Um Diagnóstico da Anormalidade e Exclusão Social: a influência da Biopolítica na
trajetória escolar de um jovem deficiente
Geana Taisa Machado Krause1
PPGEDU/UFRGS
krausegeana@[Link]
RESUMO: Este artigo analisa a vida escolar de um rapaz negro, sob a influência dos estudos
de Pedro Angelo Pagni. Explora-se como os conhecimentos clínicos podem moldar a
percepção da normalidade e anormalidade, influenciando as políticas e práticas educacionais.
Apresentam-se as formas que levaram esse indivíduo a ser delineado, durante os anos, com
base em seus estigmas, confirmados por diagnósticos médicos que o definiram principalmente
no parâmetro da anormalidade. A análise considera as implicações do biopoder, conforme
conceituado por Foucault, na segregação e exclusão. Seu retorno à escola foi marcado por
desafios, revelando falhas no sistema educacional e nas políticas públicas. O artigo conclui
com uma reflexão sobre a invisibilidade desses sujeitos, tidos como ingovernáveis, na
sociedade contemporânea.
PALAVRAS - CHAVE: Educação Especial, Patologização, Biopoder, Políticas
educacionais.
Neste texto apresento a análise da vida escolar de um rapaz negro, aluno com
deficiência, nascido em 1996, ao qual chamarei de “T”. A narrativa de sua trajetória escolar,
inicialmente concebida como um ensaio, porém não publicada e arquivada por alguns anos, é
agora resgatada e revisitada sob a ótica da influência da biopolítica. Inspiro-me nos estudos de
Pagni (2023), de modo a identificar os eventos que possivelmente moldam a maneira pela
qual a sociedade acolhe ou exclui esses indivíduos. De forma abrangente, a sociedade tende a
categorizar os indivíduos em um espectro que distingue entre normalidade e anormalidade. Os
desdobramentos resultantes dessas práticas podem influenciar significativamente as políticas e
práticas educacionais adotadas nas instituições de ensino.
Desde o seu nascimento, “T” foi objeto de documentação médica detalhada, que
compreende um conjunto de registros que abarcam toda a sua vida, desde a infância precoce.
Esse conjunto de documentos delineia um retrato inicialmente estabelecido pelo olhar médico,
que descreve a trajetória de uma criança nascida prematuramente e que enfrentou episódios de
1 Mestranda em Educação PPGEDU/UFRGS, orientada pela Professora Doris Bittencourt Almeida, Pedagoga
pela Universidade Luterana do Brasil, Bacharel em Jornalismo pela Universidade de Franca, Psicopedagoga,
Especialista em Educação Especial e Inclusiva, Professora de Ed. Especial da Rede Municipal de Porto Alegre,
Membro dos Grupos de Pesquisa/CNPq GARPE - Arquivos pessoais, patrimônio e educação, EBRAMIC
Educação no Brasil: memória, instituições e cultura escolar.
convulsões e paradas respiratórias, fatores que possivelmente contribuíram para seu atraso no
desenvolvimento cognitivo. Por esse motivo, carrega consigo o estigma associado à
deficiência e doença mental, refletido em uma série de laudos médicos frequentemente
inconclusivos.
Os paradigmas médicos recorrem a classificações diagnósticas para descrever
indivíduos com deficiência, uma prática que, segundo Pagni (2023), sugere que a deficiência
é como uma etiqueta que adere à pele de forma indelével. Essa etiqueta não apenas diferencia
o indivíduo dos demais, mas o faz de maneira que não enfatiza suas qualidades ou
potencialidades, mas sim seus limites, disfunções e déficits. Assim, essa etiqueta torna-se
parte intrínseca da identidade do indivíduo, moldando a maneira como é percebido e interage
com o mundo a seu redor. As diferenças que “T” enfrentou desde a infância podem ser
interpretadas como falhas ou irregularidades no funcionamento do corpo, o que reforça a
noção de anormalidade e estigma associados à sua condição.
