P. 1
Rezas e Benzeduras

Rezas e Benzeduras

|Views: 692|Likes:
Publicado porSergio Tavares

More info:

Published by: Sergio Tavares on May 05, 2013
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

04/09/2015

pdf

text

original

Rezas, Crenças, Simpatias e Benzeções: costumes e tradições do ritual de cura pela fé 1 Vanda Cunha Albieri Nery2 Centro Universitário

do Triângulo – Uberlândia/MG

Resumo: Apesar dos avanços verificados na medicina, as práticas de benzeções não ficaram enterradas no passado nem foram totalmente substituídas pelos preceitos científicos. Acreditando ou não no poder da reza, tem sempre aqueles que procuram nas benzeções, uma cura para a sua doença. O que é esta prática religiosa tão permeada em nosso cotidiano? Que maneira é esta de resolver problemas tão fincados na solidariedade, tão diferentes da cultura dominante? O que significa benzer? Por meio de observação direta e de entrevistas informais realizadas com benzedores da cidade de Uberlândia/MG, e entendendo a folkcomunicação como a comunicação em nível popular, busco descrever como se dão as benzeções, procurando entender essas manifestações folclóricas como a linguagem de um povo, a expressão do seu pensar e do seu sentir, tantas vezes discordante do pensar e do sentir da cultura oficial e dominante. Palavras-chave: folkcomunicação, benzeção, religiosidade popular Introdução Quebranto, cobreiro, mau-olhado, espinhela caída, erisipela, vento virado, peito arrotado. Quem quer que percorra os povo ados da zona rural, as pequenas cidades do interior ou mesmo as periferias das grandes cidades vai se deparar, em um momento ou outro, com alguns desses nomes que fazem parte de um mundo mágico-religioso, povoado de rezas, crenças, simpatias e benzeções. Na cultura popular, corpo e espírito não se separam, tampouco desliga-se o homem do cosmos, ou a vida da religião. Para todos os males que atingem o corpo e a alma do homem sempre há uma reza para curar. É por isso que, apesar do tempo e dos avanços da medicina, a tradição dos benzedores ainda persiste na nossa moderna sociedade capitalista. Acreditando ou não no poder da reza, tem sempre aqueles que procuram, nas rezas e nas benzeções, uma cura para a sua doença ou um alívio para a sua dor.
1 2

Trabalho apresentado ao NP Folkcomunicação do VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e professora do Curso de Comunicação Social do Centro Universitário do Triângulo onde também coordena o Comitê de Ética em Pesquisa.

1

Herança dos portugueses que ao chegarem ao Brasil sofreram influências dos índios e. dominado pela cabocla e pela mulata. de pedido insistente aos deuses para que eles se dispam dos seus mistérios e se tornem mais presentes. o ato da bênção é um ato de súplica. recitando fórmulas litúrgicas para consagrá. Cada benzedor tem a sua própria forma de benzer. foi sendo repassado de geração em geração.Mas o que é esta prática religiosa tão permeada em nosso cotidiano? Que maneira é esta de resolver problemas tão fincados na solidariedade. a grande mistura que há. é a ritualização das coisas da fé. através de seus cantos.la ao culto divino ou chamar sobre ela o favor do céu. unido ao das plantas medicinais trazidas pelos portugueses. Rezadores. sobretudo as mulheres. aprendida com seus antepassados e de onde aprenderam a ver o mundo que os cerca. dos africanos. para que tragam boas novas. com os homens de outro e entre ambos. porque a cada um foi dado um dom para curar. de um lado. de imploração. simpatias. pretendo mostrar não apenas o que essas pessoas pensam. rezas e benzeções – uma solução eficaz para solucionar os problemas de saúde para as classes mais desfavorecidas.” Em outras palavras. tão diferentes da cultura dominante? O que significa benzer? No sentido dicionarizado. Entendendo a folkcomunicação como a comunicação em nível popular. conferindo-lhe significado e lhe infundindo emoção. benzedores e curadores estabelecem com a comunidade um sistema próprio de comunicação que está além da comunicação oficial da mídia de massa. Um dom que se traduz na fé. como interpretam e organizam o mundo. rezas e orações. mas como pensam. O conhecimento das plantas medicinais da colônia. mais concretos. 2 . Daí a proc ura pelas rezadeiras para fazer chás. 1985). posteriormente. gestos. abençoar. simultaneamente (Oliveira. A bênção é um veículo que possibilita ao seu executor estabelecer relações de solidariedade e de aliança com os santos. Por isso. produzindo benefícios aos mortais. benzer significa “fazer o sinal da cruz sobre pessoa ou coisa. Diz a tradição que o ato de benzer. como queria Beltrão (2001). ou de curar. que refletem vigorosamente a mais pura expressão das classes menos cultas e mais carentes da população. onde muitas vezes se misturam o sagrado e o profano. originando o costume de curar doenças por meio de recursos naturais.

