Capítulo 1: Um Novo Começo
A cidade de Everhill, escondida entre as montanhas de Vermont,
exalava a tranquilidade típica de um pequeno paraíso do interior.
Conhecida por sua renomada universidade, a Everhill College, atraía
estudantes de diferentes partes do país, mas conservava aquele ar
acolhedor de quem sempre soube manter suas tradições.
Cecília desceu do táxi com sua mala e uma mochila. O sol de outono
iluminava o campus, destacando os tijolos vermelhos das construções
históricas e as árvores cujas folhas já começavam a se tingir de
dourado. Mesmo com aquele cenário de revista, ela sentia uma leve
ansiedade. Uma mudança de cidade, uma nova rotina, e agora…
novas pessoas.
Enquanto caminhava pelo gramado em direção ao prédio principal,
seu olhar capturou dois rapazes rindo próximos a uma bicicleta caída
no chão. Um deles, atlético e despojado, usava uma camiseta surrada
de time de futebol e parecia não se preocupar com o mundo. O outro,
mais sério e com óculos de armação preta, segurava um caderno e
analisava algo na tela do celular.
Eles não perceberam sua presença imediatamente, mas Cecília
desviou o olhar rápido, fingindo estar ocupada em encontrar sua sala.
Na primeira aula, Cecília se acomodou em um dos lugares
disponíveis. O professor ainda não havia chegado, e as conversas ao
redor formavam um burburinho constante. Foi quando um grupo de
garotas populares – do tipo que dominava os corredores como se
fossem passarelas – entrou. Risadas abafadas começaram a surgir, e
Cecília percebeu que era o centro das atenções delas.
— Gostou do interior, novata? — disse uma delas, com um tom
carregado de ironia. — Espero que esteja pronta para se acostumar.
Aqui não é lugar para qualquer uma.
As outras riram em coro. Cecília tentou ignorar, mas sentiu o rosto
queimar.
— Ei! — a voz firme e alta veio de trás. Era Rafa. Ele estava de pé,
com um meio sorriso e uma sobrancelha arqueada. — Que tal vocês
guardarem a comédia para depois da aula?
Peter, que vinha logo atrás, ajeitou os óculos e completou, com um
tom mais contido, mas igualmente certeiro:
— Além disso, não é muito inteligente zombar de quem você ainda
nem conhece. Pode ser embaraçoso se ela for melhor que vocês na
próxima prova.
O silêncio tomou conta do lugar. As garotas se entreolharam, sem
reação, e se retiraram com um revirar de olhos teatral.
Cecília, ainda surpresa, olhou para os dois rapazes. Um sorriso
pequeno e sincero escapou antes que ela pudesse evitar.
— Obrigada.
Rafa deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais natural do
mundo.
— Relaxa. Elas adoram esse teatro todo.
Peter estendeu a mão, apresentando-se formalmente.
— Peter. Este é o Rafa. E você?
— Cecília — respondeu ela, ainda um pouco tímida, mas já sentindo
uma pequena conexão com aqueles dois.
Daquele momento em diante, algo mudou. As conversas que
começaram como troca de nomes e perguntas triviais logo evoluíram
para histórias e risadas. Rafa contou sobre os tempos em que ele e
Peter jogavam futebol no parque, enquanto Peter revirava os olhos,
corrigindo as partes em que Rafa "exagerava". Cecília, por sua vez,
compartilhou fragmentos de sua vida na antiga cidade.
O primeiro dia de aula terminou com os três saindo juntos, já com a
sensação de que haviam encontrado algo raro naquele campus
enorme: amizade.
Capítulo 2: A Estrada
Os dias tinham se transformado em uma rotina compartilhada para
Cecília, Rafa e Peter. Eles já não eram apenas colegas ou amigos, mas
quase uma pequena família escolhida. Fosse uma tarde no cinema ou
um fim de semana no parque, eles estavam sempre juntos. O vínculo
deles era tão forte que até as famílias haviam se conhecido em
jantares descontraídos.
Mas agora, uma nova ideia pairava no ar. A proposta veio numa tarde
chuvosa, enquanto os três jogavam conversa fora no sofá da sala de
Cecília.
