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A COEVOLUÇÃO DAS PREFERÊNCIAS E INSTITUIÇÕES NA PERSPECTIVA DE BOWLES E GINTIS

Emmanoel Boff* Doutorando em Economia (UFF) emmanoelb@yahoo.com.br Carolina Miranda Cavalcante** Mestranda em Economia (UFF) cmcavalcante@gmail.com

Resumo O artigo tem como objetivo apreciar a contribuição de Bowles e Gintis à ciência econômica no que tange à coevolução das preferências e instituições ao longo do tempo. Com recurso aos debates em metodologia econômica procuramos trazer à luz os fundamentos metodológicos e a ontologia subjacente à construção teórica dos autores. Especificamente, analisamos como elementos como tempo, incerteza e informação integram o esquema conceitual desses autores. Consideramos brevemente ao final os limites do esquema conceitual de Bowles e Gintis, postos por sua filiação teórica e metodológica à tradição neoclássica. Palavras-chave: preferências endógenas, instituições, metodologia econômica. Abstract The article aims to consider the contribution of Bowles and Gintis to economic science in which concerns the co-evolution of preferences and institutions through time. With recourse to debates within economic methodology we intend to bring into light the methodological foundations and the ontology beneath the theoretical construction supported by the authors. Specifically, we analyze how elements like time, uncertainty and information integrates their conceptual framework. At the end we consider succinctly the limits of the conceptual framework by Bowles and Gintis, posed by their theoretical and methodological commitment to neoclassical tradition. Keywords: endogenous preferences, institutions, economic methodology. Área 1: Escolas do Pensamento Econômico, Metodologia e Economia Política Classificação JEL: B21, B41, B52.

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O autor agradece o apoio financeiro do CNPq. A autora agradece o apoio financeiro da Faperj.

visto que os autores não abandonam elementos implicados na ontologia (ou visão de mundo) neoclássica no que concerne à noção de tempo. Alguns autores. Esta é uma perspectiva reducionista que Bowles e Gintis tentam superar. Introdução O artigo tem como objetivo uma análise da natureza da contribuição de Samuel Bowles e Herbert Gintis à ciência econômica. Por fim. Algumas noções que caracterizam a ENP são: (i) ausência de tempo (timelessness). O item 3 está destinado à exposição da idéia de preferências endógenas e evolução das instituições de Bowles e Gintis. como a explicação da formação dos gostos dos agentes e da evolução das instituições ao longo do tempo. O artigo está dividido em três seções. que a teoria dos jogos evolucionária e a idéia de preferências endógenas dão conta de questões negligenciadas pela economia walrasiana. (iii) atomismo. No item 2 apresentamos os fundamentos metodológicos da tradição neoclássica. por exemplo. na medida em que procuram superar a idéia de indivíduo atomizado da economia neoclássica padrão. explicitamos a metodologia subjacente à tradição neoclássica. Naturalmente. Os autores apontam as limitações de um conjunto específico de teorias neoclássicas. a partir dos recentes desenvolvimentos em metodologia econômica empreendidos pelo Realismo Crítico de Tony Lawson. informação. as ciências estariam saindo de um paradigma mecanicista. além dessa Introdução e da Conclusão. No intuito de considerar essa questão. consideramos a contribuição dos autores. (ii) certeza e conhecimento perfeito. Contudo. segundo Lisboa (1998). (iv) dualismo. A visão de mundo neoclássica é apresentada a partir de uma incursão nos manuais de Economia. Avaliamos tal concepção a partir das noções características da ENP no sentido de investigar em que medida existe uma mudança paradigmática na proposta de Bowles e Gintis. incerteza.1. apontam uma mudança de paradigma nas ciências em geral. bem como a visão de mundo a ela subjacente. que podemos reunir sob a denominação de economia neoclássica padrão (ENP). Bowles e Gintis sustentam. ou a visão de mundo mainstream. Apresentamos o conceito de programa de pesquisa científico (PPC) lakatosiano a noção kuhniana de paradigma como análoga ao conceito de núcleo rígido lakatosiano. Os estudos de Bowles e Gintis sobre preferências endógenas poderiam ser vistos como um exemplo dessa mudança de paradigma. evolucionário e associado à ecologia e à biologia. algumas noções metodológicas precisam ser esclarecidas.1. as instituições e a possibilidade de formação endógena dos gostos dos agentes e/ou da internalização de restrições institucionais. tais noções excluem a história. Dentro dessa visão. Lakatos e Friedman. que segundo Kuhn fornecem o paradigma dominante. apresentamos a concepção de Bowles e Gintis acerca da coevolução das preferências e instituições. bem como sua metodologia subjacente. bem como uma particular concepção de ciência econômica. a noções metodológicas advindas de autores como Popper. associada. No item 4 avaliamos os limites teórico e metodológico da contribuição de Bowles e Gintis. A motivação para este trabalho surgiu do recente debate concernente à relação agente-estrutura em Economia. como Morin (2000). Programa de pesquisa neoclássico: seus fundamentos teóricos e metodológicos Antes de delimitarmos o programa de pesquisa neoclássico. 2. Fundamentos metodológicos 2 . a proposta de Bowles e Gintis ocorre no âmbito do programa de pesquisa neoclássico. a pergunta é se existe essa possibilidade a partir de uma visão de mundo neoclássica. associado ao instrumental newtoniano-cartesiano para um paradigma holista. 2. Morin e LeMoigne (2000) e Cerqueira (2000). Em seguida. bem como as concepções de Popper e Friedman.

