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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEISTTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
' visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevio Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
a / Mcñ^h I ¿uí

ANO XlíN? 117 SETEMBRO 19


ÍNDICE

Um sonlto que se tornau realidade 3(11

I. CIENCIA E RELIO IAO

1) "Que conseqiiéncias para o pensatnento religioso poderao


ter as conquistas espaciaU e a viagcm a Lita '!

As atitudes religiosas da humanidade ainda tém sentido?" ... 363

II. FILOSOFÍA E RELIGIAO

2) "A existencia de Dens... Sinto dificuldade em prová-la


aos jovens, visto que silo propensos a admitir apenas o que podem
ver e apalpar.

Gastaría de untas cxplicafóes que pudexse transmitir a jti-


ventude" 172

III. PASTORAL

3) "Que sao as 'comunidades de base', de que tanto se fala


na pastoral moderna ?" -185

IV. MORAL

i) "É recomendável ott, ao menos, possível a castidade ante


rior no casame-nto ? Nao nerá noriva á saúde ?" 393

CORRESPONDENCIA MICHA ion

RESENHA DE LIVROS 40(1

COM APUOVACAO ECLESIÁSTICA


UM SONHO QUE SE
TORNOU REALIDADE...
O momento atual tem, entre os seus traeos, urna caracte
rística de todo nova: a conquista do espago, inaugurada pela
recente viagem á Lúa, & qual se seguiu a tomada de fotogra
fías do planeta Marte. Tais episodios tém merecido a atencáo
de todos os homens, suscitando em muitos urna certa «vertigem
mental». Como os acontecimentos se precipitaram! Que prog
nósticos nao sugerem?!- Plataforma espacial, ... homens na
Lúa, ... em Marte!
Procurando disciplinar a imaginagáo (que em tais oca-
sióes tende a divagar sem bases seguras), verificamos que a
recente facanha dos astronautas é rica fonte de reflexóes.
Antes do mais, ela incita ao louvor de Deus, o Criador,
que, através do imenso universo, mais e mais se dá a conhecer
ao homem. A fé católica nao teme o progresso da ciencia.
Mediante esta, a verdade vai apresentando novas facetas de si
mesma; a verdade, porém, permanece sempre de acordó con
sigo; ela é una, ora manifestada pela Palavra de Deus oral e
escrita, ora ilustrada pelas obras do Criador. Apenas é para
desejar que o cristáo saiba assimilar as novas perspectivas
em sua visáo crista; olhe para os espatos e os astros com o
mesmo olhar religioso com que olha para éste mundo e as
suas mínimas criaturas. O discípulo de Cristo sabe ter novos
motivos de admirar e glorificar o Criador á medida que se
lhe desvenda o cosmos 1. O estudo póe o homem em contato
com realidades que, ao mesmo tempo, lhe encobrem e mani-
festam a presenga do Ser Infinito! A natureza é, para quem
a sabe compreender, um estupendo livro de leitura espiritual.
Outra reflexáo ainda nos ocorre: a inauguracáo de urna
nova era — a era espacial e eletrónica — se, de um lado,
traz inestimáveis vantagens para o homem, de outro lado
ameaga-o... Em nossos dias, já as criancas, ao brincar, ma
nejara a máquina ou os artefatos da ciencia e da técnica. Estes
tendem a polarizar cada vez mais o pensamento e a mentali-
dade dos homens — pequeninos e grandes. A máquina, por

1 Esta palavra vem do grego kósmos e significa originariamente


«ordem, harmonía» ou «ornamento». Na verdade, o universo é kósmos,
ordem, obra hurmoniosa e ornada de urna Inteligencia Suprema.

— 361 —
ser mais rápida, mais eficiente, mais estupenda, interessa as
vézes mais do que a criatura humana, que nao raro é lerda
e falha. Daí surge o confuto «homem x máquina»... Surge
também o perigo de que a mentalidade dos homens se vá
embotando frente aos valores típicamente humanos; no intimo
de cada coracáo humano há aspiragóes, intuigóes e interro-
gagóes ás quais só o «irmáo homem» pode atender; em todo
ser humano há o desejo de explicagóes, de respostas e de
amor, que a máquina em absoluto nao pode dar. É, pois,
para almejar que o homem se conserve — ou mais e mais
se torne — irmáo de seus irmáos nesta era agigantada da
.técnica! Certos romances e filmes de ficgáo apresentam cenas
em que o homem aparece como vítüna esmagada pelas má
quinas e os aparemos que ele mesmo criou. O homem será
sempre superior á máquina e a utilizará para seu bem-estar,
se souber colocar os valores da ética, do direito e da Religiáo
ácima dos computadores e dos cerebros eletrónicos. — Alias,
a recente viagem á Lúa constituiu urna nítida demonstracáo
do dominio do homem sobre a máquina: por ocasiáo da alu-
nissagem, quando um dos computadores esteva falhando, o
cosmonauta Aldrin corrigiu os respectivos cálculos, salvando
do malogro a famosa expedigáo.
A propósito vém as palavras do S. Padre Paulo VI profe
ridas no domingo 20 de julho de 1969, ao meio-dia, poucas
horas antes que os astronautas pisassem o solo da Lúa:

<É bom meditarmos sobre o progresso. Km nossos días, o desen-


volvimento científico da humanidade alcanca um nivel que parecía
impossível de ser atingido: até onde o pensamento e a atividade do
homem aínda poderáo chegar? A admiracáo, o entusiasmo, a paixao
pelos instrumentos, pelas produgóes do talento e da máo do homem
nos fascinam...

Verdade é que os instrumentos multipllcam, além de todo limite.


a eficiencia do homem; mas essa eficiencia redunda sempre em van-
tagem para o homem? Torna-o ela melhor?... Mais homem? Ou
será que o instrumento nao é capaz de agrilhoar o homem que o
produz, e tornar o homem escravo do sistema de vida que o instru
mento. .. impSe ao seu próprio patrSo? Tudo depende do cora gao do
homem. É preciso absolutamente que o coracño do ,homem se torne
tanto mais livre, tanto melhor, tanto mais religioso quanto maior e
mais .perlgosa é a potencia das máquinas, das armas, dos instru
mentos que o homem coloca á sua própria disposicáo.
Na embriaguez desta jornada, verdadeiro triunfo dos meios pro-
duzidos pelo homem para dominar o cosmos, nao devemos esquecer
a necessidade e o dever que o homem tem de dominar a si mesmo...
Possa o progresso, de que hoje festejamos sublime Vitoria, servir
ao verdadeiro bem, temporal "e moral, do género humano!»

E. B.

— 362 —
€ PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano X — N' 117 — Setembro de 19Ó9

I. CIENCIA E RELIGIÁO

1) «Que consecuencias para o pensamento religioso pó


denlo ter as conquistas espaciáis e a viagem a Loa ?

As atitudes religiosas da humanidad* aínda tém sentido?»

Resumo da resposta: A facanha de Apolo-11 concorre para dissi-


par qualqüer concepgáo religiosa que tenha sabor mitológico: o espaco
e a Lúa nada tém de «encantado», mas estáo sujeitos as leis que a
ciencia vai descobrindo e utilizando. Esta verificacao corrobora a ge-
nuina fé: a existencia e a acáo de Deus se tornam mais perceptlveis
á medida que o homem vai descobrindo a estrutura e a harmonía do
universo. Os próprios cosmonautas, por ocasiáo de seus resultados,
professaram sua íé crista e sua gratidáo a Deus.
Há quem julgue que as atitudes religiosas da humanidade se
alteraráo em conseqüéncia das conquistas espaciáis: o senso do pe
cado cederá, dizem, ao otimismo e á confianza no homem. — Em
resposta, devese dizer que tal conseqüéncia seria aberrante, pois o
homem, que consegue aos poucos dominar a natureza, nao conseguiu
vencer o egoísmo, o odio entre irmáos, a opressáo, o racismo, as
desordens conjugáis...
Também se diz que o homem do íuturo, assim engrandecido,
perderá o senso da submissáo... Tal atitude, porém, seria incoerente.
pois o homem nao consegue progredir na ciencia senáo a custo de
esforcos e sacrificios, que sao aptos a Ihe sugerir sempre a atitude
de discípulo diante da Primeira Inteligencia. A facanha de Apolo-11
é extraordinario testemunho de disciplina, eolaboracáo e obediencia.
Quanto aos gastos eíetuados com as experiencias espaciáis, nao
podem ser incriminados, pois o progresso da ciencia redunda em
beneficio da humanidade. Outras despesas, porém, devem ser dimi
nuidas no mundo de hoje para atender á miseria dos homens: as que
se referem a armamentos militares e ao luxo egoista...

Kesposta: A recente viagem da nave espacial Apolo-11


a Lúa excita a reflexáo de toda a humanidade : o fato nao
sámente é inédito em relagáo ao passado, mas também abre
perspectivas sensacionais.

Visto que o senso religioso dos homens nesta fase da


historia é interpelado pelo grande acontecimento (basta ler

— 363 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 1

os comentarios divulgados pela imprensa), vamos abaixo de-


ter-nos sobre as implicagóes que o fato possa ter no setor da
Religiáo.

1. Conquista do espado : arrogancia ou tnissao ?

1. A conquista do espago e a alunissagem tém reper


cutido diversamente no pensamento religioso dos homens de
nosso tempo :

a) Para o homem dado a concepgóes religiosas infantis


ou míticas, a alunissagem parece significar urna revolugáo.
A imprensa deu a saber a dificuldade que pessoas simples
experimentaram para aceitar a noticia da conquista da Lúa.
Isto se compreende : no decorrer dos séculos, a Lúa fui fre-
qüenteniente envolvida em lendas e fábulas pseudo-religiosas;
o homem primitivo sempre concebeu o espac.o e os astros como
realidades divinas ou semi-divinas, cheias de misterios que
escapam as categorías da razáo humana.

Ora o mundo da mitologia é abalado pelos recentes feitos


espaciáis; as leis da lógica, da matemática e da ciencia apli-
cam-se tanto no universo remoto como sobre a térra; a reali-
dade se torna cada vez mais racional.

Em conclusáo: para o pensamento religioso primitivo ou


infantil, a conquista da Lúa representa desmitizacáo, dessa-
cralizagáo, abalo de erróneas concepcóes religiosas — o que
é salutar, contanto que os catequistas e pregadores cuidem
de dar a seus irmáos mais simples auténticas concepgóes re
ligiosas.

A titulo de ilustra gao, pódese aqui citar urna «estória» relatada


por Iza Barreto de Salles, no «Diario de Noticias» do Rio de Janeiro,
aos 23/7/69, pág. 2, 2" secáo:

A guerra contra Deus

«A noticia da ida á Lúa íoi recebida por D. Ralmunda com espanto


e revolta. Como? O homem pisar na Lúa? — Nao. Imposslvel. Era
a guerra declarada contra Deus.
Onde íica a Lúa?, se perguntava ela, enquanto tratava dos aía-
zeres de casa. No céu, ela mesma respondía. E o que é o céu? Ora,
o lugar onde Deus mora; logo o homem la nao pode pisar.
Amazonense, filha de indios e portugueses, com cérea de 60 anos
e há quatro anos no Rio, D. Raimunda, na simplicidade de suas con-

— 364 —
VIAGEM A LÚA E RELIGIAO

viccoes, acostumara-se desde a infancia a estabelecer um limite, possl-


velmente a estratosfera, entre o reino dos homens e o de Deus...
Da discussáo em casa, sobre a ousadia do homem, D. Raimunda
levou seu parecer as irmás e mais que nunca suas afinidades foram
reíorcadas. Para dizer a verdade, elas nao acreditavam realmente na
coisa.

Mas o tempo foi passando, e, de Apolo em Apolo, o homem se


aproximando cada dia mais, do que se aproveitava o genro para
esplcagar a incredulidade da sogra.

Finalmente eis que o grande dia é chegado. D. Raimunda nao


íéz por menos: resmungou baixo o dia inteiro. A tardinha, chegou
urna das irmüs. D. Raimunda íicou mais confortada. Todos agora
estavam diante da televisáo. D. María ao seu lado, os outros mais
próximos.
A descida do módulo lunar foi acompanhada de exclamagóes de
alegría dos demais e de um muchócho de desdém de D. Raimunda,
enquanto D. Maria nada dizia, o que incomodava a amazonense, que
afinal precisava de reífirco na sua cética posicáo.
— Vamos ver o que sai lá de dentro, disse ela.
— É o homem, D. Raimunda. O homem que vai pisar na Lúa.
As horas passaram, o homem nao aparecía e D. Raimunda já
tinha um sorriso de triunfo nos labios, embora o genro teimasse em
explicar que 'o negocio vai demorar um pouco, éles estáo se prepa
rando'.
D. Raimunda nao olhou mais para a televisáo. Ocupou-se em
conversar com a irmá, ver o jantar e outras coisas, sempre tom um
sorriso de triunfo. Já era tardé e D. Maria teve de partir. Na porta
trocaram um sorriso de cumplicidade. Os presentes já nem se lem-
bravam mais de seu ceticismo, tanto para éles estava o fato definido.
De repente, D. Raimunda na cozinha deixa cair um prato, sobressal-
tada com o grito do genro.
D. Raimunda correu á sala. Pois nao é que urna coisa parecida
com um homem estava descendo na escada, em direcáo á Lúa? Estar-
recida, ela olhava, e o genro aproveitou para provocar:
— Vai pisar, D. Raimunda, vai pisar.
D. Raimunda nao perdeu tempo. Dedo em riste, sem tirar os
olhos de Armstrong, gritou, antes de retirar-se:
— Pois que pise! Pois que pise! íile verá o castigo que Deus
vai mandar».

b) Para o cristáo bem formado, a viagem á Lúa signi


fica, sem dúvida (como para os demais homens), surprésa:
a ciéncia-fiegáo de Julio Verne (1865) tornou-se realidade;
as pesquisas espaciáis iniciadas ha menos de vinte anos atin-
giram seu primeiro objetivo com velocidade e éxito que ul-
trapassaram as mais otimistas expectativas. É de prever que
o desembarque na Lúa desencadeie conseqüéncias mais e mais
extraordinarias com rapidez sensacional.

— 365 —
j> «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qn. 1

Todavía, para o cristáo, a viagem á Lúa nao constituí


abalo na fé. Ao contrario, o cristáo considera a facanha á
luz das páginas bíblicas (Gen 1-3) que manifestam o designio
de Deus a respeito do homem: éste foi concebido pelo Criador
como lugar-tenente do Senhor em relacáo las criaturas irra-
cionais (cf. Gen 1,26); compete-lhe dominar a materia (cf.
Gen 1,28-30), fazendo-a servir a si, para que ele, homem, sirva
a Deus como cabeca e sacerdote de todos os seres visíveis. O
salmo 8 canta na presenca de Deus, sob forma de louvor, o
estupendo designio do Criador:

«Contemplo agora os céus, ó Senhor, obra de tuas máos, a lúa e


as estrélas que lá colocaste. Que é o homem para que Te récordes
déle? — Tu o criaste pouco inferior aos homens; Tu o oo roas te de
gloria e honra. Tu lhe deste o poder sobre as obras das tuas mSos;
Tu lhe submeteste tedas as criaturas» (SI 8, 4-7).

2. Longe, pois, de ser abalado pela conquista da Lúa,


o cristáo vé nela urna confirmacáo de sua fé. Com efeito, a
possibilidade de pesquisarmos o espaco mediante raciocinio e
experiencias manifesta que o universo é algo de lógico e har-
monioso ; urna só inteligencia — perfeita e infalível — o con-
cebeu, deu-lhe a existencia e o conserva. Assim, pois, o cristáo,
nesta era espacial, de nova maneira apreende Deus e O reco-
nhece como Criador sumamente sabio e providente. Tomam
novo sentido, ou mais ainda se justificam, as palavras de
Thomas Edison (f 1931), o inventor da lámpada elétrica, do
cinematógrafo e do gramofone, o qual, tendo subido á torre
Eiffel em París, escreveu no respectivo livro de ouro dos visi
tantes :

«A Eiffel, engenheiro e corajoso construtor de gigantesca e ori


ginal peca de politécnica moderna, dedica estas palavras um homem
que nutre o mais profundo respeito e a mais sincera admiracao
para com todos os engenheiros e, em particular, para com o maior
dentre éles: Deus».

