Último trânsito de Vénus do século é este ano

Acontecimento é de interesse histórico para especialistas
2012-05-29

CiênciaHoje

Trânsito de Vénus a 5 e 6 de Junho. (clique para ampliar)

Cientistas e astrónomos amadores de todo o mundo preparam-se para observar o planeta Vénus a atravessar a face do Sol, na próxima semana, entre 5 e 6 de Junho. Um evento muito raro, que não será observado novamente em mais de 100 anos. E, pela primeira vez, uma nave – a Venus Express (VE) – estará à volta do planeta enquanto observa o fenómeno. A Agência Espacial Europeia (ESA) irá transmitir em directo, a partir da ilha do Árctico, Spitsbergen, onde a equipa de ciência da VE estará a discutir os mais recentes resultados científicos da missão enquanto apreciam a vista única do trânsito de 2012, sob o ‘sol da meia-noite’. O trânsito de Vénus acontece apenas quando este planeta passa directamente entre o Sol e a Terra. Uma vez que o plano orbital de Vénus não está alinhado exactamente com o da Terra, os trânsitos ocorrem muito raramente, aos pares, com intervalos de oito anos, mas separados por mais de um século. O último trânsito foi em Junho de 2004, mas o próximo não será visto antes de 2117. Estes acontecimentos têm um grande interesse histórico, porque foram uma oportunidade para os astrónomos medirem o tamanho do Sistema Solar. Os trânsitos do século XVIII permitiram calcular a distância ao Sol, ao medir o tempo que Vénus demorava a atravessar o disco solar, de vários pontos do globo e usando depois trigonometria simples. Também durante o trânsito de 1761, os investigadores aperceberam-se de uma coroa de luz à volta do limite escuros do planeta, revelando que tem uma atmosfera. Graças às naves, incluindo a Venus Express, sabemos agora que alberga uma atmosfera densa e inóspita, rica em dióxido de carbono e nitrogénio, com nuvens de ácido sulfúrico. Hoje, os trânsitos são uma ferramenta valiosa para o desenvolvimento de métodos para a detecção e caracterização dos planetas em órbita de outras estrelas, ou seja, os exo-planetas. Enquanto passam em frente a uma estrela, bloqueiam temporariamente uma pequena porção da luz, revelando a sua presença e fornecendo informação acerca do seu tamanho. O telescópio espacial CoRot usou esta técnica para descobrir mais de 20 exo-planetas, por exemplo. Os trânsitos também estão a ser usados para a procura de exo-planetas que possam albergar vida. Se o planeta tiver atmosfera, uma pequena fracção da

luz da estrela irá passar através desta atmosfera, revelando as suas propriedades, tais como a presença de água ou de metano.

Venus Express está em órbita do planeta em trânsito

Plenitude no oeste do Pacífico Durante o trânsito do próximo mês, os astrónomos terão a oportunidade de testar estas técnicas, acrescentando dados aos já recolhidos nos seis trânsitos anteriores, observados desde a invenção do telescópio, no início do século XVII. O trânsito de 2012 só será visível na sua plenitude no oeste do Pacífico, este da Ásia, este da Austrália e nas latitudes muito a norte. Para os Estados Unidos, começará na tarde de 5 de Junho e para a maior parte da Europa o sol irá nascer a 6 de Junho com o trânsito quase terminado. Os astrónomos alertam especialmente os observadores para nunca olharem para o Sol com os olhos desprotegidos, com óculos de sol normais ou através de um telescópio, já que isto pode causar cegueira permanente. “Estamos muito entusiasmados por poder observar o trânsito de um ponto único na Europa, enquanto a Venus Express está em órbita do planeta em trânsito,” diz Håkan Svedhem, cientista de projecto da ESA, acrescentando que “durante o trânsito, a nave irá fazer importantes observações da atmosfera de Vénus’ que serão comparadas com as de telescópios em terra para ajudar os caçadores de exo-planetas a testar as suas técnicas.” A partir de Spitsbergen serão enviadas actualizações, de 5–6 Junho, enquanto o mundo assiste à última viagem do século, de Vénus em frente ao Sol.

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