busco descrever como se dão as rezas e as benzeções. mas há aqueles que fazem isso apenas por tradição. Para ele. sem nem sequer acreditar no poder da oração. quem trata o doente são os benzedores mas qualquer cura é uma obra de Deus pois foi “o próprio Jesus quem ensinou as orações. Ao contrário de Aldoresti. no entanto. Praticamente nenhum benzedor fala de sua “carreira” enquanto uma escolha pessoal.Por meio de observação direta e de entrevistas informais realizadas com benzedores da cidade de Uberlândia. a benzeção não funciona pois é preciso ter fé para ser curado. Outras tantas para engasgo. exige-se muita fé. Oração que sempre evoca os perigos para pedir proteção. “a cura depende mais da preparação espiritual da pessoa que está fazendo a prece. revelando o segredo. a fórmula da benção e a confiança da comunidade naquele que benze são os três elementos essenciais para compreender o povo e o benzedor.” Do benzedor. Muitas para o quebranto. em Minas Gerais. Na religiosidade popular. sim. que é um dom divino. Ele garante que a pessoa que está recebendo a benção não precisa ter fé.” Boa parte delas serve para curar doenças. Atra vés dela. porque os que mais precisam são aqueles que não acreditam. oração que é poesia e é palavra evocatória de cura e proteção. muitos benzedores afirmam que todos precisam ter fé. A fé na cura. “Os pais levam seus filhos ou procuram um benzedor porque têm fé. a alma se fortalece e fica mais próxima de Deus. dor dente e muitas outras. que descobriu seu dom aos 18 anos e hoje tem 70. como a oração de São Bento “pra cobra não ofender. a expressão do seu pensar e do seu sentir. Algumas orações não podem ser reveladas. tantas e tantas vezes discordante e mesmo oposta ao pensar e ao sentir da cultura oficial e dominante. procurando entender essas manifestações folclóricas como a linguagem de um povo. Como o benzedor Aldoresti José Rosa.” Nesses casos. como aquelas rezadas contra os inimigos ou para fechar o corpo pois os benzedores temem que. que lembra a morte para implorar a vida. eles afirmam. cobreiro.” Outras são preventivas.” A simplicidade dos versos emoldura a expressão da fé. aqui de Uberlândia. elas “possam perder o encanto. Todos concordam que é preciso ter muita fé para abençoar outras pessoas. dor de pontada. É assim que pensam os benzedores. Ele é 3 . que pede perdão para alcançar a salvação. A fé que vem da oração A oração é o alimento da alma.

numa maioria quase absoluta. Reconhece-se o vento virado quando a criança cai muito. Manisfesta-se em diarréia e encurtamento de uma perna”. eles acreditam. o que nos impede de compreender o que é falado. e para que a reza dê resultado é necessário que a benzeção seja feita três vezes. para tirar cobras de uma fazenda. segundo as benzedeiras. birrenta. “É a comunidade que faz o benzedor”. pior é o quebranto. O benzedor não faz propaganda de seu trabalho. até mesmo os próprios pais. 1989:16). Daí a razão dele não precisar de estudos: seu saber é revelado e o poder da cura lhe é dado por Deus. ou mau-olhado).escolhido de Deus e essa escolha é revelada na descoberta do seu dom. quando não está comendo adequadamente. com suas rotinas cotidianas alteradas”. as pessoas do lugar procuram um outro que possa curar os seus males. para estancar sangue numa ferida ou para curar bicheiras em animais. ele sempre pode aprender alguma nova reza. 4 . para curar a picada de cobra. Quando um benzedor morre. são orações destinadas ao anjo da guarda da criança. Não existe benzedor sem que haja uma comunidade que busque suas orações. Ele se torna conhecido da comunidade por causa da cura das pessoas que atende e é sempre procurado por pessoas da sua comunidade. É uma “doença de neném. e geralmente a benzedeira tem em sua mão um terço católico ou folhas de alguma planta. alguém “colocou um olho ruim sobre a criança”. O benzedor homem é procurado em especial para rezar em “ofendido de bicho mau”. Estudos realizados em Minas Gerais. mostram que a benzeção é uma prática desenvolvida sobretudo pelas mulheres: “A presença da mulher é marcante no mundo da crendice e é ela. pois cada uma ao nascer tem um anjo que lhe protege por toda a vida. Por ter esse dom. As benzedeiras costumam rezar mais sobre as crianças. Esse alguém pode ser uma pessoa desconhecida ou algum parente. Segundo as benzedeiras. A benzedeira reza em males que acometem as crianças e os adultos. principalmente nas situações mais comuns que as atingem: o “vento virado” (ou ventre virado) e o quebranto (ou quebrante. que conhece o segredo das palavras e dos gestos capazes de exorcizarem o mal” (Gomes & Pereira. A situação ocorre porque. causada por susto. As palavras são pronunciadas em tom muito baixo. A solução é levar a criança para benzer. as rezas são acompanhadas de muitos gestos: várias vezes faz-se o nome do Pai sobre a criança. Quanto maior o grau de parentesco. Além disso. de forma sussurrada. Já o quebranto é reconhecido quando a criança está “enjoada.