pela neutralidade axiológica de suas proposições. avaliadas com base na comprovação empírica dessas previsões. bastante próxima da kuhniana. Popper é visto como um dos críticos mais diligentes do positivismo lógico. constituindo campos de pesquisas interditados ao sujeito cognoscente – representa a heurística negativa de uma tradição de pensamento. constituindo a heurística positiva do PPC. mais fundamental é a constante crítica teórica3. as hipóteses substantivas são responsáveis pelas previsões teóricas. ou seja. podendo assim receber o estatuto de ciência. A economia positiva compreende teorias compostas de dois elementos: (i) linguagem. resta a adoção da capacidade preditiva como critério de seleção entre teorias. Já os pressupostos são abstrações da realidade. na concepção lakatosiana a pesquisa científica legítima está restrita ao desenvolvimento de teorias que ampliem o cinturão protetor do PPC aceito pela comunidade científica. Em poucas palavras. passível de julgamento apenas pelos cânones da lógica formal. abstraem características ou elementos de interesse para a ciência. De acordo com Lakatos. os pressupostos sempre fazem um corte na realidade. (ii) hipóteses substantivas. teorias que compartilham um mesmo núcleo rígido compõem um programa de pesquisa científico (PPC). por serem abstrações (cortes na realidade). 3 . teorias são sempre simplificações da realidade. Segundo Friedman. Além disso. A idéia de núcleo rígido é análoga ao conceito kuhniano de paradigma. o importante não é tentar verificar proposições teóricas. 3 Para mais sobre a metodologia popperiana ver Blaug (1999). em que as teorias mereceriam o status de ciência na medida em que alcançassem um maior grau de falseabilidade. sendo avaliadas com base nos critérios de fecundidade e simplicidade. ou seja. popperiana. pois são avaliadas com base na capacidade preditiva da teoria da qual fazem parte. constituindo previsões apenas indiretamente. cujos limites são dados pelo cinturão protetor desse PPC. Feijó (2003) e Cavalcante (2005). a economia neoclássica utiliza elementos da metodologia lakatosiana. a menos que seja feita referência em contrário. As hipóteses substantivas subdividem-se em implicações e pressupostos. Como teorias positivas não podem conter pressupostos realistas. não passíveis de julgamento pelo seu realismo. As implicações representam previsões. Já nos limites do cinturão protetor os cientistas estão habilitados a expandir o campo de conhecimentos iluminado pelo núcleo rígido. bem como o instrumentalismo metodológico de Friedman (1981). o instrumentalismo metodológico de Friedman (1981) poderia ser assim apresentado. Como alternativa à verificação propôs o falsificacionismo. são considerados cientistas. sugerindo que a cientificidade da tradição neoclássica seria garantida justamente pela adoção desses preceitos metodológicos1. De modo bastante abrangente. A linguagem fornece uma estrutura conceitual para as teorias. No esquema conceitual kuhniano apenas aqueles que contribuem para a atividade de resolução de problemas. Há uma distinção entre economia positiva e economia normativa. O autor argumenta que a superioridade neoclássica em relação aos heterodoxos advém do caráter progressivo do PPC neoclássico. postos pelo paradigma dominante. Do mesmo modo. em que a cientificidade da Economia seria garantida pelo seu caráter positivo. apenas teorias com capacidade preditiva fazem parte da economia positiva. Por conseguinte. Decorre daí que os pressupostos. um paradigma pode ser entendido como uma visão de mundo compartilhada por 1 2 A exposição que segue está baseada em Caldwell (1982). Vejamos brevemente em que consistem os referidos elementos constituintes da metodologia neoclássica.De acordo com Lisboa (1998). isto é. isto é. O núcleo rígido não é passível de contestação por parte da comunidade científica. questionando tanto o critério da verificação quanto o projeto antimetafísico dos lógico-positivistas 2. Deste modo. Blaug (1999). são em sua maioria falsos. uma hipótese deve prever muito com base em pouco. sem se contrapor à visão de mundo veiculada pelo núcleo rígido. Para mais sobre os debates relativos ao positivismo lógico e seus desenvolvimentos posteriores ver Caldwell (1982).

2. 2003. a metodologia adotada pelo mainstream. Todavia. a análise de quatro elementos. (ii) certeza e conhecimento perfeito.275). Estudos agregados.13). Ao ocupar o posto de paradigma dominante. sem reduzi-la à proposta de Friedman. Lakatos reconhece que podem existir vários PPC’s concorrentes. Nesse sentido. de modo algum tais autores efetivamente desenvolveram suas teorias no intuito de contribuir para a tradição científica apresentada nesses manuais. são apenas artifícios pedagógicos que visam “familiarizar rapidamente o estudante com o que a comunidade científica contemporânea julga conhecer” (Kuhn. os manuais cumprem um importante papel na ciência ao difundir o paradigma dominante entre os membros de uma dada comunidade científica4. A avaliação teórica com base na predição é traço característico da metodologia do mainstream econômico. 2.288). Um paradigma é composto de dois elementos: (i) matrizes exemplares. quando realizados. A partir da proposição da idéia de “meta-axiomas 4 No presente artigo nos referimos especificamente ao mainstream econômico. A ciência econômica mainstream é definida. No extremo oposto estão os PPC’s regressivos. p. O que os manuais reúnem são as contribuições. como nos informa Lisboa. os manuais não têm o objetivo de apresentar todos os desenvolvimentos históricos de uma determinada ciência. (ii) matrizes disciplinares. em que a prática dominante quanto à análise de políticas econômicas é a formulação de modelos econométricos que são utilizados para estimar tendências passadas para produzir “melhores previsões” (Lawson. Por conseguinte. um PPC é progressivo se ele é simultaneamente teórica e empiricamente progressivo. Chick (2003) propõe. do “modo de pensamento” neoclássico: (i) ausência de tempo (timelessness). Na definição de Kuhn. que exibem apenas o resultado não intencionado. por exemplo. A construção teórica neoclássica conforma uma visão de mundo que pode ser delineada através dos princípios básicos veiculados pelos livros-texto de Economia. p. p. 2003. cujos fundamentos encontram-se no trabalho seminal de Samuelson (Backhouse. por exemplo. durante algum tempo. nos manuais de Economia. 2003. de pesquisas passadas (Kuhn. Mankiw (1998. Para uma análise mais extensa do papel dos manuais de Economia na ciência econômica ver Cavalcante (2005). ao menos em parte. mas também são edificadas e avaliadas com base em uma particular concepção metodológica. Importante notar que o critério preditivo aproxima a metodologia lakatosiana do instrumentalismo metodológico de Friedman (1981). em que a linguagem matemática é utilizada para realizar análises baseadas nas noções de equilíbrio e maximização. Varian (1992). fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (Kuhn. (iv) dualismo. que respondem pela resolução concreta de problemas.75). incapazes de produzir novas teorias com maior poder preditivo. 1985. consideradas mais relevantes. valores e técnicas compartilhadas pela comunidade científica (Caldwell. caracterizando um PPC teoricamente progressivo. paradigmas são “realizações universalmente reconhecidas que. característicos. p. como a teoria da escolha sob escassez. 178). 1999). que fornecem um conjunto de crenças.175). Essa é. As teorias que compõem os manuais não apenas veiculam uma visão de mundo. a visão de mundo da economia neoclássica pode ser acessada através dos manuais de Economia. 1982. (iii) atomismo. que deve ser compartilhada por todas aquelas teorias que compõem o cinturão protetor do PPC neoclássico. p. de autores selecionados. Um PPC progressivo é aquele no qual surgem novas teorias capazes de prever fatos novos. são feitos com recurso aos microfundamentos geradores dos eventos observados5. 4 . ou o mainstream econômico.determinada comunidade científica. Delimitação do núcleo rígido neoclássico Conforme nos informa Kuhn (2003). Essa é visão de mundo da tradição neoclássica. 1997. 5 Ver. Na medida em que esses fatos novos previstos são corroborados empiricamente diz-se que o PPC é também empiricamente progressivo. p. em que o critério de escolha entre dois PPC’s remete à sua capacidade preditiva. estudos de caso e exemplos.

