. —Não. Apenas coma e me deixe falar,


você consegue?

Meu estômago relaxa. Ele disse não. Ele não quer o dinheiro
de volta.

—Eu tenho uma proposta. —Diz ele, fechando a tela do


computador. —Eu gosto de você, Quinn. Você me intriga mais do
que a maioria das mulheres. E você poderia aproveitar uma mão
para ficar de pé. Eu gostaria de contratá-la para morar comigo por
seis meses. Pagarei dez mil dólares por mês.

Minha garfada de ovos cai da minha mão e o utensílio faz


barulho contra o prato. Ele quer me pagar quanto?

Eu limpo minha garganta e pego meu garfo. —Desculpe, não


estou entendendo. Me contratar? Para quê?

Ele gesticula para mim. —Por isso. Como na noite passada,


mas a longo prazo.

—Oh. Assim... sexo?

Os cantos dos olhos dele se enrugam quando ele sorri.


—Esperançosamente. Mas não vou te forçar.

Eu esfrego minhas têmporas, oprimida e confusa. —Mas... Eu


fui horrível. Nós não fizemos nada. Você não quer... você sabe, uma
profissional?
Ele dá de ombros. —Como eu disse, gosto de você. Você é
genuína. Você não puxa o meu saco. E você não acha que vou me
apaixonar e me casar com você. Você é pragmática, como eu.

Eu exalo profundamente. —Eu não sei.

—Você não sabe se prefere ficar nas ruas ou morar aqui? —


Seu tom ligeiramente ofendido me irrita.

—Eu sou responsável por alguém.

—Quem? A pessoa da sua família?

Eu faço uma cara brava. —Não é da sua conta.

—Quem quer que seja, eu acho que essa quantia de dinheiro


ajudaria. Eu vou pagar adiantado pelo primeiro mês.

Dez mil dólares. Essa quantia de dinheiro poderia fazer mais


do que fornecer um lugar quente para Bean e Bethy dormir. Eu
poderia fazer um trabalho melhor em escondê-la das pessoas que
nos procuram. Eu poderia pagar um lugar mais seguro do que as
ruas e túneis. Ela poderia comer bem. Talvez até pagar aulas para ela
aprender o que perdeu na escola.

Mas nós nos separaríamos. O pensamento me esmaga. Bethy


está ao meu lado há mais de quatro anos. Ela é uma parte de mim.

—Eu preciso falar sobre isso com... alguém. —Digo.

—Dê-me sua palavra, que não é um homem. —A voz de


Andrew mantém a tensão agora. —Eu não vou fazer isso se o
dinheiro vai para o seu namorado.

—Não conversamos isso ontem à noite? —Eu disparo de


volta. —Não há nenhum homem. Estou falando sobre a pessoa
pela qual sou responsável.
Depois de uma pausa, ele pergunta: —Quanto tempo você
precisa para decidir?

—Eu não sei... Só hoje, eu acho. Posso dar a resposta de


manhã?

—Claro. Onde posso me encontrar com você?

—Hum...

—Eu vou colocá-la em um hotel para esta noite.

—Aquele onde Dawson me colocou para que eu pudesse me


preparar para a noite passada?

—Certo. Vamos estender para essa noite e nos encontraremos


no saguão de manhã. Nove horas da manhã.

Seu olhar tem tanta intensidade que me sinto nervosa. É tão


estranho ser vista desse jeito. Não só como pessoa, mas como
mulher. Digna de atenção e carinho. Eu nunca senti isso antes.

Eu tomo meu café da manhã, tentando não pensar muito à


frente. Bethy é muito ligada a mim, e ela pode surtar com essa ideia.
Mas o pensamento de cuidar dela, realmente cuidar dela, pela
primeira vez desde que saímos de casa há mais de quatro anos me
excita. Ela poderia ficar aquecida, alimentada, segura. Não mais
dormir com um olho aberto porque estou com medo que alguém
tente estuprar ou matar minha irmãzinha.

Não é possível colocar um preço nisso.

***
Andrew
Estou sendo um idiota no caminho para o hotel. Em vez de
tentar deixar Quinn à vontade e convencê-la com a ideia de morar
comigo, estou apenas olhando para o para-brisa em silêncio.

Ela não tem certeza? Viver nas ruas brutais de New York é
uma disputa acirrada com morar na minha casa e ser bem paga por
isso? Eu fui mais do que compreensivo com ela. Inferno, eu me
joguei sozinho no meu quarto ontem à noite quando estava
planejando uma noite de muito sexo com ela.

Quinn não é como as outras mulheres. Estou intrigado e mais


do que um pouco atraído por essa misteriosa mulher com uma faca
de caça amarrada na coxa.

—Eu pensei que caras ricos tinham alguém para levá-los aos
lugares. —Ela murmura.

Eu aperto o volante do meu Land Rover e olho para ela. —


Gostaria de ver um extrato bancário para confirmar meu
patrimônio?

Seus lábios se curvam com um leve sorriso divertido. —Não,


foi apenas uma observação.

—Eu uso um serviço de condução para ir ao meu escritório e


a qualquer lugar na cidade que requer estacionamento. Mas também
gosto de dirigir.

—Eu também gostaria, se eu tivesse um carro como este.

Eu respiro fundo quando paro no trânsito. —O que posso


dizer para persuadi-la? Quem é a pessoa pela qual você é
responsável, você precisa trazê-la junto?
Ela me dá um olhar de horror. —Não. Eu só preciso de um
tempo para pensar sobre isso.

Eu quero oferecer mais dinheiro a ela. O hotel fica a menos de


dois quilômetros de distância, e não quero que ela saia desse carro
sem um acordo. Ela poderia simplesmente deixar o hotel antes da
nossa reunião de amanhã, e eu nunca mais a veria.

Mas não. Eu me mexo no meu lugar, decidindo que não vou


oferecer mais dinheiro. Eu fiz uma grande oferta para ela, a maioria
das mulheres em sua situação aceitaria sem pensar. Se ela não
aceitar, tudo bem por mim.

Nós fazemos o resto da viagem em silêncio. Eu estaciono em


frente ao hotel e aceno para o manobrista que se aproxima. Quinn
pega a maçaneta da porta.

—Eu vou abrir para você. —Eu ofereço.

Ela abre. —Eu cuido disso. Vejo você de manhã, Andrew.

—No saguão? Você estará lá?

—Nove horas. Eu estarei lá.

Dou a ela meu cartão de visita, no qual escrevi meu número de


celular.

Ela pega e desliza para fora do carro, encontrando meus olhos


antes de fechar a porta. Eu vejo a curiosidade nadando naqueles
olhos castanhos com mesclas douradas e uma sugestão de um
sorriso em seus lábios.

E então ela se vai, deslizando pela porta da frente do hotel. Ela


entra de cabeça baixa e ninguém sequer olha para ela.
Eu olho para a porta por alguns segundos antes de me afastar
do meio-fio. Quanto mais eu me afasto do hotel, mais fora de
controle me sinto.

E não há nada que eu deteste como esse sentimento. De todas


as coisas que me chamam atenção, Quinn parece ser o curinga. A
única coisa que eu não posso comprar ou enfeitiçar. O desafio corre
quente e feroz em minhas veias.

Se ela disser não, não estará tudo bem para mim.


CAPÍTULO SEIS
Quinn

—Foda-se essa merda.

Essas são as primeiras palavras que saem da boca de Bean


quando conto a ele sobre a proposta de Andrew. —Olha. —Eu
digo. —Esta é a chance.

—A chance para você se tornar uma vagabunda de um cara


rico. —Diz ele amargamente.

Eu dou um passo para mais perto dele. —Nunca mais diga


essa palavra para mim novamente. Nunca, Bean. Nós dois fizemos
coisas que não nos orgulhamos em nome da sobrevivência.

—Não isso, no entanto. —Há uma nota suplicante em seu


tom agora. —Uma noite foi ruim o suficiente, mas seis meses?

Bethy está encolhida na cama, chorando baixinho. Eu vou até


ela, sentando-me e envolvendo meus braços em torno de seu corpo
frágil.

—Tudo bem. —Digo. —Eu não disse sim ou não ainda. Esta
é a nossa chance de falar sobre isso.

—Eu digo que não. —Bean diz. —Isso é uma besteira se


você...

Eu o silencio com um olhar. —Dê a Bethy a chance de falar.

Ela funga e leva alguns segundos para se recompor. —Eu não


quero comer comida paga por você ter que se vender. Eu prefiro
ficar com fome.
Bean acena com aprovação.

—Não é assim, gente. Nós nem fizemos nada ontem à noite.


Ele só quer sexo se eu quiser fazer.

—Então você quer? Você gosta dele? —Bethy pergunta.

—Não. —Bean responde por mim. —Ela tem muita


integridade para gostar desse tipo de homem.

Ele tem boas intenções. Eu sei que ele tem. Bean passou por
momentos difíceis em que teria sido muito mais fácil para ele nos
abandonar e simplesmente cuidar de si mesmo. E ele tende a ter
uma espécie de reação automática.

—Ele parece muito bom. —Digo, escolhendo minhas palavras


com cuidado. —E se eu não gostar de ficar lá, posso apenas sair.

Bean zomba com raiva. —Sim, esse cara vai deixar seu
investimento sair pela porta?

—Eu vou sair em meus próprios termos, se precisar.

Bethy suspira e encontra meus olhos. —Eu sentiria tanto a sua


falta.

—Eu também. —Eu passo a mão sobre seu cabelo escuro. —


Mas são apenas seis meses e o dinheiro duraria até você ter dezoito
anos. Quando terminar, encontrarei vocês no México e todos nós
poderemos começar uma nova vida.

Minha irmã assente ligeiramente. —É para lá que Bean e eu


iríamos?

—Sim. Aquela cidadezinha de que ele está sempre falando.


Aquela na praia. Nós podemos escrever cartas. Eu quero que vocês
me escrevam através de Anna, e eu farei o mesmo.

—Por quê? —A voz de Bethy treme nervosamente.


—Apenas por segurança. Eu não quero que ninguém possa
rastrear sua localização. Dessa forma, se alguém me encontrar, eles
não poderão encontrar você também.

—Você vai fazer isso, não vai? —Bean pergunta, uma veia
aparecendo em sua testa. —Isso é apenas uma besteira para nos
fazer sentir como se todos nós tivéssemos tomado a decisão.

—O que você acha que eu deveria fazer? —Eu atiro de volta


para ele. —Bethy precisa de uma vida melhor do que essa. Todos
nós precisamos. Eu estou cansada de comer lixo e sentir frio. Você
não?

Ele fica quieto por alguns segundos. —Sim. Mas eu preferiria


estarmos com frio e seguros juntos.

—Eu estarei segura. Eu prometo. Você sabe como sou boa


em cuidar de mim mesma, Bean. Eu só preciso saber que você vai
cuidar de Bethy.

Ele concorda. —Claro que vou. Vocês duas são tudo que
tenho neste mundo.

A emoção em sua voz toca meu coração. —Este é um


trabalho. Um trabalho fácil pelo qual estou sendo extremamente
bem paga. É a pausa que estávamos esperando.

—Andrew sabe quem você é? —Bethy me pergunta.

—Não. E ele não vai saber.

—E se esse cara te quiser por mais do que seis meses? —Bean


pergunta.

—Eu acabarei depois de seis meses. —Digo enfaticamente. —


Será dinheiro suficiente para nos bancar.
O silêncio se instala em torno da pequena e elegantemente
decorada suíte do hotel. É quebrado por uma tosse profunda de
Bethy. Eu troco olhares com Bean enquanto esfrego a mão nas
costas dela.

—Então vamos fazer isso? —Pergunto quando ela finalmente


para de tossir. Bean acena, mas parece abatido, seus ombros caídos.

—Eu confio em você. —Bethy diz. —Tudo o que você quiser


que eu faça, eu farei.

—Boa menina. —Eu me inclino para beijar sua testa. —Eu te


amo mais que tudo.

—Eu também te amo. Prometa que você vai escrever para


mim o tempo todo.

—O tempo todo. E você vai escrever para mim também.

Ela sorri. —Eu vou.

—Ok. Então este será nosso último dia juntos por um tempo.
Vou pedir a Andrew para enviar um médico aqui para olhar Bethy.

Bean olha para longe, sua mandíbula em uma linha tensa.

—E então. —Continuo. —Podemos assistir a filmes e pedir


serviço de quarto.

Bethy sorri e se estica na cama. —Parece divertido. Eu sinto


muita falta de filmes.

Eu me levanto e caminho até a porta, prometendo voltar em


breve. Depois de pegar o elevador até o saguão e receber um olhar
estranho quando peço ao recepcionista para pegar emprestado um
telefone, ligo para Andrew. Eu estou de pé ao lado da recepção em
um telefone sem fio, provavelmente o funcionário escutando a
minha ligação. Mas é melhor ele do que Bean.
—Alô? —Ele responde em um tom profundo e nítido.

—Andrew, é Quinn.

—Quinn. —Sua voz suaviza. —Oi.

—Oi. Eu preciso de um favor.

—Qualquer coisa.

Eu sorrio com a resposta dele. Um homem de negócios rico e


praticamente “à minha disposição”. Como isto se tornou a minha
vida? —Você pode mandar um médico para o quarto do hotel? —
Eu abaixo minha voz e coloco minha mão na parte inferior entre o
telefone e minha boca. —Alguém que vá tratar sem fazer perguntas.

—É para você? Você está bem?

—Estou bem. Não sou eu. —Estou praticamente sussurrando


agora. —Você pode fazer isso? Por favor?

—Claro. Eu vou fazer uma ligação agora mesmo.

—Obrigada.

Depois de uma pausa, ele diz: —Vejo você de manhã.

—Vejo você então.

Eu desligo e entrego o telefone de volta ao funcionário. Alívio


me inunda. Finalmente, um médico examinará Bethy.

No elevador de volta para o quarto, considero brevemente


pedir a Andrew para ajudar Bethy e Bean chegarem ao México. Mas
não. Eu não posso arriscar a contar sobre eles. As apostas são altas
demais. Terei que confiar na experiência de Bean em subverter leis e
se esconder.
Mas primeiro, vou passar o dia ao lado de Bethy. Nós vamos
rir, relaxar e aproveitar do jeito que as irmãs deveriam. Pela primeira
vez em mais de quatro anos, posso ficar com ela e não me
preocupar com nada.

***

Na manhã seguinte, eu envolvo meus braços ao meu redor


com força enquanto desço pelo elevador até o saguão do hotel. O
nervosismo me atingiu assim que deixei o casulo de calor na cama
que estava compartilhando com Bethy.

Eu ainda estou usando as roupas que Dawson trouxe para a


minha noite com Andrew. As únicas outras roupas que eu tenho são
as que eu estava usando quando cheguei ao hotel naquele dia. Elas
estão muito sujas e maltrapilhas para sequer pensar em usar.

Não só tenho vergonha de usar as mesmas roupas pelo


terceiro dia consecutivo, como eu estou preocupada que Andrew
não vá gostar de mim sem maquiagem e com meu cabelo amarrado
em um rabo de cavalo simples. Mas não há maquiador e cabeleireiro
agora, só eu.

Quando saio do elevador e piso no luxuoso piso de mármore


do saguão, vejo-o. Andrew está de pé com os braços cruzados,
olhando para uma pintura na parede do saguão.

Ele se vira quando me aproximo. Mais uma vez, ele está


perfeitamente vestido, usando calça cáqui e uma camisa azul com
um casaco de lã escura. Eu tenho que lembrar de que posso resistir a
ele. Não importa quão rico ele seja ou quão machucada eu esteja.

—Quinn. —Diz ele, seus olhos brilhando.


—Oi.

—O médico que enviei cuidou das coisas?

—Sim, obrigada.

O médico era jovem e excepcionalmente gentil. Ele examinou


Bethy completamente e prescreveu uma receita para um antibiótico.
Quando meu pânico ficou evidente por não ter certeza de que
poderia preencher uma receita sem identificação, ele saiu e voltou
com o remédio.

Eu odiei pedir a Andrew por esse favor, sabendo que ele


provavelmente descobriria pelo médico que eu estava com uma
adolescente e um homem. Mas a saúde de Bethy era mais
importante.

—Que tal o café da manhã? —Andrew pergunta. —Há um


lugar perto daqui.

Eu concordo. Passamos pelo saguão bem decorado até as altas


portas de vidro que levam para fora. Um porteiro acena e sorri para
mim quando puxa a maçaneta. Não é a atitude a qual estou
acostumada com os porteiros do hotel. Normalmente, eles olham
como se eu não existisse ou zombam.

Andrew espera que eu passe pela porta aberta e então ele


segue. Ele se junta a mim na calçada e aponta para a esquerda.

—Há um pequeno café a alguns metros. —Diz ele, esfregando


a mão sobre a barba escura no rosto. Eu posso ver que há algo em
sua mente.

Ele anda tão rápido que tenho que me esforçar para


acompanhá-lo. Eu enfio minhas mãos nos bolsos do casaco que
Dawson me comprou. Está tão quentinho. Eu troquei meu casaco
por comida no metrô no inverno passado, e é muito bom ter outro
novamente.

A única mesa que podemos pegar no café fica de frente à


grande janela que dá para a rua, e Andrew mal consegue sentar-se na
pequena cadeira.

—Seus joelhos estão tocando o fundo da mesa? —Pergunto,


divertida.

—Estou bem. —Diz ele, impaciente. —Quinn, qual é a sua


resposta?

—Minha resposta é provavelmente. Preciso passar algumas


coisas com você.

Seus ombros relaxam um pouco. —Claro.

Uma garçonete para na nossa mesa. —Café?

—Por favor. —Andrew diz, virando as duas canecas vazias em


nossa mesa. Ela serve um café fumegante em ambas. Ele toma um
gole do seu e depois descansa seus antebraços na mesa, olhando
para mim com expectativa.

Eu limpo minha garganta. —Você pode me pagar em dinheiro


ou cheque?

—Claro.

—Há algo que você não está me dizendo? Eu não quero


surpresas depois.

Uma ruga de confusão aparece entre as sobrancelhas. —Não.


É só o que eu te disse.

—Nada de sexo com outros homens? Ou mulheres? Eu não


vou fazer isso.
Ele sacode a cabeça. —Absolutamente não.

—Sem chicotes ou correntes ou me amarrar. —Digo. —Isso é


inegociável.

—Eu não quero machucar as mulheres.

—Bom. Eu vou manter minha faca. E posso sair a qualquer


momento que eu quiser, se não estiver funcionando.

Ele concorda. —Claro. Mas se formos para um evento social,


você terá que deixar a faca em casa.

—Que tipos de eventos sociais?

—Jantares, captação de recursos, coquetéis. Eu tenho que


fazer muitas dessas coisas.

Eu odeio o pensamento de ir a qualquer lugar sem minha faca,


mas ele está certo. Eu não posso levá-la para esse tipo de coisa. A
contragosto, eu aceno. Mas então uma nova preocupação se instala.

—Olha, eu tenho que ser discreta. —Digo. —Eu não posso


sair em fotos como sua companheira ou qualquer coisa assim.

—Não há muito disso, de qualquer forma. Eu também sou


muito discreto.

De alguma forma, duvido que este solteiro alto e educado seja


muito bom em não chamar atenção.

—Ei. —Andrew diz. —Eu sei que você precisa de tempo para
confiar em mim. Mas Quinn, minha casa é altamente segura. Você
estará segura.

A garçonete retorna e nós dois pedimos. Ele pede aveia e uma


omelete. Eu panquecas. Assim que estamos sozinhos novamente,
Andrew continua.
—A maior parte da segurança na minha casa não é vista. Mas
confie em mim quando digo que é um dos lugares mais seguros em
toda a cidade.

Eu não mencionei que é com ele que eu estava preocupada em


ficar a salvo. Eu sei me cuidar nas ruas.

—Assim... Ok. —Digo. —Eu acho que é um sim.

Ele sorri para mim, seus olhos azul-escuros aquecidos. —


Estou feliz. Enviarei Dawson para buscá-la aqui esta manhã. Ele te
levará às compras e te acomodará.

—Ok. Você vai trabalhar?

—Sim. Eu sempre trabalho aos sábados.

—Então você está em casa apenas aos domingos?

—Praticamente, a menos que eu esteja viajando a trabalho. Eu


volto para casa quase todas as noites, mas na verdade eu tenho um
pequeno quarto no meu escritório no trabalho para que eu possa
dormir lá se eu estiver trabalhando em um projeto.

Isso está soando cada vez melhor. Eu vivo na casa dele e só


tenho que dormir com ele algumas vezes quando ele está lá. Eu
decidi que estou bem em perder minha virgindade com ele. Eu
tenho vinte e um anos. Eu provavelmente teria dado a um cara na
escola se não tivesse fugido.

A garçonete entrega nossos pratos e nós comemos em


silêncio. Eu termino primeiro, ainda não acostumada a conseguir
comida tão facilmente. Quando Andrew termina, ele pega dinheiro
na carteira e deixa na mesa.

—Pronta? —Ele pergunta, em pé.

Eu respiro fundo. —Pronta.


CAPÍTULO SETE
Quinn

Estou chorando. Eu não achei que seria tão difícil deixar


Bethy. Ela se agarrou a mim quando saí do quarto há cinco minutos.
Foi seu sorriso corajoso quando ela finalmente me soltou que me
fez desmoronar.

Dawson ignora meu rosto manchado de lágrimas quando se


levanta de um banco no saguão do hotel. —Quinn. —Diz ele. —
Bom te ver de novo. Você deve ter se saído bem.

Eu dou de ombros.

—Temos muito a fazer hoje. —Diz ele.

—Também não é seu dia de folga, então?

Ele ri. —Domingo é meu único dia de folga.

—Andrew está exigindo?

Ele lidera o caminho para um SUV escuro estacionado em


frente ao hotel e abre a porta para mim. Depois que ele desliza ao
meu lado e o motorista se afasta do meio-fio, ele responde.

—Essa é uma pergunta difícil. Eu suponho que sim. Ele quer


o que quer, quando quer e quer que seja feito da maneira certa. Mas
ele paga seu pessoal excepcionalmente bem.

Eu não sei. Sou oficialmente uma de suas funcionárias já que


aceitei o cheque que foi entregue na recepção do hotel em um
envelope endereçado a mim. Foi mais difícil do que eu esperava
passar o cheque para Bean.
Confio em Bean, claro, mas o dinheiro nunca esteve em jogo.
Sobrevivência é tudo que já consideramos. E agora que eu lhe dei
dez mil dólares, ele permanecerá honrado? Seria tão fácil para ele
desaparecer e deixar minha irmã só.

Eu sussurrei em seu ouvido enquanto nos abraçávamos que


ela deveria ir até Anna se algo desse errado. Eu planejava checar
Anna todos os dias, só para ver se Bethy tinha entrado em contato
com ela.

—Então. —Dawson diz. —Vamos comprar roupas, sapatos,


maquiagem e manicure/pedicure hoje. E o seu celular será entregue
no escritório do Andrew e ele levará para casa para você.

—Eu não preciso de um celular.

—Sim, você precisa.

Eu sacudo minha cabeça. Acho que vou pegar e nunca usar.


—Na próxima semana, vamos ao médico e ao dentista.

—Dentista? —Eu recuo com isso. —E o médico? Estou


perfeitamente saudável.

—Você precisa usar anticoncepcionais.

Eu olho para o espelho retrovisor para ver se essa declaração


me rende uma olhada do motorista. Nada.

—Oh. —Digo, minhas bochechas se aquecendo. —Mas... —


Eu não posso completar a frase, é muito embaraçoso. Eu mal
conheço os dois homens que estão me ouvindo, e não quero discutir
a semântica do sexo com eles.

—O quê? —Dawson retruca.

—Você sabe, eu só imaginei que poderíamos usar... Quero


dizer, ele poderia usar...
—Ah. Não. Ele quer assim. Eu tenho o atestado de saúde dele
fornecido pelo médico para te deixar tranquila. Ele acabou de fazer
um exame de sangue algumas semanas atrás.

Bem, com doze mulheres antes de mim... sim, eu pude ver


como ele precisa ser testado regularmente.

—Por que estou falando sobre isso com você em vez dele? —
Eu pergunto, minhas bochechas ainda queimando. —É tipo...
íntimo.

—Sou o braço direito de Andrew. Eu cuido de todos os


detalhes de sua vida que ele não tem tempo.

Eu escondo minha insatisfação com isso. —Como eu?

—Sim. Não se engane, Quinn, isso não é amor. E nunca será.

—Eu não quero que ele me ame. Eu só imaginei o que ele está
gastando...

—É um trocado para um homem como ele. Ele pode


contratar pessoas para todas as suas necessidades. Eu sou uma delas
e você é outra.

Eu me acomodo no meu lugar, sentindo-me repreendida.

—Espero que isso não pareça difícil. —Dawson diz. —Estou


apenas cuidando de você. Se você se sentir como se fosse a próxima
“Uma linda mulher”... não pense.

Eu zombo. —Confie em mim, eu sei o que os homens são.


Estou nessa por seis meses e nem mais um dia.

O motorista reduz a velocidade até parar. Eu alcanço a


maçaneta da minha porta, mas Dawson me para com um leve toque
no meu braço.

—Deixe o motorista abrir.


Eu quero abrir minha própria porta, mas decido escolher
minhas batalhas. Dawson me leva a uma butique de luxo, onde ele
beija a vendedora nas duas bochechas.

—Taryn, esta é Quinn. —Diz ele. Eu ofereço um aceno


rápido, esperando que esteja claro que eu não vou beijar suas
bochechas. —Linda. —Murmura Taryn enquanto ela me
olha. Seu cabelo vermelho escuro está preso em um coque elegante,
e ela está vestindo um terninho escuro. —Deixe-me mostrar-lhe
uma sala e vou trazer algumas coisas.

O provador tem tecido texturizado nas paredes. Taryn coloca


uma garrafa de água em uma pequena prateleira e sorri.

—Sinta-se à vontade. Volto logo.

Dawson sai com ela e eu tomo um gole da água. Dentro de


alguns minutos, Taryn está de volta com uma braçada de vestidos.
Eu assisto pela porta aberta do provador enquanto ela os pendura
em uma arara e passa um para mim.

—Comece por aqui. Eu voltarei. —Ela diz.

Eu deslizo minhas mãos sobre o delicado detalhe no decote


do vestido preto. Eu não posso deixar de sentir que não deveria
estar aqui. Eu sou uma sem-teto imunda que deveria estar sendo
atacada por até mesmo tocar neste vestido. Sem mencionar que eu
odeio tudo que roupas como estas representam. Dinheiro. Prestígio.
Exclusividade. É um mundo do qual nunca mais quero fazer parte.

—Por que eu não ouço você se trocar? —Dawson pergunta


impaciente do lado de fora da porta do provador. —Temos muitas
compras para fazer, então vamos nos mexer rapidamente.

Eu dou a ele um olhar bravo que ele não pode ver pela porta
fechada, então tiro meus sapatos e roupas e coloco o vestido. Não
há espelhos aqui, então nem sei como fica. Eu abro a porta
timidamente e coloco a cabeça para fora.

Dawson estala os dedos. —Fora.

Eu suspiro e caminho até as paredes de espelhos no final do


provador. —Perfeito. —Taryn diz suavemente. —Parece que foi
feito para ela.

—Que tamanho eu uso? —Pergunto a ela.

Ela me dá um olhar confuso. —Trinta e seis.

Uau. Eu usava quarenta quando fugimos. Sinto falta das


curvas que tinha acabado de começar a desenvolver, agora é tarde.
—Ok, experimente o próximo. —Dawson diz.

—Eu acho que este parece bom. —Digo, admirando o tecido


sedoso da saia longa e as contas delicadas ao longo do decote alto.

—Vamos levar. —Diz ele rapidamente. —Mas precisamos de


mais. Experimente o próximo.

Suspiro e volto para o provador. Dawson não é mais o cara


legal que ele parecia quando o conheci. Ele só quer me gerenciar
como mais um dos detalhes de Andrew.

Não é com ele que estou preocupada, no entanto. E se


Andrew for diferente também, agora que comprou e pagou?

Andrew

Eu puxo um dispositivo do console do meu Land Rover e


digito um código. A porta da garagem atrás do armazém se abre, e
eu entro. Assim que estaciono e saio, meu telefone toca no meu
bolso. Eu puxo e vejo que é minha mãe ligando pela terceira vez
hoje. Pela terceira vez, eu ignoro.

Um segurança acena enquanto passo por sua cabine. —Boa


noite, Sr. Wentworth. —Diz ele, apertando um botão para falar pelo
interfone. Eu aceno para ele através do vidro à prova de balas.

A garagem fica abaixo do nível do solo, então pego o elevador


até o andar principal. Assim que fecho a porta da casa atrás de mim,
a tranca desliza de volta ao lugar.

Eu estou na antessala. É bastante ridículo ter uma antessala


especialmente para guardar casacos em uma casa para uma pessoa,
mas acho que vou vender este lugar quando for mais velho, e isso
pode ser um bom recurso para aqueles que quiserem se divertir aqui.

Meu telefone toca novamente. Eu puxo e balanço minha


cabeça enquanto leio a tela. Eu deslizo meu dedo nele. —Oi, mãe.

—Eu sabia que você estava aí, querido. Por que você me
ignora?

—Eu estava ocupado.

—Muito ocupado para mim?

Entro na cozinha e abro a geladeira grande de aço inoxidável,


tirando uma garrafa de água. —Como você está, mãe?

—Oh, você sabe, apenas o de sempre. Vamos tomar um


brunch amanhã.

Amanhã é meu primeiro dia inteiro com Quinn. —Desculpe,


eu não posso.

—Bem, isso é um absurdo. Você nunca tem tempo para mim,


Andrew. Você percebe que é a única família que eu tenho?
Ela é uma mestra em fazer alguém sentir-se culpado. Isso me
transformou em um trapaceiro em fugir da culpa. —Eu vou ver
você na noite de quarta-feira no evento beneficente.

—Se nós tivermos um momento para conversar, você quer


dizer. —Diz ela.

—Eu vou ter certeza que sim. —Abro a água e tomo um


longo gole. —Ei, eu preciso ir, mamãe. Vejo você quarta-feira?

—Tudo bem. Eu te amo.

—Também te amo.

Termino a ligação e coloco meu celular e a água na ilha da


cozinha. Dawson me mandou uma mensagem quando deixou
Quinn uma hora atrás, então eu sei que ela está aqui. Mas não a vejo
na sala de estar ou no quarto de hóspedes em que ela dormiu ontem
à noite no andar de cima.

—Quinn? —Eu chamo enquanto desço as escadas.

—Oi. —Diz ela, descendo o corredor em direção à sala de


estar. Com um livro na mão. —Eu estava na biblioteca. É incrível, a
propósito.

—É o meu lugar favorito na casa.

—Espero que esteja tudo bem em eu ter entrado e pegado isso


emprestado. —Ela agarra o livro ao peito.

—Claro. Fique completamente em casa aqui. Há algumas


portas que você não consegue abrir devido à segurança, e tudo
acima do piso principal está inacessível. Eu criei um código para
você usar a porta da frente.

—Você aluga apartamentos nos andares superiores? Há outras


pessoas no prédio?
Eu paro por um segundo antes de responder. —Não
apartamentos, não. Mas há um negócio no andar de cima. Eu
prometi a eles confidencialidade, então tenho que manter todos os
acessos da minha casa pessoal separados. Até mesmo a garagem
abaixo do prédio está dividida. Tudo é à prova de som e a segurança
funciona nos dois sentidos, para que você não precise se preocupar
com o fato de alguém entrar aqui.

—Ok, bom.

—Eu tenho um sistema de segurança ativado por voz em toda


a casa. Eu o preparei para reconhecer sua voz ao longo dos
próximos dias. Se você precisar de ajuda, basta dizer o nome do
meu pai: David Alan Wentworth. Tem que ser todos os três nomes.
Diga em voz alta e claramente para que o sistema capte todas as
sílabas, assim. —Digo o nome, e alguns segundos depois, mostro a
tela do meu celular, que está vibrando com uma nova mensagem de
texto. —Esse é o sistema que está me alertando que está ligado. —
Eu digito uma mensagem para os seguranças para que eles saibam
que eu estava testando.

Ela parece estar absorvendo tudo quando me lembro de mais


uma coisa que preciso contar a ela. —Além disso, não traga
ninguém para cá. O programa de reconhecimento facial alertaria a
segurança antes mesmo de você passar pela porta da frente com
eles.

Ela arregala os olhos. —Ok... certo. Eu não conheço ninguém


para trazer aqui, de qualquer maneira. —Ela me olha fixamente. —
Posso fazer uma pergunta?

—Certo.

—Por que toda a segurança?


—É só uma coisa minha. —Digo com desdém. —O primeiro
negócio que iniciei foi um programa de segurança para o qual
escrevi o código.

—Oh.

Eu olho para ela. Ela está vestindo jeans, uma camisa de


algodão leve e vermelha que faz com que a sombra rosa-clara de
suas bochechas se sobressaia e sapatos elegantes e escuros.

—Você está bonita. —Digo.

Ela revira os olhos e sorri. —Agradeça a Dawson. Ele


escolheu a roupa e me disse para amarrar meu cabelo neste rabo de
cavalo.

—Você vai ver que é bom ser cuidada.

Ela dá de ombros. —Não é como se eu soubesse o que parece


ser bom hoje em dia.

—Ele mencionou que vamos sair para jantar hoje à noite?

—Sim. Eu suponho que preciso trocar de roupa?

—Um vestido preto seria perfeito. —Olho para o meu relógio


de pulso. —Vamos sair em trinta minutos.

—Vou me preparar. —Diz ela, passando por mim.

Eu não vou trocar a calça cáqui e a camisa social que usei no


escritório, então vou para o meu escritório em casa e me sirvo um
copo de conhaque. Eu preciso descontrair um pouco antes do
jantar. Quinn tem uma atração magnética que é difícil de ignorar. Eu
quero aquela mulher forte e sexy na minha cama hoje à noite. O
pensamento de ser seu primeiro assumiu o controle das minhas
fantasias.
Mas é cedo demais. Eu tenho que esperar até que ela queira
tanto quanto eu, e isso vai levar tempo.

Ela é diferente das outras mulheres que eu tive. Inferno, ela


nunca foi beijada.

Estou rodando o último gole de conhaque no meu copo


alguns minutos depois, quando ela entra pela porta aberta do meu
escritório.

—Aí está você. —Diz ela. —Você está pronto?

Ela está usando um vestido verde brilhante que envolve


perfeitamente seu corpo e saltos pretos. Eu não posso evitar de
comê-la com os olhos por alguns segundos.

—Você está ótima. —Digo, levantando-me da minha cadeira


de couro. —O meu assistente não conseguiu comprar um vestido
preto hoje?

Ela olha para mim quando me aproximo dela, um sorriso


ameaçando se mostrar. —Ele me comprou vários.

Meu pau pulsa com consciência. Ela deliberadamente usou o


verde, então. Sua resistência a ceder à minha vontade é
surpreendentemente sexy.

—Você sabe, eu não sei o seu sobrenome. —Digo, perto o


suficiente agora para sentir seu perfume doce e delicado.

—É Jones.

—É agora? —Estou olhando para os lábios rosa claros,


tentando não pensar em fazer safadezas com eles. Eu não preciso de
um pau duro não podendo fazer nada a respeito nas próximas horas.

—Sim.
—Bem, vamos brindar nosso novo arranjo, senhorita Jones.
—Eu ofereço-lhe um braço, e ela desliza a pequena mão em torno
dele.

—Você está deixando a faca para trás, eu espero? —Pergunto


a caminho da porta.

—Sim, mas tenho um pequeno canivete na minha bolsa. —Ela


segura uma pequena bolsa preta.

Eu arqueio minhas sobrancelhas. —Eu não acho que haverá


brigas de rua na churrascaria que vou te levar.

Ela nem liga para o meu comentário. Eu a ajudo a vestir o


casaco escuro que ela pendurou no encosto do sofá, coloco o meu e,
em seguida, levo-a para a porta dos fundos do armazém, onde meu
motorista, Roy, nos espera em um SUV preto. Eu abro a porta, e ela
desliza para dentro.

A partir do momento em que estou no banco de trás ao lado


dela, estou pensando em pegar seus quadris e puxá-la para o meu
colo. Eu quero ela me abraçando para que possa sentir o quanto eu
a quero. Se ela baixasse a guarda, descobriria que minhas mãos e
boca podem levá-la a lugares onde ela nunca esteve. Lugares
sacanas, sensuais e alucinantes.

Ela está segurando a bolsa no colo. —Você está com fome?

—Sim, muito.

—Onde Dawson levou você para almoçar?

—Nós não tivemos tempo para almoçar.

—Você não almoçou? —Minha irritação aparecendo no meu


tom.

—Nós tivemos muitas compras para fazer.


—Eu não me importo. Nada disso vale a pena ignorar o
almoço.

É importante para mim que Quinn coma. A pobre mulher está


muito magra e está com fome há muito tempo. —Não diga nada
para Dawson. —Diz ela. —Por favor. Eu deveria ter dito a ele que
queria almoçar.

—O trabalho dele é cuidar de você. Isso não significa apenas


comprar roupas e sapatos. Espero que ele te trate do jeito que ele
me trata.

Ela ri. —Você é o chefe dele. Eu sou uma peça de seu chefe. É
diferente.

—Minha peça, hein? —Eu não posso deixar de sorrir com o


quanto Quinn é direta.

—Bem, tenho certeza de que serei em breve. Quero dizer...


essa é a ideia, certo?

Não breve o bastante, porra. Esta conversa está me dando


tesão, então mudo de posição e me ajusto.

—Vamos a um evento beneficente na quarta à noite. —Digo.


—Você vai conhecer minha mãe.

—Oh Deus. O que devo dizer a ela?

Eu aceno com desdém. —Não se preocupe, eu vou cuidar


dela.

—Sem fotos. —Diz ela em um tom sério.

—Você mencionou isso.

Ela segura meu olhar e eu tenho que me ajustar novamente.


—Quando você está no trabalho, eu deveria estar fazendo alguma
coisa? Limpando a casa?
—Não. Eu tenho alguém para isso. Apenas relaxe. Você gosta
de ler, certo? Eu tenho mais de mil livros na minha biblioteca. E há
uma sala de ginástica se você gostar de se exercitar.

Ela acena com a cabeça. Eu posso dizer que ela precisa de


tempo para se ajustar. Deve ser difícil fazer a transição das ruas para
uma vida onde todas as suas necessidades sejam satisfeitas pelos
outros.

Nós andamos em silêncio enquanto ela olha pela janela. Eu


tenho que quebrar o gelo.

—Eu posso pedir a Ty para verificar sua irmã novamente se


você estiver preocupada com ela. —Ofereço. —O médico que eu
mandei.

Quinn se vira para mim com um olhar penetrante. —Eu sabia


que você usaria isso como uma oportunidade para bisbilhotar.
Nunca mais mencione ela novamente.

—Ty ligou para me contar como foi. Por que você me disse
que tinha um parente se queria que ela fosse um grande segredo?

—Eu pensei que nunca mais veria você quando eu disse isso.

Eu não posso evitar um leve sorriso. —E agora? Com o que


exatamente você está preocupada?

—Estou falando sério, Andrew. —Ela diz friamente. —Não


vá por aí.

—Isso está indo muito bem até agora. —Murmuro.

Nós dois recorremos a olhar pela janela. Eu queria ter pedido


o jantar porque não tem como essa noite terminar bem.
CAPÍTULO OITO
Quinn

O jantar foi desconfortável, para dizer o mínimo. O


restaurante era tão caro que nem havia preços no cardápio. Eu
estava pensando o tempo todo sobre quantas pessoas poderiam ter
comido um jantar decente com o que Andrew estava gastando
apenas com nós dois.

Suspeito que a parte sexual do nosso acordo será mais fácil


para mim do que a parte em que pretendo bancar a Cinderela sendo
levada para um baile. Se você me perguntar, Cinderela aguentou as
besteiras da madrasta por muito tempo. Ela deveria ter se salvado
bem antes que o príncipe aparecesse.

Assim que voltamos para o armazém, vou para o meu quarto


guardar as montanhas de roupas e sapatos que comprei antes.

No domingo, Andrew estava em seu escritório em casa com a


porta fechada quando acordei. Ele saiu para comer um sanduíche na
hora do almoço e mal disse oi, depois passou o resto do dia lá.

É segunda-feira agora, e estou lendo o quarto livro desde que


cheguei aqui. Ouvi Andrew sair ao amanhecer e também me
levantei. Passei a maior parte da noite me revirando porque estou
preocupada com Bethy e Bean.

Ela ainda está doente? O dinheiro permitiu que eles viajassem


sem identificação? Eles levantaram suspeitas?

Eu não vou conseguir parar de me preocupar até saber que


eles cruzaram a fronteira para o México em segurança. Está me
matando que a segurança de Bethy esteja nas mãos de outra pessoa
que não a minha, mesmo que seja Bean, em quem confio
completamente.

Se eles forem pegos, tudo terá sido em vão. Todas as noites


frias, a fome, as pessoas que esfaqueei para nos manter seguras,
terão sido um desperdício. Eu não vou ter uma vida aqui ou em
qualquer outro lugar se Bethy for mandada de volta para casa.

Um pouco depois das dez da manhã, estou tentando ler uma


página em meu livro pela quinta vez quando a porta da frente se
abre.

Entro na sala e vejo uma mulher mestiça com um lindo sorriso


e cabelos grisalhos. —Oi. —Ela diz. —Eu sou Turner. A chef e
governanta do Sr. Wentworth.

