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Professor Edu Silva

A ERA COLONIAL
QUINHENTISMO – 1500-1601
Momento histórico:
• As grandes navegações.
• O descobrimento do Brasil.
• A exploração do pau-brasil.
• A influência dos Jesuítas.

Aspectos centrais:
• Literatura sobre o Brasil, descrevendo a paisagem, o índio e os primeiros
grupos sociais.
• Pouco valor artístico, muito valor histórico. Serviu, muitas vezes, como fonte
de inspiração e pesquisa para manifestações literárias posteriores.
• Classificam-se, neste período, duas modalidades de textos
QUINHENTISMO – 1500-1601

Literatura informativa
• Produzida pelos viajantes que aqui estiveram.
• Descrição da terra e do selvagem, que demonstra as intenções do
colonizador: exploração e domínio.
• Visão paradisíaca da nova terra, refletindo o deslumbramento do
europeu diante da exuberância da natureza tropica
I
E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes
falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos,
porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos;
por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm.
E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais
devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de
Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo
para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa
fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje
também comungaram.
Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma
mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano
com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-
se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim,
Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior --
com respeito ao pudor.
II
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o
sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste
porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou
vinte e cinco léguas de costa. (...) De ponta a ponta é toda praia...
muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar,
muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra
e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou
outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é
de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-
Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de
lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que,
querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que
tem! Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que
será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa
Alteza em ela deve lançar.
Pero Vaz de Caminha
QUINHENTISMO – 1500-1601
Literatura dos Jesuítas:
• Produzida pelos Jesuítas.
• Influenciada pelos ideais da Contrarreforma.

Principais autores e obras:


• Pe. José de Anchieta – Gramática da língua Tupi, poesias de cunho
medieval, peças de teatro (autos).

• Pe. Manuel da Nóbrega – Diálogo sobre a conversão do gentio.


BARROCO [1601-1768]
BARROCO – 1601-1768

Momento Histórico
• Apogeu da Contra - Reforma.
• Fim das grandes navegações.
• A Bahia como ciclo econômico e político (cana-de-
açúcar).
• A exploração institucionalizada.
BARROCO – 1601-1768
Dualismo: a arte trabalha dos contrastes

• antropocentrismo x teocentrismo
• matéria x espírito
• carnal x espiritual
• pecado x perdão
• eterno x efêmero
• vida x morte
• amor sensual x amor platônico
BARROCO – 1601-1768

Conceptismo
Mais comum na prosa,
cm ênfase no conteúdo,
caracteriza-se por jogo
de ideias, de raciocínio,
na busca por sutilezas
ideológicas.
Vós, diz Cristo, senhor nosso, falando com os pregadores,
sois o sal da terra; e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam
na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas
quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos
nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta
corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não
deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não
pregam a verdadeira doutrina, ou porque a terra se não deixa salgar,
e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não
querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem
uma coisa e fazem outra, ou porque a terra não se deixa salgar, e os
ouvintes querem antes imitar o que eles fazem que fazer o que
dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e
não a Cristo, ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em
vez de servir a Cristo, servem os seus apetites. Não é tudo isto
verdade? Ainda mal.”
VIEIRA, Padre António, Sermões
Caiu no ENEM...
Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado
porque padeceis em um modo muito semelhante o que o
mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A
sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um
engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque
duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro
de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel.
A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia
sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo
despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo
em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as
prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto
se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de
paciência, também terá merecimento de martírio.
VIEIRA, A. Sermões. Tomo XI. Porto: Lello & Irmão, 1951
(adaptado).
O trecho do sermão do Padre Antônio Vieira estabelece uma
relação entre a Paixão de Cristo e

A a atividade dos comerciantes de açúcar nos portos brasileiros.


B a função dos mestres de açúcar durante a safra de cana.
C o sofrimento dos jesuítas na conversão dos ameríndios.
D o papel dos senhores na administração dos engenhos.
E o trabalho dos escravos na produção de açúcar.
BARROCO
[1601-1768]

Cultismo
Conhecido também por
gongorismo, era mais
comum na poesia, com
ênfase na forma, nos
sentidos, os jogo de
palavras, no uso exagerado
de figuras de linguagem.
BARROCO [1601-1768]
1. Poesia religiosa - Há um estabelecimento de um eu lírico
arrependido que se coloca diante de um Deus perdoador e
compreensivo. Temas da poesia religiosa:

• A fragilidade e a efemeridade da formosura;


• A banalidade das alegrias desta vida;
• O sentimento da culpa por haver pecado;
• O arrependimento e a busca do perdão perante a figura
tolerante de Deus;
• A vaidade e a inutilidade dos bens materiais.
Buscando a Cristo (Gregório de Matos)

A vós correndo vou, braços sagrados,


Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados


De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,


A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,


A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
2. Poesia lírico-amorosa - Em oposição aos apelos do espírito, a lírica
amorosa de Gregório – que, às vezes, traz marcas de uma linguagem mais
sensual – prega o lema do carpe diem (aproveita o dia, a vida), próprio da
filosofia pagã. O eu lírico aparece nos versos dividido entre o desejo dos
prazeres carnais e o sentimento amoroso platônico.
3. Poesia satírica - Foge em parte dos padrões artísticos barrocos,
voltando-se para uma realidade da época. Utilizava uma linguagem
ferina e sarcástica. Alvos preferidos aos ataques:

• o clero
• o povo que trabalha para os colonizadores
• a pretensa nobreza e seu comportamento ridículo ao colonizador
• a cidade de Salvador e seus governantes corruptos
• mulheres adúlteras, maridos traídos...
Michelangelo Caravaggio, Narciso
Velázquez (1599-
1660)- Tornou-se
famoso por
retratar a corte
espanhola do
século XVII. Entre
esses retratos está
As meninas.
Michelangelo Caravaggio
ARTE ROCOCÓ
 O Barroco chegou ao
Brasil com os jesuítas,
durante o século XVII

 Foi a expressão artística


mais importante do
período colonial

 Foi mais expressivo na


regiões açucareira e
mineradora

Basílica Nossa Senhora do


Carmo, Recife
 Acabou adquirindo
características próprias
por receber influência de
vários lugares da Europa.
 Em Minas, já no século
XVIII, o barroco
apresenta-se desenvolvido
e com características
rococó.
 A maior parte das obras
concentram-se em igrejas.

Igreja de São Francisco,


Salvador
Aleijadinho
 Filho de um mestre de
obras português com
uma escrava
 Desenvolveu na idade
adulta uma doença
degenerativa que
dificultava seu trabalho.
Os instrumentos de
trabalho eram
amarrados ao seu
corpo.

Igreja São Francisco de Assis,


Ouro Preto
 O equilíbrio buscado
nas obras que
antecedem sua doença e
deixado de lado, dando
lugar a um tipo
específico de
expressionismo, que
acabou tornando-se sua
principal marca.

Cristo carregando a
cruz, Congonhas
 A escultura era sua
principal expressão,
embora tenha algumas
passagens pela
arquitetura.
 Os principais materiais
utilizados eram a
madeira e a pedra-
sabão.

Profeta Abdias,
Congonhas
Igreja Bom Senhor Jesus do Matosinhos, Congonhas
ARCADISMO
[1768]
• O Iluminismo.
• A expulsão dos Jesuítas do Brasil
(1759).
• Ciclo da mineração.
• Minas Gerais como centro
econômico e político.
• A Inconfidência Mineira (1789).
Faz a imaginação de um bem amado,
Que nele se transforme o peito amante;
ARCADISMO
Daqui vem, que a minha alma delirante
Cláudio Manuel da Costa
Se não distingue já do meu cuidado.
Obras poéticas (1ª)
Nesta doce loucura arrebatado Vila Rica (poema épico)
Anarda cuido ver, bem que distante;
Mas ao passo, que a busco neste instante
Me vejo no meu mal desenganado.

Pois se Anarda em mim vive, e eu nela vivo,


E por força da idéia me converto
Na bela causa de meu fogo ativo;

Como nas tristes lágrimas, que verto,


Ao querer contrastar seu gênio esquivo,
Tão longe dela estou, e estou tão perto.
IMITAÇÃO
DOS
CLÁSSICOS
LUIS DE CAMÕES
ARCADISMO
Tomás Antônio
Gonzaga (Dirceu)

Cartas Chilenas
(poesia satírica)

Marília de Dirceu
(poesia lírico-amorosa)
QUINHENTISMO (1500-1600)

BARROCO (1601-1768)
ERA COLONIAL

* Predomínio da subjetividade.
* Influência da Contra-Reforma.
* Oposição.
* Medievalismo x Paganismo.
* Homem em conflito.
* Linguagem complexa.

ARCADISMO (1768-1808)

* Predomínio da objetividade.
* Influência das ideias Iluministas.
* Paganismo.
* Homem em equilíbrio.
* Linguagem simples.
O ROMANTISMO
O ROMANTISMO - 1836
 romantismo: comportamento caracterizado pelo sonho, pelo
devaneio, por uma atitude emotiva diante das coisas. Esse
comportamento romântico pode ocorrer em qualquer época da
História

 Romantismo: também está relacionado aos sentimentos, mas foi


muito mais do que isso. Foi um amplo movimento que surgiu no
século XIX e representou os anseios da burguesia, que havia
acabado de chegar ao poder.