Enquanto a caracterização de Chick abarca apenas a ENP. na ENP assume-se que os gostos dos agentes estão dados (preferências exógenas) e são impassíveis de modificação ao longo do tempo. e personalidades. Vejamos. no “lado curto”. nas duas seções seguintes. por fim. mas ambas são compatíveis com a visão de mundo anteriormente delineada. Se a troca é disputada e os contratos são contingentes e incompletos. 7 Preferências sociais são aquelas que. e se (e como) contribuem para o alargamento do cinturão protetor do PPC neoclássico. há relações de poder envolvendo as partes que trocam nos mercados. Por exemplo. 1998. as preferências dos agentes não são dadas. No intuito de superar essa limitação imposta pela ENP. Na “troca disputada”. os “meta-axiomas neoclássicos” fornecem uma classificação mais abrangente.neoclássicos”. Arnsperger e Varoufakis (2006) sistematizam a definição do núcleo rígido neoclássico em torno de três axiomas: (1) individualismo metodológico: toda explicação da economia deve ser empreendida no nível do agente individual. 5 . (3) equilibrismo metodológico: consiste em descobrir um equilíbrio. o que leva a uma renovação permanente dos mesmos? A resposta se encontra na formação de preferências sociais7 e na idéia de que o local de trabalho é um ambiente cultural que possui normas que são internalizadas pelos 6 Bowles introduz o conceito de “lado curto” e “lado longo” do mercado para dar conta da existência de poder nas relações econômicas. No entanto. Neste caso. dado um certo estado da natureza. têm mais poder que os tomadores). Agentes no “lado curto” do mercado normalmente possuem maior riqueza e podem ameaçar o término do contrato com os agentes do “lado longo”. 3. sendo entendido como um meio de maximização da satisfação individual. Os economistas há muito supunham de outra maneira. gostos. e no mercado de crédito (onde os doadores de crédito. o esforço dos trabalhadores). A microeconomia pós-walrasiana de Bowles e Gintis A contribuição de Bowles e Gintis envolve o conceito de endogeneidade de preferências – ou seja. dependem de como se chegou a este estado (process-regarding) e da avaliação de outros agentes sobre este estado (other-regarding). Em seu livro. Os autores se propõem a superar o que denominam como economia walrasiana. Este tipo de troca analisado por Bowles e Gintis leva a equilíbrio nestes mercados que normalmente não é Paretoótimo e não leva a market-clearing. (2) instrumentalismo metodológico: todo comportamento humano é orientado por preferências. Autores associados ao neoclassicismo como Bowles e Gintis vêm afrouxando e criticando a ENP. Bowles (2004) exemplifica outras relações “agente-principal” onde os conceitos de lado curto e longo do mercado também se aplicam.75). Mercados e outras instituições econômicas fazem mais que alocar bens e serviços: eles também influenciam a evolução dos valores. a incompletude dos contratos pode levar a esta situação de não-otimalidade. 2. Esta não-otimalidade surge de certas características de cada mercado específico que não são contratáveis (por exemplo. situados no “lado curto”6 do mercado têm mais poder que trabalhadores). demonstrar que esse equilíbrio é estável. em que medida a teoria da coevolução das preferências e instituições desenvolvida por Bowles e Gintis rompe com os supostos da ENP. mas se modificam em conjunto com as instituições formais e informais que coordenam a interação humana em sociedade. Bowles e Gintis vêm criticando desde o início dos anos 70 algumas das hipóteses do que denominam como ficção walrasiana. o axioma das preferências exógenas é tão antigo quanto a própria filosofia política (Bowles. supor que os agentes encontram-se nesse equilíbrio e. nos mercados de trabalho (onde patrões. McMaster e Finch (2004) sucintamente resumem essas críticas em três pontos: 1. p. A idéia de “troca disputada” (contested exchange) nos mercados reais é contraposta à economia de custos de transação de Coase (1937).

elas deixam de fazer parte da restrição e se transformam em mais um argumento da função de utilidade dos agentes.) tenta dar conta da multiplicidade de sentidos que se atribui à palavra tempo.agentes. Tempo e História em Bowles Podemos primeiramente tomar o conceito de tempo embutido na teoria de Bowles.santafe. especificidade de cada mercado (por exemplo. 9 Disponível no site: <http://www. historicamente. então ocorre outro evento B. Em linguagem microeconômica. é desenvolvido um modelo de como preferências e instituições coevoluem no tempo. as implicações das hipóteses acima divergem da economia walrasiana: se antes a economia deixada a si própria sob a batuta de um Estado passivo que corrige falhas de mercado e garante direitos de propriedade levava a um ótimo social. A idéia de preferências que se “desenvolvem” dentro de um ambiente cultural sugere a passagem do tempo. 3. Sua argumentação objetiva dois pontos: 1. Ou seja. mostrar como. disponível em sua página na Internet9. Deste modo. No capítulo 13 de Bowles (2004). Ou seja. há espaço nos modelos de Bowles e Gintis para a atuação do Estado (ou de qualquer outra instituição com poder) que garanta uma melhoria de Pareto nos mercados. seu modelo representa uma microfundamentação para os resultados subótimos da macroeconomia keynesiana – embora ele suponha que as políticas para a solução de um desemprego persistente não passam necessariamente pelo receituário keynesiano tradicional8. conceitos como normas. há a sugestão de que poderia haver redistribuição de direitos de propriedade para os trabalhadores. Analisemos como isso ocorre. 2004). de crédito ou de trabalho). (iv) expectacional: tempo de caráter subjetivo. 113 e ss. problemas de agente-principal e equilíbrio. agora isto muda. Estas normas do ambiente de trabalho “criam” preferências nos agentes sobre o que é um salário justo. Dentro deste arcabouço. portanto.1. (iii) lógico: se embasa na noção de causalidade dedutiva – se ocorre evento A. A pergunta que se faz é onde e como seu esquema conceitual (e o correspondente receituário de políticas econômicas) marca uma quebra significativa com a economia walrasiana que os precedeu. veremos que Bowles parece misturar os conceitos de tempo acima referidos. ou seja. Ela identifica os tempos: (i) histórico: dependente dos eventos que se sucedem do mundo. Mas de que tipo de tempo se fala? Dow (1985.html> Acesso em: 22 jun. (ii) mecânico: não depende dos eventos do mundo e onde há reversibilidade dos eventos. 3. e para o qual existe um programa de simulação com base no comportamento dos agentes (agent-based). qual deve ser o nível de esforço oferecido e qual o ambiente de trabalho ideal. onde não há reversibilidade e onde cada estado da realidade é visto como conseqüência de seu precedente – havendo. path-dependence. o que de início era apenas uma norma para o trabalhador – uma “prescrição ética que governa a ação do indivíduo com relação a outros” – se transforma em preferência individual. podem desenvolver-se as 8 Aqui nos referimos ao receituário associado aos velhos keynesianos da síntese neoclássica. Politicamente. convivendo lado a lado com conceitos mais tradicionais como otimalidade de Pareto. Por exemplo. para incentivar uma maior eficiência nos mercados (Finch e McMaster. no qual os indivíduos formam suas expectativas. p. poder político e classe social – marginalmente estudados dentro da economia walrasiana – parecem reentrar o discurso econômico em seu veio central. preferivelmente o governo deveria aplicar a política fiscal para combater o desemprego. qual é o tipo de tempo que Bowles têm em mente? Com base nos modelos e argumentos desenvolvidos de seu Microeconomics (2004).edu/~bowles/artificial_history/index. Como o próprio Bowles indica. dado que se assume que o investimento é pouco sensível a variações na taxa de juros. 2006. Sobre as diversas correntes keynesianas. 6 .