—Oh, olá. Eu sou Quinn.

Finalmente, alguém com quem posso conversar. Parte da razão


pela qual estou preocupada é porque estou sozinha neste imenso
lugar sem nada para fazer.

—Prazer em conhecê-la, Quinn. —Ela caminha até uma


despensa na cozinha e abre a porta, pegando um avental de um
gancho e colocando-o. —Eu vou limpar e cozinhar, então não se
importe comigo.

—Em que posso ajudar?

Ela ri levemente. —Obrigada por oferecer ajuda, mas tenho


tudo sob controle.

—Não, realmente. Eu farei qualquer coisa.

Ela encontra o meu olhar através do vasto espaço entre a


cozinha aberta e a sala de estar. —[Link] não aprovaria isso.
Eu suspiro profundamente. Ser uma mulher amável tem sido
uma droga até agora. —Claro. —Digo. —Acho que vou sair um
pouco.

Turner apenas balança a cabeça e começa a trabalhar na


cozinha. Pego meu casaco e chapéu e saio pela porta da frente do
armazém, mantendo a cabeça baixa para bloquear o vento gelado
que chicoteia o meu rosto.

É bom estar andando. Normal. Algumas pessoas por quem eu


passo nas ruas me ignoram, mas outras olham. Algumas até acenam
ou sorriem. Aparentemente, um casaco e botas caros me fazem
digna de sua atenção.

Eu ando alguns quilômetros e percebo que andar em botas de


couro novas com salto é desconfortável. Eu meio que desejo meus
velhos tênis desgastados. Mas pelo menos não estou com frio.

Finalmente, chego ao meu destino e sinto uma sensação


calorosa de calma. Se eu tenho um lugar feliz, é esse. Eu vou para
dentro e respiro o cheiro familiar de livros de bolso. Essa seção da
biblioteca cobre quatro andares e eu subo as escadas até o terceiro.

Anna está sentada ao lado da recepção. Sorrio quando me


aproximo dela, quase chorando de felicidade. Seus cachos ruivo-
escuros estão escondidos atrás das orelhas, e vejo o brilho da
corrente de prata que ela mantém em seus óculos para que não os
perca.

Ela olha para cima e seu rosto se ilumina com felicidade. —


Quinn, é tão bom ver você.

Quando ela dá a volta na mesa para me abraçar, fecho os


olhos e me deixo confortar com seu cheiro familiar de pó e o peito
largo e macio.
—Eu tenho uma mensagem para você. —Diz ela quando se
afasta.

—Você tem? —Meu coração dispara com excitação. Como


Bethy pode ter me enviado uma carta através de Anna tão
rapidamente?

—Ela ligou e disse que está segura no lugar onde o time de


beisebol favorito do seu pai joga.

Meus ombros caem quando a tensão se dissipa de vez. Ela está


segura. Eles chegaram a Chicago. Lágrimas de alívio ardem nos
meus olhos.

—Se importa se eu perguntar o que está acontecendo? —


Anna diz. —Eu nunca vi as duas garotas separadas.

Eu fungo e me recomponho. —Sim. Nós tivemos uma grande


oportunidade.

—Bem, se você está feliz, eu fico feliz.

Eu conheço Anna desde que chegamos a New York. Esta


biblioteca tornou-se um paraíso para nós. Era um lugar para nos
aquecermos no inverno e nos refrescarmos no verão, tudo isso
enquanto nos perdíamos nas histórias que cobrem as prateleiras nas
paredes. Anna cuidou de nós e nos deu comida de seu almoço
quando estávamos aqui.

—Estou feliz. —Confirmo. —Eu precisava de uma maneira


de Bethy me mandar mensagens, e eu teria perguntado primeiro,
mas...

Ela ergue a mão para me impedir. —Você não precisa


perguntar. Fico feliz em ajudar.

—Obrigada.
—Eu reservei alguns livros para você. —Diz ela, dando a volta
ao redor de sua mesa. —Talvez tenha sido um pensamento positivo.
Como se eu os separasse, você viria me ver. E olha, funcionou.

Ela me passa dois grossos livros de bolso.

—Estes não poderiam vir em melhor hora. —Digo. —


Obrigada, Anna.

Alguém vem até a mesa e ela os cumprimenta. Eu sigo para o


fundo, indo para a minha cadeira de leitura favorita em um canto
isolado do andar.

Anna notou meu corte de cabelo, maquiagem e roupas novas e


bonitas? Se assim for, ela não mostrou nenhum sinal disso. Eu
sorrio enquanto me acomodo na cadeira que considero minha. Não
é surpreendente, na verdade. Anna nunca me viu como uma mulher
sem lar. Para ela, sou apenas Quinn. O mundo poderia ter mais
Annas.

***

Na quarta-feira, tenho uma nova rotina. Depois que Andrew


toma o café da manhã e sai para o trabalho, eu faço um sanduíche e
coloco na minha mochila. Depois amarro meus sapatos velhos e vou
até a biblioteca, onde passo várias horas lendo e esperando uma
carta de Bethy chegar.

Andrew chega em casa do trabalho por volta das sete da noite,


e comemos o que quer que Turner tenha feito para o jantar naquela
noite, enquanto temos uma conversa educada e sem sentido.
Quando ele me pergunta o que eu fiz naquele dia, eu digo a ele que
li, o que é verdade.
Eu saio para ir para a biblioteca na quarta-feira porque é uma
longa caminhada até o armazém, e tenho que me preparar para o
evento beneficente de hoje à noite. Eu estou com medo, mas sei que
tenho que demonstrar coragem.

Quando entro pela porta da frente, Dawson está andando pela


sala enquanto um homem e uma mulher estão sentados
silenciosamente no sofá.

Dawson parece aliviado quando me vê.

—Andrew está a caminho de casa. —Diz ele com uma nota de


desculpas. —Eu não sabia onde você estava, e tive que dizer a ele
que você tinha saído.

—Eu sou uma prisioneira? —Eu exijo, tirando minha mochila.

—Não que eu saiba. —Ele aponta para o homem e a mulher,


e eles se levantam do sofá. —O cabeleireiro e a maquiadora vão se
instalar no banheiro de Andrew porque é maior que o seu. Vá em
frente e coloque o seu vestido.

Eu gostaria de dizer a ele que vou me aprontar quando quiser,


mas ele está certo. Eu preciso me mexer. —Seu vestido está
pendurado em seu banheiro. —Diz ele, com o rosto enterrado em
seu telefone.

Eu entro no banheiro de mármore dentro do meu quarto e


vejo que ele pendurou um bonito, mas conservador vestido cinza
escuro na porta e deixou saltos pretos e lingerie preta no balcão.

Foda-se. Ninguém escolhe minha roupa íntima para mim. Eu


posso não controlar muito em minha vida agora, mas estou me
assegurando de algumas coisas. Entro no closet que abriga minhas
roupas novas e escolho lingerie cor da pele, um vestido sem mangas
cor de vinho, uma echarpe preta e saltos de tiras pretos.
Eu mudo para o vestido e sapatos e estudo meu reflexo no
espelho. Eu sou magra demais, minha clavícula aparece
proeminentemente neste vestido. Eu só vou ter que deixar a echarpe
no evento. Minhas bochechas ainda estão rosadas do frio lá fora.

Há borboletas no meu estômago e eu me odeio por isso. Eu


me sinto animada em usar esse lindo vestido e fazer meu cabelo e
maquiagem. Eu nunca fiz nada parecido.

Talvez haja uma pequena Cinderela em mim, afinal de contas,


mas apenas no que diz respeito ao vestido e sapatos. Eu
definitivamente não estou ansiosa para uma noite com a coisa mais
próxima do Príncipe Encantado em minha vida. Andrew está frio e
distante desde a noite de sábado.

Estou a caminho de seu quarto no primeiro andar para


encontrar as pessoas da maquiagem e cabelos quando a voz dele me
faz parar no meio da escada.

—Bem, onde diabos ela estava?

—Ela não disse. —Dawson responde.

—Quem a levou? —Andrew exige.

—Eu não sei.

—Você está cuidando dela? Eu lhe disse para cuidar de suas


necessidades.

Há uma pausa no final da conversa de Dawson. Ele é uma


pessoa diferente com Andrew.

Quando ele fala, não há nada da impaciência que ele sempre


mostra comigo. —Tenho estado ocupado com sua lavagem a seco,
entregando esses relatórios e...
Andrew o interrompe. —Não me dê suas desculpas
esfarrapadas. Posso confiar em você ou não?

—Claro.

Eu tento fazer barulho descendo a escada, e limpo minha


garganta quando entro na sala de estar. —Quinn. —Andrew diz,
parecendo surpreso. —Está tudo bem?

—Claro.

—Esse vestido não vai funcionar. —Dawson diz com um


revirar de olhos.

Andrew o corta com um olhar. —Ela parece perfeita. —Ele se


vira para mim. —Onde você esteve hoje?

—Na biblioteca.

Seus olhos se arregalam de surpresa. —Biblioteca? Mas eu


tenho uma biblioteca particular aqui.

—Bem, eu gosto da pública. —Digo, dando de ombros. —


Seus livros são principalmente não-ficção.

—Como você chegou lá? Você pegou um táxi? Eu tenho um


motorista que você pode usar a qualquer hora.

—Eu andei.

Seus lábios se abrem com surpresa. Dawson se encolhe.

—Você andou? —Andrew estremece. —No auge do inverno?


Através do Meatpacking District?

Eu tenho que segurar uma risada. —Eu estive em lugares


muito piores, você sabe. E eu tenho a minha faca.
—Você não precisa andar por toda parte e carregar aquela
maldita faca. —Andrew diz. —Se você precisar de algo, apenas diga.

—Eu não.

Ele esfrega a mão no rosto, parecendo frustrado. —Deixe Roy


levar você. Você pode pelo menos fazer isso?

—Eu gosto de andar.

—Use a esteira na minha academia.

—Não é a mesma coisa. Sinto falta dos sons e cheiros da


cidade.

Ele enruga o rosto em confusão. —Você gosta do cheiro dos


escapamentos dos carros?

—Estou acostumada com isso.

—Você precisa se acostumar a ser bem cuidada.

Eu encontro seu olhar desafiadoramente. —Não se faça de


benfeitor. Nós dois sabemos por que estou aqui. O único que me
sustenta sou eu mesma.

Um silêncio tenso paira no ar. Estamos encarando um ao


outro, ambos se recusando a desviar o olhar. Eu vejo Dawson
saindo da sala pelo canto do olho.

Estamos sozinhos agora, e Andrew caminha em direção a mim


propositalmente. Minha mão instintivamente vai para a minha coxa,
embora não haja nada além do brilho suave do tecido do vestido.
Eu seguro-o nervosamente.

—Eu não vou te machucar. —Andrew diz, parecendo


ofendido pela ideia.

—Eu sei. —Meu tom é mais confiante do que eu sinto.


Não é que eu ache que ele vai me atacar aqui. Eu não tenho
medo disso. Estou preocupada com a minha irmã e estou
começando a pensar que Andrew está arrependido pelo negócio que
fizemos. Ele estava interessado em mim naquela primeira noite, mas
agora ele some o tempo todo e fica em silêncio nas raras ocasiões
em que está aqui.

—Você está pronta para ir? —Ele pergunta rispidamente.

Eu franzo minhas sobrancelhas com ceticismo. —Não.


Dawson trouxe pessoas para fazer meu cabelo e maquiagem.

—Vá, então. Eu vou me trocar.

Ele se vira para o quarto e eu o sigo. Quando ele entra pela


porta, me dá um olhar confuso por cima do ombro.

—Eles estão aí. —Aponto por cima do ombro. —No seu


banheiro.

Depois de um olhar pela porta do banheiro, ele franze a testa.


—Vou usar o outro banheiro.

Meu batimento cardíaco parece uma tambor no meu peito. Eu


quero perguntar se ele ainda me quer aqui. Não deveria importar
para mim, eu já tenho o dinheiro dele para o primeiro mês, mas
importa.

Isso é muito importante. Eu não consigo parar de pensar se o


meu tempo nas ruas me transformou em uma megera fria e
calculista. Pode um homem como Andrew se sentir atraído por uma
mulher que olha para ele e pega sua faca de caça toda vez que ele
chega a um metro e meio dela?

Eu não me importo com as coisas que a maioria das mulheres


da minha idade faz. Eu não consigo deixar para lá o modo de
sobrevivência. Está na minha mente a partir do momento que
acordo de manhã e olho em volta freneticamente para ter certeza de
que estou segura, até que eu durma tentando lembrar como é ter
Bethy aquecida e segura ao meu lado.

E mais... Eu me vejo me importando um pouco com o que


Andrew pensa de mim. Eu gostaria que ele pudesse ver minha força
e perceber que não sou uma coisinha vulnerável que precisa de
proteção.

A maquiadora lava meu rosto e faz uma maquiagem que dá


uma aparência sofisticada à minha pele enquanto o cabeleireiro
enrola e prende meu cabelo em um estilo glamouroso. Eu os assisto
pelo espelho e percebo que não importa o que eu vista e quanto
luxo eu esteja cercada, eu nunca vou combinar com esse reflexo
pelo lado de dentro. Eu sou apenas um rato de túnel implacável.

Toda essa preocupação sobre se eu seria capaz de fazer sexo


com Andrew... e a realidade dói em um nível totalmente novo. Ele
não me quer.
CAPÍTULO NOVE
Andrew

Eu não posso desviar o olhar dela. Quinn é naturalmente


linda. Seus grandes olhos, as maçãs do rosto salientes e o sorriso
radiante a diferenciam de outras mulheres, não importa o que ela
esteja vestindo.

Mas quando ela entra na sala de estar, eu fico chocado. Esse


vestido foi feito para o seu corpo delgado e sua pele macia e clara.
Seu cabelo loiro cai pelos ombros nus e seu rosto parece de uma
modelo em uma revista. Sua maquiagem esfumaçada nos olhos e
lábios vermelhos me fazem respirar fundo e soltar o ar devagar.

Tão. Incrivelmente. Sexy. Isso é o que quero dizer, mas não acho
que ela queira ouvir isso de mim. Não depois da discussão que
acabamos de ter. E não do jeito que a tenho evitado desde que ela se
mudou.

—Pronta? —Pergunto em vez disso, olhando para o meu


relógio.

Ela balança a cabeça e caminha até mim, seus ombros erguidos


com confiança. É uma contradição com o olhar de pânico absoluto
em seu rosto.

—Você está bem? —Pergunto.

—Claro.

Nossos olhos ficam fixos por alguns segundos, e sinto meu


corpo inconscientemente respondendo a sua proximidade. Meu pau
começa a ocupar todo o espaço livre em minha calça, e meus
músculos ficam tensos.

Dawson se aproxima e quebra o feitiço entre nós, pegando


minha gravata e endireitando-a. Eu lhe dou um olhar irritado,
porque minha gravata já estava perfeita.

—O carro está esperando. —Ele diz e franze as sobrancelhas


para Quinn com desaprovação. —Onde está sua clutch?

—O quê?

Ele suspira suavemente. —Sua pequena bolsa. A preta frisada


que separei para você.

—Oh. Eu não preciso disso. Eu não levo nada.

Dawson lhe dá um olhar de pena. —Telefone celular, batom,


absorvente?

Um rubor floresce em suas bochechas. —A única pessoa cujo


número eu tenho é Andrew, e ele está bem aqui, então... —Ela
limpa a garganta. —E já estou usando batom e essa não é a época
do mês.

—Ainda assim. —Dawson insiste. —Você vai precisar de


retoques.

—Se ela não quer levar, tudo bem. —Digo, resolvendo isso.

Quinn ajeita a echarpe preta que está usando em volta dos


ombros. Dawson vai até ela e gentilmente puxa o cabelo para fora e
o coloca em volta dos ombros novamente. Eu queria que fosse eu
fazendo isso em vez dele.

Ela me dá um olhar de expectativa e eu pego a mão dela. Ela


está tremendo um pouco quando desliza sua mão para dentro da
minha. Eu dou um leve aperto na mão dela enquanto a coloco na
minha.

Dawson nos segue enquanto nos dirigimos para a porta dos


fundos do armazém. Ele está sendo intrometido, o que sempre me
deixa louco.

—Estamos bem, obrigado. —Digo por cima do meu ombro.

Ele para de andar e digo a ele para ter uma boa noite. Ele
murmura um obrigado. —Não fique nervosa. —Digo para Quinn
em um tom baixo quando chegamos à porta.

—Eu não estou.

Ela está. Eu posso ver por todo o rosto dela e sentir em sua
mão suada.

Enquanto deslizo no meu casaco de lã escura, penso em como


está frio. Eu quase congelei minhas bolas andando para uma reunião
a um quarteirão do meu escritório na hora do almoço hoje, já que
andar era mais rápido do que dirigir com o tráfego da hora do
almoço.

—Você tem um casaco? —Pergunto a Quinn.

Suas bochechas coram de vergonha. —Sim, no meu quarto.


Eu vou buscá-lo.

—Use o meu. —Eu o envolvo em torno dela e coloco em


seus ombros antes que ela possa protestar. —É mais quente de
qualquer maneira.

—E você?

—Eu vou ficar bem.

—Eu pareço bem? Será que pareço com todo mundo lá?
Eu franzo minhas sobrancelhas, confuso com a pergunta dela.
—Você parece mais do que bem, e definitivamente não.

Ela pressiona os lábios. —Eu quero me misturar. Eu preciso me


misturar.

—Uma mulher como você não se mistura, Quinn.

Sua expressão cai decepcionada e minha confusão aumenta. O


que diabos eu disse de errado?

Ela está nadando no meu casaco. Eu não consigo parar de


olhar para ela. Mesmo com o vestido sexy coberto, ela parece
incrível agora. Eu quero puxá-la para perto de mim. Inferno, eu
poderia. Eu poderia fazer muito mais do que isso se quisesse. É por
isso que ela está aqui, afinal.

Mas com ela é diferente. Desde aquela primeira noite, não


consegui fazer nada que ela não quisesse. Eu paguei mulheres por
sexo antes, mas quando chegava a hora de acontecer, elas me
queriam. Eu sabia pelo jeito que elas lambiam seus lábios e gemiam
quando minha boca encontrava as delas.

Quinn não. Ela quer que eu fique longe dela. Está claro em
sua postura e no constante olhar de preocupação em seu rosto. Ela
está preocupada que eu vá pular nela para ter sexo, então eu fico
longe de casa tanto quanto posso. Isso me incomoda, ter uma
mulher pensando que vou pegar qualquer coisa que ela não queira
me dar.

Roy nos leva ao evento em silêncio. Ele está trabalhando para


mim há muito tempo e sabe que seu trabalho é proteger, ao
contrário de Dawson, que é preocupar-se. Roy trabalhou para meus
pais antes que meu pai morresse, e ele ficou conosco e se tornou
meu motorista quando eu terminei a faculdade e abri meu escritório
no centro da cidade. Ele sabe que odeio conversa fiada. Quando
chegamos ao evento, ele me dá um aceno quando saio do carro atrás
de Quinn.

Eu pego a mão dela e aperto de novo. Este evento é


particularmente chamativo, com um tapete vermelho e tudo.
Algumas pessoas próximas se viram para nos olhar, e Quinn aperta
minha mão.

—O que é que me denuncia? —Ela pergunta em um tom


suave.

—O que você quer dizer?

Ela olha para mim, seus olhos cheios de emoção. —Por que
eu não me misturo? Como você pode dizer que eu não tenho onde
morar?

Estou surpreso, mas mantenho meu rosto impassível. Eu a


levo para longe da multidão, roubando um pequeno espaço ao lado
do prédio onde podemos conversar sozinhos.

—Não foi isso que eu quis dizer. —Digo com firmeza. —


Você não se mistura porque é muito bonita, Quinn. Impressionante.
E você não é mais sem teto.

Seus lábios se movem ligeiramente para cima. —Se você acha


isso, então por que não me quer?

—Você acha que eu não quero você?

Ela dá de ombros. —Eu não sei. Você parece zangado o


tempo todo.

Eu tenho que rir disso. —Não. Eu sou apenas uma pessoa


séria. E me incomoda que você se sinta tão arisca o tempo todo e
use aquela faca como se eu fosse atacar você ou algo assim.

—Eu mal te conheço, Andrew.


—Se eu quisesse te machucar, você não acha que eu já teria
feito?

Ela suspira suavemente. —Eu suponho que sim.

—Olha. —Digo. —Geralmente sou bom em ler pessoas, mas


não consigo entender você. Você parece nervosa quando estou por
perto, mas você está perguntando se eu quero você. Você está
perguntando por que quer que eu queira você ou não?

Ela me dá um leve sorriso. —Estou mais preocupada com


outra coisa, Andrew. Não é você.

—Sua irmã?

O sorriso desaparece. —Você usou esse médico para me


espionar, não é?

—Você disse que tem um parente, e ele disse que tratou uma
adolescente, então eu presumi.

Ela olha para longe, uma nuvem de vapor condensado se


forma na frente de seu rosto enquanto ela suspira. —Sim.

—Há qualquer coisa que eu possa fazer?

Ela balança a cabeça, olhando para a fileira de SUVs e


limusines escuros esperando para deixar os convidados no evento.
—Nós não temos que ficar aqui se você não está pronta para isso.
—Digo.

Finalmente, ela olha para mim novamente. —Não, isso é bom.


Eu tenho quase enlouquecido com o tédio. Isso pode distrair minha
mente das coisas.

—Você está entediada?

—Turner não me deixa ajudar com nada.


—O que, no trabalho doméstico? —Eu recuo. —Você quer
fazer trabalhos domésticos?

—Eu quero fazer algo. Qualquer coisa. Eu não estou


acostumada a não ter nenhum propósito.

Eu aceno, prestes a responder, quando o clique de saltos se


aproxima me fazendo virar. —Andrew Wentworth, por que você
está se escondendo por aqui como um... oh.

É minha mãe, e ela está se aproximando para dar uma olhada


melhor em Quinn. —Eu não sabia que você traria alguém. —Diz
ela com firmeza.

—Mãe, esta é Quinn Jones. Quinn, minha mãe, Gina


Wentworth.

—Prazer em conhecê-la. —Quinn diz.

—Ela é uma modelo? —Minha mãe vira para mim agora.

—Não. Nós estávamos prestes a entrar. —Eu continuo


segurando a mão de Quinn e começo a ir em direção à porta.

—Bem, essa é uma ótima maneira de tratar sua mãe. —Minha


mãe diz no tom indignado que eu conheço muito bem.

—Você foi rude com Quinn.

—Eu certamente não fui.

Quinn fica ao meu lado. Eu aperto a mão dela para


tranquilizá-la e encarar minha mãe. —Você nem sequer a
cumprimentou. —Digo.

Mamãe arqueia as sobrancelhas, ainda observando Quinn com


seu olhar aguçado. —Bem, eu não estava preparada para conhecê-la,
não é?
Eu apenas suspiro profundamente, sabendo que qualquer
coisa que eu disser vai provocar uma discussão.

—Andrew. —Mamãe diz. —Dahlia Donelson está


procurando por você. Eu disse a ela que vocês dois poderiam
sentar-se juntos no jantar.

Os Donelsons são amigos da minha mãe e ela está tentando


me juntar com a filha deles, Dahlia, desde que estávamos no ensino
médio. E finalmente, tenho uma boa desculpa para evitá-la.

—Você errou. —Digo. —Eu estarei com Quinn a noite toda.

Mesmo na penumbra da noite, vejo o flash de raiva passar


pelo rosto da minha mãe.

—Você vem para dentro com a gente? —Pergunto a ela.

Ela não diz nada e passa por nós, seus saltos estalando contra
a calçada. Uma onda de raiva aumenta no meu peito. Quinn está
nervosa o suficiente sem minha mãe rainha de gelo adicionando
mais besteira.

Estou andando rápido demais, um mau hábito meu quando


fico chateado. Quinn está correndo para me acompanhar, e estou
prestes a desacelerar quando um fotógrafo olha diretamente para
mim e arqueia as sobrancelhas interrogativamente.

—Uma foto rápida, Sr. Wentworth? —Pergunta ele,


levantando a câmera.

Eu ouço Quinn respirar nervosa ao meu lado. Estendendo


uma mão para o fotógrafo, solto a mão de Quinn e envolvo meu
braço em volta dos ombros dela. Com ela encostada ao meu lado, eu
nos levo em segurança para dentro.
—Não há fotógrafos aqui. —Digo quando ela tira meu casaco
enorme de seus ombros. Eu pego e passo por cima do balcão da
chapelaria no saguão do hotel de luxo.

—Aí está você!

Eu fico tenso com o som da voz aguda de Dahlia Donelson.


Ela está falando comigo. Toda vez que ouço sua voz, ela está
tentando afundar suas longas garras vermelho-brilhantes em mim.

—Salve-me. —Murmuro baixinho para Quinn.

Ela está me dando um olhar confuso quando Dahlia aparece,


braços estendidos, sorrindo e brilhando em um vestido vermelho
chamativo.

—Onde você esteve, Andrew? —Dahlia diz no meu ouvido.

Seu abraço é muito longo, e sinto cada centímetro de seu


corpo se esfregando contra mim como uma stripper no trabalho.
Assim que ela se afasta para olhar para mim, Quinn envolve os
braços em minha cintura.

—Eu tenho mantido ele muito ocupado, se você sabe o que


quero dizer. —Diz ela. Tenho que olhar para baixo para confirmar
que as palavras confiantes e sensuais vieram de sua boca.

—É mesmo? —O sorriso de Dahlia permanece estampado no


lugar, mas como o resto dela, é falso.

Eu sou a namorada de Andrew, Quinn. —Ela estende a mão


para Dahlia, e elas se cumprimentam.

—Namorada? —Dahlia praticamente engasga com a palavra.

—Eu o convenci a sair hoje à noite, mas ele queria ficar em


casa. —Quinn diz, olhando para mim com brilho em seus olhos. —
Eu estou dizendo a você, ele me manteria na cama o tempo todo se
pudesse.

—É mesmo? —Dahlia diz novamente.

—Não me entenda mal. Eu não estou reclamando. —Quinn


dá um sorriso conspiratório para Dahlia.

Eu fico duro. Eu deveria estar mais preocupado com isso do


que estou, considerando que estamos no saguão de um hotel com
muitas outras pessoas, mas tudo o que posso pensar neste momento
é o corpo quente e macio de Quinn pressionando contra mim. Até
mesmo sua insinuação de que dormimos juntos faz minhas bolas
doerem de desejo por ela.

Não posso deixar de aproveitar a oportunidade de deslizar a


palma da minha mão até a sua bunda. É firme e ligeiramente
arredondada. Ela inala bruscamente e aperto mais as pontas dos
meus dedos.

—Andrew. —Ela diz em um tom provocador. —Você não


consegue o suficiente, não é?

—De você? —Eu não faço nenhum esforço para esconder a


luxúria que estou sentindo por ela. —Nunca.

Eu me inclino e beijo sua testa. Sua pele é macia. É tudo que


posso fazer para me afastar em vez de inclinar o queixo para um
beijo de verdade.

—Bem. —Dahlia diz, pigarreando dramaticamente. —Eu vou


deixar vocês dois sozinhos.

Ela se dirige para o salão de baile do hotel, e Quinn me lança


um olhar interrogativo. —Como fui? —Ela sussurra.

—Surpreendente. Obrigado.
—Você também foi bom. Eu realmente pensei que senti...
você sabe, algo contra a minha coxa quando eu te abracei.

Eu dou risada e aperto sua bunda novamente. —Sem


fingimento aqui, Quinn. Você me excita.

—Eu?

As pessoas andam à nossa volta e percebo que só percorremos


cerca de seis metros do saguão antes que Dahlia nos encontrasse.

—Nós devemos entrar. —Digo. —Eu tenho que tirar a mão


da sua bunda?

—Isso sempre acontece com você, não é?

Um momento silencioso carregado de energia sexual passa


entre nós antes de eu responder. —Não. Só com você.

Seus lábios se curvam em um sorriso. —Eu acho que sua mãe


ficará escandalizada se entrarmos lá assim.

—Eu gosto muito de escandalizar minha mãe. —Admito. —E


eu estou gostando muito da sua bunda agora também.

Suas bochechas ficam rosa. Eu quero voltar pelas portas da


frente do hotel e levá-la para casa. Eu quero descobrir como é a
bunda dela sem o tecido do vestido para atrapalhar. O que
realmente quero é ter sua bunda em minhas mãos enquanto ela
cavalga meu pau. Eu quero os seios dela na minha cara enquanto me
enterro profundamente dentro dela.

Se pudesse fazer com que ela quisesse sexo, eu sei que poderia
acabar com toda a sua tensão e preocupação. Eu não sou bom em
fazer as mulheres se sentirem bem com as palavras, mas com o meu
pau eu posso torná-las incoerentes.
Quinn merece se sentir bem. Ela merece ser capaz de deixar
todas as suas dúvidas e medos e permitir que outra pessoa assuma.
Desde que esse alguém seja eu.

Estamos entrando no salão quando um colega de trabalho me


cumprimenta e estende a mão para um aperto. Eu sou forçado a
afastar minha mão de Quinn.

Ela é como uma pessoa diferente aqui, oferecendo a todos que


conversamos um caloroso olá e um lindo sorriso.

As pessoas estão olhando para nós e eu sei o que elas estão


imaginando.

Quem é ela?

É incomum uma mulher tão bela como Quinn aparecer na


cena social como uma completa desconhecida. Normalmente,
alguém sabe um pouco sobre quem aparece nesses eventos
beneficentes. Eles são para os nova-iorquinos mais ricos, que
comparecem apenas pelo prestígio disso.

Estamos conversando com um embaixador dos EUA quando


meu telefone toca no meu bolso pela terceira vez em menos de
cinco minutos. Eu vejo um leve brilho de nervosismo nos olhos de
Quinn quando me desculpo para verificar meu telefone, então
murmuro em seu ouvido.

—Já volto. —Prometo, roçando meus lábios levemente no


lóbulo da sua orelha.

Cristo, eu a quero tanto. O cheiro de coco de seu cabelo


permanece em minha mente quando saio para uma sala de
conferência vazia para verificar meu telefone.

Eu suspiro de frustração quando vejo quem está ligando. Um


empresário de quem estou comprando uma empresa e que está com
medo de assinar nosso contrato na próxima semana. Eu já falei com
ele sobre isso várias vezes nos últimos dias. Mas não quero perder
este negócio, então tenho que ligar de volta.

Ele atende o telefone e lança um monólogo sobre o quão


difícil é vender o negócio que ele construiu do nada.

—Você reconsiderou, então? —Pergunto, olhando para baixo


pela longa e escura mesa na sala de conferências.

—Bem, não exatamente... Só estou querendo saber se talvez


precisemos renegociar.

Eu esfrego minha têmpora e mentalmente conto até três. Eu


nunca tive paciência para contar até dez quando estou chateado.

—O negócio está elaborado. —Digo. —Neste ponto, é sim ou


não.

Ele suspira profundamente e volta ao monólogo. Eu


considero colocar meu telefone na mesa e voltar para Quinn, mas
essa fantasia é de curta duração.

Estou ciente de cada minuto que passa. Eu disse a Quinn que


voltaria, e esta ligação está demorando. Certo que estou no final da
conversa, caminho até o salão de baile onde o evento está sendo
realizado e procuro por Quinn. Dado o pouco que ela me contou
sobre si mesma, estou preocupado com sua capacidade de manter
uma conversa cara-a-cara com alguém sem minha presença como
um amortecedor.

Eu finalmente a encontro, e meu momento de excitação ao


ver seu corpo longo e magro é interrompido quando vejo com quem
ela está falando.

Inferno. É minha mãe.


CAPÍTULO DEZ
Quinn

—Qual o seu sobrenome que Andrew disse?

Gina Wentworth está olhando para mim como um detetive


conduzindo um interrogatório. —Jones. —Eu tomo meu
champanhe e olho ao redor da sala.

Onde diabos está Andrew?

—E quem são seus pais?

Eu encontro seus olhos azuis de aço e seguro seu olhar por


alguns segundos silenciosos antes de responder. —Os Jones.

Sua risada é sem graça. —Então você se fez sozinha? O que é


que você faz exatamente?

Eu dou de ombros. —Eu tenho que terminar a escola antes


que possa fazer alguma coisa.

É verdade. Eu só não pretendo mencionar que preciso voltar


para o meu segundo ano do ensino médio. —Ah. —Suas
sobrancelhas se arqueiam com interesse. —Meu filho está
namorando uma estudante universitária? Que interessante.

Ela diz a palavra “interessante” como se fosse algum tipo de


doença transmissível. —E onde vocês dois se conheceram? —Ela
pergunta.

—Dawson nos apresentou.

—Entendo.
Um garçom que está passando com uma bandeja de comida e
eu estendo a mão para pegar alguma coisa, mas depois faço uma
pausa. —O que é isso? —Eu pergunto.

—Tâmaras enroladas com bacon, senhora.

—Uau. —Eu dou a ele o meu olhar mais interessado. —Que


tipo de tâmaras são essas?

—...tipo?

—Quero dizer, elas são... tâmaras americanas ou importadas?

Estou desesperada para fugir das perguntas de Gina


Wentworth, mesmo que isso signifique parecer uma idiota com um
interesse esquisito por tâmaras.

—Eu acho, hum... local, talvez? —A sobrancelha do jovem


garçom está franzida. —Eu sei que o chef tenta utilizar ingredientes
locais, tanto quanto pode.

—É mesmo? Que tipo de comida local ele usa? —Um braço


forte desliza ao redor da minha cintura.

—Ei. —A voz profunda de Andrew soa contra o meu ouvido,


fazendo-me tremer um pouco. —Desculpe por isso. —Eu pego um
rolinho de bacon e agradeço ao garçom, que parece aliviado quando
se vira.

—Então, como você está, mãe? —Andrew pergunta. —


Ocupada com o trabalho?

—Oh, você me conhece. Sempre ocupada com o trabalho.

Ela olha entre nós como se estivesse tentando descobrir


alguma coisa.
—É um pouco embaraçoso quando meus amigos estão
perguntando com quem meu filho está aqui, e eu não sei nada sobre
ela. —Ela diz levemente.

—Alimentar a fábrica de fofoca nunca foi a minha praia, mãe.


—Andrew diz. —Nunca foi a sua também.

Ela franze os lábios e não diz nada.

—Você está pronta para ir? —Andrew me pergunta. Eu


aceno, tentando não parecer muito ansiosa.

—Já? —Sua mãe pergunta, parecendo indignada. —Que tal


jantar?

—Nós viemos, e eu já fiz minha doação.

—Bem, pelo menos eu vi você um pouco.

Eu posso ver uma pontada de culpa em Andrew. —Por que


você não vem para jantar em breve? —Ele diz para ela.

—Ainda é apenas a sua casa? —Gina dispara de volta.

—Desculpe-me? —O tom brusco de Andrew me faz


endurecer nervosamente.

—Dahlia disse que sua amiga fez um comentário sobre


convencer você a sair de casa hoje à noite. —Ela fala em um tom
baixo, mas não faz nenhum esforço para esconder um sorriso de
escárnio em minha direção. —Isso significa que ela está morando
com você?

Andrew dá um passo mais perto de sua mãe que estica o


pescoço para olhar para ele.

—Eu retiro o convite para o jantar. —Diz ele em um tom


nivelado. —E você se pergunta por que eu não quero mais que você
se envolva na minha vida.
Ele pega minha mão e me leva embora. Eu posso sentir a
tensão irradiando dele e seus olhos assumindo o tom azul escuro de
uma tempestade que se aproxima.

Andrew manda um recado para Roy, pega seu casaco e o


coloca em volta dos meus ombros, e nós esperamos do lado de fora
em silêncio por cinco minutos. Assim que o SUV estaciona no
meio-fio, Andrew abre a porta e me oferece sua mão para que eu
possa entrar.

Depois que ele chega ao meu lado, diz: —Casa. —Para Roy e
depois o silêncio enche o ar ao nosso redor novamente.

—Você está bem? —Pergunto depois de alguns minutos.

Ele se vira para mim. —Estou bem. Sinto muito pela minha
mãe.

—Não é sua culpa.

—A maneira como ela tratou você foi imperdoável. E você já


estava nervosa, tenho certeza que ela podia ver isso.

Eu dou risada e um tapinha no joelho dele. —Eu pareci


assustada a noite toda? —Ele sorri, e eu gosto de saber que o tirei de
seu mau humor só um pouquinho.

—De modo nenhum. Você foi ótima. Mas minha mãe sabe
quando é intimidadora... —Ele suspira. —Eu não vou dizer isso. Eu
sinto muito que ela tenha tratado você desse jeito.

—Não é nada demais. Eu acho que ela e Dahlia só foram...


pegas de surpresa por mim.

Andrew arqueia as sobrancelhas, ainda sorrindo. Ele pega


minha mão. —Isso foi divertido. —Ele admite. —Ver o olhar no
rosto da Dahlia. —Ele ri e o brilho volta aos seus olhos. —Eu só
posso imaginar o olhar no rosto da minha mãe quando Dahlia
correu para lhe dar o relatório completo.

Eu dou a ele uma piscadinha maliciosa. Seu polegar desliza


para o meu pulso, acariciando minha pele lentamente. —Você está
com fome? —Ele pergunta.

—Sim. Eu estava esperando que o rolinho de bacon não fosse


o meu jantar.

—E que tal pizza? Há uma pequena pizzaria não muito longe


daqui.

—Parece ótimo.

Roy para e descemos do carro, e eu não posso deixar de notar


o homem sentado na calçada, não muito longe da porta da pizzaria.
Ele está enrolado em um cobertor esfarrapado, e seu cabelo preto e
sujo está embolado ao redor do rosto barbudo.

Eu tenho que parar. Não tenho nada para dar a ele, mas quero
que ele saiba que o vejo.

—Quinn? —Andrew diz suavemente ao meu lado. Ele está


parado na frente da porta da pizzaria.

—Você está bem? —Pergunto ao homem na calçada.

Ele dá de ombros e oferece um sorriso irônico. —Já estive


melhor.

Eu suspiro suavemente, tentando não pensar sobre o preço do


vestido e dos sapatos que estou usando agora. Eu tiraria esses
sapatos e daria a ele se o ajudasse.

De repente, lembro do casaco. Não é realmente meu para dar,


mas...
—Você quer isso? —Eu dou de ombros e ouço Andrew exalar
pelo nariz ao meu lado. Ele está bravo? Este é provavelmente um
casaco caro.

Sinto sua mão na parte inferior das costas, e sei sem palavras
que ele não está chateado com isso.

—Eu tenho um casaco. —Diz o homem, levantando o


cobertor para me mostrar sua jaqueta cinza. —Mas obrigado.

Eu vejo o movimento de Andrew e me volto para ele. Ele


tirou a carteira do bolso e está tirando uns vinte dólares de um rolo
de dinheiro. Quando ele passa para o homem na calçada, os olhos
do cara se iluminam.

—Obrigado, cara.

—Por nada.

Andrew abre a porta da pizzaria e dá um sorriso torto. Estou


toda quente, e não é por causa do casaco dele.

—Se cuida. —Digo ao homem. Que me saúda e se enrola no


cobertor.

Andrew e eu atraímos olhares quando entramos na pequena


pizzaria com um piso xadrez preto e branco e um forte cheiro de
pepperoni. Todo mundo está vestindo jeans, então nos destacamos
em nosso traje formal. Estamos no final de uma longa fila, então
aposto que o lugar tem uma pizza incrível. Só o cheiro de alho já faz
meu estômago roncar.

—O que você sugere? —Andrew pergunta, inclinando-se para


perto de mim.

A única resposta que vem à mente é o leve cheiro de sua


colônia e a sensação de seu braço firme contra o meu ombro. Eu
olho em seus olhos, desejando saber como colocar em palavras o
que estou sentindo agora.

Minha mão lentamente sobe até a bochecha dele, e eu


timidamente estendo a palma da mão. Sua barba escura parece suave
contra meus dedos.

Ele fica quieto enquanto roço minha mão em sua pele. Mas
dentro de alguns segundos, eu sinto ele se aproximando.

Ele envolve suas mãos em volta da minha cintura e inclina o


rosto para baixo.

Quando sinto seus lábios quentes perto dos meus, meu


coração dispara com consciência. Seus lábios são macios e ele tem
um leve gosto de chocolate. Eu não me importo que estejamos no
meio de uma pizzaria lotada, deslizo minha outra mão até a sua
nuca, as pontas dos meus dedos roçando seu cabelo.

Eu sinto um gemido suave vindo dele enquanto ele move uma


mão para as minhas costas, me puxando para mais perto. Sua língua
toca suavemente a minha e uau, eu realmente gosto disso.

Depois de apenas alguns segundos, ele interrompe o beijo e


estou olhando para ele, sem fôlego. Sua sugestão de sorriso está de
volta. Ao som de um pigarreio muito alto, nós dois nos viramos. O
homem atrás de nós na fila está olhando para nós severamente por
cima de seus óculos, apontando para a enorme lacuna na nossa
frente na fila.

Nós avançamos. Eu tenho que pressionar meus lábios para


eles não se abrirem em um sorriso. Por que eu estava preocupada
em não gostar disso? Não só gostei, como quero mais.

Enquanto esperamos que a nossa pizza de pepperoni e queijo


extra seja trazida, sentamos em uma mesa alta com duas cadeiras. Eu
dobro o casaco de Andrew antes de colocá-lo no encosto da minha
cadeira para que não toque no chão.