Era Joáo Kepler (f 1630). astrónomo famoso por ter


colaborado na descoberta das leis da mecánica celeste, quem
dizia :

«O Deus Eterno, o Deus Imenso passou diante de mim. Nao vi a


sua face, mas o seu reflexo, que se apoderou da minha alma e a
abismou em assombro e admiracao» («Harmonías do Universo», t. V,
p. 243).

Os prÓDrios astronautas Neil Armstrong, Edwin Aldrin


e Michael Collins foram pela sua facanha estimulados a re-

— 366 —
VIAGEM A LÚA E RELIGIAO

conhecer a ac.áo de Deus e agradecer ao Criador: depois do


desembargue na Lúa, um déles incitou os homens a agradecer
na térra «cada qual do seu modo». Edwin Aldrin, cristáo pres
biteriano, levou consigo urna parcela de pao simbólico, que
ele consumiu na Lúa em sinal de comunháo com Deus. Ao
regressar ao nosso mundo, os cosmonautas foram vistos em
oragáo juntamente com o Presidente Richard Nixon. Éste,
alias, fez alusáo ao texto bíblico, quando afirmou que a se
mana de viagem de Apolo-11 fóra «a maior semana da historia
do mundo desde a criagáo».
Os sentimentos de solidariedade fraterna, colaboragáo e
uniáo entre os povos foram despertados ou estimulados em
miñtos homens por ocasiáo do éxito de Apolo-11. Ora tais re
sultados sao profundamente cristáos.

É oportuno recordar que em viagens espaciáis anteriores os as


tronautas fizeram sua profissao de fé. Tal foi o caso, por exemplo,
de Anders, Lovell e Borman, tripulantes da Apolo-8, que na noite de
Natal de 1968 enviaran) de sua cosmo-nave, a 400.000 km da térra,
urna mensagem profundamente religiosa, lendo passagens da Biblia,
ás quais acrescentaram urna prece destinada aos «homens de tdda
parte»:
«Dá-nos, Senhor, os olhos que nos permitam ver teu amor no
mundo, apesar das deficiencias dos homens.
Dá-nos a fé para nos coníiarmos a tua bondade, apesar da nossa
ignorancia e da nossa fraqueza.
Dá-nos entendünento para que possamos continuar a rezar com
um coracáo consciente.
E mostra-nos o que cada um de nos pode fazer para favorecer
a chegada do día da paz universal. Amém».

Como se vé, o Cristianismo, que nao admite mitos, nada


tem a perder com o esmero de urna visáo científica do universo;
ao contrario, o Deus da Biblia mais se patenteia, com novos
sinais, ao cristáo que vive em nossos días.

3. As teorías de Copérnico e Galileu (que ensinavam o


heliocentrismo, em lugar do geocentrismo) e as de Darwin
(que propugnava a origem do corpo humano a partir da ma
teria animada do macaco) puderam, sim, sacudir muitos cató
licos, quando propostas pela primeira vez. A inquietacáo, porém,
se deu em parte porque tais teorías foram formuladas de ma-
neira um tanto imperfeita por seus primeiros arautos; em
parte também (e principalmente), porque, os estudos bíblicos
nao estando suficientemente evoluidos, as escolas católicas jul-
gavam que as Escrituras pretendiam ensinar aos homens dén-
cias naturais e, em particular, a cosmología dos antígos hebreus.

— 367 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 1

Hoje, porém, sabe-se que tal nao é a intengáo da Biblia; sabe-se


também que nada há na Escritura que proiba ao homem de
senvolver seus talentos de modo a tentar conquistar os espacos.
Ensoberbecer-se e julgar que Deus nao existe, porque o homem
vai descobrindo a obra do Criador, é absurdo. A auténtica
ciencia é sempre humilde; em vez de se endeusar, ela aponta
melhor o verdadeiro Deus.

4. As viagens ao espago tém suscitado a hipótese de


que haja habitantes em outros planetas. Ora a fé crista nao
contradiz a tal possibilidade. Os seres humanos que existam
em outros mundos, deveráo ser tidos como criaturas do mesmo
Deus que fez nossa humanidade; tais criaturas hipotéticas
estaráo sujeitas á lei fundamental da consciéncia : «Faze o
bem, evita o mal». Nao se poderia dizer, porém, se peca-
ram.... se foram remidas..., se os méritos de Cristo lhes
foram aplicados... (a imaginaeáo, nesse setor, pode conceber
hipóteses sobre hipóteses, sem conseguir respostas cabais, por
que Deus nada revelou a propósito).

2. Urna ob¡e$ao

As viagens espaciáis tém levado nao poucas pessoas a pro


testar contra o emprégo de enormes capitais para tais fins,
quando tantos homens no mundo passam fome e miseria : nao
seria para desejar que tanto dinheiro fósse canalizado para
fins estritamente humanitarios e que os homens, em vez de
pensar na conquista da Lúa, cuidassem mais dos problemas
da térra ?

Em resposta, deve-se observar :

1) Há inegáveis vantagens em que a ciencia progrida


— o que só é possível mediante exploracáo e pesquisas. As
experiencias e conquistas registradas no setor da eletrónica e
da astronáutica redundam em beneficio de outros ramos do
saber e da civilizacáo : comunicagóes, transportes, medicina,
psicologia, cosmología, industrializagáo, agronomía... Por isto
nao se devem impor limites ás pesquisas científicas, contanto
que estas se processem dentro das normas impostas pela ética
e pelo respeito á pessoa humana.

De resto, os elogios tecidos á facanha de Apolo-11 tém


preconizado que as novas conquistas da ciencia e da técnica
sirvam á causa da paz.

— 368 —
VIAGEM A LÚA E RELIGI&O

2) Para prover as necessidades das populagóes indigentes,


é recomendável que se cortem outras despesas que nao as da
explorado científica ; assim, por exemplo, as da corrida ar
mamentista, como apregoa a encíclica «Populorum progressio»
(n* 53). É preciso também que se desperté em todos os povos
a consciéncia da solidariedade fraterna, de sorte que as nacóes
mais aquinhoadas vencam o egoísmo e o exagerado cultivo de
seus interésses particulares para atender as populacóes indi
gentes.

Já se disse que as despesas com a viagem de Apolo-11


equivaleram ao que os cidadáos norte-americanos gastam anual
mente no consumo de fumo. Será isto verdade ? — Como quer
que seja, o confronto sugere a idéia seguinte : as viagens es
paciáis poderiam tornar-se ensejo para que no mundo inteiro
se intensificassem «campanhas de fraternidade» : convidar-
-se-iam, sim, todos os homens de boa vontade a se abster de
despesas supérfluas (cigarros, álcool, guloseimas, diversóes de
luxo...) a fim de ir ao encontró dos povos mais pobres. Assim
as conquistas da ciencia e da técnica, longe de provocar pro
testos e decepgóes, seriam acompanhadas de enobrecimento de
caráter e de verdadeira aproximagáo entre os homens.

Em suma: seria para desejar que a conquista do saber


contribuisse, em todos os planos possiveis, para proporcionar
melhores dias á humanidade sofredora. Os cristáos sao, por
sua consciéncia religiosa, especialmente estimulados a orar e
se esforgar em tal sentido.

3. Prospectiva

A imprensa tem noticiado alguns prognósticos sobre o


futuro da Religiáo na era espacial. Sejam aquí mencionados :

1) Auto-afirmasáo do homem e reverencia a Deus. Eis


o que se lé no «O Estado de Sao Paulo» de 22/7/69, pág. 19
(artigo assinado por Edward Fiske) :

«Um dos imprevislveis efeitos de realizagSes como a de Apolo-11


cnvolve a nocáo que, tradlcionalmente, representava o centro da expe
riencia religiosa: o senso de reverencia.
Alguns teólogos receiam que o senso de reverencia pelos objetos
religiosos nao esteja apenas diminuindo, mas desaparecendo inteira-
mente da experiencia moderna. 'Parece um pouco tolo sentir reve
rencia dentro de urna catedral católica depois que cruzamos o Atlán
tico num aviSo a jato para vé-la', diz Harvey Cox (professor da
«Harvard Divinity SchooD».

— 369 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 1

Na verdade, o senso religioso e a reverencia perante o


misterio da Diyindade sao algo de táo natural e inerente á
estrutura interior do homem que é impossível a éste coibir
tais sentimentos sem se desfigurar e infelicitar. A historia das
Religiñes aponta, no mundo moderno, manifestacóes profanas
que na verdade nao sao senáo antigás expressóes religiosas
destituidas de seus verdadeiros nomes religiosos ; o marxismo,
por exemplo, nao é senáo urna forma materialista e atéia de
messianismo e de mística. O senso místico é inato em todo
homem.
As conquistas espaciáis só contribuiráo para extinguir a
reverencia do homem para com a Religiáo e seus monumentos
se houver deturpacáo do pensamento humano; na verdade,
o dentista e o conquistador do universo sao mais e mais postos
em contato com o misterio de Deus. Com efeito, continua a
noticia do jornal citado:

«Outros, porém, julgam que a exploragáo espacial poderá dar ao


homem um ndvo senso de misterio».

O estilo das catedrais católicas (románico, gótico, renas-


centista, barroco, futurista...) pode variar de acordó com as
categorías artísticas de cada época ; o gótico, por exemplo,
talvez nao se coadune com as realizacóes do século XX. A
mensagem, porém, que ésses estilos veiculam, é perene.

2) Era espacial e liberdade frente a Deus. Insinuam aJ-


guns comentadores que as novas experiencias poderáo mais
aínda solapar o senso de subordinacáo a Deus que os homens
possam ter nutrido até os últimos tempos ; nao vai o cidadáo
do século XX assumindo as funcóes que outrora eram atribui
das a Deus ?
— Para introduzir a resposta, deve-se notar que as ex
periencias espaciáis tém exigido de todos quantos délas parti-
cipam, o exercício de rigorosa obediencia e subordinacáo ao
plano espacial e aos seus mentores. O éxito só é possível me
diante fiel colaboracáo de todos e estrita submissáo de cada
um as ordens recebidas dos chefes. Disciplina, renuncia, do
minio de si sao predicados que os astronautas e os seus milha-
res de colaboradores praticam com afinco. Assim as conquistas
espaciáis, do seu modo, vém a sugerir ao homem de hoje ati-
tudes e predicados que, em última análise, sao profundamente
religiosos. — A Religiáo complementa as licóes da astronáutica,
asseverando que obediencia meramente leiga ou sem Deus é
mal arquitetada ; cedo ou tarde ela se arrisca a vacilar se

— 370 —
VIAGEM A LÚA E RELIGIAO 11

nao se lhe dá um esteio sólido, como sao a fé em Deus e a


adesáo aos designios do Criador. É por Deus e para realizar
os seus planos que os homens devem obedecer as autoridades
legitimas.

De resto, aqueles que comandam as pesquisas espaciáis


tém consciéncia de estar penetrando em novos e novos campos
do saber ; reconhecem que podem ser vitimas de surprésas,
decepcóes e engaños. Isto os deve entreter naturalmente numa
posicáo do humildade e de reverencia frente á Inteligencia
Suprema, que Ihes permite avancar nos segredos que para
Ela nao sao segredos. Desarrazoado seria o homem que jul-
gasse ser absoluto e autónomo pelo fato de haver, a tanto
custo e com tantas cautelas, colocado o pe por duas horas
na Lúa !

3) Consciéncia. do pecado. Também se tem dito que as


conquistas espaciáis, incentivando a confianga do homem em
seus talentos, contribuiráo para empalidecer a consciéncia do
pecado e da necessidade de penitencia. Eis o que escreve
Edward Fiske no «O Estado de Sao Paulo» de 22/7/69, pág. 19:

«No passado a teología punha urna considerável énfase no pecado


c na Iragilidadc do homem. Enquanto alguns pregadores, como o
evangelista Billy Graham. continuam a salientar ésses aspectos, a
maioria dos teólogos cotnecou a acentuar a íórca, a criatividade e a
capacidade do homem para moldar o mundo em que Deus o colocou».

Em resposta, é necessário lembrar que o dominio sobre


a materia nao tem emancipado o homem do egoísmo, do odio,
das guerras, do terrorismo e do racismo; ao contrario, regis-
tra-se um desnivel flagrante entre os progressos da ciencia e
da técnica e os métodos de malicia requintada («lavagem de
cránio», ocupacáo de territorios, sufocacáo da liberdade, mor
ticinios...) com que os homens tratam uns aos outros. O
homem que se realiza como dentista ou profissiorcal, nao está
necessariamente realizado como homem. Para tanto, é neces
sário combata o pecado ; éste reside em todo e qualquer mem-
bro da estirpe humana.

É claro, porém, que a recordacáo de que o homem é pe


cador, nao nos deve impedir de reconhecer quanto de grande
o Criador concedeu á criatura: inteligencia, criatividade, poder
sobre a materia que o cerca... Reconhecer o pecado no mundo
nao quer dizer «cair no masoquismo, no péssimismo ou no
maniqueísmo». Ao contrario, o cristáo, embora se saiba pe
cador, é confiante e otimista porque sabe também que foi

— 371 —
13 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 2

remido pelo sangue de Cristo e chamado a ser co-redentor,


pela sua penitencia e pelo seu trabalho, com o Divino Redentor.

Sobre a freqüentagáo do sacramento da Penitencia ñas


igrejas católicas, cf. «P.R.» 102/1968, pág. 241-249.

Eis algumas consideragóes que a viagem de Apoío-11 e


o respectivo noticiario sugerem a quem procura pensar sere
namente dentro de categorías cristas.

II. FILOSOFÍA E RELIGIÁO

2) «A existencia de Deus... Sinto dificuldade era pro-


vá-la aos jovens, visto que sao propensos a admitir apenas o
que podem ver e apalpar.

Gostaria de urnas explicaeoes que pudcsse transmitir á


juventude».

Resumo da resposta: É observando o ser humano que talvez


mais fácilmente se possa levar o jovem de hoje ao reconhecimento
de Deus.
Todo ser humano traz em si grandes aspiragoes inatas (á vida,
á justica, á felicidade...), que nao encontram satisfacáo na térra.
Conseqüentemente, impóe-se á razao um dilema:
ou existem urna outra vida e o Bem Infinito (Deus), que cor-
respondem a tais aspiragoes. Há. portanto, ordem e harmonía na na-
tureza;
ou nada existe que responda ao homem. Éste entüo se torna
um ser absurdo, que vive num universo absurdo.
Ora tudo parece indicar que o mundo nao é absurdo, mas bem
ordenado. As aspiracóes naturais sao devidamente preenchidas: assim.
se existe ólho, existe luz; se existe ouvido, existe som; se existe
pulmáo, existe ar. Se a agulha magnética está agitada, existe o
Norte... Assim também, se o homem aspira espontáneamente á vida
e á felicidade sem fim, estas existem; coinciden» com a posse do Bem
Infinito, que é Deus.
O senso moral, congénito em todo homem, também leva a reco-
nhecer a existencia de Deus. Há, sim, no intimo de todo homem urna
voz que lhe diz: «Pratica o bem, evita o mal». Nao é a voz da so-
ciedade nem a voz do homem mesmo, pois tal voz multas vézes se
opóe á sociedade e ao homem. Ainda que eu me torne hipócrita,
oometendo o mal para me satisfazer, sem que alguém o saiba, essa
voz me censurará. É a voz do autor da natureza: Deus.

— 372 —
DEUS EXISTE? 13

Resposta: A filosofía ocidental desde Platáo (f 348/347


a.C.) e Aristóteles (t 322 a.C.) concebeu algumas provas
da existencia de Deus. S. Tomás de Aquino, na Hade Media
(f 1274), deu-lhes a clássica formulacáo ñas chamadas «cinco
vias». Visto, porém, que tais argumentos, em grande parte,
apelam para a metafísica, sao por vézes pouco expressivos
para a juventude contemporánea. O pensamento moderno é
muito mais voltado para o homem («o ponto homem», como
se tem dito) e seus problemas concretos do que para principios
filosóficos abstratos. Sendo assim, embora permanecam ple
namente válidas as clássicas vias metafísicas que dcmonstram
a existencia de Deus, pode-se sugerir ao mestre moderno que
dé grande énfase aos argumentos que procedem da obser-
vacáo do homem para chegar á nogáo da existencia de Deus.