 Romance < Romanço: língua usada pelos povos sob o domínio


do Império Romano. Essas línguas eram formas populares e
evoluídas do latim. Também se chama romance às composições de
cunho popular e folclórico, escritas nesse latim vulgar, que
contavam histórias cheias de imaginação, fantasia e aventuras.
CONTEXTO HISTÓRICO

 Revolução Industrial (1760): novas


tecnologias, divisão do trabalho,
formação dos centros urbanos,
revoltas sociais

 Revolução Francesa (1789):


solidificação do poder político
burguês
CONTEXTO HISTÓRICO
 1808: Mudança da Coroa Portuguesa
para o Brasil e elevação do Brasil à
categoria de Reino Unido.
 1810: Abertura dos portos às nações
amigas
 1822: Independência do Brasil:
despertou necessidade de criar uma
cultura brasileira identificada com suas
próprias raízes históricas, linguísticas e
culturais.
CONTEXTO HISTÓRICO
 Início do Romantismo no Brasil: 1836: Gonçalves de
Magalhães publica Suspiros poéticos e saudades

 Fim do Romantismo no Brasil: 1881: Aluísio de Azevedo


publica O mulato e Machado de Assis publica Memórias
Póstumas de Brás Cubas.
CARACTERÍSTICAS GERAIS

 Subjetivismo: extravazamento das emoções, a relação entre o


artista romântico e o mundo é sempre mediado pela emoção;
 Idealização: o escritor romântico, motivado pela fantasia e pela
imaginação, tende a idealizar vários temas;
 Temas idealizados: índio, nação, amor, herói, mulher, natureza,
ambientes exóticos, passado histórico, infância e morte;
 Descrições munuciosas, uso constante de adjetivos,
comparações e metaforizações;
 Nacionalismo: exaltação da natureza pátria, retorno ao passado
histórico e criação do herói nacional;
 Volta ao passado histórico: Idade Média (Europa) e Brasil pré-
colonial;
CARACTERÍSTICAS GERAIS

 Religiosidade: tendência espiritualizante do Romantismo.


Embasada no Cristianismo, significa uma nítida reação ao
racionalismo e ao materialismo do século anterior. A vida
espiritual é uma válvula de escape diante das frustrações do
mundo real.
 Apego à cultura popular, ao folclore.
O IDEIAL DO “BOM SELVAGEM”

O interesse pelo índio e sua idealização na literatura


estão relacionados com o projeto nacionalista do Romantismo.
O índio, contrapondo-se ao português e a sua cultura,
representa o elemento nativo, às próprias origens do país. Por
ser o representante histórico dessas origens, sua figura é
compatível ao cavaleiro medieval do Romantismo europeu, ao
mesmo tempo que encarna o ideal do “bom selvagem” de
Rousseau
NOVO PÚBLICO LEITOR

O Romantismo teve a tarefa de criar uma


linguagem nova identificada com os padrões mais
simples da vida da classe média e da burguesia. Põe fim
a uma tradição clássica de três séculos e dá início a
uma nova etapa na literatura, voltada aos assuntos
contemporâneos – efervescência social e política – e
ao cotidiano do homem burguês do século XIX.
A POESIA ROMÂNTICA
1ª] GERAÇÃO: nacionalista ou indianista (1836)

 Exaltação da natureza;
 Volta ao passado histórico;
 Criação do herói [O índio];
 Sentimentalismo;
 Religiosidade;

 Principal poeta: Gonçalves Dias


A Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras, Minha terra tem primores,


Onde canta o Sabiá; Que tais não encontro eu cá;
As aves, que aqui gorjeiam, Em cismar – sozinho, à noite –
Não gorjeiam como lá. Mais prazer eu encontro lá;
Nosso céu tem mais estrelas, Minha terra tem palmeiras,
Nossas várzeas têm mais flores, Onde canta o Sabiá.
Nossos bosques têm mais vida, Não permita Deus que eu morra,
Nossa vida mais amores. Sem que eu volte para lá;
Em cismar, sozinho, à noite, Sem que disfrute os primores
Mais prazer eu encontro lá; Que não encontro por cá;
Minha terra tem palmeiras, Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. Onde canta o Sabiá.
2ª] GERAÇÃO: mal-do-século ou
Ultrarromântica(1850)

Egocentrismo
Pessimismo
Angústia
Satanismo
Fuga da realidade: idealização da
infância, da mulher e da morte;

Principal poeta: Álvares de


Azevedo

Lord Byron (1788-1824)


3ª] GERAÇÃO: condoreira ou hugoana (1870)

Poesia social e libertária: justiça


social
Europa: defesa da classe operária
Brasil: fim da escravidão e defesa
da república
Tentativa de convencer o leitor:
oratória
Símbolo: condor
Principal poeta: Castro Aves

Victor Hugo (1802-1885)


A PROSA ROMÂNTICA
A prosa romântica
 O Romantismo teve ampla aceitação entre os leitores de literatura
no Brasil. Isso se deve principalmente a dois fatores: a identificação
imediata do público com a poesia romântica, direta e acessível, e o
aparecimento de um gênero literário novo em nosso país: o
romance.
 Somente no século XVIII é que a palavra romance tomou o sentido
que tem hoje: texto em prosa, normalmente longo, que desenvolve
vários núcleos narrativos; que narra fatos relacionados a
personagens, numa sequência de tempo relativamente ampla e em
determinado lugar ou lugares
 As origens populares da burguesia e seu senso prático não
condiziam com o refinamento da arte clássica. Essa nova classe
social ainda carecia de uma arte capaz de exprimir seu universo,
tanto na forma como no conteúdo.
A prosa romântica
 O romance, por relatar acontecimentos da vida comum e
cotidiana, e por dar vazão ao gosto burguês pela fantasia e pela
aventura, veio a ser o mais legítimo veículo de expressão artística
dessa classe.
 Tanto na Europa quanto no Brasil, o romance surgiu sob a forma
de folhetim, publicação, em jornais, de capítulos de determinada
obra literária. Assim, ao mesmo tempo que ampliava o público
leitor de jornais, o folhetim ampliava o público de literatura.
 Público leitor de folhetins: principalmente as mulheres, incluía
também estudantes, comerciantes, militares e funcionários
públicos.
 Procurando “re-descobrir” o país, o romance brasileiro está
radicalmente ligado ao reconhecimento dos espaços nacionais,
identificados como a selva, o campo e a cidade.
O Romance indianista

“O conhecimento da língua
indígena é o melhor critério para
a nacionalidade da literatura. (…)
É nessa fonte que deve beber o
poeta brasileiro; é dela que há de
sair o verdadeiro poema nacional,
tal como eu imagino”
(José de Alencar)
O romance indianista

 Enquanto o branco era identificado como o colonizador europeu, e


o negro como o escravo africano, o índio era considerado o único e
legítimo representante da América. Assim, o Romantismo brasileiro
encontrou no índio uma autêntica expressão de nacionalidade.
 Vários fatores contribuíram para a implantação do indianismo em
nossa cultura:

- Existência de uma tradição literária indianista no período colonial;


- A influência da teoria do bom selvagem, de Rousseau;
- Adaptação da figura idealizada do herói medieval: como o Brasil
não teve Idade Média, seu “herói nacional” passou a ser o índio, o
habitante do país no período pré-cabralino.
José de Alencar (1829-1877)
 Alencar aparece na literatura brasileira
como o consolidado do romance, um
ficcionista que responde às expectativas do
grande público
 Alencar defende o “consórcio” entre o
nativo e o europeu colonizador como uma
troca de favores: uns ofereciam a natureza
virgem, o solo esplêndido; outros, a cultura.
Da soma desses fatores resultaria um Brasil
independente.
 Sua obra é diversificada e contempla as
cinco possibilidades do romance
romântico.
O romance regionalista

 Coube ao romance regionalista a missão nacionalista que o


Romantismo se atribuiu de proporcionar ao país uma visão de
si mesmo. Estendendo o olhar para os quatro cantos do Brasil,
o romance regional buscou compreender e valorizar as
características étnicas, linguísticas, sociais e culturais que
marcam as regiões do país e diferenciam umas das outras.
 Sem apoio em modelos europeus, o romance regionalista
romântico teve que abrir sozinho seus próprios caminhos.
Portanto, constituiu em nossa literatura uma experiência nova,
que exigiu dos escritores pesquisa e senso de observação da
realidade. Como resultado desse empenho, os romances
regionais românticos deram um passo decisivo no rumo da tão
desejada autonomia cultural brasileira.
O Romance urbano
O Romance urbano
 O romance urbano ou de costumes tem como característica a
preocupação em ilustrar as paixões, os interesses e o
comportamento da burguesia; tendo como cenário o Rio de
Janeiro.
 A estrutura típica desse romance apresenta um herói e uma
heroína, que se apaixonam um pelo outro e precisam superar
obstáculos para viverem felizes para sempre.
 O romance urbano cumpria, assim, duas funções complementares:
dava representação literária para a elite brasileira e contribuía para
a divulgação de valores morais importantes para a sociedade em
formação.
 O romance urbano, por meio da divulgação de perfis, espaços e
comportamentos reconhecidos, também investe na construção da
identidade nacional.
REALISMO E NATURALISMO

“As respigadeiras”, 1857 - Millet


O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a
apoteose do sentimento; – o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do
homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o
que houver de mau na nossa sociedade.
Eça de Queirós
Momento Histórico
 Segunda metade do século XIX: sociedade europeia vive os
efeitos da Revolução Industrial e do amplo progresso
científico que a acompanha. É uma época de benefícios
materiais e econômicos para a burguesia industrial; contudo,
o operário vive um período de intensa crise e miséria.

 1848: o ano das revoluções: conturbações sociais produzidas


pelas camadas populares baseadas em ideias liberais,
nacionalistas e socialistas.
 Publicação do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Frederick
Engels.

 Socialismo Científico: a sociedade igualitária só seria


alcançada por meio da luta de classes e da extinção da
burguesia e do sistema capitalista.
O Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo são as
correntes artísticas que refletem a consolidação da
burguesia e seu fortalecimento, em função da
“implementação” do capitalismo avançado.