para os endividados. pede-se o socorro de Santa Sofia. garrafadas. é a mais utilizada e tem tanto o poder de curar as enfermidades. carqueja. ou para o soluço ou. em banhos. Algumas outras ervas e plantas medicinais são administradas em chás. xaropes. boldo. para as feridas. Santa Luzia. Nas benzeções o ramo de arruda é usado para aspergir água no benzido. alecrim. Na benzeção de terreiros e lavouras. as benzedeiras apelam para santos católicos que. que foi martirizado no fogo. São Bento. Mas é bom lembrar que não só os raizeiros conhecem raízes. Arruda. Santo Antônio e muitos outros. Seus ramos são usados para exorcizar a energia negativa dos ambientes. para a azia. a reza é para São Lázaro. Geralmente. ainda. um santo não canonizado. para a dor de dente. é a santa que protege e cura os olhos. Para se proteger basta colocar um pequeno ramo atrás da orelha. Segundo a crença popular. hortelã. as garrafadas são preparadas pelos raizeiros – um homem que procura e vende as raízes medicinais.Geralmente. cura as queimaduras. para o engasgo. conhecida popularmente como arruda. Boldo e 5 . de folhas verde-acinzentadas. guiné e mamona são as mais usadas no ritual de cura. padre Frei Clemente. o auxílio vem de Santa Edvirges e na hora do parto. cisco no olho. Algumas vezes. quando usadas para benzer ficam murchas porque recebem o malefício que estava no doente. Muitos benzedores acreditam ainda no poder das ervas e das plantas medicinais e as utilizam durante a benção. para a dor de cabeça. São Lourenço. que exalam um forte odor principalmente se maceradas. quanto o de proteção contra “mau olhado”. segundo elas. 1989:40). e. São Sebastião. cheiros e defumações e. muitas já conhecidas pelo povo. a poderosa ajuda de Nossa Senhora do Bom Parto. São Brás. mauolhado)”(Gomes & Pereira. para proteger e/ou curar os animais. a fé é em São Brás. as folhas do ramo. sementes e folhas. a oração é para São Francisco. também curam pela intercessão divina: Santa Luzia. Todos conhecem e usam as plantas medicinais: quebra-pedra. morreu envenenado. purificando-o através da derrota do mal (dor de cabeça. o pedido é feito para São Sebastião. que perdeu a vista. uma erva originária da Europa. é invocado contra a picada de cobra. chama-se por Santa Apolônia. Santa Iria. A planta. assim como São Bento. o santo curador conhece a doença por experiência própria. também. por exemplo.

Dizem também: “Deus querendo. um mesmo remédio serve para diferentes males. copaíba. para a digestão e a erva cidreira e a erva doce. utilizadas amplamente em diferentes partes do Estado: ipê roxo. para os males do intestino. o capim santo.neutraliza o ácido. para acalmar. Na nossa rica região do cerrado. Quando alguém adoece. Os próprios benzedores benzem com as plantas e ensinam a utilidade de cada uma delas. o romã. O remédio que resolve problemas graves é chamado de “santo remédio”. Vassourinha de Nossa Senhora. Eles dizem: “Deus cura e o médico manda a conta. O micróbio. as comadres conversam. É impossível separar a planta medicinal do rito mágico-religioso.” Essa fala é o pensamento comum entre os benzedores. sucupira. a flor do assa-peixe é um bom depurativo do sangue. barbatimão. Todos afirmam que “é Deus que cura. por isso não podemos cobrar. o conjunto das mulheres de uma rua ou de um bairro cultiva o conhecimento das plantas. encontramos: malva-de-São Francisco. a macelinha. até a água do pote é remédio”. por exemplo. empachamentos etc. outra sabe onde cresce e pode ser encontrada. cólicas.” Quem cobra é o médico. Santo Inácio. Além disso.carqueja servem para os males do fígado. Estes são os exemplos mais comuns da medicina caseira de Minas Gerais. Muitas vezes. Há muitas plantas com nomes religiosos: espinhela santa .” Alguns confessam que ganham presentes de pessoas que ficaram agradecidas com a 6 . Os benzedores se modernizam. o benzedor jamais cobra pelo serviço prestado. para a garganta inflamada. São Caetano. 2001:191). senão “estaria fazendo negócio e não é ele mas Deus é que cura. por isso é boa contra úlcera no estômago e sumo do tronco da banana de São Tomé é usado contra cobreiro. Mesmo quando sugere o uso de algum remédio. dores intestinais. podemos encontrar várias espécies de plantas com poder curativo. Uma sabe o que é bom. Além das plantas medicinais podem até sugerir algum remédio que conheceram na farmácia. raiz-do-Espírito Santo e muitas outras.” (Beltrão. Especialmente. Alguns arbustos como o algodão do campo e algumas ervas como o melão de São Caetano e o cipó de São João também compõem os receituários da medicina popular mineira. a arruda é usada para a limpeza do globo ocular. Como a folha da goiabeira que “é um grande remédio para dores de barriga. já entrou na oração contra a dor de dente e o gelo na bênção da carne quebrada.