As páginas que se seguem, sao, antes do mais, dedicadas


á explanagáo de tais argumentos na seguinte ordem : 1) as
grandes aspiragóes do ser humano, 2) o senso moral ou a
responsabilidade, 3) duas objecóes, 4) conclusáo.

1. As grandes aspirares do ser humano

1. O homem constituí um grande enigma para si mesmo.


É dotado de aspiragóes fundamentáis e incoercíveis que nao
encontram adequada resposta na vida presente. Com efeito,
todo homem traz em si o desejo inelutável de felicidade, justiga,
verdade, amor...

Ora sabemos quáo precaria é a felicidade de que alguém


possa gozar neste mundo ; a exigüidade das criaturas que nos
possam tornar felizes e a certeza de que morreremos, nos im-
pedem de dizer que encontramos na realidade presente a feli
cidade a que aspira espontáneamente o nosso ser.

Aos mais belos sucessos se seguem as mais amargas de-


cepcóes : um diploma, um título de «doutor» constituem va
lores, sim, mas, em comparacáo com nossas aspiragóes fun
damentáis, aínda sao muito pouca coisa.. . Há sempre urna
distancia entre nossas aspiragóes e nossas possibilidades, entre
nossas possibilidades e nossas realizagóes... E, depois de exe-
cutar — bem ou mal — a sua tarefa, o homem sabe que
entrará na velhice, a qual parausará as suas atividades.
E após a velhice haverá a queda na grande fossa, em que
todo o ser visivel do homem é pulverizado. Consciente disto,
observa R. Ikor :
14 iPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 2

«Alguns instantes de vida, e depois nada mais, eis o que te incita


a te perguntar com éníase singular, diante de cada ato da vida: 'Para
que isto?'»

Pode-se especificar o pensamento de Ikor. Á mente de


todo homem afloram certas perguntas espontáneas e inevitá-
veis: Donde venho ? Para onde vou ? Qual o sentido desta
existencia aqui na térra? Que valor tem o meu semelhante?...
a familia ?

A Justina aqui na térra é freqüentemente burlada. A in-


justiga e a iniqüidade se impóem com facilidade desconcertante.
O homem reto e honesto sofre por ser tal, ao passo que os
violentos e indignos prosperam em sua carreira profissional.
«O homem é lobo para o homem», como diz o proverbio latino.

Quanto á verdade, também é notoria a dificuldade com


que a atingimos; a procura da verdade exige esforgos prolon
gados, nem sempre compensados. Ademáis é, por vézes, arduo
distinguir verdade e erro, tanto no campo das ciencias naturais
como no setor da filosofía; fácilmente o erro é transmitido
sob a forma de sofismas e semi-verdades — o que frustra pro
fundamente o ser humano.

No tocante ao amor, o homem é também muitas vézes


decepcionado. É-lhe impossível viver sem amor. Todavía ele
dá amor as vézes mesclado de egoísmo, e recebe amor também
por vézes contaminado...

Além do mais, todo homem digno déste nome nutre sem


pre um ideal; procura realizar-se e realizar alguma coisa (um
lar, urna profissáo, urna obra...) na térra. Verifica, porém,
que a oonsecucáo de qualquer nobre meta é penosa e, nao
raro, frustrada. Aínda em nosso sáculo, Albert Camus, famoso
escritor ateu, lembra o mito de Sísifo como expressáo típica
da constante insatisfagáo ou mesmo decepgáo que a presente
vida impde ao homem.

Sislío, na mitología grega, era reí de Corinto, fllho de Eolio e


esposo de Meropa. Por um motivo que os comentadores ignoram, os
deuses condenaram Sísifo a íazer rolar urna enorme pedra por sobre
a rampa de urna montanha, até atingir o cume desta. SIsifo, subme-
tendose a puni^fio, nunca conseguía chegar a termo, pois a rocha,
impelida para cima, cedo ou tarde se precipitara por efefto do próprio
peso. Comenta Camus:
«Os deuses haviam pensado, com certa razáo, que nao há castigo
mais terrivel que o trabalho inútil e destituido de esperanca... Ima-

.„ V7A
DEUS EXISTE? 15

gine-se todo o esfdrco de um corpo teso para suspender a enorme


pedra e fazé-la rolar escarpa ácima; e isto, urna centena de vézes...
Imagine-se o rosto franzido, a face colada contra a pedra... Sísífo
vé a rocha arremessar-se em poucos Instantes para éste mundo infe
rior, de onde será necessário subir de novo para o cume... Ele desee
mais urna vez para a planicie» (Camus, «Le mythe de Sisyphe»,
p. 161. Idees).

A luta perseverante de Sisifo tem algo de grandioso e


heroico, sem dúvida. Segundo Camus e outros pensadores, ela
representa a realidade da vida humana neste mundo, vida que
é um continuo recomecar em conseqüéncia de sucessivas frus-
tragóes e quedas.

Camus chega a acrescentar que a luta mesma em de


manda do píncaro basta para encher um coracáo humano; é
preciso imaginemos Sisifo feliz..., embora saibamos que nao
atingirá a saciedade.

A Camus nao poucos tém respondido que lutar por lutar


parece puro desperdicio de energía. Mais ainda: a grandiosi-
dade da luta de Sisifo nao deixa de ser marcada pelo absurdo.
Sisifo sofre, renunciando a atingir o único objetivo que possa
motivar a luta dolorosa : a posse da felicidade tranquila e
definitiva. Será necessário que o homem aceite simplesmente
o seu penar e procure sufocar em si o desejo incoercível de
felicidade ?
O homem que hoje trabalha penosamente, nem sempre
se reconhecerá (nem aceitará reconhecer-se) na. figura de
Sisifo ; quem nao tem a esperanga de adquirir algo mediante
os seus esforgos, está destituido da fonte de energías indis-
pensável para poder sustentar a luta.

2. As consideracóes até aqui propostas sugerem a se-


guinte conclusáo : as aspiragóes inatas que o homem traz em
si, nao podem ser frustradas. Se nada houvesse que lhes cor-
respondesse, teriam plena razáo os que, mediante entorpecentes
e psicotrópicos, procuram «paraísos artificiáis», ou aqueles
que póem fim a si mesmos no suicidio. Diz com acertó Gabriel
Marcel: «Se a morte é a realidade última, todo valor se ani
quila no escándalo puro ; a realidade está como que ferida em
seu coragáo».

O bom senso, portante, leva a afirmar que há urna res-


posta positiva e válida para as grandes aspiragóes inatas do

— 375 —
16 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 2

ser humano1. Essa resposta, em última análise, é o Bem


Infinito, o Primeiro Amor e a Verdade Suprema. E, já que
nao é possível na vida presente possuirmos plenamente ésse
Supremo Valor, existe urna vida postuma, na qual encontra-
ráo saciedade as mais fundamentáis aspiragóes do ser humano.
Foi o Ser Infinito, Deus, que nos criou, deixando em nos o
sinéte do Fabricante (isto é, a sede inelutável do Infinito); e
é ésse Criador quem continuamente exerce sobre nos o seu
atrativo, permitindo percebamos a exigüidade do tudo que
nos cerca (todas as coisas sensiveis passam, e o homem per
manece com insaciável capacidade para usufruir novos e
novos bens).

3. O que acaba de ser dito, pode ser ilustrado pela veri-


ficacáo de certos fenómenos ocorrentes na natureza. Esta
parece excluir a frustracáo e o absurdo; com efeito,

se tenho olhos, é porque existe a luz para a qual o ólho foi feito;
se tenho ouvidos, é porque existem sons e melodías:
se tenho pulmñes, existe o ar que lhes corresponde;
se tenho fome e sede, existem os alimentos de que preciso;
se a mulher tem o senso da maternidade e aspira a ser máe.
existe para ela a maternidade ou o poder tornar-se máe.

Mais aínda :

se as aguas do mar sobem por ocasiao das mares, tornándose


agitadas e inquietas, sei que essa agitacáo nao é casual, mas se deve
ao atrativo sobre elas exercido pela Lúa;
se a agulha magnética se agita dentro da bússola, posso estar
certo de que existe um polo Norte (invisivel, sim, mas muito real)
que a atrai e só permite repouse quando devidamente voltada para o
seu Norte.

Assim análogamente, se verifico em mim (anteriormente


a qualquer reflexáo filosófica ou religiosa) a sede de certos
valores ou mesmo do Infinito, posso estar certo de que tais
valores e o Bem Infinito existem no Além, em correspondencia
a tais aspiragóes.

1 Note-se bem: nao falamos das aspiragóes que cada homem possa
oonceber na base de seu temperamento e da sua cultura pesjoais,
pois tais podem ser arbitrarias, assemelhando-se por vézes a sonhos
utópicos. Trata-se, no contexto ácima, dos grandes anelos que todo
homem, de qualquer raca ou cultura, traz em si.

— 376 —
DEUS EXISTE? 17

Simone de Beauvoir, imbuida de existencialismo, escreveu


muito sabiamente:

«Urna vida, para que seja interessante, deve assemeUiar-se a urna


ascensáo: galga-se um patamar, e, depois, outro...; cada patamar
nao existe senáo em vista do patamar seguinte... Se essa subida,
chegando ao auge, retrocede, ela se torna absurda desde o seu ponto
de partida» («Le sang des airtres»).

Esta frase de Simone de Beauvoir, por muito válida que


scja, parece deixar lugar a urna réplica :

Com efeito. Talvez observe alguém : Por que nao dizer


corajosamente que a vida humana e a passagem do homem
sobre a térra sao algo de absurdo ? Desgrasado o individuo
que aspira utópicamente a melhor vida ! Nao se diga, pois,
que nao podem ficar frustradas as aspiragóes mais fundamen
táis da alma humana.

A esta objecáo deve-se responder : o universo se apre-


senta marcado por nota de profunda harmonia; é o que decla-
ram os estudiosos de qualquer dos reinos naturais : mineral,
vegetal e animal (irracional). Einstein experimentava admira-
Qáo extática ao considerar a ordem do infinitamente grande.
Alias, as ciencias naturais nao seriam possíveis se o universo
e a natureza nao fóssem inteligíveis ou nao fóssem o pro-
duto de urna Inteligencia Suprema que concebeu cada urna das
criaturas (grandes e pequeñas) e seu maravilhoso inter-rela-
cionamento. Pergunta-se, pois: sómente o homem e sua exis
tencia sobre a térra seriam algo de absurdo ou destituido de
explicacáo e razáo de ser ?

Vé-se que o absurdo consistiría, antes, em se admitir que


sómente o setor humano seja marcado pela nota do absurdo
no conjunto das criaturas; parece desarrazoado que, colocado
no todo harmonioso do universo, o homem, e sómente o
homem, nao se beneficie da ordem que se exprime no conjunto
e em cada um dos seus outros setores. Verdade é que, quando
se trata do homem, entra em jógo um fato singular: a liber-
dade de arbitrio. Ora a liberdade sempre implica Sim e Nao,
capacidade tanto de afirmar e confirmar como de destruir a
ordem existente. Compreende-se entao que o homem se possa
considerar por vézes vitima de absurdo; o absurdo, no caso,
nao é originario nem é inerente á natureza, mas deve-se ex
clusivamente ao uso desregrado ou ao abuso da liberdade
de arbitrio. Vé-se, pois, que as desordens ou frustracóes que
o homem possa experimentar nesse mundo, nao depóem con-

— 377 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 2

tra a ordem do conjunto concebida pela Primeira Inteligencia.


Entre parénteses, pode-se acrescentar que, pelo fato de existir
a Inteligencia Primeira ou Infinita, os males ou absurdos de-
vidos ao homem nao sao irremediáveis, mas poderáo ser sem-
pre superados ou redimidos.
Em conclusáo: certas interrogares e aspiragóes espon
táneas em todo homem exigem resposta. Ora, já que tal res-
poste nao é dada na vida presente por alguma das finitas
criaturas que nos cercam, há urna vida postuma, em que
encontramos, sem dispute nem contestacáo, o Criador ou o
Bem Infinito, resposta aos mais genuínos anseios do ser
humano1.

Outra faceta do homem nos interessa agora :

2. O setrso moral ou a responsabilrdode

Em todo ser humano, anteriormente a qualquer profissáo


filosófica ou religiosa, existe o senso moral...

E que é ésse senso moral ?


— Em termos gerais, pode-se dizer que é a persuasáo,
inata em todo homem, de que nao é lícito tomar qualquer
atitude em qualquer situagáo ou encruzilhada da vida. O
homem tem que se comportar de acordó com urna norma
fundamental que ele ouve em seu íntimo : «Pratica o bem,
evite o mal». Seguindo tal principio, a pessoa tem a cons-
ciéncia de haver cumplido o seu dever — o que é fonte de
alegría e paz. Ao invés, quem transgride tal imperativo, pra-
ticando o que lhe parece ser mal, é vítima de urna censura
interior ; desta censura o homem, muitas vézes, deseja desem-
baracar-se, sem, porém, o conseguir.
Qual a base do sentimento moral assim concebido ?
Procuremos a resposta por via indutiva, ou seja, anali-
sando um caso concreto e típico :2

i Já na vida presente o homem atinge o seu Criador; atinge-O,


porém, como peregrino posto em demanda de urna posse mais plena,
e nao amissivel.

3 Para que a leitura seja frutuosa, é de recomendar que o leitor


procure acompanhar e viver Intimamente as peripecias e interroga-
coes do monólogo que se segué.

— 378 —
DEUS EXISTE? 19

«Acho-me só em um consultorio de médico. No grande,


fichário ai colocado, sei que se encontram os dados pessoais
— as vézes 'vergonhosos' — dos pacientes em tratamento.
Estou consciente de que essas fichas de doentes estáo prote
gidas pelo segrédo profissional, a tal ponto que nao é licito
revelar o seu conteúdo nem em caso de perquisigáo judiciária
ou de julgamento em tribunal. Por oonseguinte, bem sei que
me é absolutamente vedado tomar conhecimento do que diz
o fichário do médico.

Acontece, porém, que o tratamento aplicado ao paciente


N. N. despertou a minha curiosidade. Parece-me ter adivinhado
o mal de que sofre. Eu quisera verificar o acertó de minhas
conjeturas... Apodero-me entáo da ficha respectiva. Desdo-
bro-a em toda a sua estensao. Leio-a...

Verifico que meu diagnóstico fóra exato — o que para


mim foi um triunfo. Todavía ésse contentamente intelectual é
imediatamente acompanhado de um mal-estar profundo e su
bitáneo em mim. Cometi grave indiscrigáo. Sinto-me julgado
interiormente: tornei-me culpado de urna injustica para com
o doente e de um abuso de confianca em relagáo ao médico.

Éste veredicto impóe-se ao meu espirito de maneira cate


górica, absoluta.

Pergunto-me entáo: por que ésse julgamento sobre mim


mesmo tem tanta pujanca ? E por que a conseqüente pertur-
bagáo é táo persistente e dolorosa ?

Tentando responder, fago a seguinte reflexáo : tenho um


nariz deformado e, por isto, nao sou um tipo bonito. Isto me
entristece nao pouco, principalmente porque me dificulta en
contrar urna colocacáo na sociedade. Mas sei que nao sou
responsável por essa deformagáo. E, ainda que tal deformi-
da'de resultasse de um acídente motivado por urna imprudencia
minha, eu me sentina responsável no caso, sim, mas nao com
a profundidade e a vergonha que a grave indiscrigáo suscita
em mim. O defeito no rosto atinge apenas o meu corpo e a
minha carne ; é urna tara física, nao própriamente moral. E
eu bem me posso libertar da tristeza ocasionada por minha
deformidade, eleyando-me no plano moral, ou seja, impondo-me
em tudo como cidadáo honesto e digno. Ao contrario, a minha
culpa moral atinge o que há de mais íntimo em minha perso-
nalidade : sou responsável em minha consciéncia ; é no mais
profundo do meu ser que experimento a minha culpabilidade.

— 379 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 2

Dizia que me sinto responsável! Mas diante de quem ?