—Então. —Ele diz, ainda sorrindo.

—Então. —Eu me sinto corando. É engraçado, na verdade.


Eu sempre pensei que era feita de aço quando se tratava de tudo,
menos de Bethy. E aqui estou eu, toda entusiasmada com um
simples beijo.

—Eu tenho que sair da cidade pela manhã. —Andrew diz.

Isso não era o que eu esperava que ele dissesse.

—Oh. —Eu me sento em linha reta e me recomponho. —Ok.

—Sim, aquela ligação que tive que fazer no evento foi de um


cara que está com medo de vender sua empresa. Estou indo para
Hong Kong para encontrar com ele e assinar a papelada antes que
ele possa mudar de ideia.

Eu concordo. —Parece um bom plano.

—Eu gostaria de não ter que ir.

—Quanto tempo você vai ficar fora?

—Será uma viagem rápida. Provavelmente três dias. Deixe-me


pegar sua mão. —Diz ele, esticando a palma da mão até o meio da
mesa.

Eu coloco minha mão sobre a mesa, e ele a pega na sua,


passando o polegar sobre meus dedos. —Você vai, por favor, deixar
Roy te levar para onde você quiser ir?

Eu sorrio. —Andrew. Eu acho que você não entende a durona


que contratou. Eu sei que posso cuidar disso porque eu tenho
cuidado.
—Então, quando alguém puxa uma arma para você, como sua
faca ajuda com isso? —Ele pergunta bruscamente.

—Podemos, por favor, não fazer isso? Eu estava me sentindo


tão bem.

Ele balança a cabeça ligeiramente. —Eu sei, me desculpe. Mas


vou me preocupar com você enquanto eu estiver fora.

Eu cubro sua mão grande com a minha que está livre. —Eu
cuidei de mim e de outra pessoa nas ruas por quatro anos. Nós
passamos muito tempo nos túneis. Nada é mais perigoso do que
isso. Eu posso me cuidar, ok?

—Os túneis?

—Costumávamos dormir em túneis abandonados de metrô no


inverno. Eu provavelmente estaria lá agora, se não fosse por você.

Ele franze as sobrancelhas e se encolhe ligeiramente. —Droga,


Quinn. Quero que você seja feliz, mas também quero que você
esteja em segurança.

—Eu quero ser uma pessoa com livre arbítrio. —Eu encontro
seus olhos solenemente. —Não uma posse.

—Claro. Eu nunca vou querer que você se sinta assim.

Nossa pizza chega e ele solta minha mão. Ele coloca a


primeira fatia gordurosa em um prato de papel e passa para mim. Eu
mal dou a primeira mordida, e estou gemendo alegremente. —É tão
boa.

—Nós deveríamos comer isso todas as noites por um tempo.


—Andrew diz, tirando seu smoking e pendurando-o nas costas de
sua cadeira. —Ou talvez apenas você deveria. Eu começaria a
parecer com o boneco da Michelin depois de algumas semanas.
Eu não posso deixar de rir. —Eu duvido. Parece que você se
exercita regularmente.

—Sim, todas as manhãs, às cinco e meia.

—No armazém?

—Sim. Eu tenho uma pequena academia no nível principal e


uma maior no andar de cima.

Comemos em silêncio por um minuto antes de eu dizer: —


Então sua mãe parece legal.

Ele revira os olhos e ri. —Sim, não me faça começar. Eu a


amo e faria qualquer coisa por ela, mas... Eu não sei. Ela mudou
depois que meu pai morreu. Em vez de vender sua empresa, ela
decidiu assumir como CEO. A diretoria achou que ela era louca,
mas acho que ela só queria que um desafio ocupasse sua mente,
sabe?

Eu concordo com a cabeça. —Eu admiro isso, na verdade.

—Sim, era uma conexão com meu pai em sua mente, eu acho.
E ela arrasou. Ela ainda está administrando e cresceu em torno de
trezentos por cento.

—Uau.

Eu penso em Gina Wentworth enquanto comemos. Andrew é


seu único filho. Ele é provavelmente tudo para ela. Eu me sinto
abrandando a seu respeito.

Nós terminamos a pizza, e Roy nos leva de volta ao armazém.


Andrew segura minha mão novamente no caminho. Ele me leva até
o final da escada e me dá um beijo mais longo, suas mãos vagando
mais livremente até a minha bunda desta vez. Quando ele
interrompe o beijo, eu me vejo querendo mais.
—Boa noite, Quinn. —Diz ele, o fogo em seus olhos um
contraste com o tom uniforme de sua voz.

—Boa noite. —Eu sussurro.

Eu me viro para subir as escadas e ele me observa. Eu vou


devagar e balanço meus quadris um pouco, esperando que ele me
siga. Ele não segue.

Eu definitivamente não esperava por essa. Agora sou eu que


estou pensando em sexo e indo para a cama sozinha. Eu decido que
provavelmente foi apenas pelo beijo enquanto escovo os dentes e
coloco uma camiseta para dormir.

Mas pela primeira noite desde que me mudei para o armazém,


não tranco a porta. Eu nem sequer fecho.
CAPÍTULO ONZE
Quinn

O armazém está quieto. Parece estranhamente vazio aqui


desde que Andrew saiu na manhã de quinta-feira. Ele já tinha ido
quando acordei naquele dia. Ainda tenho uma lembrança vívida da
maneira como ele estava na última vez que o vi. Ele parecia muito
mais leve naquela noite na pizzaria, e eu quero ver esse lado dele
novamente.

Eu recebi algumas mensagens de texto dele do tipo: Como você


está? e eu disse a ele o pouco que havia para dizer sobre o meu dia-a-
dia. Ele não tinha me dito muito em troca, mas eu ainda estava
animada por ele voltar para casa hoje. No mínimo, eu preciso de
companhia. A equipe de funcionários de Andrew é quieta,
concentrada em seu trabalho e mantém a cordialidade, mas distante
de mim.

É sábado, e a única diferença entre hoje e um dia de semana


para mim é que a biblioteca estará mais cheia hoje. Mas enquanto eu
puder encontrar um canto para me esconder com um livro, eu nem
notarei.

Visto uma calça jeans escura, uma camiseta de manga


comprida e os novos tênis que comprei. Andrew me deu um cartão
de débito logo depois de eu me mudar, e embora eu não tenha
planejado usá-lo, me mimei com esses tênis ontem. Eles parecem
como se eu estivesse andando nas nuvens. Eu tinha me esquecido
como são tênis novos.

Depois de pegar meu casaco, chapéu e bolsa, saio pela porta


da frente do depósito. Toda vez que entro ou saio por essa porta,
fico imaginando onde estão as câmeras de segurança e quem as está
monitorando. Se eu tiver um lenço felpudo no pescoço e no rosto, o
reconhecimento facial acionará um alerta e trará caras de terno
correndo na minha direção com armas?

Parece dramático, mas sempre tiro meu cachecol quando entro


ou saio do armazém apenas para ficar em segurança. A vida com
certeza é engraçada. Eu passei de me manter vigilante o tempo todo
para ser vigiada o tempo todo.

Quinta-feira de manhã, penso brevemente em pedir a Roy para


me levar até a biblioteca. Mas as horas que eu passo andando até a
biblioteca são importantes para mim. Eu gosto de fazer parte da
cidade novamente. O frio cortante do lado de fora nem me
incomoda. Eu realmente amo voltar ao armazém e descongelar com
uma caneca gigante de chocolate quente. Ter uma casa ainda é um
luxo para mim, e eu gosto mais quando retorno.

A cerca de um quilômetro e meio do armazém, paro em frente


à janela de uma doceria e olho para dentro.

Pensei em parar aqui desde a primeira vez que fui até a


biblioteca, mas as lembranças de estar aqui com Bethy dificultaram
muito.

Nós estávamos na cidade há cerca de seis meses quando ela


parou de andar um dia bem em frente à janela da loja e apertou o
rosto contra ela.

—Eu poderia ficar aqui e cheirar o milho caramelado durante todo o dia.
—Ela falou para mim com um sorriso largo. —Você não ama?

—Sim.

Estávamos com fome, mas tudo o que podíamos fazer era


ficar do lado de fora da loja e sentir o cheiro da comida lá de dentro.
Minha culpa por levar minha irmã de um lugar onde ela nunca teve
que passar fome para as ruas de New York tinha finalmente me
atingido.

Eu já tinha começado a questionar qual dos males era menor:


o que eu tinha tirado dela ou o que eu tinha trazido para ela.

E agora que posso comprar os doces da loja, Bethy se foi. Eu


nem quero experimentá-los sem ela.

Eu recomeço minha caminhada, ainda pensando nela. Ela está


sempre em minha mente. É especialmente difícil ficar sozinha a
maior parte do tempo quando ainda não sei se ela saiu do país com
segurança.

Minha preocupação com ela trouxe pensamentos sobre a


nossa mãe. Ela se preocupava da mesma maneira conosco? Eu
esperava que ela soubesse que nós partimos e não que fomos
levadas, porque eu não acho que qualquer coisa pode ser pior do
que temer que seu filho tivesse sido sequestrado.

Ela tinha que saber, porque nós levamos algumas das nossas
coisas conosco nas mochilas. Mas ainda assim, suas duas filhas
menores de idade fugirem provavelmente também era uma
perspectiva assustadora.

Imagino que ela se pergunte se estamos seguras, mas nunca


porque fugimos. Isso é algo que ela sabe muito bem e tem que viver
todos os dias.

Quando entro na biblioteca, meus pés estão gelados. Sinto o


frio do inverno mais forte agora que tenho um lugar quente para
dormir à noite.

Quando chego ao andar de Anna, examino a estante de novos


livros de bolso, passando as pontas dos dedos pelas lombadas.
Tantas possibilidades. Saber que eu nunca conseguirei ler todos é
uma das coisas que adoro sobre ler. Livros sempre estarão lá para
mim.

Eu tiro um romance histórico grosso, e estou indo para a


minha cadeira favorita quando vejo Anna se aproximando.

—Quinn. —Ela diz em sua voz suave de bibliotecária. —É


bom ver você.

—Você também. —Digo, sorrindo enquanto ela me abraça.

—Guardei um presente para você. —Diz ela, piscando


quando me passa um livro de capa dura.

Eu olho para o livro, intitulado Macroeconomia e Você. Então


olho para trás com uma expressão perplexa, mas Anna já se virou
para sair. Ela me dá um sorriso rápido por sobre o ombro e dá uma
volta em um canto antes que eu possa perguntar por que ela
guardou este livro chato de não-ficção para mim.

Quando abro para ver se estou deixando de entender alguma


coisa, meu coração bate descontroladamente quando encontro uma
carta dobrada entre a capa e a primeira página.

Tem um carimbo mexicano. Meus olhos se enchem de


lágrimas e praticamente corro para minha cadeira, sento-me e abro a
carta.

Cara Quinn,

Conseguimos! Demorou muito, mas estamos aqui.


Você sabe o nome da cidade, mas enviei esta carta por
um mensageiro para ser postada em outro lugar. Bean
disse que era uma boa ideia.
Aqui é lindo. O oceano é quente, e é o mais bonito
tom de verde azulado que eu já vi. Eu amo a sensação
da areia em meus pés descalços. Queria que você
estivesse aqui. Eu odeio estar aqui e você presa em New
York.

Amanhã, Bean vai começar a procurar emprego.


Perguntei-lhe se estamos perto das pessoas do cartel que
cortaram a mão dele e ele disse que não. Espero que
seja verdade. Nós estamos ficando em um motel que é
meio que uma espelunca, mas pelo menos está quente!
Quando Bean encontrar um emprego, ele vai nos
arranjar um lugar melhor para ficar.

Sinto tanta sua falta. Bean tem estado muito quieto


desde que saímos. Eu acho que ele sente falta de você
também.

Espero que você esteja bem e que Andrew seja legal


para se conviver. Se existir alguma maneira de você me
ligar quando Bean e eu tivermos um lugar para ficar,
isso seria ótimo.

Eu vou escrever novamente em breve. Eu


provavelmente vou escrever tanto que você vai se cansar
das minhas cartas, mas é o mais perto que posso falar
com você por enquanto.
Amor, Bethy

Eu pisco e lágrimas caem dos meus olhos descendo pelas


minhas bochechas. Estou cheia de felicidade. Leio a carta de novo e
depois uma terceira vez.

Ela está segura. Eles conseguiram. Bean me ajudou de uma


forma que nunca vou poder pagá-lo.

Eu cuidadosamente dobro a carta, devolvo-a ao envelope e


guardo na bolsa preta que Dawson escolheu para mim quando
compramos todas as minhas roupas novas. Eu pego o telefone e
vejo uma mensagem de texto de Andrew na tela.

Andrew: Acabei de pousar. Tenho que parar no


escritório antes de voltar para casa.

Levanto-me da cadeira e devolvo o livro ao seu lugar na


prateleira. Desço as escadas, tentando lembrar o nome da empresa
de Andrew. Eu vi em uma carta na cozinha na semana passada.

AD Wentworth Ventures, Inc. Foi isso. Assim que saio na


calçada, digito o nome da empresa no meu smartphone.

Estou a apenas pouco mais de 3,5 quilômetros de distância. O


telefone dá instruções, e arqueio as sobrancelhas, impressionada.
Essa coisa teria sido útil quando eu estava morando nas ruas.

Já faz muito tempo desde que me senti tão despreocupada.


Mas agora estou tão despreocupada que não consigo tirar o sorriso
do meu rosto. Eu corro passando pelas pessoas na calçada,
verificando o telefone em busca de direções e observando-o contar
a distância à medida que me aproximo.
Eu corro o último quilômetro, sem fôlego enquanto dou uma
olhada no endereço do meu telefone para o do prédio do centro. É
imponente, então eu entro.

Assim que vejo o piso de madeira quente, sei que estou no


lugar certo. Andrew colocou o mesmo piso no depósito. As paredes
têm uma cor rica de creme, com algumas belas pinturas
emolduradas em madeira simples e escuras. Até mesmo as
luminárias têm uma aparência moderna, mas sofisticada, toda de aço
com lâmpadas expostas e claras.

—Posso ajudá-la? —Pergunta uma mulher por trás de uma


mesa elegante e moderna.

Ela é linda. Com o cabelo escuro preso em um coque e seu


terninho cinza que parece ter sido feito para ela, ela se encaixa nesse
lugar elegante.

Eu imediatamente me arrependo da minha decisão impulsiva


de vir aqui. Andrew provavelmente está ocupado com o trabalho
que ele perdeu, mesmo que seja sábado. Ele sempre trabalha aos
sábados.

—Ah... desculpe. —Digo para a mulher, minhas bochechas


quentes de vergonha. —Eu acho que estou no lugar errado.

—Jana. —Uma voz masculina profunda chama. —Você pode


me enviar a papelada do final da venda de Wembley? —É Andrew,
que acabou de virar no corredor. Ele segue o olhar de Jana para
mim.

—Quinn?

Eu sorrio desajeitadamente, desejando que eu tivesse saído


pela porta quando tive uma chance. —Oi.
—Oi. —Ele coloca a pasta que está segurando na mesa de
Jana e se aproxima de mim.

—Eu sinto muito. —Deixo escapar. —Eu deveria ter


esperado para vê-lo mais tarde.

Ele dá um sorriso torto. —Não, eu.... é bom te ver.

—Sim?

—Sim. —Ele pega minha mão. —Venha para o meu


escritório.

Jana está me olhando com curiosidade evidente enquanto


passamos por sua mesa. Andrew me conduz pelo corredor, e eu
olho para outra bela pintura, esta de um carvalho gigante em um
campo.

Ele se afasta quando chegamos a uma porta aberta e eu entro


em seu escritório. Tem uma enorme mesa de madeira escura com
pilhas de papéis e um laptop aberto. As paredes têm o mesmo
creme que o saguão, mas as molduras dos quadros têm diplomas do
MIT e da NYU. Vê-los me faz lembrar do meu próprio sonho de
frequentar a NYU. Em vez disso, sou uma desistente do ensino
médio.

—Este lugar é mais discreto do que eu esperava. —Digo,


voltando-me para olhar para ele. —Eu gosto disso.

Seus olhos brilham com diversão. —O que você estava


esperando?

—Eu acho... um prédio alto com janelas por toda parte e


vistas deslumbrantes da cidade.

Andrew apenas balança a cabeça. —Eu não.


Eu corro meus dedos por sobre uma estante de madeira escura
e olho os títulos nos livros. Muitos são sobre o 11 de setembro.
Outros são livros de negócios e de não-ficção. Além dos diplomas,
não parece haver um toque pessoal nesse escritório.

—Você quer que eu pendure seu casaco? —Ele pergunta.

Eu aceno, retiro e entrego para ele. Ele o pendura em um


cabide de madeira de aparência antiga em um canto e caminha de
volta para mim.

—Eu acho que surpreendi você, uh... Jana.

—Sim, nós não recebemos muitas visitas. —Ele gesticula para


uma poltrona de couro, convidando-me a sentar, mas eu balanço a
cabeça negativamente. —Ela é minha recepcionista. Eu tenho
algumas outras pessoas na equipe, mas elas não trabalham aos
sábados.

—Como foi a sua viagem? —Pergunto, de repente, me


sentindo nervosa.

—Boa. Muito tempo de voo, mas consegui trabalhar no avião.

Ele cruza os braços e eu odeio o quão estranho nos sentimos.


Eu queria o calor recém-descoberto da nossa noite juntos e os beijos
que compartilhamos.

—Então eu vim porque tenho boas notícias. —Digo,


respirando fundo. —E eu só queria ver você.

—Boas notícias?

Eu aceno, mas não digo mais nada.

—Eu entendo. —Ele diz suavemente. —Bem, isso é ótimo. É


muito bom ver você, Quinn. Senti sua falta.
A ternura em seu tom me faz saltar para frente e jogar meus
braços ao redor dele. —Também senti sua falta.

Ele ri e envolve seus braços em minhas costas. Nós nos


abraçamos por um minuto inteiro, seu nariz roçando meu cabelo e
minhas mãos subindo e descendo pelas suas costas.

Isso é bom. Já faz muito tempo desde que senti essa sensação
de segurança que tenho com Andrew. Apesar da natureza do nosso
relacionamento, eu sei que se eu precisasse de algo, ele estaria lá em
um instante. Parte de mim gostaria de ter uma chance e confiar nele
com o meu passado, mas não posso. Há muito em jogo.

Eu me afasto dele, deixando as palmas das mãos em seu peito.


Meu olhar vagueia pela sala e chego a uma conclusão que me faz
franzir minha testa.

—Não há janelas aqui.

Andrew dá de ombros. —Não há muito o que ver. Apenas um


beco.

—O armazém é da mesma maneira. Todas as janelas estão no


alto.

—Eu sou uma pessoa muito reservada, Quinn.

Não ter janelas parece superprivado, mas apenas sorrio. Estou


achando que Andrew é um homem difícil de se conhecer. Eu posso
respeitar isso, já que sou do mesmo jeito. Mas dado que estamos
chegando ao final do primeiro mês dos seis que ficaremos juntos, eu
gostaria de tentar. Eu gostaria de encontrar uma maneira de aliviar a
profunda solidão que sinto por Bethy e Bean.

—Roy está do lado de fora? —Andrew pergunta. Suas mãos


descansam livremente nos meus quadris, e eu gosto da sensação.

—Hum...
—Eu sei que ele não está. Eu chequei com ele todos os dias, e
ele diz que você não andou com ele nem uma vez.

Eu suspiro profundamente. —Eu sei. Eu sei o que você quer,


mas como eu disse, andar é importante para mim. Estou
acostumada a andar quilômetros todos os dias. Eu preciso da
liberdade que me dá por estar dentro de casa o tempo todo.

Ele balança a cabeça, seus lábios em uma linha relutante.

—Eu comprei tênis novos. —Digo, recuando e olhando para


eles. —Com o cartão que você me deu.

Isso me rende um leve sorriso.

—Esses são bons. Estou feliz que você tenha feito compras.

—Eles estavam na promoção.

Ele revira os olhos. —Quinn, compre o que quiser. Eu sou


muito rico, ok?

—Eu sei, mas... eu não sou mais.

—Não mais?

Eu olho em volta da sala, tentando encontrar algo que eu


possa usar para uma mudança de assunto. Depois de alguns
segundos, Andrew pergunta: —Você já almoçou?

—Não.

—Por que eu não ligo para o Roy e vamos pegar alguma coisa
para comer? Estou quase terminando o trabalho de qualquer
maneira.

—Isso soa bem.


Enquanto ele liga para Roy, meu telefone vibra e eu vejo a tela.
Há algumas mensagens de texto esperando lá.

Dawson: Por que você não respondeu às minhas


mensagens?

Dawson: Quinn... Eu preciso marcar horário no


salão e para vermos alguns vestidos para você. Me
responda de volta.

Eu coloco o telefone de volta na minha bolsa. Dawson está


me perseguindo desde que Andrew partiu, querendo me depilar,
tingir e vestir como uma mulher glamourosa para o retorno de
Andrew. Eu me cansei dele me tratando como uma boneca que ele
pode arrumar como quiser, então eu o tenho ignorado.

—Por que a cara fechada? —Andrew pergunta. —Tudo bem?

—Tudo está ótimo.

E realmente está. Bethy está segura no México e Andrew está


de volta. Tudo no meu mundinho parece certo.
CAPÍTULO DOZE
Andrew

Quinn está diferente agora. Está mais leve. A boa notícia que
ela recebeu obviamente tirou o peso de seus ombros. Eu imagino
que tenha sido sobre sua irmã.

Enquanto tomamos sopa e comemos sanduíches em uma


lanchonete perto do meu escritório, ela está sorrindo mais do que já
a vi sorrir.

Ela está até zombando de mim e rindo. Eu gosto deste lado


dela.

—Então Hong Kong... —Ela toma um gole do chá quente e


me estuda. —Você teve que levar alguém para ser seu intérprete?

—Não. A maioria das pessoas que conheci fala inglês. Há um


cara que prefere cantonês e eu sou razoável nisso.

Ela arqueia as sobrancelhas, parecendo impressionada.


—Cantonês? Sério?

—Apenas o suficiente para sobreviver.

Isso não é verdade. Eu sou fluente, mas não quero soar como
se estivesse tentando impressioná-la. Se ela ficar impressionada
comigo, não quero que seja pelo meu trabalho ou meu dinheiro.

—Você já esteve na China? —Pergunto a ela.

Ela ri levemente. —Não. Minha família tirou umas férias em


um resort no México quando eu era pequena. Eu nunca deixei o país
além disso.
Eu observo a expressão dela para ver se fica arrependida. Ela
tem sido tão vigilante sobre não compartilhar sua vida pessoal
comigo. Mas parece tão à vontade agora, sem uma pitada de
arrependimento.

—Você está convidada a se juntar a mim na próxima vez. —


Digo. O pensamento de tê-la sozinha em um jatinho por todas
aquelas horas no ar é muito atraente.

Outra risada dela. —Você quer dizer ir para a China? Eu?

—Claro. Nós poderíamos passear, se você quiser.

Seu sorriso desaparece. —Obrigada pelo convite. É muito


legal. Eu não posso, no entanto.

—Claro que você poderia.

—Na realidade... Eu não posso. Eu não tenho passaporte.

—Isso é de fácil solução.

Ela desvia o olhar do meu. —Não no meu caso.

—Devemos pular a parte onde eu pergunto por que e você


me diz que não quer falar sobre isso? —Pergunto levemente.

—Sim, vamos pular isso.

—Se você pudesse ir a qualquer lugar do mundo, aonde você


gostaria de ir? —Pergunto, observando enquanto ela levanta sua
xícara de chá para tomar um gole. Ela gosta tanto de chá quente que
o pediu no lugar da sobremesa no final do nosso almoço. E ela
sempre bebe da mesma maneira, com as duas mãos ao redor da
xícara.

—Humm... —Ela abaixa a xícara e seus lábios se curvam em


um sorriso. —Em qualquer lugar do mundo? Talvez Nova Zelândia.
Ou a Antártica.
—Antártica? —Dou uma sacudida confusa da minha cabeça.

—Sim. Talvez. Ou a Islândia.

—Então você gostaria de ir longe. —Suponho. —Você gosta


de se sentir escondida.

Sua expressão fica séria. —Eu acho que isso é verdade.

—Do que você está se escondendo, Quinn?

Ela dá de ombros. —Estamos todos nos escondendo de algo,


você não acha? Algumas pessoas nem sabem que estão fazendo isso.

Eu penso sobre as palavras dela. Ela é muito filosófica para


uma jovem de vinte e um anos. Agora as outras mulheres que já
namorei parecem superficiais e vagas comparadas a ela.

—Eu não estou me escondendo de nada. —Digo. —Eu


acordo todas as manhãs planejando pegar a vida pelas bolas e
apertar.

—Isso soa desagradável. —Ela diz com uma risada.

—Não. Desde que não sejam minhas bolas.

—Bem, deixando as bolas sendo espremidas de lado, acho


que você tem medos como o resto de nós.

—Do que você acha que eu tenho medo?

Eu espero, ansioso para ver o que ela vai fazer. Poucas


pessoas me conhecem. Apenas alguns realmente sabem o quão
destemido eu sou quando se trata de realizar meus objetivos. Quinn
não é uma delas.

—Intimidade. —Ela diz isso em tom decidido, como se não


houvesse nenhum debate sobre a verdade.
Eu me mexo no meu lugar. —Intimidade? —Olho de um
lado para o outro e depois encontro a minha voz. —Você quer dizer
sexo? Querida, posso assegurar que não é o meu medo que está em
nosso caminho. Estou pronto para ir agora mesmo.

—Não sexo. Qualquer um pode fazer isso. Estou falando de


intimidade emocional.

Eu luto contra o desejo de revirar os olhos. —Sim, isso não é


coisa minha. Não porque tenho medo, no entanto.

—Ok.

Ela não acredita em mim, posso dizer pelo tom dela. Isso me
aborrece pra caramba.

—Quanto ao sexo. —Ela diz suavemente. —Não estou com


medo. Só para você saber.

—Não? —Meu aborrecimento desaparece. —O que é,


humm... o que está nos segurando, então?

—Agora que você está de volta... nada. Estive pensando em


você desde aquela noite.

—Quando eu beijei você?

—Sim.

Eu mexo meus quadris, meu pau precisando de mais espaço


de repente. —Eu estive pensando sobre isso também. —Digo. —
Muito.

O ar fica denso entre nós, misturado com o desejo que para


mim, beira a necessidade. Já faz mais de um mês desde que eu fiz
sexo, e passei quase quatro semanas querendo Quinn toda vez que
olhava para ela.

—Então... —Sua voz é quase um sussurro. —Talvez nós


devêssemos...

—Fazer compras em Tribeca? —Digo, contra todos os meus


instintos. —Há uma galeria de arte que eu gostaria de levar você. E
uma loja de móveis.

—Oh. Ok.

—O que mais você gostaria de fazer? —Pergunto,


inclinando-me para o lado para que eu possa tirar minha carteira do
bolso da minha calça. —Passeio de carruagem?

Ela sacode a cabeça. —Eu odeio o modo como esses pobres


cavalos são tratados.

—Oh. Certo. Bem, você escolhe algo então. Qualquer coisa.


Um show da Broadway?

Seus olhos brilham de felicidade. —Podemos ir ao cinema?


Eu costumava amar ir ao cinema.

—Nós definitivamente podemos ir ao cinema.

Na loja de móveis, Quinn corre as pontas dos dedos sobre as


linhas suaves do aço em estilo industrial e nos móveis de madeira.
Ela me ajuda a experimentar as cadeiras até conseguirmos uma
perfeita para a biblioteca. É uma cadeira que a loja vai estofar de
couro no tom de chocolate escuro que Quinn escolheu.

—Essa é a sua favorita? —Pergunto a ela com um olhar


cético.

Ela dá de ombros. —Parece com os outros móveis do


armazém. Você quer que combine, não é?

—Combinar é superestimado. Qual é a sua cor favorita?

—Roxo. —Ela diz, arqueando as sobrancelhas em desafio.


—Roxo. —Digo ao dono da loja.

—Certamente. —Ele folheia várias amostras de couro e para


em uma. —Eu tenho esse tom agradável de berinjela.

—Você gosta? —Pergunto a Quinn.

—Gosto.

—Nós vamos levá-la. —Digo, entregando ao homem um


cartão de visita. —Você pode providenciar o pagamento e entrega
com o meu assistente, Dawson.

Eu pego a mão de Quinn e andamos meio quilômetro até a


galeria de arte que visitei algumas vezes. Flocos de neve minúsculos
estão caindo lá fora, e alguns deles brilham em seus cabelos loiros
enquanto passamos pelas grandes portas duplas da galeria.

—Sr. Wentworth. —A curadora diz, me dando um sorriso


educado. —Tão bom ver você de novo.

Seu cabelo vermelho brilhante está preso em um coque na


nuca e ela usa um terninho verde escuro. Eu posso ver cifrões
escritos em todo o rosto dela, embora ela esteja tentando parecer
casual.

—Oi. —Digo, seguindo Quinn para uma exibição de retratos


em preto-e-branco.

—Qualquer coisa que eu possa ajudar? —Pergunta a


curadora. —Eu sou Meg, a propósito.

—Só dando uma olhada.

Ela acena e volta sua atenção para a prancheta que está


segurando. —Uau. —Quinn diz suavemente.

Eu sigo o olhar dela para o retrato de uma senhora com rugas


profundas em sua pele desgastada pelo tempo. Seus olhos escuros
olham não apenas para a câmera, mas através dela. Eles contam uma
história de resiliência. Um campo aberto com linhas recém-
semeadas é o pano de fundo da foto. Sua mão manchada pela idade
está segurando uma ferramenta agrícola de aparência rudimentar.

Um olhar de relance para uma placa de prata gravada


esclarece sobre essa série de retratos. —Todos feitos em uma
pequena aldeia na Guatemala. —Murmuro. —Eles são fantásticos.

Quinn ainda está olhando para a mulher, aparentemente


extasiada por ela. E estou encantado com a emoção nadando nos
olhos castanhos de Quinn.

—Eu vou comprar para você. —Ofereço.

Ela me dá um sorriso de lado e depois balança a cabeça. —


Não, mas obrigada.

—Tem certeza? Eu posso ver que você amou isso.

Ela suspira suavemente. —Eu apenas sinto que a conheço.

Meg está perto o bastante para escutar casualmente. —


Lindas, não são? —Ela diz com um sorriso experiente.

Eu aceno e coloco a mão no ombro de Quinn. —Você gosta


deste, ou de todos eles?

Ela olha para mim com uma expressão séria. —Eu não quero
que você compre, ok? Deveria ficar aqui para todo mundo ver.

—Toda essa exposição é para venda. —Meg diz um pouco


bruscamente. —É apenas uma questão de quem será o comprador.

Quinn estreita os olhos ligeiramente.

—Bem, não seremos nós. —Digo, deslizando minha mão de


volta na dela. Ela aperta minha mão e eu conduzo o caminho para
fora da galeria.
—Eu a odeio. —Quinn murmura quando pisamos na
calçada. —Eu acho que ela e Dahlia deveriam sair. —Eu dou
risada e tiro meu celular para enviar uma mensagem para Roy. —É
uma ideia.

—Elas poderiam formar um grupo: As Vadias Anônimas.

Eu digito o endereço de uma esquina próxima para Roy nos


pegar e então me volto para Quinn. —Você não gostou... qual era o
nome dela mesmo?

—Meg.

—Certo, Meg... isso não é muito já que só a viu uma vez?

—Nem tudo deve estar à venda. É nojento, na verdade.


Aquela mulher luta apenas para existir, e alguns ricos pagam mais
por essa foto do que ela pode imaginar, e eles vão pendurar na casa
deles como decoração.

Eu penso sobre as palavras dela por alguns segundos,


percebendo que ela está certa, mas eu nunca teria percebido isso
sem ela apontar.

—É isso que você pensa de mim? —Pergunto, me sentindo


desconfortável. —Você acha que estou lucrando com sua miséria?

Ela se vira para mim com os olhos arregalados. —De modo


nenhum. Não, nem remotamente. Você está me respeitando e
cuidando de mim e... me pagando. Aquela mulher não receberá nada
por essa foto.

—Talvez isso ajude a criar consciência da necessidade de


assistência na Guatemala.

Quinn arqueia as sobrancelhas com ceticismo. —Eu duvido


disso. A maioria das pessoas ignora os necessitados.
—Você se sentiu ignorada quando estava desabrigada?

—Eu não apenas me senti ignorada, fui ignorada. —Uns


segundos de silêncio passam e ela diz: —O que você faz quando
passa por uma pessoa sem-teto na rua?

Eu encontro seus olhos por apenas um segundo e depois


olho para longe, me sentindo envergonhado. Ela está certa. Verdade
seja dita, eu ignoro quase todo mundo quando estou andando na
rua, mas não é certo passar por cima de todas as pessoas que vejo
que poderia dar uma mão. Eu não posso ajudar todos eles, mas isso
não significa que eu não possa ajudar alguns deles.

Roy estaciona e nós entramos no carro e saímos do frio. —


Vá para o cinema mais próximo. —Digo a Roy.

Ele nos leva a um com sinais de néon e vitrines que se


estendem até o segundo andar para mostrar as escadas rolantes
levando as pessoas para o andar de cima. Quando entramos, digo a
Quinn para escolher um filme, e ela escolhe um de ação de grande
orçamento. Pegamos pipoca e refrigerante e subimos na escada
rolante.

—Eu sempre quis saber como era aqui. —Ela diz, olhando
em volta para o teto ornamentado e com molduras no edifício
antigo que foi reformado.

—Belo trabalho de restauração. —Digo.

Ela sorri para mim. —Eu gosto que você ame construções
antigas. Outras pessoas as derrubariam, mas você vê a beleza delas.

—Eles não constroem como costumavam fazer. Acabei de


comprar um prédio espetacular em Manhattan que foi um salão de
dança durante a era da Prohibition1.

1
A Prohibition (em pt. Lei Seca) nos Estados Unidos foi uma proibição constitucional de âmbito nacional
sobre a produção, importação, transporte e venda de bebidas alcoólicas de 1920 a 1933.
—O que você vai fazer com ele?

Eu dou de ombros. —Não decidi. Eu simplesmente não


aguentaria vê-lo transformado em uma lanchonete fast food.

Eu gosto do olhar no rosto de Quinn agora. Se não me


engano, é admiração. Meu dinheiro parece significar muito pouco
para ela. Ela é tudo sobre o que eu faço com ele.

O cinema não está tão lotado, então nossos assentos na fila


de cima são isolados. O filme não é ruim, mas o que mais gosto é de
Quinn. Seus pequenos suspiros durante as partes emocionantes são
bonitos demais.

Roy está esperando quando o filme termina, e ele encontra


meu olhar no espelho retrovisor depois que entramos no carro.

—Casa? —Pergunto a Quinn. Ela acena com a cabeça. —


Casa. —Digo para Roy.

Quinn pega minha mão e aperta. —Isso foi divertido. —Ela


diz.

—Também achei.

Eu deslizo a minha mão debaixo da dela e toco na sua coxa.


Os cantos de seus lábios se inclinam em um sorriso, mas ela não
olha para mim. Eu movo minha mão mais para cima, minhas pontas
dos dedos acariciando a parte interna da sua coxa.

Pena que ela está de jeans. Estou morrendo de vontade de


saber como é a pele dela. Tê-la ao meu lado por todas essas horas
me faz querer mais. Mais do que isso, e mais do que tive com ela
antes.

Roy entra na garagem do armazém e levo Quinn até o


elevador, pressionando o polegar no leitor ao lado da porta. A porta
se abre e, assim que entramos, posso dizer pelo olhar dela que ela
também quer mais.

Eu quero apoiá-la contra a parede do elevador e beijá-la, mas


não. Em vez disso, apenas deixei meu olhar vagar de cima a baixo
em seu corpo, apreciando cada centímetro dela. Ela tira o seu
casaco, os olhos nos meus.

Ela está me observando, e é tão sexy. Estou tão duro. Está


tomando todo o meu autocontrole para não arrancar suas roupas e
fodê-la rápido e com força.

—Você pode me fazer uma bebida? —Ela pede quando


saímos do elevador.

Ela olha por cima do ombro para mim, e eu desvio meu olhar
da sua bunda. —Claro. O que você gostaria?

—O que você achar que eu posso gostar. —Ela diz com um


encolher de ombros. —Eu nunca tomei álcool antes.

Uma pontada de compreensão me atinge. Quinn não é uma


mulher comum de vinte e um anos de idade. Sua experiência de vida
é muito maior do que a maioria, mas ela perdeu as coisas da sua
idade.

Parte de mim sente uma pontada de culpa por ser o primeiro


dela. Mas vou cuidar bem dela. Melhor eu do que um adolescente
excitado que quer ficar bêbado e se aproveitar dela.

Eu pego um pequeno copo de vidro e misturo algo para ela.


Eu entrego, e ela toma um gole enquanto pego uma garrafa de
bourbon e um copo para mim.

—Humm, é bom. —Ela diz.

Quando olho, ela está com o copo inclinado para trás.


Quando ela abaixa, vejo que já está pela metade. —Opa. —Digo
com um sorriso. —Devagar, campeã.
—Tem gosto de suco.

—Mas não é só suco.

Suas bochechas coram um pouco. Eu tiro meu casaco,


coloco sobre uma cadeira no balcão e tomo um gole do meu
bourbon.

Quinn está de pé na minha frente, parecendo ansiosa e


hesitante ao mesmo tempo. Eu abaixo meu copo e percorro os
poucos passos que nos separam.

Quando coloco minhas mãos em seus quadris, seus lábios se


separam ligeiramente. Eu me inclino e dou-lhe um beijo suave,
deslizando minhas mãos em torno de sua bunda e colocando-a onde
estive querendo toda a maldita noite.

Ela geme e desliza as palmas das mãos do meu peito para o


meu pescoço, sobre as minhas bochechas e no meu cabelo.

Meu corpo está pulsando todo com o desejo mais profundo


que já senti. Ela foi ferida e abandonada sozinha em um mundo
cruel. E não só ela passou por isso, como ela cuidou de sua irmã.
Ela tem sido forte há tanto tempo e agora quero ser forte para ela.
Eu não sei como tive sorte o suficiente para estar aqui com ela
agora, mas estou cheio de gratidão.

Eu me afasto e olho para ela. —Podemos ir para o meu


quarto?

Ela lambe os lábios e acena com a cabeça. Pego a mão dela e


a conduzo, praticamente correndo. Posso ouvi-la rindo atrás de mim
enquanto corre para me acompanhar. Quando eu me viro, envolvo
minhas mãos em volta da sua cintura e a jogo por cima do meu
ombro, ela ri ainda mais alto. —Andrew! O que você está fazendo?

Eu corro os últimos seis metros pelo corredor até o meu


quarto e a coloco na minha cama king-size.

Suas bochechas estão coradas e seus olhos brilhando. Eu


chuto meus sapatos e ela faz o mesmo.

Estou prestes a subir na cama quando noto seu sorriso de


orelha a orelha diminuindo. Um vinco se forma entre suas
sobrancelhas.

—Isso é...?

Ela está olhando para minha virilha, onde minha ereção está
proeminentemente delineada contra minha calça cáqui. —Sim. —
Digo com um sorriso. —Você realmente o traz à vida.

—Jesus. Você vai me matar com essa coisa. —Ela parece


genuinamente horrorizada.

—Eu prometo que não. Sem sexo hoje à noite, de qualquer


maneira.

—Sem sexo? —O vinco fica mais profundo. —Mas eu


pensei... ?

Deito na cama e agarro seus quadris, puxando seu corpo leve


sobre o meu. A sensação dela contra meu pau me faz gemer.

—Pare de pensar. —Digo, puxando seus quadris para baixo


enquanto ela monta em mim. Seus lábios se separam novamente e
suas pálpebras se fecham.

—Isso é bom. —Ela murmura.

—Apenas sinta. Esta noite, apenas sinta.

Ela deixa a cabeça cair para trás e mexe seus quadris contra
mim. É gostoso vê-la em cima de mim assim. Eu deslizo minha mão
sob sua camisa, meus dedos passando em sua barriga delgada e
macia. Ela suspira suavemente.
Por mais que eu queira deixá-la assumir a direção, não posso
evitar minha natureza controladora. Eu me sento e puxo a camisa
dela para cima e depois pela cabeça. Quando retomo meu aperto em
seus quadris, ela geme alto e se mexe contra mim novamente.

Eu beijo seus seios através do tecido de cetim de seu sutiã,


minha língua traçando as costuras do tecido e circulando seus
mamilos.

Os sons de respiração pesada e gemidos enchem o quarto.


Eu solto o sutiã de Quinn, deslizo-o e jogo no chão, pegando um de
seus mamilos rosados e apertando entre meus lábios e chupando-o.

—Oh, Deus. —Ela diz com um gemido. —Andrew...

Ela pega minhas bochechas e me beija com um fervor que


nunca vi nela. Sua língua procura a minha, seus quadris continuam
em movimento, esfregando-se de forma doce e torturante que
mantém meu pau e minhas bolas ansiando por mais.

Deslizo a mão por trás da calça jeans e aperto sua bunda. Ela
geme em minha boca e, em seguida, pressiona as palmas das mãos
nos meus ombros e me empurra para a cama.

Eu. Empurrado na cama por uma mulher. Isso nunca


aconteceu. Eu sou o único que dá as ordens na cama, não o que as
recebe. Mas o que Quinn quiser de mim, ela terá.