é um ritual de cura. Quando estes bichos passam em cima de uma roupa estendida no quintal podem largar o cobreiro. trazem sempre alguns traços de semelhança. A quase totalidade das rezas veio de Portugal e foi aqui adotada e recriada. é colocado quente no cobreiro. não como um pagamento. o doente não deve cruzar os pés ou as mãos. benzedor de Tapuirama. a mesma reza tem variações de um para outro local. antes da benção. Suas rezas. Mas isso acontece de forma despretensiosa. Todos concordam que o cobreiro vem de algum animal peçonhento como a aranha. por exemplo. coloca-se um copo com água no local onde se realiza o ritual e no final a pessoa benzida deve tomar essa água. outros passam um ferro quente num pano que. a benzeção. Os gestos praticados pelos benzedores são todos idênticos ao da religião católica: eles rezam fazendo o sinal da cruz. ensina a benzedeira Maria Cândida. O ritual da Cura Na crença popular. explica o senhor Sebastião Oliveira. que é gratuito e vem de Deus. Faça o bem. O presente (agrado) representa uma troca e não uma venda.” Muitos asseguram que se receberem dinheiro como pagamento podem até perder o dom. Muitas delas falam da cabeça e do rabo das manchas de bolhas. é preciso benzer até três vezes para que ele seque. são deturpações das orações oficializadas pela igreja. “Benzer é fazer o bem. pois “o sagrado não é vendido. 67 anos. No caso de cobreiro. a lagartixa ou o sapo. Geralmente. dependendo do mal que se acomete. Como a água benta que encontramos nas igrejas católicas. a benzeção é feita mais de uma vez.cura. Como neste 7 . marcada com manchas de bolhas coloridas. “São bolhas de pus que provocam muita coceira e podem cobrir o corpo todo e levar à morte”. não importa a quem”. Enquanto estiver sendo benzido. Como as rezas para a cura do cobreiro. outros cozem ritualmente com agulha e pano. De modo geral. Às vezes. embora variadas. entremeadas de palavras incompreensíveis. por isso não se deve cobrar por nenhuma reza. ou simplesmente a benção. Há diversas maneiras de curar a doença: uns fazem cruzes com tição de fogo por cima do cobreiro. é trocado. por sua vez. Todos fazem alguma benção com suas rezas e orações que. considerada benta. Há benzeções para doenças específicas e outras que servem para qualquer doença. um distrito de Uberlândia. na maioria das vezes. uma doença dolorosa da pele.

Trata-se de uma luxação. nervo rendido. Todas concordam com os sintomas da doença: dor nas pernas. é causada. ou peito caído./ esse osso que aqui quebrou”. Também na Bahia. tomando a medida e rezando. lagartão. para muitos. A espinhela caída. que eles passam sobre as manchas. sapão. Há vários outros males no mundo mágico das benzeções. na região do tórax. para se saber se a espinhela está caída./ Não apareça. Cristo ressuscitou/ emendai esta carne. reza: “Cristo nasceu. ou carne quebrada. que me auxilie nesse momento. osso partido. pelo peso que a pessoa pega. a espinhela está caída. Tomando este tamanho duas vezes passa o fio na cintura da pessoa. uma torcedura numa parte qualquer do corpo. O ritual acontece assim: o benzedor pergunta ao doente:/ que é que eu benzo? Resposta: carne quebrada.exemplo. a 8 . O benzedor. arca caída. A medida é feita assim: com uma linha de algodão mede do dedo anular até o cotovelo. colocando um objeto de ferro na mão da pessoa./ Todo bico de emanação para que não cresça. benzedora da comunidade rural de Rio das Pedras./ Santa Iria tinha três filhas:/ Uma lavava. Depois reza a oração própria da espinhela caída. peito aberto. Se passar ou faltar um palmo. Outra cura bastante procurada é para o mau jeito. ela deve ser feita sempre em direção ao sol. sapo. para outros. Uma coisa os benzedores têm em comum: qualquer que seja a reza. sempre benzendo em cruz. Em todo o Brasil. benze-se cosendo com uma agulha e um novelo de linha./ Oferecidas às almas benditas. As benzedeiras trazem na ponta da língua a explicação do que seja a espinhela: é um ossinho mole que vem do coração. que primeiro trata o vento caído. Muitos também utilizam o talo da mamona e a faca. “tira-se” a medida. cochão. este nervo. Uma outra variante do ritual para coser carne quebrada. com que curaria?/ Com um Padre Nosso e três Ave-Maria. A doença dá mais em adultos e a cura deve ser procurada na benzedeira. de acordo com José Evangelista de Souza (1989:57). outra cosia e outra pela fonte ia. Repetem tudo três vezes. nas costas e no estômago. durante a benzeção. Com um fio de algodão ou uma toalha. diz Tereza Gomes Rodrigues. lagarto. não ajunta o rabo com a cabeça. segundo a crença popular. colhido na zona rural: O que corto?/ Cocho. Os benzedores dizem: “coser de jeito”. ou ainda. para usar a linguagem mais comum entre os benzedores./ Perguntou a Santa Maria: /Cobreiro bravo.