Assim, ao analisar-se como os indivíduos são caracterizados pelas instituições
educativas e pela sociedade, de acordo com as conclusões de Foucault (2010), torna-se
evidente que o corpo, que não se conforma aos padrões ou normas estabelecidas, é marcado
pelo seu comportamento desviante e pela anomalia.
Compreender a deficiência para além das suas marcas no corpo e de um
processo de individualização das suas limitações é uma contribuição
importante para a sociedade se repensar enquanto instância que produz
desigualdades. Entretanto, para além dessas contribuições também seria
preciso se perguntar: Por que a necessidade de classificar formas de ser
e de estar no mundo ainda é imperativa na atualidade? (Lockmann;
Klein, 2023, p. 3).
Lockmann e Klein (2023) abordam, com base no livro Nascimento da Clínica, de
Michel Foucault, a necessidade de se compreender a deficiência de um modo mais
abrangente, não apenas em termos de suas manifestações físicas, mas como integrante de um
processo mais abrangente de singularização das restrições que indivíduos com deficiência
enfrentam. As autoras destacam que essa compreensão mais ampla é crucial para a sociedade
repensar seu papel como produtora de desigualdades. No entanto, também levantam a questão
de por que ainda é tão importante classificar e categorizar diferentes formas de ser e de existir
no mundo nos dias de hoje.
Desde uma idade precoce, “T” carrega essa marca consigo. Aos 12 anos de idade, ele
abandonou a escola regular, alegando a falta de suporte especializado após a aposentadoria de
sua professora, sem uma substituição adequada disponível. É importante ressaltar que, no dia
a dia da escola, muitas vezes as práticas implícitas acabam reforçando a discriminação étnico-
racial, de gênero, relacionadas a pessoas com deficiência e a todos/as que são diferentes. Por
meio do silêncio e do consentimento curricular, em muitos casos, as práticas pedagógicas
contribuem para a retenção contínua do estudante, perpetuando as injustiças históricas e
naturalizando o processo de segregação. Conceitos como poder, racismo, currículo
educacional e a própria escola podem ser analisados à luz dos estudos de Foucault (2008).
Somente aos 17 anos, “T” retornou como estudante à Escola Municipal Especial
Elyseu Paglioli2, devido à intervenção de um novo vizinho, que percebeu as suas necessidades
especiais ao vê-lo brincando com crianças na rua. Esse foi o primeiro passo que desencadeou
encaminhamentos do caso à Promotoria de Justiça e, consequentemente, a garantia de
matrícula de “T” na escola especial, pela intervenção do Ministério Público.
O ambiente familiar de “T” se apresenta como um cenário permeado por desafios e
adversidades. Tanto a mãe quanto outros membros da família têm histórico de envolvimento
com substâncias psicoativas. Residindo em uma localidade caracterizada por altos índices de
violência e criminalidade, ele e sua família habitam um espaço insalubre, cedido por um
parente, no qual as condições precárias, aliadas ao risco iminente de desabamento,
representam uma realidade preocupante. Além disso, a família enfrenta ameaças de expulsão
por parte de grupos criminosos devido a dívidas contraídas por um parente do aluno.
Sua matrícula foi assegurada, dadas as circunstâncias de sua idade avançada, sua
deficiência intelectual e a proximidade da EMEEF Elyseu Paglioli da sua residência. Esse
corpo, que esteve ausente dos muros da escola por tanto tempo, é representado por meio de
papéis, laudos, pareceres e documentos oficiais que, juntos, formam um dossiê, que narra sua
história de evasão escolar. Entretanto, tais registros parecem buscar justificativas para uma
falha, ao mesmo tempo que procuram um culpado que não seja o Estado.
Os documentos contidos na pasta do aluno destacam predominantemente o
comportamento de “T”, com ênfase nas áreas consideradas inadequadas, enquanto oferecem
poucas informações sobre suas capacidades. Esse viés revela uma tendência crescente de
patologização dos sujeitos, levando os professores a adotarem abordagens de ensino mais
alinhadas à perspectiva médica do que à pedagógica.
2 A Escola Municipal Especial de Ensino Fundamental Elyseu Paglioli está localizada na Zona Sul de Porto
Alegre, Rio Grande do Sul. Foi fundada em 1988, sendo a primeira escola especial construída pelo município.
