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SERÁ QUE O MERCADO DE CARBONO PÓS 2008 IRÁ INFLACIONAR?

(*) Denise de Mattos Gaudard - 7/11/08

Escrevi um artigo em 2006, chamando a atenção do mercado financeiro, das


empresas e governos já impressionada com rapidez das distorções impostas
a um mercado tão novo quanto inovador.

Afinal sabemos que o objetivo inicial e primordial do Mecanismo de


Desenvolvimento Limpo (MDL)1 é mitigar o efeito estufa e sobretudo, promover o
desenvolvimento sustentável em paises em desenvolvimento, base do Anexo III, foi
distorcido em nome da mais especulação financeira. Os CREs (Certificados de
Redução de Emissões) se tornaram commodities e avaliados não por estarem
atrelados a um projeto bem construído e fundamentado numa consciencia ecologica
local e mundial, mas como um puro ativo negociável pelo seu potencial de
valorização como investimento nas bolsas mundiais.

Muitos analistas de mercado que avaliam estas "transações" com CREs,


diagnosticam uma baixa do seu valor de face por conta da atual crise mundial e, em
consequencia uma diminuição dos investimentos nos projetos de carbono por
grandes empresas poluidoras, temerosas com a crise financeira. Ora, estes
prognósticos são verdadeiras temeridades pois primeiramente, o valor pode ate cair
um pouco neste primeiro momento altamente especulatorio, mas deve subir, e
muito, daqui a uns meses, pois como estamos cada vez mais proximos de 2012
(final do prazo de Quioto), mesmo com os mais de mil projetos encaminhados no
UNFCCC sendo aprovados e registrados e tambem somando-se aos CREs do
mercado tido como Não Quioto, não haverão CREs suficientes para as empresas e
ou nações poluidoras cumprirem suas metas ate o final do prazo do Protocolo.
Podem fazer esta aposta.

Porque o preço das CREs deve subir à estratosfera até 2012

Até as esforçadas Holanda e Noruega estão com plena dificuldade em conseguir


atingir suas metas. E a estas nações que estão no topo da conciencia ecologica,
unem-se França, Alemanha e Reino Unido. E mesmo o Japão, que tem comprado
grande parte dos CREs oferecidas no mercado mundial, está aquém de suas metas
para 2012, ou seja, as expectativas de ter credito de carbono suficiente deve ser
avaliada para menos oferta, com consequente subida do preço.

E nas nações em desenvolvimento, o conjunto de cenarios contribui apenas


para mitigar somente o otimismo de mais projetos, pois, com as novas regras do
Comite Executivo pós Bali, criadas para fiscalizar de forma mais eficaz (será?) os
projetos MDL enviados a esta entidade, tornaram estes projetos mais complexos e
pior, mais caros, dificultando sua implantação e ou execução em paises do bloco
dos não desenvolvidos

Para aqueles que não tem acompanhado os detalhes da evolução do mercado de


carbono esclarece-se que as citas regras adicionais, com o recrudescimento da
fiscalização foram criadas por que alguns projetos MDL enviados andaram, digamos,
"exagerando" nas suas estimativas de emissões de CREs, mesmo tendo sido

1
devidamente auditadas e validadas por entidades operacional designadas bastante
notorias e teoricamente isentas e idôneas. Talvez estas EOD tenham sido um pouco
mais "generosas" com projetos de metodogias duvidosas e ou que tenham
superestimado a quantidade de GEEs mitigados e ou capturados, como se
comprovou em algumas revisões desses projetos. Foi um constrangimento tão
grande que gerou ate o descredenciamento de mais de uma EOD

Mas as situações ditas " ambíguas" não param aí.


Muitas licenças de emissões em alguns paises foram liberadas em excesso, o que
aumentou artificialmente o valor de compra das CREs porque o seu limite fora
fixado acima dos níveis reais das emissões. Quando os comitês fizeram as
reverificações e ou aprofundaram as auditorias, chegaram a estas constatações e
assim o mercado recuou dos antigos patamares supervalorizados e estes preços
caíram abaixo de 1/t CO 2 ($1.3 /t CO 2 ) em 2007.
Mas enquanto durou a festa dos CREs supervalorizados muitos adquiriram lucros
significativos, sobretudo no setor de energia. Como resultado direto, as empresas
puderam ocultar as suas emissões através de quotas gratuitas e assim não tiveram
nenhum pudor em repassar os custos dos “investimentos para implantar novas
tecnologias de reduções” para os seus consumidores e assim auferir lucros imorais
ainda maiores com a comercialização do “excesso de quotas”.
Alguns preceitos da regulamentação dos leilões tambem teve sua contribuição
restritiva pois as regras fixavam limites abaixo da realidade para os leilões de
licenças de emissões privando assim, os governos da possibilidade de mobilizar
mais receitas para comprar mais creditos de carbono, gerando ineficiências.

E as nações em desenvolvimento ? Qual o cenario e suas consequencias?


Mais uma vez as populações mais pobres perdem. Perdem, para variar, com todo
este cenario e contingências, perdem mais uma forma de receber recursos
espontâneos e baratos que são imprescindiveis para tambem mitigarem suas
emissões, solucionar problemas graves de ordem social e ambiental e tambem
promover o desenvolvimento sustentável regional nos entornos de cada um desses
projetos.
Enfim. mesmo com crescimento dos projetos de MDL em nações de base energética
suja, tais como China e Índia e o Brasil assumindo alguma posição de cumprimento
de metas a partir de 20012 não será, nem em sonhos ecológicos, o suficiente para o
que o planeta precisa e evitar que eu, por exemplo, tenha que sair do Rio de Janeiro
e ir morar em terras mais altas. Mas vamos ver o que o futuro próximo nos destina
(*) Denise de Matos gaudard é consultora socioambiental e desenvolve projetos de energias
renováveis e Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) visando o mercado de creditos
de carbono. Idealizadora do PROJETO BIOREDES que vem viabilizando a implantação de
redes de coleta seletiva usando metodologia e economicamente acessível e que processa e
fabrica de biodiesel com base em óleo vegetal usado (OVU). O projeto é voltado para
comunidades de baixa renda, cooperativas de catadores urbanos, conveniados com
pequenos e médios municipios e com empresas financiadoras parceiras). Escreve artigos
sobre Mercado Créditos de Carbono, MDL e afins no Portal CONPET - PETROBRÁS/MME
(http://www.conpet.gov.br/artigos/artigo.php?segmento=empresa&id_artigo=25) e em
varias outras mídias nacionais, eletrônicas e escritas.

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