— Já ouviram falar no resort Ravenwood Springs? — perguntou
Rafa, olhando para o celular com um sorriso travesso.
Cecília, que estava mexendo no colar com a inicial de seu nome,
arqueou uma sobrancelha.
— Aquele lugar cheio de lendas macabras? Você tá falando sério?
Peter ajeitou os óculos e respondeu antes de Rafa:
— Macabras, não. Absurdas. Assassinos, fantasmas, maldições...
Essas histórias não fazem sentido. Alguém provavelmente inventou
tudo isso para manter adolescentes longe.
— Exato! — Rafa apontou para Peter, rindo. — E nós somos
exatamente os adolescentes que ignoram essas coisas.
Cecília revirou os olhos, mas não conseguiu conter um sorriso.
— Então você quer que a gente vá para um lugar no meio do nada,
que supostamente é assombrado, só porque achamos que é mentira?
— Sim. — Rafa e Peter responderam em uníssono, e Cecília não
conseguiu segurar a risada.
O plano estava feito: eles passariam o fim de semana em
Ravenwood Springs, uma cidade vizinha conhecida pelo resort que
havia sido um ícone luxuoso nos anos 60, mas agora carregava um ar
de mistério e decadência.
Na noite da viagem, o céu estava carregado de nuvens escuras, e a
chuva caía de forma constante, ritmando o ambiente com seu som
contra as janelas. Na casa de Cecília, sua mãe, Dona Helena, estava
na cozinha, preparando sanduíches para os três.
— Eu ainda acho uma loucura vocês irem para aquele lugar —
comentou Helena, enquanto passava manteiga em um pedaço de
pão. — Mas vocês são jovens e teimosos. Quem sou eu para impedir?
Cecília riu, pegando um pedaço de sanduíche já pronto.
— Relaxa, mãe. Vamos estar juntos. E eu prometo não deixar esses
dois fazerem nenhuma besteira.
— Ei! — Rafa protestou do sofá. — Eu sou sempre responsável.
Helena lançou um olhar cético para ele, e Peter, sentado ao lado, só
balançou a cabeça.
— O problema é que a sua definição de “responsável” é muito
diferente da de todo mundo.
O pai de Cecília, Seu Antônio, estava no quarto, dormindo
profundamente. Ele era do tipo que sempre acreditava que aventuras
eram perda de tempo, mas não conseguia impedir Cecília de seguir
seu espírito aventureiro.
Quando os sanduíches ficaram prontos, todos se reuniram na mesa
para um último lanche antes de pegar a estrada. A conversa fluía
fácil, cheia de risadas e provocações.
— Agora vamos ao maior mistério da noite — disse Cecília, colocando
as chaves do carro sobre a mesa. — Por que, com 23 anos na cara,
vocês ainda não sabem dirigir?
— Porque preferimos um motorista de luxo — respondeu Rafa, rindo.
— E, vamos combinar, você ama aquele Mustang mais do que a nós
dois juntos.
Cecília sorriu com orgulho, jogando os cabelos loiros para trás.
— Isso é verdade. Sempre foi meu sonho.
Momentos depois, os três saíram para a garagem, onde o Mustang
vermelho reluzia mesmo sob a chuva fina. Helena ficou na porta,
acenando com um sorriso misturado a preocupação.
— Cuidado na estrada, e não se esqueçam de me avisar quando
chegarem!
— Pode deixar, mãe! — gritou Cecília, antes de entrar no carro.
Rafa e Peter ocuparam os bancos de trás, e enquanto Cecília ligava o
motor, Rafa brincou:
— Quer apostar quanto que ela coloca uma música brega pra gente
ouvir agora?
— Música brega? — Cecília lançou um olhar pelo retrovisor. — É por
isso que você vai ficar sem controle do ar-condicionado.
Os três caíram na risada, e Cecília pisou no acelerador, deixando a
casa para trás enquanto o som do motor do Mustang ecoava pela
noite chuvosa. A viagem para Ravenwood Springs tinha começado,
e nenhum deles sabia que aquele seria o início de algo que mudaria
suas vidas para sempre.