Atende alunos entre 6 e 21 anos com deficiência intelectual ou transtornos globais de desenvolvimento em
turmas de I, II e III Ciclos. Por meio do Programa de Trabalho Educativo (PTE), promove a inclusão de jovens
com deficiência no mundo do trabalho. Também possui assessoramento de Estimulação Precoce e
Psicopedagogia inicial para EMEIs e instituições de Educação Infantil conveniadas à prefeitura.
Mais do que o seu desenvolvimento anatômico-biológico não
corresponder ao de suas faculdades intelectuais, esse modo de
patologização do instinto serve para julgá-lo, seja para vislumbrar
aspectos de eventuais correções, seja para reconhecer a sua inércia,
reiterar seu retardo, neutralizando certas potências nocivas identificadas
com o prazer sexual e sua economia (Pagni, 2023, p. 56).
Pagni (2023) entende que, quando se consideram os instintos naturais, como o desejo
sexual, como anormais ou patológicos, certos indivíduos não irão se enquadrar nos padrões
sociais estabelecidos. Logo, a patologização do instinto é usada para examinar o indivíduo e
identificar maneiras de “corrigir” ou ajustar seu comportamento para se adequar às normas
sociais. Isso implica em reconhecer a falta de atividade ou progresso e enfatizar o atraso ou
estagnação do indivíduo, reforçando essa percepção.
A escola deveria ser um ambiente inclusivo, em que as diferenças sejam acolhidas e
enaltecidas. No entanto, cada vez mais ela se vê infiltrada por discursos médicos que
colonizam seu espaço, impondo uma visão patologizante sobre os alunos e reforçando a
exclusão em detrimento da inclusão. O reconhecimento dos direitos individuais, conforme
garantido pela constituição, é crucial para a plena participação na sociedade civil, contudo,
sob uma análise foucaultiana, esses direitos nem sempre operam em benefício do indivíduo.
No contexto abordado, a ausência de assistência médica e educacional adequada, aliada a
questões socioeconômicas, como a pobreza e o analfabetismo, ilustra como tais dispositivos
de poder atuam para marginalizar certos grupos.
Diante desse questionamento, como observadores desse fenômeno social, é importante
ressaltar a evidência comum, em torno da escola como um reflexo da sociedade, da qual
emergem relações de poder. Adicionalmente, é crucial considerar que o poder não é algo
concedido, trocado ou recuperado, mas sim algo exercido. Ele só se manifesta em ação e está
intrinsecamente ligado à dinâmica das relações de força (Foucault, 2008, p. 99).
A análise foucaultiana também nos permite compreender como a evasão escolar na
Educação Especial não é um fenômeno isolado, mas sim um sintoma de estruturas de poder
mais amplas que perpetuam a exclusão social. O sistema educacional, longe de ser uma
instituição neutra, atua como um mecanismo de controle social que reproduz desigualdades
pré-existentes. Portanto, o caso de “T” não pode ser dissociado das complexidades sociais e
políticas mais amplas que permeiam a sociedade, afetando uma vasta gama de alunos
excluídos.
Sob uma abordagem filosófica e antropológica, percebe-se que o aluno se revela como
um indivíduo potencialmente considerado ingovernável, conforme descrito por Foucault,
marginalizado pela sociedade devido à sua condição de vulnerabilidade. No entanto, por trás
dos estigmas e diagnósticos, “T”, ao voltar ao convívio escolar, demonstrou sua humanidade
por meio de suas atividades cotidianas e seu desejo de interagir positivamente com os outros.
A inclusão do aluno na escola ocorreu de forma relativamente rápida, mas não sem o
enfrentamento de alguns obstáculos. “T” apresentava dificuldades de memória de curto prazo
e comprometimento visual, o que prejudicava sua aprendizagem em relação a conhecimentos
mais abstratos. Os problemas psiquiátricos e de comportamento, documentados em sua pasta,
não foram percebidos na instituição de ensino. Até sua formatura, “T” recebeu vários
encaminhamentos pela escola, tanto de atendimento especializado como para o mercado de
trabalho, mas todos foram descontinuados devido à sua vulnerabilidade socioeconômica.