Ela morde o lábio inferior por apenas um segundo. Estou


pegando seus seios pequenos, mas absolutamente perfeitos, quando
ela balança a cabeça, sorri e desliza para longe de mim.

Meu gemido de frustração se transforma em outra coisa


quando ela abre minha calça. Ela a puxa, com a cueca boxer e tudo,
e eu desabotoo a camisa que estou vestindo e saio dela.

Ela envolve sua mão ao redor da base da minha ereção e,


puta merda, isso é incrível. Solto um som de satisfação e surpresa
quando ela lentamente me acaricia.

—Está bom? —Ela pergunta suavemente.

—Porra... sim. —Eu digo.

Ela se inclina, e quando seus lábios rosados se aproximam do


meu pau, fecho meus olhos. Inferno. Apenas a visão dela poderia
me fazer gozar. Sua língua é macia enquanto desliza tentadoramente
ao redor da cabeça do meu pau.

Estou respirando com dificuldade, segurando os lençóis e


lutando para manter o controle. Eu nunca me senti tão perturbado
por uma mulher. Ela me quer, quer isso, e isso é tão quente quanto a
sensação de sua doce boca em mim.

Ela leva o máximo que pode de mim, lambendo, chupando e


acariciando. Posso dizer pela forma como é lenta que ela é
inexperiente, e porra, isso me excita também. Só de saber que ela
quer me agradar é tudo o que é preciso.

—Ah, foda-se... —Digo com os dentes cerrados. —Vou


gozar.

Ela não para, e em poucos segundos, gozo em sua boca, seus


olhos se arregalando enquanto ela prova.

Seus lábios brilham quando ela se afasta e me dá um olhar


questionador.

—Querida. —Digo, passando a mão sobre o quadril e em


torno de suas costas. —Isso foi incrível e... completamente
inesperado.

Ela sorri. Eu me sento e a beijo suavemente. —Agora deite-


se de costas. —Digo.
Ela abre a boca para protestar, mas a silencio com um dedo
sobre os lábios. —Apenas faça isso.

De jeito nenhum posso deixá-la ir dormir sem sentir o que


acabei de ter. Eu não gostei que ela me fez gozar primeiro, e
pretendo compensar isso.

Abro o jeans e o deslizo para fora. Sua calcinha preta rendada


é sexy contra sua pele branca e sedosa. Eu levo meu tempo
lambendo as bainhas de renda e beijando suas coxas.

Eu memorizo todos os pontos que beijo e que a fazem gemer


baixinho. As partes internas de seus tornozelos e coxas são as
favoritas dela.

Quando enfio meus dedos pelas laterais da calcinha e a


deslizo para baixo, ela fecha as pernas. —Relaxe. —Digo baixinho.

—Eu não depilei. —Sua voz é um sussurro baixo e


constrangido.

Olho para os cachos louros escuros entre as pernas e sorrio.


—Você está perfeita.

—Sério?

—Muito sexy. Agora abra suas pernas para mim.

Ela abre, e fico de joelhos, meus olhos fixos nos dela. —


Como se sente, abrindo as pernas quando eu te digo? —Pergunto.

Seus mamilos endurecem, e seu peito sobe e desce com a


respiração pesada. —Parece... bom.

—Eu nunca vou fazê-la sentir nada além do que seja bom.
—Prometo.

Ela me dá um sorriso preguiçoso.


—Eu quero que você pegue suas mãos e circule suavemente
sobre seus mamilos. —Digo, meu pau duro mais uma vez.

A incerteza passa pelo seu rosto só por um instante antes de


ela concordar, seus lábios se abrindo quando ela começa a se tocar.

Eu não posso evitar em envolver a minha ereção renovada e


bombeá-la algumas vezes enquanto a observo.

Porra, ela é gostosa. Eu nunca imaginei ficar tão louco por


uma mulher.

—Agora, belisque seus mamilos. —Digo. —Aperte-os entre


o polegar e o indicador. —Ela faz, e eu bombeio meu pau mais
algumas vezes enquanto ela geme alto.

—Aperte mais forte. —Digo a ela.

Quando ela faz isso, seus quadris se arqueiam para fora da


cama. —Continue fazendo isso. —Digo, curvando-me.

Eu a provoquei o suficiente. Eu deslizo minha língua em sua


boceta brilhante, e ela suspira alto. Eu chupo seu clitóris e deslizo
um dedo nela.

Oh inferno. Ela é apertada. Eu bombeio meu pau algumas


vezes com a minha mão livre, imaginando como será estar dentro
dela.

Seus quadris estão girando e ela está respirando com


dificuldade. Eu empurro outro dedo e chupo mais forte. Ela grita
meu nome, e eu a sinto gozar contra a minha língua. O som dela
dizendo meu nome me domina, e eu gozo novamente.

Quando seus quadris caem de volta na cama, ela ainda está


ofegante. —Uau. —É tudo o que ela diz.

—Diga-me que você gostou.


—Você não pode ver? —Ela pergunta dando uma risadinha.

—Diga-me de qualquer maneira. —Deito-me ao lado dela.

—Eu amei.

—O que você amou?

Ela me dá um olhar confuso. Entrelaço meus dedos aos dela.


—Eu quero ouvir você dizer que me amou comendo sua boceta.

Ela cora. —Eu amei... você comendo minha boceta, Andrew.

—Eu amei o seu gosto. Eu amei provar você quando estava


gozando. Você tem um gosto bom pra caralho, querida.

—Você também.

Meu pau se contorce. Eu quero mais dela. Mas não esta noite.
O momento parece perfeito demais para se mexer. —Você se
importa se nós dormirmos nus? —Pergunto a ela.

—Nem um pouco. —Ela diz, bocejando.

Eu a beijo mais uma vez antes de nos acomodarmos longe da


mancha molhada, com ela de costas para o meu peito. Eu puxo as
cobertas sobre nós, sentindo um raro momento de satisfação
completa.
CAPÍTULO TREZE
Quinn

Estou correndo. Parece mais voar, porque meus pés mal


tocam o chão. Estou segurando a mão de Bethy e ela está voando
atrás de mim. Há um som agudo batendo na minha cabeça e o
conhecimento de que, quer eu possa vê-lo ou não, ele está bem atrás
de nós.

Corra o quanto quiser. Não há como escapar de mim.

Ele não diz isso, mas eu sinto. Não há como escapar. Eu


corro mais rápido, mas sou atingida por uma percepção doentia.
Minha mão não está segurando nada. Bethy não está mais lá.

Com um grito de horror, paro. Estou procurando ela por


toda parte, mas não há nada além de escuridão. —Bethy! Bethy,
onde você está? Bethy! —Minha garganta queima com a força dos
meus gritos.

—Ei, tudo bem. —Diz uma voz profunda e suave. —Quinn,


você está bem.

Eu respiro fundo e jogo as cobertas. Meu coração bate


descontroladamente. —O quê? —Pergunto, me sentindo
desorientada.

—Ei, é Andrew. Você estava tendo um pesadelo. —Eu exalo


profundamente, meu corpo relaxando com alívio.

—Oh Deus, isso foi tão real. Tão real. Ele estava lá.

—Quem estava lá?


Andrew afasta o cabelo da minha testa suada. Eu respiro
fundo algumas vezes, me estabilizando. —Ninguém. —Digo. —Só
um cara que costumávamos encontrar nos túneis.

—Alguém que te machucou?

Minha risada não é divertida. —Ninguém nunca me


machucou nos túneis. Eu tinha a minha faca.

Ele envolve um braço em volta do meu ombro e me puxa


contra si. Seu peito nu é quente e sólido. Eu relaxo por alguns
segundos até a minha testa, escorregadia de suor, deslizar por sua
pele.

—Desculpe. —Digo, passando as pontas dos dedos na


minha testa para limpar o suor.

—Está bem. Você está bem?

Eu aceno, embora meu coração ainda esteja acelerado. Olho


para o relógio ao lado da cama de Andrew. São 4:21 da manhã.

—Vem cá. —Andrew diz, deitando-se e puxando-me para


ele. Ele me acomoda contra o peito, acariciando o polegar em meu
quadril nu em círculos lentos e preguiçosos.

Eu tenho dormido em sua cama todas as noites nos últimos


dez dias. Depois daquela primeira noite, acabou se tornando uma
coisa implícita entre nós. Na maioria das noites, ele me mostra todas
as maneiras que pode me dar prazer com suas mãos e boca
habilidosas. Houve uma noite em que ele estava tão cansado que
tirou a roupa e adormeceu de bruços assim que deitou na cama.
Passei meus dedos pelo cabelo dele e o observei dormir até que eu
adormeci também.

É estranho esse relacionamento que temos. Na semana


passada, ele me passou um envelope com dez mil dólares durante o
jantar. Sinto falta da minha irmã, mas agora que sei que ela está
segura, tenho quase certeza de que quero estar aqui pelos próximos
quatro envelopes também. Não apenas por causa do dinheiro, mas
porque estou conhecendo Andrew. Ele é discreto e reservado, mas
estou começando a ver o que tem por baixo desse exterior.

—Quer falar sobre isso? —Ele murmura no meu ouvido.

—Não. —Corro meus dedos sobre o cabelo macio em seu


peito.

Bethy está segura. Eu não deveria estar preocupada agora,


mas estou. Eu odeio não poder escapar de Paul. Não importa
quanto eu corra ou o tempo que passe, ele sempre me encontra nos
pesadelos.

Lentamente, minha frequência cardíaca volta ao normal. Eu


mal estou começando a voltar a dormir quando Andrew se solta de
mim. Ele malha em sua academia no andar de cima às cinco e meia
da manhã todos os dias, não importa até o quão tarde ficamos
acordados na noite anterior. E ultimamente, ficamos acordados até
tarde.

—Talvez eu possa malhar com você em algum momento. —


Digo, bocejando.

—Sim? Podemos ir à academia do andar de cima quando


você quiser.

—Por que você tem duas?

—Eu adicionei a do segundo andar no segundo estágio da


reforma. A do primeiro andar era apenas temporária.

—Humm. —Digo sonolenta.

Eu o ouço ir até o enorme closet para se vestir, e estou quase


dormindo quando ele digita o código no teclado ao lado de uma
porta no quarto para subir. A tranca automática se fecha atrás dele
com um som abafado.

Sua cama é enorme e muito confortável. A cama queen size


no meu quarto tem lençóis de algodão macio também, mas os do
Andrew são mais acolhedores e desgastados. Eles também têm o
leve cheiro de cedro de sua colônia. Eu me rendo ao calor e
adormeço novamente.

É pouco depois das 7 da manhã quando acordo novamente e


vejo Andrew atravessando o quarto. Ele está recém-banhado, as
pontas do cabelo escuro ainda úmidas e vestido em um terno azul-
marinho com uma camisa branca. Uma gravata listrada está
pendurada no pescoço, ainda não amarrada.

—Bom dia. —Ele diz, sua voz profunda e um leve sorriso


me fazendo desejar que ele voltasse para a cama.

—Humm... bom dia.

—Eu quase consegui sair daqui sem te acordar. Volte a


dormir, se puder.

Eu me sento, mantendo as cobertas enroladas em volta do


meu peito nu. —Não, eu preciso levantar também. Aqueles livros na
biblioteca não vão se ler sozinhos.

Ele está em frente ao espelho dando o nó em sua gravata, e


olha pelo seu reflexo. —Por que você não vai fazer compras?

Eu reviro meus olhos. —Já está na lista. Dawson me obrigará


a ir ao salão e fazer compras esta tarde.

—Ele sabe o que é melhor.

—Eu sei. Na verdade, estive pensando.

—Sim?
—Você acha que eu teria que obter uma verificação de
antecedentes para ser voluntária em um abrigo para sem tetos?
—Andrew se vira e encontra o meu olhar, sua gravata presa em um
nó perfeito.

—Uma checagem de antecedentes seria um problema para


você? —Eu olho para a cama.

—Eu posso ajudar. —Ele diz. —Você quer que eu arranje


algo para você?

—Você poderia? Quero dizer... Eu não tenho uma carteira de


identidade e não posso arranjar uma.

Ele caminha até a cama e senta-se na beirada. —Eu vou fazer


um acordo. Eu arrumo isso, e você deixa Roy te levar lá e trazer
para casa todos os dias.

Seus brilhantes olhos azuis estão tão sérios. Andrew não é do


tipo leve e feliz, mas eu também não sou.

—Ok. Se você tem certeza que consegue arranjar isso.

—Vou fazer isso esta manhã. Lembre-se, nós temos uma


recepção hoje à noite.

—Eu me lembro. Foi por isso que Dawson marcou o salão


às quinze horas, para que eu fique bonita...

Andrew se levanta da cama e olha para mim. —Você não


poderia ficar mais bonita do que está neste momento.

Eu aliso a mão sobre o meu cabelo bagunçado e sorrio.

—Infelizmente tenho uma reunião às oito horas. —Ele diz.


—Mas vou te ver hoje à noite.

Por um segundo, acho que ele vai vir e me beijar. Mas ele
apenas sorri e sai. Teria sido estranho de qualquer maneira, tenho
certeza. O que eu teria dito? “Tenha um bom dia, querido?” Nós não
somos um casal ou algo assim.

Eu tomo um banho no meu próprio banheiro e visto um


jeans e um suéter de cashmere verde escuro. É um que Dawson
escolheu para mim, e tenho que admitir, parece muito bom.

Depois de colocar uma maquiagem leve, eu me olho no


espelho do banheiro. Faz apenas cinco semanas desde que saí das
ruas, mas parece uma vida inteira. Eu perdi completamente as
olheiras sob meus olhos, e minha clavícula não se destaca tão
proeminentemente. Meu cabelo está mais brilhante. Meus seios
estão de volta, não que eles fossem grandes. Mas ainda assim. Faz
muito tempo desde que me senti confiante em outra coisa que não
as minhas habilidades de sobrevivência. Isso é bom.

Eu me ajeito e saio para a biblioteca. É quase Dia de Ação de


Graças, e decorações de Natal estão começando a aparecer nas
grandes vitrines. Será o primeiro Natal que Bethy e eu não
passaremos juntas. Eu engulo o nó na garganta. Melhor, pois ela está
segura e aquecida no México, em vez de estar tremendo em algum
beco aqui comigo.

No ano passado, Bean levou para nós um jantar de Natal de


um abrigo, e nós comemos em um prédio abandonado. Quando
Bethy e eu éramos crianças, o jantar de Natal ficava em segundo
plano. Não mais. Nós comemos cada pedacinho naqueles
recipientes de isopor e amamos.

Quando chego à biblioteca e me sento na minha cadeira com


um livro, Anna se aproxima entregando um livro de capa dura.

—Cor perfeita para você querida. Você está linda.

—Obrigada, Anna.

Ela sorri. —Não é só o suéter, no entanto.


Eu sorrio de volta. —As coisas estão indo muito bem.

—Você merece.

Ela dá um tapinha no meu ombro e volta para sua mesa.


Pego meu casaco, bolsa e os dois livros e passo pelas prateleiras altas
cheias de livros até ficar longe da vista de alguém.

A carta está esperando por mim bem na frente da capa do


livro. A visão da caligrafia da minha irmã me enche com uma
calorosa sensação de segurança. Eu corro meus dedos sobre as letras
no envelope antes de abrir cuidadosamente o topo.

Dentro da carta há uma foto de Bethy. Ela está em pé na


praia, o oceano azul e o sol poente no fundo. Algumas mechas de
seu cabelo castanho estão para cima com a brisa e ela está sorrindo.
Sua pele está dourada com bronzeado.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Ela parece tão saudável.


Tão feliz. Por mais que eu tenha sido sempre a mais forte, Bethy
está se portando à altura. Ela quer que eu veja que ela está bem. Eu
posso ver isso em sua expressão. Isso me deixa tão feliz que eu
poderia chorar.

Depois que olho a foto por mais alguns segundos, leio a


carta.

Cara Quinn

É tão legal aqui. Todo dia é lindo e quente. As


pessoas são todas muito legais, apesar de eu não falar a
língua. Eles me ajudam com as coisas e tentam me
alimentar o tempo todo.

Bean tem um emprego! Ele trabalha com um


pescador todos os dias e eu estudo com uma mulher
chamada Maria. Ela é uma professora que teve que
voltar para casa para cuidar de sua mãe que está
doente. Maria está me ensinando espanhol e
matemática, e também temos tempo de ler na praia
todos os dias. Obviamente, gosto mais do tempo de
leitura. Isso me faz pensar em nossa biblioteca.

Eu sinto sua falta. Eu não posso esperar até você


chegar aqui e podermos caminhar juntas na praia.
Você vai adorar. Nosso apartamento é bem pequeno,
mas não precisamos de muito espaço. Há apenas um
quarto, um banheiro e uma cozinha combinada com
uma sala de estar. Bean dorme no sofá e eu durmo no
quarto. Ele diz que quando você vier, teremos um lugar
maior, mas, por enquanto, estamos tentando gastar
pouco dinheiro.

Hoje, Maria vai me levar para a feira de um


fazendeiro. Ela quer que eu peça todos os alimentos que
precisamos pelo nome em espanhol e pague sozinha.
Então vamos cozinhar o jantar.

Aqui vai uma foto minha na praia que Maria e


eu vamos todos os dias. Por favor, escreva-me e deixe-
me saber como você está.
Estamos bem, então por favor não se preocupe
conosco.

Com amor, Bethy

Eu leio a carta novamente, em seguida, coloco a foto de volta


dentro dela e a guardo de volta no envelope. Depois de guardá-lo
em segurança no bolso da minha bolsa, volto para minha cadeira e
sento para ler meu livro por algumas horas.

Quando meu estômago começa a roncar, decido que é hora


de ir para casa e almoçar. Depois de devolver os livros às suas
posições nas prateleiras, visto o meu casaco, envolvo meu cachecol
em volta do rosto e saio.

Meu coração está tão cheio. O zumbido de energia do tráfego


e dos pedestres me cerca, e percebo que esta é minha cidade agora.
Este é o lar para mim, o que é engraçado, considerando que passei a
maior parte do meu tempo aqui com fome e desesperada. Mas
tenho que dizer uma coisa para a cidade de New York, o que eu
precisava foi me dado. Eu tinha que encontrar um lugar onde minha
irmã e eu pudéssemos nos tornar invisíveis, e conseguimos. E dado
o meu acordo com Andrew, estou ainda mais convencida de que
esta é uma cidade dos sonhos. Tudo é possível aqui e nada está fora
dos limites.

Eu já tenho um vestido que quero usar na recepção hoje à


noite. É preto, frisado e muito elegante. Eu sei que Andrew vai
adorar. Estou tentando decidir como dizer a Dawson que não quero
ir atrás de algo novo quando um som me faz parar na calçada.

Foi um grito de dor. Eu não tenho certeza de como ouvi


sobre os sons do tráfego, mas eu sei que estava lá.
De onde veio, no entanto?

Saio da fila de pedestres na calçada para olhar em volta. Está


ocupado e lotado em todos os lugares. Eu decido que devo ter
imaginado o barulho quando o ouço de novo.

Minha cabeça se volta automaticamente para o beco estreito


do qual o som veio. Meus pés seguem o som, indo para o espaço
escuro e lamacento. Meus sapatos novos estão deslizando no lodo
do chão. É difícil ver já que dois prédios altos bloqueiam toda a luz,
mas olho de um lado para o outro enquanto adentro no beco.

E então eu vejo. Escondido atrás de uma lixeira, uma criatura


muito triste. Seu pelo está emaranhado e sujo. Grandes olhos
castanhos olham para mim, e eu vejo a pergunta neles: o que você
vai fazer comigo?

Eu derreto. Este cão precisa tanto de um amigo. Eu me


aproximo dele lentamente, minha palma para cima. Ele recua contra
a lixeira.

É um milagre ele estar vivo. Ele é pele e ossos. Quando me


aproximo, ele choraminga e eu tento acalmá-lo. —Shh, não vou te
machucar. —Digo baixinho. —Você está bem.

Eu quase o alcancei quando ouço alguém pigarreando atrás


de mim.

Eu congelo por um segundo, depois me viro. Três homens


estão a poucos metros atrás de mim. Todos eles têm casacos
esfarrapados e sapatos furados. Seus rostos estão maltratados pelo
tempo, e dois deles têm barbas desgrenhadas. Posso ver a fome em
seus olhos. Seja por comida ou por qualquer outra coisa, não tenho
certeza.

Eu só sei que estou em uma situação ruim.


—Eu vou pegar essa bolsa. —Diz o mais alto, os olhos se
estreitando. —Suas roupas e sapatos também.
CAPÍTULO QUATORZE
Quinn

Não está lá. Eu sei que minha faca está no armazém, enfiada
na minha gaveta de roupas íntimas no meu quarto. Mas o instinto
enviou minha mão ao meu quadril da mesma forma.

—Sua maldita bolsa. —Ele repete. —Agora.

Eu fico em pé, mentalmente me chutando por deixar o


armazém sem minha faca. Mas sou esperta.

Esses babacas não vão pegar as cartas de Bethy.

—Você não sabe com quem está mexendo agora. —Digo


com um tom de aço. —Você não vai pegar a minha bolsa.

Eu aperto a alça sobre o ombro e seguro o olhar do homem


alto. Um dos homens atrás dele ri e pega uma arma, segurando-a e
apontando para mim.

—Guarde. —Diz o altão, sem sequer olhar para ele. —Você


não vai atirar em ninguém aqui. Muitas pessoas por perto.

Ele avança para mim e me empurra contra a parede de tijolos


pelos meus ombros. Eu levanto um joelho em seu estômago,
batendo exatamente quando meus dentes fazem barulho pelo
impacto da parede.

Depois que ele se encolhe e solta um suspiro, o homem me


dá um tapa no rosto com tanta força que fico sem ar.

—Filho da puta. —Murmuro.


Ele pega minha bolsa e começa a puxar. Eu seguro meu
braço ao redor dela o mais forte que posso. —Solte-a, sua cadela
rica. —Ele diz. —Você tem mais bolsas em casa.

—Não. —Digo com os dentes cerrados. —Você não pode


levar.

Eu piso em um de seus pés, colocando todo o meu peso


nisso. Ele pragueja e recua, me dando um soco no rosto. Eu
cambaleio para trás contra a parede, as cores escuras das roupas dos
homens rodando juntas.

O cuspe voa contra minha bochecha enquanto eu me esforço


para segurar minha bolsa. Alguém está puxando. —Não. —Eu
choro. —Não. Por favor. Apenas me deixe pegar as cartas.

—Você não vai pegar merda nenhuma. —Uma voz diz antes
de rir. A bolsa é arrancada de mim.

Eu me levanto, mas sou imediatamente empurrada de volta


para o chão, onde uma bota dura no meu estômago me faz uivar de
dor. Quem está me chutando continua, batendo tão forte a cada
golpe que todo o meu corpo se move.

Eu acho que estou sendo sufocada. Alguém está tirando meu


casaco e eu nem me importo. Eu sinto o gosto de sangue. Eu quero
tanto respirar.

Graças a Deus Bethy não está aqui. Ela está segura. Eu a imagino
na praia no México, sorrindo. Ela está comprando mantimentos
com Maria e aprendendo a pronunciá-los em espanhol.

—E com quem estávamos mexendo? —Uma voz gargalha de


cima de mim. —Você deveria ter nos dado a bolsa, vadia.

Outro chute no meu estômago, e posso sentir as mãos no cós


do meu jeans. Eles não vão só me deixar morrer, eles vão me violar
primeiro. Porcos. Bean estriparia esses homens e os alimentaria com
suas entranhas se estivesse aqui.

Há um latido alto, seguido por outro. E outro. —Cale a porra


desse cachorro. —Um dos homens murmura. —Vamos sair daqui,
Tony. Nós pegamos a bolsa.

O cachorro ainda está latindo, repetidamente. Eu ouço


cascalho voando enquanto os homens fogem. Finalmente, respiro
um pouco de ar, embora doa.

—Obrigada. —Sussurro para o cachorro. —Obrigada.

Ele ainda está latindo. Eu me arrasto para uma posição


sentada, assim que a voz de um homem grita: —Ei! Está tudo bem?

—Não. —Digo, minha voz saindo em um grasnido. —


Ajude-me, por favor.

Uma figura se aproxima. Ele é de meia-idade, com uma


cintura grossa e um terno amarrotado. —Oh, Cristo. —Ele diz
quando me vê. —Vou ligar para a emergência.

—Não. —Digo freneticamente. —Não, por favor, não.

Eu quero me levantar e voltar para o armazém, mas não


consigo. É cerca de um quilômetro e meio de distância, e eu
simplesmente não posso fazer isto.

—Eu estou bem. —Digo. —Eu só... Eu quero ir para casa.


Não é longe. Cerca de um quilômetro e meio. Você pode chamar
um táxi e perguntar se outra pessoa pode pagar depois?

—Aqui. —Diz o homem, inclinando-se para mim. Seus


sapatos pretos desgastados agora estão afundados em uma poça de
lama. —Meu nome é Jim. Eu vou te ajudar e te levar pra casa, ok?
Eu pago a corrida do táxi.
Meus olhos se enchem de lágrimas quando ele alcança minha
cintura. —Não. Por favor... não aí. Dói tanto.

—O que eu posso fazer? —Pergunta ele.

—Você pode me dar seu braço? Se eu conseguir me apoiar,


acho que posso levantar.

—Claro. —Ele estende o braço e eu o agarro, forçando-me a


não gritar por causa da dor enquanto fico de pé.

Eu olho para mim mesma. Estou vestindo uma camisa


branca salpicada de lama, que eu tinha sob o suéter que foi levado
com o meu casaco. Meu jeans está puxado até a metade das minhas
coxas. Eu não tenho sapatos. Os desgraçados levaram meu casaco,
sapatos e suéter de cashmere.

Encolhendo-me, puxo meu jeans e abotoo-o.

—Acho que devemos chamar a polícia. —Jim diz. —Você


foi... assaltada?

—Eu só quero ir para casa. —Olho para o cachorro, de volta


ao seu lugar ao lado da lixeira. —Você pode pegá-lo e levá-lo para
mim?

—Você quer levar essa coisa para casa? É seu?

—Ele é agora.

Jim dá de ombros e pega o cachorro, que está visivelmente


tremendo.

—Eu vou recompensá-lo por isso. —Prometo a Jim na


caminhada lenta para fora do beco. —Por seu terno, a corrida de
táxi e tudo mais.

Ele sacode a cabeça. —Está bem. Eu tenho uma esposa e


duas irmãs. Espero que alguém pare para ajudá-las se precisarem. Eu
sinto muito por não ter chegado aqui antes.

Jim não teria sido de muita ajuda contra os três bandidos,


mas eu sorrio de gratidão de qualquer maneira. Nós atraímos alguns
olhares enquanto ele chama um táxi. Eu tenho sangue e lama em
cima de mim, e ele está segurando um cachorro que parece
pertencer a um anúncio da ASPCA2.

—Eu vou te dar um extra pela bagunça. —Jim promete ao


taxista que parou e nos dá um olhar cético.

—Meatpacking District. —Digo, fazendo uma careta pela


dor de entrar no carro. —Eu não sei o endereço, mas posso te levar
até lá.

O taxista apenas sacode a cabeça e dirige. Eu o direciono,


sentindo uma onda de alívio quando o armazém aparece. O táxi para
na frente e Jim sai, ainda segurando o cachorro tremendo. Eu
deslizo atrás dele.

—Você pode levar o cachorro até a porta da frente para


mim? —Pergunto.

—Claro que sim. —Jim gesticula para o taxista para esperar, e


ele me segue. Eu nem sequer chego aos degraus da frente que levam
à porta antes de dois homens de terno escuro andarem rapidamente
para me impedir.

—Senhorita Jones. —Diz um deles. —O que aconteceu? —


Eu franzo a testa e fico em silêncio.

—Somos parte da equipe de segurança do Sr. Wentworth. —


Ele diz. —Quem é esse homem? —Eles olham para Jim.

—Eu fui atacada. —Explico. —Ele me ajudou. Conseguiu

2
American Society for the Prevention of Cruelty to Animals- (Sociedade Americana para a Prevenção da
Crueldade contra os Animais)
um táxi para eu poder chegar em casa.

—Vamos entrar. —O homem de terno com cabelo escuro


curto diz.

O outro está agradecendo a Jim e levando o cachorro, o que


me faz sorrir. Ele parece não se incomodar com o animal coberto de
lama arruinando seu terno bonito.

—Jim, obrigada. —Digo, me virando. —Muito obrigada.

Ele balança a cabeça, sorri e caminha de volta para o táxi. O


outro segurança nos segue até os degraus, onde ele digita um código
para abrir a porta da frente.

—Turner! —O segurança de cabelos escuros chama


enquanto entramos na sala de estar ampla.

—Humm? —A governanta e chef de Andrew enfia a cabeça


em um canto e nos vê. —Oh Jesus! O que aconteceu?

Ela corre em minha direção.

—Vou telefonar para o Sr. Wentworth. —Diz um dos


seguranças.

—Vamos executar uma varredura completa na propriedade.


—Diz o outro. —Apenas por segurança.

Turner me leva ao banheiro de Andrew, onde me observa da


cabeça aos pés. —Garota, o que aconteceu? —Ela pergunta, seus
grandes olhos escuros cheios de preocupação.

—Eu fui assaltada. —Digo miseravelmente. —Três caras


pegaram minha bolsa, meu suéter e sapatos.

Ela sacode a cabeça com desgosto. —Malditos desgraçados.


Você está uma bagunça, garota. Acho que precisamos levá-la para
um hospital.
—Não. Eu acho que parece pior do que realmente é. Você
pode me ajudar a limpar?

—Claro que posso.

Lembro-me da foto de Bethy que estava na minha bolsa e


meus olhos se enchem de lágrimas. Eu quero segurá-las, mas não
posso. Suas preciosas cartas se foram. Eu enterro meu rosto em
minhas mãos e choro lágrimas de raiva.

—Vou fazer um pouco desse chá Chai que você gosta. —


Turner diz suavemente. —Você apenas fique sentada.

Ela sai e eu tento me segurar, mas simplesmente não consigo.


Está tudo me atingindo de uma só vez: o espancamento, o medo, o
quase estupro, o cachorro, minhas cartas...

Eu choro até ficar com o nariz escorrendo, e quando ouço


alguém passar pela porta do banheiro, não é Turner, mas Andrew.
Ele está respirando com dificuldade e sua testa está encharcada de
suor.

—Quinn! —Ele cai de joelhos na minha frente. —O que


diabos aconteceu? Você está bem?

—Eu fui... assaltada. —Digo, tentando enxugar meu nariz.

Andrew pega um lenço de pano e me dá. Limpo meu nariz,


encolhendo-me quando vejo o lenço manchado de sangue.

—Você pode descontar isso do meu pagamento. —Digo,


tentando rir. Mas não posso.

—Pare com isso. Você está bem?

Eu concordo. —Acho que sim. Eu estava vindo para casa e


ouvi um som de choro. Havia um cachorro em um beco, e eu estava
tentando me aproximar dele quando três bandidos idiotas me
atacaram por trás.

—Três homens?

—Eles queriam minha bolsa, mas eu não queria dar a eles.

Os olhos de Andrew se arregalam. —Quinn... isso é


substituível. Você não.

As lágrimas estão nos meus olhos novamente. —Mas as


cartas de Bethy... e a foto dela, elas não são substituíveis. Elas foram
embora. Eu não tenho o endereço dela e ela queria que eu
escrevesse de volta, mas não posso agora.

Estou chorando de novo. Andrew suspira suavemente. —Sua


irmã.

—Sim. —Sussurro.

—Eu sinto muito. —Ele fecha os olhos por um segundo. —


O que eles fizeram com você?

Eu dou de ombros. —Apenas o típico assalto. Bater, chutar,


empurrar... e eu acho que fui sufocada.

A mandíbula de Andrew aperta. —Malditos covardes. E as


suas roupas? Eles fizeram... ?

—Não. Quase. —Eu solto uma risada através das minhas


lágrimas. —Adivinha quem me salvou?

Sua testa franze com confusão. —O cara que te trouxe para


casa?

—O cachorro. Ele latiu tanto até que os caras ficaram com


medo de serem pegos e correram. E então ele latiu até a ajuda
chegar.

—Cachorro esperto.
—Eu vou ficar com ele. —Digo. —E se você não quiser ele
aqui... Eu entendo, mas também não vou poder ficar.

—Relaxe, Quinn. O cachorro pode ficar, ok? —Ele pega


minha mão e leva-a aos lábios, beijando meus dedos. —Eu sinto
muito que você foi ferida.

—Você chegou aqui muito rápido.

—Roy estava me trazendo até aqui, mas ficamos presos no


trânsito, então corri os últimos três quilômetros.

—De terno?

—Sim.

Eu sorrio para ele. —Eu te abraçaria se não estivesse imunda.

Ele se estica para mim. Ele está de joelhos no chão do


banheiro e eu estou sentada na beira da banheira.

Eu afundo contra ele e fecho meus olhos. —Você está bem


agora. —Ele diz suavemente.

—Turner disse que vai me ajudar a limpar, mas... você pode


me ajudar em vez dela?

Andrew já viu tudo de mim e estou mais confortável com ele


do que com Turner. Eu também só quero ficar perto dele agora.

—Eu faria mas... Eu tenho que cuidar de uma coisa. —Ele


diz.

Eu me inclino para trás e encontro seu olhar. —Oh. Você


quer dizer trabalho?

Ele sacode a cabeça. —Eu estarei de volta em pouco tempo.


Minha equipe de segurança está em alerta e prometo que você está
completamente segura aqui.
—Mas… onde você está indo?

Ele beija as costas da minha mão e se levanta. —Eu preciso


ir. Eu vou chamar Ty para vir e examinar você.

Eu aceno e engulo em seco. Eu não quero que ele vá.


Andrew é o conforto que preciso agora. Mas o que posso dizer?

—Você tem que ir? —Pergunto.

—Eu tenho. Eu voltarei assim que puder, ok?

—Sim. Ok.

Ele sai do banheiro e, alguns minutos depois, Turner entra


com uma caneca de chá chai e uma pilha de roupas limpas. Ela me
ajuda a tomar um banho e vestir uma calça de yoga e uma camiseta.
Eu tento não pensar em Andrew o tempo todo, mas não posso
evitar.

Por que ele correu três quilômetros para chegar aqui e depois saiu em
poucos minutos? Ele não sabe o quanto preciso dele agora?

Ty chega logo depois que Turner me acomoda na cama de


Andrew. Como Andrew, ele é ridiculamente bonito.

Loiro, de olhos azuis e alto, e ele tem um sorriso contagiante.

—Vamos dar uma olhada. —Ele diz gentilmente, verificando


meu estômago, pescoço e rosto. Espero que ele não faça qualquer
pergunta sobre Andrew e eu, porque estou muito frágil
emocionalmente para pensar em uma boa desculpa agora.

—Você pode olhar o cachorro também? —Pergunto


enquanto ele pressiona meu estômago com cuidado. —Ai, isso dói.

—Sim, eu vou levá-lo para um hospital veterinário. —Ty diz.

—Você não precisa fazer isso.


—Claro que sim. Ele é importante para você e você é
importante para Andrew.

Meu coração bate mais rápido. Eu sou importante para


Andrew? Eu sou mais importante do que qualquer outra pessoa em
sua folha de pagamento?

—Você tem sorte. —Ty diz. —Costelas machucadas com


certeza e você vai ficar dolorida por alguns dias. Mas não acho que
seja mais do que isso. Preciso de um exame de sangue hoje e
novamente amanhã porque queremos garantir que nenhum de seus
órgãos internos esteja machucado.

—Ok. Obrigada.

—Vou prescrever um remédio para dor. Você vai precisar


disso.

Sento-me contra os travesseiros e aceno com a cabeça. Ty


pega uma seringa e um pequeno vidro de sua maleta médica. —
Você gostaria de algo para ajudá-la a descansar? —Ele pergunta.

—Não. Obrigada, mas não.

—Ok. Vocês me liguem se precisarem de alguma coisa, ok?


Qualquer coisa. Vou mandar uma mensagem para Andrew quando
cuidar do cachorro. Eu garanto que eles vão interná-lo. Ele não está
em boa forma.

—Não deixe eles sacrificá-lo. —Digo, minha voz tremendo.


—Eu não quero isso. Ele me salvou.

Ty acaricia minha mão tranquilizadoramente. —Eu vou tratá-


lo como se ele fosse meu, Quinn. Eu prometo.

Ele sai e eu deito de volta nos travesseiros que Turner afofou


atrás de mim. Onde está Andrew?
A recepção. Eu suspiro quando percebo que ele
provavelmente foi para a recepção que nós deveríamos ir juntos. O
pensamento de Dahlia se oferecendo para ele novamente me deixa
irracional. Eu não estou muito feliz com Andrew agora, mas ainda
assim. É melhor que ele consiga afastá-la sem minha ajuda desta vez.

Eu choro mais pelas cartas e tento reavivar a foto de Bethy


na memória. Se o carma existe, eu vou ver esses idiotas novamente,
e vou ter minha faca na próxima vez.

A tarde se transforma em noite e o quarto está escuro quando


Andrew abre a porta. Eu quase adormeci, mas sento-me quando
vejo sua silhueta de ombros largos na porta.

—Andrew?

—Oi. —Ele diz suavemente. Ele entra no quarto e eu ligo a


lâmpada do criado-mudo para que possa vê-lo quando ele se
aproxima da cama.

Não pode ser. Não pode ser, porra. Mas é.

Minha boca se abre em choque quando ele estende a bolsa


preta para mim. Eu reconheço imediatamente. É a minha maldita
bolsa.
CAPÍTULO QUINZE
Andrew

Ela pega a enorme bolsa preta e a abre, vasculhando em um


bolso. Quando puxa alguns envelopes de dentro, seus olhos se
arregalam e se enchem de lágrimas.

—O que é isso? —Ela exige. —O que... como?

Sento-me ao lado da cama. —Como não importa. Você


queria e eu consegui.

Ela se arrasta para a lateral da cama e tenta se levantar,


estremecendo com a dor. —O “como” importa, Andrew. É muito
importante. —Ela segura as cartas no ar. —Como você fez isso?

—Ei, você precisa ficar na cama.

—Responda-me. —Ela diz, com os olhos cheios de emoção.


—Porque agora eu me sinto realmente violada.

—Violada? —Levanto-me e a encaro. Esta não é a reação que


eu esperava. Achei que ela ficaria emocionada por ter as cartas de
sua irmã de volta.

—Você acabou de encontrar os homens que me roubaram na


maior cidade do mundo? Quão idiota você acha que eu sou?

—Quinn, olhe...

—Não, olha você. —Ela se aproxima de mim e aponta para o


meu rosto. —Explique-se.

Eu suspiro profundamente. —Eu não posso.


—Você quer dizer não vai.

—Não, eu não posso.

—Andrew...

—De onde você é? Por que você mandou Bethy embora?


Por que você não tem nenhuma identificação?

As narinas dela se dilatam de raiva. —Você sabe que eu não


posso te dizer nada disso.

—Não vai. —Digo com firmeza. —Nenhuma porra de


diferença, Quinn.

—O que é isso? —Ela grita. —Isso é algum jogo mental que


você está jogando comigo? Você quer pegar minha história para
você… Ou então o quê? O que diabos você fez, Andrew?

—Eu consegui suas cartas de volta. Isso é o que você queria.


Que tal um obrigado?

—Obrigado? Você não pode pensar que sou tão idiota.

Eu reviro meus olhos, exasperado. Um daqueles idiotas que a


assaltou me bateu no estômago e estou dolorido. Definitivamente
não estou com saco para uma briga.

—Nós dois temos segredos, Quinn. —Eu a lembro. —E o


como por trás disso... —Aponto para a bolsa dela na cama. —É um
dos meus.

—Você os contratou. —Seu tom acusador me faz vacilar.

—Você está falando sério? —Eu grito, não me importando


com quem me ouve.

—Você armou para poder salvar o dia. Talvez eles tenham


saído do controle com o espancamento, eu não sei.
Eu recuo, sentindo uma dor tão forte que eu poderia
explodir. —Essa é a merda mais louca que eu já ouvi. Você acha
que eu faria isso?

—Não há outra explicação racional para como você pegou


minha bolsa de volta. Nenhuma. Se eu estiver errada, por favor me
diga. Você não tem ideia do quanto eu quero estar errada agora.

—Você está errada.

—Então como?

—Eu não vou te responder. —Eu a lembro. —Eu fiz todas


as coisas possíveis em que pude pensar para fazer você feliz desde
que você chegou aqui, e tentei fazer isso de novo. Você estava
chorando. Eles te machucaram. Eu fiz o que precisava ser feito.
Você não pode simplesmente deixar isso assim?

Ela só olha para mim e a resposta está nos olhos dela. Eu


vejo a dúvida lá e o retorno do olhar duro da primeira noite que nos
encontramos.

—Eu nunca te machucaria. —Digo, dando um passo mais


perto dela. —E eu nunca deixaria ninguém machucá-la também. —
Uma contusão roxa marca sua bochecha, e seu lábio está inchado.
Eu odeio o que aconteceu com ela hoje. A raiva profunda e ardente
que sinto pelos homens que a tocaram é familiar para mim. Eu senti
isso depois do 11 de setembro, quando perdi meu pai. Esse tipo de
raiva é perigosa sem uma saída. Fazer esses três bandidos se
desculparem e receber as cartas de Quinn de volta tinham sido
minha única opção.