um não-altruísta N terá a probabilidade de jogar com um altruísta A dada 7 . os payoffs dos jogadores determinam o número de réplicas de altruístas e não-altruístas na geração seguinte. 2004.458 e ss. Nota: “b” representa o payoff e “c” o custo associado à interação. 11 Informalmente. o grupo vencedor se fende. O grupo vencedor – aquele que detém o maior payoff – se reproduz dentro do grupo vencido.preferências altruístas e cooperativas do homo reciprocans10 em conjunto com certas instituições. o homo sapiens sapiens pode ter desenvolvido instituições que coevoluíram com preferências que dependem da avaliação que outros agentes fazem dos estados da natureza (other-regarding) e do processo que levou a estes estados (processregarding). Bowles (2004. p. ele morrerá e não deixará nenhum descendente. em que se objetiva mostrar como desde sua incepção. ou instituições como regras de boas maneiras ou de vestimenta podem ser todas estudadas com modelos de teoria dos jogos. Do mesmo modo. repopulandoo. Bowles acrescenta duas instituições – partilha de recursos (resource sharing) e segmentação intra-grupos11 para mostrar como isto leva a um maior desenvolvimento 10 O homo reciprocans de Bowles e Gintis é possuidor de reciprocidade forte na interação humana. a probabilidade dele jogar com um altruísta não será simplesmente pj. Informalmente. Nesta nova geração haverá algumas mutações. é um modelo de ser humano alternativo e aparentemente oposto ao homo economicus neoclássico tradicional. Isto é diferente do altruísmo recíproco. transformando-se em dois grupos menores que adotam as instituições do grupo vencedor. Algumas observações e definições são importantes: primeiramente. O modo de analisá-las é como o equilíbrio subjacente a um determinado jogo. regras informais.449. deixará dois descendentes. Os indivíduos jogam o jogo abaixo: JOGO DO ALTRUÍSMO (Os payoffs referem-se às linhas): Participantes Altruístas (A) Altruístas (A) b–c Não-Altruístas (N) b Não-Altruístas (N) -c 0 Fonte: Bowles. Dentro desta visão. 2004. Depois da interação do primeiro jogo. Analogamente aos modelos biológicos desenvolvidos por Maynard Smith. e assim sucessivamente. mas sj + (1 – sj)pj > pj. que supõe que o agente toma uma atitude altruísta hoje com vistas a obter um retorno esperado maior no futuro.) explica seu modelo da seguinte maneira: primeiramente. se o payoff de um indivíduo foi zero. No modelo acima. além de emigrações e imigrações que seguem certas taxas dadas exogenamente.42). Como se vê. Por exemplo. mesmo se inicialmente poucos membros da população atuam deste modo. Tem-se então a seleção aleatória de alguns grupos que competem entre si. se for dois. e 2. organizações como Bancos ou escolas. Contudo. O objetivo de não haver inicialmente estratégia altruísta é exatamente o de saber se este tipo de estratégia pode proliferar. p. por exemplo – tenham maior probabilidade de jogar com indivíduos dessa mesma característica. Mais formalmente. as simulações computacionais de Bowles parecem levar antes a histórias artificiais da coevolução de preferências e instituições do que a possibilidade de estudar concretamente algum evento histórico específico. temos que no início (t = 0) todos jogam segundo a estratégia não-altruísta. O homo reciprocans atua cooperativamente com outros membros do grupo. comparar os resultados em termos de bem-estar e eficiência de Pareto da hipótese do homo reciprocans com relação a modelos que usam o homo economicus auto-interessado. e convenções que dão uma estrutura durável às interações sociais” (Bowles. a instituição da segmentação intra-grupos faz com que indivíduos com mesmas características – altruístas. o que Bowles chama de instituições são “leis. Em seguida. p. suponha que num dado universo existam g grupos e n indivíduos distribuídos uniformemente entre estes grupos. O modelo persiste durante milhares de gerações. se temos um altruísta A no grupo j. mas uma taxa de mutação garante que isto pode se alterar aleatoriamente. partilha o seu payoff e pune aqueles que atuam não-cooperativamente.