A exaltação da liberdade individual, da rebeldia, são


substituídas por novas palavras de ordem: ciência,
progresso, razão.

O apogeu da Revolução Industrial marcou profundas


transformações na vida, na arte e no pensamento.
O capitalismo se estrutura em moldes modernos,
com o surgimento de grandes complexos industriais
– por outro lado, a massa operária avolumava-se,
formando uma população marginalizada, que não
partilhava dos mesmos benefícios gerados por esse
progresso industrial, sendo submetida a condições
precárias de trabalho.

 Essa nova sociedade serve de pano de fundo para


uma reinterpretação da realidade, que gera teorias
de variadas correntes ideológicas.
Positivismo
 Augusto Comte defendia o cientificismo no
pensamento filosófico e a conciliação entre “ordem” e
“progresso” – o que originou a expressão da bandeira
do Brasil.

 Comte atribuía à constituição e ao processo da


ciência positiva importância capital para o progresso
de qualquer sociedade.
SOCIALISMO

 Marxe Engels, “Manifesto comunista”, 1848 – definição do


materialismo histórico e da luta de classes.

 “O que distingue nossa época – a época da burguesia – é


ter simplificado a oposição de classes. Cada vez mais, a
sociedade inteira divide-se em dois grandes blocos
inimigos, em duas grandes classes que se enfrentam
diretamente: a burguesia e o proletariado.”
Evolucionismo
 Darwin,1859, “A origem das espécies” – a evolução das
espécies pelo processo de seleção natural, negando a
origem divina difundida pelo Cristianismo.

 O homem passa a ser tomado como um ser animal, regido


pelo instinto biológico.
Determinismo

 Taine propõe que o comportamente humano é


determinado por forças biológicas, sociológicas e
ambientais e históricas.

 Todos os fatos psicológicos e sociais são manifestações


naturais que nada têm de transcendência.
Fim das idealizações românticas.
Características realistas
O REALIMO EM PORTUGAL: Eça de Queirós

Ironia, critica da sociedade;


Tom caricatural;
Linguagem elegante.

O Crime do Padre Amaro

Um Realista/ O Primo Basílio


Naturalista
Os Maias
AUTORES REALISTAS BRASILEIROS

Machado de Assis (1839-1908)

“...Marcela me amou durante quinze meses e onze


contos de réis; nada menos.”
AUTORES REALISTAS BRASILEIROS

Machado de Assis (1839-1908)


- Temas universais;
- Capítulos curtos;
- Metalinguagem e interlocução;
- Digressão;
- Correção gramatical;
- Humor sutil
- Ironia.

“...Marcela me amou durante quinze meses e onze


contos de réis; nada menos.”
AUTORES REALISTAS BRASILEIROS

Raul Pompeia (1863-1895)


- Digressão;
- Vida em coletividade;
- Zoomorfismo;
- Alusões ao
homossexualidade.

“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do


Ateneu. Coragem para a luta.” (1888)
AUTORES NATURALISTAS RASILEIROS

Aluísio de Azevedo Adolfo Caminha


(1857-1913) (1867-1897)
 Aluísio Azevedo (1857-1913)

Introdutor do Naturalismo e do
romance de tese no Brasil

• Crua linguagem naturalista;

• Personagens movidas pelo instinto;

• Descrições detalhadas;

• Foco na coletividade
marginalizada.
 Adolfo Caminha (1867-1897)

• A literatura com arma de


denúncia social;
• Crítica feroz à sociedade de
Fortaleza;
• Forte carga erótica;
• Homossexualismo;
Obras • Incesto;
-A normalista • Obsessões sexuais.
-Bom-Crioulo
O Realismo se tingirá de naturalismo, no romance e
no conto, sempre que fizer personagens e enredos que
submeterem-se ao destino cego das “leis naturais” que
a ciência da época julgava ter codificado; ou se dirá
parnasianismo, na poesia, à medida que se esgotar no
lavor do verso tecnicamente perfeito.
Alfredo Bosi
PARNASIANISMO
Parnasianismo: a disciplina do bom gosto

 A poesia: espaço privilegiado para a expressão das


emoções humanas.

Em nome da expressão de sentimentos e dos estados de


alma, os românticos haviam abandonado os rigores formais
na composição dos poemas. Esse será o primeiro aspecto a
ser atacado pela reação antirromântica.
Théophile Gautier e Leconte de Lisle publicam, em 1866,
uma antologia de poemas intitulada O Parnaso
contemporâneo, em que defendem a necessidade de tratar
os temas poéticos de modo mais objetivo, pondo fim às
“lamúrias” românticas .
Parnasianismo: a disciplina do bom gosto

Na segunda metade do século XIX, em uma sociedade


transformada pelas descobertas da ciência e pela revolução
das máquinas, a razão toma lugar dos sentimentos na
produção literária.

Na poesia, o impacto dessa mudança é profundo. Depois de


se inspirarem por décadas nas emoções, os poetas passam a
privilegiar a perfeição da forma. Essa tendência deu origem a
uma nova estética, o Parnasianismo.
Parnasianismo: a disciplina do bom gosto

O título da obra faz referência a uma montanha da Grécia –


o Parnaso -, que seria a morada do deus Apolo e das musas
inspiradoras dos artistas. Com essa escolha, os poetas
franceses procuravam resgatar a visão da arte como
sinônimo de beleza formal alcançada por meio do trabalho
cuidadoso e detalhista. Nascia, assim, o Parnasianismo.

Para Gautier, arte não existe para a humanidade, para a


sociedade ou para a moral, mas para si mesma. A finalidade
da arte seria, portanto, a própria arte.
Características Gerais

 Opção por uma poesia descritiva;

 Preocupação com a técnica: o metro, o ritmo, a rima,


todos os elementos devem ser harmonizados de modo a
contribuir para a perfeição formal;

 Tentativa de manter uma postura impassível diante do


objeto do poema, para não cometer o excesso
sentimentalista dos românticos.
Características Gerais

Resgate de temas da Antiguidade clássica: referências à


mitologia.

Defesa da “arte pela arte”: a poesia deve ser composta com


um fim em si mesma.

Busca da palavra exata que, muitas vezes, beirava o


preciosismo.
O Parnasianismo no Brasil
 Em 1878, os jornais brasileiros deram notícia de uma
polêmica literária intitulada “A batalha do Parnaso”: de
batia-se a possibilidade de criação de uma poesia filosófico-
científica para refletir o espírito da época. Essa controvérsia
agitou o cenário cultural e preparou o público, apegado ao
arrebatamento emocional romântico, para uma significativa
mudança no tom dos poemas.

 O apego mais rigoroso aos princípios estéticos do


Parnasianismo encontrou alguns seguidores entusiasmados.
Os mais destacados foram os poetas Olavo Bilac, Raimundo
Correia e Alberto de Oliveira.
Parnasianismo no Brasil: Olavo Bilac
 Estrela maior do Parnasianismo
brasileiro, a popularidade de Olavo
Bilac está associada à grande
capacidade de trabalhar as palavras
e criar versos inesquecíveis.
 Tornou-se um mestre na arte de
escrever sonetos, que aprendeu
estudando a obra dos grandes
sonetistas portugueses: Bocage e
Camões. Abraçou o culto à forma
como uma devoção.
Parnasianismo no Brasil: Olavo Bilac

 Colocando-se entre o Parnasianismo


mais rigoroso e um Romantismo
erotizado, Bilac tornou-se um mestre.
Como poeta, soube aproveitar o que
essa estética tinha de inovador no
trabalho com a forma, sem abrir mão da
sensibilidade para identificar as imagens e
os temas que respondiam aos anseios de
um público até então habituado aos
exageros sentimentalistas românticos.
Por esse motivo, muito de seus versos
são lembrados até hoje.
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo O Parnasianismo:
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, linguagem: a
Que, para ouvi-las muita vez desperto “deusa forma”.
E abro as janelas, pálido de espanto... Estudo do soneto
XIII, de Olavo
E conversamos toda noite, enquanto Bilac.
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!


Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!


Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".
Cheguei. Chegaste.Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada, O Parnasianismo:
E a alma de sonhos povoada eu tinha... linguagem: a
“deusa forma”.
E paramos de súbito na estrada Estudo do soneto
Da vida: longos anos, presa à minha Nel mezzo do
A tua mão, a vista deslumbrada camin..., de Olavo
Tive da luz que teu olhar continha. Bilac.