Ela engole em seco e olha para o chão. —Obrigada. Eu vou


dormir no meu quarto.

E quando ela sai do quarto, ela leva tudo que construímos


com ela. A familiaridade, a proximidade, a confiança... se foram.
Eu, sem saber, arruinei tudo. Mas sei que se eu pudesse fazer
isso de novo, eu não mudaria nada. Eu não posso sentar aqui
enquanto homens como aqueles idiotas escapam depois de
machucarem Quinn. Ela foi ferida por muitas pessoas.

Eu vou ao banheiro para um longo banho quente. Eu quero


tanto ela na minha cama esta noite. Ela poderia ter outro pesadelo.
Deus sabe que ela tem muitos motivos para isso.

Eu já sabia o nome da irmã dela. É o nome que ela grita


durante os pesadelos. Bethy é tudo para Quinn. Eu posso ouvir o
terror em sua voz quando ela diz seu nome.

Quando saio do banho, visto uma cueca limpa e uma


camiseta e subo na cama. Não há razão para dormir nu sem Quinn
ao meu lado. Eu já sinto falta da sensação de seu corpo quente e
leve ao lado do meu.

Eu olho para o teto, preocupações disparando rapidamente


em minha mente. A maior delas é que Quinn se vá.

Ela vai apenas escapar sem aviso, porque agora ela está com
medo de mim.

Se ela fizer isso, eu poderia encontrá-la. Tão facilmente


quanto eu poderia descobrir quem ela realmente é se eu quisesse.
Ela não tem ideia de que sou uma das pessoas mais difíceis do
mundo para manter seu tipo de segredo.

Eu não iria, no entanto. Se ela se for, eu vou ter que suportar


e lembrar de que estar perto de alguém é impossível para mim. Era
só uma questão de tempo, de qualquer maneira. Mas eu estava
realmente esperando que o tempo não estivesse tão próximo.
CAPÍTULO DEZESSEIS
Quinn

Os seguranças são Steve e Micah. Eu os vi frequentemente


nos quatro dias desde o ataque, porque toda vez que eu tento sair de
casa sozinha, um deles me segue. Eles nem tentam ser discretos.

Eu reclamaria com Andrew, mas ainda não estou falando


com ele. Se ele me fizer uma pergunta, respondo, mas é só isso. Eu
tenho medo da quinta-feira, quando iremos para a casa de sua mãe
para o Dia de Ação de Graças. Meu rosto ainda está roxo e
amarelado com os hematomas, o que, com certeza, não passará
despercebido por ela.

Ao passar por Micah na garagem do armazém, ele coloca seu


gorro escuro, se preparando para me seguir.

—Tudo bem, vou de carro com Roy. —Digo.

—Sr. Wentworth disse que você começa o trabalho


voluntário no abrigo hoje, e ele quer que eu vá com você.

Eu franzo minhas sobrancelhas. —Vai comigo? Por quê?

—Só por segurança.

—Isto é ridículo. Eu tenho minha faca. —Eu abro o novo


casaco de inverno que Dawson me comprou. Minha faca está presa
na minha coxa novamente, onde deveria ter estado o tempo todo.

—Estou apenas cumprindo ordens, senhorita. —Micah diz.

Eu balanço minha cabeça. —Então eu tenho que aparecer


em um abrigo em um carro Escalade com motorista e um guarda-
costas?

—Lamento.

—Tudo bem. —Digo com um suspiro. —Apenas entre.

—Bom dia, senhorita Jones. —Roy diz quando abre a minha


porta. Eu me pergunto se a equipe de Andrew sabe que meu
sobrenome não é Jones.

No caminho para o abrigo, abro o envelope pardo que


Andrew deixou na ilha da cozinha esta manhã. Há uma certidão de
nascimento e carteira de motorista no interior com o nome de
Susanna Hopkins. A foto na carteira de motorista é minha. Eu inalo
nitidamente quando olho para isso, imaginando como diabos
Andrew conseguiu.

O dinheiro pode comprar muito, mas isso? Eu decido não


pensar demais. Esta carteira de motorista é um ingresso para a
liberdade para mim. Eu preciso fazer mais do que sentar no
armazém vazio e na biblioteca o tempo todo. No abrigo, posso
encontrar pessoas que enfrentam as lutas que conheço muito bem.
Eu posso fazer algo que importe.

Roy me deixa em frente ao abrigo Helping Hands, e Micah


me segue para dentro. É pequeno, mas brilhante e limpo. Fotos de
pessoas sorrindo estão alinhadas nas paredes. Uma recepcionista
pergunta o meu nome, e assim que digo a ela que sou Susanna
Hopkins, um homem de jeans e flanela sai para apertar minha mão.

—Pete Larsen. —Ele diz com um sorriso. —Eu sou o


diretor executivo aqui. Eu não posso te agradecer o suficiente por
sua doação, senhorita Hopkins. Vai fazer uma enorme diferença em
muitas vidas.

—Doação?
—Sr. Wentworth fez em nome de vocês dois. Ele disse que
você gostaria de se voluntariar também, o que é ótimo. Nós sempre
podemos contar com ajuda.

Sinto uma afeição calorosa por Andrew até me lembrar do


quanto estou chateada com ele. Eu penso constantemente sobre
como ele poderia ter conseguido minha bolsa de volta sem ter nada
a ver com o assalto, e nunca chego a uma resposta.

—Apenas me diga o que posso fazer. —Digo. —E meu


amigo Micah veio para ajudar também.

—Desde que possamos trabalhar juntos, estou dentro. —


Micah diz.

Pete nos designa para a cozinha, onde descascamos batatas e


cenouras. Ajudamos a servir sopa e sanduíches para o almoço, e
sinto uma pontada por cada criancinha cujo prato e tigela eu encho.
Seus grandes olhos e sorrisos calorosos me fazem lembrar de Bethy.

É um bom dia, e quando Pete pergunta se podemos voltar


outro dia esta semana para ajudar a servir o jantar de Ação de
Graças, eu odeio dizer não. Eu prefiro estar aqui do que passar um
dia desconfortável com Andrew e sua mãe.

Eu aprecio o que Andrew fez pelo abrigo, então sorrio para


ele quando ele entra na cozinha depois do trabalho.

—Você teve um bom dia? —Ele pergunta, tirando a gravata


vermelha escura.

—Sim. Obrigada por doar ao abrigo.

—Claro. Contribuições de caridade são abatidas nos


impostos.

—Quanto você doou?


—Duzentos e cinquenta.

Meus lábios se abrem com surpresa. —Você quer dizer...


250.000 dólares?

—Sim. O jantar está pronto?

Eu venho de uma família com dinheiro, mas não acho que é


o tipo de riqueza que Andrew tem. Ele pode comprar o que quiser.
E, no entanto, me pergunto se ele entende o poder disso. Será que
ele sabe que o dinheiro que ele deu para o abrigo foi muito mais do
que apenas uma dedução fiscal?

—Turner deixou o forno aquecido para que pudéssemos


comer quando você chegasse aqui. —Digo.

Antes do ataque, nós teríamos conversado durante o jantar.


Eu perguntaria a ele como foi o trabalho, e ele explicaria o negócio
imobiliário em que estava trabalhando. Eu contaria a ele sobre os
livros que eu li na biblioteca naquele dia, e ele fingiria estar
interessado.

Em vez disso, nós comemos em silêncio. Quando


terminamos, levo os pratos para o balcão perto da pia e começo a
arrumar os pratos na lava-louças.

—Deixe isso para Turner. —Andrew diz.

—Eu cuido disso.

—Isso é o que eu pago para ela fazer.

—Você também está me pagando. —Lembro a ele.

—Não por isso.

Minha mão para com o copo que eu estava prestes a tirar da


máquina de lavar louça. É verdade. Ele está me pagando muito e eu
não estou retribuindo.
—O que você gostaria de mim? —Pergunto, não me virando.

Eu o ouço andando pelo chão de madeira na minha direção.


Suas mãos pousam levemente na minha cintura e sinto o calor de
sua grande estrutura atrás de mim.

—Eu gostaria que fosse como era. —Ele diz. —Quando nos
aproximamos. Quando você confiou seu corpo a mim.

—Não é realmente assim. —Digo suavemente. —Você pode


ter o que quiser de mim fisicamente, confiando ou não.

Ele exala sua frustração. —É assim que vai ser, então? Eu


tenho que pedir favores sexuais de você?

Eu me viro e olho para ele. —Não são favores. Este é o


nosso acordo, Andrew.

—Pode ser bom para nós dois. —Ele diz, apertando as mãos
em volta dos meus quadris. —Apenas se solte e aproveite como fez
antes. Eu vou te dar o que você quiser.

É bom ter suas mãos em mim novamente. Isso é alguma


merda bem confusa aqui. Estou com raiva dele, não confio nele,
mas a atração é mais forte do que nunca. É como se ele tivesse
acionado um interruptor dentro de mim e eu não sei como desligá-
lo.

Ele não precisa saber, no entanto. Talvez eu não consiga


controlar como meu corpo responde a ele, mas posso controlar o
que faço sobre isso.

—Você me diz o que você quer. —Digo, forçando-me a


segurar seu olhar. —Eu trabalho para você, lembra? Então apenas
diga, e é seu.

Suas narinas se abrem ligeiramente. —Você não quer dizer


isso.
Ele segura a frente da minha camisa, e me puxa para ele, com
força. Eu inalo agudamente quando meus quadris batem contra suas
coxas musculosas.

—Eu sou um homem muito controlador, Quinn. —Ele diz


em um tom baixo.

—Mesmo? Eu não percebi. —Digo, com a intenção de soar


sarcástica. Em vez disso, pareço ofegante e um pouco desesperada.

—Você não viu esse lado meu, mas vou mostrar se você está
me pedindo.

—É assim que você gosta, não é? Você dá as ordens e envia


os cheques, e todo mundo faz exatamente o que você diz?

—Eu gosto disso sim. —Ele se inclina para que sua boca
fique apenas um centímetro acima da minha. Sinto seu hálito quente
em meus lábios e meu corpo se aquece em resposta.

Ele vai me beijar. Eu vou gostar. Mas ele não precisa saber
disso.

—Tira para mim. —Ele diz. —Tudo menos o seu sutiã.


Então, incline-se sobre o balcão da cozinha e me dê uma bela vista
da sua linda bunda.

Eu me forço a não deixar meu choque transparecer. —Tirar?

—Peço e é meu, certo? —Seus lábios se curvam em um leve


indício de um sorriso. Idiota. Ele quer me fazer engolir minhas
palavras. Não vai funcionar.

—Você conseguiu, chefe. —Digo, me soltando de seu


domínio.

Respiro fundo enquanto atravesso a grande cozinha até um


balcão a uma distância segura de Andrew.
Segura para ele ou segura para mim, não tenho certeza.

Eu brinco com a bainha da minha camisa, meu coração


disparado. E então percebo que pode não ser apenas Andrew me
observando agora.

—Existem câmeras aqui? —Pergunto.

—Não. Não neste ambiente.

—Onde, então? —Há uma nota de pânico na minha voz. —


No quarto?

Andrew sacode a cabeça. —Eu nunca faria isso com você.


Há câmeras em alguns cômodos, mas nada está sendo gravado
agora.

—Quando eles gravam?

—Só quando eu quero, o que é raro. Elas estão em ambientes


como o meu escritório e a sala de estar, nada particular. —Ele se
inclina contra o balcão, e posso jurar que quase o vejo sorrindo. —
Agora o meu show.

É só pele, eu me lembro. Estou apenas mostrando um pouco


de pele para o homem.

A menos que ele decida que ele quer mais...

Eu tiro minhas meias e puxo a camisa para cima por sobre a


minha cabeça. Se eu deveria provocá-lo, fazendo isso lento e sexy,
eu falhei. Mas ele parece estar apreciando a vista dos meus seios em
um sutiã turquesa rendado.

Meus olhos ficam fixos nele enquanto desabotoo meu jeans e


mexo meus quadris para abaixá-los. Seu olhar fica escuro e intenso,
e suas mãos seguram o balcão em frente a ele.

Com mais movimentos do que o necessário, tiro o jeans. Ele


é um homem muito controlador, como disse. Mas agora, sinto-me
com o poder. Seus olhos azul-escuros parecem estar me dizendo
que ele não poderia desviar o olhar se quisesse.

Eu dou-lhe um sorriso sensual e, em seguida, viro e balanço a


minha bunda um pouco enquanto deslizo a calcinha para baixo
lentamente. Eu ouço seu profundo suspiro quando alcanço minhas
coxas e as deixo cair no chão.

Curve-se, ele disse. Me dê uma bela vista. Eu me firmo com as


mãos no balcão e me inclino.

—Oh, merda. —Ele murmura baixinho. —Sim. Levante essa


bunda no ar para mim.

Eu posso sentir seu olhar na minha pele nua. Eu deveria estar


com frio enquanto fico aqui nua na cozinha, mas estou quente por
toda parte. Seus passos se aproximam e me faz tremer com
consciência.

—Tão sexy. —Ele diz atrás de mim. Ele toca uma única
ponta do dedo na minha espinha e desce, fazendo-me gemer
baixinho.

—Você não tem que admitir o quanto gosta, querida. —Ele


diz. —Eu já sei.

Estou tentando pensar em uma resposta sarcástica quando


sinto as pontas dos dedos na minha entrada molhada, deslizando
para frente e para trás. Eu solto um suspiro trêmulo porque
necessito. É bom demais para negar.

E tudo o que posso fazer é me segurar enquanto ele coloca


dois dedos dentro de mim, gemendo quando eles deslizam
facilmente. Ele está esfregando minha bunda com a outra mão.

Meu corpo não se importa com o quanto estou chateada com


ele ou se ele mentiu para mim ou até mesmo se ele é um cara legal.
Estou empurrando meus quadris para trás contra seus dedos, só
pensando em querer mais, mais e mais.

Quando ele se curva para a minha bunda e dá uma mordida


suave, seguida por um beijo, eu solto um longo e alto gemido
quando gozo em sua mão. É primitivo. Andrew pode manipular
meu corpo para satisfazer sua vontade, e nós dois sabemos disso.

Ele retarda os dedos, parando apenas quando meu corpo fica


mole contra o balcão. Ele pressiona um beijo suave no meu ombro.

—Você estava certa, querida. —Ele diz contra a minha pele.


—Eu amo te dar ordens. Vamos fazer isso de novo em breve.

Eu não posso olhar para ele agora. Eu sei o que vou ver no
rosto dele: vitória presunçosa e satisfeita.

E por que isso me irrita? Eu não posso negar que a vitória


dele pareça bem incrível. Mas nós dois sabemos que ele provou seu
ponto de vista: seu controle sobre mim não é apenas algo que eu
admito de má vontade. É algo que, às vezes, eu realmente anseio.
Quando Andrew olha para mim com luxúria em seus olhos, eu sou
impotente para lutar contra o que isso faz comigo.
CAPÍTULO DEZESSETE
Quinn

Os últimos dias me fizeram questionar muitas coisas.


Principalmente estou querendo saber o quanto de mim mesma estou
vendendo para Andrew.

Eu continuo me perguntando... Por que fico aqui quando


suspeito que ele armou o assalto só para poder ser o herói? É só
pelo dinheiro? Como eu sobrevivi mais de quatro anos nas ruas com
pouco mais do que um arranhão, só para baixar a guarda com tanta
força que eu poderia ter sido espancada até a morte ou estuprada
naquele beco? Eu já tinha essa fome sexual adormecida dentro de
mim, ou ele a criou?

Eu considero essas coisas e sempre volto a pensar em


Andrew. Ele me leva para a cama todas as noites, e nós aumentamos
um pouco nossas fronteiras a cada vez. Estou surpreendentemente
ansiosa para ele levar as coisas até o fim. Seu comportamento frio,
corpo poderoso e olhos azuis penetrantes me tocam. Estou sentindo
algo por ele.

Nunca achei que desenvolveria sentimentos por um homem


rico que exala tal poder e controle. Isso me lembra muito do
homem que estou fugindo.

“Você vai pagar por isso, sua putinha.” Sua risada maligna ressoa.
“Corra o quanto quiser. Não há como escapar de mim.”

Estou sentada na biblioteca de Andrew, perdida em


pensamentos, em vez do livro aberto no colo, quando ouço vozes
masculinas na outra sala.
Levanto-me e ando para lá e encontro Steve, o segurança,
conversando com um homem de jeans e camiseta. —Tudo bem? —
Steve me pergunta.

—Sim, estou bem.

Eu ando até a cozinha para pegar água. Turner está lá,


cortando legumes para o jantar que está fazendo.

—Como você está, menina? —Ela pergunta.

—Muito bem. —Sento em uma banqueta alta do balcão de


café da manhã e abro a minha água. —E você?

—Não posso reclamar. —Ela diz com um sorriso. —Meu


bebê vai se formar no ensino médio em breve. Estou no modo
planejadora de festa.

—Isso é ótimo. Filho ou filha?

—Filha. Jaqueline. Eu também tenho dois meninos, mas eles


são mais jovens.

—Ela está se formando nesta época do ano?

Turner sorri. —Um semestre adiantado. Começando na


NYU no próximo semestre.

—Uau. Você deve estar tão orgulhosa dela.

—Com certeza estou.

—Então... precisa de ajuda com isso? Sou muito boa com


uma faca.

Não que eu tenha usado muito o tipo que ela está usando,
mas ainda assim. Estou ansiosa para passar um tempo com ela.
Turner está bem e feliz. Ela é o tipo de mãe que eu queria ter.
Ela me passa uma tábua de cortar, uma faca e algumas
cenouras, e eu começo a trabalhar. Posso ouvir Steve conversando
com o cara na outra sala sobre algum tipo de trabalho de instalação.

—O que ele está fazendo? —Pergunto a Turner em um tom


baixo.

Ela dá de ombros. —Algum tipo de instalação de fios, eu


acho.

Estamos fazendo um ensopado de legumes e está começando


a cheirar muito bem quando terminamos de limpar e Turner coloca
o casaco e pega a bolsa.

—Vejo você amanhã. —Ela diz, dando-me uma piscada


enquanto se dirige para a porta da frente.

—Oi. —O cara da instalação diz para mim com um aceno.


Parece que ele tem vinte e poucos anos. Ele é loiro e em forma, com
tatuagens nos braços.

—Oi.

—Você por acaso sabe onde fica a sala de servidores neste


lugar?

—Servidor? Eu não faço ideia.

—Tudo bem. Eu posso esperar até que Andrew chegue em


casa. —Seu olhar fixa no meu. —Eu sou Greg, a propósito.

—Prazer em conhecê-lo. —Eu sorrio, mas não lhe digo meu


nome. Velhos hábitos são difíceis de esquecer.

Ouço passos atrás de mim e, quando me viro, vejo Andrew.


Ele está soltando a gravata e me dando um olhar que
definitivamente não é feliz. Ele passa por mim sem dizer uma
palavra.
—Como está indo, Greg? —Ele pergunta na defensiva.

—Estou pronto para o dia. Preciso entrar em sua sala de


servidores amanhã.

—Não é acessível. Se você me der instruções, posso lidar


com o trabalho lá dentro.

Greg franze a testa. —Não é acessível? Como você vai


chegar, então?

—Quero dizer, não é acessível a você. Ninguém além de mim


entra lá.

—Ahh... Ok. Eu posso tentar escrever algumas instruções.

—Seja o que for, não será um problema. Eu tenho um


diploma em engenharia da computação.

Greg faz que sim com a cabeça e arruma suas ferramentas.


—Tudo bem, cara. Volto amanhã.

—Fale com a segurança novamente.

—Entendi.

Greg sai e Andrew volta para a cozinha.

—Você está sendo bastante amigável hoje à noite. —Ele diz,


encontrando meus olhos.

Eu dou de ombros. —Apenas sendo legal.

—Você não é tão legal comigo.

Não posso deixar de lhe dar um olhar de reprovação. —Eu


engulo seu pau seguindo sua ordem. O que é melhor do que isso,
Andrew?

Dentro de segundos, ele está na minha frente, sua grande e


imponente presença me fazendo querer dar um passo para trás. Ele
segura meus ombros, seu olhar me queimando com intensidade. Nas
ruas, esse momento é quando eu o empurro para longe e tiro minha
faca.

—Ele gastou milhares de dólares em roupas novas para você?


—Andrew exige. —Ele lhe daria tudo o que pedisse?

Eu o interrompo. —Eu não te pedi nada.

—É você quem perde, Quinn, porque eu faria acontecer.


Não acredito que você tenha a audácia de sorrir para outro homem
assim.

Suas mãos enormes em mim me fazem sentir fria e quente ao


mesmo tempo. Eu seguro seu olhar, porque não vou recuar.

—Eu sorri. Pare de ser tão idiota em relação a isso.

Ele se inclina, estreitando os olhos. —Você não sorri para


mim assim. Por que diabos não? É a aparência dele? Os loiros te
deixam molhada?

Eu estreito meus olhos em troca. —Não. É porque ele olhou


para mim como se eu fosse uma pessoa em vez de uma coisa.

O silêncio paira entre nós por alguns segundos. Ele me solta,


dor em seus olhos.

—Isto é o que você pensa? Você acha que é uma coisa para
mim?

—Às vezes. Eu não sei, Andrew. Eu estou na sua folha de


pagamento.

Ele estreita os olhos. —E isso significa que eu não me


importo com você?

—Eu não sei o que isso significa. Eu não te entendo.


—O sentimento é mútuo.

Este é o Andrew sobre o qual não tenho controle. Quando


ele é assim, ele é o chefe. Eu quero fazê-lo sorrir, mesmo agora. Eu
quero fazê-lo gemer de prazer. Eu quero o seu corpo nu e quente
envolvido protetoramente ao meu quando ele beija meu ombro. É
nessas horas que eu sou a responsável.

Ele desvia o olhar e passa a mão pelo cabelo grosso e escuro.


Está ficando um pouco bagunçado, lembrando-me do jeito que
parece quando acordamos de manhã.

—Você quer jantar? —Ele pergunta.

—Ok.

Comemos em um silêncio tenso e ele nem reclama quando


lavo a louça. Então ele desaparece em seu escritório em casa pela
noite e, mais uma vez, estou sozinha.
CAPÍTULO DEZOITO
Andrew

A testa de Dawson está franzida quando ele para na porta


aberta do meu escritório em casa na manhã do Dia de Ação de
Graças. —Meu código da porta não funciona mais. —Ele diz
brevemente.

—Sim. —Digo distraidamente. —Os seguranças redefiniram


tudo depois que Quinn foi atacada.

—Vou precisar de um novo código.

Eu olho para cima da minha mesa. Ele está encostado no


batente da porta com os braços cruzados. Ele parece meio desligado
ultimamente, mas não consigo entender o porquê.

—Ninguém vai receber códigos por enquanto. Minha equipe


de segurança tem alguém na frente o tempo todo, para que eles
deixem você entrar.

Ele sacode a cabeça quase imperceptivelmente. —Estou


bloqueado agora?

—Todo mundo está.

—Mesmo Quinn?

—Por agora. É pela segurança dela. Ela sempre tem um


guarda costas com ela quando sai, de qualquer maneira, então eles
garantem que ela volte para dentro com segurança.

Dawson entra, fechando a porta atrás de si e sentando-se na


poltrona de couro em frente à minha mesa.
—Você não confia em mim? —Ele pergunta.

—Não é sobre confiança. —Dobro a carta que estava


escrevendo e coloco em um envelope. —É sobre segurança. Se
Quinn está aqui, eu preciso saber que ninguém pode entrar sem
passar pela segurança.

—Ela deve ter aperfeiçoado algumas habilidades sérias nas


ruas. —Dawson murmura.

—O que diabos isso quer dizer?

Ele dá de ombros. —Eu nunca vi você assim por uma


mulher. Eu não entendo. Tem que ser o jeito que ela chupa seu pau.

Sento-me mais para a frente na minha cadeira, tentando


controlar a raiva que quer me impulsionar pela mesa agora mesmo.
—Eu não te pago para especular sobre qualquer aspecto da minha
vida. —Digo em um tom controlado. —Você é meu assistente. Faça
seu maldito trabalho e mantenha sua boca fechada. Estamos claros?

—Claro. —Ele diz timidamente. —Peço desculpas.

Eu estreito meus olhos para ele. —Não seja um babaca com


a Quinn, Dawson. Eu vou chutar sua bunda tão rápido que você
não vai saber o que te atingiu. Trate-a como uma rainha. O mesmo
vale para o cachorro.

—O cachorro?

—É o que está em um hospital veterinário agora, mas ela vai


ficar com ele. Ela estava tentando ajudar o cachorro quando foi
atacada, e disse que ele acabou salvando-a.

Há um segundo de silêncio antes que ele diga: —Tudo bem.


Eu posso pegar alguns suprimentos para cães agora.

Abro uma das gavetas da minha escrivaninha e alcanço um


envelope de dinheiro, tirando cinco notas de cem dólares e
adicionando-as no envelope com a carta.

—Hoje não. —Digo. —É feriado. Tire amanhã e o fim de


semana de folga também. Há apenas uma coisa que gostaria que
você fizesse hoje de manhã.

—Claro.

Deslizo o envelope com a carta e o dinheiro na minha mesa


e, em seguida, entrego-lhe um cartão de visita. —Meu segurança,
Steve, pegou esse cartão do cara que ajudou Quinn no outro dia. Eu
preciso que você ligue para ele e entregue isso.

Dawson pega o envelope e acena com a cabeça. —Eu vou


cuidar disso.

Ele sai sem outra palavra. Eu olho para o meu relógio e


suspiro profundamente. Hora de ir para a casa da minha mãe. As
coisas já estão tensas entre Quinn e eu, e isso não vai ajudar. Mas é
feriado, então tenho que engolir isso.

Quinn está lendo algo em seu telefone e sorrindo quando


entro na cozinha. Ela parece tão bonita com o cabelo solto em volta
dos ombros. Algo dentro de mim muda, e percebo que preciso que
as coisas fiquem boas entre nós novamente. Eu não quero apenas
vê-la sorrindo. Eu quero fazê-la sorrir.

—Acabei de falar com uma pessoa no hospital veterinário. —


Ela diz. —O cão pode voltar para casa amanhã.

—Isso é bom. Eu dei a Roy o dia de folga, então vou levá-la


para pegá-lo.

Ela balança a cabeça silenciosamente.

—Como foi no abrigo ontem? —Pergunto, servindo-me uma


xícara de café da máquina em cima do balcão.
Eu trabalhei até tão tarde na noite passada que Quinn já
estava dormindo quando cheguei em casa.

—Foi bom. —Ela enfia o cabelo loiro atrás de uma orelha.


—Ei, posso te fazer uma pergunta?

—Sim.

—Como você conseguiu essa carteira de motorista falsa? E


certidão de nascimento? Havia até um passaporte naquele envelope.
Como isso é possível?

—Eu tenho conexões.

—Sim, mas são... legais?

—Ah... não exatamente. Mas eu te dei o que você precisava,


não é?

—Sim. Mas... —Ela olha para longe.

—O quê?

Ela suspira suavemente e olha para mim. —Foram as


mesmas pessoas que ajudaram você a pegar a bolsa?

—A bolsa?

Sua expressão é exasperada. —Como você poderia ter


conseguido minha bolsa de volta se você não soubesse quem a
pegou?

Eu olho para o meu relógio de pulso. —Podemos conversar


sobre isso no caminho?

—Claro.

—Você parece muito bem, a propósito.

Ela está usando um vestido laranja escuro com uma meia


calça marrom e botas altas de couro marrom. Mesmo toda coberta,
ela parece sexy.

—Obrigada. Eu escolhi isso sozinha.

—Você sabe, eu enviei Dawson com você para as primeiras


compras porque imaginei que você ficaria sobrecarregada. Mas você
não precisa mais dele. Vou dizer a ele para recuar.

—Eu aprecio isso.

Eu pego nossos casacos dos ganchos pendurados na cozinha


e entrego o dela. Então lidero o caminho para o elevador e fico de
lado enquanto ela continua. Estar tão perto dela me faz querer mais
do que o normal. Quando deslizo meu braço ao redor de sua
cintura, sinto-a tensa.

—O que há de errado?

—Eu quero terminar nossa conversa. Sobre a minha bolsa.

Eu tiro minha mão da cintura dela. —Como eu disse, tenho


conexões. E uma das razões pelas quais as tenho é porque
mantenho as relações confidenciais. Por que você não pode confiar
em mim? Eu nunca fiz nada além de cuidar de você.

As portas do elevador se abrem e nós saímos. Eu me viro


para Quinn, minha voz ecoando levemente na garagem subterrânea.

—Eu confio em você. —Eu a lembro. —Não sei quase nada


sobre você, e o que sei pode ser interpretado como incriminador.
Você não pode ter identificação, não me diz seu nome verdadeiro e
está paranoica por alguém tirar fotos nossas que poderiam ser
publicadas. Pelo que sei, posso estar abrigando uma fugitiva. Mas
vejo algo em seus olhos, Quinn, e ouço algo em sua voz, e isso me
diz para confiar em você. Meus instintos nunca estão errados. O que
seus instintos lhe dizem sobre mim?
Seu sorriso é suave e relaxado. —Que você não é uma pessoa
ruim e quer que eu seja feliz aqui. Que você mantém todos a
distância e não apenas eu.

—Isso é verdade. Você estava tão chateada com as cartas, e


eu só queria recuperá-las para você.

Ela balança a cabeça. —E eu nunca lhe agradeci.

—Você gritou comigo e me chamou de idiota. —Digo,


dando de ombros. —Perto o suficiente.

—Eu não deveria ter acusado você de planejar o assalto.


Acho que nunca considerei que poderia haver uma boa razão para
você não querer que eu soubesse como conseguiu minha bolsa de
volta.

Eu me aproximo para acariciar meu polegar em sua


mandíbula. —Eu preciso me desculpar por ser um idiota com
você. Eu às vezes não lido bem com a frustração.

—Às vezes? —Ela me dá um sorriso divertido.

Eu me inclino para beijar sua testa. —Isso mesmo, às vezes.


E você é do mesmo jeito.

—Eu?

Eu levanto o queixo para cima com o polegar, provocando


uma discussão diferente com um beijo. Quinn segura os lados do
meu casaco, puxando-os enquanto a beijo mais profundamente. Eu
posso sentir a diferença neste beijo e aqueles que compartilhamos
quando ela estava com raiva de mim. Eu senti seu desejo por mim
então, mas tudo era físico. Ela está se abrindo de volta para mim, e
eu gostaria que pudéssemos passar esse dia sozinhos.

Minha mãe está esperando, no entanto. Relutantemente, eu


me afasto de Quinn. —Precisamos ir. —Ela diz.
—Sim.

Quero que ela saiba o que está fazendo enquanto nos


dirigimos para a cobertura da minha mãe. —Então, o Dia de Ação
de Graças na casa da minha mãe é cheio... de exagero. —Digo.

—Exagero? —Ela se vira para mim com um olhar


interrogativo.

—Como guardanapos de pano e taças de cristal. Não é como


as comemorações de ações de graça que você vê na TV, com
famílias grandes se abraçando e jogando jogos de tabuleiro enquanto
comem torta na vasilha.

—Estou cancelando mentalmente meu plano de abraçar sua


mãe e tirar um Yahtzee3 da minha bolsa.

Minha risada contém uma nota de tensão. —Eu acho que


você conheceu minha mãe, então sabe que ela não é muito calorosa.

—Minha mãe também não é.

—Diga-me algo sobre sua mãe.

Ela considera por alguns segundos antes de responder. —Ela


vê o que ela quer ver. Como quando meu pai estava morrendo, ela
se recusou a acreditar que ele não sobreviveria, mesmo no final,
quando os médicos disseram que não havia esperança.

—Isso foi difícil para você. —Posso dizer por sua expressão
desolada.

—Sim. Eu era apenas uma criança e meu pai me disse seus


últimos desejos, porque minha mãe se recusou a ouvir.

O tráfego está intenso na cidade devido ao grande desfile de


Ação de Graças. Teremos uma longa viagem até a casa da minha
3
Um tipo de jogo de dados.
mãe. Fico feliz pelo tempo a sós com Quinn.

—Por mais difícil que tenha sido perder meu pai como perdi,
sem aviso, não posso imaginar como teria sido se soubesse que ele
iria morrer.

—Árduo. —Ela diz suavemente. —Doloroso. Mas agradeço


por ter tido essas conversas com ele no final. Acho que me ajudou
quando ele faleceu.

Minha garganta está apertada com a emoção. Eu a limpo


antes de falar novamente.

—Eu às vezes ainda sonho em falar com meu pai. Foi assim
o tempo todo quando eu era criança. Eu desistiria de tudo o que
tenho por apenas mais cinco minutos com ele.

—Ele ficaria orgulhoso de você. —Ela diz suavemente.

Eu respiro fundo e avanço lentamente na longa fila de carros.


—Conte-me sobre uma boa memória com sua mãe.

Quinn sorri e inclina a cabeça para trás contra o encosto de


cabeça. —Nós costumávamos fazer biscoitos juntas. Eu amava isso.
E você, alguma lembrança feliz com sua mãe?

—Sim, muitas. Eu era tudo que ela tinha depois que meu pai
morreu. Ela nunca teve qualquer interesse em se casar novamente.
Nós costumávamos ir a Martha's Vineyard todo verão e passar duas
semanas sem fazer nada. Apenas assistindo filmes, passeando e
comendo fora.

—É difícil para mim imaginar sua mãe relaxando.

Eu dou risada disso. —Sim, eu sei.

O tráfego finalmente anda, e chegamos à cobertura da minha


mãe. Estou planejando manter Quinn ao meu lado o dia todo para
que ela não acabe sendo questionada pela minha mãe.

Eu estaciono na garagem e Quinn pega minha mão no


elevador. Ela está nervosa. Eu também.

Eu nunca trouxe uma mulher para casa assim.

Eu introduzo o código no apartamento da minha mãe, que


configurei com um sistema de segurança como o meu. Entramos e
encontramos a amiga de mamãe, Gloria, e dois outros casais
bebendo vinho branco com mamãe na sala principal.

—Andrew. —Mamãe diz, vindo me dar um abraço. —E


você trouxe sua amiga. —Ela se vira para olhar para Quinn. —Meu
Deus, o que aconteceu?

—Ela foi assaltada. —Digo, envolvendo um braço na cintura


de Quinn.

—Assaltada? —Minha mãe me dá um olhar horrorizado.

—Ela está bem. —Ansiando por uma mudança de assunto,


eu apresento Quinn aos amigos da minha mãe, e todos lhe dão uma
recepção calorosa.

—Junte-se a nós. —Gloria diz, seguindo para o final do sofá


em que está sentada sozinha. —Andrew, pegue uma bebida para a
garota, sim? —Mamãe diz.

Hesito apenas um segundo antes de ir para a cozinha,


praticamente correndo para chegar lá e voltar o mais rápido que
posso. Pego duas taças de vinho branco da garrafa aberta no balcão,
embora prefira bourbon.

Quando volto para a sala, fico quieto e minha mãe está


olhando para Quinn com expectativa.

—De Des Moines. —Quinn diz. —Eu comecei a escola na


Universidade de Iowa, mas desisti depois do meu segundo ano para
me mudar para cá.

—E perseguir o quê? —Minha mãe pergunta.

Eu limpo minha garganta e sento-me ao lado de Quinn,


entregando-lhe uma das taças na minha mão. —Algum tipo de
trabalho sem fins lucrativos, eu acho. —Quinn diz, tomando um
gole da taça.

—Trabalho sem fins lucrativos? —O olhar de desgosto de


minha mãe é quase cômico.

—Então, como você tem estado, mãe? —Pergunto,


descansando a mão no joelho de Quinn.

—Estou bem, querido.

—Se vocês nos derem licença. —Digo ao grupo. —Quero


levar Quinn para assistir ao desfile pelas janelas da varanda enquanto
ele ainda está acontecendo. Nós voltaremos.

Ela me deixa ajudá-la com uma mão, e eu a conduzo pelo


apartamento até as portas francesas que se abrem para uma varanda.
Está frio demais para ficar do lado de fora, mas aponto o desfile
através do vidro nas portas e Quinn sorri.

—Eu nunca perdi um nos anos em que estive aqui. —Ela


diz. —Nós sempre encontramos um bom lugar para assistir.

—Então você é de Iowa?

Ela balança a cabeça e bebe o vinho. —Humm-hmm.

—Você não tem sotaque do centro-oeste americano.

—Humm.

Quinn se vira e olha o apartamento, decorado em tons suaves


de creme e rosa. A minha mãe tem alguns dos vasos que adquiriu
enquanto viajava expostos em um móvel de vidro, mas seu
apartamento é projetado principalmente para mostrar sua arte. Ela é
uma apaixonada colecionadora de pinturas.

—Então foi aqui que você cresceu? —Ela pergunta.

—Não, nós tínhamos um imóvel no Upper East Side. Mamãe


se mudou para cá quando eu estava na NYU.

Eu não consigo parar de olhar para as pernas de Quinn


naquelas meias marrom-escuras. Por trás da minha expressão
educada, estou tendo pensamentos sujos sobre o quanto eu gostaria
de arrancá-las para que eu possa sentir sua pele suave e macia.

—Eu tinha que dizer algo a ela. —Quinn diz suavemente. —


Eu percebi que Iowa era um lugar tão bom quanto qualquer outro.

Sua expressão é sombria e odeio a vergonha que vejo lá. Eu


coloco meus braços em volta dela e a puxo contra o meu peito.

—Eu não me importo com o que ela pensa. —Digo, falando


suavemente em seu ouvido. —Você não precisa ser ninguém além
de quem você é.

Eu sinto sua única nota de risada contra o meu peito. —Eu


nem sei mais quem é essa.

—Você é corajosa. Fiel. Forte. Linda.

Ela olha para mim melancolicamente. —Eu não pertenço


aqui, nos braços de um homem rico que se formou no MIT. Eu sou
uma desistente do ensino médio. Eu costumava vasculhar lixeiras e
comer lixo. —Sua voz é quase um sussurro, e cheia de emoção.

—Você é a mulher mais incrível com quem já estive. —Digo,


afastando o cabelo do rosto. —Nunca duvide de si mesma. Você é
uma sobrevivente.
—Eu sou? É realmente sobrevivência se você se coloca em
uma situação estúpida na qual nem precisava estar?

Eu pego a mão dela e a conduzo pelo apartamento até o


quarto de hóspedes, fechando a porta atrás de nós.

Há um pequeno sofá na frente de uma lareira e eu me sento,


virando-me para ela enquanto ela senta-se ao meu lado.

—Não há nada estúpido em você, Quinn. —Digo. —De


onde vem essa dúvida?

Ela suspira profundamente. —Eu sinto falta de Bethy. E eu


não consigo parar de pensar se falhei com ela de alguma forma. Não
frequento a escola desde os dezesseis anos, mas ela tinha onze anos,
Andrew. Onze. Há tanto que ela perdeu. E o resto da vida dela? Ela
nem sequer começou o ensino médio.

—Por que você deixou sua vida?

Ela franze a testa e olha para o outro lado. —Pensei que


fosse por um bom motivo, mas agora me pergunto se não estava
errada. Eu simplesmente não senti como se tivesse outras escolhas.
Eu estava desesperada.

Eu pressiono nossos dedos juntos e seguro seu olhar. —Eu


sei que você tem medo de confiar em mim, mas se eu soubesse
todas as suas verdades, eu as manteria trancadas para sempre.

Seu sorriso vai até seus olhos. —Você é muito mais do que
eu esperava.

—Você também.

Eu coloco uma mão nas costas dela para puxá-la para perto,
inclinando-me ao mesmo tempo. Eu a beijo lentamente no começo,
mas logo não posso me segurar. Eu seguro seus quadris e deslizo-a
para o meu colo, minha língua roçando a dela enquanto a puxo
contra mim.

—Vamos fazer uma viagem. —Digo contra seu pescoço


enquanto a beijo. —Qualquer lugar do mundo. Vou largar tudo para
ir. Apenas me diga onde.

—Qualquer lugar. —Ela diz. —Eu iria a qualquer lugar com


você.

Eu deslizo a mão em seu cabelo e beijo-a com força,


desejando que diabos não estivéssemos na casa da minha mãe. Eu
quero estar mais perto de Quinn agora. Eu quero afugentar todas as
suas dúvidas e tristezas e apenas me divertir com o que ela me faz
sentir. Tão vivo. Eu nunca me senti tão vivo.

—Eu não me importo com as suas razões para deixar sua


vida antiga. —Digo, segurando-a firmemente contra mim. —Nada
disso importa para mim. Só você importa. Eu vou te proteger de
tudo e qualquer coisa, Quinn.

Ela desliza as mãos em volta do meu pescoço e me beija,


gemendo baixinho na minha boca. Eu quero possuí-la neste
momento, fazer cada centímetro dela uma parte de mim.

Uma batida aguda soa na porta e nós dois viramos quando


ela se abre.

—Oh. —Minha mãe diz, parecendo escandalizada e chateada


ao mesmo tempo. —O que é isso? Você passa dez segundos com
nossos convidados e depois se esgueira para uma sessão de amasso?

—Ah... não foi intencional. —Digo. Ela me dá um olhar


cético.

—Nós estaremos de volta, prometo. —Sorrio para ela. —


Quase terminando o amasso.

Ela fecha a porta e eu aperto a bunda de Quinn, gemendo


baixinho enquanto minha ereção pressiona contra ela. —Pare, ela
pode ouvi-lo. —Quinn sussurra freneticamente no meu ouvido.