A chuva ainda caía de forma fina, criando um espetáculo de gotas
que escorriam pelo para-brisa enquanto Cecília mantinha o foco na
estrada molhada. Rafa, inquieto como sempre, começou a se mexer
no banco de trás.
— Eu não aguento mais ficar aqui atrás! — reclamou.
Sem esperar resposta, ele se inclinou e pulou para o banco do
passageiro da frente, quase tropeçando nos próprios pés. Cecília
levou um susto e segurou firme o volante.
— Que isso, Rafa! Vai me matar de susto? — disse ela, tentando
manter a concentração enquanto ele se ajeitava ao seu lado.
— Só achei injusto você ficar aí sozinha no banco da frente, senhorita
motorista de luxo — respondeu ele, rindo. — Isso aqui não é Uber,
sabia?
Peter, agora sozinho no banco traseiro, levantou as mãos em
rendição.
— Tudo bem, eu fico atrás. É mais seguro assim.
Os três riram, e a tensão do trajeto noturno foi suavizada pela
descontração. O clima estava perfeito, com música tocando no rádio
e conversas sem fim, mas as horas na estrada começaram a pesar.
Cecília percebeu que o ponteiro do combustível estava se
aproximando perigosamente da marca vermelha.
— Vamos ter que parar no próximo posto para abastecer — anunciou.
Poucos minutos depois, avistaram um posto de gasolina solitário à
beira da estrada, iluminado por luzes amarelas que piscavam de
forma irregular. Era o único sinal de vida na longa estrada deserta.
Cecília estacionou o Mustang ao lado da bomba de gasolina, e Peter
foi o primeiro a descer.
— Deixa comigo. Eu vou abastecer — disse ele, segurando a bomba
de combustível com a confiança de quem sabia o que estava fazendo,
embora raramente tivesse feito aquilo.
— Boa sorte, gênio! Não explode o carro! — provocou Rafa, enquanto
saía com Cecília para esticar as pernas.
O ar estava frio, e a chuva fina parecia ter parado
momentaneamente. Cecília olhou ao redor e viu que o local parecia
bem mais desolado do que o esperado. Não havia outros carros, e a
loja de conveniência do posto estava silenciosa, com luzes piscando
sobre as portas de vidro.
— Vou pegar alguma coisa para comer. Querem alguma coisa? —
perguntou Cecília, enquanto caminhava em direção à loja.
— Salgadinhos e refrigerante, por favor! — respondeu Rafa, seguindo
atrás dela.
Peter, ocupado com a gasolina, apenas levantou o polegar sem olhar.
Ao entrar na loja, Cecília foi recebida pelo som agudo de um sino
pendurado na porta. O lugar era pequeno, com prateleiras
abarrotadas de produtos que pareciam não ver reposição há anos. Um
velho estava atrás do balcão, com um chapéu de aba larga cobrindo
parte de seu rosto. Ele levantou o olhar quando Cecília entrou, e um
sorriso estranho apareceu em seu rosto enrugado.
— Boa noite, moça — disse ele, com a voz rouca.
— Boa noite — respondeu Cecília, tentando parecer casual enquanto
pegava dois pacotes de salgadinhos e algumas latas de refrigerante.
Rafa estava atrás dela, distraído com uma prateleira de doces.
Quando Cecília se aproximou do balcão para pagar, o velho inclinou a
cabeça, observando-a com curiosidade.
— Vocês estão de viagem, não é? Para onde vão?
Cecília começou a responder sem pensar:
— Estamos indo para Ra...
Antes que pudesse terminar, Rafa se aproximou rapidamente e
colocou a mão no balcão, interrompendo-a.
— Não é da sua conta — disse ele, com um tom desconfiado.
O velho riu, mas era uma risada seca e baixa, quase como se
estivesse zombando deles. Ele olhou para Rafa, depois para Cecília, e
finalmente voltou a falar.
— Ravenwood Springs, não é? Vocês vão para lá.
Os olhos de Cecília se arregalaram.
— Como você sabe...?