Hoje, segues de novo... Na partida


Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,


Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo..
SIMBOLISMO
Simbolismo: contexto histórico

 A Europa no fim do século XIX enfrenta


grandes indefinições e inquietações. A partir
de 1870, a competição econômica e militar
entre as grandes potência ocidentais e o
avanço do movimento operário tornam a crise
social inevitável. Nessa crise encontra-se a
origem das duas guerras mundiais que
abalarão o século XX.
Simbolismo: contexto histórico

 Uma onda de pessimismo se espalha na Europa. O artista


já não pode se apoiar nos sentimentos que o Romantismo
serviam de filtro para a compreensão da realidade. Não
acredita que a razão, chave adotada para a interpretação e
a explicação do mundo depois da Revolução Industrial, seja
ainda suficiente para orientar seu olhar e inspirar sua arte.
Desconfia da realidade, considerando-a enganadora.
Entende que o mundo visível, concreto, dá ao ser humano
a sensação de conhecimento, mas que a razão não lhe
permite ver o que vai além do real, não lhe dá meios para
alcançar o desconhecido.
KLIMT,G. As três idades da
mulher. 1905
Simbolismo: o desconhecido supera o real

 O termo Simbolismo apareceu em 1886 quando o


escritor francês Jean Moréas afirma em um artigo
que a finalidade da arte simbolista não é revelar a
ideia, mas sugeri-la, de modo que o público possa
perceber a relação entre a realidade aparente e as
essências, vivendo uma experiência sensorial.
 Essa explicação deixa clara a filiação do Simbolismo
à visão platônica que opõe o mundo sensível, das
aparências, ao mundo das essências. Os poetas dessa
estética criam símbolos para ajudar os leitores a
iniciar a investigação sobre o desconhecido.
Simbolismo: o desconhecido supera o real

Misticismo - o abandono do cientificismo e do


positivismo, que marcaram a segunda metade do
século XIX, leva os simbolistas a buscarem a fé,
manifestando um misticismo indefinido, mas
ligado à tradição cristã. A crença na existência
de um mundo ideal, que só se pode alcançar
pela beleza pura que deve ser expressa pela
poesia, resulta em uma produção literária
cercada de uma clima de fluidez e de mistério.
Simbolismo: o desconhecido supera o real

Sinestesia - Para explorar o mundo, os


simbolistas valorizam a intuição e os sentidos
humanos (visão, tato, audição, olfato e paladar).
A percepção das essências é estimulada pela
experiência sensorial, que leva o ser humano a
perceber a existência de uma dimensão que se
esconde além da realidade concreta e que
precisa ser explorada.
Simbolismo: o desconhecido supera o real

Alienação social - principal interesse simbolista


é a sondagem do “eu”, a decifração dos caminhos
que a intuição e a sensibilidade podem descortinar.
Sua busca é do elemento místico, não consciente,
espiritual, imaterial. Essa é a explicação para o tom
de desinteresse pelo social, que beira à alienação.
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras O Simbolismo:
De luares, de neves, de neblinas! Análise de
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Antífona, de
Incensos dos turíbulos das aras Cruz e Sousa

Formas do Amor, constelarmante puras,


De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas ...

Indefiníveis músicas supremas,


Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
MONET, C. O jardim de
Monet em Véthevil. Óleo
sobre tela, 150x 120
cm

A arte impressionista
também explora o
poder de sugestão da
linguagem da pintura.
O Simbolismo no Brasil: Cruz e Sousa
 Cruz e Sousa é considerado o maior
representante do movimento
simbolista entre nós.
 O que impressiona em sua poesia é a
profundidade filosófica e a angústia
metafísica. Outra característica que
inconfundível é o uso de um
vocabulário em que predominam, de
modo obsessivo, termos associados à
cor branca. Essa recorrência indica
uma busca incessante pela “pureza das
Formas eternas, das Essências das
coisas”
Ó solidão do Mar, ó amargor das vagas,
Ondas em convulsões, ondas em rebeldia, O Simbolismo:
Desespero do Mar, furiosa ventania, Análise de
Boca em fel dos tritões engasgada de pragas. Alucinação, de
Cruz e Sousa
Velhas chagas do sol, ensangüentadas chagas
De ocasos purpurais de atroz melancolia,
Luas tristes, fatais, da atra mudez sombria
Da trágica ruína em vastidões pressagas.

Para onde tudo vai, para onde tudo voa,


Sumido, confundido, esboroado, à-toa,
No caos tremendo e nu dos tempo a rolar?

Que Nirvana genial há de engolir tudo isto -


- Mundos de Inferno e Céu, de Judas e de cristo,
Luas, chagas do sol e turbilhões do Mar?!
O Simbolismo no Brasil: Alphonsus de
Guimaraens
 Sua poesia é marcada pela religiosidade e
misticismo.
 Em toda a obra de Alphonsus de
Guimaraens, a morte será tematizada
direta e indiretamente, com inúmeras
referências aos elementos a ela
associados (círios, esquifes, etc.). Para
Alphonsus, a morte é acolhida como
momento de passagem, de transformação,
que abre as portas da eternidade, pondo
fim ao sofrimento humano.
Ismália, de Alphonsus de Guimaraens
Quando Ismália enlouqueceu, E como um anjo pendeu
Pôs-se na torre a sonhar... As asas para voar...
Viu uma lua no céu, Queria a lua do céu,
Viu outra lua no mar. Queria a lua do mar...

No sonho em que se perdeu, As asas que Deus lhe deu


Banhou-se toda em luar... Ruflaram de par em par...
Queria subir ao céu, Sua alma subiu ao céu,
Queria descer ao mar... Seu corpo desceu ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
PRÉ-MODERNISMO
Pré-Modernismo
Localização: Não constitui uma escola literária, mas um
período de transição para o modernismo.

Realismo Vanguardas
Européias

Naturalismo
Pré-
Modernismo
Modernismo
Parnasianismo
1922
1902
Simbolismo
Semana
Os Sertões
de Arte
Canaã
Moderna
Pré-Modernismo

Uma Radiografia Crítica do Brasil


No geral, o Pré-Modernismo é uma literatura de Crítica Social.

Desmistifica o romantismo e seu Nacionalismo Ufanista.

Mostra o Brasil real, com seus Conflitos Político-Sociais.

Portanto, um Nacionalismo Crítico-Amargo.

“Precisamos descobrir o Brasil!


Escondido atrás das florestas,
Com a água dos rios no meio,
O Brasil está dormindo, coitado!”

Carlos Drummond de Andrade


Pré-Modernismo

Que Brasil é este? É o Brasil desigual...


Urbano Rural
civilizado
politizado
refinado

Anacrônico
Brutalizado
Fanatizado

Tema de Euclides da Cunha


Pré-Modernismo

O Brasil Caipira

anacrônico

inerme

analfabeto

obtuso

Tema de Monteiro Lobato


Urupês (Jeca Tatu) Cidades Mortas
Pré-Modernismo

O Brasil da Marginalização Urbana

O negro O funcionário público Os alcoólatras

Lima Barreto Subúrbio


Pré-Modernismo

Um País Oligárquico

São Paulo
(interior)
Rural
Minas Gerais

Aristocracia

São Paulo
(capital)
Urbana
Rio de Janeiro
Pré-Modernismo

Brasil: Terra de Canaã


Com a abolição da escravatura o Brasil passou a
importar mão-de-obra estrangeira. Surgem os conflitos
de adaptação e questões raciais.
Graça Aranha: Canaã
Euclides da Cunha (1866-1909)
Euclides da Cunha trabalhou como correspondente para o jornal O
Estado de S. Paulo e cobriu o conflito de Canudos, o que resultou, em
1902, na publicação de Os sertões.

CASA EUCLIDIANA, SÃO JOSÉ DO RIO PARDO


A terra: descrição das
características do sertão
nordestino

O homem: perfil do
sertanejo e influência do
meio sobre
o homem

A luta: os conflitos e
destruição do Arraial
de Canudos
Batalhão que combateu em Canudos,
entre 1896 e 1897.
Euclides da Cunha (1866-1909)
 Rigorosa análise científica da Guerra de Canudos,
situando-se entre a sociologia, antropologia e a literatura.
 Herança de uma visão determinista, que se revelou
também no regionalismo modernista.

 Apresentação de

MUSEU DA REPÚBLICA, RIO DE JANEIRO


um mundo
desconhecido dos
leitores urbanos

 Certa influência
barroca na
linguagem
Rendição dos conselheiristas
em 2 de outubro de 1897

PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL
Lima Barreto (1881-1922)
ACERVO ICONOGRAPHIA

A linguagem das obras de Lima


Barreto é ágil e simples. A do
preconceito, presente na maioria delas,
reflete experiências pessoais do autor.
Entre elas, destacam-se:

1o Recordações do escrivão Isaías


Caminha (1909)
2o Triste fim de Policarpo Quaresma (em
1911, publicado em folhetim e, em
1915, em livro)
3o Clara dos Anjos (1948)
Lima Barreto (1881-1922)

A obra Triste fim de Policarpo Quaresma se divide em três


partes, ligadas aos projetos do protagonista.

Projeto nacionalista: estudo de Quaresma das tradições


do Brasil

Projeto agrícola: Quaresma adquire uma propriedade


rural e fracassa na tentativa de aplicar nas terras o que
aprendeu nos livros.

Projeto político: ao fim de seu projeto agrícola, engaja-se


como voluntário nas tropas lideradas pelo marechal
Floriano Peixoto para lutar pelos ideais republicanos.
Monteiro Lobato (1882-1948)

 Linguagem simples e marcada pela oralidade, denunciando


problemas nacionais, como a decadência das cidades do vale do
Paraíba após o deslocamento da produção de café.

REPRODUÇÃO
 Em 1917, crítica a Anita Malfatti em
“Paranoia ou mistificação”
 Entre suas obras destacam-se:
- Urupês (1918);
- Cidades mortas (1919);
- Negrinha (1920);
- Reinações de Narizinho (1931).

Cartaz de filme que imortalizou a personagem


de Monteiro Lobato, Jeca Tatu, símbolo do
atraso econômico e cultural do caboclo do
interior.
Augusto dos Anjos (1884-1914)

 Autor de um único livro, Eu (1912),


Augusto dos Anjos teve influência

FABIO COLOMBINI
simbolista, naturalista e parnasiana.

 Seus principais temas foram


a decomposição, o sofrimento, a morte,
a podridão e a metafísica.

 Influenciado pelo biólogo alemão Ernst


Haeckel, utilizou termos científicos e
escatológicos, o que o fez conhecido
como o “poeta do mau gosto”.