—Eu não escondo meus sentimentos. —Beijo o pescoço


dela novamente.

Ela escorrega do meu colo e caminha até o espelho para


ajeitar o cabelo e arrumar suas roupas.

—Você prefere estar lá do que aqui? —Pergunto, me


ajustando enquanto me levanto.

—Não, mas podemos cuidar disso mais tarde.

—Nós definitivamente vamos. —Eu me aproximo dela por


trás e envolvo meus braços ao redor dela, segurando um dos seus
seios e lembrando-a novamente que eu tenho uma furiosa ereção
por ela.

—Vamos. —Ela diz com um tom alegre em sua voz.

Mamãe e suas amigas estão passando bandejas de canapés


quando entramos na cozinha. —O almoço será servido em cerca de
dez minutos. —Minha mãe diz.

Ela sempre faz seu cozinheiro preparar os acompanhamentos


com antecedência, e ela os aquece e prepara o peru. Eu pego as
luvas de forno e tomo um prato de caçarola de batata doce dela
quando ela a retira do forno.

—Sala de jantar? —Pergunto.

—Sim, por favor.

—Avise-me se eu puder ajudar. —Quinn oferece.

Minha mãe não responde. —Mãe. —Digo com firmeza.

—Humm? Oh, eu acho que nós temos tudo sob controle. —


Ela diz para Quinn.

Dou a minha mãe um olhar penetrante e levo a caçarola para


a sala de jantar. Sua mesa é do tamanho de um campo de futebol, e
está decorada com uma toalha de mesa de linho e guardanapos,
centros de mesa florais e porcelana. A música clássica está tocando
no sistema de som do apartamento.

Quando volto para a cozinha, Gloria está sacudindo a cabeça


e olhando para Quinn. —Eu não sei o que é. —Ela diz. —Mas você
é tão familiar para mim.

Quinn dá de ombros e sorri. —Talvez você tenha me visto


pela cidade.

Gloria junta as sobrancelhas. —Você já estagiou na MAC?

—Não, eu não.

—E você nunca foi para a NYU?

Quinn balança a cabeça. —Apenas a Universidade de Iowa.

—Você já trabalhou no Centro de Filhos Sequestrados?


Estou no conselho lá.

A cor drena das bochechas de Quinn. Ela limpa a garganta.


—Não, eu tenho certeza que não.

Eu vou para Quinn e a envolvo em meus braços. Eu posso


sentir a tensão em seu corpo. —Vamos cortar essa ave. —Digo.

Eu esfrego uma palma nas costas dela e pego a bandeja na


qual minha mãe colocou o peru dourado. Ela deixa a faca na mesa e
eu começo a trabalhar. Quinn se inclina contra a parede da sala de
jantar, ainda parecendo abalada.

—Você está bem? —Pergunto em um tom baixo. Ela balança


a cabeça silenciosamente.
—Você quer fazer algumas compras amanhã? —Pergunto.
—Talvez mandar alguns presentes pelo correio para uma certa
pessoa?

—Isso seria bom. —Ela diz, sorrindo fracamente.

—Nada como o dia depois do Dia de Ação de Graças na


cidade. Eu vou enfrentá-lo para você. —Eu pego um pedaço do
peru e coloco na boca dela. —Bom?

—É muito bom.

—Quando você cozinha apenas uma coisa, você fica


realmente bom nisso. —Digo com um sorriso irônico.

—Eu ouvi isso. —Minha mãe diz da cozinha.

Dirijo a conversa do almoço para tópicos mundanos como a


economia e o prefeito de nossa cidade, certificando-me de que nada
aconteça para deixar Quinn desconfortável. Ficamos por algumas
horas depois da refeição e depois anunciamos a partida.

Nós nos despedimos, e posso sentir Quinn relaxar enquanto


entramos no elevador da cobertura. Eu sei que ela quer manter seus
segredos, mas não posso ficar em silêncio sobre isso.

—Gloria mencionou o Centro de Filhos Sequestrados e isso


deu-lhe um susto. —Digo. Seu suspiro é todo o reconhecimento
que recebo.

—Ei. —Digo baixinho. Ela se vira para mim. —Você foi


sequestrada, Quinn? É disso que você e sua irmã estão fugindo?

Os horrores que ela pode ter passado estão voando pela


minha cabeça. A raiva que queima me consumindo agora é ainda
pior do que eu senti pelos homens que a atacaram.

Ela balança a cabeça e me dá um sorriso triste.


—Não. Eu não fui a que foi sequestrada. Eu fui a
sequestradora.
CAPÍTULO DEZENOVE
Andrew

—A sequestradora? O que você quer dizer com isso?

Quinn engole em seco e olha para o chão do elevador. —Eu


peguei minha irmã. Eu a levei para longe de nossa casa.

Sua voz é tão suave que mal posso ouvi-la, mas não há
dúvidas sobre a angústia ali.

As portas do elevador se abrem para a garagem do prédio da


minha mãe. Um casal de adolescentes está ali esperando. Eu pego a
mão de Quinn e aperto enquanto caminhamos para o meu Land
Rover. Assim que nós dois estamos dentro, eu me viro para ela.

—Por que você a levou?

Ela está olhando para o seu colo. —Eu estava a tirando de


uma situação ruim. Ou... potencialmente ruim. É... difícil falar sobre
isso.

Sua voz está tremendo junto com as mãos. Eu coloco minha


mão na coxa dela. —Lembra o que eu disse? Você tem meu apoio.
Sempre, Quinn.

—Obrigada.

—É Paul, não é? —Digo gentilmente.

Sua cabeça se ergue e ela me lança um olhar horrorizado. —


Como você sabe?

—Você diz o nome dele quando está tendo pesadelos.


Lágrimas surgem nos olhos dela. —Por que você não me
contou?

—Eu não achei que você queria que eu soubesse.

Ela coloca as mãos sobre o rosto e chora baixinho. Agora


sou eu quem está horrorizado. —Ei não... Quinn... não, não, não.
Por favor, não chore.

O choro se transforma em grandes soluços. Eu congelo por


um segundo, me perguntando o que fazer. Devo deixá-la chorar ou
confortá-la? O som dela com dor é muito difícil de ignorar, então eu
me aproximo e a puxo para os meus braços.

—Eu não tenho... ouvido ninguém... dizer o nome dele... em


muito tempo. —Ela diz através de seus soluços. —Faz tanto tempo.

—Eu sinto muito, linda. Eu não queria chatear você.

Ela apenas chora contra o meu peito por alguns minutos,


agarrada às minhas costas, como se sua vida dependesse de se
segurar. Eu poderia chorar, vendo-a sofrer tanto. Quinn é tão forte
que não sei como ajudá-la quando ela está desmoronando.

Quando ela se afasta, seus olhos estão vermelhos e inchados.


Ela tem rímel manchado no rosto. Eu passo um lenço e ela sorri.

—Obrigada. Eu sou péssima com essas coisas, hein?

—Quem é Paul, Quinn? Como ele te machucou?

—Eu não posso falar sobre isso. Tudo o que eu já te disse é


mais do que já quis que alguém soubesse.

Eu me mudo no meu lugar, me sentindo como um animal


enjaulado. —E se eu pudesse te ajudar? Quem ele é, o que ele fez, se
ele está atrás de você... posso cuidar disso.

—Cuidar disso? O que isso significa?


—Isso significa que qualquer um que te machucar está no
topo da merda da minha lista. Você está chateada e eu quero cuidar
disso.

Ela olha pelo para-brisa para a parede de concreto. —Não é


tão simples assim, Andrew.

—Pode ser. Quando eu coloco minha mente em algo, faço


acontecer.

—O que, você quer dizer, como matá-lo?

—Se isso for preciso.

Ela exala profundamente. —Nós não deveríamos nem estar


falando sobre isso. Podemos apenas ir para casa?

—Claro. —Eu ligo o carro e olho por cima do ombro para


sair do estacionamento.

Eu não consigo parar de pensar em Quinn quando


adolescente, levando sua irmãzinha pelas ruas de New York para se
esconder de quem é esse tal de Paul. Foi um movimento corajoso.
Minha admiração por ela fica ainda maior.

Com meus recursos, posso descobrir quem ela é e quem é


esse Paul em questão de um dia. Sinto uma vontade ardente de fazer
isso para ter certeza de que Paul saiba que sua vida depende de
nunca mais chegar perto de Quinn ou de Bethy.

Eu tenho uma escolha impossível de fazer: proteger a mulher


pela qual estou me apaixonando ou manter sua confiança em mim.
Eu quero tanto as duas coisas que posso vê-las me consumindo.

***
Quinn

Eu dormi tão profundamente nos braços de Andrew na noite


passada. Nós assistimos filmes durante toda a tarde e à noite, e
então ele fez a magia no seu quarto em mim duas vezes: uma com a
boca e outra com os dedos. Senti o estresse do dia se dissipar
enquanto eu fui ao êxtase duas vezes.

Hoje de manhã, o cheiro de bacon e café faz com que eu


entre na cozinha. Andrew ergue o seu olhar do fogão e eu me
aproximo dele com um sorriso, envolvendo meus braços em torno
dele por trás.

—Você realmente sabe como cuidar de uma garota. —Digo,


pressionando minha bochecha em suas costas firmes.

Ele abaixa a espátula e se vira, me abraçando. —Obrigado


por me deixar cuidar de você. Eu sei que é difícil para alguém tão
independente.

—Isto é. Mas é bom.

Eu estico as mãos e envolvo sua bochecha com barba


cerrada, em seguida, levanto na ponta dos pés para beijá-lo. Ele tem
gosto de café. —Nós vamos pegar o cachorro? —Ele pergunta
quando eu me afasto. —Ou fazer compras primeiro?

—Vamos comprar primeiro, então não precisamos deixá-lo


aqui sozinho.

Andrew corta um pedaço de bacon do prato ao lado do


fogão e coloca na boca. Ele mistura alguns ovos e os coloca em uma
tigela grande.
—O que você quer dar para Bethy de Natal? —Pergunta ele.

—Eu não sei... talvez um pouco de caramelo do lugar que


sempre gostamos do cheiro. E alguns livros.

—Que tal um carro?

Eu olho para cima, desviando o olhar da xícara de café que


estou servindo e ela acidentalmente transborda. —Um carro? Ela
nem sabe dirigir.

—Ela não vai aprender?

—Eu não sei. Ela não está na escola. Talvez Bean vá ensiná-
la. Mas um carro é... muito.

—Ela gostaria?

—Oh, Andrew. —Eu dou risada enquanto limpo o café que


derramei no balcão. —É perigoso esse ser o seu único critério.

—Só quando se trata de você. E sua irmã.

Estou muito apegada a esse homem complexo, atencioso,


doce, sexy e controlador. Eu já não consigo imaginar a vida sem ele.

—Nada de carro. —Digo. —Mas obrigado por oferecer.

—Telefone celular. Então vocês podem conversar.

Eu concordo. —Eu adoraria isso. Mas eu me preocupo com


ele sendo rastreado.

—Eu posso cuidar disso.

Eu arqueio uma sobrancelha para ele. —Do que você não pode
cuidar?

—Quem iria rastrear, afinal? Você está segura aqui.


—Ela não está realmente rastreável agora. Acho que eu ainda
estou, no entanto. —Eu me inclino contra o balcão da cozinha e
tomo meu café. —Quando chegamos aqui, nós tínhamos algumas
centenas de dólares que economizei. Acabou rápido. Ficamos com
fome depois disso e fomos para uma sopa comunitária. Nós
estávamos na fila, e olhei e vi um cartaz de crianças desaparecidas
com nossas fotos nele. Isso me assustou até a morte. Eu agarrei-a e
corremos. É por isso que tive medo de ir a um abrigo ou a uma sopa
comunitária depois disso.

—Droga. Eu realmente não posso imaginar, Quinn. O que


você passou.

—Eu me preocupava a cada dia que eles nos encontrassem e


me mandassem para a cadeia e ela de volta para casa. Esse era o meu
pesadelo.

—Você era menor de idade, no entanto. Eu não sei se você


pode ser acusada de um crime.

Eu suspiro profundamente. —Eu não me importo com isso


tanto quanto eu me importo em mantê-la segura. Ela terá dezoito
anos daqui dois anos e eu tenho que mantê-la a salvo até lá.

—Eu posso conseguir um telefone que não seja rastreável.


Vocês podem conversar todos os dias.

Só o pensamento traz um nó na minha garganta. —Se for


possível... Eu adoraria isso.

—Talvez um laptop também? Ela gostaria disso?

—Tenho certeza que ela adoraria.

Meu colapso de ontem foi uma catarse. Eu sinto que liberei


um pouco da preocupação, e foi bom tirar isso dos meus ombros.

Andrew e eu rimos muito no café da manhã e depois


passamos algumas horas felizes fazendo compras.

Compramos para Bethy um laptop, um colar, um e-reader,


vários livros de bolso e dois pares de sapatos. Eu ajudei Andrew a
escolher alguns cachecóis e perfumes para dar à mãe dele no Natal.

Depois de um almoço rápido, vamos ao hospital veterinário.


Meu coração bate forte quando entramos pela porta. Estou animada
para ver o doce garoto que me salvou naquele dia no beco.

Uma veterinária nos leva a um quarto e fecha a porta atrás


dela.

—Ele teve sorte de chegar aqui. —Ela diz. —Ele estava em


um estado muito ruim, como você sabe. Nós lhe demos
medicamentos intravenosos e remédio para parasitas. Ele tem pelo
faltando em pontos em suas orelhas que provavelmente foram
comidos por insetos. Não é provável que volte a crescer. Nós temos
sua dieta e remédios todos escritos aqui para você. Ele precisa ver
seu veterinário regular em duas semanas para um check-up. E por
falar nisso... vou buscá-lo.

Ela sai da sala e eu me sinto como uma mãe ansiosa enquanto


espero. Eu nunca tive um cachorro, mas sei que esse cachorro
deveria ser meu.

Quando a veterinária o leva até a sala na coleira, começo a


chorar inesperadamente. Ele ainda está magro, mas está limpo
agora. Ele é um golden retriever e seu pelo foi lavado, tosado e
penteado. Eu vejo os pontos em suas orelhas sem pelo, mas eles não
o tornam menos bonito.

Eu me ajoelho no chão e ele se aproxima de mim lentamente.

—Olá, querido. —Digo em um tom suave. —Eu sou sua


mãe agora.
Andrew senta-se ao meu lado e alcança as orelhas do
cachorro, mas ele recua com medo.

—Tudo bem, cara. —Ele diz. —Eu não posso acreditar o


quão sujo você estava. Nunca sequer poderia imaginar que você
tinha esse toque dourado4 aí embaixo. Você tem o toque de Midas,
hein?

Eu sorrio para Andrew. —Vamos chamá-lo de Midas.

—Sim? —Ele oferece ao cachorro sua palma da mão. —


Você parece um Midas. Rei Midas Wentworth.

Midas fareja os dedos. Passamos alguns minutos nos


conhecendo antes que Andrew pague a conta e nos acomodamos no
Land Rover com Midas no colo.

—Ele está tremendo. —Digo, passando minhas mãos nas


costas dele para acalmá-lo.

—Ele vai ficar melhor quando chegarmos em casa.

—Ele provavelmente não é treinado para casa.

—Vamos trabalhar nisso.

Eu sinto uma onda de felicidade. —Obrigada por deixar ele


ficar.

—Ele salvou você, certo? Esse cachorro vai viver em luxo


agora.

—Ei, sobre a viagem que você mencionou ontem...

Ele olha, arqueando as sobrancelhas. —Você pensou em um


lugar que quer ir?

—Acho que devemos esperar algumas semanas. Eu não


4
Trocadilho com o Golden de sua raça que é dourado em inglês.
quero deixar Midas agora.

—Claro, podemos esperar. E quando formos, podemos levá-


lo conosco.

—Eu gostaria disso.

Minhas preocupações ainda estão lá, mas também há uma


nova sensação de que tudo está bem. Bethy está segura. Estou tão
feliz quanto posso estar sem ela aqui. Eu escrevo uma carta para ela
quando voltamos para casa.

Cara Bethy

Fico muito feliz em saber que você está se


adaptando bem aí. Diga a Bean que significa tudo para
mim que ele está mantendo você em segurança. Eu
queria estar lá na praia com você. Um dia estarei.

A vida aqui é boa. Andrew é muito mais do que


eu esperava. Nós temos um cachorro agora, o nome dele
é Midas. Eu sei que você vai amá-lo quando o
conhecer. Eu acho que você vai gostar do Andrew
também. Ele é um pouco intenso às vezes, mas essa é
uma das coisas que eu mais gosto nele.

Eu comecei um trabalho voluntário em um


abrigo. É bom estar ajudando lá. É difícil ver pessoas
que precisam de tanto e só conseguir lhes fornecer uma
refeição, mas é algo. Mulheres e crianças conseguem
ficar no abrigo, mas os homens só conseguem comida lá.

Eu consegui ver um pouco do desfile do Dia de


Ação de Graças ontem, e isso me lembrou dos nossos
tempos assistindo. Lembranças muito boas, como fazer
aquela dança no beco com você depois do desfile, um
ano atrás.

Estou feliz por você aprender espanhol e ter uma


professora particular. Eu sempre soube que você era
forte, e é bom ver você segura.

Por favor, escreva-me o quanto puder. Eu sinto


sua falta e penso em você com frequência. Estaremos
juntas novamente em breve.

Com amor, Quinn


CAPÍTULO VINTE
Andrew

Fuso horário é uma merda. Eu estava esgotado durante todo


o voo para casa, mas agora que estamos prestes a pousar, estou me
sentindo energizado novamente.

Depois que Quinn e eu passamos um incrível fim de semana


de Ação de Graças juntos, descobri na segunda de manhã que eu
tinha que fazer uma viagem não planejada para Hong Kong. Levei
vários dias em reuniões para concluir um negócio imobiliário, então
tive que ficar a semana toda.

Será sexta-feira à noite no horário de New York quando eu


desembarcar, e mal posso esperar para ver Quinn. Nós trocamos
muitas mensagens enquanto eu estava fora, mas não é o mesmo. Eu
sinto falta de acordar com o cheiro cítrico de seu cabelo e ouvir sua
voz assim que eu entro em casa vindo do trabalho.

Sinto falta do corpo dela também. Agora que sei exatamente


o que a faz gozar, não há lugar que eu prefira estar do que na cama
com ela. Ela é a mulher mais receptiva com quem já estive e é
viciante. Cada gemido e arqueio de suas costas me deixa louco.

Nós finalmente pousamos e digo a ela que aterrissei. Eu


ainda estou usando um terno já que embarquei para casa
imediatamente após uma reunião, mas tenho certeza que parece
menos do que alinhado agora. Eu gosto de meus ternos recém
limpos e minhas camisas recém passadas, mas isso agora é a coisa
mais distante da minha mente. Eu só estou pensando em ver Quinn
e tirar essa roupa.
Roy está me esperando. Ele me leva para casa com pouca
conversa, e quando saio do elevador da garagem, Quinn está na
cozinha abanando alguma coisa no fogão com uma luva térmica.

—Foda-se isso. —Ela murmura. Eu sorrio e caminho em


direção a ela.

Ela olha para cima e me dá um sorriso indiferente. —Ei, eu


estava cozinhando o jantar para você.

—É?

—Espero que você não esteja com fome. Eu queimei.

Eu jogo meu casaco, gravata e bolsa de ombro na ilha. —Eu


não estou com fome.

—Bom.

Ela tem o cabelo puxado para trás e eu admiro a longa e


magra linha do pescoço dela. Meu olhar vagueia, observando cada
centímetro dela no perfil.

—Esse avental fica sexy em você. —Digo, pegando-a pelos


quadris para trazê-la mais perto.

—Sim?

Eu levo a minha boca na dela para um beijo faminto antes de


responder. —Sim. Eu senti sua falta, Quinn.

—Eu senti sua falta também. —Ela levanta a mão para


acariciar minha bochecha eriçada. —Nada de prostituta por lá,
certo?

Fico surpreso por um segundo. —Você está me perguntando


se eu transei com alguma prostituta?

Ela parece um pouco envergonhada. —Sim. Eu não conheço


nossas regras. E você não faz sexo... bem, pelo menos há sete
semanas, o tempo em que estou aqui, certo?

Eu não posso ficar na defensiva. Ela está procurando


segurança, e eu quero dar isso a ela. Só me diz que ela acha que eu
poderia considerar outra mulher, mais do que saber de meus
sentimentos por ela.

—Eu não toquei em outra mulher desde antes de te


conhecer. —Digo, encontrando seus olhos. —Palavra de
escoteiro.

—Você era escoteiro?

—Brevemente. Eu queria ganhar um distintivo de mérito


estudando sua hierarquia corporativa e sugerindo maneiras pelas
quais eles poderiam se tornar mais eficientes, e os superiores não se
importaram com essa ideia.

Ela ri, aquele som quente e rico que é o meu novo favorito.
—E você tinha quantos anos?

—Doze.

Com o polegar, ela traça uma linha em meus lábios e sobre o


meu queixo. —Você estava destinado a grandeza. —Ela diz
suavemente.

—Acho que sim. Você é uma grande beleza e o destino nos


uniu.

Seus olhos se suavizam. —Isso soa muito romântico vindo


de você.

—O que eu posso dizer? Você faz eu me sentir romântico.

—Você faz eu me sentir feliz. —Ela diz com um sorriso. —


Tão feliz.
—Eu quero te levar para a cama e fazer você sentir todos os
tipos de felicidade. —Eu beijo seu pescoço, e ela inspira.

—Andrew, eu estou pronta. —Ela diz no meu ouvido.

—Eu também. Vamos lá.

Ela se afasta e encontra o meu olhar. —Não, quero dizer...


pronta.

Minha pulsação dispara. —Sim?

Ela passa a língua umedecendo seus lábios rosados. —Sim.

A surpresa me invade. Isso, eu não estava esperando. Eu


tenho feito um esforço para não pressioná-la a fazer sexo, e suas
chupadas são épicas o suficiente para me segurar indefinidamente.

—Sim. —Repito, mas sai dos meus lábios com o profundo


desejo que tenho construído para ela todo esse tempo.

Eu seguro seus quadris e a pego. Ela envolve as pernas em


volta da minha cintura. Eu me dirijo na direção do meu quarto,
parando a cada poucos metros para beijá-la.

Finalmente. Eu não esperei por isso nas sete semanas que


conheço Quinn. Já faz muito mais tempo. Eu nunca quis tanto uma
mulher que eu esperasse pacientemente. Nunca conheci uma que me
fizesse esquecer que havia outras mulheres por aí. E nunca pensei
que uma mulher como Quinn, tão perfeita, se desse de bom grado a
mim desse jeito.

***
Quinn

Nós quase chegamos ao quarto. Meu coração está acelerado e


estou toda quente. Estive pensando sobre esse momento o tempo
todo em que Andrew esteve fora. Não era para ser exatamente
assim. Nós deveríamos desfrutar da deliciosa comida que fiz, e então
eu diria a ele durante a sobremesa que eu estava pronta para o
próximo passo.

Mas isso também está valendo. Na verdade, isso está valendo


muito bem. Meu corpo inteiro está zumbindo com a excitação
reprimida. Eu não estou nervosa. Não com Andrew. Estou apenas
pronta.

Ele para na porta do quarto, mas desta vez, em vez de me


beijar, ele me dá um olhar sério.

—Eu preciso saber que isso não é pelo dinheiro. —Ele diz.

—O dinheiro?

—Sim. Nós não temos que fazer isso. Eu não... espero isso em
troca do dinheiro. Tudo o que eu quero é você.

Seus profundos olhos azuis estão implorando para que eu


acredite nele. Eu me pergunto se alguém mais foi autorizado a ver
além de sua fachada fria, isolada e sempre no controle. Eu gosto
desse lado dele, mas esse lado, o lado vulnerável e atencioso, é
aquele ao qual estou irrevogavelmente ligada. Como as experiências
de vida que me trouxeram aqui, ele está gravado em meu coração
agora.

—Não é pelo dinheiro. —Digo gentilmente. —Eu não me


importo com o dinheiro. Tudo que quero é você também.
—Eu estou farto do nosso acordo. Se você quiser dez vezes
ou cem vezes mais do que combinamos, eu daria a você. Quero
compartilhar tudo o que tenho com você.

—Eu sei. Mas tudo que quero de você, eu já tenho. Está bem
aqui comigo agora mesmo.

Seu olhar oscila um pouco com a emoção, e então ele se


inclina mais perto e devora minha boca em um beijo tão
consumidor que fico sem fôlego.

—Eu posso parar a qualquer momento. —Ele diz, me


levando para a cama.

—Nós precisamos de... uma palavra de segurança?

Ele faz uma careta divertida para mim, seu rosto sombreado
pela penumbra do quarto. —Uma palavra de segurança?

—É algo que eu li em livros. —Digo rapidamente.

—Oh. Bem, eu não gosto de BDSM, então que tal “pare” ou


“não”? Essas palavras vão funcionar bem.

Eu aceno. —E se eu gostar, direi: “Oh, Deus... sim. Mais,


Andrew, mais. Bem assim.

Ele se aproxima de mim até que sou forçada a cair de volta


na cama, e então ele enfia um joelho entre as minhas coxas.

—Agora você está me provocando. —Ele diz baixinho.

—Talvez.

Com um gemido, ele mergulha o rosto no meu pescoço, me


beijando de lá até o meu peito. Minha boca abre em silenciosa
felicidade enquanto sua barba roça em minha pele sensível, fazendo-
me formigar.
Eu envolvo meus braços ao redor de suas costas,
absorvendo a sensação de seus músculos e o aroma levemente
picante de seu sabonete. Eu senti falta de tudo dele quando ele se
foi.

Ele tira minha roupa lentamente, sua expressão de reverência


enquanto seus lábios provam minha pele recém-exposta. Ele já
conhece cada centímetro meu, mas desta vez parece diferente.

Eu puxo suas roupas e ele me ajuda a tirá-las. Então ficamos


pele a pele, e sinto um calor entre minhas coxas apenas por causa
dessa proximidade. Ele ainda está me explorando com a boca e as
mãos, e é quase mais do que posso suportar.

Apenas seu hálito quente no meu mamilo me faz tremer e


gemer de prazer. Quando ele fecha os lábios, eu suspiro e puxo seus
quadris contra mim com as minhas pernas em volta da sua cintura.

—Você está ansiosa. —Ele diz, com os olhos fixos nos meus
enquanto seus lábios pairam sobre o meu mamilo endurecido e
úmido.

—Sim. —Digo ofegante. —Não esperamos tempo


suficiente?

Seus lábios se curvam em um sorriso. —Não muito mais,


querida.

Então ele pega meus quadris e me vira. Ele beija o meu


ombro descendo pelas minhas costas, e depois mais para baixo.

—Eu amo essa bunda. —Ele diz, dando um tapa brincalhão


enquanto beija o ponto logo abaixo dela.

Estou uma bagunça ofegante, tão tensa que acho que poderia
explodir a qualquer segundo. Andrew descobre que a parte de trás
do meu joelho é um ponto sensível, e fica um tempo extra me
beijando lá. No momento em que ele me vira de novo, estou
desesperada.

Quando ele sobe em cima de mim novamente, me agarro a


seus ombros largos e digo seu nome suavemente.

—Eu gosto disso. —Ele diz no meu ouvido.

—Andrew. —Repito. —Eu te quero tanto.

Ele geme e me beija embaixo da minha orelha. —Eu quero


você também. Eu não sabia o que era querer alguém assim antes de
você.

Ele desliza dentro de mim um pouco, e eu gemo baixinho.


Quando ele vai um pouco mais longe, meu próximo gemido se
mistura com outro gemido dele.

—Porra, você é incrível. —Ele diz, seus lábios apenas um


centímetro do meu.

Eu relaxo meus quadris, e ele desliza um pouco mais,


fazendo-o gemer ainda mais alto. A pressão dele me abrindo dói,
mas seus sons de prazer são uma troca digna.

—Não pare. —Digo.

Ele move seus quadris para cima, mas depois os traz de volta
para baixo, enchendo-me novamente. Eu choramingo e ele desliza
para trás.

—Isso é tudo? —Eu pergunto.

Sua risada é de uma única nota. —Não. Mas não tenho que te
dar tudo isso.

—Eu quero tudo isso.

—Bem, eu quero que você aproveite. Nós vamos trabalhar


mais isso.

Eu encontro seu olhar e abro minhas pernas o máximo que


posso. —Sério, Wentworth? Você vai me fazer implorar?

Seus olhos se estreitam e percebo o que todos os livros que li


me referiam a um olhar desejoso e quente. Eu coloco meus pés na
parte de trás de suas coxas e o incito para frente.

Ele bombeia seus quadris para mim, provavelmente tentando


me colocar no meu lugar. Mas eu amo isso, e grito de prazer quando
ele afunda um pouco mais em mim do que antes.

Com um gemido baixo e satisfeito, ele faz de novo. —Você


gosta disso? —Ele pergunta.

—Sim. Mais.

Desta vez, quando ele empurra para dentro de mim, sinto


mais pressão. Eu relaxo meu corpo e, enquanto ele continua, ela
diminui.

—Tudo... —Ele diz, sua voz tensa. —Você está levando


tudo.

—É bom. —Digo contra seus lábios. Ele me beija


profundamente, e todas as minhas terminações nervosas estão sob
seu controle. Cada impulso, cada gemido, cada toque parece me
iluminar.

Eu só quero mais e mais. Parece melhor do que eu jamais


imaginei. Mas depois de cerca de cinco minutos, Andrew diminui a
velocidade.

—Não. —Digo baixinho.

—Só me dê um segundo. —Ele diz, deslizando todo o


caminho e depois saindo novamente. Ele vai mais rápido de novo
então, e eu gemo seu nome quando me sinto subindo em direção ao
êxtase.

Depois de mais alguns minutos, ele fica de joelhos, onde é


capaz de entrar em mim ainda mais fundo. Estou clamando
incoerentemente porque é tão incrível. Seus rosnados são uma
mistura de prazer e dor. Eu posso dizer que ele está se segurando ao
máximo.

Ele coloca o polegar no meu clitóris e circula-o. Apenas


alguns segundos e estou caindo no limite da felicidade, gritando seu
nome enquanto ele bate em mim. Ele geme baixo e longo enquanto
goza logo depois de mim.

É quase demais, o que sinto quando ele me beija. É uma


enxurrada de adoração e necessidade satisfeita. —Bom? —Pergunto
quando ele me puxa contra ele.

Ele ri baixinho. —Incrível pra caralho.

—Para mim também.

Ele me beija novamente e depois se levanta para ir ao


banheiro, voltando com uma toalha para mim. Eu me limpo quando
ele volta para a cama ao meu lado.

Há tantas coisas que quero dizer, mas não consigo encontrar


as palavras certas. Andrew fixa minhas costas em seu peito e puxa as
cobertas sobre nós. Logo o ouço roncar baixinho e sinto-me caindo
num sono contente, com preocupações banidas até a manhã
seguinte.
CAPÍTULO VINTE UM
Quinn

Um homem barbudo na fila de comida no abrigo está


olhando para mim com as sobrancelhas franzidas. —Ei garota...
você está bem? —Ele pergunta.

—Humm? —Eu me sacudo do torpor em que estava e


coloco alguns legumes no prato dele. —Oh, me desculpe. Eu estava
no meu próprio mundo.

Ele balança a cabeça, provavelmente pensando que sou uma


idiota. Esta semana, eu meio que tenho sido. Eu penso em Andrew
o tempo todo, geralmente com um sorriso grande e bobo no meu
rosto. Adicionar sexo ao nosso relacionamento nos aproximou de
uma maneira que eu nunca soube ser possível.

Quando ele se afasta de mim todas as manhãs para levantar e


malhar, quero puxá-lo de volta para a cama. Certa manhã, ele voltou
para a cama depois do banho, com o corpo aquecido e seus
músculos firmes. Enfiei meus dedos em seu cabelo molhado
enquanto fazíamos um sexo incrivelmente bom e lento.

—Você precisa de mais? —Outra voluntária, Jasmine, me


pergunta. Eu olho para minha grande panela de aço inoxidável e
vejo que estou quase sem legumes.

—Sim.

Ela chama outro voluntário e me pede para servir os


pãezinhos e a manteiga enquanto ela vai ao banheiro. Eu assumo,
mantendo-me atenta a qualquer um que entre sem um casaco,
chapéu ou sapatos decentes. Andrew está sempre me incentivando a
fazer compras e descobri que realmente gosto quando faço compras
para os outros.

Nós terminamos e eu pego a criança de uma mãe por uma


hora para que ela possa preencher os pedidos de emprego. Eu levo
o menino para a sala de jogos do abrigo, onde nós corremos e
construímos torres de blocos.

Quando meu turno no abrigo termina, Roy pega Micah e eu e


me leva até a biblioteca. Eu faço voluntariado no abrigo todos os
dias da semana então nunca tenho tempo de ir caminhando até a
biblioteca, mas em algum final de semana vou andar até lá de novo,
só para não deixar o ataque me parar. Vou ter que passar pela
sombra do meu guarda costas, Micah, mas posso lidar com isso.

Anna me entrega uma carta de Bethy e eu corro para o


banheiro da biblioteca para ler enquanto Roy espera no carro. Micah
provavelmente está me observando agora, mas ele não pode ir ao
banheiro.

Eu a abro dentro de um cubículo, sentindo falta da minha


irmã assim que vejo a caligrafia limpa e cursiva.

Cara Quinn

Peguei os presentes de Natal e os coloquei sob a


árvore de materiais reciclados que Maria me ajudou a
fazer. É uma árvore pequena e triste, mas gosto dela.
Obrigada por tudo o que está dentro das caixas.

Fico tão feliz que você esteja bem. Eu sonho com


você e com Andrew. Ele parece o Príncipe Encantado
nos meus sonhos. Ok, há também alguns Channing
Tatum por lá.

Estou muito bem com o espanhol. Eu posso pedir


toda a nossa comida no mercado e pagar por ela agora.
Maria também me ajuda com os outros assuntos, mas
sempre estamos muito ocupadas cuidando de sua filha
de dois anos e fazendo a comida, a limpeza e a
lavanderia para mim e Bean. Eu gosto de ter coisas
para fazer, no entanto. Sua filhinha é doce e adoro
brincar com ela.

O Bean parece diferente ultimamente. Ele fica


meio maluco às vezes, mas tenta não demonstrar. Ele
está muito quieto. Ele vai a um bar e bebe depois do
trabalho na maioria das noites. Eu não tinha certeza
se deveria contar a você, porque não quero que você se
preocupe comigo. Eu juro que estou bem.

Sinto tanto a sua falta. Se você e o Príncipe


Encantado decidirem tirar férias, por favor, venha ao
México para que eu possa ver você. Estou contando os
dias até que este semestre termine.

Com amor, Bethy

Lágrimas queimam meus olhos quando leio a carta uma


segunda vez. Droga. Estou mais uma vez querendo saber se eu fiz o
certo pela minha irmã. Nós não estamos mais no limite da
sobrevivência. Andrew me disse que posso ter mais dinheiro se
precisar. Então, se ela precisa de mim e o dinheiro não é um
problema, por que ainda estou aqui?

Por Andrew. Estou em New York me apaixonando por um


homem, enquanto Bethy está sozinha em um país estranho com
Bean, que começou a beber. Eu me sinto como uma idiota.

Eu coloco a carta na minha bolsa e volto para o carro. Roy


me leva ao salão que tenho marcado para fazer meu cabelo e
maquiagem para o evento de arrecadação de fundos que Andrew e
eu iremos hoje à noite.

Estou pensando em Bethy enquanto meu cabelo é escovado


e preso em um estilo glamouroso. Enquanto minha maquiagem
escura e esfumaçada é aplicada, estou a imaginando cozinhando e
limpando para um homem que chega em casa bêbado. É tudo que
posso fazer para não chorar.

Quando volto para o armazém e visto o vestido creme que


vou usar esta noite, olho para o meu reflexo no espelho e percebo
que a analogia de Bethy estava certa. Estou vivendo como a
Cinderela no baile agora. Mas eu poderia e deveria estar com ela.

O cabelo e a maquiagem demoraram muito tempo e estou


atrasada. Eu vejo Andrew olhando para o relógio de pulso quando
saio do quarto.

—Desculpe. —Digo quando atravesso a sala de estar —


Podemos ir agora.

Sua expressão muda quando ele me olha. O calor e a


felicidade que vejo lá me fazem sentir incrível e culpada ao mesmo
tempo.

—Você está incrível. —Ele diz.

—Obrigada.
Ele parece muito bem em seu smoking, que se encaixa
perfeitamente em seu peito e ombros largos. Seu cabelo está
começando a se enrolar nas extremidades, o que faz com que ele
pareça ter menos de vinte e oito anos.

Assim que me ajuda a vestir meu casaco, ele coloca o seu e


nós pegamos o elevador para a garagem, onde Roy está esperando.
Andrew segura minha mão enquanto andamos em silêncio.

—Você teve um bom dia? —Ele pergunta depois de alguns


minutos.

—Sim e você?

—Nada mau.

Eu o sinto olhando para o meu rosto na luz fraca do carro.


—Tudo certo?

Eu aceno, porque parece menos mentira do que falar.


Andrew não insiste, e fico perdida em meus pensamentos o resto do
passeio até o elegante hotel. Quando chegamos, Andrew sai do
carro no meio-fio e eu saio atrás dele. Ele pega minha mão
novamente.

Virando meu rosto para o ombro dele, sussurro: —Nada está


bem.

—Eu posso ver. —Ele inclina meu queixo para cima com o
polegar. —O que há de errado, linda?

—Bethy.

Ele franze a sua testa e beija a minha. Nós começamos a


caminhada para dentro, o braço dele envolvido protetoramente ao
redor da minha cintura, quando olho para as câmeras piscando. Meu
estômago se agita nervosamente.
—Merda. Andrew. —Digo baixinho.

—Oh, inferno. —Ele me puxa para mais perto dele, então


meu rosto está protegido e me leva para dentro.

—Porra. —Digo com raiva quando passamos pela fila de


fotógrafos. —Eu não estava esperando.

—Não, eu que não estava esperando. —Ele pega o telefone e


começa a digitar. —Eu vou cuidar disso. Steve e seus rapazes virão
aqui e cuidarão disso, ok?

—Como? Você viu todas aquelas câmeras?

—Eu vou comprá-las.

Eu sinto um raio de esperança. —Você pode fazer isso?

—Vou colocar o Steve nisso, ok? Não se preocupe. Vamos


encontrar algum lugar privado para podermos conversar.

—Não aqui. Estou muito preocupada com as pessoas ao


redor.

—Ok. —Ele diz, olhando para recepção longa e escura do


hotel. —Então, vamos pegar um quarto.

—Um quarto? Agora? —Olho de um lado para o outro para


ter certeza de que ninguém está ao alcance da voz. —As pessoas vão
pensar que estamos indo até lá para transar.

Andrew arqueia as sobrancelhas. —Nenhum homem neste


lugar me culpará quando virem você.

Eu dou risada, aliviando um pouco a minha tensão. —Sério,


me elogiar não vai te levar a lugar nenhum agora.

—Eu entendi. O quarto é só para conversar. —Ele solta


minha mão. —Volto logo.
Quanto eu quero contar a ele? Enquanto assisto ele caminhar
até a recepção e ver a mulher que trabalha lá corar para ele como
uma colegial, eu percebo que Andrew não sabe onde Bethy está ou
por que estou a escondendo. Ele não sabe muito sobre Bean
também. Eu confio em Andrew com a minha vida. Mas posso
confiar nele com a de Bethy? Se ela não está segura, não há
felicidade em lugar algum para mim, com ninguém. Nem mesmo
com Andrew.

—Senhorita Jones. —Uma voz feminina afiada diz ao meu


lado.

Eu olho e vejo Gina, a mãe de Andrew. Porra. Eu não estou


de bom humor. Ela está vestida com esmero em um vestido azul-
marinho, seu cabelo grisalho emoldurando seu rosto elegante.

—É Quinn.

—Eu vejo que você ainda tem a atenção do meu filho.

—Aparentemente sim.

—E o que ele está fazendo na recepção do hotel? Ele está


buscando um quarto? —Eu apenas suspiro, esperando que ela
pegue o meu aborrecimento e saia.

—Oh, isso é ótimo. —Ela diz sarcasticamente. —Eu sabia que


essa coisa entre vocês tinha que ser tudo sobre sexo, mas...

—Foda-se. —Digo, encontrando seu frio olhar azul.

—Desculpe?

—Não há desculpa. Você é uma vadia rude.

Seu rosto se contorce em uma expressão de descrença. —


Uau. Você deve realmente achar que o tem, para falar assim com a
mãe.
—Trate-me como uma merda, e eu vou te tratar como merda
de volta.

—Você tem uma boca suja, hein?

—Suja de muitas formas, Sra. Wentworth.

Eu olho para Andrew. Ele está saindo da recepção e olhando


diretamente para nós.

—Ouça aqui, sua prostituta caçadora de ouro. —Gina diz


com os dentes cerrados. —Meu filho é tudo que tenho. Você pode
ser capaz de manipulá-lo, mas vejo através de você.

—Mãe. —Andrew diz bruscamente. —O que está


acontecendo aqui?

—Só conversando com Quinn. —Ela diz com um sorriso.

—Oh não. Eu não vou cobrir você. —Pego a mão de


Andrew, apertando-a para me fortalecer. —Ela só estava me
chamando de prostituta caçadora de ouro.