— Não tem medo da morte? — perguntou o velho, ignorando a
pergunta dela. Seu tom era sério, mas carregado de um sinistro
prazer. — Ele está à solta.
Cecília franziu o cenho, sentindo um arrepio subir pela espinha.
— Ele quem?
Antes que o velho pudesse responder, Rafa bateu com força no
balcão.
— Tá bom, chega dessa conversa de doido. Estamos aqui para
comprar, não para ouvir histórias de terror!
O velho apenas sorriu novamente, dessa vez mais largo, expondo
dentes amarelados. Cecília lançou um olhar confuso para Rafa, mas
não insistiu. Pagaram rapidamente pelos produtos, evitando mais
palavras com o estranho.
Quando saíram da loja, Cecília olhou para Rafa.
— Você precisava ser tão grosso?
— Precisava — respondeu ele, sem rodeios. — Gente assim gosta de
encher a cabeça dos outros com besteiras. Melhor não dar corda.
Peter já estava terminando de abastecer e olhou para os dois.
— O que aconteceu?
— Nada. Um velho esquisito tentando bancar o profeta do apocalipse.
— Rafa jogou o saco de salgadinhos para o amigo.
Cecília suspirou, mas não conseguiu se livrar daquela sensação
estranha. O sorriso do velho e suas palavras enigmáticas ecoavam na
mente dela enquanto eles voltavam para o carro.
Sem perceber, o clima entre eles havia mudado. As risadas
diminuíram, substituídas por um silêncio inquieto enquanto Cecília
ligava o motor e o Mustang voltava para a estrada, agora sob um céu
ainda mais escuro.
A aventura que parecia ser apenas mais um momento divertido entre
amigos começava a carregar um peso diferente.
Capítulo 3: Bem-vindos ao Paraíso
Depois de uma longa estrada sob o céu estrelado, o Mustang
vermelho de Cecília finalmente chegou ao destino: o resort
Ravenwood Springs. Assim que estacionou em uma das vagas bem
cuidadas, eles foram recebidos por um espetáculo de luzes. Tudo
parecia impecável. A fachada do prédio era cercada por árvores
iluminadas por pequenas lâmpadas douradas, e uma fonte no centro
da entrada principal lançava jatos d’água que dançavam ao ritmo do
vento.
— É esse o lugar macabro que o velho do posto mencionou? — Rafa
riu, descendo do carro e esticando os braços. — Parece mais um
pedaço do céu.
— Não estou reclamando — disse Peter, já ajeitando a mochila nas
costas. — Mas aposto que ele estava só tentando assustar a gente.
— Ou então ele era só maluco — Cecília deu de ombros, trancando o
carro. — Vamos fazer o check-in antes que eu desista e vire a noite
dormindo no banco do Mustang.
Eles atravessaram as portas automáticas, sendo recebidos pelo ar-
condicionado refrescante e um aroma de lavanda que parecia
espalhado por todo o saguão. A recepção era tão luxuosa quanto o
lado de fora: sofás de couro branco, quadros abstratos nas paredes e
um enorme lustre pendurado bem no centro.
Na recepção, uma funcionária simpática os atendeu. Ela explicou que
o resort estava completamente lotado devido a um evento local.
— Temos apenas um quarto disponível. É no terceiro andar e tem três
camas de solteiro. Vocês podem dividir?
Os três trocaram olhares, e Rafa foi o primeiro a responder:
— Claro! A gente não tem frescura, pode reservar.
Depois de preencherem os dados e receberem as chaves, subiram
pelo elevador em um clima de animação. Era a primeira viagem deles
juntos, e o resort parecia superar todas as expectativas.
Assim que abriram a porta do quarto, no entanto, a empolgação deu
lugar à decepção.
— Ah, você tá brincando! — Cecília exclamou, olhando ao redor.
O quarto tinha apenas uma cama de casal no centro e um pequeno
sofá encostado na parede. Não havia sinal de mais camas, nem
mesmo um colchão extra.
— Cadê as três camas que ela falou? — Peter perguntou, franzindo a
testa.
Rafa suspirou, jogando a mochila no sofá.
