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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDipÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mals premente do que outrora,
!•"" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Estevao Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagao.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
SUMARIO
"Vos sois nossos irmios..." (Sao Justino)
CA
ai A Descoberta da América e os Arquivos Pontificios
•O
A "Política Secreta" do Vaticano

O Comercio aberto aos Domingos

a Dois Escritos sobre a Confissao Sacramental

O Depoimento de um ex-pastor protestante

Testemunhas de Jeová e Transfusáo de Sanque


s
"Árvore da Vida"
m A "Brincadeira" do Copo
O
oc Quem é o Papa Joáo Paulo II?
a.

ANO XXXIII JULHO 1992 362


PERGUNTE E RESPONDEREMOS
JULHO 1992
Publicacáo mensal
N? 362

Diretor-Responsável: SUMARIO
Estévao Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia
"Vos sois nossos irmáos..."
publicada neste periódico (SSo Justino) 289
Sempre em foco:
Diretor-Administrador: A Descoberta da América
0. Hildebrando P. Martins OSB e os Arquivos Pontificios 290
Trazando ás claras:
Administrado e diitnbuicao: A "Política Secreta" do Vaticano.... 297
Edicóes Lumen Christi Sim ou Nio?
Dom Gerardo, 40 - 5? andar, s/501 O Comercio aberto aos Domingos. . . . 304

Tel.:(021) 291-7122 Contraste:


Dois Escritos sobre
Caixa Postal 2666
a Confissáo Sacramental 309
Riode Janeiro-RJ
Faito católico:
20001 - 970
O Depoimento de um ex-pastor
protestante 316
tmprossáo e Encadernacáo
Confuto de consciéncia:
Testemunhas de Jeovd
e TransfusSo de Sangue 322
Nova Religiao:
■MARQUES-SARA/VA" "Arvore da Vida" 328
GRÁFICOS E EDITORES SA Como explicar?
feH I0ÍV173-949B - 273-9447 A "Brincadeira" do Copo 332
Gorbatchev opina:
Quem é o Papa Jo.So Paulo 117 336

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Jesús sabia que era Deus? - Paulo VI no Crepúsculo da sua vida.


- A capacidade de maravilhar-se. - Nova Era (New Age). - O
conceito de Deus na Grecia Pré-Cristá. - Pornografía: ameaca á
sociedade. - Do Anglicanismo ao Catolicismo.

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURAANUAL(12números)deP.R.:CrS 25.000.00- n°- avulso ou atrasado: Cr$ 2.500,00

Pagamento (á escolha)
1. VALE POSTAL á Agencia Central dos Correios do Rio de Janeiro em nome de Edicóes
"Lumen Christi" Caixa Postal 2666- 20001-970- Rio de Janeiro - RJ.
2. CHEQUE NOMINAL CRUZADO, a favor de Edicóes "Lumen Christi" (endereco ácima).
3. ORDEM OE PAGAMENTO, no BANCO DO BRASIL, conta N? 31.304-1 em nome do
MOSTEIRO DE SAO BENTO, pagável na AGENCIA PRACA MAUÁ/RJn? 0435-9. (Enviar
xeróx da guia de depósito á nossa administrado, para efeito de identificacáo üo paga
mento).
i"Vós sois nossos irmáos".
(Sao Justino)
i
A. ___
sois nossos irmáos e experimentáis as mesmas ¡ndagagóes
que nos, ainda que o ignoréis e nao o queirais", escrevia Sao Justino
mártir (+ 165) aos senadores romanos pagaos do sáculo II (Apologético
I11.1).

Embora as autoridades pagas perseguissem os cristáos, S. Justino


via nesses homens criaturas semelhantes as demais, dotadas da mesma
natureza, com suas aspiracóes ¡natas. Os pagaos procuravam respostas
no ámbito do meramente racional, e condenavam os cristáos por nao
abracarem as mesmas conclusóes que eles. Justino, porém, sabia que
todo homem é feito á imagem e semelhanga de Deus e por isto todos
tendem, cada qual a seu modo, ao mesmo Bem Infinito. Justino também
fora pagáo; procurara a verdade em varias escolas filosóficas, sem, po
rém, a encontrar; finalmente bateu a porta do Cristianismo, onde deseo-
briu o que procurava. Daf dizer ele posteriormente: "Reconheci que essa
filosofía (o Cristianismo) é a única segura e proficua. Eis por que e como
sou filósofo (cristáo)" (Diálogo com Trifáo8,2).

O cristáo hoje olha para seus semelhantes ateus ou indiferentes e


reconhece, por tras da sua hostilidade ou indiferenca, criaturas que Deus
fez para Si e que no seu Intimo nao podem deixar de procurar o Absoluto
ou o Infinito para o qual foram feitas. Procuram-no, porém, com as luzes
da razáo apenas, fechando-se num racionalismo dogmático; passam a
jurar pela ciencia, pela tecnología, pelo progresso da civilizacao como se
fossem mananciais de respostas e felicidade. Todavía a experiencia de
milhóes de homens que assim pensavam até 1989, foi amarga; as suas
esperances ruiram fragorosamente. Por isto o cristáo volta-se para eles
hoje com simpatía e Ihes pode dizer: "Sois nossos irmáos e experimen
táis as mesmas indagacóes que nos, ainda que o ignoréis e nao o quei
rais». Procuráveis apenas com a razáo». O racionalismo, porém, vos
frustrou. Eis que vos posso apontar as respostas da fé, que, afinal de
contas, sao mais razoáveis do que as do racionalismo. Com efeito; a or-
ganizaejío económico-política que os sistemas ateus vos propuseram, fa-
liu, porque artificial e desumana. As auténticas solucóes sao as da fé, que
paradoxalmente é mais razoável do que o racionalismo, pois a fé se abre
para a Transcendencia e o Infinito, do qual trazeis a marca em vossos
coraedes, ainda que nao o saibais. Os ditames da fé sobre o respeito a vi
da (aborto, eutanasia».), a sexualidade (amor livre, fecundagáo artificial».)
e o corpo humano sao a solucáo para problemas que lancam a sociedade
no decllnio moral e no caos»» solucáo que cedo ou tarde o vosso bom
senso reconhecerá como genuínas. Na verdade, o racionalismo é menos
razoável do que a fé".
O cristáo retoma assim o papel de Sao Justino e está pronto a
morrer mártir por sua fé, em fídelidade a Cristo e em servico aos ho
mens, seus irmáos. E.B.

289
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
ANO XXXIII - N? 362 - Julho de 1992

Sempre em foco:

A Descoberta da América
e os Arquivos Pontificios

Em sfntese: Em 1991 fot publicado no Vaticano o conjunta de 837do


cumentos pontificios relativos á América, datados do período de 1493 a 1592.
Mostram com vivacidade surpreendente o interesse dos Papas pela evangeli-
zagáo das novas térras, interesse entendido no mais puro sentido do termo
(cf. Mt 28, 18-20); póem também em relevo a compreensño dos Pontífices
pela sorte dos indios, que a Igreja procurou defender contra a violencia e os
abusos dos brancos, tratándoos como "tenras plantas" que mereciam espe
cial atencáo da parte dos pastores da Igreja.

A medida que se aproxima o dia comemorativo do quinto centena


rio da descoberta da América, avoluma-se a biblioteca respectiva. A pro
pósito foi publicado o texto dos documentos dos Papas que desde 1493
até 1592 trataram da colonizacáo e evangelizacáo da América. Trata-se
de documentos guardados no Arquivo Secreto do Vaticano; foram cola
cionados no seu teor original latino e publicados pelo Prof. Josef Metzler,
Prefeito do dito Arquivo e Diretor da Escola Vaticana de Paleografía Di
plomática e Arquivlstica, além de membro da Pontificia Academia das
Ciencias. A obra assim realizada teve o patrocinio da Pontificia Comissáo
de Ciencias Históricas; compreende 837 documentos em dois volumes,
que dizem respeito apenas ao primeiro século da evangelizacáo
(1493-1592)1.

1América Pontificia prioi saeculi evangelizationis (1493-1592). Docu


menta pontificia ex registris et minutis praesertim in Archivo Secreto Vaticano
exsistentíbus, coilegit, ediditJ. Metzler, mandato Pontifica Comitatus de Scien-
tiis Historias, Cittá del Vaticano 1991; 2 vols. 1528 pp.
i

290
A DESCOBERTA DA AMÉRICA E OS ARQUIVOS PONTIFÍCIOS 3

Visto que muitas pessos nao podem ter acesso a essas fontes his
tóricas latinas, é oportuno que ñas páginas subseqüentes se Ihes ofereca
urna panorámica do conteúdo das mesmas. Esta ajudará os historiadores
a julgar melhor os fatos e evitar afirmacóes precipitadas ou mesmo in
justas que se vém fazendo a respeito da evangelizado do Brasil. Perce-
be-se que, falhas e abusos, os documentos pontificios os registram e Ihes
propóem o necessário corretivo. Vé-se assim que nao se podem imputar
á Igreja como tal os erros cometidos... erros, alias, que nao anulam os
beneficios que, com reta intencáo, os colonizadores e missionários trou-
xeram aos nossos pafses.

Eis, pois, em slntese os elementos contidos nos dois citados volu-


mes.

1.0 constante interesse dos Papas

O primeiro ponto que chama a atencáo, é a grande solicitude dos


Papas, de 1493 a 1592, para com os problemas da América, procurando
resolvé-los dentro dos parámetros da época. Esta verifícacáo é, de certo
modo, comprovada pelo grande número de documentos emitidos por
cada Pontífice sobre tais assuntos, com excecáo de tres apenas (Pió III,
Adriano VI e Paulo IV), que governaram a Igreja por pouco tempo. Assim
temos:

Alexandre VI (1492-1503): 6 documentos;


Julio II (1503-1513): 11 documentos;
Leáo X (1513-1521): 30 documentos;
Adriano VI (1522-1523): 2 documentos;
Clemente Vil (1523-1534): 78 documentos;
Paulo III (1534-1549): 255 documentos;
Julio III (1550-1555): 55 documentos;
Paulo IV (1555-1559): 1 documento;
Pió IV (1559-1565): 16 documentos;
Pió V (1565-1572): 84 documentos;
Gregorio XIII (1572-1585): 155 documentos;
Sixto IV (1585-1590): 102 documentos;
Gregorio XIV (1590-1591): 44 documentos;

Todo esse interesse dos Pontífices tinha urna finalidade única: "A
fim de que a fé católica e a religiáo crista, especialmente em nossos tem-
pos, seja exaltada, se difunda e se propague por toda parte", como se lé
ñas Bulas de Alexandre VI ínter Caetera (3/05/1493) e Eximiae Devo-
tionis (1/11/1501), para nao citar outros documentos.

291
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

Em vista de tal finalidade, e somonte por causa déla, Alexandre VI e


os outros Pontífices - de acordó com a mentalidade da época - conce-
deram^aos reis de Espanha e Portugal a faculdade de ocupar as novas
térras "a fim de que o nome do nosso Salvador seja introduzido naquelas
regióes" e "os seus habitantes sejam levados a venerar o nosso Redentor
e a professar a fé católica" (Bula ínter Caetera de 3/05/1493); fazia-se
a ressalva, porém, de que as citadas regióes nao fossem sujeitas ao do
minio temporal de algum príncipe cristáo.

Em conseqüéncia, Alexandre VI mandava aos soberanos espanhóis


que, em santa obediencia, enviassem áquelas térras "homens honestos e
(ementes a Oeus, doutos, capazos e peritos para instruir as respectivas
populacóes e Ihes instilassem a .fé católica e os bons costumes". Ao
mesmo tempo, o Pontífice definía a excomunháo latae sententiae1
para toda e qualquer pessoa - ainda que de categoría imperial ou regia -
que se transferisse para as mencionadas térras em vista de lucro ou co
mercio, sem especial licenca do monarca (ínter Caetera 3/05/1493).
Houve, porém, abusos ou transgressóes de tais normas. Entre ou
tros, também alguns missionários, presumindo licenca dos Superiores,
levavam das colonias para a patria grandes quantias de dinheiro, sob a
alegacáo de que nao eram proprietários desses valores e tencionavam
distribui-los entre os seus familiares. Por isto Pió IV em 1562 ordenou
que, em santa obediencia e sob pena de excomunháo, esses missionários
se abstivessem de assim violar o voto de pobreza; além do qué, determi-
nava que esses missionários fossem meticulosamente revistados ao dei-
xarem as colonias de volta á patria (Provida Sedis Apostolicae So-
lertia. 12/08/1562).

2. Respeito pelas populares nativas

Já Alexandre VI falava dos nativos como sendo gente pacífica, que


acreditava em Deus Criador e, por isto, estava bem disposta (satis apti)
para abracar a fé católica. Numa Instrucáo dirigida ao Nuncio na Espa
nha, Pió V referia-se aos pagaos, que era preciso ajudar a observar a lei
natural e a unidade do matrimonio e animar a urna conversio sincera
mediante o bom exemplo dos cristáos.

Exortava outrossim as autoridades civis a dispensar a justica "com


mansidáo", levando em coma que se tratava de "tenras plantas"; quería
que nao se permitisse a ninguém - nem aos proprietários de térras nem a

'teto é, decorrente da perpetragao do próprio delito, sem necessidade


de processo ou julgamento.
i

292
A DESCOBERTA DA AMÉRICA E OS ARQUIVOS PONT1FÍCIOS S

outros funcionarios nem a algum cristáo - que reduzisse a escravidáo os


Indios nem em casa nem fora de casa, mas recorressem polidamente
apenas aqueles que aceitassem servir em troca de remuneracjio satisfa-
tória.

A Justina deveria ser administrada com tanta honestidade que os


novos cristáos pudessem a ela recorrer com toda a confianza e "se ale-
grassem por ver que eram tratados com tanta eqüidade como eram tra
tados os cristáos amigos". Para garantir este ideal, o Papa prescrevia que
os senhores, os jufzes e os outros oficiáis seculares fossem periódicamente
submetidos a visitas, no intuito de se averiguar se eram fiéis e de "casti
gar quem quer que fosse depreendido no erro, sem deixar impune a
opressáo dos pobres". Por último, dizia, "tenha-se grande circunspecto
para nao pegar em armas contra os gentíos e nao Ihes mover a guerra
sem as condigóes necessárias, de modo que seja guerra justa na qual nao
se proceda com crueldade" (Instruyo de 1566).

3. Severa condenado da escravidáo

Paulo III prescreveu rigorosa censura aqueles que, movidos


pelo demonio e seus representantes, reduziam os indios á escravidáo,
submetendo-os á violencia e tratando-os pior que os animáis (Ventas
I psa. 4/06/1537).