A conscientização da escola sobre a realidade de total desamparo e exclusão social
enfrentada por “T” e sua família ocorreu posteriormente, após seu primo mais jovem, também
aluno da escola especial, vivenciar dificuldades decorrentes da violação de seus direitos,
resultando na intervenção do Conselho Tutelar. Esse evento evidencia a interconexão entre as
experiências individuais e os sistemas sociais mais amplos. Segundo Pagni (2023), a
sociologia e a antropologia interpretam esses estados de anomia como indicadores de
desregulação social, destacando a ameaça que representam para as estruturas estabelecidas na
sociedade. Nesse sentido, é fundamental reconhecer que um aluno não pode ser reduzido
apenas a seu comportamento ou suas patologias, mas é necessário considerar os contextos
social, econômico e cultural nos quais esteja inserido.
De fato, quando grupos ou indivíduos se afastam das normas culturais,
comportamentais ou ideológicas estabelecidas pela sociedade, são muitas vezes percebidos
como ameaças à ordem social. Isso pode resultar em medidas coercitivas, como
discriminação, criminalização ou exclusão, usadas para reprimir ou controlar seu
comportamento, considerado desviante. Na biopolítica, o exercício do poder vai além da
disciplina dos indivíduos, abrangendo também a regulação da vida da população como um
todo. Esse controle muitas vezes resulta na invisibilidade das minorias sociais. Quando as
vozes desses grupos são ignoradas, ocorre a perpetuação de uma política que os marginaliza e
exclui, contribuindo para a ampliação da desigualdade e da injustiça social.
Ao analisar como esses sujeitos desviantes chegam à escola, podemos ter uma ideia
dos motivos que causaram seu afastamento. No caso da evasão escolar de “T”, pode estar
relacionado ao conceito de Educação Especial, apresentada na Lei nº 9.394 no Capítulo I,
Artigo 2º, como sendo uma modalidade de ensino oferecida preferencialmente na rede regular
de ensino. Tal definição, ao empregar o termo “preferencialmente”, acaba por deixar essa
decisão sob a responsabilidade da família em diálogo com as equipes multidisciplinares.
Nesse caso, o Estado passa sua responsabilidade de dar acesso à educação para as famílias e
profissionais especializados, se houver (Pagni, 2023, p. 178).
As políticas educacionais muitas vezes não conseguem atender de maneira eficaz às
necessidades específicas dos alunos considerados ingovernáveis, o que pode resultar na falta
de adaptações adequadas, apoio insuficiente que tende a causar a evasão escolar. Para aqueles
cuja permanência na escola não é assegurada, garantir o acesso ao ensino básico é um desafio
crucial. Indivíduos não escolarizados são vistos como improdutivos pelo Estado, uma vez que
suas habilidades não contribuem para os objetivos governamentais.
Retomando o caso em questão, a escola conseguiu estabelecer uma relação de
confiança com a família do aluno, incentivando sua frequência escolar. No entanto, em
algumas ocasiões, “T” faltava às aulas para auxiliar a família na atividade de reciclagem. Seu
histórico anterior de evasão escolar servia como um alerta para evitar que ele abandonasse
novamente os estudos, uma situação relativamente comum no contexto da Educação Especial.
A evasão pode ser influenciada por uma variedade de fatores, que representam desafios para
os alunos com deficiência. Esses obstáculos são moldados pelas práticas e estruturas
institucionais, que, paradoxalmente, podem contribuir para o surgimento do problema,
conforme destacado por Foucault (2013).