—Isso é besteira. —Andrew diz a ela em um tom baixo. —


Você nem mesmo a conhece.

Gina levanta o queixo. —Esta não é a hora nem o lugar para


esta conversa.

—Não haverá mais conversas entre você e eu até que você


tenha se desculpado com Quinn e a trate apropriadamente.

Andrew se vira e me leva embora antes que Gina possa falar


outra palavra. —Sinto muito. —Ele diz para mim enquanto
atravessamos o lobby de piso de mármore.

—Não é sua culpa.

—Eu ainda sinto muito. Eu não vou permitir que ela


ultrapasse os limites novamente.

Aperto sua mão. —Você conseguiu um quarto?

—Sim.

Eu suspiro suavemente quando paramos no elevador, e


Andrew aperta o botão. As portas se abrem, nós entramos e assim
que elas se fecham, eu me viro para ele.

—Eu também não fui muito legal com ela. Eu disse para ela
ir se foder.

Seus lábios se curvam em um sorriso divertido. —Você sabe?


Eu não vejo isso acontecendo a menos que ela tenha merecido.

—Sim, ela merecia.

—Eu sei que ela pode ser... intensa. Ela me atormentou


quando eu saí para jantar com uma garota na faculdade, e essa é a
outra única vez que ela me viu com alguém. Desde que te apresentei
a ela, ela acha que estamos sério.

—Seriamente loucos, talvez. —Digo baixinho.

As portas do elevador se abrem para o décimo quarto andar,


e Andrew segue pelo corredor até o nosso quarto.

É um pequeno quarto com uma cama king-size. Entramos e


dou a Andrew um olhar sacana. —O que é isso? Não é nem uma
suíte. Somos necessitados?

Ele fica surpreso por um segundo antes de eu dar uma risada


nervosa.

—Desculpe. —Digo. —Apenas uma piada de mau gosto.


Você não tinha que pagar por este quarto só para podermos
conversar.
Ele dá de ombros. —Eu só consegui por uma hora. Eu disse
à funcionária do hotel que você quer um bom sexo anal antes que o
evento comece, e uma hora dá para isso.

Meu queixo cai em estado de choque. —Você... o quê?

—Essa foi a minha piada de mau gosto, então agora estamos


quites. —Ele pisca e senta-se na cama. —Agora venha aqui e me
diga o que está acontecendo.

Eu me sento, meus ombros caem para frente. —Eu recebi


uma carta de Bethy. Eu não gosto de algumas das coisas que ela me
disse.

—Você pode me falar sobre isso?

Eu hesito por um segundo. Eu confio em Andrew. Ele


provou para mim muitas vezes que está do meu lado. E eu
realmente quero falar com ele sobre isso.

—Ela está com Bean. —Digo baixinho. —No... México. Eles


têm um pequeno apartamento e ele tem um emprego. Ela está
sendo ensinada por alguém lá. Mas ela disse que Bean está indo a
um bar depois do trabalho para beber. E ela está cozinhando,
limpando e ajudando a cuidar da filha da tutora... enquanto estou
aqui.

Eu gesticulo para o vestido extravagante que estou usando.


—Você se sente culpada. —Ele diz.

Eu concordo. —Muito. Eu a levei embora para poder cuidar


dela e não estou. Eu a deixei praticamente sozinha em um país
estrangeiro.

—Então, por que não a trazemos para cá?

—De volta a New York?


—Sim. O armazém é muito grande. Ela pode morar conosco
e voltar para a escola.

Eu considero isso por alguns segundos. —Eu adoraria isso,


mas ainda tenho medo dela ser reconhecida. Eu não posso deixar
isso acontecer.

—Eu posso ajudar com identificação para ela também.

Com um suspiro profundo, decido que é hora de dizer a ele o


que eu realmente quero. —Eu quero ir lá. Eu quero ver onde ela
está e descobrir o que está acontecendo com Bean. Eu quero passar
algum tempo sozinha com ela.

A expressão de Andrew fica sombria. —Compreendo... sim.


Eu ajudarei no que puder.

—Eu não sei o que vai acontecer quando eu chegar lá. Se as


coisas estiverem bem, posso voltar aqui.

—Sim. —Ele não parece ou soa acreditar que isso vai


acontecer.

—Não é que eu não queira estar com você. —Digo,


colocando a palma da minha mão em sua coxa. —Eu quero. Mas
tenho uma responsabilidade para com minha irmã. Fui eu quem a
levou embora e preciso cuidar dela.

Ele concorda. —Tudo bem, Quinn. Compreendo.

—Eu gostaria de poder ter vocês dois. —Digo, minha


garganta apertando com a emoção.

—Com quem quer que você esteja lutando, eu posso lidar


com eles. Você não viu meu lado mais sombrio, mas eu tenho um.
Não tenho medo de lutar por alguém... por você.

Seus olhos azuis são ternos e cheios de devoção. Meu


coração se abre um pouco mais para ele.

—Ela seria mandada de volta para casa. —Digo. —Eu acho


que é tecnicamente... o sistema judicial que estou enfrentando.

—Quem tem a custódia legal dela?

—Nossa mãe.

Seu olhar permanece preso no meu. —Então nós oferecemos


dinheiro para ela. É um poderoso motivador.

—Não para ela.

—Você quer dizer que ela não iria querer, ou que ela já tem
isso?

—Já tem.

Ele balança a cabeça e apoia os cotovelos nos joelhos. —


Droga. Tem que haver um jeito.

—Eu só preciso vê-la para que possamos conversar sobre as


coisas. Talvez se eu pudesse trazê-la para cá, ela ficaria bem com um
tutor vindo ao armazém. Eu odeio fazê-la viver como uma reclusa,
mas pelo menos estaríamos juntas.

—Só me avise quando. —Andrew diz, ainda olhando para o


chão. —Eu fretarei um voo para você.

—Nenhum voo. Eu sou muito paranoica sobre alguém


descobrir. Quero dizer, poderia haver alguém me seguindo agora
mesmo sem que eu saiba, apenas esperando eu ir até ela.

Ele olha para mim. —Posso ajudar com isso.

Eu sorrio para sua expressão séria. —Minha avó costumava


dizer ao meu avô que ele era um querido. Isso é o que você é para
mim, Andrew. Meu querido homem que está sempre pronto para
me resgatar.

—Sempre.

—Mas eu preciso fazer isso sozinha. Por favor, confie em


mim o suficiente para me deixar fazer isso.

Depois de vários segundos de silêncio, ele diz: —Tudo bem.

Ele me beija suavemente então, e posso ver as emoções em


conflito em seu rosto. Ele quer me apoiar, mas está desapontado.
Eu tomo seu rosto em minhas mãos e o beijo, tentando dizer a ele
sem palavras o quanto ele significa para mim.

—Eu acho que devemos descer. —Ele diz e em seguida


limpa a garganta.

Eu apenas aceno, não confiando em mim mesma para falar.


Eu sou um conflito de emoções agora.

Nós dois colocamos um sorriso no rosto para os convidados


de angariação de fundos. Andrew me apresenta a todos com quem
conversamos como sua namorada, o que é agridoce. Ele dá o lance
vencedor para um pacote de sopa canino para Midas, e percebo
mais uma vez o quão difícil será sair.

Mas eu preciso, no entanto.

Já em casa, Andrew me assola com o sexo mais feroz e


apaixonado que já tivemos. Ele me faz gozar três vezes, e tento
guardar cada segundo na memória, porque, em breve, as lembranças
podem ser tudo o que terei dele.
CAPÍTULO VINTE E DOIS
Andrew

Midas foge quando me aproximo dele com a coleira. Eu


tenho que o encurralar e me ajoelhar para pegá-lo.

—Ei, cara, sou eu. —Digo em um tom suave. —Eu sou o


cara que trouxe para você aqueles biscoitos que você gosta tanto.

Eu acaricio-o por um minuto e ele para de tremer.

—Pronto. —Quinn diz, entrando na cozinha vestindo um


casaco branco e uma touca vermelha com uma bola felpuda no
topo.

Ela se agasalha para o nosso passeio noturno com Midas.


Mas eu me pergunto por que não vi nenhum casaco além do branco.

—Ei, esse é o único casaco que você tem? —Pergunto


enquanto caminhamos até a porta da frente.

Ela olha para baixo. —Sim, além dos vestidos. Por quê?

Eu dou de ombros. —Acabei de ver as cobranças na conta


da loja que você gosta e achei que você estava comprando um
monte. Não que eu me importe. Você deveria comprar um monte.

—Oh. Bem, eu meio que comprei um monte, mas eles eram


para pessoas no abrigo.

Sua expressão tímida me faz franzir minha testa. —Você acha


que eu me importaria, não é?

—Eu não sei... Eu deveria ter sabido que você não iria.
—Faça o que te faz feliz. Apenas deixe-me saber se custa seis
dígitos ou mais. —Eu me lembro então que ela está indo embora
amanhã. —Quero dizer... se você voltar.

—Eu voltarei. —Ela diz, mas sei que nenhum de nós está
convencido.

Eu sei que ela quer voltar, posso ver em seus olhos e ouvir
em sua voz. Mas sem saber o que ela vai encontrar no México, sei
que ela não tem como garantir. Se Bethy estiver em uma situação
ruim, eu sei que Quinn vai colocá-la em primeiro lugar. Eu admiro
isso, mas se acontecer, eu nunca mais serei o mesmo.

Meu negócio vai prosperar se ela não voltar. Sentir-me vazio


e com raiva alimenta minha necessidade de esmagar a concorrência
e ganhar dinheiro. Eu gosto de trabalhar dia e noite quando não
tenho nada para ir para casa. Como sempre foi, antes de Quinn.

Nós caminhamos em silêncio por alguns minutos, parando


para que Midas possa cheirar uma árvore. Ele decide que é um bom
lugar para urinar, então esperamos.

Estou numa luta interna. Eu deveria ir com tudo com Quinn,


colocar todas as minhas cartas na mesa antes que ela saia? Não é
como se isso fosse fazê-la ficar. Ela tem que ir cuidar das coisas com
sua irmã. Mas sei que se eu não contar tudo a ela e ela nunca voltar,
sempre me perguntarei se eu deveria ter mostrado tudo de mim.

Midas está pronto para seguir em frente, então continuamos


no quarteirão. Uns caras da faculdade usando casacos de couro
estão se aproximando de nós vindo da outra direção, e eu os vejo
olhando para Quinn.

Eles me lembram muito daqueles idiotas que a espancaram.


Quando eles estão prestes a passar por nós e um deles ainda está
olhando para ela, eu digo: —Vocês precisam de alguma coisa?
Eles olham para mim e depois trocam olhares. —Não, cara.
—Diz um deles.

—Desculpe. —O outro murmura.

Eles continuam andando. Quinn pega meu braço livre e


continuamos também. —Eu vou sentir sua falta. —Ela diz,
descansando a cabeça no meu ombro.

—Eu também. Você pode por favor reconsiderar pegar o seu


telefone?

Ela move a cabeça do meu ombro. —Estou muito


preocupada em ser rastreada.

—Por quem?

—Por alguém.

—Seu telefone está na minha conta e ninguém vai acessar. E se


você tiver problemas?

Ela dá de ombros. —Eu já tive problemas antes. Eu tenho o


seu número, você sabe. Telefonarei de outro telefone se precisar de
você.

—Você não está preocupada que alguém rastreie esse?


—Pergunto com sarcasmo.

—Bem, um pouco...

—Jesus, Quinn. Você assistiu muito Law & Order.

—Olha, é melhor prevenir do que remediar, tudo bem?

Eu olho para as luzes da cidade ao longe. —Eu poderia te


encontrar se eu quisesse. Se pegar o telefone ou não. Você poderia
se afastar de mim agora com nada além das roupas no corpo, e eu
poderia te encontrar. Mas não vou. Se eu te ver de novo, tem que
ser porque você voltou para mim.

Ela para de andar e olha para mim. —Como? Como você


pode me encontrar?

—Não importa.

—Importa muito, Andrew, porque se você pode me


encontrar, ele também poderia.

Eu chego mais perto dela. —Diga-me quem ele é. Eu


colocarei alguém nele e nós saberemos onde ele está o tempo todo.

Ela fica quieta por alguns segundos, e então finalmente diz:


—Eu não quero que você saiba. Quando Bethy e eu chegamos aqui,
começamos de novo. Sem bagagem. Eu me tornei uma fodona que
faria qualquer coisa para sobreviver e protegê-la. Essa foi a mulher
que você conheceu. A mulher que você conhece.

—Você é tudo isso, Quinn. Até mesmo a merda que te fez ser
uma fodona. E eu amo essa mulher. Eu te amo tão profundamente e
tão forte que não sei como vou sobreviver se você partir.

Eu não queria deixar sair assim, mas aí está. Ela parece estar
segurando a respiração enquanto olha para mim. —Você... gosta?
Me ama. Quero dizer, você ama?

Ela mal consegue pronunciar as palavras e as lágrimas estão


em seus olhos. Eu envolvo minhas mãos em torno de seus braços e
digo novamente.

—Sim. Eu te amo, e com isso vem a necessidade de proteger


você. Ninguém vai te machucar novamente se você me deixar
entrar.

—Eu também te amo, Andrew. —Ela pisca e lágrimas caem


em suas bochechas. —E nós estaremos juntos novamente. De uma
forma ou de outra.
Nada é mais difícil para mim do que concordar nesse
momento. Eu quero me enfurecer, gritar e bater em um saco de
pancadas até que eu esteja exausto. Mas não vou passar nossa última
noite juntos desse jeito. Esta noite é para mostrar a ela que sou um
homem pelo qual vale a pena voltar. Se isso vai acontecer, tenho que
encontrar uma maneira de deixá-la ir.

***

Quinn

Chegamos em casa da nossa caminhada, e Midas se acomoda


na cama de cachorro que Andrew colocou na sala para ele, contente
em mastigar seu osso.

Há algo não dito acontecendo entre mim e Andrew. Posso


dizer que ele está tenso. Eu me pergunto se ele também está ferido.
Ele disse que me ama, e ainda estou partindo sem um telefone ou
sem nenhum jeito para ele me alcançar. Preciso fazê-lo entender que
é sobre mim, não sobre ele.

—Então, o que agora? —Digo, aproximando-me dele na sala


de estar.

Ele não diz nada, mas envolve seus braços em mim, me


puxando para um beijo que me faz vibrar do couro cabeludo aos
dedos dos pés. É exigente e faminto. Eu o sinto me pedindo para
dar tudo a ele esta noite, e isso é tudo que quero.

Devolvo sua paixão e logo minhas unhas estão afundando


em sua nuca enquanto nos beijamos como se fosse nossa última
noite na Terra. Ele tira os sapatos e me pega, levando-me para o
quarto.

Esta noite é diferente. Eu não quero ser provocada até que


ele me deixe em um frenesi. Eu já estou lá. Nós tiramos as roupas
um do outro com urgência, e Andrew acaba tirando meu sutiã e
rasgando minha calcinha em seu desespero.

Ele me empurra para a cama e, assim que minhas costas


batem no colchão, ele está dentro de mim. Ele está empurrando
duro e profundo, rosnando e mordendo meu mamilo enquanto
entra em mim.

—Oh... Deus. —Eu choramingo. —Andrew...

Sua boca encontra a minha em um beijo esmagador. Meu


orgasmo está se construindo rapidamente. Estou prestes a gozar e,
pouco antes de não conseguir me segurar, ele para e me vira.

Oh... Porra. Ele me pega de quatro agora, e está enterrado tão


fundo dentro de mim que estou gritando o nome dele em um tom
suplicante. Estou pedindo misericórdia ou mais? Nem eu sei.

Ele nunca desiste, segurando meus quadris enquanto entra


em mim com uma força selvagem. Isso é raiva de mim. É a
frustração e decepção porque estou saindo. É o amor dele.

Eu também sinto. Eu não quero ir, mas preciso.

—Porra. —Ele diz, a palavra saindo um rosnado primitivo.

Ele me vira de novo e coloca meus tornozelos em seus


ombros, depois recomeça com a mesma força bruta de antes. O
suor brilha em sua testa e peito enquanto ele empurra de novo e de
novo, nunca desistindo.

—Andrew. —Digo, pegando sua mão e colocando a palma


na minha bochecha. —Eu te amo. Não importa o que, eu te amo.
Sua expressão se contorce com a emoção contida. Por mais
que eu ame o jeito que ele está me fodendo com necessidade, eu não
aguento mais. Eu desisto e me deixo ir. Assim que faço isso, seu
rosnado se torna um gemido, e ele se mantém enterrado dentro de
mim enquanto goza com um estremecimento.

Eu envolvo meus braços ao redor dele e o puxo para cima de


mim.

—Merda. —Ele diz, respirando pesadamente. —Me


desculpe.

—Não diga isso. Apenas diga de novo que você me ama.

Ele se inclina para que seu rosto esteja bem em cima do meu.
—Eu te amo, Quinn. Volte para mim. Eu protegerei você e Bethy
de qualquer um que tentar te machucar.

Ele me beija tão suavemente, e lágrimas doces estão


queimando meus olhos quando ele se afasta.

Ele se levanta para ir ao banheiro e eu vou logo atrás dele.


Quando volto para a cama, ele está sentado na beira, ainda nu, com
os cotovelos apoiados nos joelhos.

—Você está bem? —Pergunto, subindo na cama para abraçá-


lo por trás.

—Há algo que eu preciso te dizer.

Eu deslizo por trás dele, que se estica para ligar a lâmpada de


cabeceira. —Isso é um tipo de coisa que tem a ver com os lençóis
ou não? —Pergunto.

—Não, infelizmente.

Ele pega sua cueca boxer do chão e a veste. Eu me sento na


cama e puxo as cobertas até o peito.
Andrew exala profundamente, com as mãos nos quadris,
depois senta-se na ponta da cama, então estamos de frente um para
o outro.

—Eu te disse que meu pai morreu no 11 de setembro. —Ele


diz.

—Sim.

—Você pode dizer que eu nunca superei isso.

—Eu acho que ninguém espera que você faça isso.

—Não, quero dizer... —Ele faz uma pausa. —Ok, então


depois que meu pai morreu e ficou eu e mamãe, eu tive muita raiva
acumulada. Eu canalizei para os estudos, esportes e aprender sobre
computadores. Os computadores começaram como um hobby, mas
se tornaram quase uma obsessão quando eu estava no ensino médio.
Até então, eu já estava pensando sobre as possibilidades. Fui para o
MIT e à NYU porque precisava tanto de ciência da computação
quanto dos negócios. Não conseguiria financiar os projetos de
computador que queria fazer sem ter sucesso nos negócios para
ganhar dinheiro com isso.

—Que coisas?

—O que estou prestes a dizer, pouquíssimas pessoas sabem.


Pouquíssimas. Eu assinei um contrato concordando em dizer apenas
a minha cônjuge se eu me casar e mais ninguém. Mas preciso que
você saiba.

Sua expressão é séria. Eu aceno meu entendimento.

—Há quatro anos, juntei-me a cinco outros parceiros para


começar... uma empresa. Todos nós fornecemos uma parte
financeira igual. O trabalho que fazemos baseia-se no segundo andar
do armazém. E o que fazemos é... —Ele limpa a garganta. —Bem,
são várias coisas, na verdade. Começa com a invasão de
comunicações terroristas.

—Terroristas? —Eu não posso esconder minha surpresa.

—Sim. Nós monitoramos suas comunicações e esperamos


até que estejamos prontos para uma operação, e então
interceptamos as comunicações, fingindo ser os terroristas com
quem eles estão se comunicando. Montamos um encontro e depois
nos infiltramos.

—Infiltrar, significando... ?

—Qualquer que seja o maior dano que possamos fazer. Nós


explodimos os suprimentos e os locais de comando, retiramos
pessoas importantes, expomos suas operações a seus inimigos.

Eu engulo em seco, tentando absorver tudo. Meu empresário


todo empoado, explodindo terroristas? Eu não posso nem processar
isso no começo.

—Quando você diz “nós”, você está realmente fazendo a


explosão? É onde você estava quando disse que estava em Hong
Kong?

Ele sacode a cabeça. —Não, eu estava em Hong Kong.


Estou quase sempre fazendo meu trabalho real. Eu já estive em
operações antes, mas não é uma boa ideia como regra geral.
Principalmente usamos ex-militares para isso, eles são mais
adequados.

Eu respiro fundo. —Então, eles estão lá em cima? Agora


mesmo?

—Agora mesmo. Foi assim que peguei sua bolsa de volta. Eu


escrevi um programa de escaneamento facial que é diferente de tudo
que há no mercado, mas foi para os caras do andar de cima. Eu
nunca compartilho essa tecnologia com o setor privado ou público.
É como podemos manter os olhos em tantos desses fodidos ao
mesmo tempo. Pedi-lhes que acompanhassem o número no cartão
de débito que lhe dei e depois invadissem os locais onde aqueles que
te atacaram o usaram. Eu fui a uma das casas deles e... você sabe.

—Você os machucou, eu espero?

—Claro que sim, eu os machuquei. Um deles me deu um


soco, no entanto. Eu quebrei o nariz dele por isso.

Eu me encolho. —Eu não posso acreditar que eu te acusei de


ter montado isso.

—Ei, nós já passamos tudo isso. Eu não queria colocar você


em perigo te dizendo. Mas eu senti que precisava que você soubesse
tudo sobre mim antes de sair. E também que posso protegê-la de
qualquer perigo que você esteja enfrentando, Quinn. Tenho
recursos nos níveis mais altos do governo, bem como no setor
privado, que não precisam obedecer a nenhuma regra.

—Isso é muito para absorver. —Digo.

—Eu sei. Mas não quero que você saia daqui com perguntas
sobre mim. É por isso que tenho tanta segurança. Os caras no andar
de cima estão em tanto perigo quanto nós que os financiamos. Eu
tenho que fornecer um lugar completamente seguro para eles.

—Faz sentido.

—Ninguém irá rastrear as chamadas que entram ou saem


desse lugar, nunca. Tenho um software que bloqueia qualquer coisa
que a aplicação da lei tenha acesso. Por favor, pegue seu telefone,
mesmo que você o mantenha desligado.

—Eu vou. —Eu aceno. —E foi assim que você conseguiu


minha papelada como Susanna?
—Sim. Eu também posso conseguir uma nova identidade
para Bethy. Todos podemos começar de novo juntos, se você
quiser. Deixar esse lugar para trás. Talvez nos mudar para Paris ou
Londres. Eu posso começar um negócio lá.

Meu coração está batendo esperançoso. —Você está falando


sério?

—Claro que sim. Você é meu tudo, Quinn. Mesmo que tenha
sido apenas alguns meses, eu sei.

—Eu também sei. —Digo, minha voz falhando.

Ele exala profundamente. —Eu só precisava que você


soubesse tudo. Nós só pegamos o pior dos piores. Pessoas como as
que mataram meu pai.

—Eu não julgo isso. Eu realmente admiro. Eu aprendi em


primeira mão que existem pessoas más no mundo.

Sua testa ainda está enrugada de preocupação. —Há mais


uma coisa que eu quero que você saiba.

—O quê?

—Eu não costumava ser um cara que pagava por sexo.


Apenas a ideia disso me desanimava. Mas cerca de um ano atrás,
uma mulher com quem dormi disse que estava grávida do meu filho.

Eu sinto uma profunda e doentia agitação no meu estômago.


—Oh Deus. Você tem um bebê?

—Não. —Ele diz enfaticamente, com os olhos arregalados.


—Fiz com que ela fizesse um teste de paternidade depois que ela
ganhou o bebê. Não era meu. Mas depois disso eu assumi o controle
e só dormi com mulheres que eu poderia forçar a estar em controle
de natalidade. Então isso é...
Eu dou-lhe um sorriso irônico. —A história que podemos
um dia contar aos nossos netos sobre como nos conhecemos.

Ele ri e balança a cabeça, depois fica sério novamente. —Eu


coloquei um envelope de dinheiro em sua bolsa. Se você tiver algum
problema, quero dizer qualquer coisa, você me liga.

—Eu vou.

Ele desliga a luz ao lado da cama e sobe ao meu lado.


Quando ele me puxa para si, eu respiro seu cheiro e tenho a certeza
que vamos ficar juntos novamente. Apenas o pensamento das noites
adiante sem ele destrói o meu coração. Eu nunca poderia deixá-lo ir
para sempre.

Quando acordo de manhã, Andrew está sentado na beira da


cama, já vestido para o trabalho em um terno escuro. Eu dormi
entre ele se levantando para o treino e tomando banho.

—Roy vai levá-la para onde você quiser. —Ele diz, sem olhar
para mim. —Você deve deixá-lo te levar até o fim.

—Eu não posso fazer isso. —Digo baixinho. —Se fosse só


eu, eu iria, mas eu não me arrisco com a minha irmã.

Ele balança a cabeça, os cotovelos apoiados em seus joelhos.


—Eu levaria você até onde quisesse, mas... Eu simplesmente não
posso.

Eu me movo em direção a ele e envolvo meus braços ao


redor dele por trás. —Fique aqui, ok? Eu volto já.

Eu não posso dizer adeus a ele enquanto estou nua. Vou ao


banheiro e escovo os dentes, depois para o closet onde me visto
com um jeans e um moletom da NYU.

Andrew está de pé ao lado da cama quando eu volto. Vou até


ele, e ele me puxa para seus braços, nenhum de nós diz uma palavra
por um minuto inteiro.

Quando falo, é difícil passar o nó na garganta. —Não


importa o que aconteça, por favor saiba... Eu quero voltar. Eu quero
ficar com você.

Ele aumenta o seu aperto em mim e ficamos assim por mais


um minuto. Quando ele se afasta, ainda não olha para mim.

—Ligue para mim. —Ele diz. —Eu te amo.

E com isso, ele sai do quarto. E eu já sinto falta dele.


CAPÍTULO VINTE E TRÊS
Quinn

Eu estou viajando há três dias inteiros. Considerando que já


faz mais de quatro anos desde que dirigi um carro, acho que fiz
muito bem.

Roy me levou para fora da cidade e, em seguida, peguei uma


carona para fora do estado de New York com um motorista de
caminhão. Eu encontrei um sedã em um lote de carros usados na
Pensilvânia com um preço de 2.000 dólares pintado no para-brisa e
paguei ao dono 3.000 dólares para que o vendesse sem qualquer
papelada. Ele me deu um conjunto de placas válidas, mas me disse
que denunciaria o roubo do carro em um mês, se eu não o trouxesse
até lá.

Então dirigi por dois longos dias para chegar à fronteira. Eu


parei em um motel para dormir por uma noite e queria tanto ligar
para Andrew que doía, mas não liguei. Eu trouxe meu telefone, mas
pretendo deixar o aparelho desligado. Preocupar-me que o telefone
dele seja rastreável é irracional, mas tive que ser um pouco irracional
para chegar tão longe desde que saí de casa.

Eu uso a papelada de Susanna Hopkins que Andrew me deu


para atravessar a fronteira, prendendo a respiração o tempo todo.
Tantas coisas podem dar errado. Se eu for pega, vou entregar a
localização de Bethy.

Mas os guardas parecem não se incomodar quando aprovam


minha passagem. Eu não respiro tranquila até que eu esteja mais
alguns quilômetros na estrada, no entanto. Eu gostaria de continuar
agora que estou no mesmo país que Bethy, mas é o fim do segundo
dia, e depois de quinze horas de condução, estou vencida.

Eu consigo um quarto para a noite com dinheiro americano,


e apago assim que minha cabeça bate no travesseiro. No dia seguinte
sigo viagem cedo, trocando parte do dinheiro que Andrew me deu
por pesos. Sem os 10.000 dólares que ele me deu, essa viagem teria
sido quase impossível. Já enviei a Bean o outro dinheiro que tinha.

Barra de Potosi está a um longo dia de condução de distância.


Eu tenho que navegar com mapas, o que não é fácil.

Finalmente, chego à cidade adormecida, mas não consigo


encontrar o apartamento. Eu tenho que parar várias vezes e mostrar
às pessoas o papel em que tenho o endereço escrito. Eles tentam me
dar instruções, mas a barreira da língua dificulta que eu descubra o
que eles estão dizendo.

Demoro quase uma hora, mas finalmente acho que encontrei


o lugar quando o sol está começando a se pôr. O adolescente que
me trouxe até aqui me garantiu que era o lugar certo, e eu dei a ele
um punhado de dinheiro.

Eu bato na porta, meu coração batendo ansiosamente.


Quando Bethy abre e me vê, ela começa a chorar.

—Quinn! —Ela se joga para mim e segura tão firme quanto


Andrew na manhã que eu saí. Eu a abraço de volta, apertando os
olhos para conter as lágrimas.

—Como você chegou aqui? —Ela pergunta incrédula.

—Eu dirigi.

—De New York?

—Sim.

Ela se afasta e me puxa pelo braço. —Você deve estar


exausta. Entre aqui.

Fico surpresa quando entro no apartamento apertado.


Apertado é uma palavra muito generosa para isso. A sala de estar e a
área da cozinha têm alguns metros quadrados no total. Os closets no
armazém de Andrew são maiores que este lugar.

Há um sofá desgastado e as paredes estão vazias. É limpo,


mas deprimente.

—Eu sei que não é muito. —Bethy diz, enfiando o cabelo


atrás da orelha conscientemente.

—Como você está? —Eu me viro para ela e tomo ambas as


mãos nas minhas. —Quero dizer, como você está realmente? Eu li
nas entrelinhas da sua última carta e estou preocupada.

Lágrimas brilham em seus olhos. —Estou bem. Tudo aqui é


bom.

—Não minta para mim. Nós não mentimos uma para a


outra, Bethy.

Ela pisca e lágrimas escorrem pelas suas bochechas. —Está...


meio horrível. Estou solitária. Mas estou bem. Estou bem, Quinn.
Eu sei que você quer que eu fique aqui onde estou segura e eu
entendo isso.

—Não. Eu não quero você infeliz. Temos outras opções


agora.

—Nós temos? —A expressão dela se ilumina esperançosa.

Eu concordo. —Vou tirar você daqui.

Ela joga os braços em volta de mim e chora mais um pouco.


—Estou tão feliz em ver você. —Ela diz suavemente.

—Eu também. Eu senti tanto sua falta.


Quando ela se afasta, limpa suas bochechas com as pontas
dos dedos e caminha alguns metros até o fogão. —Que tal uma
sopa? —Ela pergunta. —Provavelmente não é a melhor sopa, mas é
decente.

—Eu adoraria um pouco.

Ela mergulha uma xícara de café na chaleira e enche uma


tigela para mim. —Então Maria já foi? —Eu pergunto.

—Ela parou de vir cerca de dez dias atrás.

—Eu pensei que ela estava ajudando você.

Bethy dá de ombros. —Ela estava, mas Bean parou de pagá-


la. Ela teve que arranjar outro emprego.

Eu fecho meus olhos por alguns segundos. Estou chateada.


Bean tinha dinheiro mais que suficiente para se sustentarem, e ele
claramente não está usando isso para cuidar de Bethy.

A sopa é água, especiarias e pedaços de peixe. É horrível, mas


eu como porque Bethy comeu um pouco antes de eu chegar aqui.
Isso é com o que ela tem vivido enquanto eu tenho comidas
deliciosas preparadas por Turner todas as noites. A geladeira de
Andrew está sempre abastecida com produtos frescos, iogurte,
queijo e outros lanches. A geladeira de Bethy está praticamente
vazia, e não mantém o frio dentro dela.

—Eu quero ver o seu quarto. —Digo a ela.

Eu tenho um leve arrepio quando ela lidera o caminho.


Dificilmente tem espaço suficiente para o colchão no chão, e há um
cordão amarrado entre duas paredes com as roupas de Bethy
penduradas.

—Pelo menos estou aquecida. —Ela diz. —E segura.


Eu apenas aceno. Por dentro, estou fumegando. Vinte mil
dólares e é assim que eles estão vivendo. Eu me pergunto onde o
dinheiro realmente está indo.

—Vamos caminhar na praia. —Bethy diz.

—Quando será que Bean estará de volta?

—Normalmente, ele não chega aqui por mais algumas horas.

São apenas alguns quarteirões até a praia de areia branca e


macia. Mesmo que o sol esteja baixo, posso dizer que este é um
lugar bonito. O som de água batendo e o cheiro salgado no ar me
faz sentir rejuvenescida. Estou tão feliz por ter escutado meu
instinto e vindo para cá.

—Conte-me sobre Andrew. —Bethy diz enquanto andamos


de braços dados.

Eu sorrio. —Ele é um homem difícil de se conhecer, mas


agora que cheguei mais perto dele... Estou apaixonada.

Ela aperta meu braço com excitação. —Mesmo? Oh, Quinn.


Você merece isso.

—Ele é muito protetor. Tão bonito. Super inteligente. Um


pouco impaciente. Generoso. Doce.

—Estou desmaiando aqui.

Eu bato meu ombro contra o dela de brincadeira. —Isso é o


que eu ganho por te criar lendo romances.

—Ele soa como o Sr. Darcy.

Sua declaração me faz rir. —Você sabe, há alguma


semelhança.

—Você permitiu que ele lhe dissesse o quão ardentemente


ele a admira?

—Oh, definitivamente. Ele queria vir aqui comigo, na


verdade.

—Por que você não o trouxe?

Eu olho para as ondas escuras do oceano. —Eu só queria


fazer isso sozinha. Ainda me preocupo em sermos encontradas.

—Eu sei. Eu também.

—Você sente falta de casa?

Ela não diz nada por alguns segundos. —Sinto falta de


algumas coisas, mas acho que estávamos certas em sair.

—Você realmente acha? Você sente isso em seu coração?

—Eu sinto. Nós duas sabemos o que teria acontecido se


tivéssemos ficado.

Eu paro e sento na praia, tirando meus sapatos e afundando


os dedos na areia. Bethy senta-se ao meu lado.

—Você sabe. —Digo. —Eu costumava esconder as coisas de


você para protegê-la. Quando estávamos em New York. Nunca foi
nada grande, realmente. Eu nunca deixei transparecer o quão
realmente assustada eu estava. Mas acho que é hora de concordar
que compartilharemos tudo uma com a outra. Até as coisas
assustadoras e feias.

—Eu prometo.

—Eu também. —Nós nos sentamos em silêncio por alguns


segundos. —Andrew está disposto a nos levar para outro país para
morarmos. Eu imagino que ele precisaria de algum tempo para
colocar o seu negócio em ordem, mas... é uma ideia.
—Eu adoraria isso. —Bethy diz suavemente. —Eu moraria
com vocês?

—Sim. Acho que você e eu iremos para outro país daqui e


então eu entrarei em contato com ele. É melhor que ninguém saiba
onde estamos ou para onde estamos indo.

—E quanto a Bean?

—Ele não vem.

Ela suspira suavemente. —Acho que devemos pegar nossas


coisas e sair antes que ele volte. Ele ficará louco se contarmos a ele.

—Ok, vamos lá.

Nós tiramos a areia da roupa e voltamos. Por mais que eu


gostaria de confrontar Bean com relação ao dinheiro, sei que Bethy
está certa. O que realmente importa é tirá-la daqui com segurança.

Quando voltamos para o apartamento, Bean está lá. Assim


que ele me vê, sua expressão se transforma em descrença.

—Quinn? —Ele sorri e salta da frágil mesa da cozinha onde


ele está comendo. —Você voltou. —Ele me abraça, e eu
imediatamente sinto o cheiro de álcool nele.

—Você está bebendo. —Digo categoricamente.

Ele recua com a testa franzida. —Sim, eu tomei uma bebida


no final de um longo dia de trabalho. O que isso importa?

Eu sinto Bethy ficando tensa ao meu lado. Nós só precisamos ir,


eu me lembro. O dinheiro não importa.

—Bean, eu não posso te agradecer o suficiente por cuidar de


Bethy. Eu senti muito a falta dela, então vim aqui para buscá-la.

Ele estreita os olhos. —Você está indo?


—As coisas estão indo bem para mim em New York. Vou
ficar lá.

Bean se lança em minha direção, me forçando a recuar. —


Você ainda quer ser a prostituta desse cara rico? Que diabos está
errado com você? Eu estive aqui esperando e cuidando de Bethy, e
agora você simplesmente vai embora?

—Eu tenho certeza que você ainda tem um pouco do


dinheiro. —Eu digo. —Fique com ele.

Ele balança a cabeça e se aproxima de mim, me forçando


contra a parede. —De jeito nenhum. 60 mil dólares. Esse era o
acordo.

—Não, não era.

Ele bate na parede ao lado da minha cabeça e ouço pedaços


dela desmoronando no chão.

—Você quer me foder depois de tudo que passamos e levá-la


com você? —Ele grita na minha cara. —Não sem meus outros
quarenta mil.

Eu envolvo minha mão ao redor da lâmina da minha faca e


ele zomba de mim, em seguida, empurra meu pulso contra a parede.
Ele aperta seu braço sem mão contra o meu peito para me manter
no lugar.

—Eu conheço você. —Ele diz em um tom baixo e sinistro. —


Eu te ensinei a usar essa lâmina, lembra?

—Eu me lembro de você dizendo que também cuidaria de


Bethy e olha para este lugar. Para onde vai o dinheiro, Bean?

Sua expressão escurece. —Não é da sua conta.

—Minha irmã não foi nada além de um vale refeição para


você. Você é um porco nojento.

Ele então dá uma ajoelhada no meu estômago, e eu me dobro


de dor.

—Ela está segura, não está? —Ele se inclina para gritar na


minha cara. —Hã?

Eu olho para cima a tempo de ver Bethy erguer algo no ar e


bater na cabeça dele com toda sua força. Ele tropeça e cai no chão,
mas fica consciente. Eu escalo em cima de suas costas para contê-lo.

—Corda. —Digo freneticamente. —Precisamos de algo para


amarrá-lo.

—Sua puta. —Bean murmura. —Eu vou acabar com você.

Bethy corre para seu quarto e eu torço os braços de Bean em


torno de suas costas até ele uivar.

—Mova-se e eu vou quebrar um. —Digo em um tom firme.


—Sério, faça isso. Eu quero tanto quebrar um dos seus braços
agora.

Ele se contorce e eu torço um pouco mais forte. Ele geme


com os dentes cerrados. O suor escorre de sua testa para o chão de
ladrilhos manchado.

Bethy retorna com o varal. —Perfeito. —Digo.

Eu seguro Bean no lugar, e ela envolve o cordão em torno de


seu torso e braços. Depois de envolvê-lo várias vezes, puxo-o com
força, fazendo-o estremecer. Rasgamos várias camisetas em tiras, e
eu as uso para amarrar as cordas nas costas dele em torno de uma
perna da mesa da cozinha. Eu envolvo alguns em torno de sua boca
como uma mordaça para que ele não possa gritar assim que sairmos
e atrair a ajuda dos vizinhos.
Há um brilho assassino nos olhos de Bean enquanto ele me
observa. Estou tão brava com o que ele fez que eu gostaria de
esfaqueá-lo e deixá-lo sangrar bem aqui, sozinho. Mas não consigo
esquecer o bem que ele fez por nós em New York.

Bethy reúne os presentes sob a árvore de Natal improvisada e


espera de olhos arregalados na porta.

Eu me abaixo e olho nos olhos de Bean. —Você nunca mais


nos verá. E se você tentar, eu mato você.

Ele ri com a mordaça. Pego minha faca e descanso a ponta da


lâmina de prata contra sua garganta. Ele continua parado.

—Você chega perto da minha irmã mais uma vez, e eu vou te


matar, Bean. —Seu silêncio é todo o reconhecimento que vou
receber.

—Pegou as minhas chaves? —Pergunto a Bethy.

—Sim. E sua bolsa.

Eu ando de costas para a porta, minha faca ainda está


erguida. —Tenha uma boa vida, Bean. —Digo quando fecho a
porta.

Eu o ouço lutando para se libertar enquanto Bethy e eu


corremos para o carro. Eu o ligo e vou embora, deixando uma
nuvem de poeira atrás de nós.

—Oh meu Deus. —Bethy diz. —Eu não posso acreditar no


que acabou de acontecer.

Eu respiro fundo. —Eu sei.

—Estou com medo, Quinn. Ele tem conexões aqui com


muitas pessoas más. Eu acho que é um cartel.

—Que diabos? —Eu me viro para ela. —Por que você estava
escondendo isso de mim? Você sabe o que poderia ter acontecido
com você?

—Eu estava tentando ser forte. —Ela diz defensivamente. —


Eu sabia que você poderia passar por isso, então eu disse a mim
mesma que eu podia também.

Eu respiro fundo algumas vezes. —Ok. Ok, então vamos


pensar. Ele poderá se desatar e, em seguida, o quê? Ele saberá qual
caminho seguiremos?

—Eu não sei. Como ele poderia?

—Foda-se. —Eu bato minha mão contra o volante. —O


carro tem placas da Pensilvânia. Somos como patos nessa coisa se
ele tiver conexões. Temos que nos livrar disso.

Eu tento observar o cenário ao nosso redor, mas é muito


escuro para ver algo. Estamos em uma estrada de terra e há um
pequeno café nas proximidades.

Não é como New York, onde há tantas pessoas que podemos


nos esconder facilmente à vista de todos. E se Bean nos encontrar,
eu não tenho dúvidas de que ele vai me machucar. A raiva em seus
olhos era inconfundível.

Eu estaciono no café e saímos do carro. Minhas mãos estão


tremendo enquanto pego minha bolsa e pequena mala de viagem do
carro e vasculho-as em busca do meu telefone.