Escultura de Augusto dos Anjos , João


Modernismo
VANGUARDAS EUROPÉIAS
“Entende-se, com este termo – vanguarda -, um movimento que
investe um interesse ideológico na arte, preparando e
anunciando deliberadamente uma subversão radical da cultura e
até dos costumes sociais, negando em bloco todo o passado e
substituindo a pesquisa metódica por uma ousada
experimentação na ordem estilística e técnica”
(Giuliuo Carlo Argan)
Introdução

 A palavra vanguarda remete ao francês avant-garde que


significa o que “marcha a frente”. Após o início do século XX,
passa a designar correntes artísticas que tragam propostas
inovadoras.
 São nomeadas “correntes de vanguardas” as tendências da arte
que surgem na Europa antes, durante e depois da 1ª Guerra
Mundial.
 Dentro das vanguardas européias estão os diversos “-ismos”:
Futurismo, Expressionismo, Cubismo, Dadaísmo e Surrealismo.
 As vanguardas caracterizavam-se pela publicação inicialmente
de manifestos que foram publicados no período de 1909 à
1924.
1. O Cubismo (1907)

 Surge em Paris, três anos após o Futurismo, nascido de experiências


de Pablo Picasso e de Georges Braque.
 Inicialmente, detém-se às pinturas através da valorização de formas
geométricas. A colagem será outra técnica introduzida pelos cubistas.
Além disso, a pintura cubista propõe o rompimento com real (foto) e
a linearidade da arte renascentista.
 Proposta: “O trabalho do artista não é cópia nem ilustração do
mundo real, mas um acréscimo novo e autônomo”(Picasso).
 A Literatura Cubista - manifesta uma preocupação em se aproximara
das outras artes plásticas. Ainda valoriza a construção do texto e os
espaços em branco e preto da folha de papel. Defendiam-se as
“palavras em liberdade”, “a invenção de palavras” e a “destruição da
sintaxe em desuso”.
 No Brasil, Oswald de Andrade será influenciado por essa tendência na
década de 20 e também, posteriormente, a poesia concretista.
* geometrização das
formas e volumes;

* renúncia à
perspectiva;

* o claro-escuro perde
sua função;

* representação do
volume colorido sobre
superfícies planas;

* sensação de pintura
escultórica;

Les Demoiselles d’Avigno (1907) – de Pablo Picasso


I. O Futurismo

• Primeiro movimento de vanguarda depois do impressionismo. Inicia-se no


século XX com a publicação de um manifesto em 20 de fevereiro de 1909 por
Filippo Tomaso Marinetti.
• Proposta: Olhar para o futuro e desprezar o passado. Nada feito antes é
levado em consideração. Exaltação da vida moderna, a máquina, a eletricidade, a
velocidade e o automóvel

Trechos do Manifesto:

[1]. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.

[9]. Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o


patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas idéias pelas quais se morre e o
desprezo pela mulher.

[10]. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academia de toda natureza, e


combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.
Ciclista, Gerardo Dottori [1914]
Poste de luz,, Giacomo
Balla [1909]
I. O Dadaísmo (1916)

• Surge durante a Primeira Guerra Mundial quando ainda


acreditava-se na vitória Alemã. Surge durante o movimento de
instabilidade do período da Guerra. O manifesto é idealizado
por Tristan Tzara : Manifesto Dadá.

• Proposta: é um movimento de retorno à infância – dadá. Eles


querem a inocência primitiva. Propõe a valorização do nada.
É o mais radical e agressivo dos movimentos de vanguarda.
• Na literatura, a arte é caracterizada pela agressividade,
improvisação, desordem e rejeição de qualquer tipo de
racionalização. Valorizou-se também a livre associação de
palavra e a construção de palavras explorando apenas o
significante.
O Dadaísmo

Pegue um jornal
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu
poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam
esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do
saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade
graciosa, ainda que incompreendido do público.
(Tristan Tzara)
Roda de Bicicleta (1913), de
Marcel Duchamp
Monalisa, de Marcel
Duchamp – (1919)
I. O Expressionismo

 Surge, na Alemanha, concomitante ao Futurismo, mas só tem o


seu manifesto publicado em 1917. Surge durante o período da
primeira Guerra Mundial.
 Proposta: Constitui o movimento de DENTRO para fora. O
que importa é a associação que o pintor faz em seu interior, o
objeto não precisa estar presente. A única realidade é a
expressão, ou seja, as imagens nascidas em nosso mundo
interior, o belo e o feio não importam.
 Globalização do movimento – nem Alemão ou Francês; e
defende a ideia de que a salvação da humanidade estaria no
mundo interior – movimento um pouco mitificado.
ATENÇÃO - Não confundir com Impressionismo – tendência artística
que visava a impressão, ou seja, é um movimento de FORA para
dentro. O objeto está sempre presente.
O grito (1893) – de Edvard
Munch.
I. Surrealismo

 Lançado por André Breton – que rompe com o Dadaísmo- em


Paris no ano de 1924. Surge no período entre guerras.

 Suas origens estão ligadas mais ao Expressionismo e à sondagem


do mundo interior. Movimento que busca unir Arte e Psicanálise.

 Proposta - São duas as linhas de em seu início: experiências


criadoras automáticas e o imaginário onírico (do sonho).

 Posteriormente, o surrealismo vai agregar-se a teorias sociais


como o Marxismo causando rompimentos interiores e perdendo
a sua força.

 Artistas: André Breton (Literatura); Salvador Dalí, Joan Miró (artes


plásticas); e no Luis Bruñel (cinema)
A Persistência da Memória – Salvador Dalí (1931)
A SEMANA DE
ARTE MODERNA
DE 1922.

TEATRO
MUNICIPAL DE
SÃO PAULO.
A estudante Nu cubista

[1917] Exposição de Anita Malfatti, causando o primeiro confronto


aberto entre o velho (Monteiro Lobato, com o artigo Paranoia ou
mistificação) e o novo (jovens artistas de São Paulo).
TARSILA DO AMARAL

OPERÁRIOS
MOVIMENTOS MODERNISTAS

 Movimento Antropofágico:
Liderado por Oswald de
Andrade, o nome recuperava
a crença indígena;

 Abaporu, Tarsila do Amaral


1. Antecedentes: Semana de Arte Moderna (1922)

 O Modernismo teve início com a Semana de Arte Moderna,


realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 13 a 18
de fevereiro de 1922. Idealizada por um grupo de artistas, a
Semana pretendia colocar a cultura brasileira a par das
corrente de vanguarda do pensamento europeu, ao mesmo
tempo que pregava a tomada de consciência da realidade
brasileira.
 Ocorreram, durante esse período, exposições de artes
plásticas e saraus com conferências, leituras de poemas,
dança e música.
1. Antecedentes: Semana de Arte Moderna (1922)

 A Semana de Arte Moderna, vista isoladamente, não deveria


merecer tanta atenção. Seus participantes não tinham
sequer um projeto artístico comum; unia-os apenas o
sentimento de liberdade de criação e o desejo de romper
com a cultura tradicional. Foi, portanto, um acontecimento
bastante restrito aos meios artísticos, principalmente de
São Paulo.
 Apesar disso, a Semana foi aos poucos ganhando uma
enorme importância histórica.
1. Antecedentes: Semana de Arte Moderna (1922)

 Primeiramente, porque representou a confluência de várias


tendências de renovação que, empenhadas em combater a
arte tradicional, vinham ocorrendo na cultura brasileira antes
de 1922.
 Em segundo lugar, conseguiu chamar a atenção dos meios
artísticos de todo o país. A partir daí, formaram-se grupos de
artistas e intelectuais que levaram adiante e aprofundaram o
debate acerca da arte moderna.
 Os reflexos da Semana fizeram-se sentir em todo o decorrer
dos anos 1920, atravessaram a década de 1930 e, de alguma
forma, têm relação com a arte que se faz hoje.
2. Características gerais do Modernismo

 A busca de uma linguagem brasileira: desprezando o rigor das


regras gramaticais,principalmente aquelas ditadas pela gramáica
lusitana mas distante da realidade brasileira. Os modernistas
aproximaram a linguagem literária da lígua falada pelo povo
brasileiro.
 Nacionalismo crítico: interesse por temas brasileiros, buscando
valorizar nossa tradição e cultura, bem como nosso passado
histórico cultural.
 Ironia, humor, piada, paródia: os modernistas procuravam ser
bem-humorados. Zombavam da arte tradicional e das figuras
eminentes de nosso passado histórico
2. Características gerais do Modernismo

 Temas extraídos do cotidiano: os modernistas acreditavam


na possibilidade de a arte ser extraída das coisas simples da
vida e não apenas dos grandes temas universais. A produção
modernista promove, assim, uma dessacralização da arte.
Primeira fase do Modernismo: “fase da INOVAÇÃO”
(1922-1930):

AMARAL, Tarsila do. A feira. 1924.


A primeira fase: (1922-1930): a “fase da inovação”

 Fase mais radical do movimento: necessidade de definições


 Abandono das perspectivas passadistas e liberdade formal
 Procura do original e do polêmico
 Visão nacionalista, porém crítica, da realidade
 Defesa da reconstrução da cultura brasileira sobre bases
nacionais: eliminação definitiva do nosso complexo de
colonizados, apegados a valores estrangeiros.
A primeira fase: (1922-1930): a “fase da inovação”

 Revisão crítica de nosso passado histórico e de nossas


tradições culturais
 Aproximação entre fala e escrita na linguagem.
 Período rico em publicações de obras literárias, revistas e
manifestos.
 Principais poetas: Oswald de Andrade, Mário de Andrade e
Manuel Bandeira.
A antropofagia: a deglutição cultural

 Oswald de Andrade,
Tarsila do Amaral e Raul
Bopp lançaram, em 1928,
o mais radical de todos os
movimentos do período: a
Antropofagia. Partidários
de um primitivismo crítico,
os antropófagos
propunham a devoração
da cultura estrangeira.

Abapuru (1928), de Tarsila do Amaral.