de boa sorte. animais. 1989:22). são curadas com as simpatias que. A própria palavra simpatia já sugere uma coisa que não se explica. o funcionamento dela supõe alguma relação íntima entre homens. soluço e diversos outros tipos de doenças. Diferentemente das benzeções. estudando plantas medicinais e benzeduras. suas arcas a seus ventos. como a brotoeja ou brotoejo. Outras benzedeiras medem o tamanho do braço em posição vertical para depois tirar a medida nos ombros. Muitas vezes aparecem em conjunto com remédios e rezas. Para se ter uma idéia. interior de Minas Gerais. por exemplo. Se não coincidirem. mudando o curso dos acontecimentos. ou para secar. deve-se fazer uma oração três vezes seguidas: Jesus Cristo nasceu. espinguela de ( fala-se o nome) levantou . são mais difíceis de explicar e de entender. O valor da benzeção reside exatamente na sua privacidade e no fato de transmitir-se entre os escolhidos. uma doença infantil bastante 9 . como a benzedeira Geralda Preta. sendo pois privilégio de um pequeno número de iniciados. a espinhela está normal. Se coincidirem as medidas. conforme a região do benzedor. para não secar. asma. Já nas simpatias não há necessidade de uma pessoa especial (Gomes & Pereira. para evitar o mal e alcançar o bem. a própria pessoa faz: para crescer o cabelo. Téo Azevedo (1981:22). a espinhela está caída. A palavra vem do grego e significa “sentir juntos o mesmo. Outras. Há várias outras variantes da oração. Diversas doenças. hemorróidas.” Embora a simpatia não se explique. Há algumas que a pessoa envolvida não pode saber. Enquanto as benzeções são restritas a algumas pessoas escolhidas na comunidade e ocorre de forma reservada. Há simpatias de amor. o amuleto que muitos carregam é uma espécie de simpatia. as simpatias se caracterizam por ser qualquer recurso material que pode ser usado pelas pessoas em geral.benzedeira mede da ponta do dedinho à ponta do cotovelo. plantas e planetas. espinguela emborcou/ Jesus Cristo ressuscitou. espinguela caiu/ Jesus Cristo levantou. E há simpatias de prevenção. Após a “tomada” da medida. epilepsia. para ganhar no jogo. para fechar o corpo. Depois de um ombro ao outro. a simpatias servem para curar verrugas. as suas arcas/ põe tudo em seu lugar/ sua espinhela. faz a sua oração:Barquinho de Santa Maria tá no mundo sem parar/ levantando a sua espinhela. principalmente aquelas próprias das crianças. nos conta. o leite materno. são as simpatias. Na medicina popular. da cidade de Bocaiúva. como elemento menos racional.