A análise de alunos que abandonam a escola destaca a necessidade premente de
políticas educacionais que não apenas reconheçam, mas também abracem a ampla diversidade
presente na sociedade, incluindo aspectos étnicos, sexuais, de gênero, identitários, de
deficiência, culturais e sociais, entre outros. O ato de se afastar da escola não apenas revela a
falha dos sistemas educacionais em lidar com essa diversidade, mas também evidencia uma
negligência mais ampla de vários setores da sociedade em proporcionar ambientes inclusivos
e oportunidades igualitárias para todos os indivíduos. Além disso, esse afastamento ressalta
como a biopolítica, que se preocupa com o controle e a regulação da vida da população, pode
comprometer o pleno desenvolvimento desses indivíduos, negando-lhes acesso aos recursos
educacionais e, consequentemente, restringindo suas oportunidades futuras.
Nos quatro anos em que “T” frequentou a escola, ele recebeu uma série de apoios e
recursos da instituição para explorar seu potencial. Isso incluiu um currículo adaptado,
assistência em necessidades práticas, como higiene, vestuário e transporte, além de introdução
ao mercado de trabalho e suporte à família. Apesar de todos esses movimentos realizados pela
escola para atender ao aluno, sua família não era alcançada de forma efetiva, pois esta
sobrevivia à margem de qualquer assistência, sem acesso a programas sociais, como o Bolsa
Família, e sem atendimento adequado do Sistema Único de Saúde (SUS), dependendo de
auxílio de terceiros e vivendo do lixo reciclável.
O aluno iniciou um curso no SENAC pelo Programa de Trabalho Educativo (PTE),
mas sua frequência foi irregular desde o início, com atrasos frequentes, o que causou
preocupação na escola. Sua mãe enviou bilhetes justificando as faltas e buscando soluções,
revelando sua própria situação de adversidade e dificuldade. Embora feliz com as
oportunidades oferecidas a “T”, sua mãe enfrentava dificuldades para atender às suas
necessidades básicas. A estrutura educacional brasileira, em sua execução, distancia-se do
conceito de uma “escola para todos” preconizado pela Constituição Brasileira. O exemplo
mencionado se junta a uma série de outras situações de exclusão presentes no País, em que
indivíduos são marginalizados pelos dispositivos anátomo-políticos por não se adequarem a
determinados padrões.
A abordagem adotada pelos regimes de governo em relação à deficiência é
problemática, pois contribui para a exclusão dessas pessoas na sociedade. Isso pode ocorrer de
várias maneiras, como pela falta de acesso a serviços e recursos adequados, discriminação
institucionalizada e estigmatização social. É importante examinar criticamente as políticas
governamentais em relação ao tratamento às pessoas com alguma deficiência, que acabam
sendo invisíveis ao sistema, e reconhecer tanto os desafios enfrentados por essas políticas
quanto as formas de resistência e luta por parte das pessoas com deficiência e suas
comunidades.
Embora a relação entre escola e família seja fundamental para o sucesso educacional e
o desenvolvimento integral do aluno, há muitos outros fatores que influenciam a formação de
um indivíduo, e o apoio oferecido pela escola tem seus limites. A qualidade da educação vai
além do ensino em si e inclui todos os aspectos que permeiam a jornada educacional do aluno,
como o ambiente escolar, o suporte emocional, a inclusão social e o acesso a recursos e
oportunidades.
Portanto, a presença desse aluno na escola especial permitiu uma ruptura nos padrões
de pensamento em relação ao funcionamento dos mecanismos no ambiente escolar. Sua
trajetória escolar nos faz refletir sobre os indivíduos que frequentemente não conseguem se
beneficiar do sistema educacional devido à ausência de políticas eficazes de combate à evasão
escolar, à escassez de currículos adaptados, entre outros fatores que os afastam do ambiente
escolar. Ao acompanhar a trajetória desse aluno na escola, torna-se evidente que a
instituição...
Após a formatura, a família de “T” foi desalojada e agora vive nas ruas de Porto
Alegre, invisível para grande parte da sociedade, como tantos outros deixados à deriva pelo
Estado, à margem do sistema, invisíveis aos olhos da sociedade. Quem irá se responsabilizar
por reconhecer a existência desses indivíduos? Vagam pela cidade, sem que ninguém os veja
ou sinta sua falta.