Alguns meses antes, o mesmo Papa dera instru^óes ao Nuncio na


Espanha a fim de que se empenhasse por extinguir um abuso: alguns
brancos, sob pretexto de que os Indios entrassem em contato com os ju-
deus e perdessem a fé, nao queriam que os indios, convertidos ao Cris
tianismo, embarcassem para a Europa e para Roma; na verdade, o que
movia tais homens brancos, era o receio de que os (ndios denunciassem
os maus tratos recebidos dos colonos e das autoridades civis.

Escrevendo ao arcebispo de Toledo em 29/05/1537, o Papa afirma-


va que "os (ndios nao devem ser privados da sua liberdade e das suas
posses; sendo homens e, por isto, capazos da fé e da salvacáo, nao de
vem ser destruidos pela escravidáo, mas convidados a vida crista me
diante a pregafáo e o exemplo". E acrescentava destemidamente: "É
melhor que se tornem judeus por livre escolha do que serem constrangi-
dos b fé pela maldade dos cristáos!" Para os transgressores, quem quer
que fosse, era prevista a excomunháo latae sententiae, da qual so-
mente o Papa poderia absolver, excetuados os casos de morte {Pasto-
rale Officium).

Os missionários que combatiam a escravidáo, sentiram-se apoia-


dos e encorajados por esses dois documentos. Todavía os colonos e ou-

293
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

tras autoridades civis nao se conformaram e pressionaram o rei de Espa-


nha, obtendo que a Bulla nao fosse publicada na Espanha e os seus
exemplares fossem retirados de circulacáo. Mais: a pressáo chegou ao
ponto que o rei induziu o Papa a publicar a Bula Non ¡ndecens, de
19/06/1538, pela qual eram retiradas as penas canónicas anteriormente
previstas para os escravagistas. Restava, porém, a proibigáo de reduzir á
escravidáo. Por isto, dado que os abusos contra os indios continuavam a
ser cometidos pelos colonizadores, Paulo III, dez anos depois, autorizou
os eclesiásticos a denunciar os escravagistas {a menos que só os conhe-
cessem mediante a confissáo sacramental); os indios, dizia o Pontífice,
nao deviam ser reduzidos á escravidáo nem maltratados, pois eram capa-
zes de se converter e de se salvar mediante a pregando e a bondade (Ex-
poni nobis desuper,29/06/1546).

O Papa reafirmou novamente o direito dos Indios convertidos á


propriedade. Com efeito; prevalecía a praxe de privar de todos os seus
bens os neófitos; até mesmo o direito de heranca Ihes era denegado. Em
conseqüéncia, muitos Indios deixaram de pedir o Batismo. Paulo III de-
clarou tal comportamento nao somente ilícito, mas também inválido; aos
Indios quería que se deixasse a posse dos bens mesmo ¡licitamente ad
quiridos, desde que nao fosse possfvel restitui-los ao seu legitimo pro-
prieta rio. O Pontífice lembrava ainda que Deus puniría quem quer que -
eclesiástico ou leigo - ousasse, sob qualquer pretexto, usurpar os bens
dos Indios. E nao somente o Papa quería garantir tal direito aos Indios;
ele fazia o mesmo em relacáo aos bens dos judeus convertidos ao Evan-
gelho (Cupientes ludaeos et alios Infideles,21/03/1542).

4. As "tenras plantas" '

Os Pontífices levavam em conta a fragilidade da conversáo das


"tenras plantas" (= Indios), e queriam evitar que se Ihes impusesse qual
quer fardo desnecessário. Prescreviam aos missionários que observas-
sem tal cautela. Donde se vé quanto é falso dizer que a Igreja quis sim-
plesmente transferir para o novo mundo o modo de viver o Cristianismo
próprio dos europeus. Em muitos casos aparece a tendencia a adaptar ou
suspender leis da Igreja, a fim de nao sobrecarregar os Indios.

Assim, por exemplo, quando um Bispo lancava o interdito sobre al-


guma igreja ou paróquia para punir graves faltas dos colonos espanhdis
ou portugueses, os Indios nao entendiam por que seriam eles atingidos
por pena táo severa: fechamento de igrejas e suspensáo dos oficios do
culto divino... Por isto Pió IV determinou que em tais casos os Indios po-
deriam freqüentar as igrejas interditadas, lá assistir á S. Missa e participar
de outras funcóes religiosas; assim se evitaría que os Indios, na sua sim-
i

294
A DESCOBERTA DA AMÉRICA E OS ARQUIVOS PONTIFÍCIOS 7

plicidade, se considerassem vftimas rejeitadas por Deus e pela Igreja


(Romanus Pontifex 12/08/1562).

Na mesma data, o Papa concedía a autorizacjio de se preparar o


Santo Óleo da crisma com bálsamo local, visto que era difícil obter o do
Oriente (Licet Ecclesia Romana, 12/08/1562). Mais: renovou por trinta
anos, em favor de todos os habitantes das novas térras, a faculdade de
comer laticínios nos dias de jejum e abstinencia, dada a dificuldade de se
encontrar peixe ou outros alimentos permitidos (Charissimus in
Christo Filius. 12/08/1562). Por motivos semelhantes, Paulo III havia
reduzido os dias de abstinencia de carne e de jejum (Attitudo Divini
Consilii, 15/06/1537).

Foram aínda mais benignas as concessóes feitas no tocante ao ma


trimonio. Assim, por exemplo, dado que os indios costumavam casar-se
com muita simplicidade, foram autorizados a se casar na Igreja mesmo
durante o Advento e a Quaresma, desde que o fizessem com sobriedade
de ornamentado e música (Etsi Sedes Apostólica, 12/08/1562). Tam-
bém foram concedidas aos Bispos ampias faculdades para dispensar os
(ndios de certos impedimentos matrimoniáis vigentes na Igreja (sem dú-
vida, ressalvando sempre a monogamia e a indissolubilidade). A razio
desse modo de proceder das autoridades era a consciéncia de que os In
dios constituiam um segmento do Cristianismo ainda principiante e ca
rente de especial atencáo (Altitudo Divini Consilii, 15/06/1537, In
Eminenti Militantis Ecclesiae Specula, 28/06/1566).

5. Comunidades diocesanas de pleno direito

Desde os primeiros anos da evangelizado, os Papas quiseram ver


na América nao urna parte marginal, mas parte integrante da Igreja Uni
versal», erhbora lá se atenuasse o rigor de certas leis gerais.

Assim logo aos 15/11/1504, o Papa Julio III, pela Bula Illius Fulciti
Praesidio, constituiu na Hispaniola (ilha de Haiti) a hierarquia eclesiásti
ca, com sede episcopal metropolitana em Yaguate e duas sedes episco-
pais sufragáneas em Mauá e Bainoá; para essas dioceses o Pontífice no-
meou os respectivos Bispos. Mas o rei da Espanha recusou-se a reconhe-
cer essa decisáo autónoma da Santa Sé, pois ele desejava exercer o pa-
droado sobre aquela regiio, designando ele mesmo as sedes diocesanas
e apresentando a Santa Sé os candidatos ao episcopado. O Papa houve
por bem delegar os direitos ao monarca, permitindo-lhe ampio e exclusi
vo exerctcio do padroado - o que obrigava a Coroa Espanhola também a
sustentar as dioceses por ela fundadas.

295
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

O padroado, se teve conseqúéncias negativas (demasiada ingeren


cia dos reis em assuntos eclesiásticos), deu outrossim seus frutos positi
vos: no decorrer do sáculo XVI foram-se criando novas e novas dioceses,
que se reuniram em Provincias Eclesiásticas sob o controle e o beneplá
cito da Santa Sé. As missóes entre os gentíos desenvolveram-se, assim
como a Vida Religiosa masculina e feminina (mesmo a contemplativa).
Houve grande empenho em que o clero falasse as línguas dos nativos,
a fim de poder-lhes ministrar a catequese diretamente, dispensando os
intérpretes.

Ergueram-se Seminarios para a formacáo do clero, que era geral-


mente recrutado entre ¡migrantes portugueses e espanhóis, sem, porém,
excluir os mesticos; a estes concedia-se a dispensa para receber as Or-
dens Sacras, quando nao eram filhos legítimos.

A piedade popular foi incrementada mediante Confrarias destina


das aos Indios e aos negros, a homens e mulheres. Os missionários mul-
tiplicaram, o mais possível, as escolas populares. Em 1538,1571 e 1580 os
Papas Paulo III, Pió V e Gregorio XIII ergueram as primeiras Universida
des respectivamente em S. Domingos, Lima e Santa Fé de Bogotá. Para
os pobres e doentes se fundaram abrigos e hospitais. Todas essas obras
sao apontadas com muita énfase nos documentos pontificios.

Os Papas Pió V e Gregorio XIII tentaram nomear um Nuncio


Apostólico para as indias Ocidentais a fim de fomentar os cuidados pas-
torais e coibir abusos de alguns missionários. Todavía os reis de Espanha
nao aceitaram a iniciativa, pois percebiam que, em última análise, ela
acarralaría a abolicáo do padroado (o Papa teria um representante ecle
siástico na América, que faria sombra aos monarcas, tidos como "Vigá-
rios leigos" do Pontífice). Foi preciso esperar ainda um lapso de tempo
relativamente longo para que a Igreja se pudesse emancipar da ingeren
cia do padroado.

Eis os principáis dados históricos que se depreendem do Arquivo


Secreto Vaticano com relagio aos primeiros cem anos de evangelizacáo
da América. Sao suficientes para mostrar como a Igreja oficial se empe-
nhou na educacáo religiosa e civil dos nativos com a mais pura intencáo
de cumprir o mandato'de Cristo. Se nem tudo correu a contento, isto se
deve, de um lado, h fragilidade dos próprios missionários (a qual, porém,
foi suplantada pelo seu heroísmo) e, de outro lado, á intervencáo do po
der regio, cujos oficiáis nem sempre nutriam interesse puramente religio
so.

Este artigo multo deve ao de Giovanni Caprile S. J.: Un secólo di do-


cumenti pontifici dopo la scoperta dell'América, em La Civiltá
Cattolica 19921, pp. 38-44.
\

296
Trazendo ás claras:

A "Política Secreta" do Vaticano

Em sfntese: O artigo póe em destaque tres casos, entre outros mui-


tos, nos quais o noticiario levado ao público sobre a atividade do Vaticano é
impreciso ou mesmo falso. Isto nem sempre se deve ámáfé dos repórteres e
jornalistas, mas explicase também pelo tato de que muitos documentos guar
dados em arquivos secretos dos Govemos contemporáneos sao falsos, ou
porque forjados por impostores interessados em falsificar a historia ou porque
os autores de tais documentos predsavam de despistar leitores estranhos,
induzindo-os intencionalmente a tirar conclusdes erradas.

A verifícacáo destas verdades ajuda o estudioso moderno a se acaute-


lar contra certas notfdas sensadonalistas que a imprensa escrita e faiada Ihe
transmite com relacáo á Igreja e sua atuagáo na política internacional, espe
cialmente durante os confíitos entre povos beligerantes.

E freqúente ouvirem-se noticias sobre "manobras secretas" do Va


ticano no campo da política internacional..., manobras nem sempre dig
nas do que se poderia esperar de urna instancia religiosa. Especialmente
os eventos da segunda guerra mundial (1939-1945) e a atuagáo do Papa
Pió XII frente aos nazistas e judeus tém sido objeto de comentarios po
lémicos e hostis. Também o Papa Joáo Paulo II foi recentemente apre-
sentado como parceiro do presidente Ronald Reagan, dos Estados Uni
dos, numa "Santa AManga" destinada a desfazer o bloco marxista do
Leste Europeu, a comecar pela Polonia; ver a propósito a revista Ti
me, 24/02/1992, pp. 6-13 (tal noticia, alias, foi desmentida pela Santa Sé).

Ora os pesquisadores dos arquivos dos Govemos da Europa e dos


Estados Unidos tém verificado que tais rumores sao, muitas vezes, in
fundados e preconcebidos. Destaca-se, nesse estudo, o Pe. Robert A.
Graham S.J., que, há varios anos, vem considerando a documentado
atinente so Vaticano e á segunda guerra mundial. Através de suas publi-

297
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

cagóes tem mostrado que numerosos relatos e noticiarios, até mesmo de


caráter oficial de alguns governos, sSo falsos; no tocante ao papel da
Igreja há muitas inverdades ou versees comprovadamente erróneas e
tendenciosas, derivadas de vaticanistas falsarios.- Eis a lista deartigos do
Pe. R. Graham publicados a respeito na revista dos jesuítas italianos "La
CiviltaCattolica"(LCC):

"II vaticanista falsario. L'incredibile successo di Virgilio Scattolini",


LCC 1973, III, 467-478;

"Goebbels e il Vaticano nel 1943. Un enigma risolto", em LCC 1974,


IV, 130-140;

"Voleva Hitler che fosse Pió XII a negoziare la pace? I viaggi uto-
pistici di Domenico Russo, "em LCC 1976 IV, 219-233;

"II Vaticano nella guerra psicológica inglese 1939-1945. La storia dei


si-b, cioé delle bugie autorizzate", em LCC 1978,1,113-133;

"II presidente Roosevelt e i falsi di guerra. II destino di una bugia",


em LCC 1985, III, pp. 112-125.

Em LCC 1992, I, 232-237, o mesmo autor publicou o artigo: "Una


trappola per gli storici. I falsi sul Vaticano: 1939-1945" (Urna armadilha
para os historiadores. Os falsos documentos sobre o Vaticano:
1939-1945). Este artigo merecerá, ñas páginas subseqüentes nossa aten-
cjto detida, visto que póe em claro relevo a falsificacio de noticias religio
sas, conforme os interesses dos governantes durante a segunda guerra
mundial.

1. Observacio Geral

Os recentes estudos da historia da segunda guerra mundial vém-


nos ensinando quáo freqúentemente os documentos oficiáis (e, por isto,
presumidamente verídicos) foram manipulados ou mesmo falsificados
até pelos seus própríos autores. Isto torna muito difícil o papel dos pes-
quisadores, que, obrígados a recorrer a tais docurnentos, sentem por ve-
zes a impressáo de estar pisando num campo cheio de minas.

Os motivos de envenenamento das fontes da historia sao, nao raro,


legítimos e até inevitáveis em certos casos. Leve-se em conta, por exem-
plo, a necessidade de nao dar a conhecer ao inimigo o fato de que o seu
código cifrado foi violado e, por isto, já perdeu seu valor cifrado. Consi-
dere-se também a obrigacio de despistar o inimigo, quando o emissor
sabe que este interceptará a mensagem (é preciso que, mesmo intercep
tando-a, o inimigo nao possa colher as noticias estratégicas que Ihe ¡n-
i

298
A "POLÍTICA SECRETA" DO VATICANO

teressam). Um caso embarazoso ocorreu, por exemplo, em 1343, com Sir


d'Arcy Osborne, Ministro da Grá-Bretanha junto á Santa Sé: descobriu
que os inimigos (os italianos) haviam decifrado as cifras com que ele se
comunicava com Londres; mas nao podia avisar o Governo inglés a res-
peito; em conseqüéncia, passou a enviar a Londres mensagens que nao
correspondiam bem á verdade e deviam atordoar os italianos; ora tais
telegramas engañadores se ertcontram até hoje nos Arquivos da Ingla
terra, sem alguma explicacáo sobre a situacáo subjacente.