A antropofagia: a deglutição cultural

 Contrariamente à xenofobia, os antropófagos não negavam


a cultura estrangeira, mas também não copiavam nem
imitavam. Assim como os índios canibais devoravam seus
inimigos, acreditando que desse modo assimilariam suas
qualidades, os artistas antropófagos propunham a
“devoração simbólica” da cultura estrangeira, aproveitando
suas inovações artísticas, porém sem a perda da nossa
identidade cultural.
A antropofagia: a deglutição cultural
Tupi, or not tupi that is the question. […]
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de
senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de
Alencar cheio de bons sentimentos portugueses. [...]
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de
Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D.
João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum
aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o
espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud –
a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem
penitenciárias do matriarcado de Pindorama.”
OSWALD DE ANDRADE
(Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)
Oswald de Andrade (1890-1954)

A obra de Oswald de Andrade representa


um dos cortes mais profundos do
Modernismo brasileiro em relação à cultura
do passado. Debochada, irônica e crítica,
estava sempre pronta para satirizar os
meios acadêmicos ou a própria burguesia.

Seu conceito de nacionalismo era diferente


daquele pregado pelos românticos. Oswald
defendia a valorização de nossas origens, de
nosso passado histórico e cultural, mas de
forma crítica, isto é, recuperando,
parodiando, ironizando e atualizando a
nossa história da colonização
Oswald de Andrade
Mário de Andrade (1893-1945)
A poesia de Mário de Andrade é marcada
pela tentativa do poeta em romper com as
estruturas artísticas do passado. Mário de
Andrade lutou por uma língua brasileira, que
estivesse mais próxima do falar do povo.

Com Macunaíma, o herói sem nenhum


caráter, Mário de Andrade renova a
linguagem do herói brasileiro. Fosse o índio
ou o burguês bem comportado, o herói que
aparece nos romances românticos tinha
muito de irreal e quase nada de nacional.
Macunaíma é uma personagem que se
transforma a cada instante, assumindo as
feições das diferentes etnias que deram Mário de Andrade
origem ao povo brasileiro.
Manuel Bandeira(1886-1968)

Entre as inúmeras contribuições


deixadas pela poesia de Manuel
Bandeira, duas se destacam: o seu
papel decisivo na solidificação da
poesia de orientação modernista,
com todas as suas implicações
(verso livre, linguagem coloquial,
irreverência, liberdade criadora,
etc.), e o alargamento da lírica
nacional pela sua capacidade de
extrair poesia das coisas
aparentemente banais do
cotidiano.
Manuel Bandeira pintado por
Portinari (1931)
Manuel Bandeira(1886-1968)
Partindo de temas até então considerados “baixos” para a criação
da “grande poesia”, Bandeira criou uma poesia rica em construção
e significado, apesar de sua aparência quase prosaica.
Outro legado é a simplicidade e o despojamento com que são
trabalhados certos temas, como a reflexão existencial, a solidão, o
amor, a vida e a natureza.
Segunda fase do Modernismo: fase ‘‘MADURA”
(1930-1945)

AMARAL, Tarsila do. Operários. 1933. Óleo sobre tela, 150x230 cm.
Momento Histórico

 1929: A diminuição do consumo de café no mercado mundial,


provocada pela crise desencadeada pela quebra da bolsa, fez
despencar o preço do café brasileiro no mercado internacional.

 1937: estava decretado o Estado Novo. Vargas passou a exercer o


poder de modo autoritário e centralizador.

 1939: início da Segunda Guerra Mundial. Ela nos obrigou a


enfrentar a barbárie humana e a reconhecer que o preconceito e
o desejo desmedido de poder podem levar à perda de milhões
de vidas.
Momento Histórico

 1945: lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e


Nagasaki. Foi a última fronteira da ética derrubada pela
ciência: o ser humano havia descoberto uma forma
eficiente de exterminar a própria raça.

 Estava criado o contexto para que a arte assumisse


uma perspectiva mais intimista e procurasse as
respostas para as muitas dúvidas existenciais
desencadeadas por todo esse cenário de horror e
destruição.
A segunda fase (1930-1945)
Poesia: misticismo e consciência social

 Em 1930, a vitória da primeira geração modernista na luta


travada contra a cultura acadêmica já estava consolidada.
Muitas de suas propostas, comoo verso livre, a afirmação de
uma língua brasileira, a priorização da paisagem nacional e a
abordagem de temas ligados ao cotidiano, estavam
definitivamente consolidadas em nossa literatura.

 Enquanto a primeira geração modernista experimentou uma


grande variedade de temas e técnicas, a segunda geração é
caracterizada por uma produção com forte dimensão social.
Assim, o contexto sociopolítico define um foco para a poesia
desse momento
A segunda fase (1930-1945)
Poesia: misticismo e consciência social

 Poesia de questionamento da existência humana.


 Inquietações sociais, religiosas, filosóficas e amorosas
 Amadurecimento das conquistas da primeira geração:
versos livres e brancos convivem com outros rimados e de
métrica fixa. Os poetas submetem à linguagem às suas
necessidades, valendo-se de todos os recursos (formais ou
não) à sua disposição.
 Estrutura sintática dos versos é mais elaborada: questionar
a realidade exige uma elaboração sintática de complexidade
equivalente.
A segunda fase (1930-1945)
Poesia: misticismo e consciência social
Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.


Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

 Considerado o maior poeta


brasileiro do século XX

 Se considerarmos sua carreira


poética, podemos perceber que
certas temáticas afloram de sua
poesia, tais como o fazer
poético, a função social do
poeta, a dificuldade de
compreender os sentimentos, a
importância da família e da
reflexão.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Família e origens: a viagem na memória

 O tema da família se confunde com o das origens,


representadas na poesia de Drummond pelas inúmeras
referências à infância, à Itabira e às Minas Gerais.

 A recordação do passado permite que ele seja reavaliado e


que sua importância seja reconhecida no presente.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987):
“ O tempo é a minha matéria presente”

 Em inúmeros poemas, Drummond aborda a função social do


poeta: denunciar a opressão e lutar para a construção de um
mundo novo.
 O presente se torna o grande tema dessa fase
 A fase social da poesia de Drummond também se manifesta sob
a forma de denúncia da alienação da elite.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987):
O exercício incansável da reflexão

 Em sua poesia reflexiva, Drummond define-se por perseguir


algumas questões fundamentais para o poeta: que “coisa” é o ser
humano? O que significa fazer parte da humanidade? Como
combater as injustiças do presente?
Cecília Meireles (1901-1964)
Entre o eterno e o efêmero

Sua poesia, de modo geral, filia-se às


tradições da lírica luso-brasileira. Além
disso, as obras da poetisa evidenciam
uma certa tendência neossimbolista.

Do ponto de vista formal, a escritora


foi uma das mais habilidosas em nossa
poesia moderna, sendo cuidadosa sua
seleção vocabular e forte a inclinação
para a musicalidade, para o verso
curto e para os paralelismos, a
exemplo da poesia medieval
portuguesa.
Cecília Meireles (1901-1964):
O neossimbolismo

A frequente presença de elementos como o vento, a água, o mar, o


ar, o tempo, o espaço, a solidão e a música dá à poesia de Cecília
Meireles um caráter fluido e etéreo, que confirma a inclinação
neossimbolista da autora.

O espiritualismo, a musicalidade e o orientalismo, tão prezados


pelos simbolistas, também se fazem presentes na obra da poetisa.
Cecília Meireles (1901-1964): o neossimbolismo

Raramente a poesia de Cecília Meireles foge à orientação intimista. Um


desses momentos é representado por Romanceiro da Inconfidência (1953),
que, pelo viés da História, abre importante espaço em sua obra para a
reflexão sobre questões de natureza política e social, tais como a liberdade,
a justiça, a miséria, a ganância, a traição, o idealismo.
O Romanceiro da Inconfidência é uma “narrativa rimada”, segundo a
autora, que reconstrói, fundindo história e lenda, os acontecimentos da Vila
Rica à época da Inconfidência Mineira (1789)
Cecília Meireles (1901-1964): a efemeridade do tempo

Cecília Meireles cultivou uma poesia reflexiva, de fundo filosófico, que


aborda, entre outros, temas como a transitoriedade da vida, o tempo, o
amor, o infinito, a natureza, a criação artística. Mas não se deve entender
sua atitude reflexiva como uma postura intelectual, racional.

Cecília foi antes de tudo uma escritora intuitiva, que sempre procurou
questionar e compreender o mundo a partir de suas próprias
experiências. Desses temas, os que mais se destacam são a fugacidade do
tempo e a efemeridade das coisas. Tal preocupação filosófica dialoga com
a tradição, especialmente com o Barroco.
Cecília Meireles (1901-1964): a efemeridade do tempo

Ela mesma revelou os objetivos que buscava alcançar por meio da


poesia: “Acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo
em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhe a vida em
profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por
uma contemplação poética afetuosa e participante.”
A segunda fase do Modernismo (1930-1945):
A PROSA REGIONALISTA

PORTINARI, Cândido. Criança Morta. 1944.Óleo s/


A segunda fase do Modernismo (1930-1945):
A PROSA REGIONALISTA
 O projeto literário do romance da geração de 1930 foi claro:
revelar como uma determinada realidade socioeconômica, no
caso, o subdesenvolvimento brasileiro, influenciava a vida dos
seres humanos.
 Para tratar das questões sociais regionais, os romances
escritos a partir de 1930 retomaram dois momentos
anteriores da prosa de ficção: o regionalismo romântico e o
Realismo do século XIX.