— Parece que vamos ter que improvisar. Eu fico com o sofá, e vocês
dois dividem a cama.
— Nem pensar — Cecília cruzou os braços. — Não vou dividir a cama
com ninguém.
— Relaxa, Cecília. Somos amigos, lembra? — Peter tentou acalmá-la,
mas ela apenas revirou os olhos.
Depois de alguns minutos de discussão, decidiram que Cecília ficaria
com o sofá, enquanto Rafa e Peter dividiriam a cama.
— Eu mereço um prêmio por ter que lidar com vocês dois — Cecília
murmurou, ajeitando uma almofada no sofá.
— E nós merecemos um prêmio por aturar seu drama — Rafa
retrucou, rindo.
Apesar do desconforto, a fome começou a falar mais alto. Resolveram
pedir uma pizza. Cecília fez o pedido, e os três se acomodaram para
esperar.
Meia hora depois, alguém bateu à porta.
— Deve ser a pizza. — Peter se levantou para atender.
Ao abrir a porta, deu de cara com o entregador. O homem era alto,
magro, com uma expressão fechada e olhos que pareciam não focar
em nada. Seu uniforme estava amarrotado, e ele sequer disse "boa
noite". Apenas entregou a pizza, esperou o pagamento e saiu sem
olhar para trás.
— Gente boa, hein? — Peter comentou, fechando a porta e colocando
a caixa sobre a mesa.
— Do jeito que ele nos olhou, parecia que éramos culpados de alguma
coisa — Cecília disse, pegando um pedaço da pizza.
— Talvez seja só um cara cansado do trabalho. — Rafa deu de
ombros, embora o comportamento do entregador também o tivesse
deixado desconfortável.
Enquanto comiam, tentaram ignorar o incidente e voltaram a rir das
piadas de sempre. A noite estava apenas começando, e nenhum
deles suspeitava que o verdadeiro motivo para o resort estar lotado...
Depois de terminarem a pizza e rirem até a barriga doer, o cansaço
começou a pesar. Cecília foi a primeira a ceder, ajeitando-se no sofá
pequeno e desconfortável. Apesar de caber ali, era evidente que ela
estava longe de uma boa noite de sono.
— Por que eu sempre fico com a pior parte? — ela resmungou
enquanto colocava o braço atrás da cabeça, tentando encontrar uma
posição minimamente confortável.
— Porque você é a menor do grupo. A lógica manda — Rafa
respondeu, já se espreguiçando na cama de casal ao lado de Peter.
— Não é minha culpa que vocês são uns gigantes folgados. — Cecília
apagou as luzes, encerrando a discussão com um suspiro.
A escuridão tomou conta do quarto, interrompida apenas pela luz que
entrava pelas frestas das cortinas. O resort parecia tão calmo quanto
antes.
Horas depois, Cecília acordou. Ela não sabia o que exatamente a
havia tirado do sono, mas abriu os olhos sentindo um incômodo
estranho. Espreguiçando-se no sofá, notou algo diferente.
As luzes do lado de fora, que antes iluminavam intensamente o
quarto a ponto de forçá-los a fechar as cortinas, agora estavam
apagadas. Tudo parecia mergulhado em uma escuridão densa, com
uma leve neblina envolvendo o ambiente. A janela começava a ficar
embaçada pelo frio que tomava conta da noite.
— Que estranho... — ela sussurrou para si mesma, esfregando os
braços. Talvez fosse apenas uma política do resort para economizar
energia durante a madrugada, mas a sensação de desconforto não
desaparecia.
Tentando afastar a inquietação, ela fechou os olhos novamente.
Foi então que ouviu.
Um grito.
Agudo, distante, mas desesperador. A voz feminina cortou o silêncio
como uma lâmina, enviando um arrepio gelado pela espinha de
Cecília. Seus olhos se abriram imediatamente, e o coração começou a
disparar.
Por alguns segundos, ela ficou paralisada, tentando convencer a si
mesma de que havia imaginado. Talvez fosse alguém pregando uma
peça. Ou um som vindo de um filme em algum quarto vizinho.
Mas outro grito ecoou, mais próximo desta vez.