Nao perante as paredes, nem perante o gato, que me contem-
plava solenemente, quando eu percorria o ficharlo do médico.
Só posso ser responsável diante de urna pessoa. Entáo dirá
alguém:... diante da sociedade. Ou, mais precisamente, diante
das pessoas com as quais convivo. Elas tém confianga em mim;
tratam-me como um tipo leal e oorreto. Ora eu já nao sou
o que elas pensam. Sinto que há um desnivel entre o que
parec.0 ser e o que sou realmente. Isto me incomoda. Preciso
de sor auténtico, isto ó, idéntico á imagem que a sociedade
tem de mim...

Sem dúvida ! Mas por que é que outro homem — ou o


conjunto dos outros homens — tem o poder de me oonstranger
a ser auténtico, a ser aquilo que eu pareco ser ? — Talvez
porque a sociedade está baseada na confíanga mutua e na
preocupagáo de nao se fazer a outrem o que nao se quer para
si mesmo ? Sim; nao há dúvida. Mas nao basta isto. Nao
poderia eu simplesmente evitar as más impressóes e os escán
dalos no meu comportamento externo ? Bastaría, para tanto,
que eu me dissimulasse sob a hipocrisia. E, no caso preciso
em que me vejo, nao bastaría que, após ter devassado indiscre
tamente o fichário do médico, eu guardasse com zélo o se-
grédo violado ?

Talvez pudesse, sim, salvar désse modo hipócrita as apa-


réncias de honestidade. Mas reeonhego que isto nao me satis
faría. Ainda que os homens me aprovassem ou me deixassem
passar impune, eu ouviria dentro de mim urna voz de censura
severa. Nao seria a voz dos homens, nem seria urna voz pre
meditada por mim, mas seria urna voz anterior a qualquer
deliberagá© minha : seria a chamada 'voz da consciéncia'».
(Trecho adaptado do livro de J. Javaux, «Prouver Dieu?»,
pp. 60-62.)
Éste depoimento-monólogo, vivo e impressionante como é,
leva-nos a concluir que dentro de nos existe urna regra de
nossos atos, congénita conosco, que, em última análise, é in-
cutida por Deus. Sem Deus é inútil justifica^ a ética com seus
imperativos, nem se vé por que observar normas moráis;
estas se tornam convengSes artificiáis e discutíveis. É o que
atesta com muita sabedoria o filósofo ateu existencialista Jean-
-Paul Sartre :

«O existenclalista é multo oposto a um certo tipo de moral leiga


que deseja suprimir Deus com o mínimo de inconvenientes possivel.

— 380 —
DEUS EXISTE? 21

Quando em 1880 alguns professóres franceses tentaram constituir


urna moral leiga, disseram mais ou menos o seguinte:
'Deus é urna hipótese inútil e pesada; suprimamo-la; mas é ne-
cessário, para que naja urna Moral, urna sociedade, um mundo poli-
ciado, ... é necessário que certos valores sejam levados a serio e
considerados como existentes de maneira absoluta; faz-se mister seja
obrigatório em absoluto que sejamos honestos, nao mintamos, nao
espanquemos nossas esposas, tenhamos filhos, etc., etc. ... Por con-
seguinte, vamos fazer um trabalhinho que permitirá mostrar que
ésses valores existem apesar de tudo, inscritos num céu inteligível,
ombora Deus nao exista.
Com outras palavras — e esta é, creio, a tendencia de tudo que
em Franca se chama radicalismo — nada será mudado, se Deus nao
existir; encontraremos as mesmas normas de honestidade, de pro-
gresso, de humanismo, e teremos feito de Deus urna hipótese ultra-
passada, que marrerá tranquilamente e por si. Ao contrario, o exis-
tencialismo julga que é muito incómodo que Deus nao exista, pois
com Ele desaparece toda possibilidade dé encontrar valores num céu
inteligível. Nao pode haver nenhum bem absoluto, já que nao há
consciéncia infinita e perfeita para o conceber; em parte alguma está
escrito que o bem existe, que é preciso ser honesto, que é necessário
nao mentir, pois entáo precisamente nos colocamos num plano em
que há sómente homens. Dostolevsky escreveu: 'Se Deus nao exis-
tisse, tudo seria permitido'. ÍJ éste o ponto de partida do existencia-
lismo» («L'existencialisme est-il un humanisme?» 1946, pp. 34-36).

Em outros termos : ou aceitamos o binomio «Ética-Deus»


ou simplesmente negamos a Ética.
Esta afirmacáo é, de seu modo, confirmada pelo testemu-
nho seguinte :

Um muculmano certa vez abandonou o Coráo como sendo urna


colcha de contradicSes. Um dia, quando em um laboratorio manipulava
corpos químicos, foi impressionado pelo determinismo do comporta-
mentó désses corpos: urna vez realizadas as condicóes para reagirem,
nao podem nao reagir. Pensou entáo consigo mesmo: «Eu, ao con
trario, sou livre! Livre, mas responsável... E responsável diante de
quem? Diante de urna pessoa: Deus». Confessou entáo o muculmano:
«Encontré! a paz, e nunca mais a perdi».

Eis, porém, que duas objecóes se levantam contra a exis


tencia de Deus depreendida das consideracóes precedentes.

3. Duas dificuWodes

Dizíamos que, observando-se a si mesmo, com suas lacunas


e aspiracóes, o homem pode chegar a Deus. Pergunta-se, porém:

1. Será que ésse Deus assim concebido é algo de real e


objetivo ? Nao será simplesmente a projegáo da nossa angús-

— 381 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 2

tía, ou urna especie de ficcáo que nos dá seguranga na miseria


da nossa condigáo humana ?

— Em resposta, note-se que a procura de seguranga marca,


sem dúvida, o comportamento do homem. Todavía éste fato
nao impede, nem exclui, exista realmente aquéle que é capaz
de nos dar seguranga. Esta afirmagáo pode ser ilustrada se
voltamos a nossa atengáo para um fato de ordem mais con
creta : imaginemos uma crianca que, angustiada, procura sua
máezinha em meio á multidáo ; essa angustia, por certo, nao
«cria» máezinha, mas, ao contrario, é derivada do fato de
que máezinha existe. Assim, o homem na térra procura o
Bem Infinito ; nessa sua procura ele nao «cria» nem projeta
ficticiamente o Bem Infinito, mas, ao contrario, ele está sendo
atraído pelo Infinito, que realmente existe. Note-se que o
desejo do Bem Infinito nao é algo de particular ou próprio de
algumas criaturas apenas, mas é comuna a todos os homens ;
na natureza humana há uma relagáo intrínseca e indelével ao
Infinito.

A prova de que Deus nao é simplesmente uma projegáo


de nosso mundo subjetivo, é principalmente lúcida no plano
da moralidade. Neste, Deus aparece como realmente «Outro»,
como alguém que irrompe em nossa vida e a quem as vézcs
o homem tenta resistir. A propósito vém as palavras do Cardeal
Daniélou :

«Faeo a experiencia de que Ele (Deus) existe, porque me esbarro


contra file. Se eu O tivesse fabricado, té-lo-ia, por certo, fabricado
de maneira bem diversa. Mas vejo-me obrigado a me adaptar a Ele...
As coisas sao assism, e é preciso que eu as aceite. Assim tomo cons-
ciencia de que estou na presenga de algo de real, e nao de uma
criacáo da minha imaginacáo ou da minha sensibilidade* («Scanda-
leuse Venté», p. 93).

Muito válido é também o depoimento de Paúl Claudel, o


grande poeta Gonvertido ao Cristianismo :

«Essa minha resistencia (a Deus) durou quatro anos. Ouso dizer


que me defendí heroicamente e que a luta foi leal e completa. Nada
omití. Usei de todos os recursos e tive de abandonar, urna após outra,
as armas que de nada serviam. Essa foi a grande crise da minha
existencia, a agonia do pensamento, a respeito da qual Artur Rimbaud
escreveu: 'O combate espiritual é tao brutal quanto a batalha entre
homens. Duna noite!'» («Ma conversión»).

Vé-se, pois, que seria gratuito afirmar que Deus nao é


senáo a vá expressáo da sofreguidáo do homem, expressáo á
qual nada corresponde de objetivo. Seja lícito lembrar : nao
DEUS EXISTE? 23

há agulha magnética agitada sem polo Norte ; nem há maré


cheia e encapelada sem Lúa que atraía as aguas.

2. Objeta-se também : os homens tém sede de justica e


feliddade perfeitas. — Podem estar seguros de que estas
ocorreráo em tempos futuros. Todavía nao se diga que cada
individuo ou eu e tu encontraremos a resposta as nossas as-
piragóes. É sómente ao género humano como tal ou as gera-
góes vindouras que tocará viver a ordem perfeita sobre a térra.

— Tal é a mensagem do marxismo. Éste professa otimismo


em relacáo ao porvir da humanidade. Julga, porém, que o in
dividuo que hoje luta, poderá deixar de colhér o fruto de suas
fadigas. Desta forma, o marxismo reduz o homem á condigáo
de carvao a ser langado na grande locomotiva da historia e
da humanidade. Tal solugáo deixa naturalmente insatisfeita a
sá razio. Esta exige que cada personalidade seja devidaniente
levada em conta. O género humano nao é simplesmente o
«homem coletivo», mas é urna grande familia, que consta ne-
cessáriamente de cada um de seus membros e de todos éles.

4. Conclusoo

1. Refletindo sobre si mesmo, o homem entrevé um mis


terio que, em última análise, nao é senáo a marca de Deus,
o Bem Infinito. Em oonseqüéncia, afirmar que Deus existe
vem a ser atitude altamente razoável e sabia. Dizia o filósofo
Pascal (t 1662) : «O último passo da razáo consiste em reco-
nhecer que há urna infinidade de coisas que a transcendem.
A razáo seria extremamente débil, se ela nao chegasse a re-
conhecer isso». Do seu modo, Shakespeare insinúa o mesmo,
quando atribuí a um personagem do seu «Hamlet» a segumte
afirmagáo : «Há muita coisa no céu e na térra, Horacio, que
a tua filosofía está longe de imaginar» (I 5).

Em outras palavras : a razáo humana se vé diante de


um dilema :

— ou adere ao misterio, reconhecendo Deus e a vida


postuma,

— ou cai no absurdo, caso afirme que a vida presente e


o homem sao interrogacóes sem resposta ou sem explicagáo.

É necessário, porém, que os homens de fé, tendo desco-


berto Deus através de si mesmos, evitem fazer caricaturas de

— 383 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 2

Deus, ou seja, evitem conceber Deus á semelhanga, por exem-


plo, de um Grande Banqueiro ou de um Papai Bonacháo. Tais
conceitos imperfeitos ou antropomórficos redundariam em con-
tratestemunho ou dificultaciam a muitos homens a descoberta
da verdadeira face de Deus.

2. Para terminar, seguem-se aqui dois interessantes de-


poimentos de pessoas que, considerando auténticas testemunhas
de Deus, mais fácilmente se elevaram Áquele que é Principio
e Fim de todos:

a) O P. Aimé Duval S. J., famoso compositor de cangóes


religiosas populares, era filho de camponeses dos montes Vosges
(Franca). Recorda nos seguintes termos a oragáo que todas
as noites se fazia em familia :

«O que hoje me comove, é lembrar-me da atitude de meu pai.


Ele, que nao tinha vergonha de mostrar-se cansado ao voltar do tra
balho, depots da ceia ajoelhava-se, colocando a cabeca ñas máos, com
os cotovelos apoiados etn urna cadeira, sem voltar o olhar para os
filhos que o cercavam, sem se mover, sem tossir, sem um gesto de
impaciencia. Entáo pensava eu: 'Meu pai, que é táo .forte, que dirige
a casa, que se conserva intrépido ñas adversidades e tao pouco tímido
diante... dos maus, eis que diante de Deus ele se torna pequenino,
pequenino. Com efeito, o Jalar com Deus transíorma-o. O bom Deus
deve realmente ser alguém muito grande para íazer que meu pai se
ajoelhe!... Quanto á minha mae, ... pensava eu: 'Na verdade, o
bom Deus deve ser muito bondoso, já que se lhe pode íalar com
urna erianca nos bracos e com um avental de trabalho...' Das máos
de meu pai, dos labios de minha máe aprendí, a respeito do bom
Deus, muito mais do que no catecismo, file é alguém. É alguém
muito próximo a nos. Só se fala bem com file depois que se termina
o trabalho».

No caso, o espirito e a prática da oragáo, num lar pro


fundamente cristáo, tornaram-se, para o coracáo do menino,
auténtico sinal da presenga de Deus.
b) Outro testemunho notável é o de um dos últimos
arcebispos de París, Mons. Veuillot, que, entrevistado pelo
repórter de «France Dimanche» a respeito das provas da exis
tencia de Deus, declarou o seguinte :

«Quanto mais olho e procuro compreender o mundo, mais me


asseguro da existencia de Deus. Para mim, há algumas vidas de
homens que nao se podem explicar sem Deus. Muitos sacerdotes com
quem trabalho, jovens ou velhos, sao como que transparentes do
Deus. A sua alegría, o seu espirito fraterno, o cotidiano dom de si
mesmos, também os seus sofrimentos, tudo isto é para mim como
que o sinal tangivel da presenca e da acáo de Deus... Conheco pais
e máes de familia cuja existencia fol marcada pela provaca o e cuja
oracüo está cheia de perdáo: toda a sua vida clama, para mim, que

— 384 —
. COMUNIDADES DE BASE 25

Deus está com éles... Cora outras palavras: na vida cotidiana, é o


homem que para mim se torna prova da existencia de Deus. No
homem, frágil como é, por vézes incrédulo, freqüentemente pecador,
há como que sinais do Absoluto».

Tal depoimento dispensa comentarios.

Na elaboragáo déste artigo, valemo-nos principalmente de


ConstituicSo «Gaudium et Spes» n* 1-22, do Concilio do Vaticano II.
J. Javaux, «Rrouver Dieu?». Tournai 1967.
«Ensemble. Fiches de culture religieuse, par Pierre Dentin et une
equipe d'aumóniers», n* 4 («L'existence de Dieu, le mal»); n' 3 («De
l'athéisme á la foi»). Amiens 1947.
P. Thivollier, «Deus existe... Resposta do homem», em «Falar
claro» n» 3. Lisboa 1957.

III. PASTORAL

3) «Que sao as 'comunidades de base', de que tanto se


fala na pastoral moderna ?»

Resumo da resposta: Por «comunidades de base» dentro da Igre-


ja entendem-se grupos de fiéis católicos que desejam viver a sua vida
crista de maneira mais consciente e profunda. A Igreja, Gorpo Mis-
tico de Cristo, é, sem dúvida, a grande comunidade dos discípulos de
Cristo; Ela se divide administrativamente em dioceses e paróquias.
Todavía ñas paróquias modernas, que geralmente constam de milha-
res de fiéis, é impossivel haver entre estes um relacionamento pri
mario e pessoal; éste supoe sempre pequeños grupos. Dai o desejo,
expresso pelo Concilio do Vaticano II e corroborado pelos bispos da
América Latina reunidos em Medellln (Colombia) em 1968, de que se
constituam «comunidades eclesiais de base». Estas nao devem ser
«igrejinhas» nem paróquias dentro da paróquia. mas células vivas,
postas em contato com todo o organismo da S. Igreja e cada urna
das instituicñes desta. O número de membros de urna CEB nao deve
normalmente ultrapassar a cifra de vinte; déstes escolher-se-á um
lider que tenha qualidades de chefia e boa formacáo religiosa; será
assistido por um Secretario e um Tesoureiro; é para desejar que cada
CEB tenha também o seu assistente eclesiástico. O grupo deve reu-
nir-se regularmente para celebrar o culto divino, máxime a S. Euca
ristía (sem a qual nao há vida crista plena), para aprofundar sua
formacSo religiosa e estudar o respectivo programa de apostolado.

Resposta: A n Assembléia Geral do Episcopado Latino-


-Americano, reunida em Medellin (Colombia), nos meses de

— 385 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 3

agosto e setembro de 1968, promulgou em seu documento


final as seguintes recomendac.5es :

«4. Procurar a formacáo do maior número posslvel de comuni


dades ecleslais ñas paróquías, especialmente rurals ou de marginall-
zados urbanos. Estas comunidades devem basear-se na Palavra de
Deus e realizar-se, enquanto possivel, na celebracáo eucaristica, sem-
pre em comunháo e sob a dependencia do Bispo.
5. A comunidade se formará na medida em que seus membros
tiverem um sentido de pertenca que os leve a ser solidarios mima
missáo comum, numa participagáo ativa. consciente e frutuosa na
vida litúrgica e na convivencia comunitaria. Para isso, é necessário
fazé-los viver como comunidade, inculcando-Uies um objetivo comum:
alcancar a salvagao mediante a vivencia da fé e do amor.
6. Para a necessária formacáo dessas comunidades, fazer entrar
em vigor, quanto antes, o diaconato permanente e chamar a urna
participacáo mais ativa os Religiosos, as Religiosas e os leigos» (trans
crito de «SEDOCx. novembro 1968, col. 701s).