 Do regionalismo romântico, vem o interesse pela relação


entre os seres humanos e os espaços que eles habitam,
apresentando agora uma perspectiva mais determinista.
A segunda fase do Modernismo (1930-1945):
A PROSA REGIONALISTA
 Do Realismo, é recuperado o interesse em estudar as relações sociais

 O romance de 1930 inova ao abandonar a idealização romântica e a


impessoalidade realista para apresentar uma visão crítica das relações
sociais e do impacto do meio sobre o indivíduo. Essas raízes literárias
fizeram com que os romances escritos nesse período fossem
conhecidos como regionalistas ou neorrealistas.

 Os escritores pretendiam caracterizar a vida sacrificada e desumana


do sertanejo e compreender a estrutura socioeconômica que
alimentava a política do coronelismo nordestino. Para eles, apontar
tais problemas significava ajudar a transformar essa realidade injusta.
A segunda fase do Modernismo (1930-1945):
A PROSA REGIONALISTA

• De modo geral, o trabalho com a linguagem realizado pelos


autores dessa geração busca trazer para as narratiavas a
“cor local”, ou seja, as informações sobre espaços,
comportamentos e costumes, que permitem ao leitor
reconhecer os aspectos típicos característicos de uma
região específica.
A segunda fase do Modernismo (1930-1945):
A PROSA REGIONALISTA
Fragmento de Vidas Secas

-Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.


(…)E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra
ocupado em guardar coisas dos outros.Vermelho, queimado,
tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia
em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se,
encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém
tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
- Você é um bicho, Fabiano.
Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho. capaz
de vencer dificuldades.

Graciliano Ramos
Graciliano Ramos (1892-1953):
o mestre das palavras secas

 O cuidado com as palavras é um


dos traços mais importantes da
prosa de Graciliano Ramos. A
economia no uso de adjetivos e
advérbios, a escolha cuidadosa de
substantivos, todos os aspectos da
construção de seus romances
colaboram para a criação do
“realismo bruto” que define o
olhar neorrealista do autor.
Graciliano Ramos (1892-1953):
o mestre das palavras secas

 Como romancista, Graciliano Ramos alcançou raro equilíbrio


ao reunir análise sociológica e psicológica. Como poucos,
retratou o universo do sertanejo nordestino, tanto na figura do
fazendeiro autoritário quanto do caboclo comum, o homem de
inteligência limitada, vítima das condições do meio natural e
social, sem iniciativa, sem consciência de classe, passivo diante
dos poderosos.
Graciliano Ramos (1892-1953):
o mestre das palavras secas

 Contudo, em Graciliano Ramos o regional não caminha na


direção do específico, do particular ou do pitoresco; ao
contrário, as especificidades do regional são um meio de
alcançar o universal. Suas personagens, em vez de traduzir
experiências isoladas, revelam uma condição coletiva: a do
homem explorado socialmente ou brutalizado pelo meio.
Graciliano Ramos (1892-1953):
o mestre das palavras secas

O autor de Vidas Secas sobressai


entre os demais de sua época, não só
pelas qualidades universalistas que
apresenta, mas sobretudo pela
linguagem enxuta, rigorosa e
conscientemente trabalhada, no que se
mostra o legítimo continuador de
Machado de Assis na trajetória do
romance brasileiro.
Jorge Amado(1912-2001):
Retrato da diversidade econômica e cultural

Um dos escritores brasileiros mais


conhecidos e lidos de todos os
tempos, Jorge Amado imprimiu um
recorte particular ao projeto
literário de sua geração: o estudo
das relações humanas que levaram
à constituição do perfil multirracial
que caracteriza o povo brasileiro.
Jorge Amado(1912-2001):
Retrato da diversidade econômica e cultural

A maior parte das obras do escritor,


principalmente as primeiras que publicou,
apresenta preocupação político-social,
denunciando, num tom direto, lírico e
participante, a miséria e a opressão do
trabalhador rural e das classes populares.

Conforme o autor foi amadurecendo, sua


força poética voltou-se para os pobres,
para a infância abandonada e delinquente,
para a miséria do negro, para o cais e os
pescadores da Bahia, para a seca, o cangaço,
a exploração do trabalhador urbano e
rural e para a denúncia do coronelismo
latifundiário.
Jorge Amado(1912-2001):
Retrato da diversidade econômica e cultural

Autor de obras de cunho regionalista e


de denúncia social no início de sua
carreira de escritor, Jorge Amado passou
por diferentes fases até chegar a última
delas, voltada para a crônica de
costumes.

A partir da publicação de Gabriela, cravo


e canela (1958), a ficção de Jorge Amado
afasta-se das questões sociais para
concentrar-se na construção de tipos
humanos, explorando cada vez mais o
tema do amor. Essa nova tendência de
suas obras garantiu ao autor a
continuidade de seu imenso sucesso
O Pós-Modernismo(1945-1960)

GUTTUSO, Renato. Cruxificação. 1940-1941


Terceira fase do Modernismo (1945-1960)
Contexto Histórico

 Fim da Segunda Guerra Mundial: A Europa começou o lento


processo de reconstrução em meio aos destroços humanos
e políticos

 Início da Guerra Fria: o Brasil aliou-se aos norte-


americanos contra a expansão do comunismo. O Partido
Comunista, abrigo de muitos intelectuais, entrou na
ilegalidade
Terceira fase do Modernismo (1945-1960)
Contexto Histórico

 Fim da ditadura Vargas e início da redemocratização.

 No governo JK, o crescimento industrial acelerado desencadeou um


crescimento urbano equivalente. Massas humanas deslocaram-se do
campo para a cidade à procura de oportunidades, comprometendo a
estrutura dos grandes centros.

 1950: Assis Chateaubriand trouxe para o Brasil a televisão, que se


revelou uma máquina de fazer astros instantâneos e modificou de modo
irreversível o perfil da produção cultural brasileira.
Terceira fase do Modernismo (1945-1960)
Características

 Crise dos valores que vigoravam a partir do século XX. Os


conceitos de classe social, de ideologia, de direita e de esquerda, de
arte, do Estado de bem-estar começam a ruir, afetados pelas duas
guerras mundiais. O Pós-Modernismo nasce da ruptura com
algumas certezas e definições que sustentavam conceitos do campo
social, político, econômico, estético, etc.
 O que importa, no mundo contemporâneo, é a individualidade
extrema. A solidariedade e a busca do bem-estar social são postas
em segundo plano. No centro da sociedade, o indivíduo reina
absoluto.
 A experimentação torna-se o princípio norteador da estética pós-
moderna
Terceira fase do Modernismo (1945-1960)
A POESIA

 Os poetas, que desejavam devolver aos poemas o rigor formal


abandonado pelos primeiros modernistas, passam a privilegiar o
trabalho com a materialidade do texto poético. Algumas formas
fixas e modelos poéticos mais “clássicos” foram retomados. Com
isso, os escritores esperavam definir de modo mais claro os
limites que separavam o poético, fundamentado no trabalho com
a forma, do não poético, associado ao mero registro do
elemento prosaico do cotidiano.
 Valorização da técnica de composição
• Ampliação do poder de significação da palavra e do texto
• Busca da temas relacionados ao social, moral e político
Terceira fase do Modernismo (1945-1960)
A POESIA

 É importante que não se confunda a valorização da técnica de


composição promovida pela poesia de 1945 com o
rebuscamento formal que marcou a póetica dos parnasianos.
Trata-se de um procedimento inverso. No Pós-Modernismo, o
domínio da forma deve permitir que a combinação entre código
e a mensagem aconteça de modo absoluto, para que o poder de
significação da palavra seja ampliado e o texto também tenha sua
significação ampliada por essa articulação. Os parnasianianos
investiram no rebuscamento formal sem pretender, com isso,
criar novos sentidos para o texto. A arte pela arte, a perfeição
formal, a imparcialidade diante do objeto do poema eram seus
objetivos.
Terceira fase do Modernismo (1945-1960)
A POESIA

CATAR FEIJÃO

2.
1.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
Catar feijão se limita com escrever: o de que entre os grãos pesados entre
joga-se os grãos na água do alguidar um grão qualquer, pedra ou indigesto,
e as palavras na folha de papel; um grão imastigável, de quebrar dente.
e depois, joga-se fora o que boiar. Certo não, quando ao catar palavras:
Certo, toda palavra boiará no papel, a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
água congelada, por chumbo seu verbo: obstrui a leitura fluviante, flutual,
pois para catar esse feijão, soprar nele, açula a atenção, isca-a como o risco
e jogar fora o leve e oco, palha e eco

João Cabral de Melo Neto


João Cabral de Melo Neto: a linguagem objeto

 João Cabral é um poeta


cerebral. Isso significa que o
planejamento do poema e a
reflexão sobre o próprio
processo de composição são as
bases do seu fazer literário. Sua
preocupação em buscar a
significação máxima de cada
palavra e a qualidade literária de
seus poemas foram fatores que
o projetaram como um dos
maiores poetas de sua geração.
João Cabral de Melo Neto: a linguagem objeto

A reflexão sobre o fazer poético


é o principal tema do autor. São
frequentes, em sua obra, os
metapoemas, ou seja, os poemas
que falam sobre a composição
poética. Nesses textos, João
Cabral recorre muitas vezes à
aproximação entre a atividade de
escrever e a outra atividade
cotidiana, para oferecer ao leitor
imagens que simbolizem o
aspecto da composição sobre o
qual deseja refletir.
João Cabral de Melo Neto: a linguagem objeto

Seu universo poético é


essencialmente nordestino, com
muitas referências à zona da mata e
ao sertão. Fiel às origens, o autor
pernambucano trouxe para o poema
a aridez dos espaços em que se criou.
A linguagem que utiliza aparece
despida de ornamentos, uma “faca só
lâmina”, como ele mesmo definiu.
Pela linguagem de seus versos, por
não falar de sentimentos, não abordar
estados de espírito, os críticos o
reconhecem como um poeta não-
lírico.
João Cabral de Melo Neto : a linguagem objeto