A análise dessa jornada revela como a marginalização social e escolar persiste, mesmo
no século XXI. A influência do racismo e da biopolítica na exclusão desses indivíduos é
evidente, destacando-se a necessidade de se repensar nossas concepções sobre normalidade e
anormalidade. É fundamental questionar as práticas que perpetuam a invisibilidade e a
marginalização, tanto na educação quanto na sociedade em geral. O racismo vai além do
preconceito de raça em si, ele pode ser percebido nos mecanismos de segregação, camuflados
sob a roupagem da inclusão, e falhas das políticas públicas (Pagni, 2023), em relação a seu
combate eficaz e conscientização.
Segundo Foucault (2016), o racismo desempenha um papel crucial, na prática da
segregação, sendo a biopolítica responsável por estabelecer cortes biológicos nas populações,
determinando quem merece viver e quem deve morrer. Nesse contexto, indivíduos
considerados menos “puros” são vistos como uma ameaça ao desenvolvimento da sociedade,
justificando assim sua eliminação como uma medida para evitar supostos perigos biológicos.
Foucault (2016) argumenta que o racismo desempenha um papel essencial na legitimação
dessa prática de extermínio em uma sociedade que busca normalizar seus padrões. O racismo
de Estado integra a prática de fazer morrer ao poder soberano, sendo um componente
essencial da microfísica do biopoder (Foucault, 2016).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise aprofundada da trajetória educacional de “T” proporcionou-me uma visão
crítica acerca das complexas interações entre a patologização, as políticas educacionais e as
dinâmicas sociais contemporâneas. Ao longo deste estudo, emergiram reflexões fundamentais
sobre a necessidade de se repensar as abordagens educacionais e as políticas públicas, de
maneira a garantir-se uma inclusão autêntica e promover-se a igualdade para todos os
indivíduos.
Primeiramente, tornou-se evidente que as políticas educacionais atuais muitas vezes
fragmentam a experiência educacional do aluno da Educação Especial, reduzindo-o a aspectos
que se encaixam em padrões diagnósticos predefinidos. Isso cria um cenário no qual o aluno
deixa de ser visto como um ser completo, e sim como uma coleção de características que
justificam sua exclusão ou marginalização. Portanto, é crucial reconhecer a importância de
adotarem-se abordagens mais holísticas, capazes de valorizar a singularidade de cada aluno e
reconhecer suas necessidades individuais, de maneira a se promover uma educação inclusiva e
de qualidade.
Além disso, o caso de “T” levanta questões sobre as hierarquias e normas sociais
enraizadas nas instituições educacionais, que muitas vezes perpetuam a exclusão e a
discriminação. A persistente classificação e categorização dos indivíduos com base em
normas culturais e sociais dominantes reforça a necessidade urgente de uma reflexão crítica
sobre as práticas institucionais e suas implicações na promoção da igualdade de oportunidades
para todos os alunos.
A invisibilidade persistente dos sujeitos considerados “ingovernáveis” na sociedade
contemporânea ressalta a urgência de uma revisão abrangente das políticas educacionais e das
políticas públicas em geral. É imperativo reconhecer que a verdadeira inclusão vai além da
simples presença física na escola; ela exige a criação de ambientes educacionais que acolham
e valorizem a diversidade, promovendo o respeito mútuo e a participação plena de todos os
alunos.
Por fim, esta análise desafia conceitos arraigados de normalidade e patologização,
destacando a necessidade de se construir uma sociedade mais justa e inclusiva para todos os
indivíduos. É essencial que continuemos a questionar e contestar as estruturas de poder e as
práticas discriminatórias que perpetuam a marginalização e a exclusão, buscando
constantemente formas de edificar uma educação verdadeiramente democrática e igualitária.
Em suma, o caso de “T” nos lembra da importância de uma abordagem crítica e
reflexiva em relação às políticas e práticas educacionais, visando não apenas garantir o acesso
à educação, mas também promover o pleno desenvolvimento e a realização de cada aluno,
independentemente de suas características ou condições individuais. Somente através de um
compromisso coletivo com a justiça e a equidade poderemos criar uma sociedade na qual
todos tenham a oportunidade de florescer e alcançar seu potencial máximo.
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