— Peter... Rafa... — Cecília chamou baixinho, sem tirar os olhos da
janela.
Os dois não se mexeram, ambos dormindo profundamente na cama.
— Peter! Rafa! — ela insistiu, dessa vez com mais força, balançando o
ombro de Rafa.
— Que foi? — Rafa resmungou, virando-se de lado.
— Acorda, idiota! Eu ouvi alguma coisa! — Cecília respondeu, a voz
carregada de pavor.
Peter abriu os olhos devagar, esfregando-os.
— Que horas são?
— Não importa! Eu ouvi um grito! Lá fora! — ela explicou
rapidamente, gesticulando para a janela.
Rafa se sentou na cama, coçando a cabeça com uma expressão de
cansaço.
— Tá louca, Cecília? Deve ser algum hóspede brigando com o marido.
Volta a dormir.
— Não era isso! — ela rebateu, impaciente. — Era... era diferente.
Assustador. Como se... como se alguém estivesse pedindo ajuda.
Rafa bufou, levantando-se da cama e caminhando até a janela. Ele
puxou as cortinas e espiou lá fora. A neblina era tão espessa que mal
dava para enxergar o estacionamento.
— Tá vendo? Nada além de névoa e frio. Você tá ouvindo coisas. — Ele
se virou, cruzando os braços.
— Eu juro que ouvi! — Cecília insistiu.
— Talvez tenha sido um pesadelo — Peter sugeriu, tentando manter a
calma.
Antes que Cecília pudesse responder, um som diferente ecoou pelo
quarto. Um barulho baixo, como algo raspando contra metal.
Os três se entreolharam, agora alertas.
— Vocês ouviram isso, né? — Cecília sussurrou.
Rafa assentiu, caminhando até a porta do quarto. Ele encostou o
ouvido na madeira, tentando identificar o som.
— Deve ser alguém no corredor — ele murmurou.
Mas quando abriu a porta, o corredor estava completamente vazio. A
luz fraca das lâmpadas piscava levemente, lançando sombras nas
paredes. Não havia sinal de ninguém.
— O lugar não é tão perfeito quanto parecia, hein? — Rafa brincou,
tentando aliviar o clima, mas sua própria voz tremia levemente.
— Talvez devêssemos perguntar na recepção se mais alguém ouviu os
gritos — Peter sugeriu, pegando seu celular.
— E o que vamos dizer? Que estamos ouvindo coisas no meio da
madrugada? — Rafa revirou os olhos. — Vamos voltar a dormir.
Amanhã a gente resolve.
Relutante, Cecília concordou, mas a sensação de que algo estava
errado não a abandonava. Enquanto os outros dois voltavam para a
cama, ela se deitou novamente no sofá, abraçando a almofada com
força.
Do lado de fora, a névoa parecia se movimentar, quase como se
tivesse vida própria. Cecília tentou fechar os olhos, mas algo lhe dizia
que aquela noite seria longa.
Capítulo 5: O Dia no Resort
O sol brilhava forte no céu, inundando o Resort com sua luz dourada.
O clima estava perfeito, e as primeiras horas da manhã passaram
rapidamente. Finalmente, as férias haviam chegado, e o grupo estava
ansioso para aproveitar o parque aquático do Resort.
Cecília foi a última a sair do quarto, ainda com a sensação estranha
da noite anterior. O sol estava radiante, e o ambiente parecia
convidativo, mas algo ainda a incomodava. Ela não sabia o que
exatamente, mas sentia que havia algo fora do lugar. Tentou afastar
esse pensamento e seguiu os amigos, tentando se concentrar na
diversão.
O parque aquático estava praticamente vazio, o que, embora fosse
um alívio para alguns, fazia Cecília se sentir ainda mais inquieta. O
Resort era grande, e em uma época como aquela, de férias, deveria
estar cheio de turistas. Mas a tranquilidade que reinava no lugar só
aumentava a sensação de desconforto que ela não conseguia
explicar.
— O que está acontecendo? Onde estão as pessoas? — Cecília
perguntou, olhando ao redor e notando que as áreas do parque
estavam desertas.