Havia também relatos falsos por causa de interesses particulares ou


no intuito de passar urna ¡magem deformada de determinados persona-
gens ou acontecimentos. Estes documentos todos vém a ser armadilhas
para os pesquisadores, que muitas vezes nao sabem como reconstituir a
verdade ou quais os descontos que devem fazer sobre as noticias recebi-
das para chegar a face auténtica da historia.

2. Os relatos sobre o Vaticano

As retacees diplomáticas e os relatónos dos Servicos Secretos ati


nentes ao Vaticano estáo envolvidos no drama apontado. É de notar que
o Servico Secreto Americano em Roma, após a segunda guerra mundial,
pagava a Virgilio Scattolini, suposto vaticanista, 500 dólares mensais para
receber urna farta documentacáo sobre assuntos do Vaticano, documen-
tacáo forjada em grande parte, que ainda hoje faz parte dos Arquivos Na-
cionais dos Estados Unidos e pode servir de falsa fonte de informacóes.

Eis alguns exemplos de disparates que foram apresentados ao pú


blico como "furos jornalfsticos" e que destoam da verdade.

2.1. O caso "Odo de Wúrttemberg"

O jornal cotidiano de Londres The Times é tido como fonte infor


mativa fidedigna; goza de bom conceito. Ora aos 4/11/1940 publicou sur-
preendente noticia: o Führer Adolf Hitler teria revelado a um monge be-
neditino da Abadia de Beuron, o Pe. Odo de Württemberg (no século,
duque Carlos de Wúrttemberg), seus projetos relativos á Europa e á Rús-
sia. Note-se que o Pe. Odo era um prófugo alemáo, que, fugindo do Go
verno nazista, se retirou primeiramente para a Sufca, onde ajudava ou-
tros exilados; em meados de 1940 tentou viajar para os Estados Unidos,
via Lisboa. Eis as confidencias que Hitler teria feito ao Pe. Odo e que fo
ram publicadas pelo The Times,com a rubrica: "Bem autenticado":

"Urna única vez eu me acheguei ao alabo, a Stalin, quando assinei um


acordó com ele em agosto de 1939. Devo confessar que, para mim pessoah
mente, aquele fot o ala mais triste da minha vida, porque muitos pensaram que

299
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

eu tívesse traído os meus próprios principios. Mas a historia me perdoará. Eu


o fe únicamente em vista da grandeza da Alemanha. Todos, o mundo inteiro,
me perdoarño e me seráo gratos quando eu libertar o mundo da besta bolche
vista".

Continua o jornal, expondo a piedosa apología que Hitler teña feito


dos valores religiosos:

"Nos criaremos de novo as espléndidas tradigóes dos Cruzados. Cum-


priremos a nossa missáo, levando a dvilizagáo á Europa Oriental. Um grande
campo de agáo se abrirá e haverá muito que fazer, para o clero católico ale-
máo, entre pessoas que até entSo teráo fícado na selvageria, privadas pelos
hebreus e pelos bolchevistas nño somente da sua térra, mas também do pro-
prio Deus".

O jornal publica, a seguir, o convite de Hitler - e este era o ponto


mais significativo para o anónimo correspondente inglés - para que o Pe.
Odo procurasse ganhar a compreensáo e a ajuda dos americanos:

"Todas as nagóes cristas devem ser chamadas e mobilizadas para a


luta contra o comunismo e contra a cosmovis&o judeo-marxista, que 6 táo mi-
nha inimiga quanto oé da Igreja. Em vista desta fínalidade, o Sr., Pe. Odo, de-
verá trabalhar entre os cheles dos cristáos na América do Norte. Após urna
guerra total, vira urna paz total. A Providencia assinalou a nos, alemñes, a ta-
refa de delinear a futura ordem da Europa, e nos levaremos a termo este en
cargo como deve ser levado".

Como pode o jornal de Londres publicar noticia táo estranha ou


mesmo grotesca?

O Pe. Odo estava ausente da Alemanha desde 1933; era notoria


mente antinazista e, por isto, passara para o exilio. Logo que chegou aos
Estados Unidos, organizou um grupo de alemáes antinazistas como ele,
para preparar programas radiofónicos dirigidos a Alemanha. Deu a co-
nhecer ao público norte-americano os exterminios em massa realizados
ñas cámaras de gas pelos nazistas contra os deficientes físicos e mentáis.
O Pe. Odo, além disto, tinha bom relacionamento de familia com a no-
breza británica. Como entilo se poderia imaginar que fosse um agente de
Hitler para promover urna propaganda antiinglesa (= nacional-socialista)
entre os católicos dos Estados Unidos?

Anos mais tarde, tornou-se público que o autor daquela notfcia era
o correspondente do The Times chamado Iverach McDonald. Este es-
creveu as suas Memorias (A Man of the Times, Hamish Hamilton,
London 1975), livro no qual se refere á reportagem em foco. Relatou en-
táo que a fonte da ¡nformacáo sobre o diálogo Hitler-Odo fora um fun
cionario polonés no exilio - Stefan Littauer - adido á imprensa. A princl-
i

300
A "POLÍTICA SECRETA" DO VATICANO 13

pió, I. McDonald nao quis dar crédito as pretensas confidencias e pro-


messas de Hitler ao Pe. Odo, de mais a mais que era notoria a posicáo
antinazista do monge alemáo. Mas o comportamento do funcionario po
lonés parecia-lhe tao convincente que McDonald resolveu publicar a fa
mosa noticia em The Times de 4/11/1940. A propósito escreveu o pró-
prio McDonald:

"Era um relato estranho. mas muito vivo. O principal argumento em


contrario era a orientagáo (ortemente antinazista do Pe. Odo. Mas nSo podía
mos duvidar das infonvacdes dos poloneses, e publicamos as 'confidencias'
de A. Hitler aos 4 de novembro. Em conseqOéncia, recebi. poucas semanas
depois, a primeira carta proveniente de um alemáo após o inicio da guerra. O
padre me escreveu do outro lado do Atlántico, para dizer que fícara estupefato
ao ver a noticia, já que ele nunca dissera algo desse tipo'' {A Man of the
Times.p. 74).

Com outras palavras, a "bem autenticada" noticia do The Times


era falsa. Os seus desconhecidos autores tomaram a liberdade de usurpar
o nome de urna pessoa reconhecidamente antinazista para fazé-la "con
fidente" de Hitler.» e "confidente" de noticias aberrantes. Com efeito; en-
quanto Hitler "prometía ao Pe. Odo" urna grande atividade do clero ale
máo na Rússia do futuro, ele na verdade perseguía a Igreja na Alemanha;
para desfazer as sinistras ¡mpressóes que essa perseguicáo causava na
opiniáo pública e que a propaganda inglesa muito explorava, o relato
forjava confissóes de fé católica da parte de Hitler. Este cortamente estava
bem longe de compartilhar "as espléndidas tradicóes dos Cruzados".

Eis outro exemplo de falsas noticias referentes á Igreja durante a


segunda guerra mundial,... falsas nottcias, porém, comidas em arquivos
secretos oficiáis.

2.2. O caso "Ratlines" (Linhas-Mestras)

Em 1991. foi publicada em Londres a obra "Ratlines. How the Vati-


can's Nazi Networks betrayed Western Intelligence to the Soviets" (Hei-
nemann), obra devida a Mark Aarons, australiano, e John Loftus, norte-"
americano. Procura mostrar, na base de documentos colhidos em arqui
vos secretos de varios países, como "as redes nazistas do Vaticano traí-
ram, em favor dos soviéticos, os Servicos Secretos Ocidentais". Os dois
autores trabalharam durante anos, pesquisando documentos secretos,
especialmente nos Estados Unidos e na Grá-Bretanha, á procura de noti
cias que fossem furos jornalfsticos. Descobriram muitos dados nos arqui
vos americanos do OSS (Office of Strategic Services), servico se
creto para os tempos de guerra. Dos varios documentos consultados, al-
guns eram fidedignos, outros, porém, evidentemente falsos, embora ti-

301
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

vessem caráter oficial e fossem tidos como auténticos mananciais de no


ticias.

Eis alguns espécimens de falsas noticias publicadas por Aarons e


Loftus como resultado de suas pesquisas:

1) Os dois autores julgam ter descoberto urna chave sensacional da


política do Vaticano num documento secreto do OSS, redigido em Lis
boa, em meados de 1942. Nesta data, segundo o OSS. o Vaticano, de
comum acordó com Hitler, teña enviado urna missáo papal, chefiada pelo
Arcebispo de Palermo (Sicilia), Mons. Luigí Lavitrano, á Ucrania, que era
entáo ocupada pelos alemáes. A finalidade de tal missáo terá sido exami
nar as possibilidades de uniáo da Igreja Católica com os cristáos ortodo
xos orientáis. O relato do OSS dá a entender a Washington que a missáo
resultava de um entendimento entre os nacional-socialistas e o Vaticano.
Eis o texto do arquivo secreto:

"Missáo Vaticana na Rússia Ocupada. Lisboa. Os círculos ca


tólicos da Italia confirmam a noticia de que Pío XII enviou urna missáo chefíada
pelo Cardeal Lavitrano, Arcebispo de Palermo, para indagar a respeito da si-
tuagSo da Igreja na Rússia ocupada pelos nazistas. A imprensa católica tora
de Roma declarou que esta missño foi mandada a convite do Governo alemio
no intuito de estudar a possfvel unificacño da Igreja Católica Romana com a
Igreja Ortodoxa" (ver obra citada, cap. 8, p. 17).

O documento tem a dada de 7 de outubro de 1942; todavía esta de-


ve ser falsa, visto que o documento já circulava no mes de setembro, co
mo demonstram outras fontes.

Os autores do livro acrescentam urna noticia errónea, a saber: outro


documento do OSS afirmava que um conhecido prelado da Ucrania
acompanhava o Cardeal Lavitrano na sua presumida viagem.

Que dizer de tais noticias?

Deve-se afirmar com plena.certeza que nunca houve "missáo Lavi


trano" na Ucrania nem o Governo hitlerista negociou com a Santa Sé
a respeito de tal embaixada, de mais a mais que o Vaticano sofría repre
salias da parte nacional-socialista. Mais de urna vez Hitler mostrou que
jamáis associaria a Igreja Católica a algum triunfo seu na Rússia. Washin
gton, porém, ignorava tal situacáo, pois estava mal informada sobre as
relagóes entre Hitler e o Vaticano.

O documento do OSS passou do conhecimento do Governo norte


americano ao de outros Governos da época, sempre tido como portador
de noticia muito importante. O embaixador da Grá-Bretanha nos Estados
Unidos, Lord Lothian, informou o Governo de Londres a respeito; em

302
A "POLÍTICA SECRETA" DO VATICANO 15

conseqüéncia, o Foreign Office (Ministerio do Exterior) pediu ao Mi


nistro inglés junto ao Vaticano que controlasse a ¡nformacáo; Sir d'Arcy
Osborne respondeu com poucas e claras palavras: "Tudo isso é falso". E
acrescentou que, na verdade, os sacerdotes estrangeiros haviam sido ex
pulsos da zona russa ocupada pelos alemáes. Assim a Lavitrano Story
morreu de morte natural, mas foi ressuscitada pelos pesquisadores in
cautos Aarons e Loftus.

2} Outro trago significativo do livro destes dois autores é o seguinte:


pesquisaram outros documentos - por sinal, falsos - para langar suas
"descobertas". Assim é que publicaram dois relatos de pretensos colo
quios privados ocorridos entre Pió XII e seu mais próximo colaborador,
Mons. Giovanni Bañista Montini, da Secretaria de Estado e futuro Papa
Paulo VI. Comentam entáo Aarons e Loftus:

"Descebamos as provas de que o futuro Papa era urna fonte de infor-


magóes para os Servigos Secretos norte-americanos»., pois só Montini esta-
va presente quando ño XII elaborava os seus planos; só ele podía transmitir
esses relatos aos americanos".

Isto podia parecer muito plauslvel a Aarons e Loftus. - Na verdade,


porém, as audiencias confidenciais de Pió XII a Montini sao mera ficgáo
ou invencáo; nunca houve tal tipo de encontros do Papa com seu cola
borador. Foi o falsario Virgilio Scattolini quem forjou esses "encontros"
num volume publicado em 1948 com o título "Oocumenti Segreti delta
Diplomazia Vaticana. II Vaticano e la Democrazia Cristiana". Scattolini
vendia os relatónos desses pretensos encontros secretos (de Pió XII com
Montini) aos americanos1, que em Washington Ihes davam bom crédito,
como se fossem documentos fidedignos. Foi consultando tais documen
tos falsos guardados nos arquivos secretos dos Estados Unidos que Aa-
ron e Loftus forjaram a tese de que Montini era um agente dos america
nos.

É oportuno trazer estes fatos á baila, pois ajudam a dissipar rumo


res falsos relativos a historia da Igreja, principalmente dos últimos tem-
pos. Sabe-se que a imprensa escrita e falada faz sucesso, em grande
parte, pelo sensacionalismo que ela provoca, muitas vezes desligado da
verdade ou antagónico a esta. O leitor aprenderá a ser critico perante o
noticiario que Ihe é transmitido, precavendo-se contra a credulidade pre
cipitada.

1Como foi dito, os americanos pagavam mensalmente 500 dólares a


Scattolini para receber os documentos - auténticos ou nao - que este Ihes
tornéela.

303
Sim ou Nao?

O Comercio aberto aos Domingos

Em síntese: Baseado em refíexóes de Mons. Pedro Eyt,Arcebispo de


Bordéus (Franga). o artigo seguinte examina os argumentos apresentados por
quem deseja a abertura do comercio no domingo. Concluí que tal medida seria
pouco humanitaria, pois tirana a muitos ddadSos a possibilidade de se restau
rar ou de viver sua própria vida e a vida de familia no único dia da semana em
que os trabalhadores nao sao pega de engrenagem cega e impessoal. Mais:
o desrespeito aos domingos implicaría aos poucos também o desrespeito aos
das de (esta e quig¿L. aos ñns de semana escolares; as escolas funciona
rían) também aos domingos, pois nSo interessaria aos pais ter seus fílhos libe
rados se eles, pais, nao pudessem também ser liberados da rotina no domin
go. Com o lempo, a sociedade voltaria a pleitear a restauracáo do domingo pa
ra permitir ao ser humano levar uma vida mais humana e menos sujeita ás in-
jungdes do dinheiro e da máquina.