Para isto. Levanta-se algum boi deitado e coloca a criança no mesmo lugar quentinho onde o boi deitou.feiras seguidas. basta na sexta feira santa fazer um cordão com talo de mamona e colocar no pescoço da criança. nunca à tarde ou noite.nascida. Para a criança que não anda no primeiro ano de vida deve-se pegar uma rama de batata doce com a raiz. Com a simpatia cura-se também a bronquite. 1999). até varrer o medo para a rua (Megale. para tratar do brotoejo. para diminuir o umbigo grande da criança. Para os bebês com soluço deve-se colocar um pedaço de papel ou fiapo de coberta molhado em saliva da própria mãe em sua testa e o soluço passará. A simpatia é usada. há várias soluções: tomar a água da primeira chuva de janeiro. Se o que se quer é tirar medo de criança. O gesto mágico de bater um prego numa árvore para livrar de febre. já existia na Europa antiga. depois deve-se enterrá. conforme ela crescerá a criança passa a andar. pegar um ovo de galinha caipira. e dar água para beber. colocar a criança em baixo de seu umbral.los. acaba a coqueluche. o umbigo vai diminuindo. levar a criança doente logo de manhã. Esse ritual deve ser seguido por três anos consecutivos. As simpatias são usadas também para proteção: plantas como espada-de-São Jorge e guiné são usadas como simpatia e protegem moradias e locais de comércio de maus olhados 10 . Há outras situações bastante freqüentes e conhecidas. numa sexta-feira santa. tomar água na campainha (ou sineta) da igreja. durante três sextas-feiras seguidas. à medida que secam os talos. bem cedinho. na última plantar pela manhã ou ao meio dia. Trata-se de uma erupção na pele da criança recém. sobretudo na zona rural. varrer em torno da criança e dizer “que varre o medo da criança”. para acabar com coqueluche. no curral. quebrar e servir para a criança. O prego é um instrumento bastante usado nas simpatias. pela ação do cupim. Aqui em Uberlândia. dor de dente e hérnia. repetir por três sextas. a mãe deve bater um prego novo num cupim. Basta. na casca do ovo. o jeito é escolher três portas tomando a direção da rua. pré-cristã e perdura até hoje. colocá-la no chão e dar três pequenos cortes. coloca-se um pedaço de caco de telha no fogo até ficar vermelho e coloca na água de banho da criança. Conforme uma simpatia tradicional.conhecida. Para as crianças que não falam no tempo esperado (a partir de 12 meses de idade). também. repetir a mesma situação nas duas últimas portas. Na medida em que o prego some.

Também pode bater com uma pedra em três rastros do animal. juntamente com o remédio. de dez em dez./ de onze em onze. a simpatia e o remédio. de sete em sete. Como esta. de dois em dois. fazem parte da sabedoria popular. a cura implica num ritual: uma oração no sentido amplo. bastante semelhantes. estudando as crendices lá pelo nordeste./ De três em três. delegado não se salva. Mesmo não separando vida e religião. A gente que faz a cura 11 . registrada em Goiás e que deve ser repetida três vezes: Assim como o trabalho no dia de domingo não põe ninguém pra adiante. não se salva/ oficial de justiça não se salva. juiz de direito não se salva. Os animais também são curados de seus males pelos benzedores. Quando um animal tem maus. A reza. 1978). nem se separam no tratamento da pessoa doente. Como a bicheira. de quatro em quatro. tem como objetivo salvar o doente como um todo. Mas não são apenas os humanos que podem usufruir das rezas e das benzeções. caia de um a um. Outros cobrem o rastro com uma pedra. e algumas simplificadas. nem o remédio. até ficar nenhum (Lacerda. que não se contradizem em momento algum./ caia de um em um. i sto é. registra a seguinte reza: Maus que come. de seis em seis. de nove em nove. de treze em treze. A benção./ de oito em oito. de doze em doze. Mas. de três em três./ promotor não se salva. que não contradiz a simpatia. é claro. Não é possível falar de todos os tratamentos populares. Outras tantas rezas contra bicheira./ Será também os bichos desta bicheira/ Há de cair de nove a nove. o sábio e o competente trip é da medicina popular. as causas e os remédios são vários. formam o sagrado. o verme da bicheira. Em muitas doenças./ de cinco em cinco./ E assim.e outros fluidos maléficos. Getúlio César (apud Seraine. é possível curar no rastro. Basta passar um ramo verde sobre o rastro do animal. de sete a sete. Um “remédio” usado contra a bicheira é o pó de café. Eles fazem parte do agir coerente dessa gente simples e humilde que faz a benzeção em nosso país. 1977). a força maior da cura está no poder da oração. ou o profano e o sagrado. não fique nenhum/ Amém. essa gente sabe muito bem a diferença entre um remédio e uma oração. não se logra/ quem come e não reza. de cinco a cinco. de um a um. ferida causada por larvas da mosca verejeira. Na sabedoria popular.