8 . 2004.) que respondem pelas ações que eles tomam em dada situação” (Bowles.13 Em suma.. e não em milhares de gerações. Vários estudos. por que as taxas de imigração/emigração e de mutação são dadas exogenamente? Elas não poderiam variar também com o resultado dos jogos? Bowles admite estas e outras deficiências na aplicação da teoria dos jogos na modelagem de problemas institucionais e econômicos (2004. se a troca pode ser modelada como um jogo. 14 O comportamento idiossincrático remete aqueles comportamentos que se mostram contrários ao que havia sido previsto pelo modelo. seria possível imaginar mudanças em certas instituições no intervalo de uma ou duas gerações. que visava dar mais realismo às relações econômicas dentro do capitalismo. 13 Ver McMaster e Finch.. mas nada é afirmado acerca do processo histórico efetivo. o modelo de Bowles pode fornecer um arcabouço teórico para iluminar eventos como a persistência secular de instituições ineficientes em alguns países do terceiro mundo ou a história concentração de renda num país como o Brasil. Dentro da visão de Bowles. existiria a partir de seu modelo um receituário do que se pode fazer para modificar estas situações seculares? Para isto. embora a idéia de path-dependence esteja contida no modelo de coevolução de preferências e instituições de Bowles. 455). que. Entretanto. (ver Bowles.99).45 e ss. há possibilidade de as regras do jogo serem alteradas à medida que o jogo é jogado e dependendo das intenções de quem o joga? Além do mais. para fins de aplicação.. como os de Kahneman e Tversky12. pois são capazes de explicar comportamentos humanos. Bowles rejeita a idéia samuelsoniana de “preferência revelada”.das características do homo reciprocans. p.cit. a possibilidade da evolução do homo reciprocans. p. 2004. Se supusermos: 1. Deste modo. op. é errôneo entender o comportamento como sinônimo da busca pelo bem-estar. que haja convenções e “efeito conformismo”15 que facilite a vários trabalhadores (ou empresários) assumir este tipo de ação não-ótima. é necessário saber como os processos dinâmicos de mudança institucional podem ser “acelerados”.). 2. Com isto. é questionável que ele possa ser aplicado em eventos que não sejam de longuíssimo prazo. atributos dos indivíduos (. 12 Ver Kahneman (2002). Contudo. Digamos. pelo fato de ela pouco explicar as razões para o comportamento. mostraram que o comportamento humano pode ser míope no que tange ao próprio bem-estar do sujeito. dentro de um certo arcabouço científico neoclássico. Bowles entende preferências como “razões para o comportamento. Em sua visão. Ou seja. Além do mais. Sj (que deve ser não-negativo) é definido como o grau de segmentação dentro do grupo j. p. poder-se-ia usar a idéia de tempo de Bowles em um contexto mais concreto. assim. os empresários podem negociar ou não com os trabalhadores. que trabalhadores e empresários participam de um jogo no qual há duas ações possíveis para cada trabalhador – ele pode ou não entrar num movimento grevista. Mas atenção: o que Bowles quer dizer é que é possível que instituições que promovem a partilha de recursos e segmentação social tenham evoluído juntamente a traços de comportamento do homo reciprocans. primordialmente seu objetivo é mostrar. Da mesma forma. Interessante observar que a estrutura dos jogos revela um caráter aistórico que parece entrar em conflito com a própria idéia de troca disputada. Percebe-se. Em segundo lugar. Afinal. emoções e comportamentos não-ótimos devem fazer parte do estudo do economista. que empresários e/ou trabalhadores podem conscientemente tomar uma ação que não lhes rende o maior payoff do jogo (é o chamado comportamento idiossincrático14). por (1 – sj)pj < pj. pode-se perguntar quem faz as regras desse jogo dentro de uma sociedade e época específicas.

as simulações em computador não se referem a nenhum evento específico que realmente tenha ocorrido. Apesar de não superar totalmente a ficção walrasiana. superposição. Observe-se que é possível compreender certos eventos passados com o instrumental de Bowles. recursividade. 16 Alguns exemplos de abordagens alternativas ao PPC neoclássico são os pós-keynesianos. 2004). mas apenas a possibilidades aleatórias da 15 O efeito conformismo remete à idéia de que dadas duas características culturais dos membros de uma sociedade (altruísmo e egoísmo. Ou seja. Lawson reconhece ainda uma unidade ontológica entre essas propostas alternativas ao mainstream econômico. a idéia keynesiana de incerteza forte não é trabalhada pelo modelo. conforme indicado anteriormente. os payoffs e estratégias dos jogadores são distintos se eles pertencem a diferentes classes. Perceba-se que as falhas da teoria dos jogos estão relacionadas à sua ainda incompleta forma de modelar como jogos passados influenciam os jogos no presente. membros de uma mesma etnia no caso norteamericano) e que eventos não-previsíveis afetaram o payoff dos envolvidos no jogo. Desta forma.45 e ss. marxistas. parece haver uma confusão entre o tempo mecânico e o tempo histórico no esquema conceitual de Bowles. entender como se iniciam movimentos como a greve de Maio de 1968 na França. ainda que esta se contraponha à ficção walrasiana (McMaster e Finch. quando a estrutura do jogo no presente depende dos resultados dos jogos passados. 9 . 2005). dentre outros. Ver Lawson (1997. ou seja. embora o modelo seja dinâmico. 3. amigos. Este equilíbrio depende não só do payoff que cada característica fornece a quem a possui. ou a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA. ou seja. ou seja. seria possível. quando os jogadores participam de vários jogos simultâneos cujos resultados são interdependentes e dinâmicos. quando os jogos passados influenciam as preferências e crenças (e daí também os payoffs e estratégias de equilíbrio) do jogo presente. Bowles adota uma idéia de tempo próxima daquela utilizada por abordagens alternativas16. Sobre abordagens alternativas ver Backhouse (1985). Ou seja. No entanto. igreja. sraffianos. Isto porque como o próprio Bowles (2004. como nãoergodicidade e path-dependence. os autores só podem explicar como certos eventos no passado podem ter ocorrido. 4. por exemplo). em princípio. espécies biológicas. mas também do grau de conformismo da característica. 2. o modelo de Bowles foge da ausência de tempo da ENP. é possível ainda assim adotar um comportamento altruísta de modo conformista. assimetria. a teoria dos jogos ainda não dá adequadamente conta de quatro elementos: 1. constitutividade. sexos. diz-se que há um equilíbrio cultural quando a freqüência dessas características entre os membros da sociedade é estacionária. mas ainda não há um modo de prever quando ou como mudanças institucionais e comportamentais acontecerão com este modelo. 2003. nações etc.) observa. Por exemplo. mas. Fica claro aí que. religiões. velhos institucionalistas. família etc. Isto ocorre porque embora haja path-dependence e não-ergodicidade.3. mesmo que um comportamento altruísta forneça um payoff menor quando comparado com um comportamento egoísta. porque o grupo de referência (escola. embora incorpore temas tradicionalmente heterodoxos – e assim o faz com o fito de dar mais realismo a seu modelo – Bowles não deixa de criar sua própria ficção. Seguindo a classificação de Dow (1985). que haja eventos não-previsíveis que afetem os payoffs dos jogadores e seus comportamentos. Hodgson (1999) fornece uma caracterização semelhante das escolas de pensamento heterodoxas. pode-se verificar que a freqüência de altruístas em certa sociedade é de 30% (contra 70% de egoístas) e que ela se mantém constante no tempo. isto é. p.) também o adota. Daí. por exemplo). os modelos sempre admitem. Não há um modo de atribuir probabilidades e exaurir as possibilidades dos eventos que podem ocorrer no futuro. para fins de inteligibilidade matemático-formal que há uma distribuição de probabilidade associada a certas variáveis do modelo (como a taxa de mutação dos agentes. Bastaria identificar que tipo de comportamento intencional e idiossincrático se difundiu entre certos grupos sociais (trabalhadores e estudantes no caso francês.