• • •

No Brasil vem-se discutindo a possibilidade de se abrir o comercio


aos domingos, ampliando, alias, algo que já vem ocorrendo, pois na ver-
dade o domingo está sendo mais e mais aproveitado para transacSes
comerciáis. O problema é de ordem social, sim, mas principalmente de
índole religiosa, visto que, para os cristSos, o domingo é o dia do Senhor,
dedicado ao culto de Deus e ao repouso.

Visto que em outros países, como a Franga por exemplo, o debate


ocorre candente, o Arcebispo de Bordéus, Mons. Pedro Eyt, houve por
bem escrever gm artigo relativo á questáo, publicado no jornal L'Aqui-
taine de 10/01/92. Embora se retira diretamente a realidade francesa, o
articulista faz ponderacóes válidas também para o Brasil; daí a oportuni-
dade de as transcrevermos em traducáo brasileira. - Notemos que a ar-
gumentacáo se baseia em razóes antropológicas mais do que em argu
mentos teológicos, pois se trata de dialogar com o grande público inte-
ressado na questáo.

304
O COMERCIO ABERTO NOS DOMINGOS T7

I. O DOMINGO E O COMERCIO

"Parece já que há oito milhóes de franceses a trabalhar no domin


go; sao notorias as profissóes dos transportes, dos servicos públicos, da
rede hoteleira, da imprensa, das emergencias médicas, etc.; exigem con-
tinuidade obrigatória de atendimento e, conseqüentemente, horarios de
trabalho dos respectivos profissionais.

Em conseqúdncia, sao muitos levados a pensar: se as coisas já es-


tio neste pé, por que considerar abusos táo grande número de excecóes
feitas a urna regra históricamente venerável, mas socialmente enigmáti
ca? Será oportuno continuar a regulamentar o trabalho no domingo?

Mais: para muitas pessoas, os horarios da semana sao táo carrega-


dos de ocupacóes que o domingo se torna o dia em que cada um pode
gozar da sua liberdade de ir e vir e, por conseguinte, efetuar seus nego
cios e suas compras. Ao domingo tocariam mais particularmente a com
pra de bens culturáis, ou os passos dirigidos para servicos dessa nature
za. Isto explica que tenha surgido e tomado vulto a idéia de pedir a
abertura, no domingo, do comercio de bens culturáis e de servaos con
géneres, como sao os de livros, discos, material de televisáo, Hifi, etc.

A Igreja Católica sempre atribuiu grande importancia ao domingo.


Sao Justino (+165) já o exaltava no sáculo II. O 'dia do Senhor', dies
dominicalis, Páscoa semanal da Ressurreicáo, primeiro dia da semana,
o domingo dos nossos calendarios deve ser celebrado e santificado pe
los cristáos, que o consideram também o dia do repouso prescrito por
Deus desde a criacjo do mundo. A Igreja Católica espontáneamente as-
sociou santificacáo e repouso do domingo. Aos seus olhos, há portanto
um motivo nao somente religioso, mas também social para que os cris
táos estejam atentos ao domingo. Também as eventuais mudancas na lei
civil devem merecer, a pleno direito, a nossa vigilancia pastoral, como no
plano trabalhista elas merecem a atividade das organizacóes sindicáis.

O pedido de legitimacáo do comercio estender-se-ia, do comercio e


dos servicos culturáis, a todos os tipos de comercio; n3o há por que nao
imaginar que esse pedido abrangeria também a legitimacáo de todo tipo
de transacáo económica. A argumentado tende a ser globalizante. O seu
motivo principal consiste em propiciar a máxima liberdade aos consumi
dores.

Todavia os sofismas que justificam tais consideracóes, sao muito


discuttveis. Com efeito; a fim de justificar o trabalho dominical, apelam
para o grande número daqueles que jé o praticam. - Mas perguntamos:

305
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

por que estender a todos os trabalhadores ou, ao menos, a novas cate


gorías de trabalhadores, encargos ¡ndevidos e socialmente nao justifica
dos? O que, para alguns, é uma obrigacáo socialmente necessária, nao
-deixa de ser também um constrangimento muito pesado e, freqüente-
mente, nocivo para a vida das pessoas, dos casáis, das familias.»

Para justificar mais ampio trabalho aos domingos, apelam princi


palmente para o fato de que no domingo os cidadáos gozam de horarios
mais propicios para negocios e compras. - Reconhecemos que nos dias
úteis há um problema de falta de tempo. Mas será que se pensou no se-
guinte? - Quando todos estiverem trabalhando no domingo, este dia, que
atualmente ainda está resguardado, já nao terá mais valor do que qual-
quer outro dia da semana.

Por fim, para legitimar o comercio no domingo, apelam também


para o pretexto de que se propiciará o acesso aos bens e aos servicos
culturáis. - Este argumento, ¿ primeira vista, poderia valer-se da distin-
cáo entre obras servís e obras liberáis, distincáo observada pelos mora
listas católicos do passado. As ocupacóes culturáis pertenceriam ao gé
nero nao servil e poderiam ter lugar no domingol Aqui, porém, é preciso
lembrar que certos servaos culturáis já sao oferecidos no domingo: mu-
seus, cinemas, teatros, concertos, vida de associacdes, etc. Quanto ao
acesso aos bens e servicos culturáis de que se trata no debate atual, po
demos sempre perguntar: que é que se entende por cultural? Comprar
um livro ou ler um livro? Comprar um disco ou escutar um disco? Por
certo, nao é indiferente ir a uma livraria ou a uma loja de discos. Mas re-
conhecamos: este gesto só tem alcance cultural em funcáo dos atos que
se Ihe seguem. Ora ler, escrever, produzir música, participar da vida so
cial, visitar a cidade ou a aldeia natal, praticar o esporte, entrosar-se na
vida da Igreja... e tantas outras atividades só podem ocorrer se se salva
guarda um tempo social livre e protegido. Para garantir o acesso aos
bens e servicos culturáis, os poderes públicos primeiramente tém que
respeitar o tempo socialmente livre e protegido da nossa tradicáo: o do
mingo.

O alcance social do debate relativo á abertura do comercio no do


mingo contradiz á aparente indiferenca e neutralidade política e cultural
que esta questáo tem á primeira vista. Caso se tome uma decisáo de or-
dem geral em prol da abertura do comercio aos domingos, a nossa so-
ciedade entrará em nova fase de desestruturacáo. Se tal decisáo ocorrer,
ela acarretará também a continuidade das atividades escolares até aos
domingos. Com efeito; por que dar ferias nos fins de semana aos filhos
estudantes se os pais, nessas mesmas ocasióes, forem mais e mais cons-
frangidos a trabalhar?
\

306
O COMERCIO ABERTO NOS DOMINGOS 19

Os cristáos e seus pastores nao podem deixar de se interrogar so


bre este problema. Em breve, o día do Senhor poderá ser aínda menos o
dia do Senhor. A seguir, os dias de testa perderáo seu caráter festivo para
tornar-se dias de trabalho, como já vem acontecendo. O tempo social as-
si m atingirá o grau máximo de secularizado.

Nao está no espfrito da nossa fé e da nossa responsabilidade calar


nos e nada fazer a tal respeito. É certo que a Franca tem tres milhóes de
desempregados, mas nao é este o seu único problema. Tal debate é, en
tre outras coisas, um sinal da tendencia da nossa sociedade para urna li-
berdade mal compreendida, liberdade que acarretaria mais efeitos per
versos do que beneficios moráis, culturáis e espirituais".

II. COMENTANDO...

O texto de Mons. Pierre Eyt é valioso, porque examina os argu


mentos em prol da legitimacáo total do trabalho aos domingos e tece
consideracóes a respeito:

1} Permitir todo tipo de transacao económica aos domingos seria


excelente para os consumidores, que assim teríam mais liberdade para
negociar e comprar- coisa que nos dias úteis nao Ihes é possível realizar
táo bem. É verdade. Mas pensemos que o trabalho dominical é um fardo
para os trabalhadores, que ficam privados de seu lazer e - pior ainda -
podem ser atingidos em sua saúde, em sua vida conjugal e em seu bom
relacionamento familiar. Se algumas categorías de trabalhadores já de-
vem sofrer tais conseqúéncias indesejáveis, para atender aos transportes,
á alimentacáo e aos servicos públicos..., deve-se evitar que outras cate
gorías (ou todas as categorías) de trabalhadores venham a ser de tal mo
do prejudicadas.

2) A utilizacáo do domingo para o comercio permitiría aos usuarios


dispor do seu tempo de maneira mais cómoda e livre... - Sim; mas pen
semos que, se todos trabalharem no domingo, este dia deixará de ser o
dia valioso e importante para a sociedade que ele é atualmente: dia de
folga, de relax, de distensáo, de recuperacáo do convivio conjugal e fa
miliar. Faltará a sociedade a oportunidade de que seus membros se reen-
contrem consigo mesmos, com a vida, com a natureza, com a familia,
deixando de ser números, pecas de engrenagem, elementos de um gran
de robó, como se dá com muitos trabalhadores durante seis dias da se
mana. Ao cabo de certo tempo de experiencia, pode-se imaginar que a
própria sociedade viria a pleitear a restauracáo do domingo; este tem
fungió nao somente religiosa, mas também humana e vital para a socie
dade.

307
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

3) O comercio aberto aos domingos permitiría maior desenvolvi


miento das atividades culturáis no domingo: cinema, teatro, torneios es
portivos... - Ora parece haver um mal-entendido subjacente a argumen-
tacáo: a cultura nao consiste em comprar livros ou discos,... mas em ier
livros e escutar música. Pois bem: precisamente para que possa haver a
atividade cultural da leitura e da música, requer-se que o domingo seja
um dia diferente dos outros,... um dia em que nao naja as imperiosas
obrigacóes dos dias úteis,.., um dia defendido e protegido pelas autori
dades govemamentais como dia livre, nao comerciável.

4) A abertura do comercio aos domingos acarretaria ainda outro ti


po de abertura; com efeito, é de crer que os fins de semana escolares já
nao seriam feriados para alunos e professores, pois se vería que, se os
pais trabalham aos domingos, nao há razáo para deixar lazer escolar aos
filhos nesses mesmos dias. Pais e filhos nao se poderiam encontrar em
torno da mesma mesa de refeicáo, como costuma ainda acontecer e é de-
sejável que continué a acontecer, pois o convivio livre e amistoso de pais
e filhos é garantía de saúde moral para a familia e seus membros.

5) Em suma, a sorte mortal que se quer infligir aos domingos, es-


tender-se-ia também aos dias de festa da sociedade. A vida perderia seus
encantos; tornar-se-ia o funcionamento de urna grande máquina produ-
tora e consumidora de bens materiais, com prevaléncia do dinheiro e das
transacóes comerciáis sobre a dignidade e o misterio da pessoa humana,
que nao se pode dar por feliz, se reduzida á condicáo de peca de um po
deroso motor ou de urna aparelhagem cega e impessoal. O trabalho e o
dinheiro sao para o homem, e nao vice-versa.

(continuagáo da pág. 336)

desse homem emanasse urna energía grapas ¿ quál se experi


menta um profundo sentimento de confian$a nele".

Segundo a imprensa italiana, o Papa comentou o artigo de Gorbat-


chev nestes termos:

"As palavras de Gorbatchev sao sinceras e me confirmam


naquilo que eu sempre pensei a seu respeito: 6 um homem dig
no" <L' Avvenire, 4/3/92).

Merece relevo o parecer de Gorbatchev segundo o qual o Papa


Joio Paulo II desempenhou papel decisivo no desmoronamento do co-

(continua na pág. 315)


i

308
Contraste:

Dois Escritos sobre a


Conf issao Sacramental

Em síntese: Sao analisados o livro do Pe. José Augusto da Silva: "Só


a Conñssáo perdoa Pecados?" e o opúsculo "O Sacramento da Penitencia ou
Confissáo".

O Pe. José Augusto da Silva julga que a Igreja pode dispensar a confis
sáo auricular e específica dos pecados, reduzindo o sacramento da Reconci-
liagáo a urna acusagño genérica e á absolvigáo coletiva. Para fundamentar
a tese, examina a historia do sacramento e as declaragóes do Concilio de
Trente (1545-1563); procede, porém, de maneira superficial, com afírmagóes
sutis e mal fundamentadas. No final do livro quer corroborar a sua posigáo re-
correndo ao "senso e ao beneficio dos fiéis", ao debate sobre o que seja o pe
cado grave, o ambiente cultural contemporáneo e a escassez de sacerdotes.
Tais referenciais, porém, sao extrínsecos á fndole do sacramenta da Reconci-
liacáo, inadequados para justificar qualquer alteragáo na praxe penitencial vi
gente.

O opúsculo "O Sacramento da Penitencia ou Confissáo" rédete mentali-


dade assaz diferente da que inspirou o livro de J. A. da Silva. Propde, de ma
neira clara e didática, as nogóes de pecado, confissáo especifica, contrigáo,
propósito, sem ambigüidades, levando em conta as auténticas fontes da men-
sagem crista. - Tal opúsculo, longe de estar defasado, foi precisamente redi-
gido para atender a jovens e adultos que, afastados da Igreja, voltavam a Ela,
desejosos de conhecer o Catolicismo na sua identidade, que nao pode excluir
a toucura e o escándalo da fé (cf. iCor 1,23).

Foram recentemente publicados em portugués dois escritos sobre


o sacramento da Reconciliado: um do Pe. José Augusto da Silva
C.SS.Rj, e o outro, de autoría anónima, lancado pela Editbrás como su-

1"Só a Confissáo perdoa Pecados?", por José Augusto da Silva


C.SS.R. - Ed. Santuario, Aparecida (SP), 1991, 140 x 210 mm, 79 pp.

309
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

plemento da revista "30 DÍAS", n? 01/1992, com o titulo "O Sacramento


da Penitencia ou Confissáo".

É interessante analisar um e outro desses escritos, pois revelam


tendencias diversas existentes no tocante ao mesmo assunto.

1. "Só a Confissáo perdoa Pecados?"

O Pe. José Augusto da Silva é redentorista, que fez seu Mestrado


em Teologia na Faculdade de Teologia do Centro de Estudos Superiores
da Companhia de Jesús em Belo Horizonte (MG). Apresenta ao público
um livro que nao pretende ser urna tese definitiva, mas urna proposta,
que nos parece mal arquitetada ou superficial e propicia a lancar confu-
sáo na mente dos leitores. A seguir, examinaremos sumariamente o livro
e sobre ele refletiremos.