o movimento das pessoas à procura de benzeção é constante e. Ela n ão pode determinar quando vai benzer porque “curar é dom de Deus e deus não tem hora para fazer o bem. mau olhado.” Percebe-se que dona Dirce era cercada de uma estrutura para conhecer as práticas das benzeções. aos 78 anos ela recorda como iniciou na benzeção: “Eu aprendi com minha mãe. Em sua casa modesta. benzedeira de Sobradinho. ela ensina. Eles vêm da vizinhança. A partir daí não parou mais e até hoje benze muitas pessoas. também. Ela conta que os fazendeiros a buscam em sua casa. aprendeu as rezas e começou a benzer. Ela cresceu vendo a sua avó e a sua mãe benzer crianças e adultos. Para ser um bom benzedor. crianças e adultos: quebranto. Tinha 12 anos. 12 . Para cada mal existe uma reza própria. É preciso ter muita fé. não tem hora. ela nunca se sente solitária. porque senão nada acontece. um povoado rural no município de Uberlândia. Como a maioria dos benzedores. cobreiro. 1977:154). sempre tem alguém em busca de uma benzeção. ela já adianta. Aos dezesseis anos. ela garante os resultados. Depois da mãe. como as bênçãos para curar a dor de cabeça e cobreiro. o que reflete na doação do trabalho (Araújo. além do dom. berço das mais variadas tradições. Com o terço nas mãos. é preciso ter muita fé e religiosidade. Além de crianças e adultos. No começo eu fazia e não acreditava. E outras ela aprendeu em sonho. mas todas devem ter o Pai Nosso e a Ave Maria.No pequeno distrito de Martinésia. daí a gente foi vendo o poder que tinha. Deve-se rezar todo dia e crer muito em Deus. engasgamentos e muitos outros incômodos. incentivada pela mãe. ela acredita que a cura vem de Deus. sem dia e sem hora. das redondezas e mesmo da cidade e isso não tem dia nem hora para acontecer. Aquele que recebe um dom deve dar-se. Dona Maria conta que ainda criança aprendeu a benzer com sua mãe. muita fé e algumas rezas. todo dia Deus está olhando por nós. do poder dado por Deus. foi sua sogra quem lhe ensinou mais algumas rezas. de 79 anos. sapinho.” Dom significa doação. Apesar de sozinha. vive dona Maria Januária. ninguém acredita”. o mais antigo da cidade de Uberlândia. Hoje. “Não sou eu que curo. é Jesus. “Quando conto isso.” Também na casa de dona Dirce Aparecida Oliveira. ela me ensinou as rezas e a gente foi fazendo e vendo fazer. Maria Januária benze também fazendas e plantações para tirar cobras e lagartos.

que mora em Uberlândia. Ele não tem todo o dia disponível. Tradição de família. Nos demais dias atende as pessoas que o procuram. a lua. que ele também garante ser divino. e não tão supersticioso quanto ele. Ele reza sempre frente a um altar. como dona Maria Januária e dona Dirce. Diferente de Tonico. O dom.”Em cada tipo de benzeção há uma reza diferente: uma Ave Maria. de 47 anos.” Tonico explica ainda que. suas angústias. aos 20 anos. depois de passar a teoria para o sucessor. a terra e o ar. um Pai Nosso e. abrangendo a relação dos benzedores co m o espaço e o tempo. ele conta. Mas quando atende benze cobreiro. onde estão vá rias imagens de santos. são reservados para a cura dos animais. Por isso. foi percebido pela mãe quando ele ainda era criança. Benzeção é coisa sagrada. Embutido a 13 . “Meus bisavós eram índios e tinham o conhecimento das ervas”. Ele acredita que “se essa promessa for quebrada. juntamente com suas crenças e cosmovisões. diz que tem muita fé no poder da natureza. porque tem compromissos com seu trabalho. Mas ele só começou a benzer tempos depois. Aldoresti tem dias programados para o atendimento. o benzedor Aldoresti José Rosa reza sempre em voz alta. o benzedor Antônio Carlos Pereira. O conhecimento não pode ser passado para qualquer pessoa. sábados e domingos.Conhecido por Tonico. seus desejos e sonhos. “Deus é tudo isso”. é necessário aguardar sete meses pela permissão espiritual. é uma missão. Só depois pode-se começar a exercer o ofício de fé. Também é preciso fazer um juramento de guardar em segredo as palavras que curam. acrescentando que não benze depois do por do sol. pois “para se chegar a ser um benzedor tem muito sofrimento. algumas palavras que são segredo. espinhela caída e queimaduras. Também tem um local próprio. a vida da pessoa fica embaraçada. ele reza as orações em tom quase imperceptível. mas sempre de acordo com a disponibilidade de seus horários. Mais do que relatos de vida. mau-olhado. Nas falas dos benzedores podemos perceber que a rede de significados que perpassa pelas concepções e práticas de cura é tecida por múltiplos fatores que vão além da relação corpo/saúde/doença. quebranto. ainda. ele diz. o que temos em nossas mãos são os seus sentimentos. foi ela quem lhe ensinou os primeiros passos das benzeções. é preciso um crescimento espiritual. é preciso ter uma permissão. erisipela. É por esta razão que ele usa muitas plantas em suas benzeções e faz questão de respeitar as matas como também o sol. Os finais de semana.