Também não há necessidade de que as crenças que embasam seu comportamento estejam corretas. No entanto. incorporar a idéia de altruísmo (relativo a outros) numa função de utilidade que representa o auto-interesse pode se mostrar contraditória. por exemplo. associando sua evolução a fatores biológicos e culturais. tudo o que Gintis sugere é que o agente possa escolher sob certas restrições e o faça consistentemente (isto é. 2003). exógenas. nem como elas surgem. variedades de cada tipo de formação social humana complexa (como diferentes tipos de capitalismo geográfica e historicamente). Sob as lentes de Hodgson (2001b). seu modelo de escolha racional possui as seguintes características: (i) almeja poder prever o comportamento dos agentes. Deve-se lembrar. entretanto. civilização humana. 3.2. (ii) é matematicamente formal. Nos modelos tradicionais. Este é um modo universal de tentar entender a relação dos seres vivos entre si e com o mundo21. atomista e associado ao individualismo metodológico (McMaster e Finch. Assim. No caso de Bowles e Gintis. não se analisa como as preferências evoluem com o tempo. pois os dois termos confinam. ver Vercelli (1991) e Dow (1985). Bowles e Gintis. Seguindo a definição de ciência econômica. o que vai de encontro à concepção de Hodgson sobre o comportamento individual. 4. Como sair disso? Gintis (2006) incorpora a idéia de que os agentes não maximizam necessariamente algo como seu bem-estar na sua função de utilidade. só se pode estudar a coevolução das preferências individuais e instituições ao defini-las lógica e formalmente. tipos específicos de formação social humana complexa (antiguidade. diz que sua abordagem econômica é 10 . nem é necessário que elas sejam corrigidas. preferences and constraints) por Gintis. Atomismo e reducionismo em Bowles e Gintis A idéia do homo reciprocans reforça a importância da heterogeneidade de comportamento dos agentes e fatores além do auto-interesse como motivadores do comportamento. ou seja. 21 Gary Becker. sistemas gerais. outro autor que desenvolve suas teorias no âmbito do PPC neoclássico.coevolução de preferências e instituições. mas o ponto inicial de análise ainda é o indivíduo que enfrenta escassez no seu meio. (iv) utiliza-se da idéia de preferências e crenças “finas” (thin preferences and beliefs). 18 Para uma discussão das noções de equilíbrio do mainstream e suas alternativas. que há mais de um tipo de individualismo metodológico 19 e que há várias conotações possíveis para o termo “escolha racional” (Chai. religiões ou colônias de bactérias. 19 Veja o caso de Hayek. A manutenção da análise walrasiana acaba levando a um comportamento do agente que ainda é reducionista. partidos políticos. entretanto. modela o comportamento individual incorporando argumentos sociais na função de utilidade dos agentes. 2.17 Sua idéia de tempo está vinculada a uma certa noção de equilíbrio que ainda é walrasiana18. uma vez identificadas como erradas. ao tentar analisar tipos específicos de formação social humana e suas variedades com o instrumental que trata de sistemas gerais. mantendo a transitividade). sociedade humana. fornecida pelos manuais de Economia.20 Hodgson (2001b) e Davis (2003) apontam que a ênfase de Bowles e Gintis em modelos biológicos acaba fazendo com que sua variedade da teoria da ER (ou BPC) possa ser aplicada no estudo do comportamento de qualquer entidade viva – sejam elas indivíduos. no sentido biológico do termo. Isto não precisa ser feito de modo consciente. este é o modelo de escolha racional (ER). 2004). procuram modelar o modo como as estruturas de preferências dos indivíduos em sociedade surgem. mas sua aptidão (fitness). pode-se dizer que Bowles está confundindo níveis de abstração da análise econômica. como mostra Kerstenetzky (2005b). 20 Chai (2003) associa o modelo de escolha racional tradicional em economia a preferências “espessas” (thick). agora rebatizado de modelo BPC (beliefs. (iii) resolve problemas de otimização sob restrição. Admite-se que o meio social influencia o comportamento individual. 3. A 17 Hodgson (2001b) aponta cinco níveis de abstração para a análise econômica: 1. feudalismo e capitalismo) e 5. Na verdade. na análise de Kerstenetzky (2005a).

Se concordarmos que a ciência é mais que uma questão numérica. Contudo. Chang (2002. Conforme nos comunica North: “Economics is a theory of choice – so far so good” (North. a visão de mundo.. os autores referidos por Lisboa (1998) como provedores da metodologia neoclássica não necessariamente construíram suas teorias como forma de sustentar filosoficamente as idéias do mainstream econômico. Do mesmo modo. p. certas economias tribais não-capitalistas podem possuir vastos recursos e poucos desejos. Por exemplo. por exemplo. 23 Este exemplo é de Sahlins apud.idéia de “causação reconstitutiva de cima para baixo” pode fazer com que indivíduos não vejam o mundo sob as lentes da escassez22. não é possível negar a falta de consenso acerca de uma definição de ciência econômica entre as diversas vertentes teóricas em Economia. Com propriedade. superando a idéia de indivíduo atomizado. 1993. e não uma suposição sobre motivações particulares” (Becker. com preferências dadas exogenamente. 2003).202). 6. temos nesse ponto uma controvérsia antes “um método de análise. poderia se aplicar o modelo BPC? Desta forma. Hodgson (2001b. 2005. Apesar dos economistas do mainstream estarem bastante seguros acerca do que vem a ser a Economia – teoria da escolha sob escassez –. Conquanto isto promova um alargamento do “cinturão protetor” neoclássico. suscita uma reflexão importante. Backhouse (1994) comenta o fato de que determinadas concepções filosóficas são mais prontamente absorvidas como argumentos a favor da ciência econômica. Conceitos como poder político. como o critério preditivo de seleção teórica. Assim observamos como o esquema conceitual de Bowles e Gintis concorre para a ampliação do conjunto de problemas neoclássicos. 2004). 22 O modelo de “causação reconstitutiva de cima para baixo” visa entender como os hábitos dos sujeitos são formados socialmente. não há efetivamente um rompimento com o PPC neoclássico. 11 .23 Como. Também o brilhante trabalho de Norbert Elias (1993 [1939]. pois de certa forma prescrevem regras metodológicas já utilizadas pelos economistas. (. como a filosofia lakatosiana. 24 Lawson (1997.139). conseqüentemente. como equilíbrio (agora associado a estratégias evolucionariamente estáveis em jogos) e comportamento maximizador. 1999a. vê-se que embora as hipóteses do modelo de Gintis e Bowles sejam diferentes das implicadas na economia walrasiana. Deve-se isso ao fato de os economistas saberem o que é ciência? Ou será que estão de acordo a respeito da Economia? (Kuhn.) talvez seja significativo que os economistas discutam menos sobre a cientificidade de seu campo de estudo do que profissionais de outras áreas da ciência social. p. 2001a). da falta de uma noção de evolução das instituições. outros economistas apontam não apenas para definições alternativas de ciência econômica. neoclássica também não é considerada criticamente. mas não todos os economistas. conceitos fundamentais da economia walrasiana são mantidos. Ver Hodgson (2001a) para uma discussão mais detalhada do modelo de “causação reconstitutiva de cima para baixo”. uma idéia aparentemente similar a de preferência endógena de Bowles. classes sociais e mercados (como os de trabalho ou crédito) são inseridos no debate econômico sem que seja comprometido o núcleo rígido do PPC neoclássico. 2003. 1994 [1987]) exemplifica uma análise alternativa à da ER com relação ao desenvolvimento do comportamento humano e das instituições. e da ausência de tempo.11). Contra ou a favor da metodologia do mainstream.. 1996.277). p. Dos limites das propostas de Bowles e Gintis Um fato curioso é que a metodologia do mainstream econômico raramente é posta em debate. Kuhn. neste caso. p. mas com diferenças ontológicas substantivas. O mainstream representa a maioria. ou ontologia. A primeira pergunta de Kuhn não possui uma resposta única. mas também indicam que a metodologia do mainstream é inadequada para analisar o objeto de estudo da Economia24. Hodgson (1988.