1.1. O conteúdo da obra

O título do livro "Só a Confissáo perdoa Pecados?" sugere logo a


resposta: Nao. Com efeito; o pecado leve ou venial pode ser apagado por
outros meios que nao a confissáo sacramental; assim, por exemplo, as
leves impaciencias, distracóes na oracáo, pequeñas omissóes_ sao per-
doadas mediante o ato de contricáo sincera que o cristáo faz no fim do
dia após o seu exame de consciéncia, ou aínda mediante um ato de carí-
dade ou a recitacáo sincera do Pai-Nosso ("perdoai-nos... assim como
nos perdoamos-.").

A questáo se torna delicada quando se trata de pecados graves ou


mortais. Ora a distincáo entre pecados leves e graves devia ter sido feita
pelo autor logo no inicio; José Augusto da Silva tem em vista tratar da
remissáo dos pecados graves (seria preciso explicitá-lo desde o cometo).

O autor desenvolve seu estudo em tres partes: I) Breve histórico do


Sacramento da Penitencia; II) Hermenéutica das declaracóes do Concilio
de Trento (1545-1563) sobre o sacramento da Penitencia; III) Pluralidade
autónoma de formas de reconciliacáo.

Na Parte I o autor discorre superficialmente sobre a historia do sa


cramento, de maneira um tanto irónica, pondo em relevo particulares do
espirito penitencial dos medievais que Ihe parecem irrisorios; fala da "su-
persticáo da acusacáo" (p. 23). No final do livro refere-se ás indulgencias
em tom depreciativo (p. 70). O tema histórico, complexo como é todo
percurso histórico, é abordado de maneira um tanto leviana, com afirma-
cóes genéricas e mal documentadas.

310
DOIS ESCRITOS SOBRE A CONFISSÁO SACRAMENTAL 23

Na Parte II detém-se o autor em considerares lingüisticas sutis


para concluir que a confissio auricular e especifica dos pecados, como é
entendida pelo Concilio de Trento, nao corresponde a urna definicáo
dogmática. O autor se esmera por relativizar as decisóes de Trento, jul-
gando-as como respostas á situacáo da Igreja no secuto XVI, respostas
que n3o encerram o assunto, mas permitem alteracóes do Rito sacra
mental.

A Parte III do livro conclui afirmando a possibilidade de que a


Igreja declare "pluralidade autónoma" de formas de remissáo dos peca
dos. Por "pluralidade autónoma" o autor entende maneiras indepen-
dentes urnas das outras (nao sujeitas a confissáo auricular e específica) de
se obter o perdió dos pecados graves; entre estas maneiras, estaría a
Confissáo genérica dos pecados e a absolvicáo coletiva.

Para apoiar a sua tese de que a confissáo genérica dos pecados po-
deria bastar para a absolvicáo, José Augusto quer valer-se dos seguintes
argumentos:

1) o "sensus fidelium". "O senso dos fiéis descobriu o valor da for


ma terceira de reconciliacáo, quase que forcando urna pluralidade autó
noma, de fato" (p. 72). Com outras palavras: os fiéis católicos seriam fa-
voráveis a proposta do autor.

2) "A discussáo em torno da nocáo de pecado grave" (p. 70). Isto


significaría que é difícil definir concretamente o que seja pecado grave.

3) "A cultura atual", ou seja, "urna visáo mais antropológica do pe


cado, explanando a distincao de pecado-atitude e pecado-intencáo" (p.
70).

4) "O beneficio dos fiéis e a escassez de ministros" {p. 70).

Como se vé, trata-se de razóes muito tenues para pleitear mudan-


cas na praxe penitencial, que prescreve a confissáo auricular e especifica
dos pecados graves. Com efeito,

a) O "sensus fidelium" é algo de ambiguo, pois muitos fiéis sao fa-


voráveis também ao divorcio, ao aborto, ás relacóes pré-matrimoniais,
ao homossexualismo_ Se a fé e a Moral do Cristianismo háo de se defi
nir pelas tendencias do povo cristáo, perderáo sua identidade, visto que o
povo de Deus é pouco instruido em assuntos religiosos e muito agitado
pelas filosofías heterogéneas de nossos días.

b) A nocáo de pecado grave em teoria é nítida; implica materia gra


ve, conhecimento de causa e vontade deliberada. É verdade que, na rea-

311
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

lidade concreta, nem sempre se pode definir se o pecado foi grave ou


nao, mas esta dificuldade ocasional, que sempre existiu e existirá, nao
obliga a renunciarmos á distincáo entre pecados graves e pecados leves.

c) A cultura atual e a nocáo de pecado-atitude nao obrigam a alte


rar a praxe penitencial. As verdades da fé nao oscilam segundo a oscila-
gao das culturas. De resto, muito sabiamente se diz que o homem deve
ser adaptado á Religiáo (no que ela tem de essencial) e nao a Religiáo ao
homem. Em conseqüencia, sao estranhas afirmacóes como as seguintes:

"O Novo Ritual estabelece a pluratidade de formas, que... fazem a prátí


ca penitencial corresponder meihor á cultura atual, á mentalidade hodierna" (p.
67).

"A mudanga em curso na prátíca penitencial 6 conseqüéncia de uma


mudanga cultural e provocará mudangas também na teología do sacramento"
(p. 67).

Na verdade, a prática do sacramento da Penitencia está longe de


ser uma questáo cultural, oscilante de acordó com a cultura de cada épo
ca. Ela encerra elementos de fé, que sao ¡mutáveis; e entre estes acha-se
a confissáo específica dos pecados graves, por mais que os olhos da ra-
záo natural, da psicología ou da antropología contemporánea nao Ihe
sejam simpáticos.1

d) A escassez de ministros nao é tal que impossibilite manter a pra


xe vigente na Igreja. Esta é cíente do problema e já previu, no seu Direito
Canónico, as solugóes oportunas para nao deixar os fiéis sem sacramen
to, mesmo na atual penuria de ministros.

1.2. Breve reflexáo final

1} A historia do sacramento da Penitencia a presenta maneiras de


ministrar o sacramento que hoje nao mais vigoram. Quer isto dizer que

1A p.64 J. A, da Suva menciona "formas concretas de penitencia sa


cramental que conttituam com a mentalidade de muitos cristáos de hoje". En
tre tais formas, estaría a acusagSo especifica dos pecados» Perguntamos,
porém: o criterio da prátíca religiosa há de ser "evitar confutas com a mentali
dade contemporánea''? Aonde nos levará tal criterio: á legitimagáo das reía-
cóes pré-matrimoniais, do divorcio, do homossexua!ismom ? Eamanhá, caso
mude a mentalidade contemporánea, devoré a prátíca religiosa procurar cor-
responder-the evitando ser-ihe antipática? Onde entSo Sea a fungSo do sal da
térra, incutída por Jesús aos seus discípulos? Se o sal perder o seu sabor ou
a sua identidade, com que se salgará? Deixará uma lacuna, que nenhum valor
meramente humano poderá preencher. O cristáo trairá o Cristo e perderá a
sua razio de ser no mundo. Cf. Mt 5,13.
\

312
DOIS ESCRITOS SOBRE A CONFISSAO SACRAMENTAL 25

se deva retroceder ao passado, so porque o passado era diferente e, por


vezes, menos exigente do que o presente? O fato de se ter praticado algo
de diverso outrora nao significa que isso deva ser regra para nos hoje.
Existe a evolucSo homogénea do grao de mostarda (cf. Mt 13, 31 s), que
vai desenvolvendo suas virtualidades, apresentando novas e novas ex-
pressóes de si, que sao orientadas pelo Espirito Santo e que devem ser
tidas como auténticas; nao é a cultura de urna época nem algum outro
fator extrínseco que move a evolucáo do grao de mostarda, mas é a sua
vitalidade intrínseca, garantía de sua identidade.

2) A necessidade da confissáo especifica dos pecados se deriva do


texto decisivo de Jo 20,22s, em que Jesús diz aos Apostólos: "Recebe! o
Espirito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-áo per-
doados; aqueles aos quais os retiverdes, seráo retidos". Este texto nao
é levado em conta por José Augusto da Silva; exige, da parte do minis
tro, um discernimento para que possa absolver ou nao em nome de
Cristo. Este discernimento versa sobre as disposicóes do penitente: pode
alguém dizer, de modo geral, que está arrependido dos seus pecados ou
deste e daquele pecado, mas, apesar de muito dolorido, pode nao ter o
propósito de mudar de vida1. E preciso, pois, que o ministro de Cristo
conheca a sitüacáo pessoal do penitente e as suas disposicóes para que
possa usar da faculdade outorgada pelo Senhor; ora tal conhecimento
indispensável só pode ser obtido mediante a confissáo especifica dos pe
cados, nao bastando um reconhecimento geral das culpas.

É neste raciocinio que o Concilio de Trento, e a Igreja até hoje, se


baseiam para definir a acusafáo especifica dos pecados como parte in
dispensável da reconciliacáo sacramental. É raciocinio derivado da pró-
pria palavra de Deus, tal como é entendida pela Tradicáo e o magisterio
da Igreja; tem caráter peremptório. Claro está, porém, que, nos casos
previstos pelo Oireito Canónico (casos excepcionais), se pode conceder a
absolviólo coletiva, ficando a obrigacáo de confessar posteriormente os
pecados nao confessados. Claro está também que moribundos e outras
pessoas impossibilitadas de falar tém direito á absolvicáo, sem confissáo
sacramental.

1Pode acontecer, por exempto, que alguém viva em adulterio ou em


concubinato. Embora perceba quanto isto é aboninivel aos olhos de Deus, tal
pessoa nem sempre terá a vontade decidida ou a coragempara se libertar do
seu tipo de vida. Em tal caso, o sacerdote deve dizer-lhe que se prepare me-
Ihor e faca urna opcño mais coerente para receber a absolvicáo sacramental.
Este aconselhamento do pal espiritual nao poderá ocorrer se for lícito absolver
todos os Seis após genérica confíssáo de pecados.

313
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

O livro de José Augusto da Silva, assim concebido, vem dificultar a


praxe sacramental penitencial, já táo vacilante entre os fiéis, que as publi-
cacóes dos teólogos deixam confusos e indecisos quando nao sao devi-
damente amadurecidas. A leitura de tal obra dissemina inseguranga reli
giosa e moral; incute problemas, ás vezes, despropositados ou mal pos-
tos e exageradamente formulados. Oeixa o leitor amargo, porque critica a
autoridade, incitando a burlar as normas déla emanadas, destrói valores
tradicionais e a imagem de um Cristianismo coerente com seus princi
pios.

Muito diversa é a impressáo que se tem ao ler o opúsculo seguinte:

2. "O Sacramento da Penitencia ou Confissáo"1

Á p. III, á guisa de Introducáo, lé-se o seguinte:

"O Iivreto sobre o sacramento da Penitencia (ou Confissáo), que ofere-


cemos aos nossos leitores, nasceu de urna experiencia vivida em Roma por
jovens e adultos que se aproximam pela prímeira vez da Igreja ou a ela voltam
depois de permanecer distantes durante anos. O ensinamento da Igreja sobre
a Confissáo foi resumido de forma concisa e compreensfvel pensando neles,
mas nao só neles. Milhares de pessoas estSo usando este Iivreto catequétíco.
Numerosos sacerdotes e comunidades cristas de outras cidades fizeram pe
didos. Esperamos que seja útil também para os leitores de 30 DÍAS".

No corpo do livro, sob forma breve e didática, encontram-se clara


mente expostas as nocóes de pecado, pecado grave ou mortal, pecado
leve ou venial, contricáo; há subsidios para um exame de consciéncia na
base dos mandamentos de Deus e da Igreja, esclarecimentos a respeito
dos pecados contra a castidade e contra a justica; é descrito o modo de se
fazer a acusacáo pessoal dos pecados, levando-se em conta eventuais es-
quecimentos ou mesmo omissóes voluntarias. Além disto, as páginas fi
náis do livro apresentam oracóes e o relacionamento existente entre Pe-
niténcia e Eucaristía.

Quem lé tal opúsculo, percebe estar num mundo bem diverso do


que supóe o livro de J. A. da Silva: a doutrina é precisa, inspirada direta-
mente pela fé,^. fé na S. Escritura e na Tradicáo da Igreja. Nao se diga
que tal livrinho está "em confuto com a mentalidade moderna" e, por is-
to, nao é aceito pelo homem contemporáneo. Precisamente o opúsculo
foi redigido para jovens e adultos que, afastados da Igreja, a Ela volta-

1Suplemento da revista "30 DÍAS" 1/92, 100 x 150 mm, III + 18 pp.
i

314
DOIS ESCRITOS SOBRE A CONFISSÁO SACRAMENTAL 27

vam; tem tido grande aceitacáo. E por que_ grande aceitacáo? - Porque
os autores tivera m a coragem de propor as verdades da fé sem titubeios,
ambigüidades ou meias-palavras. Pode-se crer que o homem moderno
tem estima por autenticidade nítida e convicta. O Catolicismo que quer
sobreviver b custa de adaptagóes á mentalidade moderna, procurando
agradar a correntes de pensamento heterogéneas, se autodestrói; é um
Cristianismo, que, em vez de garantir o seu futuro, se autoelimina e se
condena ao descrédito. A fé será sempre loucura e escándalo, conforme
Sao Paulo (1Cor 1,23); quem Ihe quer tirar tais características, esvazia-a e
a torna irrisoria, porque destituida de identidade. - Sao estas algumas
das ¡mpressóes que a leitura dos dois livros em foco pode suscitar.

Apenas urna ressalva: no opúsculo de "30 DÍAS", á p. 17 está dito


que se pode receber a Eucaristía em pecado mortal, desde que o cristáo
nao consiga confessar-se antes da Comunhao. Oral tal norma contraria o
canon 916 do Código de Direito Canónico: conforme este texto, só está
autorizado a comungar em pecado grave, quem tenha obrigacjio de co-
mungar "neste dia e nesta hora precisa". Ora tal nao ocorre entre os fiéis
que assistem á S. Missa: nao se vé por que tal ou tal pessoa esteja obri-
gada a comungar aqui e agora; espere a próxima ocasiáo para comungar
em estado de graca a pos ter-se confessado devidamente.

(continuagáo da pág. 308)

munismo do Leste Europeu. Isto nao somente mostra a grandeza do


vulto deste Pontífice, mas também o torna benemérito frente a toda a
humanidade. Pode-se dizerque poucos vultos históricos tiveram a proje-
gáo e a benemerencia universal de Joáo Paulo II.