Está enterrado no fundo da minha bolsa, ainda desligado. Eu


agarro na minha mão e olho para cima e para baixo na estrada
verificando o movimento. Não há carros à vista.

—Vamos para trás do prédio. —Digo para Bethy. Seus olhos


estão arregalados de medo, mas ela corre para os fundos do prédio e
tenta parecer não estar.
Encostando na parede, ligo o telefone e para Andrew. Ele
atende no segundo toque.

—Quinn? Tudo certo?

—Não. —Minha voz está embargada. —Estou em apuros.


Eu preciso de você.

—Onde você está?

Eu engulo em seco. Isso é mais difícil do que eu pensava que


seria. Eu confiei em Bean com Bethy, e isso foi um erro. Mas além
de Bethy, Andrew é tudo o que tenho agora, e sei em meu coração
que ele fará tudo ao seu alcance para nos ajudar.

—Eu estou... Eu não sei com certeza. É chamado Barra de


Potosi. Eu não estou longe de Ixtapa. E as coisas correram mal com
Bean. Acho que ele virá atrás de nós e Bethy diz que ele tem
conexões com um cartel aqui em baixo.

Andrew exala profundamente no telefone. —Ok. Você está


na estrada?

—Estou em um carro com placas da Pensilvânia. Estou


preocupada em ser facilmente encontrada nele.

—Sim, deixe o carro.

—Estamos em um lugar bastante rural. E nós não nos


misturamos. Eu não sei o que fazer.

—Você precisa se esconder. E não desligue o telefone


porque vou usá-lo para identificar sua localização. Tente se mover e
ficar tão escondida quanto possível a pé, ok? Vou mandar alguém
para você o mais rápido possível, e também estou a caminho.

—Andrew?

—Sim?
—Se alguma coisa acontecer comigo, prometa que você vai
encontrar Bethy e ajudá-la.

—Nada vai acontecer com você, Quinn.

Eu fecho meus olhos e luto contra as lágrimas. —Apenas me


prometa. Por favor.

Depois de uma pausa, ele diz: —Eu prometo.

Eu respiro mais tranquila —Ok.

—Fique escondida e não responda a ninguém que não tenha


entrado em contato com você por meio desse telefone, ok?

Eu desligo, coloco o celular de volta na minha bolsa e lanço


minhas malas no ombro. —Precisamos andar. —Digo.

À medida que nos afastamos do café, a escuridão torna


impossível ver mais de alguns metros à nossa frente.

—Isso é bom, certo? —Bethy sussurra. —Será mais difícil


para alguém nos encontrar no escuro.

—Sim. —Digo baixinho. —É bom.

Nós nos afastamos da estrada para um terreno rochoso. As


sandálias finas de Bethy dificilmente protegem seus pés, então é
lento.

Eu não quero tirar meu telefone e arriscar a luz nos fazer


sermos vistas, então nós apenas caminhamos em silêncio por cerca
de uma hora. Meu coração ainda está acelerado enquanto repasso o
que aconteceu com Bean. Eu sinto um profundo sentimento de
traição que não posso processar agora.

Sinto um esmagamento debaixo do meu sapato e paro de


andar, sentindo-me mal quando ouço um som de assobio. —Que
porra é essa? —Eu sussurro, curvando-me.
É um lagarto e não é um pequeno. O assobio e a agitação me
fazem pensar se devo soltá-lo debaixo do meu sapato. Assim que eu
pego minha faca, ele consegue se soltar sozinho e se arrasta para a
escuridão.

Se eu estivesse sozinha, eu me sentaria e choraria por alguns


minutos. Mas tenho que ser forte por Bethy. Andamos sem rumo e
tento não pensar no fato de que não temos água e podemos estar
nos distanciando da civilização. Se Andrew não nos encontrar antes
do amanhecer, estaremos em uma situação ruim.

Por enquanto, tudo que posso fazer é colocar um pé na


frente do outro. Encontramos um terreno mais suave e minha
frequência cardíaca finalmente se estabiliza. Eu sei que andamos por
pelo menos algumas horas quando o som do meu telefone apitando
com uma nova mensagem faz com que Bethy pule no ar com
alarme.

—É só o meu telefone, maluquinha. —Digo, lutando para


tirá-lo. Há uma mensagem de um número desconhecido.

Andrew me enviou para ajudar. Estou a menos de


um quilômetro de distância. Procure as luzes e siga em
nossa direção quando as vir.

Eu dou um suspiro de alívio.

—Andrew enviou ajuda. —Digo baixinho. —Alguém está


muito próximo. Devemos procurar as luzes deles. Paramos e
olhamos em todas as direções.

—Lá. —Bethy diz, apontando.

Há uma pequena partícula de luz à distância e nós duas


caminhamos em direção a ela. Dentro de cinco minutos, nos
deparamos com um grupo de dois homens e uma mulher, todos
vestidos de camuflagem e equipados com coletes à prova de balas e
armas.

—Quinn? —A mulher diz para mim, brilhando uma pequena


lanterna na minha direção.

—Sim.

—Eu sou Vanessa Giano, uma amiga de Andrew. Estamos


aqui para te levar.

—Eu não poderia estar mais feliz em ver você. —Digo com
um sorriso fraco.

Um dos homens pega um rádio e fala. Dentro de poucos


minutos, eu ouço um helicóptero se aproximando. Ele pousa e
todos nós entramos nele.

Estou com medo de voar, mas não sinto nada além de alívio
quando estamos nele. Eu gostaria que este fosse o fim do pesadelo,
mas sei que não é. Por mais que eu queira tirar Bethy daqui agora,
também tenho medo de voltar aos Estados Unidos com ela.
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
Andrew

Eu me sinto como um animal enjaulado neste avião. Nós


estamos no ar há horas, e não posso ficar sentado por muito mais
tempo. O texto de Vanessa uma hora atrás que ela tinha Quinn e
Bethy e estava a caminho de El Paso ajudou um pouco, mas eu
preciso ver Quinn com meus próprios olhos antes que eu possa
relaxar completamente.

Foi um inferno não saber se ela estava segura, e receber o


telefonema frenético dela fez o meu mundo cair fundo.

—Começando a nossa aterrissagem agora, Sr. Wentworth. —


Diz o piloto pelo intercomunicador do avião particular. —Cinto de
segurança preso, por favor.

—Já era tempo, porra. —Murmuro, atando o cinto de


segurança.

Leva uma eternidade para pousar. Estou perto de usar o


assento ao meu lado como saco de pancadas quando finalmente
paramos.

Quinn me mandou uma mensagem dizendo que elas estão no


saguão do aeroporto, e eu olho alguns rostos rapidamente enquanto
ando. Então a vejo caminhando em minha direção. Nós corremos
em disparada ao mesmo tempo e nos encontramos em um abraço
feroz. Eu levanto os pés dela do chão e sinto sua respiração quente
no meu pescoço.

—Você está aqui. —Ela diz, parecendo à beira das lágrimas.


—Estou aqui. Boa sorte ao tentar deixar o país sem mim
novamente.

Ela ri baixinho. Quando coloco os pés dela de volta no chão,


ela olha para uma menina morena e franzina. —Bethy, esse é o
Andrew. Andrew, minha irmãzinha, Bethy.

Ela é uma bonita versão mais jovem de Quinn com cabelos


castanhos. —Oi, Bethy. —Digo, estendendo a mão para apertar a
dela.

Ela sorri e aperta minha mão de volta. Eu percebo que


deveria tê-la abraçado. Na próxima vez.

—Senhoras, estamos voltando naquele avião e voando para


New York. —Digo. —Eles estão reabastecendo agora.

—Eu não posso esperar para chegar em casa. —Quinn diz.

Eu amo o som disso. Minha casa é sua casa agora. Nosso Lar.
E é o de Bethy também.

Vanessa está de pé ao lado e, quando encontro seus olhos, ela


se aproxima de nós. —Tudo bem agora? —Ela pergunta.

Eu estendo a mão e a abraço. —Eu te devo muito. Obrigado


por isso.

Ela ri e cobre minha bochecha na palma da mão. —Eu tenho


certeza que ainda sou eu quem te deve.

Eu não posso dizer a Quinn, porque jurei manter as


identidades dos meus parceiros em segredo, mas Vanessa é uma das
cinco pessoas no Circle of Six comigo. Esse é o nome do grupo que
financia as operações do segundo andar no depósito.

—Até mais, Andrew. —Vanessa diz.

Assim que ela recua, eu puxo Quinn de volta em meus braços


e a beijo na boca, despejando toda a preocupação e incerteza das
últimas horas.

Estamos ambos sem fôlego quando ela interrompe o beijo.


—Eu te amo, Quinn. —Murmuro contra seus lábios.

—Eu também te amo.

Embarcamos no avião e Bethy imediatamente vai dormir em


um dos assentos reclináveis. Eu a cubro com um cobertor e me
sento ao lado de Quinn. Ela se aconchega ao meu lado e dorme em
poucos minutos.

***

Algumas horas depois, estou levando Quinn pelo corredor


até o nosso quarto. Apesar de dormir algumas horas no avião, ela
está exausta. Eu também. Eu coloquei Turner no comando para que
Bethy se alimentasse e se acomodasse em seu quarto e cancelei meu
dia no escritório. Estou planejando dormir a manhã toda com
Quinn.

Eu tiro suas roupas, a visto com uma de minhas camisetas e a


deito na cama enquanto tiro minha cueca boxer. Quando subo ao
lado dela e puxo as cobertas sobre nós, ela abre os olhos e olha para
mim na penumbra do quarto.

—Ele é meu padrasto. —Ela diz suavemente.

—Quem?

—É de quem estamos fugindo. Nós somos do Colorado.


Meu nome é Quinn Bradley.

Eu sorrio e envolvo minha palma ao redor de seu quadril. —


Seu sobrenome não é realmente Jones?

Ela sorri de volta. —Não.

—Por que você fugiu? O que ele fez?

Com um suspiro suave, ela enfia o cabelo atrás da orelha. —


Minha mãe se casou com ele alguns anos depois que meu pai
morreu. Ela desperdiçou muito dinheiro e Paul, meu padrasto, é
rico. Eu nunca gostei dele. Eu tinha acabado de fazer dezesseis anos
e estávamos na cozinha um dia e... —Ela faz uma pausa por alguns
segundos. —Ele esfregou sua ereção contra a minha bunda quando
eu estava chegando em um armário da cozinha. Me assustou
totalmente. Ele me agarrou e disse que eu precisava parar de sacudir
minha bunda na frente dele e era hora de fazer algo sobre isso.

Um nó de raiva se forma no meu peito. —Eu sinto muito,


Quinn. Ele...?

—Peguei uma panela do fogão, bati na cabeça dele e saí


correndo da cozinha. Ele rugiu como um louco. Eu nunca
esquecerei isso. E então ele disse: —Você vai pagar por isso, sua
putinha. Corra o quanto quiser. Não há como escapar de mim.

—Jesus, que idiota.

—Ele é. Descobri alguns dias depois qual era o preço quando


o peguei no quarto de Bethy enquanto ela dormia. Ele puxou as
cobertas para baixo e... ele estava se masturbando ao lado da cama
dela.

—Puta merda.

—Eu disse à minha mãe e ela ficou com muita raiva de mim.
Ela disse que eu estava mentindo e estava simplesmente louca por
ela se casar novamente. Eu não senti como se tivesse alguma opção.
Meu pai me pediu antes de morrer para eu sempre cuidar de Bethy.
Eu não podia deixar Paul... Eu senti como se tivéssemos que fugir.

—Sim, eu posso ver o porquê.

Seus olhos estão se fechando. —Eu só queria que você


soubesse. Sem mais segredos.

—Sem mais segredos. —Digo, beijando sua testa. —Nunca


mais.

—Há mais uma coisa que preciso te dizer. —Ela diz


suavemente.

—O que é?

—Meu padrasto... ele é Paul Shriver.

Eu só olho para ela por alguns segundos, conforme a


descrença se instala. —Paul Shriver? O senador?

—Sim.

Porra. Isso complica as coisas. Eu não quero que ela saiba


que estou chocado com isso, então beijo sua testa novamente. —
Apenas durma, querida. Vamos para a Europa amanhã. Nós três.
Acabou.
CAPÍTULO VINTE E CINCO
Quinn

Eu enfio o último dos meus artigos de higiene pessoal na


minha mala e a fecho. Está realmente acontecendo. Eu não tenho
que escolher entre Andrew e Bethy, agora posso ter os dois.

Dawson levou Bethy para comprar roupas e outros itens


essenciais para Paris, para que eu possa arrumar minhas coisas e as
de Andrew e podermos voar esta noite.

Vou sentir falta do armazém, do abrigo, de Turner e de


Anna. Uma grande parte de mim vai sentir falta desta cidade porque,
mesmo com suas arestas, manteve Bethy e eu juntas e em segurança
por mais de quatro anos.

Nós não estávamos a salvo da fome, do frio ou da doença.


Nós não estávamos nem a salvo de ameaças de violência. Mas essas
coisas eram melhores do que as que Paul tinha em mente. Acho que
meu pai ficaria orgulhoso de sua filha de dezesseis anos conseguir
enganar um senador dos EUA com nada além de um cérebro e 180
dólares ganhos trabalhando como babá no bolso.

Nossas malas estão cheias, e tudo que preciso fazer agora é


guardar as poucas coisas do Midas. Nós o levaremos conosco, é
claro, e quero que ele tenha sua cama e cobertor favorito.

—Midas, onde você está? —Chamo enquanto entro na sala


de estar.

Eu o vejo enrolado no sofá dormindo, e caminho até ele para


acariciá-lo. Antes de alcançá-lo, uma mão envolve minha cintura.
—Olá, Quinn.

Não pode ser. Não pode ser possível. Não aqui, no meu lugar seguro.
Minha casa.

Eu me viro e encontro o olhar sombrio e calculista do meu


padrasto. Ele tira um pedaço de papel do bolso e desdobra-o,
sorrindo. É uma impressão de uma foto de uma revista on-line.
Andrew está me beijando na testa. Eu estou com o vestido creme na
foto, então tem que ser do evento que nós fomos. Steve
aparentemente não comprou todas as fotos.

Eu não sou mais uma garota de dezesseis anos. Eu vou manter meu
queixo erguido e não vou deixar ele me ver chorar.

—Seu jogo de perseguição é forte. —Digo, cruzando os


braços sobre o peito. —O que mais você quer que eu diga?

—Eu tenho que dizer que estou surpreso com você, Quinn.
Você deve ter algo quente entre as coxas para agarrar Andrew
Wentworth.

—Vai se foder.

O papel cai de sua mão e flutua para o chão enquanto ele


avança em minha direção, seu rosto torcido em uma máscara de
raiva.

—Você pensou que poderia me enganar, sua putinha, mas


você não pode. Eu encontrei você. Chega de fugir, Quinn.

Suas mãos estão estendidas e sei que ele vai me sufocar. Eu


olho em volta freneticamente. Não há nada ao alcance neste
momento. É só ele e eu.

Eu sorvo um pouco de ar e abaixo meu centro de gravidade.


Ele está a poucos metros de mim quando digo as únicas palavras
que podem me salvar agora.
“David Alan Wentworth.”

Eu praticamente grito quando o medo passa por mim.


Espero que tenha sido alto o suficiente. Paul envolve suas poderosas
mãos no meu pescoço e interrompe a minha capacidade de respirar.

Eu tento dar uma joelhada nele, mas meus pés estão


pendurados no ar. Eu não tenho tempo. Eu estou arranhando as
mãos dele ao redor do meu pescoço, mas não é o suficiente. Seu
rosto se torna um redemoinho de cores que se desvanece em cinza.
Minhas mãos estão fracas demais para lutar mais. Estou apagando.
Meus olhos se fecham e cedo à atração da escuridão.
CAPÍTULO VINTE E SEIS
Quinn

Eu ouço a voz de um homem.

—Quinn? Abra seus olhos para mim. Você está segura.


Andrew está a caminho.

Quando levanto as pálpebras, vejo o rosto do segurança de


Andrew, Steve. Ele está ajoelhado ao meu lado. Minhas mãos
instintivamente vão para a minha garganta, que ainda está
queimando.

—Não toque. —Steve diz, abaixando minhas mãos. —Você


está bem.

Eu começo a sentar, procurando de um lado para o outro


pelo meu padrasto. —Onde está Paul? —Minhas palavras saem em
um coaxar.

—Ele está contido. Deite-se, ok?

Seu tom é tão reconfortante que deixo minha cabeça cair de


volta no sofá. Meu pescoço está latejando e ainda sinto o terror de
não poder respirar.

Paul está aqui. Ele está dentro do armazém. Eu tenho que


manter meu olhar em Steve para acalmar meu coração batendo
loucamente e lembrar-me que estou segura.

Alguns minutos depois, ouço Andrew gritando meu nome na


cozinha. Parece que ele acabou de sair da garagem e está procurando
por mim.
—Onde ela está? Você o pegou? —Sua voz é frenética.

Steve se levanta. —Ela está aqui. Nós o colocamos amarrado


em seu escritório.

O olhar de Andrew pousa em mim e seus olhos se arregalam.


—Que porra aconteceu?

Ele se inclina e me puxa em seus braços. Estou dolorida, mas


preciso que ele me abrace forte agora, então não estremeço.

—Bethy. —Sussurro em seu ouvido. —Ele não pode saber


que ela está aqui.

—Eu mandei uma mensagem para Dawson enquanto vinha


até aqui. —Andrew sussurra de volta. —Ele vai levá-la para algum
lugar seguro.

Eu quero relaxar, mas não posso. As lágrimas vêm fortes e


rápidas. Andrew mantém seus braços ao meu redor enquanto choro
contra a camisa branca dele.

—Tudo bem. —Ele diz suavemente. —Estou aqui agora.


Você está segura.

—Você não pode me proteger disso. —Queima minha


garganta para falar.

—Sim, eu posso. Eu vou tirá-la do país dentro de algumas


horas. Confie em mim, ok?

—E quanto a Paul?

—Eu vou cuidar dele. Você sobe e descansa.

—Eu vou com você.

Andrew sacode a cabeça. —Você não precisa estar lá para


isso, Quinn.
—Sim, eu sei. Nós dissemos chega de segredos, não é?

Ele arqueia suas sobrancelhas em um olhar cético. —Ok, se é


isso que você quer.

—Eu quero sufocar esse bastardo. —Digo. —Ele quase me


matou.

Andrew me libera e olha para Steve. —Como diabos ele


entrou aqui?

—Ele mostrou sua identidade do Senado para Micah e disse


que ele tinha uma reunião com você.

—Ninguém entra aqui sem escolta. Ninguém. Demita Micah e


lembre-o do acordo de confidencialidade que ele assinou quando
você o contratou.

—Sim, senhor. —Steve diz. —Mas... Eu acho que você


deveria me demitir também.

—Eu deveria. —Andrew diz. —Isso não deveria ter passado


por você.

Steve acena e me dá um olhar de dor. —É minha culpa.

—O que você quer dizer? —Pergunto.

—Encontramos uma impressão de uma foto de uma revista


on-line no chão da sala de estar. É daquele evento em que você foi
fotografada. Eu deveria comprar todas e, obviamente, perdi uma.
Deve ter sido assim que ele te encontrou. Eu sinto muito.

Andrew suspira pesadamente. —Vamos apenas limpar essa


porra de bagunça, ok?

Ele pega minha mão e nós três voltamos para o escritório de


Andrew. Quanto mais nos aproximamos, mais forte se torna a
sensação de mau presságio. Parece que Paul estava certo. Não havia
como escapar dele.

Pelo menos Bethy está a salvo. Eu agarro a mão de Andrew e


me lembro de que, se Paul não conseguir encontrá-la, não posso me
meter em problemas legais. Esperançosamente. Paul é um homem
muito poderoso.

Paul olha de cara feia para nós do chão, com as mãos e os pés
amarrados com cordas finas.

—Eu exijo ser libertado. —Ele diz. —Você está mantendo


um senador dos Estados Unidos em cativeiro.

Andrew parece despreocupado. —Estou segurando um


intruso na minha casa até as autoridades chegarem.

—Você não ligou para a polícia. —Paul diz, praticamente


rosnando. —Mas eu liguei antes de chegar aqui. Eu disse que se eles
não tivessem uma resposta minha dentro de uma hora, eles
deveriam vir aqui para investigar.

—Que bom você denunciar sua invasão da minha casa. —


Andrew diz. —Me poupa o problema.

—Eu fui autorizado a entrar.

—Sob que pretexto?

Eu interrompo. —O que você quer, Paul? Eu sou adulta


agora, e não quero nada com você ou minha mãe.

—Nós esquecemos você há muito tempo. —Ele diz com um


sorriso de escárnio. —É Bethy quem queremos de volta. Deus sabe
o que você fez.

—Eu a salvei de sofrer agressão sexual de você, seu bastardo


doente. —Eu respondo.

—Deixe-me ir. —Paul diz para Andrew. —Você não sabe


quem realmente é Quinn. Ela é uma jovem muito problemática.

Andrew alcança as cordas amarradas em torno dos pulsos de


Paul pelas costas e o levanta até ficar de pé. Ele bate a cara dele
primeiro na parede, e Paul grita de dor.

—Mantenha a porra da boca fechada. —Andrew diz em um


tom baixo e ameaçador.

Steve olha para a tela do celular e olha para Andrew. —Há


pessoas na frente. Devemos deixá-los entrar?

—Pode ser a polícia. —Andrew diz, olhando para mim. —


Claro, deixe-os entrar.

Todos saímos do escritório de Andrew e entramos na sala de


estar. Paul na verdade salta já que seus tornozelos estão amarrados.
Eu mantenho minha mão conectada com a de Andrew, precisando
sentir sua presença ao meu lado.

Quando chegamos à sala de estar, a porta da frente se abre e


Dawson entra com Bethy. Seus olhos deslizam para Paul por apenas
um segundo. É quase imperceptível.

—Que porra você está fazendo aqui? —Andrew exige,


olhando para Dawson.

Eu olho para minha irmã e me sinto tonta. Ela vê Paul e a cor


esvai-se de seu rosto. —Estou trazendo Bethy de volta. —Dawson
diz. —Há algum problema?

—Enviei-lhe outras instruções. —Andrew diz bruscamente.

—Eu devo ter perdido essa.

Andrew sacode a cabeça. —O que diabos você fez, Dawson?


Você nos vendeu para esse cara?

Dawson zomba. —Era só uma questão de tempo, de


qualquer maneira. Quinn está se preparando para assumir o controle
desde que se mudou para cá. —Ele se vira para mim. —Eu gostaria
de ter continuado andando quando vi você tendo um colapso
naquela calçada.

—Tire Quinn e Bethy daqui. —Andrew diz para Steve. Steve


concorda e Andrew se vira para mim.

—Ele vai mantê-las seguras. —Ele diz em um tom baixo.

—Você não vai levar a minha filha. —Paul diz para Steve,
lutando com as amarras em seus pulsos. —Você não quer sequestrar
a filha de um senador, não é?

Steve o ignora. Eu vou para Bethy e envolvo meus braços ao


redor dela. Ela está tremendo. Isso deveria ter acabado, e agora está
explodindo em nossos rostos.

—Nós vamos ficar bem. —Digo, tentando convencê-la e a


mim mesma.

Mas então ouço vozes na porta da frente e percebo que não.


É a polícia. Paul aparentemente não estava blefando em chamá-los.

Bethy explode em lágrimas. Estou muito chateada para


chorar neste momento. Estou apenas dormente. Nós estávamos tão
perto da liberdade, mas agora tudo acabou.
CAPÍTULO VINTE E SETE
Andrew

Paul Shriver é um idiota de classe A. Eu já sabia disso pelo


que Quinn me disse e pelo que o investigador particular que
coloquei me contou. Mas ele prova isso novamente quando a polícia
entra no armazém.

—Eu sou o senador Paul Shriver. —Ele diz arrogantemente.


—E essa é minha filha, Bethy Bradley. Ela foi sequestrada de minha
casa há quatro anos.

—Eu não sou sua filha. —Bethy diz.

Quinn está com os braços protetoramente em torno de sua


irmã, e meu amor por ela fica mais forte. Ela é a pessoa mais
altruísta que eu já conheci.

—Ela sofreu uma lavagem cerebral. —Paul diz, sacudindo a


cabeça com desgosto.

Eu falo com os três policiais uniformizados da NYPD na


minha sala de estar. —Este homem invadiu minha casa e sufocou
minha namorada. Eu tenho o vídeo.

Os olhos de Paul se arregalam. Espero que ele esteja cagando


nas calças agora. Eu decido adoçar este momento um pouco mais e
mostrar a Quinn que esse bastardo não é intocável.

—Eu sei mais sobre você do que você imagina, senador. —


Digo a ele. —Suas negociações com a Cargill. Melissa Shaw. Quer
que eu esclareça a todos?
—Não. —Ele me dá um olhar assassino.

—Bethy vai ficar com a gente. —Eu não deixo espaço para
dúvidas. —Estou certo de que a reivindicação da pessoa
desaparecida será descartada. E como isso está resolvido, não acho
que tenhamos necessidade da polícia, não é, Paul?

Após alguns segundos de silêncio, ele diz: —Suponho que


não. Me solte e sairei com os oficiais.

—Opa. —Um dos oficiais diz, levantando a mão. —Não


vamos sair daqui sem conseguir que algumas coisas sejam
respondidas.

—Foi tudo um mal-entendido. —Paul diz. —Fui eu quem


ligou para você e peço desculpas, oficiais.

—Precisamos conversar com a garota em particular. —Diz o


policial.

Quinn me lança um olhar questionador e eu aceno. Os


policiais levam Bethy para a cozinha e conversam com ela.

Inclinando-se para sussurrar no meu ouvido, Quinn pergunta:


—Quem é Melissa Shaw?

—Eu vou te dizer mais tarde.

Ela balança a cabeça e envolve os braços em volta de si


mesma. Eu a puxo em meus braços e a seguro perto até que os
oficiais retornam para a sala de estar com Bethy alguns minutos
depois.

—Ok. —Diz um deles, balançando a cabeça. —Se ninguém


quiser fazer uma reclamação, acho que terminamos aqui.

—Leve esta merda com você. —Digo, apontando para Paul.

—Bethy, sua mãe sente sua falta. —Paul diz. —Pelo menos,
ligue para ela e deixe-a saber que você está segura.

Bethy balança a cabeça. —Você pode dizer a ela que estou


segura. Eu não quero falar com ela.

Steve corta os laços das mãos de Paul e ele sai com os


policiais. Quinn me dá um olhar interrogativo assim que a porta se
fecha atrás deles.

—É isso? —Ela pergunta, com a testa franzida de descrença.

—É isso aí. Eu coloquei uma equipe de investigação nele


ontem à noite, logo depois que você me disse o nome dele. Ele fez
coisas antiéticas e ilegais para beneficiar uma empresa de petróleo
que lhe manda cheques de seis dígitos a cada trimestre. Ele também
bateu numa prostituta no ano passado e pagou a ela para ficar quieta
sobre isso.

Quinn balança a cabeça tristemente. —Eu não posso dizer


que estou surpresa.

—Isso significa que não vamos para Paris? —Bethy pergunta,


olhando entre Quinn e eu.

—Nós ainda podemos ir, se você quiser. —Digo. —Pode ser


bom ficar longe por um tempo.

—Podemos esperar? Eu preciso recuperar o fôlego. —Quinn


diz. —Entre Paul e Dawson e apenas... tudo mais, eu estou exausta.

Eu aceno, pensando sobre o que precisa ser feito agora que


Dawson e Micah foram demitidos. Preciso ligar para o meu
advogado e reprogramar o programa de reconhecimento facial para
alertar a segurança em alto nível, caso algum deles entre na
propriedade.

—Bethy pode ir para a escola agora. —Quinn diz, lágrimas


brilhando em seus olhos. —E podemos obter identidades em
nossos nomes reais. Eu nunca pensei...

Ela pressiona a palma da mão na boca e lágrimas escorrem


por suas bochechas. Está tudo batendo nela agora.

—Eu nunca realmente pensei que iria acabar —Ela diz


suavemente. —Não a menos que nos encontrassem e tivéssemos
que voltar.

Eu a pego em meus braços e a seguro perto de mim. —Está


tudo acabado agora. Vocês não terão que olhar sobre seus ombros
nunca mais.

Ela chora mais forte e percebo como raramente vi esse lado


vulnerável dela. Estou pronto para mostrar a ela minhas
vulnerabilidades também. Quando Bethy sobe para descansar em
seu quarto e Steve retorna a segurança do armazém, eu me sento no
sofá e puxo Quinn para o meu colo.

—Você sabe por que eu moro aqui? —Pergunto.

—Você quer dizer em New York?

Eu sacudo minha cabeça. —Não, no armazém.

—Porque você gosta de segurança.

—Isso é verdade. —Eu admito. —E eu também precisava de


espaço para... as coisas no andar de cima. Mas eu preciso viver e
trabalhar no nível do solo. Eu tenho uma coisa sobre edifícios altos
por causa do 11 de setembro.

Ela pressiona seus lábios no meu pescoço em um beijo suave.


—Isso é completamente compreensível.

—O mesmo com as janelas. Eu sempre fui um pouco


obcecado com segurança porque... Eu nem sei porque. Meu pai se
foi, e isso me fez sentir mais perto dele para me proteger de ter a
mesma coisa acontecendo comigo.

—Eu não acho que alguém iria culpá-lo por isso.

Eu suspiro contra seu cabelo macio. —Eu só queria dizer


que eu tenho minhas fraquezas, sabe?

—Obrigada. Eu te devo minha vida, Andrew. E Bethy


também. Ninguém nunca cuidou de mim do jeito que você cuida.

—Eu sempre vou. Você está presa comigo.

Ela ri e sinto seu hálito quente no meu pescoço. —Você está


preso comigo também. Eu te amo. Você me faz querer ser uma
pessoa melhor.

—Você já é uma das melhores.

Eu fecho meus olhos e absorvo seu perfume suave e doce e o


calor dela contra mim. Eu nunca pensei que o gelo que se formou
em meu coração no 11 de setembro pudesse ser derretido, mas
Quinn mudou tudo.

Depois que meu pai morreu, eu comecei a lutar por causa do


ódio dentro de mim. Mas percebo agora que o amor é a única coisa
pela qual vale a pena lutar. Quinn quebrou minhas paredes, e eu
nunca quero erguê-las de volta.
CAPÍTULO VINTE E OITO
Quinn

É sábado e Andrew não está trabalhando. Espero que este


seja o começo de muitos fins de semana de dois dias para nós. Esta
manhã, acordei com o roçar de sua barba rala em minhas coxas sob
os lençóis em nossa cama. Depois de me dar dois orgasmos
incrivelmente bons e um sexo lento e sensual, ele me disse para
tomar um banho rápido, porque tinha planos para o dia.

Nós levamos Bethy para um restaurante local para tomar café


da manhã e, em seguida, compramos móveis para seu quarto e
roupas para quando ela começar a escola na próxima semana. Fiquei
surpresa por Andrew suportar três horas na loja Old Navy, mas ele
foi um campeão. Ele quer que Bethy saiba que ele se importa, e isso
significa o mundo para mim.

Tem sido fácil me adaptar a essa nova vida. Estou relaxada o


tempo todo agora e mais feliz do que jamais pensei ser possível.
Quando voltamos para casa, Bethy e eu levamos Midas para passear
e me sinto leve.

—Eu vou ser a aluna mais idiota do segundo ano de todos os


tempos. —Bethy diz suavemente. Midas está farejando um banco na
calçada e eu paro de andar e me viro para minha irmã.

—Você não vai. —Digo com firmeza. —Os tutores que


Andrew contratou vão te atualizar em pouco tempo.

Ela me dá um sorriso nervoso. —Estou mais animada. Eu


não posso acreditar que esta é a nossa vida agora.

Nós retomamos a caminhada, e eu coloco um braço ao redor


de seus ombros. —Eu sei. É incrível. Mas também estou voltando
para a escola. Eu vou fazer um supletivo e depois começar a
faculdade. Eu quero provar para mim mesma que posso fazer isso e
algum dia fazer algum tipo de trabalho que importe. Nunca planeje
encontrar um homem para cuidar de você. Em um bom
relacionamento, vocês cuidam um do outro.

Bethy olha para mim, com uma expressão sombria. —Eu


nunca lhe agradeci pelo que você fez. Você desistiu de tudo... —
Seus olhos se enchem de lágrimas. —Só para me proteger.

—Só? —Eu aumento meu aperto em seus ombros. —


Proteger você valeu a pena. E nós duas somos mais fortes por causa
do que passamos. Mais compassivas também. Nunca menospreze os
outros porque você tem mais. São apenas oportunidades e
circunstâncias que dividem os que têm os que não têm na maior
parte do tempo.

—Eu quero ser médica. —Bethy diz suavemente. —Talvez


trabalhe em uma clínica para os sem-teto.

—Você seria incrível nisso. —Digo enquanto subimos os


degraus para o armazém. Eu introduzo o código e entramos, onde
os aromas salgados de carne e especiarias nos cumprimentam.

—Oi. —Andrew diz, olhando para cima da ilha de cozinha,


onde está cortando algo em uma tábua. —Estou fazendo ensopado
de carne.

—Huum. —Eu tiro meu casaco, ando até a cozinha, e


envolvo meus braços em volta de sua cintura por trás. —Humm,
você está quente.

Ele se vira e beija minha testa. —Temos companhia para o


jantar.

—Oi, Quinn. —Diz a mãe de Andrew do outro lado da


cozinha.

—Oh. —Eu me solto de Andrew e olho para ela


cautelosamente. —Oi.

Ela está descascando maçãs na frente de um balcão da


cozinha, e abaixa a faca e se vira para mim com um leve sorriso.
Depois do nosso último encontro, tenho uma sensação de pavor na
boca do estômago.

—Eu quero me desculpar com você. —Ela diz, com os olhos


nos meus. —Eu fui rude e crítica. Quando Andrew me contou
como você veio a New York e pelo que passou, fiquei com
vergonha de mim mesma. Eu admiro sua força e coragem, Quinn, e
eu adoraria uma segunda chance.

Estou surpresa. Por alguns segundos, apenas olho para ela.


Então eu olho para Andrew e vejo esperança em seus brilhantes
olhos azuis.

—Claro. —Eu finalmente digo, limpando a garganta. —


Gostaria disso.

Ela acena e então se apresenta para Bethy. Eu fico chocada


quando ela envolve seus braços em volta da minha irmã em um
abraço.

Estou ao lado de Andrew na ilha, pegando a pilha de cascas


de cenoura e colocando-as em uma tigela para jogar fora. Ele se vira
para mim, e quando olho para ele, que se inclina e me beija
suavemente nos lábios.

—Obrigado. —Ele sussurra.

Eu fico na ponta dos pés e me inclino para beijá-lo


novamente. —Amo você.

—Também te amo.
Eu vejo emoções nadando em seus olhos. Há carinho, luxúria
e ternura. Eu posso dizer apenas pelo seu olhar que vamos dormir
bem suados depois de sexo incrível hoje à noite.

Eu passei do meu ponto mais baixo para o meu mais alto em


questão de meses. De sentir-me desamparada sobre o futuro para
me sentir esperançosa sobre isso. Meu Príncipe Encantado nem
sempre é doce, e ele ainda está aprendendo a amar. Mas ele é meu,
eu sou dele e não mudaria nada.
EPÍLOGO
Quinn
Um ano depois

Andrew me dá um sorriso tenso quando o elevador começa


sua subida. Ele está apertando minha mão e batendo o seu sapato
preto polido no chão do elevador.

—Não precisamos fazer isso. —Lembro a ele.

—Eu estou bem. —Ele não olha para mim quando diz isso,
então eu sei que ele tem uma ferida aberta. E isso não é bom.

Sua ideia de ir ao topo do Empire State Building me


surpreendeu. Algumas semanas atrás, ele me disse para colocar isso
na minha agenda para hoje à noite, e meu coração se apertou pelo
olhar sério em seu rosto.

—O... Empire State Building? —Eu disse, minhas


sobrancelhas arqueadas. —Sério?

—Sim.

Não é que Andrew nunca vá para os andares superiores de


prédios altos. Muitas vezes ele tinha que ir a reuniões de trabalho ou
visitar a casa de sua mãe. Mas isso era diferente. Ele escolheu este
lugar para enfrentar seus medos. Estar no topo de um prédio com
mais de trezentos metros de altura, e do lado de fora, nada menos,
não era algo que ele fazia desde antes de seu pai morreu.

—Eu te disse que terminei de escrever essa papelada? —


Pergunto a ele, esperando distraí-lo.
Ele olha para mim. —Sim? Eu gostaria de ler.

—Claro. Seu amigo foi um ótimo recurso para isso.

Eu entrevistei um dos ex-parceiros de negócios do Andrew


do Circle of Six. Ele era um especialista em contraterrorismo que me
ajudou a entender o clima político atual no Oriente Médio. E
quando ele me contou sobre perder seu filho no 11 de setembro, eu
vi em seus olhos a mesma dor que vi em Andrew quando ele falou
de seu pai.

Quando Andrew se retirou do Circle of Six, oito meses atrás,


ele virou uma página em seu processo de luto. Matar terroristas
nunca lhe trouxera a paz que procurava. Agora ele honrava a
memória de seu pai de uma nova maneira.

A Fundação David Wentworth financiava um acampamento


de verão para crianças que perderam um dos pais. Estávamos
supervisionando a construção de novas cabanas em um grande
terreno que compramos para o acampamento. O edifício principal
ficaria pronto a tempo para o primeiro grupo de campistas neste
verão, e incluía uma suíte para nós.

O elevador diminui e depois para. Nosso ascensorista acena e


saímos, Andrew mantendo seu aperto na minha mão. Ele pediu um
favor para nos fazer uma viagem particular depois do expediente
aqui, então estamos sozinhos.

É uma noite de inverno, e minha respiração cessa diante do


meu rosto enquanto admiro a vista e suspiro.

—É espetacular. —Digo.

Andrew olha para a cidade silenciosamente. Seus olhos se


enchem de emoção, e eu levo sua grande mão até meus lábios para
beijar seus dedos.
—Pensando em meu pai. —Ele diz suavemente.

—Ele ficaria orgulhoso de você agora.

Um leve sorriso surge em seus lábios enquanto ele olha para


mim. —Ele teria amado você. —Seu sorriso se amplia. —Você sabe
o que é bom?

—O quê?

—Eu não estou pensando em sua morte. Estou pensando em


uma história que ele me contou certa noite quando eu não conseguia
dormir. —Seus olhos dançam de felicidade. —Eu tinha seis ou sete
anos na época, acho.

—Sobre o que foi?

Ele olha de um lado para o outro, contemplando a vista do


horizonte novamente. —Foi sobre este lugar. —Ele se vira para
mim e roça um polegar sobre os meus lábios. —Este é o lugar onde
ele pediu a minha mãe em casamento.

Quando ele enfia a mão no bolso, meu coração bate


descontroladamente. Quando ele se ajoelha, eu pisco e sinto
lágrimas quentes nas minhas bochechas frias.

—Andrew. —Sussurro.

Lágrimas brilham em seus olhos. —Quinn Bradley, eu te amo


com todo meu coração. Você transformou esse filho da mãe
controlador em um filhote apaixonado, e eu não poderia estar mais
feliz com isso. Você quer se casar comigo?

Deslizo o polegar pelas minhas bochechas e aceno com a


cabeça freneticamente. —Sim, Andrew, mil vezes sim.

Ele se levanta e me puxa em seus braços, me girando ao


redor. Eu sinto que meu coração pode explodir de alegria neste
momento.

Quando ele me coloca de volta no chão, desliza um simples


solitário quadrado em uma faixa de platina no meu dedo.

—Era da minha mãe. —Ele diz, com a voz rouca de emoção.

Gina Wentworth se tornou uma mãe para mim em todos os


sentidos. Como Andrew, ela é ouro puro sob sua fachada dura.

—Tenho a honra de usá-lo. —Digo, enxugando outra rodada


de lágrimas. —Está perfeito.

O ascensorista se aproxima com uma taça de champanhe em


cada mão. Ele as passa para nós e depois caminha de volta para o
elevador para nos dar privacidade.

—Você pensou que eu estava nervoso por estar aqui em


cima. —Andrew diz para mim. —Mas eu estava mais nervoso em
te pedir em casamento.

Eu me inclino para perto, olhando para o rosto com uma


barba escura. —Como você pode não saber que eu diria sim?

—Você nunca sabe até que seja feito. —Ele diz com um
encolher de ombros. —E eu queria que fosse perfeito.

—Foi.

—A nós. —Ele diz, tilintando sua taça levemente contra a


minha.

—A nós. —Eu sorvo o champanhe frio e borbulhante e


admiro o anel brilhante no meu dedo.

—Você sabe, eu pensei que estava te salvando de uma vida


nas ruas. —Andrew diz, sorrindo ironicamente e balançando a
cabeça. —Mas foi você quem me salvou.
Eu dou de ombros e sorrio para ele. —Eu sou uma Cinderela
moderna. Acho que devemos nos revezar salvando um ao outro.

Andrew me beija gentilmente. —Nós devemos.

—E nós vamos.

—Para sempre.

—Você não se importa se eu usar minha faca de caça debaixo


do meu vestido de noiva, não é? —Eu pergunto com um sorriso
brincalhão.

Ele ergue uma sobrancelha divertida. —Podemos precisar


discutir isso.

FIM

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