a emergência de um número considerável de economistas insatisfeitos com a economia mainstream. por sua vez. o relativismo ontológico implicado na incomensurabilidade dos paradigmas e no caráter de heurística negativa do núcleo rígido interdita o debate no âmbito ontológico. p. Isso não significa que Kuhn e Lakatos não possuam contribuições valiosas. Critérios puramente epistemológicos não proporcionam uma racionalidade quanto ao julgamento de teorias científicas. os economistas não estão de acordo a respeito da Economia. objetos. A metodologia econômica não produz contribuições frutíferas quando utilizada para justificar a prática científica. Conforme identificado por Lawson. pós-keynesianos. em que a principal delas é a interdição do debate em termos ontológicos. deslocando a questão do estatuto de cientificidade das teorias para o âmbito epistemológico. de sua definição e dos limites de seu objeto. p.. a evolução da ciência econômica jamais se enquadrou no esquema “ciência normal – ciência extraordinária – nova ciência normal” kuhniano. 1997. e pode atuar como ‘parteira’ ao ajudar o surgimento de novas ciências” (Lawson. formando um PPC alternativo ou heterodoxo. verifica-se uma circularidade no critério preditivo de seleção teórica. O PPC neoclássico vem se desenvolvendo através da incorporação de temáticas usualmente consideradas em PPC’s alternativos. relações) e ao mesmo tempo prescreve os critérios de corroboração empírica. paradigmas dominantes sempre conviveram com uma pluralidade de alternativas. Hodgson (1999). Contudo. Além disso. Assim. Backhouse (1985. com isso. no pós-segunda guerra.) se a teoria determina a priori como é a configuração do mundo e. que recorre a motivos extracientíficos para a escolha entre paradigmas. mas pode constituir-se em importante aliada da Economia ao iluminar aquelas práticas científicas que se apresentam incongruentes em relação a seu objeto de estudo. Podemos. entre essas abordagens alternativas. No entanto. (. tais noções integram o ambiente econômico de modo diverso. 61). conseqüentemente. em que suas diferenças são concernentes aos focos analíticos. Como escolher entre visões de mundo concorrentes? A metodologia kuhniana e lakatosiana fornece insights interessantes no que concerne à afirmação de que toda teoria veicula uma visão de mundo compartilhada por comunidades científicas.saudável. Assim a segunda pergunta de Kuhn encontra resposta automaticamente.372) identifica. Deste modo. o trabalho da filosofia consiste na realização de “um ‘trabalho acessório’ para a ciência ao esclarecer inconsistências e confusões. à filosofia da ciência é 12 . Lawson (2005) afirma existir uma unidade ontológica. que encontram definições distintas no âmbito desses PPC’s concorrentes. incerteza e informação. Medeiros. mas é preciso avançar em relação às suas limitações. Conseqüentemente. dado o caráter histórico e imprevisível do objeto social. observamos duas visões de mundo concorrentes quanto à explicação do sistema econômico – a neoclássico e a alternativa (ou heterodoxa).759). menciona o surgimento de pelo menos cinco abordagens alternativas na década de 1970: economia institucional. falar numa pluralidade de abordagens alternativas que se reúnem em torno de um conjunto de princípios básicos. p.. escola da regulação e economia marxista. gerando visões de mundo distintas. Tal deslocamento ou deixa a evolução das teorias científicas inexplicada – fé como critério de seleção do novo paradigma dominante em Kuhn – ou enseja o surgimento de critérios circulares e instrumentais de seleção teórica – PPC progressivo em Lakatos. Painceira. parece evidente que se está então diante de uma flagrante circularidade (Duayer. determina igualmente aquilo que é relevante (dados. 2001. a saber. economia austríaca. Esse fato é evidente em Kuhn. eventos. mas aparece de forma menos explícita em Lakatos. assim ocorre com as noções de tempo. ou paradigmática. para além da existência de sérias limitações à previsão em ciências sociais. que fornece critérios mais específicos para a seleção de PPC’s.