DIA DA RESSURREIQÁO

Sob o título ácima, o jornal O GLOBO, em sua edicáo de 19/4/92,


p. 6 (1 - caderno) publicou o seguinte editorial:

"Se a Igreja tem motivos para preocupar-se - sendo sem


pre difícil responder a um desafio novo -, ela também pode, se
nao quiser ficar apenas na contabilidade negativa, exibir marcas
de distincjio bastante raras. A figura de um Joáo Paulo II conti
nua a ocupar, no mundo de hoje, a posic.áo mais destacada em
termos de lideranca espiritual do Ocidente.

(continua na pág. 321)

315
Feito católico

O Depoimento de um
Ex-pastor protestante

Em sfntese: O Diácono católico Francisco Almeida Araújo era pastor


batista, quando um dia verifícou que, para ser Sel as Escrituras, nao podía
mais ensinar que o pao e o vinho consagrados na Ceia do Senhor sño apenas
símbolos do Corpo e do Sangue de Cristo. Com efeito, Jesús diz claramente
no Evangelho: "teto é meu corpo» teto é meu sangue~" (Mt26,26-28). Tendo
percebido teto, preparou-se para pedir adrrássño a Igreja Católica, que o aco-
Iheu com amizade. Infelizmente, porém, o ex-pastor e sua familia tiveram que
passar por difícil fase de vida, conseqOéncia de que Francisco perderá seu
ministerio; foi, porém, maravilhosamente atendido pela Virgem Santíssima,
que, invocada em fervorosa oragao, respondeu com um sinal estupendo de
sua protegáo materna. SSo precisamente tais momentos densos e ricos de vi
da que Francisco Almeida Araújo descreve ñas páginas subseqüentes,
Atualmente reside em Anápoiis (GO), onde exerce proficuo magisterio, tendo
sido ordenado Diácono da Igreja Católica.

O TESTEMUNHO

NOSSA SENHORA DO MARROM GLACÉ

"Nossa Senhora possui muitos títulos. Afinal, ela é Rainha por ser
Máe do Reí dos Reís, Nosso Senhor Jesús Cristo. Como Rainha, é natural
que tenha tantos títulos, sendo, no entanto, ela a única e mesma pessoa.

Esse inusitado, e até exótico titulo: NOSSA SENHORA 00 MAR-


ROM GLACÉ, estou dando para narrar um pouco do muito amor que a
Virgem María tem demonstrado por mim, pobre pecador. Seria longo
contar todo o meu itinerario religioso. Nao cabe faz§-lo aqui, nesse arti
go. Pretendo contar toda a minha vida num livreto que estou preparan
do. Há certas passagens desse itinerario das quais nao posso orgulhar-
i

316
O DEPOIMENTO DE UM EX-PASTOR PROTESTANTE 29

me. Sao tempos de contradigo, paradoxais mesmo. Sei, no entanto, que


Deus me permitiu tantas experiencias, para hoje reconhecer sua Miseri
cordia e poder melhor orientar alguns irmáos.

Na minha ignorancia escrevi, ensinei e preguei contra a Igreja, o


Santo Padre o Papa, seus Ministros, a Eucaristía, a Virgem María...

Tempos obscuros, esses de cegueira espiritual.

Nessa caminhada cheguei a ser ordenado Pastor protestante e


professor de Teología em algumas Faculdades dos Protestantes.

Como foi que vim para o seio da nossa Santa Igreja Católica?

É o que pretendo narrar aqui, mesmo que de forma muito resumi


da.

Tudo aconteceu num domingo de manhá. A igreja que no mo


mento pastoreava, estava cheia. Logo após a Escola Dominical teríamos a
chamada Ceia do Senhor. Após belos cánticos, como Pastor, abrí a Bi
blia, para pregar antes da distribuicáo da Ceia. Como de costume, abri
em 1 Corintios 11, 23-32, passagem sobre a qual já havia pregado tantas
vezes e que tinha estudado com seriedade. Ao ler os versículos 23 e 24:
Eu recebi do Senhor o que vos transmití: que o Senhor Jesús, na noite
em que foi trafdo, tomou o pao, e, depois de ter dado gracas, partiu-o e
disse: ISTO É O MEU CORPO, QUE É ENTREGUE POR VOS.» Volto a
afirmar: quantas vezes havia lido, estudado e pregado esse texto! Mas
nesse domingo foi diferente. As palavras do Senhor falaram fundo ao
meu coracáo: ISTO É O MEU CORPO.
Eu havia aprendido com meus professores de teología, estudado
nos compendios clássicos da teología protestante que o texto devia ser
entendido como: "representa" o meu corpo, "simboliza" o meu corpo.
Eu havia aprendido ainda que tudo aquilo era um mero memorial, nem
mesmo era sacramento, mas urna simples ordenanca».

Mas ali estava a Palavra de Deus dizendo claramente: ISTO É O


MEU CORPO. Perturbado, continuei a celebracáo, sem deixar transpare
cer tudo que se passava em meu coracáo. Sem nada revelar a ninguém,
iniciei um estudo mais serio, mais cuidadoso, sobre o assunto. Li e reli
varias vezes os Evangelhos e todo o restante do Novo Testamento em
busca de urna resposta que acabasse com aquela dúvida em meu cora
cáo.

Após dois anos de estudos, regados de lágrimas e oragóes, estando


um día de joelhos em meu quarto, a sos, com a Biblia aberta sobre a ca-

317
30 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

ma, estudando no Evangelho de Sao Joáo 6, 25-71, descobri a maravi-


Ihosa verdade sobre a Eucaristía. Caí em prantos de alegría incontida.
Poucas horas antes, eu havia-me ajoelhado como um Pastor protestante,
embora com o coracáo aflito, cheio de dúvidas, e eis que agora me le
vanto como Católico Apostólico Romano!

Deus seja Bendito para sempre!

Eu sabia que somente a Igreja Católica ensinava a verdade


sobre a Eucaristía: a presenca real do Cristo na Hostia e no V¡-
nho consagrados. É urna longa historia contar como foi a minha con-
fissáo para minha esposa e filhos... Todos bem integrados no Protestan
tismo: dois de meus filhos- os mais velhos-como copastores em Curiti-
ba. Urna filha estudando Teología e um outro filho trabalhando também
no meio protestante. Isso fica para o meu livreto. Também a reagio de
meus irmáos Protestantes. O que devo dizer, é que sofri muito... Minha
familia também. Fui entáo procurar um Padre e confessar a ele minha
decisáo e também dúvidas sobre tantos outros assuntos como: imagens,
purgatorio, comunháo dos Santos, virgindade perpetua de Nossa Se-
nhora... Deus me guiou ao bom Monsenhor José Lélio Mendes Ferreira,
pároco da igreja de Sao Joáo Batista, em Atibaia, Estado de Sao Paulo.
Ele me recebeu com muito amor e atencáo, o que é próprio desse servo
do Deus Altíssimo. Apresentou-me ao piedoso e culto Bispo, meu grande
e bom amigo, Dom Antonio Pedro Misiara.

Fiz minha caminhada até receber Jesús Eucarístico e ver filhos fa-
zendo a Primeira Comunháo.

Quando deixei os Protestantes, era o mfts de outubrb. Fiquei


portanto desempregado... Logo as economías se acabaram. Nao conse
guía emprego, embora professor formado em tres cursos universitarios.
Tudo porque era final de ano letivo. Sem que Mons. Lélio ou o Senhor
Bispo soubesse, eu e minha familia ficamos sem alimentos... Como mo-
rávamos numa chácara, passamos a comer somente mandioca que ali
existia. Fiz até um versinho na época: "Mandioca no almoco, mandioca
no jantar, mandioca todo día, mandioca sem sar (isto 6, sal - o sar é para
rimar com jantar"). Acabaram-se as boas amigas mandiocas e ficamos
dois ou tres dias sem alimento algum. Rezávamos intensamente pedindo
ajuda de Deus. Ninguém o sabia, e muito menos os meus irmáos pro
testantes, pois se o soubessem diriam: é castigo de Deus.

Naquele momento, e com muito estudo, por estar desempregado,


descobri na Palavra de Deus, a Bfblia, todas as maravilhosas verdades
sobre a Virgem María e sobre as santas doutrinas de nossa Igreja Católi
ca. Tudo obra da graca de Deus.
i

318
O DEPOIMENTO DE UM EX-PASTOR PROTESTANTE 31

Num desses dias de jejum forjado, urna de minhas filhas, a Susan


(na época tínhamos oito filhos e hoje nove, grabas a Deus) me disse: Pa-
pai, estou morrendo de fome, mas, sinceramente, o meu maior desejo
era comer um pedaco de 'marrom glacé'. É o doce preferido déla. Em
resposta e sem pensar, Ihe disse: Pois vá ao seu quarto, dobre seus joe-
Ihos e peca á Virgem María urna lata de marrom glacé. Ela respondeu
firme: Pois eu vou pedir agora mesmo, e quero ver se a Virgem María
ouve mesmo oracóes. Um esclarecimento: ja éramos católicos, mas dado
o bloqueio psicológico, devido aos anos de pregacóes ouvidas e livros li-
dos contra Nossa Senhora, nao éramos capazes de rezar Ave María ou
outra oracáo mariana. Tinha Nossa Senhora na mente, mas sabia que
faltava vir ao coracáo. Eu nao sei, confesso-o, como transmitir aqui o que
se passava comigo nesse sentido. Espero que o leitor me entenda. Vol-
tando ao momento em que ouvi aquela resposta de minha filha Susan,
minha esposa que também a ouviu e o que havia dado como resposta á
Susan, disse-me: Vocé nao devia ter dito isso, pois a Susan pode pedir
urna lata de doce marrom glacé e nao receber. Quem sabe se Deus quer
provar mais ainda nossa fé. Ela tinha razáo e muito seria, o que contarei
no meu livreto. Respondí, entáo, a minha esposa: Vamos, entáo, para o
nosso quarto pedir a Nossa Senhora'que nao permita a Susan perder sua
fé, táo nova e ainda pequeña. Susan já estava fazendo o pedido em seu
quarto. Eu e minha esposa nos ajoelhamos em nosso quarto, e pela pri-
meira vez, rezamos urna Ave María e urna oracáo espontánea dirigida á
Virgem María. Pedimos que guardasse a fé de Susan. É claro que nao
pedimos o marrom glacé.

No outro dia de manhá, alguém bate palmas lá no portáo de entra


da de nossa chácara. Pelo vitró vi que era um jovem de barbas e um cru-
cifixo bem vistvel numa corrente ao pescoco. Vi logo que nao eram os
meus irmáos protestantes que novamente vinham discutir Biblia comigo,
na vá tentativa de demover-me de ir para a Igreja Católica. Meu filho Al-
den correu e abriu o portáo. Ele, o jovem, se fazia acompanhar de urna
também jovem senhora. Estavam num carro fusca amarelo. Eu, esposa e
filhos já estávamos na varanda para recebé-los. O jovem entáo disse:
Pastor Francisco, eu sou o Padre José Carlos Brilha (o meu bom amigo
Padre Brilha!) e essa é a Magui {apelido carinhoso de María Guilhermina
Michele). Disse, entáo, do prazer em conhecé-los. Ainda na varanda, vi
quando a Magui, virando-se para o Pe. Brilha, Ihe disse: Padre, diga ao
Pastor o que viemos aqui fazer. O Padre respondeu: Diga vocé, pois foi
com vocé que Deus falou. E ela, com ar encabulado, me disse: Olha,
Pastor, nao sei como o senhor vai entender o que agora vou-lhe dizer.
Essa noite que passou, eu tive por duas ou tres vezes sonhos ou pesade-
los com o senhor, nao sei. Sonhei que alguém me dizia: leve alimentos na
casa do Pastor Francisco! Nao sei o que o senhor pensa, mas nao leve a

319
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

mal! Eu e minha irmá, Regina, fomos ao supermercado e fizemos urna


boa compra e aqui trazemos para o Senhor".

Mal acabando de dizer essas palavras, abriu a porta do seu carro,


do lado do motorista, reclinou o banco e de urna das caixas que se en-
contravam sobre o banco trazeiro, retirou urna lata e, olhando para mi
nha filha Susan, disse: E essa lata de doce foi Nossa Senhora que Ihe
mandou. Era urna lata de marrom glacé!

Com voz embargada pela emocáo, disse áquela senhora: A senhora


sonhou isso também? A senhora sonhou que devia trazer urna lata de
marrom glacé e dá-la para minha filha Susan? Ela respondeu: isso nao,
eu apenas peguei agora essa lata e de¡ para sua filha. Oito filhos, e abaixo
da Susan um filho e urna filhinha. Por que logo para Susan? Sim, eu sei a
resposta. Era a Máe do céu que quería entrar no meu coracáo, no coracáo
daquela familia. Nao bastava té-la em nossa mente. Aquele momento foi
de lágrimas e de louvor ao Altissimo Oeus por nos ter dado táo sublime
Máe. Naquele momento, nosso amor e nossa fé na Virgem María cres-
ceram profundamente. Foi como o desabrochar de urna flor. Desde
aqueta data, estamos trabalhando no Reino de Deus, falando das glorias
da Virgem Maria onde quer que vamos. Muitas e muitas gracas, eu e mi
nha familia temos recebido pelas máos de Nossa Senhora.

Pelas máos da Máe do Céu viemos residir em Anápolis, Goiás, e


aqui pelas máos santas do nosso muito amado Bispo Dom Manoel Pesta
ña Filho, esse culto e inteligente defensor da sá doutrina, nosso orienta
dor espiritual, nosso líder da Fé, recebemos a Ordenacáo ao Diaconato
Permanente. Somos Diácono de Cristo a servico de Nossa SenhoVa. Sou
Diácono da Virgem María. Gloria a Deusl

Pensó que os leitores entenderám agora a razáo do titulo que dei a


Virgem María neste artigo. Voltaremos, se Deus nos permitir, a falar das
glorias da Virgem Maria."

O depoimento nao exige comentarios, pois é eloqúente por si. Seja


registrado porém, que foi precisamente o intuito de ser fiel á S. Escritura
que trouxe o ex-pastor para a Igreja Católica. O protestantismo, apre-
goando incondicional fidelidade h Biblia, lé-a segundo as interpretares
subjetivas de seus pastores, que sao unilaterais e fallveis; donde as cen
tenas de denominares protestantes que hoje existem e que tendem a se
afastar cada vez mais da pureza da doutrina bíblica e do próprio Cristia
nismo; tenham-se em vista os Mórmons, a Ciencia Crista, os Adventistas,
as Testemunhas de Jeová, os Amigos de Jeová~.
i

320
O DEPOIMENTO DE UM EX-PASTOR PROTESTANTE 33

Afinal é na Igreja Católica, que guarda a Palavra de Deus em sua


totalidade (oral e escrita), que se encontra a auténtica mensagem de
Cristo. Este, alias, prometeu & Igreja por ele fundada e entregue a Pedro
a sua assisténcia infalfvel (cf. Mt 16.16-19; Le 22,31 s; Jo 21,15-17).