— Relaxa, Cecília. Todo mundo deve estar na parte do restaurante ou
em algum outro lugar do Resort. — Peter, sempre descontraído, disse
enquanto pegava uma toalha e se dirigia para a piscina.
Apesar de ouvir a resposta de Peter, Cecília não conseguia se livrar da
sensação de que algo estava errado. O silêncio estranho parecia
pesar sobre o lugar, mas, tentando não ser estraga-prazeres, ela
decidiu relaxar e aproveitar o momento. Afinal, todos estavam
animados para os tobogãs e a piscina.
O grupo passou a manhã se divertindo entre os brinquedos aquáticos.
Cecília se aventurou, embora um pouco cautelosa, e até se jogou na
piscina de ondas com risadas e gargalhadas. Entre tobogãs e
mergulhos, ela tentou se esquecer das suas inquietações. Estava lá
para aproveitar o dia, e o fez.
No entanto, uma visão chamou sua atenção. De longe, perto da
piscina de ondas, havia um salva-vidas que parecia... bem familiar.
Ele estava parado rigidamente, com os olhos fixos em todos, mas o
rosto lhe parecia estranho, quase idêntico ao do entregador da pizza
da noite anterior.
— Pessoal, aquele salva-vidas... Ele não parece com o entregador da
pizza de ontem? — Peter perguntou, apontando discretamente na
direção do homem.
Cecília olhou rapidamente para o salva-vidas e deu de ombros, rindo
da sugestão.
— Você está maluco, Peter. Esse cara é muito mais alto. — Ela deu
uma risadinha. — Mas até que ele tem um ar estranho. Vai ver é só
uma coincidência.
Peter franziu a testa, ainda desconfiada, mas preferiu não insistir.
Pensou que, no final, era mesmo uma coincidência. Só mais uma
estranheza no lugar.
O grupo seguiu se divertindo, mas logo foram interrompidos por um
grupo de meninas que se aproximaram, sorrindo.
— Oi, vocês são novos aqui, né? Eu sou a Geisi, e essas são a Olivia e
a Mark. — A garota com o nome de Geisi sorriu amigavelmente. As
outras duas meninas pareceram igualmente simpáticas, e o grupo se
apresentou.
Rafa, sempre atento, não perdeu tempo em se aproximar de Geisi e
das amigas, com um sorriso largo no rosto.
— Olá, garotas. Rafa, é um prazer. — Ele fez uma reverência
exagerada, fazendo Cecília revirar os olhos.
— Ai, você é mais galinha que um pintinho, Rafa! — Cecília brincou,
zumbando dele.
Rafa fez uma careta, mas continuou a conversinha com as meninas,
sem se importar com as piadas de Cecília.
Mark, a mais calada das três meninas, deu um sorriso tímido para
Cecília, e ela retribuiu com um aceno. Os dois trocaram algumas
palavras, mas logo o grupo se dispersou para se divertir mais.
O dia passou rápido entre risadas, mergulhos e tobogãs. A diversão
no parque aquático estava a mil, mas Cecília não conseguia deixar de
se sentir um pouco deslocada. O Resort estava mais calmo do que ela
esperava, e o ambiente tranquilo a fazia se sentir ainda mais fora de
lugar.
Por volta da tarde, Cecília não pôde deixar de notar algo que a
incomodou mais ainda. O salva-vidas estava em outro canto agora,
perto do bar, mas algo no olhar dele a fazia se sentir estranha. Ele
estava fixamente observando o grupo, especialmente ela. Quando
Cecília olhou de novo, ele desviou o olhar rapidamente.
— Estou começando a achar que esse lugar é ainda mais estranho do
que eu pensei. — Cecília murmurou para Peter, que estava deitado à
beira da piscina, de olhos fechados.
— Você está paranoica, Cecília. Relaxa. — Peter respondeu sem abrir
os olhos, o tom de voz descontraído.
Embora ele tivesse tentado tranquilizá-la, Cecília não conseguia se
livrar da sensação crescente de que havia algo errado no Resort. Algo
que ela ainda não conseguia entender, mas que parecia estar cada
vez mais evidente.