Estes incisos preconizam a formacáo do que, com outros


termos, se chama «comunidades eclesiais de base» (CEB).
Estas sao genuinamente inspiradas pela mente do Concilio do
Vaticano II, mente expressa nos decretos «Presbyterorum
Ordinis» n» 6, «Apostolicam Actuositatem», n« 10. 13. 18. 19,
«Ad Gentes» n' 15.
Afim de elucidar o assunto, proporemos abaixo: 1) o que
é urna comunidade eclesial de base (CEB), 2) como se origina
e desenvolve urna CEB.

1. Que é comunidade eclesial de base ?

Vejamos o significado de cada um dos termos que cons-


tituem a expressáo ácima.

1) Comunidade

Comunidade é um agrupamento humano originado e con


servado pela perspectiva de um bem comum a cultivar. Essa
perspectiva deve ser t&o viva que d§ ao agrupamento a cons-
ciéncia de ser urna pessoa moral ou um nos. O bem comum,
no caso, pode ser parentesco ou afinidade de sangue, profissio,
territorio de habitacáo, interésses culturáis, políticos, assisten-
ciais, religiosos, esportivos.

É de frisar bem que os agrupamentos humanos se tornam


realmente comunidades, quando — e sómente quando — os

— 386 —
COMUNIDADES DE BASE 27

respectivos membros se relacionam pessoalmente entre si e


se sentem responsáveis pelo bem do conjunto.. Cada qual deve,
numa comunidade, interessar-se por quantos fazem parte do
grupo, nao apenas na medida em que exercem fungóes no grupo,
mas enquanto sao pessoas humanas dotadas de nome, de aspi-
racóes, de historia e de problemas próprios. Tais elementos
devem ser, de certo modo, compartilhados numa comunidade;
cada um ai deve amar e sentir-se amado. Nao se pode dar o
nome de «comunidade» a urna sociedade cujos membros sim-
plesmente se justaponham um ao lado do outro e se preo-
cupem apenas com o papel que cada um deve desempenhar.

Era linguagem técnica e simples, dir-seá: os membros de urna


comunidade estáo unidos entre si por um relacionamento primario,
e nao apenas por relacionamento secundario.
Relacionamento primario é aquéle que atinge as personalidades
como tais; todos entáo conhecem bem os traeos característicos uns
dos outros. e podem prestar válido auxilio mutuo.
Relacionamento secundario, ao invés, é o que atinge as pessoas
apenas na medida em que desempenham determinada funcao; básela-
-se únicamente em aspectos acidentais das personalidades. É o que
ocorre, por exemplo, quando passageiro e motorista se associam du
rante um trajeto de taxi; o passageiro geralmente nao interroga
o motorista sdbre familia, saúde ou economía, mas apenas se inte-
ressa por chegar devidamente ao termo da vlagem sem pagar preco
injusto!

Eis, sumariamente, o que se entende por «comunidade».


Agora passemos á expressáo

2) ... de base

A expressáo «comunidade de base» pertence originaria


mente ao vocabulario da acáo social. Designa urna comunidade
de pessoas simples e pobres que desejam promover seus inte-
résses de maneira solidaria, sem depender das chamadas
«cúpulas» ou de pessoas, autoridades ou partidos, cuja inter-
vengáo lhes possa ser mais nociva do que benéfica.

A designagáo «comunidade de base» passou últimamente


para o vocabulario religioso cristáo. Fala-se, hoje em dia, de
«comunidade eclesial de base», partindo-se naturalmente de
premissas diferentes daquelas que inspiram o conceito de
«comunidade de base» no plano sócio-econ6mico. Indaguemos,
pois, o que vem a ser urna comunidade de base...

— 387 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 3

3} ... eclesial

Á Igreja, esparsa pelo mundo inteiro, cabe o apelativo de


«comunidades na medida em que todos os seus membros se
relackmam entre si como partes de um Corpo Místico — o
Corpo de Cristo (cf. Rom 12,1; 1 Cor 12). No plano sobre
natural, a mesma vida, derivada de Cristo Cabega, flui em
todos os fiéis batizados ; existe urna comunháo de bens ou de
coisas santas entre todos os membros da Igreja ; há também
entre éles a aspiragáo comum a viver a Redengáo na caridade.
A comunháo existente entre os fiéis do mundo inteiro é
ontológica, sim, mas é difícilmente experimentada no plano
psicológico'; nenhum cristáo conhece todos os seus irmáos na
fé, membros da mesma Santa Igreja, de modo a relacionar-se
conscientemente com cada um, dedicando-lhe concretamente
a devida caridade.
Verdade é que a Igreja universal se divide (no plano admi
nistrativo) em dioceses, e cada diocese em paróquias. Estas
representam, até hoje, a célula mínima da organizagáo da
Igreja. As paróquias tém estensáo e populacho variadas, sendo
algumas relativamente pequeñas, ao passo que outras sao de
grandes proporgóes. Todavía em nossos 'dias, mormente no
Brasil, as paróquias tém geralmente seus milhares de habi
tantes ; ora entre táo grande número de individuos é difícil,
se nao impossível, existirem relagóes própriamente pessoais ;
os paroquianos muitas vézes nao se conhecem uns aos outros ;
também pouco contato tém com o respectivo pároco, de
modo que nao podem desempenhar em comum sua missáo de
membros da paróquia. Em tais condigóes, nao vivem o espi
rito de comunidade, justamente porque esta é demasiado
grande.

Verifica-se também que os fiéis hoje, embora tenham seu domi


cilio fixo e pertencam jurídicamente a determinada paróquia, nao
vlvem no territorio paroquial respectivo: habitam neste, sim, mas
trabalham alhures, por vézes a grande distancia, e passam seus laze-
res ou fins de semana ainda em outro territorio; desta forma con-
traem relagOes humanas mals estreitas em outros ambientes que nao
o de sua residencia.
Qucnto ás paróquias rurais em particular, verifica-se que a res
pectiva populagao tende a se evadir constantemente para as cidades
— o que torna por vézes difícil o surto e a canservacáo do espirito
comunitario.

Nos casos até aqui apontados, os fiéis vivem a sua vida


crista mais ou menos isoladamente, o que favorece o indivi-

— 388 —
COMUNIDADES DE BASE 29

dualismo, atenúa néles a consciéncia «eclesial» ou «de mem-


bros da Igreja» e debilita o vigor do testemunho cristáo que
devem dar ao mundo.

Para remediar a estes males, tém sido propostas solucóes


diversas:

subdividir as paróquias, criándose nelas cápelas esparsas sob


a dependencia da igreja matriz; cada cápela seria o ponto de conver
gencia de determinado grupo de habitantes;

— delimitar as paróquias de novo modo;

— instituir paróquias pessoais, ou seja, paróquias definidas pelas


pessoas que as comp6em (estudantes, operarios, militares, médicos...),
independentemente dos limites de algum territorio.

Cada urna dessas solugóes pode ser válida em dadas cir


cunstancias. Pode-se, porém, e deve-se, acrescentar-lhes a fun-
dagáo de comunidades eclesiais de base. Estas constituem, den
tro da paróquia, agrupamentos pequeños, cujos membros sao
vinculados entre si por um reladonamento primario (no sen
tido exposto á pág. 27 [387]) e experimentan! vivamente a
consciéncia de ser membros de um só corpo. Assim empe-
nham-se comunitariamente por aprofundar sua formacjio crista,
orar e participar da Liturgia, e irradiar no mundo a vida crista.

Ve-se que, no caso, a expressáo «de base» está longe de


se opor a «cúpula» ou, sem metáfora, a «autoridades e hierar-
quia da Igreja». O aposto «de base» significa apenas que se
trata da mínima porgáo da Igreja-comunidade, ao passo que
a maior expressáo da Igreja-comunidade é a Igreja universal.
As comunidades eclesiais de base cultivam em si um profundo
senso de Igreja ; amam, em genuino espirito de fé, a Igreja
universal e os seus representantes hierárquicos, com os quais
desejam ter comunháo e, na medida do possível, colaboracjáo.
«Comunidade de base» nao é «igrejinha» separada ou grupo
fechado; também nao constituí urna élite crista, mas apenas
um grupo que, com humildade e caridade, procura as condieóes
mais oportunas para urna vivencia crista integral; ésse grupo
será servical, será também célula viva posta em comunháo
com outras células vivas dentro da paróquia, da diocese e da
Igreja universal.

— 389 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 3

Impóe-se agora a questáo relativa a

2. FundagSo e funcíonamento de urna CEB

1) Fundasáo de urna CEB

Eis o que se pode dizer a respeito :

a) Parece evidente que, para se constituirem comunida


des de base, é necessário antes do mais despertar a consciéncia
do povo de Deus, ou seja, do clero e dos fiéis para tal valor.
A comunidade de base é essencialmente fruto de urna reno
vada concepeáo de Igreja ou da nogáo de que os cristáos re-
nascem e se santificam no Corpo de Cristo; a piedade e o
apostolado dos discípulos de Cristo devem ter urna forte nota
comunitaria ou eclesial. «Pulsar com a Igreja» e, mais ainda,
«viver a Igreja», «viver o misterio da Igreja», eis o programa
de todo cristáo bem formado.

Tal despertar de consciéncia pódese lazer de varios modos, prin


cipalmente por meio de palestras e cursos que tenham por objeto a
«volta as fon tes», ou seja, a assimilacáo da visáo teológica proposta
pela Biblia, pela Liturgia e pelos Padres (antigos escritores) da
Igreja, fontes das quais se nutriu abundantemente o Concilio do
Vaticano n.

b) O fundador da comunidade de base pode ser o pároco


local ou outro sacerdote ou um Religioso, urna Religiosa, ou
ainda um leigo. Tal pessoa deverá ter fé viva, comprovada por
digna conduta de vida, apurado senso eclesial e comunitario.
Isto, porém, nao basta ; é necessário que possua também o
dom da lideranga. Há, na verdade, individuos naturalmente
capacitados para encabecar movimentos e dinamizar grupos ;
quando fórem pessoas de fé e bons costumes, sejam preferen-
cialmente escolhidos para dar inicio a urna CEB.

Além de suas aptidñes sobrenaturais e naturais, o responsável


por uma CEB deve ter também algum estudo (proporcional ao papel
que deve desenvolver) e, por íim, certo conhecimento da técnica de
lideranga e da dinámica de grupo. Ao exercer a lideranca, o dirigente
da CEB deve interessar-se por desoobrir outros líderes no respectivo
grupo e promover a sua formacáo; é preciso obter que cada membro
se sinta .responsável dentro da comunidade e dé ao conjunto toda a
partielpacao e colaborado de que seja capaz; algumas pessoas na
CEB devem estar habilitadas a exercer a lideranca por rodízio.
Há casos em que a direcáo da CEB é, com vantagem. assumida
por um casal; a constituicáo mesma do grupo pode sugerir tal tipo
de lideranca (tenham-se em vista as equipes de Nossa Senhora).

— 390 —
COMUNIDADES DE BASE 31

c) fl claro que nao se deve empreender a fundagáo de


alguma CEB sem a aprovagáo e possível colaboragáo do res
pectivo pároco, a fím de que nao se quebré a unidade da pa
róquia (CEB nao é paróquia dentro de paróquia).

d) Os criterios para reunir pessoas diversas em urna CEB


podem ser geográficos, ambientáis (meio de vida ou profissáo)
ou opcionais. Conseqüentemente, pode haver

— comunidades com base geográfica: congregam pessoas


que habitam no mesmo bairro, no mesmo edificio, no mesmo
sitio, na mesma fazenda, no mesmo distrito ;

— comunidades com base ambiental: reunem pessoas que


vivem no mesmo meio social ou exercem a mesma profissáo
(estudantes, operarios, técnicos...), sem se levar em conta
o lugar onde residem ;
— comunidade com base opcional: constam de pessoas
atraídas por um interésse comum, religioso e apostólico, livre-
mente abracado, e provenientes de territorios diversos.

Requer-se que dentro de cada CEB haja certa homoge-


neidade social, de modo que numa paróquia heterogénea (por
seu tipo de habitantes) deveráo existir varias comunidades de
base. É o que se dá principalmente com as paróquias das
grandes cidades, onde os modos como os homens se relacio-
nam entre si sao muito variados.

Onde há grupos já formados por objetivos de apostolado ou de


formacao crista (como, por exemplo, um «praesidium» da Legiáo de
Maria, urna célula da Juventude Agraria Católica, urna equipe de
casáis de Nossa Senhora ou do Movimento Familiar Cristáo ou um
grupo de cursilhistas...), tais grupos podem tornar-se pontos de
partida para a constituicáo de comunidades de base: sem perder algo
de seus objetivos anteriores, aos poucos tais agrupamentos podem
assumir urna conscléncia aínda mals profunda de que sao células da
Santa Igreja, células que devem viver táo perfeitamente quanto pos-
sfvel o ideal do Carpo de Cristo realizado na Igreja universal, na
diocese e na paróquia.
As vézes, para se fundar urna comunidade eclesial de base em
ambientes simples ou despreparados, é necessário comecar por des
pertar nos homens a conscléncia comunitaria. É éste um valor que
freqüentemente falta, mormente onde há pouca cultura; por conse-
guinte, em zona rural pode-se iniciar a formacáo da mentalidade
suscitando urna obra de auto-promocao: construcáo de um melhora-
mento, ou organizacáo de um núcleo de artesanato em que todos os
interessados colaborem.

e) O número de membros de urna CEB nao deve ser


superior a vinte, pois, em caso contrario, difícilmente há ver-

— 391 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 3

dadeiro relacionamento interpessoal. Isto nao quer dizer que


a CEB nao possa ter em torno de si um círculo de pessoas mais
chegadas ao grupo, pessoas talvez em fase de conversáo, que
usufruiráo do catecumenato ou dos beneficios ministrados
pela CEB, até que um dia se possam integrar na paróquia ou
constituir nova comunidade de base.
Deve-se frisar que a CEB há de se precaver sempre contra
o espirito de «igrejinha»; ela tenderá, antes, a atingir novos
o novos elementos do meio em que vive.

2) Funcionamenlo de urna CEB

a) Toda comunidade de base deve ter suas reunioes


periódicas (semanais ou quinzenais), a fim de revigorar a
consciéncia de sua razáo de ser e de sua missáo. Essas reu
nioes teráo em vista precisamente :

celebrar o culto sagrado: oragdes comunitarias e, principal


mente, a S. Eucaristía. Esta pode ser celebrada sem dificuldade caso
a CEB tenha um sacerdote (o pároco local ou outro) como coorde
nador, presidente ou assistente (é, de resto, para desejar que toda
CEB tenha seu assistente eclesiástico). A liturgia da palavra (leitu-
ras, homilía...) pode ser assegurada por um diácono, quicá perten-
cente á própria CEB. É em torno da mesa eucaristica que se corro
bora e exerce por excelencia a consciéncia de que, «embora muitos,
somos um só corpo, pois participamos de um só pao» (1 Cor 10, 17).
Urna comunidade eclesial de base sem freqüentagáo da S. Eucaristía
estaría destituida da principal fonte de sua vitalidade.
Tenha-se em vista a declarado dos Bispos latino-americanos pu
blicada em Medellin (Colombia) em setembro de 1968:
«De acordó com a vontade de Deus, os homens devem santificar
se e salvar-se nao individualmente, mas constituidos em comunidade
(cf. LG n» 9; GS n' 32). Esta comunidade é convocada e congregada
em primeiro lugar pelo anuncio da Palavra de Deus vivo (cf. «Pres-
byterorum Ordinis» n« 2 e 4). 'Nao se edificará, no entanto, urna
comunidade crista, se ela nao tiver por raiz e centro a celebragáo
da Santissima Eucaristía' (PO n* 6), mediante a qual a Igreja vive
e cresce continuamente (cf. LG n« 26)» (transcrito de SEDOC, novem-
bro de 1968, col. 700s).
— cultivar a té mediante estudo e reflexáo. Em nossos días mais
do que nunca, requer-se que todo fiel possua o nítido conhecimento
das verdades que ele professa em seu Credo; por isto, o estudo em
seus diversos gnaus torna-se necessário a todos aqueles que o possam
realizar. Quem mais conhece as verdades referentes a Deus e ao
designio de salvagáo dos homens, mais habilitado está para assumir
um comportamento auténticamente cristao.
— pla/nejar a sua ac3o... acao apostólica e agao social. A CEB
há de ser fermento na massa; procurará, pois, conceber objetivos a
alcancar, planos a executar, e nao deixará de instituir periódicamente
sua revisáo de vida e de acáo.