O testemunho do Diácono Araújo é valioso também por mostrar


como a Virgem Maria respondeu maravillosamente, na qualidade de
Máe extremada, ás oracóes da familia angustiada.

O endereco do Diácono Francisco Almeida Araújo é o seguinte:


Caixa postal 1071,77101 Anápolis (GO).

O depoimento aqui transmitido já foi publicado pela revista "Cava-


leiro da Imaculada", marco 1989, Edicóes Kolbe. Endereco: Jardim da
Imaculada s/n?, 77222 Cidade Ocidental (GO).

(continuagáo da pág. 315)

O último testemunho a esse respeito é o artigo escrito por


Mikhail Gorbatchov para o "La Stampa", de Turim, em que o
último líder da finada Uniáo Soviética fala do impacto sobre ele
exercido por seus encontros com o Papa polonés. Gorbatchov
fala nao apenas do carisma do Papa, mas até mesmo de idéias
que ele considera semelhantes as suas.

Por esse depoimento, pode-se ver que nao andavam muito


longe da verdade os que apontaram a eleicáo de Joáo Paulo II,
em 1978, como primeiro elo na corrente que, dez anos depois,
transformaría o mundo de maneira dramática. Foi logo depois
dessa eleicáo que o Solidaríedade cresceu como um desafio iné
dito á ortodoxia comunista.

Era o primeiro fenómeno aparente. O que nao se viu na


época (mas que agora se pode intuir) foi o efeito subterráneo da
presenca de um Papa eslavo em Sao Pedro de Roma. É como se
essa presenta confrontasse a Europa Oriental com um substrato
profundíssimo de espiritualidade que fícara simplesmente sufo
cado sob a capa do 'internacionalismo proletario*.

Gorbatchov, agora, fala indiretamente desse fenómeno -


que nem é um fenómeno específicamente católico, na medida

(continua na pág. 327)

321
Confuto de conscifincia:

Testemunhas de Jeová
e Transfusao de Sangue

Em síntese: Váo, a seguir, publicados documentos relativos á trans


fusao de sangue em favor de Testemunhas de Jeová postos em perigo de
morte. Apesar da recusa desses religiosos, os médicos julgam que devem
cumprir o seu juramento de salvar a vida, pois esta é um valor fundamental
sobre o qual o homem nao pode dispor.

É conhecida a atitude das Testemunhas de Jeová, que recusam


transfusao de sangue, mesmo que isto Ihes acarrete a morte próxima. A
motivacáo desta atitude está na interpretacáo de textos bíblicos. Com
efeito; a Leí de Moisés proibia aos judeus tomar sangue ( cf. Gn 9,4; Ot
12, 16.23), pois o sangue era tido como a vida mesma e a vida é própria
de Deus só. No Novo Testamento reaparece esta norma entre as cláusu
las provisorias estabelecidas pelo Concilio de Jerusalém (em 49) para os
cristáos de Antioquia, da Siria e da Cilfcia; em tais regióes havia muitos
cristáos provenientes do judaismo, que tinham escrúpulos de tomar san
gue por causa da sua formacáo judaica anterior; daf a cláusula proviso
riamente firmada pelos Apostólos visando á situacáo do momento ñas
regióes citadas. - Tal norma, porém, nao podia ter duracáo prolongada,
pois se baseava em premissa errónea, já que nao se podem identificar
sangue e vida.

Acontece que as Testemunhas de Jeová, nao levando em conta


estas circunstancias, tomam ao pé da letra o preceito do Antigo Testa
mento. Daf os conflitos de conscidncia que surgem para os médicos,
quando algum paciente, por motivos religiosos, rejeita a transfusao de
sangue e assim se precipita na morte.

Dado que os casos se tém repetido, o Conselho Regional de Medi


cina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ) houve por bem definir a
i

322
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ E TRANSFUSÁO DE SANGUE 35

posicáo dos médicos em tal emergencia: tendo jurado defender e salvar a


vida, apliquem a transfusáo, mesmo á revelia do paciente.

A seguir, publicaremos tres documentos: 1) o Parecer n? 89/91 do


CREMERJ sobre o assunto; 2) o apoio, a este parecer, do Juiz Liborni S¡-
queira, da 1? Vara de Menores do Rio de Janeiro; 3) o texto que toda
Testemunha de Jeová deve assinar em seu nome, ou em nome dos filhos
menores, rejeitando a transfusáo de sangue.

1. O Parecer 89/91 do CREMERJ

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro, em


Sessáo Plenária no dia 02 de outubro de 1991, aprovou por unanimidade
o Parecer-Consulta n? 89/91 sobre Transfusáo de Sangue em seguidores
da seita Testemunhas de Jeová, elaborado pelo Conselheiro José Eberie-
nos Assad, cujo teor é o seguinte:

"A proliferacáo infrene de novas seitas, e das já existentes, tem tra-


zido á sociedade, por alguns de seus membros, mudancas consuetudina
rias que, por sua vez, em determinadas circunstancias, podem colidir com
valores aluindo o tripe ético-moral-jurídico, além do aspecto técnico-
científico.

O compromisso do médico, qualquer que seja a faceta ótica esco-


Ihida, é com a vida e com a felicidade do ser humano, em cujo objetivo
¡mpóe-se-lhe empenhar-se com denodo, respeito e pericia para sua pre-
servacáo e conquista.

No que concerne á questáo de transfusáo e hemoderivados ás


Testemunhas de Jeová, o médico nao pode transigir com os preceitos
básicos do exercício profissional, e, diante do risco de vida, em plena
profundeza de uma emergencia é injuntivo que todas as medidas, mano
bras e técnicas terapéuticas tém que ser acirradas para que o mais sagra
do e inalienável direito de cidadania, o direito a vida, seja preservado e
respeitado.

Que contra-senso se estabeleceria se o médico deixasse, indiferen


temente, a morte em choque hipovolémico de uma Testemunha de Jeo
vá e ardentemente se envolvesse para salvar a vida de um suicida, pois, a
se respeitar a volicáo do extermfnio da vida, deverá a mesma indiferenca
que perpassou o caso do choque hipovolémico, temperar o episodio do
suicidio.

Isto é respaldado pelo parecer 1.021/80 do Conselho Federal de


Medicina.

323
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

No entender do jurista José Aguiar Oias, 'nao há, como geralmente


se pensa, confuto algum entre decisáo de paciente e obrigacáo do médico
ou opcáo a cargo deste'. Continua ele: 'confuto, impondo opcáo
entre procedimientos, só existe quando se apresentem ao profissional
valores iguais ou idénticos. A medicina é aconfessional, como é também
apartidaría, no sentido político. Ao médico só é dado optar entre um e
outro tratamento, entre os que a ciencia Ihe oferece. Nao há confuto e,
portanto, nao há opcáo a tomar, entre a vontade do paciente e o trata-
mentó destinado a aliviar a dor ou sofrimento, este sim, o mandamento
iniludível a que está o médico sujeito pelo Juramento de Hipócrates, táo
exato e táo adequado que persiste através dos séculos'.

Resumindo, diante de risco de vida, o médico nao pode titubear em


colocar ao alcance de seu paciente todos os recursos, mesmo que pre-
ceitos religiosos preconizem a ¡nacáo e entendam que hemoterapia seja
um elemento inablutor da alma humana.

Este é o nosso parecer, que, respaldado na jurisprudencia estabele-


cida, vem com intuito de reforcé-la, pois ao médico é dado o dom, o di-
reito e, antes de mais nada, o dever de lutar sempre contra a dor, a infeli-
cidade, a miseria e, mais do que nunca, contra a morte, portanto a favor
da vida, procurando aumentar a sua extensáo, melhorando a sua quali-
dade".

(Exlrafdo do Boletim do CREMERJ, Ano V, n9 33, outubro/novem-


bro1991,p. 11).

2. O apoio do Juiz ao CREMERJ

O juiz titular da 1- Vara de Menores do Rio de Janeiro, Liborni Si-


queira, que recentemente autorizou os médicos da Maternidade Fernan
do Magalháes a realizarem transfusáo de sangue em tres recém-nasci-
dos, cujos pais sao adeptos da seita Testemunha de Jeová, aprovou o
parecer n9 89/91 do CREMERJ sobre transfusáo de sangue. A finalidade
do parecer, aprovado por unanimidade no Conselho em Sessáo Plenária
no dia 2 de outubro, é orientar os médicos para o procedimento em si-
tuacóes envolvendo seguidores da seita.

Conforme o parecer elaborado pelo Conselheiro do CREMERJ, Jo


sé Assad, bascado em decisáo do Conselho Federal de Medicina, que
orienta os médicos a só respeitarem a vontade do paciente ou de seus
responsáveis, caso nao haja iminente perigo de vida, o médico tem com-
promisso com a vida e a felicidade do ser humano, independente de
t

324
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ E TRANSFUSÁO DE SANGUE 37

qualquer problema existente. Na opiniáo de José Assad, ao médico é da


do o direito de lutar sempre contra a dor, a ¡nfelicidade, a miseria e, mais
do que nunca, contra a morte, portanto a favor da vida.

Segundo Liborni Siqueira, deve-se dissociar a filosofía religiosa da


ciencia. A seu ver, a ciencia nao pode ficar subordinada aos adeptos desta
ou daquela seita. Lembra ele que, embora a Constituicáo Federal garanta
a liberdade do credo religioso, também obliga o médico a nao se furtar
ao seu compromisso com a vida. Liborni afirmou ainda que, havendo
parecer técnico sobre a necessidade de se fazer urna transfusáo de san-
gue em criancas cujos pais pertencam a seitas que proíbam tal procedi
miento, a Justiga menorista vai acolher sempre a prática científica e téc
nica. "A vida é o primeiro valor criado por Deus, nao podendo estar su
bordinada a seitas religiosas", enfatizou Liborni.

O juiz aconselhou os médicos a comunicarem ao Judiciário sempre


que se depararem com questóes envolvendo a seita Testemunha de Jeo-
vá, mas afirmou que, havendo impossibilidade de contato com a Justiga,
numa situacáo de emergencia, eles devem atuar salvando a vida do ser
que Ihes foi confiado.

(Extraído da mesma fonte, a mesma página)

Segue-se o texto-instrucáo que as Testemunhas de Jeová devem


assinar quando recebidas definitivamente na Congregaceo.

3. Texto-instrucio e Identificagáo

No caso de adulto:

INSTRUCÁO/ISENCÁO PREVENTIVA PARA


A EQUIPE MÉDICA

Eu, , expresso com antecedencia

minha vontade nesta dectaragSo formal. Estes instrugóes refletem minha re


soluta decisSo.

Determino que nao me seja aplicada nenhuma transfusáo de sangue


(total, glóbulos vermelhos. glóbulos brancos, plaquetas ou plasma sanguíneo);
em nenhuma circunstancia, mesmo que médicos julguem isso necessário pa
ra preservar minha vida ou saúde. Aceito expansores do voiume do plasma
nao derivados de sangue (tais como Dextran, solugáo salina ou de Ringer,
Hetastarch [Ndroxietila de amido] e outros tratamentos sem sangue).

325
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

Esta declaragáo legal é um exercfcio de meu direito de aceitar ou de re


cusar tratamento médico de acordó com os profundos valores e convicgóes
que sustento. Sou Testemunha de Jeová e expresso a minha decisáo em
obediencia a mandamentos da Biblia, tais como: 'Persistí em abster-vos de
sangue.' (Atos 15:28, 29) Essa 6, e tem sido, minha firme posicSo religiosa
há anos. Tenho anos de idade.

Estou cíente também de que há varios perigos associados a transfu-


sdes de sangue. Portanto, decido evitar tais perigos e, em vez disso, aceitar
quaisquer riscos que talvez aparentem estar envolvidos em minha escolha de
tratamento médico alternativo sem sangue.

Isento médicos, anestesiologistas, hospitais e equipes mé


dicas de responsabilidade por quaisquer resultados adversos
causados por minha recusa de aceitar sangue, a despeito de
seus competentes cuidados.

Autorizo a(s) pessoa(s) citada(s) no verso a cuidar de que minha von-


tade expressa neste documento seja respeitada, e a responder quaisquer
perguntas sobre minha recusa absoluta de sangue.

Assinatura

Enderego Data

Telefone

Testemunha

Testemunha

No caso de Crianzas, os pais assinam:

CARTÁO DE IDENTIFICAgÁO

Nome da Crianga

Pai:

Enderego

Telefone

326
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ E TRANSFUSÁO DE SANGUE 39

IMPORTANTES INFORMACÓES PARA MÉDICOS


ABAIXO

Como país, estamos profundamente interessados no bem-estar de nosso(a)


fílho(a).

Em virtude das conviccóes de nossa familia como Testemunhas de Jeová.


nos nao aceitamos transfusóes de sangue. Todavía, aceitamos expansores
do plasma ou outro tratamento médico, que nao envolvam sangue. Em caso
de acídente, quera contatar-nos ¡mediatamente. É provável que possamos
tomecer informagóes sobre médicos que respeitam nossas convicgdes reli
giosas e de quem talvezjá tenhamos recebido cuidados médicos.

Assinatura Data

Assinatura Data
Como se vé, o bom senso prevalece da parte dos médicos. Deus,
que é o Doador da vida, nao permite que o homem se precipite no suici
dio, rejeitando um meio, moralmente inocuo, de salvar a sua vida. -
Aproveite-se a ocasiáo para observar quáo ¡ncoerentes sao aqueles que
se lembram do seu juramento de salvar a vida quando se trata de trans-
fusáo de sangue, mas o esquecem quando preconizam e praticam o
abortamento de changas inocentes.

(continuacáo da pág. 321)

em que a tradicáo ortodoxa sempre predominou ñas térras do


Leste. JoSo Paulo II, comentando o artigo, recusou-se a esta-
belecer compartimentos estanques: ele diz que o comunismo
veio abaixo tanto por suas carencias económicas e polfticas co
mo pela ausencia de urna conotacáo religiosa, que secou as raí-
zes profundas do europeu oriental.

Mas o depoimento de Gorbatchov é o testemunho mais


forte que podia desojar a Igreja de Roma quanto á forca de irra-
dtacáo da personalidade do Papa atual. Essa forga nao aparece
por acaso; nem aparece dentro de um sistema religioso que jé
tenha esgotado a sua vitalidade".
Esteváo Bettencourt O.S.B.