 Morte e vida severina é a obra mais


conhecida de João Cabral. Trata-se de um
auto de Natal, que, seguindo a tradição dos
autos medievais, faz uso da redondilha, do
ritmo e da musicalidade.
 Severino, o protagonista, é um nordestino
que sai do interior do sertão em direção
ao litoral, em busca de melhores
condições. Na sua fala inicial, percebe-se o
drama da personagem: incapaz de
encontrar características pessoais ou
sociais que o diferenciem de tantos outros
retirantes, Severino torna-se um símbolo
do drama vivido nas regiões assoladas pela
seca.
João Cabral de Melo Neto : a linguagem objeto

O retirante chega ao Recife com uma


dúvida: será que vale a pena uma pessoa
como ele permanecer viva, tendo que
enfrentar tanta dificuldade? No momento
em que faz essa pergunta a José, um
carpinteiro com quem convers no cais do
Capiberibe, é interrompido por uma
mulher, que em avisar José do nascimento
do filho. Severino testemunha, então, a
solidariedade dos outros habitantes do
manguezal, dispostos a dividir o pouco que
têm com a criança recém-nascida. Naquele
momento, compreende que a própria vida
deu a resposta que procurava: mesmo
sofrida, difícil, a vida merece ser vivida.
João Cabral de Melo Neto: a linguagem objeto

 A composição de poemas que


articulam forma e conteúdo fez
com que sua obra
desencadeasse uma revolução
formal na poesia brasileira,
criando a base para novas
propostas estéticas como o
Concretismo, que surgiria alguns
anos mais tarde.
Terceira fase Modernismo(1945-1960):
A PROSA

PRADO, Evandro. Em casa de capitalista, Coca-cola é santa.


O A reinvenção da narrativa

 A literatura acompanha o processo de busca de novas


possibilidades de organização desencadeado pelo Pós-
Modernismo. Dois autores já anunciavam, em momento
anterior, o experimentalismo narrativo característico da
prosa pós-moderna: James Joyce e Virginia Woolf.
 James Joyce: reiventa a linguagem e a sintaxe. O escritor
irlandês explora processos de associação de imagens e todo
o tipo de recurso verbal para criar o fluxo de consciência
em Ulisses.
A reinvenção da narrativa

 O fluxo de consciência é uma técnica narrativa utilizada


para expressar, por meio de um monólogo interior, os
vários estados de espírito e as emoções que caracterizam
uma personagem. Para isso, o narrador apresenta
pensamentos sem se preocupar em garantir a articulação
lógica entre as ideias: uma série de impressões (visuais,
olfativas, auditivas, físicas, associativas) ganha forma no texto,
recriando, em um universo ficcional, o funcionamento da
mente humana.
A reinvenção da narrativa

 Fluxo de consciência é uma radicalização da introspecção


psicológica já praticada desde o Realismo.

 Introspecção psicológica: desvenda o universo mental da


personagem de forma linear, com espaços determinados e
marcadores temporais nítidos. O leitor tem pleno domínio da
situação e distingue com facilidade um momento do passado
(revivido pela personagem por meio da memória) de um
momento presente ou de um devaneio.

 Fluxo de consciência: quebra dos limites espaço-temporais:


presente e passado, realidade e desejo se misturam, sem qualquer
preocupação lógica ou com a ordem narrativa.
A reinvenção da narrativa

 Virginia Woolf também faz uso do fluxo da consciência para


lidar com as angústias individuais de personagens
atormentadas. O fio narrativo se fragmenta e se multiplica,
tecendo uma rede complexa da qual surge, ao fim, a imagem
multifacetada dos seres humanos.
 Interessados em tratar da experiência interior dos indivíduos
(a noção de espaço e tempo, a ideia do eu e de sua relação
com o outro), Joyce e Woolf abrem mão da organização
tradicional do romance, atribuindo novos papéis para narrador
e personagesns e propondo novas relações entre tempo e
espaços narrativos.
A reinvenção da narrativa

 No Brasil, João Guimarães Rosa e Clarice Lispector serão


os principais responsáveis pela transformação da prosa de
fiçcão. Na obra desses autores, observa-se a essência da
literatura pós-moderna: encarar a palavra como um feixe de
significados.

 Guimarães Rosa: se caracteriza pelo uso particular da


linguagem e por, nesse mundo aparentemente regional,
tratar de temas próprios a todos os seres humanos como o
bem e o mal, a sanidade e a loucura, o certo e o errado, o
amor e a morte, o acaso e o destino.
A reinvenção da narrativa

 Clarice Lispector: desenvolve um universo ficcional em que


investiga os processos que tornam o ser humano único, que
lhe dão identidade. Suas narrativas abandonam o interesse
do enredo para submeter as personagens a um processo de
individuação que permite a elas reconhecer a própria
identidade. Esse reconhecimento as faz reavaliar o contexto
em que se encontram e questionar às expectativas
familiares e sociais.
A reinvenção da narrativa

 Clarice Lispector e Guimarães Rosa trazem assim a escrita para


o primeiro plano, demonstrando a possibilidade de valorizar a
elaboração do texto e o trabalho com a linguagem como
espaços de construção de mundos específicos.
 As obras desses autores desafiam o leitor a entrar em um
mundo próprio, a participar de maneira ativa da construção do
sentido e a dialogar efetivamente com o texto. No momento em
que o leitor aceita o jogo proposto por esses escritores e se
deixa levar pela linguagem envolvente de sua ficção, mergulha em
um fascinante universo narrativo e, ao acompanhar a vida e a
trajetória das personagens, muitas vezes percebe-se refletindo
sobre a sua própria vida
Guimarães Rosa: o descobridor do sertão universal

 Caráter regionalista de
Guimarães Rosa: as
marcas regionais são
evidentes nos termos
utilizados, na recriação da
fala de jagunços e de
vaqueiros do interior de
Minas. As questões
tematizadas, porém, vão
muito além de uma
perspectiva regional.
Guimarães Rosa: o descobridor do sertão universal

 Em suas narrativas, Rosa fala dos grandes dramas humanos:


a dor, a morte, o ódio, o amor, o medo. Indagações
filosóficas aparecem na boca de homens simples, incultos,
deixando claro que os grandes fantasmas da existência
podem ser identificados em qualquer lugar, desde um
grande centro urbano até um minúsculo vilarejo nos
sertões das Gerais.
 Dos contos e novelas de Guimarães Rosa, emerge um
mundo sempre marcado pelo confronto de opostos: o
arcaico e o moderno, o rural e o urbano, o oral e o escrito.
Clarice Lispector
Clarice Lispector: a busca incansável da identidade

 Em Clarice Lispector, a experimentação afeta


principalmente a estrutura da narrativa. É o domínio da
técnica do fluxo da consciência, porém, que se torna a
marca registrada da autora.
 A literatura produzida por Clarice Lispector não se
preocupa com a construção de um enredo
tradicionalmente estruturado, com começo, meio e fim. Ela
busca a compreensão da consciência individual, marcada
sempre pela grande introspecção das personagens.
Clarice Lispector: a busca incansável da identidade

 Suas narrativas tratam do momento preciso em que uma


personagem toma consciência da própria individualidade.
Esse momento pode ser desencadeado por situações
corriqueiras, como a contemplação de rosas ou a visão de
um cedo mascando chiclete.
 São situações narrativas complexas, em que as personagens
passam por transformações capazes de abalar a estrutura
prosaica de suas vidas.
Clarice Lispector: a busca incansável da identidade

 Esse processo de descoberta individual por que passam as


personagens de Clarice Lispector é chamado de epifania.
O termo faz referência à apreensão intuitiva da realidade
por algo geralmente simples e inesperado. Nesse sentido, é
a percepção do significação essencial de alguma coisa.
 Epifania: na obra de Clarice Lispector, significa a
descoberta da próprian identidade a partir de um estímulo
externo. As personagens, nesse momento, descobrem a
própria essência, aquilo que as distingue das demais e as
transforma em indivíduos singulares.
Clarice Lispector: a busca incansável da identidade

 As narrativas apresentam uma estrutura semelhante, que o


crítico Affonso Romano de Sant’Anna definiu em quatro
passos:
1. A personagem é disposta numa determinada situação
cotidiana
2. Prepara-se um evento que é pressentido discretamente
pela personagem (algo como uma inquietação)
3. Ocorre o evento que ilumina a vida (epifania)
4. Apresenta-se o desfecho, no qual a situação da vida da
personagem, após a epifania, é reexaminada.
Clarice Lispector: a busca incansável da identidade

 O trabalho com a linguagem é fundamental para que esse


processo de autodescoberta adquira a dimensão intimista
que permite, ao leitor, acompanhar os efeitos, na
personagem, do momento de iluminação. A autora promove,
na forma do texto, uma desconstrução equivalente àquela
vivida pelas personagens, fazendo com que a própria
linguagem assuma uma função libertária.
 Clarice Lispector trata da condição feminina, da dificuldade
de relacionamento humano, da hipocrisia dos papéis
socialmente definidos, da busca pelo “eu”.
Clarice Lispector: a busca incansável da identidade

 Outra característica recorrente, na ficção de Clarice, é a


presença de animais (cavalo, galinha, barata, aranha, búfulo,
gato, etc.) que representam o “coração selvagem” da vida,
que pulsa descontrolada, sem se submeter às regras e
expectativas sociais. Essa é uma forma também
revolucionária de simbolizar a busca incessante das
personagens pela libertação das amarras sociais e o
mergulho no irreversível processo de individuação.