que é bem diferente da nossa. “Está prevalecendo mais a mentalidade comercial. Maria Januária diz que a benzeção está acabando porque as pessoas estão perdendo a fé. amigos. Dirce Aparecida acha que o dom de fazer o bem através da reza não está sendo repassado para outras pessoas. os nomes dados aos membros do corpo até a própria interpretação da doença e. desde o lugar do tratamento. Os benzedores tratam seus doentes com rezas. seus remédios. continuar a ignorar o pensamento da metade da população brasileira. É preciso tentar entender as suas histórias e suas realidades. Para nós. portanto. para aprender as rezas e os rituais das benzeções. vizinhos e as pessoas que buscam e esperam ajuda. O teólogo e historiador. a tradição da benzeção está correndo o risco de acabar. O povo guarda as suas cantigas. simpatias e benzeções. que geralmente vivem nos povoados rurais. é impossível imitar suas rezas. procura aqueles que manifestam o dom que receberam. Para muitos benzedores. Eles transmitem uma grande paz e pelejam com o doente. É grande a diferença entre o oficial e o popular. embora possa recorrer a Deus diretamente. nem de familiares nem de amigos. acha que os benzedores não estão encontrando os sucessores certos. “O homem é tão sensível que precisa de um sinal externo que confirme o seu contato com Deus e o benzedor é que lhe dá essa crença. Diante do tratamento dado pelos benzedores. José Lucindo Pinheiro. conforme a sua crença. mas muito diferente da nossa vida. acredita que a tradição dos benzedores está acabando em função do avanço tecnológico que está sendo empregado sobretudo na medicina. o Tonico. da sua visão de mundo. simpatias e remédios que não se contradizem em nenhum momento. As pessoas hoje acreditam mais na medicina do que no benzedor. é fácil enxergar que eles representam valores. direta ou indiretamente: familiares. A verdade é que hoje. se quisermos 14 . seus rituais de trabalho. Antônio Carlos Pereira. Tudo isso está perfeitamente adaptado à vida dos benzedores e à dos seus doentes. não há interesse. à prática dos benzedores. a partir dele próprio. seu modo de pensar.tudo isso estão as influências do meio em que vivem e das demais pessoas que com eles interagem.” Ele acrescenta ainda que cada pessoa. enquanto tiverem algum sentido na vida deles.” A benzeção é a mais viva forma da cultura nascida do povo e praticada pelo povo. consequentemente. Para ela. servindo de referência para os moradores do lugar. “Não podemos. já não é tão fácil encontrar benzedores. suas devoções. Eles são pessoas de vida exemplar. suas preces.

Oriente. Vozes. São Paulo. 1985. 1977. Rio de Janeiro. SERAINE. NEGRÃO. Mazza/EDUFJF. São Paulo. Porto Alegre. INL. Nilza B. Goiânia. 5a ed. mostram a sua resistência diante da cultura dominante dos meios de comunicação e das religiões oficiais que os discriminam. 3a ed. P. MEC. Brasiliense. Luis da Câmara. 2001:256). benzeduras. Dicionário do folclore brasileiro. Vozes. SOUZA. MEGALE. Nacional/ Brasília. ___. em suas múltiplas funções na vasta e rica cultura popular. I. Três. 1978. Referências Bibliográficas 15 . 1989. 2001. POEL. N. 1977. 2a ed. 1977. Vila Boa – História e folclore . Belo Horizonte. Ed. Itatiaia. 1981. O que é benzeção. 2a ed. 1984. São Paulo. a fé e a devoção percorrem décadas com a repercussão oral das graças alcançadas. Francisco Van Der (Frei). 6a ed. Petrópolis. Vol.efetivamente corresponder à expectativa da cultura e da civilização do nosso tempo” (Beltrão. Global. São Paulo. Elda Rizzo de . CASCUDO. 1984. Luiz. BELTRÃO. Apesar dos meios de comunicação de massa não darem visibilidade para essa manifestação popular. E. AZEVEDO. 1984. benzeduras e simpatias. com Deus me levanto. Alceu Maynard. simpatias . Plantas medicinais. OLIVEIRA. Itatiaia. Top-livros. Raízes e Histórias. São Paulo. Martins Fontes. Rezas. José Evangelista. ARAÚJO. ___. Juiz de Fora. Folclore Brasileiro. Regina. Plantas medicinais e benzeduras. Os benzedores. Antologia do f olclore Brasileiro. Petrópolis. São Paulo. 1999. Paulinas. Téo. & PEREIRA. 1989. EDIPUCRS. de M. Com Deus me deito. LACERDA. Medicina rústica. A. São Paulo. Dicionário do folclore Brasileiro. ___. Assim se benze em Minas Gerais. GOMES. 5a ed. Walter e outros. Folclore brasileiro/Ceará. Belo Horizonte. 1978. s/d. Folkcomunicação: um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias. Florival.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->