— 392 —
CASTIDADE PR&-MATRIMONIAL. 33

b) Para dinamizar a CEB, requerem-se, além do Diri


gente principal (leigo, Religioso ou presbítero), um Secretario
e um Tesoureiro; estes tres oficiáis juntos integram o Con-
selho da comunidade eclesial de base.

A CEB pode ter outrossim suas equipes destinadas a tareías e


servigos diversos; com efeito, o culto, o estudo e a acáo podem exigir
que determinados membros da comunidade se encarreguem especial
mente de preparar e orientar tais atividades.
As equipes especializadas de urna CEB podem coardenar-se com
as equipes congéneres de outra CEB, a fim de obter maior eficiencia
em seus empreendimentos.

Em suma, as comunidades de base sao urna das genuínas


expressóes da vida da Igreja em nossos dias ; derivam-se de
nova tomada de consciéncia de urna verdade capital, a saber:
ser cristáo é ser membro vivo e atuante de um Grande Corpo.
Consciente disto, o discípulo de Cristo procura noje em dia
o quadro oportuno em que ele possa viver essa realidade até
as últimas conseqüéncias e dar assim marcante testemunho
do Cristo !

Bibliografía:

José Marins, «A comunidade eclesial de base». Súo Paulo 1967.


ídem, «Diaconato e Comunidade de bases. Sao Paulo 1968.
Raimundo Caramuru de Barros, «Comunidade eclesial de base:
urna opeáo pastoral decisiva». Petrópolis 1967.
G. J. Deelen, «Pode a paróquia urbana ser urna comunidade?>,
em REB 1966, pp, 49-59.
Secretariado Leste-1 da CNBB, «Igreja e comunidades eclesiais de
base», 1969.

IV. MORAL

4) «É recomendável ou, ao menos, possível a castidade


anterior ao casamento ? Nao será nociva á saúde ?»

Resumo da resposta: Éste artigo apresenta observares de índole


biológica e psicológica, corroboradas por testemunhos de médicos e
educadores, visando evidenciar a necessidade de se observar a conti
nencia pré-nupciaL A düiculdade que nao poucos jovens encontram
para se manter castos, provém, em grande parte, das influencias ou
das sugest6es do ambiente em que vivem; a sugestáo cria a necessi
dade. E, pois, para desejar que país e educadores colaborem para
despertar na juventude a consciéncia do grande valor da continencia

— 393 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 117/1969, qu. 4

pré-matrimonial; a saúde física, psíquica e moral dos educandos está


em jógo.
X

Resposta : Até nossos días, tém profunda repercussáo as


palavras de Anatole France (f 1924): «Nao há castos. Há
hipócritas. Há doentes. Há maniacos. Há loucos... Sem a sen-
sualidade nao existe a sensibilidade, nao existe alma... Quanto
mais voluptuosos formos, tanto mais inteligentes seremos !>

Em virtude destas concepgóes, é freqüente dizer-se em


nossos tempos que os jovens precisam de fazer experiencias
sexuais anteriormente ao matrimonio, a fim de evitarem males
físicos e psíquicos que a continencia lhes poderia acarretar.
Médicos e orientadores o recomendam tranquilamente; nem
sempre, porém, os resultados assim obtidos sao positivos e be
néficos para os jovens e para a sociedade. É o que nos leva a
reconsiderar o assunto ñas páginas seguintes, onde examina
remos tres pontos: 1) que é a castidade ? 2) os ditames da
medicina, 3) objegóes contra a castidade.

O presente artigo retoma, após a devida revisáo e complementa-


cao, o que já foi dito em «P.R.» 36/196», pág. 506-514.

I. Que é a castkfacfe ?

1. Castidade é p hábito que assegura a. alma o dominio


sobre os prazeres sexuais.

As fungóes sexuais tém, anexo a si, um deleite natural,


instituido pelo Criador a fím de facilitar ao homem o exercido
da procriagáo. Tal deleite, porém, é mero elemento concomi
tante do ato sexual, cuja finalidade própriamente dita é a
prole. Por conseguinte, nao é lícito ao ser humano usufruir do
deleite sexual senáo dentro do matrimonio. Com efeito, o
matrimonio é a instituigáo natural destinada á procriagáo da
especie.

O principio segundo o qual o ato sexual so é licito dentro do


matrimonio, entende-se bem pelo lato de que a func3o dos genitores
nao se reduz a colocar mais um ser vivo no mundo; quem gera,
assume também a tárela de educar. — Ora a educagao só é posslvel
nos termos devidos, se há colaboracáo de pal e máe num consorcio
de vida estável, que é o matrimonio.
Além disto, ohserve-se que a doacao Intima que a criatura faz
de si ao entrar em relacoes sexuais, nao é própriamente humana se
é meramente carnal; a fiuicüo sexual, no ser humano, só se exerce
normalmente se é precedida e acompanhada pelo amor, ou seja, por

— 394 —
CASTÍDADE PRÉ-MATKIMONIAL 35

urna doacáo psíquica. Donde se vé que a cópula humana supSe e


exige doacao total da personalidade do varáo á da mulher e vice-
-versa; ora essa doacao total (que naturalmente há de durar a vida
inteira) só se realiza na vida conjugal selada por auténtico contrato
matrimonial.

2. Distinguem-se duas especies de castídade : a castí


dade perfeita e a castidade comum.
A castídade perMta consiste na abstencáo completa das
fungóos sexuais, sejam estas realizadas com outra pessoa,
sejam provocadas pelo individuo consigo mesmo (masturba-
cáo). É também chamada «continencia perfeita»; deve carac
terizar o género de vida das pessoas nao casadas, quer sim-
plesmente solteiras, quer viúvas.
A castidade comum caracteriza o estado conjugal. Nao
excluí o uso da sexualidade entre esposo e esposa. Implica,
porém, renuncia a todo deleite sexual que nao admita ou ex-
dua a possibilidade de procríacáo (o que se dá quando há rea-
lizacáo incompleta do ato sexual ou recurso a anticoncepcio-
nais) ou nao se concilie com alguma das prerrogativas do ma
trimonio (monogamia e indissolubilidade).

Está claro que a castidade nao se restringe apenas ao corpo


humano; nao é mera integridade ou retidao física (em tal caso, seria
apenas continencia corporal). A castidade se estende também aos pen-
samentos, a todas as afeicCes e intene&es do coracáo humano, fa-
zendo que se afastem de objetos indevidos. É muito difícil a alguém
sustentar a castidade física se essa pessoa nao domina asslduamente
os seus pensamentos e afetos; dada a Índole psicossomática do ser
humano, pensamentos e afetos lascivos excitam naturalmente a carne,
provocando a procura de deleite sensivel.
A castidade nio é algo de meramente negativo; nao é mera
renuncia nem oposicáo, mas constituí a adesáo mais plena da cria
tura humana ao Criador e aos seus sabios designios; possibilita ser-
vico e doacao ao próximo com maior generosidade — o que redunda
em verdadeiro enriquecimento da personalidade casta, como adianto
se dirá.

Perguntamo-nos agora :

2. E a Medicina. .. que diz ?

Antes do mais, sejam propostas

1) Observa$5es fisiológicas

A medida que o organismo do jovem e da jovem se vai


desenvolvendo, os órgáos genitais se váo tornando aptos para

— 395 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 4

realizar a sua fungáo. Desperta-se entáo a tendencia sexual


no adolescente. Ésse despertar é paulatino; as aspiragóes daí
decorrentes nao sao tais que se lhes deva dar satisfagáo ime-
diata ; nao sao a tal ponto imperiosas. Ao contrario, em vista
do equilibrio físico e psíquico da personalidade, tais aspiragóes
háo de ser devidamente reprimidas até que o individuo tenha
atingido a maturidade de corpo e alma necessária para poder
contrair uniáo matrimonial. Esta coibigáo é necessária e salutar
por mais de um motivo:

1) enquanto o organismo humano se está desenvolvendo,


ele armazena fórgas que deverá despender mais tarde ; nao
deve, portante, exercer alguma de suas fungóes vitáis antes
de estar plenamente habilitado para isso.

Tal norma se aplica de maneira especial á fungáo de


reprodugáo. Esta, mais acentuadamente do que qualquer outra,
passa por urna curva de ascensáo ou desenvolvimento, apogeu
e declínio. O período de desenvolvimento, que comega já antes
dos quinze anos de idade, é justamente aquéle em que se for-
mam os órgáos e se aperfeigoam as faculdades concernentes á
geragáo. É no período de apogeu que o individuo pode usufruir
naturalmente do potencial de energía e vitalidade preparado
durante o seu desenvolvimento. Se, porém, desde o desabrochar
do atrativo sexual, o jovem comega a usar de suas fungóes
genitais, nao pode deixar de experimentar funestas eonse-
qüéncias de tal abuso, pois as células só se reproduzem nor
malmente, quando hipemutridas ; entre tais lamentáveis con-
seqüéncias, assinala-se a debilitacáo geral da saúde do jovem,
o aparecimiento de doengas venéreas, de descalcifícagáo (a eja-
culagáo acarreta sempre notável perda de calcio), de psicas-
tenias ou molestias nervosas com todo o cortejo de males que
a isto se prende; tal abuso pode mesmo acarretar a morte
precoce.

«O uso prematuro dos órgáos genitais, diz Hufeland, é o meUior


e o mais seguro meio de inocularse a velhice. Com eíeito, se, para
gozar dos prazeres venéreos, nao se espera o completo desenvolvi
mento do corpo, o crescimento déste estaciona, e o individuo expóe-se
a tornar a descer a rampa antes de a ter subido por completo. Com
vinte anos, as faculdades oomecam a alterar-se, as enfermidades apa-
recem e, dez anos mais tarde, oferece-se o aspecto repelente de urna
decrepitude prematura» (texto citado pelo Dr. Mario Alcántara de
Vilhena, em «Da continencia e seu fator eugénico». Rio 1921, p. 74).

Dir-se-á : mas o fato de que o adolescente por volta dos


quinze ou dezesseis anos está apto para fecundar um óvulo
feminino nao deve ser interpretado como licenga concedida

— 396 —
CASTIDADE PRÉ-MATRIMONIAL 37

pela natureza mesma para o exercício de tal fungáo ? — Res-


ponder-se-á que nao ; tal fenómeno fisiológico de modo nenhum
significa que o jovem, na referida idade, esteja apto para assu-
mir as responsabilidades e o pesado encargo de construtor de
um lar ; equivale apenas a urna etapa percorrida pela natureza
em demanda da completa e formal virilidade. Conforme alguns
autores, a natureza leva oito ou dez anos para fazer de um
rapaz um homem apto a exercer as suas fungóes sexuais até
as últimas conseqüéncias acarretadas por estas.

Damos aqui a palavra mais urna vez a um médico, o Dr.


Mario de Vilhena :

«Do poder um individuo usar de seus órgáos genltais antes de


os ter maduros e completos, nao se segué... que já o deva ou que
já lno convenha fazer, da mesma forma que um automóvel cujo reser-
vatório requeira sessenta litros de gasolina, poderá andar com um
litro apenas, mas isto nao convém.
Eis um dos mais funestos fatos para o desenvolvimento do indi
viduo. As excltacfies ficticias e anormais que nao tém na sua fonte
a maturidade funcional dos órgáos, produzem..., em virture déstes
abusos ou déstes usos muito precoces, o estiolamento dos próprios
órgáos; os testículos estiolados, por sua vez. dáo produtos estiolados
e de má qualidade. O organismo assim tomado débil fornece gérmens
debéis; a progenie sofre com isto» (obra citada, p. 29s).

2) Sabe-se igualmente que as glándulas humanas fun-


cionam todas em estreita correlagáo entre si; em particular,
as que segregam os hormónios das fungóes genitais nao ser-
vem sómente a estas fungóes, mas beneficiam outras ativi-
dades do organismo humano. Em conseqüéncia, a abstengáo
da vida sexual permitirá que as glándulas hormónicas favore-
gam com mais intensidade outras fungóes vitáis do individuo.

«A endocrinología reconhece nos testículos a existencia de hor


mónios múltiplos, dos quais uns presidem ao desenvolvimento dos
caracteres sexuais e sao produzidos pela glándula intersticial, notada-
mente pelas células de Leudig, e outros, de que índependem os ca
racteres do sexo e que estimulam as trocas gerais de materia ou
trocas intimas do metabolismo orgánico, os quais tém origem na linha
seminal e ñas células de Sertoli.
Dir-se-ia que o testículo se desdobra em duas glándulas a se
compensarem fisiológicamente, a íalta de exercício de urna délas
devendo favorecer o revigoramento da funcáo da outra. A carencia
do exercicio da fungáo genética resultará benéfica á funcáo estimu
ladora da nutrigño geral» (Resposta ao 3' quesito da consulta feita
pela «Liga pela Moralidade», em margo de 1918).

Mais recentemente, o Dr. Joaquim Moreira da Fonjeca


perante urna assembléia de médicos asseverava :

— 397 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 4

«Nos casos de abstencáo sexual, as (secrecdes) endocrinas váo


estimular órgáos distantes, especialmente o sistema nervoso central,
dando-lhe tenacidade e vigor admiráveis. Assim se explica a geniali-
dade de tantos homens castos heroicos. De fato, no caso de plurali-
dáde de íuncOes do mesmo órgáo, o nao-uso de uma délas beneficia
a atividade das outras... Nao é o náo-funcionamento dos órgaos
sexuais, mas, sim, a extracáo déles, a causa da degenerescencia inte
lectual dos castrados» («O fato endocrinico e a continencia masculina»,
em «Atas do 1* Congresso Brasileiro de Médicos Católicos». SSo Paulo
1947, p. 275).

Nesta passagem, merece especial atencáo a referencia á


castracáo, ou seja, á mutilacáo do organismo que alguém possa
empreender a fim de se conservar casto. Tal recurso artifi
cial, como nota o Dr. Moreira da Fonseca, longe de ser bené
fico, acarreta verdadeiro detrimento para a personalidade, pois
a priva violentamente do concurso de uma fungáo que está
intimamente relacionada nao só com a reprodusáo, mas tam-
bém com as demais aüvidades psico-somáticas do paciente.

Eis aínda interessantes observacóes do Dr. Vilhena :

«A glándula genital tem incontestada influencia reguladora sobre


o desenvolvimento dos varios tecidos e sobre o crescimento de todo
o corpo. É o que nos provam as mais antigás observacóes fisiológicas
desde Borden, na segunda metade do século XVIII, até Bertoldo cm
1849, chegand'o a nossos dias...
A secrecáo gonadal influi poderosamente no desenvolvimento do
esqueleto, dos músculos, da gordura e no desenvolvimento dos caracte
res sexuais secundarios, além das proporeñes sexuais das varias partes
do esqueleto, tomando assim urna parte muito importante no determi-
nismo das formas externas do individuo...
As perturbaedes esqueléticas dos eunucos nos mostram a falta
que lhes faz a secrecáo gonadal...
Ora, levándose em conta o equilibrio existente entre a glándula
criptorroica e a externa testicular, podemos perceber o mal que cau
sará ao jovem o exercício precoce ou ¡moderado da glándula exócrina,
obligando assim a endocrina a trabalhar pelas duas. com evidente
prejuízo da sua acáo trófica e reguladora em idade táo perigosa.
Dai decorre naturalmente o beneficio da continencia sexual, que
permite o pleno desenvolvimento orgánico pelo eficaz e fisiológico
trabalho das glándulas» I «Liberdade sexual ou castidade?». Rio de
Janeiro 1950, pp. 216s).