as conclusões de política econômica orientadas por essas teorias não apenas interferem alocando e realocando recursos do sistema. Ademais. Esses problemas advêm. Em outras palavras. Bowles e Gintis parecem construir uma nova ficção ao criar suas histórias artificiais. podemos indicar que essa adoção acrítica de uma ontologia filosófica (fundamentos metodológicos) e uma ontologia científica (definição do objeto da ciência econômica) limitam alguns desenvolvimentos em Economia. mas a metodologia mesma adotada pelo mainstream econômico. que fornecem uma concepção de História na qual estão implicadas noções de tempo incompatíveis com o processo efetivo das economias. de uma metodologia dedutivista.atribuído um papel de avaliação crítica das práticas da ciência sem. Lawson considera criticamente não apenas o critério preditivo de avaliação teórica. visões de mundo podem ser comparadas em relação a um objeto que guarda uma relativa independência em relação a elas. não superado por autores como Popper. A contribuição de Bowles e Gintis. isto é. baseada em grande medida no que o autor denomina como dedutivismo. Segundo Duayer. ou a compreensão de lei científica como conjunção constante de eventos – “se X então Y”26. em grande medida fundamentados numa noção instrumental de ciência. Medeiros e Painceira (2001). a proposta inicial dos autores de superação da ficção walrasiana e desenvolvimento de uma teoria mais realista fica seriamente prejudicada. e uma visão de mundo que entende o sistema econômico como composto de recursos escassos. Todavia. Na idéia de coevolução das preferências e instituições. Isso significa a adoção de uma visão de mundo e um conjunto de métodos nela implicada. em grande medida. em que se supõe que os indivíduos praticam alguma modalidade de maximização. Kuhn e Lakatos. O instrumentalismo de Friedman justifica a construção de modelos “irrealistas” a partir da asserção de que o mundo é incognoscível. Abandonar a referência ao objeto prejudica o próprio alcance das teorias econômicas. 5. que leva o sistema a estados de equilíbrio. a ontologia adotada por determinada comunidade científica não pode ser afastada do debate teórico e metodológico. seja ele o homo economicus ou o homo reciprocans. Conclusão A discussão precedente nos permite situar a natureza da contribuição de Bowles e Gintis à ciência econômica. um racionalismo julgamental somente pode ser obtido caso seja atrelado ao relativismo epistemológico um realismo ontológico. na qual encontra-se implicada uma ontologia positivista. mas constituem e moldam a própria realidade econômica. mas essa afirmação é antes proveniente de uma irresolução nos debates em Filosofia da Ciência do que uma razão para a aceitação de que teorias são meros instrumentos. O Realismo Crítico pode oferecer uma contribuição para o debate metodológico no que concerne à reafirmação ontológica. Em primeiro lugar. a proposta de uma teoria da coevolução das preferências e instituições ocorre no âmbito do programa de pesquisa neoclássico. tomar o seu lugar ou se confundir com ela25. Deste modo. caso se pretenda manter uma perspectiva crítica e plural. mais objetivas. Ver Lawson (1997. 25 26 Ver Clive Lawson (1995). Visto ser a Economia uma ciência social de prestígio na sociedade e sendo suas teorias fundamentadas numa determinada visão de mundo. Como indicado por Lawson (1997). mas de modo algum contribui para a construção de teorias efetivamente mais realistas. Foge do escopo do trabalho uma apresentação detalhada da proposta metodológica de Lawson. Nesse sentido. 13 . o instrumentalismo justifica a prática corrente da economia mainstream. o positivismo lógico foi amplamente criticado. no entanto. ao se desenvolver no interior do PPC neoclássico compartilha conjunto de métodos. 2003). contudo. como os de Bowles e Gintis.

que se trate de incerteza knightiana no esquema de Bowles. o trabalho de Bowles e Gintis enquadra-se na concepção de ciência e nos preceitos metodológicos da tradição neoclássica. discursive power. Lakatos e Friedman. O que Bowles gera com seus modelos são simulações de eventos que poderiam ter ocorrido se as instituições e preferências se desenvolvessem segundo àquelas do modelo. isto provém da necessidade de tratamento formal da economia.A metodologia subjacente à tradição neoclássica foi identificada. (iv) dualismo. de teste empírico. além de serem capazes de produzir previsões acerca dos eventos econômicos. (i) Atomismo. 14 . equilibrista e instrumental. o benchmark continua a ser uma visão de mundo ancorada numa ontologia individualista. Isto remete à idéia de tempo mecânico que não corresponde necessariamente aos eventos do mundo – embora cada simulação de Bowles não permita a reversibilidade do tempo. Retomando as perguntas colocadas na introdução do trabalho. (ii) certeza e conhecimento perfeito. a necessidade de um modelo que seja passível de formalização. practical irrelevance and. 6. thus. (iv) Incerteza. mas assim o fazem herdando o instrumental walrasiano. Mais uma vez. Bowles e Gintis ainda partem da noção de indivíduo para estudar o comportamento dos agregados econômicos. Bowles admite um componente estocástico nos seus modelos (por exemplo. Bowles e Gintis se aproximam de temas heterodoxos. Segundo Bowles é possível. mas isto não o atrela ao tempo histórico. Algumas noções que caracterizam a ENP foram identificadas com os quatro elementos: (i) ausência de tempo (timelessness). Nesse arcabouço metodológico. em princípio. Como conclusão. com as concepções filosóficas de Popper. as limitações de sua análise são os mesmos limites impostos por uma visão de mundo que exige o uso formal de conceitos como equilíbrio e maximização sob restrição. dado um conjunto de instituições. PPC’s compostos por teorias com capacidade preditiva. não permite. Isto ainda é um atomismo (pois as instituições desenvolvem-se a partir de indivíduos maximizadores de uma função de utilidade). razão e emoção etc. Yanis. são ditos PPC’s progressivos.S. pois o autor não trata especificamente de eventos concretos. a taxa de mutação dos altruístas e/ou egoístas quando da sua reprodução). No entanto. VAROUFAKIS. além das limitações da teoria dos jogos. Mesmo quando os resultados macro de seus modelos micro envolvem múltiplos equilíbrios que podem ser subótimos do ponto de vista paretiano. associado a um modo de pensamento cartesiano-euclidiano. Christian. Bowles usa conceitos como não-ergodicidade e path-dependence dos processos econômicos. este componente é sempre passível de ser colocado numa certa função de distribuição de probabilidade.) De acordo com Dow (1985). Agregando-se ao instrumental walrasiano. portanto. Referências ARNSPERGER. (iii) Tempo. Vejamos como o esquema conceitual de Bowles e Gintis considerou tais elementos. teorias científicas devem ser passíveis de falsificação. mas as instituições agora nos fornecem ao mesmo tempo o mapa de utilidade e as restrições orçamentárias. Como vimos. podemos analisar a contribuição de Bowles e Gintis ao debate sobre as questões das preferências e instituições. Há motivações para o comportamento individual que vão além do bem-estar do indivíduo – idéia parecida com a que encontramos em economistas clássicos ingleses como J. Mill e Marshall. (iii) atomismo. deduzir quais preferências que podem surgir naquele ambiente. (ii) Dualismo. cujos fatos previstos são comprovados empiricamente. É bem verdade que não é o mesmo indivíduo dessocializado e auto-interessado da economia walrasiana tradicional. Neste caso. What is Neoclassical Economics? The three axioms responsible for its theoretical oeuvre. a partir de Lisboa (1998). identificável com uma metodologia dedutivista. Bowles e Gintis assumem a maior parte dos dualismos associados ao pensamento econômico do mainstream (indivíduo e sociedade.

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