Ao contrario da incontinencia, a castidade, facilitando a


concentracáo de energía ou de funcóes vitáis, permite mais
intensa aplicacáo ao estudo ; permite também manifestacáo
mais lúcida da inteligencia do respectivo sujeito. O amor ou o
exercício da vontade se torna mais firme e puro em virtude
da continencia espontánea : «Aqueles que guardaram a cas-

— 398 —
CASTIDADE PRÉ-MATRIMONIAL 39

tidade, sao melhores maridos, melhores país do que os ou-


tros... A continencia proporciona urna reserva de fórgas. A
economía sexual favorece a longevidade e as diversas formas
da atívidade intelectual» (Ch. Feré,' «L'instinct sexuel: évolu-
tion et dissolution»). — Como insinúa éste depoimento, a con
tinencia vem a ser outrossim fator de robusteza para o corpo
mesmo do individuo : «O vigor físico que a continencia acarreta,
é aproveitado pelos atletas e desportistas. Sabido é que os lu-
tadores se conservam continentes, assim como... nos días de
encontró os jogadores de futebol se conservam sob um regula-
mento que Inés veda toda intemperanga. Também os boxistas
ingleses atuais sao submetidos, no período de peleja, a urna
dieta particular e & continencia sexual» (cf. Vilhena, ob. cit.
p. 106).

2) Consecuencias

Na base das consideragóes ácima, as autoridades médicas


tém-se repetidamente pronunciado em favor da continencia
anterior ao matrimonio.
Haja vista, por exemplo, urna das conclusóes do 1* Con-
gresso Brasileiro de Médicos Católicos realizado em Fortaleza,
de 1* a 7 de julho de 1946 :

<A continencia masculina até o matrimonio, mesmo quando apre


ciada exclusivamente sob o ponto de vista endocrínlco, deve ser pra-
ticada, porque dá em resultado maior desenvolvimento da glándula
intersticial e. daí maior atividade e vigor corporais e psíquicos»
líAtas», p. 277).

O Congrcsso de Eugenesia reunido no Rio de Janeiro em


1929, congregando numerosos médicos, juristas, educadores bra-
sileiros e estrangeiros, aprovou unánimemente a seguinte tese :

«É preciso ensinar á juventude masculina que nao sómente a


castidade e a continencia sao possiveis e nao sao nocivas, mas também
que estas virtudes sao as mais recomendáveis sob o ponto de vista
simplesmente médico e higiénico, e que constituem um importante
fator eugénico».

Com estas palavras, o Congresso de Eugenesia confirmava


a conclusáo já unánimemente aprovada em 1902 por 150 auto
ridades médicas (Drs. Gailleton, Landouzy, Lassar, Neisser...)
reunidas na Conferencia Internacional de Profilaxia Sanitaria
e Moral em Bruxelas, com a participagáo de quatorze nacóes.

— 399 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 4

Seja citado também o depoimento unánime da Conferencia


Nacional de Defesa contra a Sífilis, reunida no Rio de Janeiro
em 1940:

<Imp5e-se ensinar e divulgar por todas as formas que a prática


da continencia extra-conjugal é o meio mate seguro de profilaxia
anti-venérea, e nao acanreta em nenhum dos dois sexos, nem em
alguma idade, disturbios de saúde ou alterac5es de desenvolvimento
íisico e intelectual>.

Urna educagáo sexual completa, que procure orientar a


crianca para o matrimonio e que consiga impor aos jovens
urna continencia sexual perfeita, representa, sem dúvida al
guma, um dos mais valiosos meios de defesa contra a sífilis.

O Prof. Gowers, neurologista, escreveu em suas «Leituras


Lettsonianas» :

«Com toda a fórca que meus conhecimentos podem ter e com toda
a autoridade de que posso ser dotado, asseguro, como resultado de
larga observacáo de todas as classes, que nao há um homem ao qual
a incontinencia tenha trazido o menor beneficio; e — o que é mais —
que da continencia nao se derivam senáo salutares resultados para os
que a tém praticado».

O Prof. Gougerot, da Faculdade de Medicina de París,


distríbuiu aos soldados franceses um boletim oficialmente apro-
vado pelo Conselho Interaliado de Higiene Social realizado em
París em 1919, onde se liam os seguintes dizeres :

«O melhor meio de evitares os perigos venéreos é te absteres,


nao temendo que a continencia sexual te faca correr perigos. Nos te
afirmamos: ao contrario, ela te conservará tñdas as tuas ífircas».

A Faculdade de Medicina da Universidade de Cristiánia


(Noruega) publicou a seguinte declaracáo :

«A assercáo feita recentemente por diversas pessoas. e repetida


pelos jornais e nas assembléias públicas, de que urna vida normali
zada e urna continencia perfeita sao maléficas á saúde, é absoluta
mente falsa segundo a nossa experiencia, o que afirmamos unánime
mente. Nao conhecemos caso de molestia nem. especie de prejuizo que
possamos atribuir a urna conduta perfectamente puna c moralizada».

O Dr. Guchteneere, na sua obra sobre o «Birth Control»,


escreve :

«Médicos pouco escrupulosos corroboraram com sua autoridade


éste aforismo, táo espalhado no público, de que a castidade absoluta
é um perigo para o jovem. Na atualidade a opiniáo modificou-se
quase completamente. É já patrimonio dos médicos e mesmo do pú-
olico seleto crer que a continencia nao oíerece perigo algum, posto

— 400 —
CASTIDADE PRfi-MATRIMONIAL 41

que é a expressáo física de urna atitude moral. Porque a pretensa


necessidade sexual dos jovens íreqüentemente é criac.ao artificial de
seu sistema nervoso, submetido a repetidas excitacbes eróticas...
A continencia se torna fácil se se evita com solicitude a ocasiáo de
toda especie e sua voluntaria lembranca» (texto citado por Mario
Alcántara de Vilhena. em «Liberdade sexual ou castidade?», n. 232s).

2. A necessidade da continencia fora do estado matri


monial ainda pode ser ilustrada pela fisiología comparada ou
pelo que se dá na vida dos animáis irracionais.

Com efeito, nos irracionais os instintos nao se desviaram


e podem ser observados na sua pureza primitiva (excetuados
raros casos em que a domesticacáo haja radicalmente modifi
cado a sua conduta de vida). Ora o instinto sexual nos animáis
irracionais ficou sendo própria e realmente o instinto da re-
produgáo. Desde que a maturidade dos órgáos sexuais permita
a perpetuacáo da especie, macho e fémea se unem, em con-
dicóes, porém, bem determinadas, fora das quais toda ativi-
dade sexual no macho fica suspensa. Sim ; em certas épocas
do ano, as fémeas, tornando-se aptas para receber a sementé
masculina, produzem emanagóes odoríferas características;
assim avisado pelo sentido do olfato, <o macho se senté impelido
ao ato sexual, que ele nao poderia nem evitar nem adaptar a
algum fim que nao fósse a reprodugáo (o instinto é «correto»
e certeiro). Fora de tais ocasióes, o macho observa perfeita
continencia, sem prejuízo para a sua saúde física ou para a
sua capacidade generativa.

Vé-se, pois, que existe nos animáis irracionais urna pureza sexual
rigorosa, embora inconsciente. Por conseguinte (observam alguns au
tores), fora de propósito é dizer-se que o homem libertino se torna
bestial ou desee ao plano do animal irracional quando se entrega
desmedidamente aos prazeres sexuais. Seria, antes, muito para de-
sejar que os individuos humanos se norteassem, de maneira consci
ente, pela pureza de inteneoes que move os animáis inconscientes á
copula sexual.

Estes dados de fisiología comparada corroboram a con-


clusáo de que no individuo humano a continencia fora do ma
trimonio é realmente possível, ou melhor, exigida pelas pró-
prias leis da natureza; vem a ser fator de equilibrio físico e
boa saúde.

3) Urna interrogajáo

A esta altura, porém, perguntará alguém : se tal é a rea-


lidade, como se explica que tantas pessoas julguem o contrario?

— 401 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 4

— Isto se deve a preconceitos e sugestóes de urna men


talidade e de urna moral pouco sadias.
Com efeito, desde que se desperta o atrativo sexual em
nossos jovens, ésse atrativo é muitas vézes indevidamente agu-
cado pelas circunstancias do ambiente em que vive o adoles
cente. Tais circunstancias sao :

— certa opiniáo pública ou o erróneo preconceito de que a conti


nencia é impossivel ou nociva;
— a literatura, o cinema e o teatro pornográficos, que nutrem
a obsessáo do fruto proibido e a crenca de que o vicio é necessário;
— as solicitacoes de companheiros e colegas pervertidos.

Tais fatóres criam urna mentalidade no jovem e o levam


ao desvio moral ou ao vicio sexual. Maus hábitos sao assim
contraídos ; a repeticáo do ato desregrado produz a «necessi
dade:» de o realizar, necessidade que se torna cega ou mesmo
obsessiva, quando na verdade a fungáo sexual deveria ser
facultativa, ou seja, inteiramente sujeita ao alvitre da von-
tade. O que próprfamente merecería o nome de «aptidáo se
xual», é entáo tido como «imperiosa indigencia sexual», a
qual, dizem, ninguém se pode subtrair, como ninguém se pode
furtar á necessidade de comer ou beber, sem detrimento para
a saúde. Ora tal comparacáo é vá; a pretensa necessidade
vem a ser mero produto de preconceito ou de mentalidade. A
castidade física pode ser perfeitamente observada desde que
no respectivo sujeito naja castidade intelectual, ou seja, urna
interpretacáo auténtica dos fenómenos fisiológicos, acompa-
nhada de amor aos verdadeiros bens.

«Urna vexdadeira castidade nSo se poderá cultivar senao na base


de conceitos claros e de nocoes moráis que o individuo procurará
aprofundar continuamente e que ele aprenderá a estimar> (Dr. Paúl
Dubois, professor de neuropatologia na Faculdade de Medicina de
Berna, na obra «L'éducation de soi-méme. Chasteté», p. 323).

Está claro que ninguém conseguirá combater eficazmente


o mau hábito se nao adquirir a consciéncia de que a pretensa
necessidade é meramente ficticia, podendo ser debelada me
diante reta atitude de animo ou mediante firmeza de vontade
(á qual jamáis faltará a graca de Deus). Caso alguém, talvez
vencido pela vergonha, se disponha a reprimir o vicio da in
continencia, julgando que vai sufocar um ímpeto vital com pre-
juizo para a sua saúde, caira naturalmente num estado de

— 402 —
CASTIDADE PRÉ-MATRIMONIAL 43

exacerbagáo nervosa ou de neurastenia, acrescentando novo


mal ao anterior.
Dito isto, resta-nos ainda a consideragáo de algumas obje-
cóes que se costumam levantar contra o hábito da continencia.

3. Tres dúvrdas. . .

1) Há quem afirme que a continencia produz atrofia da


natureza.

«Apócrifo temor», responde o Dr. Max Hühner («Per-


tubaciones de la Función Sexual en el Hombre y en la Mujer».
Filadelfia 1920, p. 278).

O mesmo autor explica :

«É fato comprovado que os órgáos sexuais estao sujeitos a prin


cipios inteiramente diversos dos que governam a maioria dos outrbs
órgáos do corpo. Sua estrutura especifica permite-lhes exercer Inter
mitentemente a sua atividade; suas funcñes podem mesmo ser inde
finidamente suspensas sem que isto resulte em detrimento da sua
anatomía ou fisiología.
As glándulas mamarias nos oíerecem auténtico testemunho do
que digo. Quando a mulher concebe ura filho..., suas glándulas
mamarias, que durante anos se encontravam em estado latente, súbi
tamente crescem e dispoem-se a segregar leite. Quando termina a
lactacáo, tornam as ditas glándulas a reduzir-se de tamanho e cessa
a sua secrecáo, podendo permanecer üiatlvas durante mais anos, de-
pois dos quais se fór novamente fecundada a mulher, voltaráo a
aumentar e a produzir leite sem dificuldade».

Além disto, note-se que nada é váo ou frustrado na na


tureza. Ora há períodos na vida conjugal em que o marido é,
pela natureza, obrigado a privar-se das relacóes sexuais com
sua esposa ; assim, dois meses pelo menos antes do parto. Com-
preende-se que esta exigencia nao pode redundar em detri
mento da saúde do esposo, nem se pode tornar pretexto para
que viole outra norma da natureza, recorrendo a fornicacáo,
ao adulterio ou á masturbagáo. A natureza por si mesma deve
garantir a possibilidade de comportamento continente sadio
quando é ela mesma que o impóe.

2) Outra fonte de hesitacóes a propósito da castidade


sao as freqüentes polueóes noturnas que, conforme dizem,
caracterizan! o estado continente.

— 403 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969, qu. 4

— Em resposta, faz-se mister observar que as polugóes


noturnas sao motivadas por dois fatóres : um fisiológico e
outro psíquico. Do ponto de vista fisiológico, «elas sao perfei-
tamente normáis, contanto que nao se déem com demasiada
freqüéncia nem sejam acompanhadas de sentimentos de acen
tuada depressáo» (Hühner, ob. cit., p. 117). Explicam-se pelo
fato de que a natureza mesma espontáneamente se encarrega
de eliminar o excesso de certas secrecóes glandulares. Tal fe
nómeno, dentro das proporcóes assinaladas, nao é indicio de
estado mórbido nem acarreta eonseqüéncias funestas para o
respectivo sujeito.

Quando se tornam excessivamente freqüentes, as polucóes


noturnas em muitos casos se devem a um fator psíquico, ou
seja, á excitagáo mais ou menos voluntaria e anormal da con
cupiscencia ; o fato de que alguém se deixe invadir desregra-
damente por preocupaeóes de ordem sexual terá como conse-
qüéncia obvia o desencadeamento das fungóes genitais em es
tado de inconsciencia ou de sonó. — Deve-se frisar, porém, que
tal desordem é propriamente de índole psíquica ; o seu sanea-
mento, portante, consistirá no exercício de disciplina psíquica
(controle de pensamentos o .'ífetos).

c) Ouve-se também dizer que a continencia torna o


homem triste, duro, selvagem ou aínda neurasténico e an
gustiado.

A éste rumor respondem grandes médicos e psiquiatras,


qualificando-o de preconceito destituido de fundamento real :

«Quahto as perturbagóes nervosas e psíquicas.... nao há obser-


vacüo conduciente. Nos mesmos nao só procuramos, durante cinco
anos de vida académica á beira dos leitos dos doentes um só caso
de molestia em que achássemos algo que pudesse ser atribuido á
continencia e nao o encontramos, mas recomendamos a todos os
nossos amigos e colegas que nó-lo procurassem nos servicos em que
trabalhavam, e nao nos deram relacao de um sequer...
Por mais que procurássemos nos trabalhos de psiquiatría, nao
encontramos coisa alguma que nos fizesse concluir contra a conti
nencia.. .
No nosso Hospital Nacional de Alienados nao nos consta, por
mais que procurássemos, haver algum demente senil que tivesse sido
casto...
Muito ao contrario, segundo as varias observacSes do Dr. Onofre
luíante, o número de alienados em conseqüéncia de excessps sexuais
é enorme» (Vilhena, ob. cit. 98-100).

— 404 —
CASTIDAPE PKÉ-MATRIMONIAL 45

Pode acontecer, sem dúvida, que um individuo continente


seja, ao mesmo tempo, melancólico ou duro. — Frisar-se-á,
porém, que tal estado de alma, longe de ser conseqüéncia ne-
cessária de sua vida casta, resulta de algum defeito psíquico,
que se pode corrigir dentro mesmo da conduta de vida con
tinente.

O fator religioso será decisivo no saneamento de tais


anomalías psíquicas. Estas muitas vézes se derivam de um
conflito religioso, e só mediante solucáo désse conflito (ou
seja, mediante volta a Deus ou á Lei de Deus) poderáo ser
removidas. Além do mais, o cristáo sempre levará em conta
o papel imprescindível da graga divina para a reforma dos
costumes e a aquisicáo das virtudes. Em conseqüéncia, na sua
vida espiritual, o discípulo de Cristo recorrerá á oragáo; a
seguir, utilizará os múltiplos meios de santificacáo que Cristo
oferece aos seus fiéis (entre os quais ocupam lugar primacial
os sacramentos). A fidelidade ao Senhor será sempre o grande
esteio de urna vida humana nobre e reta ; o amor a Deus vem
a ser a expressáo por excelencia do instinto de amor que todo
ser humano experimenta dentro de si e que táo espontánea
mente tende a se atuar na vida sexual; esta será digna e
dignificante se fór plenamente subordinada ao amor de Deus.
«Conhecer a Deus é viver, e servir a Deus é reinar» (Missal
Romano).

Recomenda-se outrossim, em vista da conservacáo da cas-


tidade, a disciplina geral dos sentidos e dos prazeres : tanto o
jovem como o adulto se acautelaráo contra conversas, leituras
e divertimentos tendenciosos ou libertinos, os quais, contri-
buindo para amolecer o ánimo, só fazem diminuir ou solapar
o poder de resistencia as paixóes. Enfim toda essa disciplina
será facilitada e corroborada pelo cultivo de certa higiene
física: sejam as bebidas e o fumo moderados ; a educagáo
física e o esporte teráo seu lugar em tal regime, principalmente
por constituirem ótimo derivativo para a vitalidade que se
afirma no jovem e no homem maduro.

Eis, em geral, quanto a consciéncia crista e a medicina


tém a dizer a respeito da continencia, ou seja, a respeito do
exercicio de urna funcáo sagrada que o Criador incutíu ao
homem nao para que éste tropecé moralmente, mas a fim de
que se engrandeca e santifique.

Estévao Bettencourt O.S.B.

— 405 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969

CORRESPONDENCIA MIÚDA

Ricardo (Porto Alegre): O livro de Saloma o Jorge é um tanto


parcial ao focalizar certas personalidades. Devem-se reconhecer o bem
e a verdade onde quer que se encontrem. Cf. «P.R.> 114/1969, pá
ginas 252-260.

KESENHA DE LTVROS

A co-responsabilldade na Igreja de liojc, pelo Cardeal Suenens;


traducSo de Dom Paulo Evaristo Arns O.F.M., Bispo Auxiliar de
Sao Paulo. — Editara Vozes, Petrópolis 1969, 135x210 mm, 143 pp.
O Cardeal Joseph Suenens, de Malines-Bruxelas, estéve última
mente assaz em íoco por causa de entrevista concedida á imprensa a
respeito das instituicoes e do govérno da Igreja; as idéias de S. Emi
nencia íoram vivamente controvertidas. Todavía o livro ácima enun
ciado propSe a respeito da Igreja e de seus membros consideragoes
que o público aceitou mais serenamente. O autor pretende avivar nos
seus leitores a consciéncia de que a Igreja é urna comunh&o de fiéis,
oonsciéncia que o Concilio do Vaticano II tanto incutiu. Todos os
cristáos (naturalmente, cada qual na sua voeacáo e no lugar que
Deus Ihe assinalou) devem, pois, sentir-se solidarlos e responsáveis
na execucáo das grandes tarefas que competem & Igreja; destas, tres
tomam especial relevo: a tarefa ecuménica, a missionária, a da pre
senta da Igreja no mundo. — Depois de propor tais verdades, o Car
deal Suenens anallsa a forma como tal co-responsabiüdade se confi
gura nos diversos niveis do povo de Deus: Santa Sé, bispos, presbí
teros, teólogos, diáconos, religiosos, leigos. O autor discorre com
erudicao e profundidade, procurando mostrar aspectos de certas ver
dades que poderiam ser mais focalizados em nossos tempos. Algumas
passagens do livro sao suscetiveis de dupla interpretacáo, podendo
sugerir insubordinacáo; todavía quem assim as entendesse, nao teria
oompreendido o pensamento do Cardeal Suenens, que apenas pretende
beneficiar o povo de Deus, sua solidariedade e coesáo dentro da Igreja
una e santa.
O livro sup5e leitores de certa cultura religiosa e capacidade de
compreensao; a quem n5o o cntenda, pode prejudicar seriamente.

A unldade dos cristáos, por Pierre Michalon; tradugáo de María


de Jesús Brito. Colecáo «Rotei.ro da Juventude» n» 6. — EdicSes Pau
linas, Sao Paulo 1969, 120x180 mm, 162 pp.
O P. Michalon é um dos grandes arautos do movimento de uniáo
dos cristáos em nossos dias, ou seja, do ecumenismo própriamente
dito (éste, no sentido estrito, é um movimento entre cristáos apenas,
destinado a restaurar a unidade entre os discípulos de Cristo — o que
nao excluí tenham os cristáos interésse em dialogar com todos os
homens). — No livro ácima descrito, o autor apresenta as posicoes
doutrinarias dos protestantes, dos anglicanos e dos ortodoxos (orien
táis cismáticos); a seguir, propOe breve histórico do movimento
ecuménico, que teve origem em 1910. Depois do que, transmite a
doutrina do Concilio do Vaticano II sobre ecumenismo e sugere algu
mas importantes iniciativas a ser empreendidas e cultivadas pelos

— 406 —
RESENHA DE LJVROS 47

cristáos em favor da unidade: oragáo, reforma dos costumes pessoais,


diálogo, estudos, publica$5es... A orientacáo do livro é sadia, tor-
nando-o útil a sacerdotes e leigos que desejem noc6es sintéticas sobre
o assunto. Exala auténtico espirito ecuménico, sem relativismo nem
criticas indevidas, marcado por humildade e slnceridade. O autor
mesmo, no inicio do livro, nota que omitiu certos aspectos particula
res do tema (Taizé, casamentes mistos, estatisticas...); limitou-se a
exposicáo geral da questáo — o que é justificado,
«Quando nos propomos trabalhar pela unidade, impoe-se-nos tdda
urna mentalidade de base, que coisa alguma substituirá... Possuir-
mos tal senso de humildade que possamos descobrir 'o outro1, pois
nao o conhecemos» (p. 143).

O nosso Salterio, pelo Cdnego Hauret; traducá© de Jacy Lopes


de Leáo. Colecáo «Temas de espiritualidade». — Edic.5es Paulinas, Sao
Paulo 1969, 125x180 mm, 162 pp.
Nesta fase em que a oragáo oficial da Igreja e o uso dos Salmos
tomam nflvo vulto, perguntam os fiéis freqüentemente se nao há em
portugués alguma introducao nos salmos. Pode-se agora apresentar o
livro do C&nego Hauret. — Éste comega por recordar as dificuldades
que o cristao experimenta ao usar os salmos (cujas express&es sao
táo diversas das que empregamos em linguagem crista). A seguir,
ajuda o leitor a dissipá-las, mostrando-lhe como pode e deve dar sen
tido cristáo ao salterio. Os diversos salmos sao agrupados segundo
os respectivos géneros literarios; análisando cada urna dessas catego
rías, o Cónego Hauret p6e em relevo os traeos principáis que a¿
caracterizan!: há salmos de enfermos, de acusados, de exilados, de
queixa do justo perseguido, de penitencia, de confianca, acáo de gra-
cas, há poemas regios... Ao terminar o estudo de cada categoría, o
autor indica a maneira como o cristao há de utilizar, em sua oracáo,
tais preces judaicas.
Verdade é que nao se trata de comentarios a cada salmo em
particular, mas, sim, de urna apresentacáo geral do salterio.

Os Evangelhos da infancia, pelo Cardeal Jean Daniélou; traducáo


do P. José María de Paiva. — Editora Vozes, Petrópolis 1969, 135 x 210
mm, 85 pp.
Quando aborda assuntos bíblicos, Daniélou costuma apresentar em
termos acessiveis os resultados da critica mais exata e exigente. £ o
que se dá no livro ácima: o autor peroorre os episodios concernentes
á infancia de Jesús relatados por Mt 1-2 e Le 1-2, procurando ilustra
dlos a luz do mundo semita antigo, que o eminente jesuíta bem
conhece. Com abalizados estudiosos, Daniélou afirma que em Mt 1-2
e Le 1-2 se deve distinguir entre as realidades históricas e_ as manei-
ras de as propor. Os trechos do Evangelho referentes á infancia de
Jesús apresentam, sem dúvida, numerosos tragos paralelos a trechos
do Antigo Testamento: donde se pode concluir que os Evangelistas,
seguindo urna praxe usual entre os judeus, intencionaram descrever
acontecimentos reais da infancia de Jesús de tal modo que suas de»
cricoes evocassem cenas do Antigo Testamento; tal apresentacáo
literaria serviría para mostrar a continuidade do plano de Deus e o
cumprimento paulatino e harmonioso do mesmo.
É necessário que o exegeta proceda com cautela, quando pesquisa
os géneros literarios da Biblia; Daniélou o faz, propondo n&vo e pro
fundo entendimento de certas passagens do Evangelho, sem, porém,

— 407 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 117/1969

Ihes destruir o caráter histórico; os Evangelistas se preocuparam


principalmente com o significado teológico dos episodios da infancia
de Jesús. — Aos estudiosos de certa cultura recomenda-se a leitura
do livro de Daniélou, que vem responder a questóes hoje em dia fre-
qüentemente focalizadas, mas nem sempre devidamente elucidadas.
Apenas se poderia desejar que o autor fósse um pouco mais minucioso
e claro em certas passagens do livro.

Mensagcm bíblica para o nasso tempo, por Alfrcd LSpple; tradu-


cao de Manuel Alves da Silva. — Edicoes Paulistas, Lisboa 1968,
145 x 210 mm, 559 pp.
O livro tem o subtítulo «Manual de Catequese biblica>. No de-
correr de 400 páginas, o autor perpassa as diversas etapas do Antigo
Testamento preparatorias da vinda do Messias; detem-se finalmente
na figura de «Jesús Cristo, Messias e Kyrios» (150 pp.). Refere, sem.
se perder em divagacóes demasiado especializadas, as principáis con-
clusóes da moderna exegese, de modo que o catequista encontra nessa
obra o material necessário para elaborar suas aulas de maneira fiel
ao pensamento da Biblia e as diretivas da Igreja. Infelizmente a
bibliografía indicada é quase toda de línguas estrangeiras. Especial
mente digno de nota é o capitulo «Jesús Cristo, historia ou lenda?»
(pp. 405-422), em que o autor debate as teses racionalistas relativas
a Jesús.

A experiencia da salvacüo, por Beatriz Muniz de Souza, prefacio


do Prof. Candido Procópio Ferreira de Camargo. Colecao «Religiáo e
Sociedade» — 1. — Livraria Duas Cidades, Sao Paulo 1969, 135x210
mm, 181 pp.
Éste livro inaugura a colecto «Religiáo e Sociedade», a qual se
propóe estudar o relacionamento que existe entre urna e outra destas
grandezas: nota-se que as expressOes religiosas dos homens sSo
muitas vézes influenciadas pelo respectivo ambiente cultural e sócio-
-económioo, como também éste é freqüentemente marcado pelas eren-
cas religiosas de seus membros.
Ora o fenómeno religioso pentecostal é dos que hoje no Brasil
mais se prestam a tal estudo. O Pentecostalismo é um ramo recente
(oriundo em 1901) do Protestantismo que, renunciando a elevada tec-
logia, apela profundamente para o sentimento religioso, as emocóes
e a capaeldade imaginativa do povo simples. Por isto tem crescido
extraordinariamente nos últimos tempos, penetrando mais e mais ñas
carnadas humildes da sociedade brasileira; mais de 60% dos protes
tantes do Brasil sao pentecostais.
A autora coletou copiosos dados para rodigir o seu trabalho:
livros jomáis, revistas, depoimentos oráis (colhidos em cérea de 270
entrevistas). O livro íoi escrito de maneira vivaz e interessante, apre-
sentando verbalmente numerosos testemunhos de fiéis pentecostais,
que falam de sua experiencia religiosa. A obra fornece urna nocáo
assaz clara do que é o fervor religioso da gente simples, que confunde
muitas vézes fenómenos parapsicológicos com dons do Espirito Santo
(linguas, interpretacao de llnguas, curas, profecías...). Destarte o
estudo «A experiencia da salvacao> vem a ser um estimulo a que se
valorize a reíigiosidade do povo brasileiro, dando-lhe a instrucáo e a
formacao de que ela precisa para nao se iludir e deteriorar.

— 408 —
Filosofía do homem, por Roger Verneaux; tradugáo de Cris
tiano Maia e Roque de Aniz. — Livraria Duas Cidades, Sao Paulo 1969,
135x210 mm, 229 pp.

Eis um tratado completo de psicología racional ou de «antropología


metafísica», como o desejaria chamar o autor. Segundo terminología
e método estritamente escolástico-tomistas, o autor estuda as nogóes
de vida alma, oonhecimento sensível (melhor: ... sensitivo), conheci-
mento intelectual, vontade. liberdade, faculdades e hábitos... A dou-
trina é sólida. O livro veio preencher com éxito urna lacuna da biblio
grafía brasileira; destina-se a quem deseje estudar de maneira siste
mática e profunda o homem e suas faculdades psíquicas, do ponto de
vista filosófico; restará completar o aprendizado oom o estudo da
psicología experimental.

Como selecionar e como treinar na a$&o pastoral os futuros pres


bíteros, Dor Mario Goulart Reís. Colecáo «Forma Gregis» n» 5. — Li
vraria Agir Editora, Rio de Janeiro 1969, 120 x 190 mm, 142 pp.
Éste livro apresenta tres trabamos, escritos em ocasióes diversas,
sobre criterios de vocacáo sacerdotal, assim como sobre a formacáo
do caráter e da dinámica das futuros sacerdotes. O autor póe a sua
vasta experiencia de psicólogo e educador a servico do aprimoramento
dos seminaristas e dos sacerdotes, atendendo assim a um apelo do
Concilio do Vaticano II; éste, através do decreto «Optatam totius»,
pediu a reíormulacáo dos processos de formacáo dos sacerdotes, su/je-
rindo para isto o recurso ás ciencias modernas (psicología, pedagogía,
sociología...).

O Dr. Mario Reís, com sabedoria, trata da formacüo da castidade


e da honradez do seminarista... Ao abordar a possibilidade de que
os seminaristas trabalhem em emprégo remunerado enquanto estu-
dam lembra as vantagens e desvantagens respectivas: o trabaUio,
sem dúvida, faz que o jovem possa conheeer melhor o mundo e custear
as despesas (ou parte délas) de sua íormacáo. «Mas resta saber se,
para alcancar éste fim, em si válido, valerá a pena correr o risco
de expor urna vocacáo ainda nao consolidada a um ambiente talvez
hostil ou indiferente ou de cor,rupcáo moral..., sacrificar o estudo e
(talvez) a vida espiritual... e a atividade apostólica... — que sao os
fins precipuos da formacáo do seminarista — e que poderiam vir a
ser sacrificados devido ao número de horas diarias ocupadas no expe
diente do emprégo...» (p. 60).
A obra apresenta variadas sugestóes, sem perder o senso do equi
librio.
E. B.

Creio, Senhor, mas creia mais firmemente.


Espero, mas espere com mais confianza.
Amo, mas ame oom mais ardor.
Arrependo-me, mas arrependa-me com mais veeméncia.

(Clemente XI, 1731)


NO PRÓXIMO NÚMERO :

Deus existe mesmo ?


O sermóo sobre a montanha : desafio ?
«O Evangelho antes de Sao Mateos»
Divorcio e «privilegio paulino»
Remedios para dormir: sim ou nao ?
«Umas e outras» de Chico Buarque de Holanda

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

porte comum NCr$ 17,00


Assinatura anual |
porte aéreo NCr$ 22,00

Número avulso de qualquer mes e ano NCr$ 1,50

Número especial de abril de 1968 NCr$ 3,00


Volumes encadernados: 1957 a 1963 (preco unitario) .. NCr$ 10,00
Voluntes encadernados: 1964 e 1967 (prego unitario) .. NCr$ 15,00
Volume encadernado de 1968 NCr$ 17,00
Índice Geral de 1957 a 1964 NCr$ 7,00

índice de 1967 NCr*


Encíclica «Populorum Progressio» NCr$ °-50
Encíclica «Humanae Vitae» (Regulagao da Natalidade) NCr$ 0,70

Avisamos aos nossos leitores que se encentra á dispo-


sicao o índice de «P.R.» 1968. Preco: NCr$ 1,00.

EDITORA BETTENCOÜRT LTDA.

BEDACAO ADMINISTKACAO
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