327
Nova Religiáo:

"Árvore da Vida"

Em sfntese: "Árvore da Vida" é urna corréate protestante, indepen-


dente das demais denominagóes. Professa as verdades clássicas do Credo,
com excegSo do artigo referente á IGREJA Ora precisamente a Igreja. que
Jesús fundou como "minha Igreja" (cf. Mt 16, 18) e a quem prometeu sua as-
sisténcia infalfvel (cf. Mt 28, 18-20; Le 22, 31 s, Jo 21, 15-17), é indispensável
para garantir a transmissSo incólume das verdades do Evangelho; 6 o magis
terio da lgre'¡a, assistído pelo Espirito Santo, que possibilita a transmissSo fíel
do patrimonio revelado. Sem a instancia da Igreja, o Cristianismo se estácela
e autodestrói, entregue ao subjetivismo emotivo dos seus membros, como
atesta o caso de "Árvore da Vida" e, em geral, do protestantismo.

Tem-se feito sempre mais presente entre nos urna corrente do


protestantismo intitulada "Árvore da Vida" (AV). Afirma estar fora de
qualquer denominado; é, pois, um grupo independente, que tem sua
Editora, seus livros e seu jornal "Árvore da Vida". As pregagóes e publi
cares dessa corrente religiosa suscitam o interesse de muitos cristáos
por noticias mais claras a respeito da "Árvore da Vida".

A seguir, transmitiremos os principáis traeos característicos dessa


denominacáo e Ihes acrescentaremos breve comentario.

1. "O QUE CREMOS"

As publicacóes da Editora "Árvore da Vida" evidenciam a origem


estrangeira (norte-americana) dessa corrente.

0 repectivo jornal "Árvore da Vida", ano 32, n? 28, p. 8 traz um ar


tigo intitulado "O que eremos", que vai abaixo transcrito:
i

328
"ÁRVORE DA VIDA" 41

'Te/nos sido perguntados por muitos tenores a respailo de nossa posh


gao em relagSo és questóes básicas da fé crista, como Deus, Jesús Cristo e
a Biblia.

Em atendimento a estes, passamos a publicar, de maneira sucinta,


aquilo em que eremos:

1) Cremos que a Biblia Sagrada é a completa revelagáo divina, verbal-


mente inspirada pelo Espirito Santo.

2) Cremos que o nosso Deus é único e triúno - o Pai, o Filho e o Espi


rito -, coexistindo em igualdade de etemidade a eternidade.

3) Cremos que o Ftlho de Deus, sendo o próprio Deus, encarnou-se pa


ra ser um homem, de nome Jesús, nascido da virgem María, para que pudes-
se ser o nosso Redentor e Salvador.

4) Cremos que Jesús, um homem genuino, viveu nesta térra por trinta e
tres anos e meto para tomar Deus Pai conhecido aos homens.

5) Cremos que Jesús, o Cristo ungido por Deus com o Seu Espirito
Santo, morreu na cruz pelos nossos pecados e derramou Seu sangue para o
cumprimento da nossa redengño.

6) Cremos que Jesús Cristo, depois de sepultado por tres dias, ressus-
citou dos morios, física e espiritualmente, e que, em ressurreigSo, tomou-se o
Espirito que dá vida para transmitir a Si mesmo para dentro de nos como nos
sa vida e nosso tudo.

7) Cremos que, após a Sua ressurreigáo. Cristo ascendeu aos céus e


que Deus O fez Senhor de tudo.

8) Cremos que, após a Sua ascensao, Cristo derramou o Espirito de


Deus para balizar Seus membros escolhidos para dentro de um único Corpo e
que o Espirito de Deus, que é também o Espirito de Cristo, está se movendo
nesta térra, hoje, para convencer pecadores, regenerar o povo escolhido de
D?us, habitar nos membros de Cristo para o seu crescimento em vida e para
eváñear o Corpo de Cristo com vistas a Sua plena expressáo.

9) Cremos que, no fím desta era, Cristo voltará para arrebatar os cris-
táos vencedores, julgar o mundo, tomar posse da térra e estabelecer o Seu
reino eterno.

329
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

10) Oremos que os santos vencedores reinaráo com Cristo no milenio e


que todos os crentes em Cristo participaráo das béngSos divinas na Nova Je-
rusalém, no novo céu e nova térra, para a eternidade".

Passemos a breve comentario desta declaragáo de fé.

2. Que dizer?

Verifica-se que a profissáo de fé da "Árvore da Vida" segué, quase


integralmente, os artigos do Símbolo dos Apostólos, que é o Credo ha-
bitual dos cristáos. Quem lé essa confissáo da AV, encontra ai muitas ex-
pressóes bíblicas e freqüentes nos documentos do Catolicismo, de modo
quase a julgar que se trata de urna profissáo de fé católica.

Chama a atencáo, porém, o fato de que o texto da AV nao faz a re


ferencia á Igreja que se encontra no Símbolo dos Apostólos: "Creio na
Santa Igreja Católica". Admite, sim, a acáo do Espirito Santo no coracáo
dos crentes, a "regeneracáo do povo escolhido de Deus", a "edificacáo
do Corpo de Cristo", mas omite a palavra que Jesús utilizou para expri
mir a continuacáo da sua obra: "a minha Igreja" ou "a Igreja" (Mt
16,18),... Igreja que o próprio Cristo quis confiar a Pedro (cf. Mt 16,18).

Qual a importancia desta observacao?

- É que a palavra "Igreja" lembra um Cristianismo dotado de notas


objetivas, estruturais, pairando ácima das tendencias subjetivas e, muitas
vezes, transviadas de seus mentores humanos e seguidores. A autoridade
de Pedro e seus sucessores, a quem Jesús assegurou a sua aésisténcia
infallvel (cf. Mt 16,16-19; Le 22,31 s; Jo 21,15-17; Jo 14, 26; 16,13-15) é
garantía de objetividade e de fidelidade aos principios do Evangelho;
assim se evitam as arbitrariedades na interpretacáo da Biblia, devidas ao
senso religioso subjetivo de quem eré. É, sem dúvida, válido afirmar que
o Espirito Santo acompanha o povo de Deus; sabe-se, porém, que, a ti
tulo de ¡nspiracáo do Espirito Santo, muitas abarracóos sao cometidas;
nao basta alguém dizer que é movido pelo Espirito para se dar crédito
a tal alegacáo. Consciente disto, o Senhor Jesús instituiu sua Igreja, do
tando-a da missáo de guarda fiel e transmissora da Verdade sob a assis-
téncia continua do próprio Cristo e do seu Espirito (cf. Mt 28,18-20).

Precisamente o subjetivismo é o "calcanhar de Aquilas" do protes


tantismo. Lutero, no século XVI, fundou o protestantismo sobre o princi
pio do "livre exame da Biblia": cada crente poderia ler e interpretar a Es
critura Sagrada segundo Ihe parecesse, julgando-se inspirado para tanto
pelo Espirito Santo em seu coracáo. A conseqüéncia deste principio foi
i

330
"ÁRVORE DA VIDA" 43

que muí tos discípulos de Lutero se imaginaram impelidos pelo Espirito


Santo para deduzir da Biblia conclusdes contraditórias: Batismo de crian-
gas ou Batismo de adultos? Observancia do domingo ou observancia do
sábado? Episcopalismo (Hierarquia de Bispos), presbiterianismo (presbí
teros sem Bispos), ou congregacionalismo (a congregacáo se autogover-
na)? Iminente fim do mundo ou nao? Carismas pentecostais ou nao?»
Destas múltiplas ¡nterpretacóes da Biblia resultam centenas e centenas de
denominacóes protestantes independentes ou mesmo hostis entre si, que
váo solapando cada vez mais o Cristianismo protestante; entre tais cor-
rentes está a Árvore da Vida— Se as comunidades protestantes se expan-
dem hoje, isto se deve nao á fidelidade de seus principios a Cristo (pois fo-
ram fundadas por homens e nao por Cristo; separaram-se da Igreja inicia
da por Cristo); mas deve-se aocaráter emocional, muito existencial e viven-
cial de suas pregacóes e manifestacóes. Isto fala ao homem de hoje, que
em materia religiosa é freqüentemente antiintelectual; deixa-se impres-
sionar mais pelo calor das palavras e dos gestos do que pela lógica ou
falta de lógica da mensagem que Ihe é dirigida.

Ao contrario, o Catolicismo guarda a sucessáo ininterrupta de Pe


dro e dos demais apostólos, a quem Jesús prometeu que assistiria até
o fim dos tempos, garantindo a transmissáo incólume e objetiva da men
sagem revelada (Mt 28, 18-20); se houve erros e falhas na historiado
Catolicismo, devem-se á fragilidade humana, mas nao impediram, nem
impedem, a conservado do Evangelho em sua pureza e vitalidade ple
nas.

ESCLARECENDO DUVIDAS:

Em vista de objecóes e perguntas que sao lancadas aos fiéis católi


cos, a Escola "Mater Ecclesiae" oferece ao público urna serie de opúscu
los, de 20 a 30 páginas cada qual, relativos a tais questóes:

POR QUE NAO SOU ATEU?


POR QUE NAO SOU PROTESTANTE?
POR QUE NAO SOU ESPIRITA?
POR QUE NAO SOU MACOM?
POR QUE NAO SOU ROSA-CRUZ?
POR QUE SOU CATÓLICO?
OS NOVOS MOVIMIENTOS REUGIOSOS
JESÚS CRISTO: OEUS E HOMEM?
JESÚS SABIA QUE ERA DEUS?
OS MILAGRES DE JESÚS: FICCÁO OU HISTORIA?
0 FENÓMENO REUGIOSO: SIM OU NAO?
Os pedidos sejam enviados b Escola "Mater Ecclesiae", Caixa Pos
tal 1362,20001-970 Rio <RJ).

331
Como explicar?

A "Brincadeira" do Copo

Em sfntese: A "brincadeira" do copo explicase fácilmente pelo tato


de que todo ato do psiquismo humano (raciocinar, imaginar, inventar».) se es-
pelha no físico, imprimndo a este um movimento, que pode exteriorizarse em
enerva motora (psicocinésia). Assim quem langa perguntas ao copo, já tem
resposta (certa ou errada, segura ou dubitativa) no seu inconsciente; ora este
transmite tal resposta ao copo mediante a psicocinésia, que move o copo em
diregáo das letras ou das palavras que consOtuem a resposta. Por conse-
guinte, nao sao os espfritos do além que movem o copo, mas é o espirito do
operador que, através dos dedos colocados sobre o copo ou mesmo á distan
cia (num raio de 50 m), imprimem o movimento ao copo.

Muitas pessoas se ¡mpressionam com a "brincadeira" do copo, co


mo se fosse testemunho de que os espfritos do além baixam e se comu
nica m com os vivos mediante sinais preestabelecidos. Eis, sumariamente,
em que consiste a experiencia:

Sobre urna mesa de vidro ou, ao menos, lisa coloca-se um abece


dario, formando um retángulo que acompanha as bordas da mesa. Póde
se também colocar urna serie de números de 0 a 9, como também duas
fichas de papel, urna com a palavra SIM e outra com a palavra NAO. E no
meio da mesa póe-se um copo virado para baixo.

Ouas ou tres pessoas sentam-se em torno da mesa; concentram-se


como se estivessem a chamar um espirito do além. A seguir, fazem urna
pergunta e o copo se movimenta em direcáo das letras do alfabeto ou em
diregáo dos números ou das fichas, dando a respectiva resposta. As pes
soas podem, cada qual, colocar dois dedos sobre o copo ou nao. Vio
formulando sucessivas respostas e verificam que o copo se move em di
recáo das letras, formando silabas e respostas (ora certas, ora erradas).
i

332
A "BRINCADEIRA" DO COPO 45

Algumas de tais respostas surpreendem, porque provém de urna


percepcáo extra-sensorial (telepatía, clarividencia».); outras chegam ás
raias do absurdo.

Dal a ¡nterrogacáo: como explicar o fato de que ao menos algumas


respostas sao válidas? Nao seráo devidas á ¡ntervencáo de um espirito
desencarnado previamente evocado pelos participantes da experiencia?

Os estudos da Parapsicología explicam este fenómeno pelo concur


so de alguns fatores do psiquismo humano, de modo a dispensar qual-
quer concepcjo "mística". Eis o que, na verdade, ocorre:

1. A explicacáo científica

Procederemos por etapas:

1) As pessoas que formulam as perguntas "ao espirito", trazem


dentro de si, consciente ou inconscientemente, alguma resposta para es-
sas questóes.

2) Por conseguinte, quando póem os seus quesitos, formulam in


conscientemente também as respostas respectivas.

3) Ora todo ato psíquico, por mais íntimo que seja, espelha-se
sempre sobre o nosso físico; tudo, no ser humano, é psicossomático. Tu-
do o que o inconsciente pensa, sabe, imagina, supóe, inventa ou adivi-
nha, manifesta-se por movimentos corporais (ainda que muito leves)
chamados "automatismos".

4} O reflexo físico, resultante do nosso pensar, pode traduzir-se no


desencadeamento de alguma energía que passa a agir fora do corpo do
individuo (psicodnésia). No caso analisado, o reflexo físico produz a
mov¡mentac.áo do copo em direcáo das letras que compóem a- resposta
concebida pelo experimentador.

5) A telecinesia pode ocorrer sem que os dedos do operador to-


quem o copo, como também pode veriflcar-se mediante o contato dos
dedos com o copo. Só nao há telecinesia quando todas as pessoas se
afastam a mais de 50 m do copo; em tal caso, a energia física nao atinge o
copo. Isto bem prova que nao é um espirito do além que move o copo,
pois, para este, sería indiferente a distancia a que se achassem os opera
dores.

Nao sao os espíritos dos mortos que dirigem o copo ou os nossos


dedos; eles nao tém meios de fazé-lo. Nossos dedos sao comandados

333
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"362/1992

pelo nosso próprio espfrito (alma espiritual); é o nosso espfrito que move
o nosso corpo, as vezes conscientemente, como no caso de segurarmos
um copo para beber; ás vezes inconscientemente, como se dá quando
empurramos o copo na mencionada "brincadeira". Em momentos de
grande concentragáo, emopáo, exaltacáo do inconsciente, este dirige com
mais facilidade e precisáo os movimentos do copo. Pode também errar,
se os operadores tém conceitos erróneos no seu inconsciente. Notemos
também que ¿s vezes a resposta pode ser captada através de telepatia,
clarividencia, percepcáo extra-sensorial...; nao parece provir do incons
ciente do individuo - o que muito surpreende; nem por isto deve ser atri
buida a um espfrito do além.

6) A experiencia do copo se realiza melhor com duas ou mais pes


soa s do que com urna só, porque assim se somam os impulsos de todas
ao impulso dado pela pessoa que inconscientemente dirige o copo,... im
pulso que pode ser insuficiente.

7) Para comprovar estas explicacóes, pode-se tirar "a prova dos


nove": coloque-se resina debaixo do copo para que este encontré dificul-
dade para deslizar, e em cima do copo ponha-se óleo.». Veriflcar-se-á
entáo que o copo nao se há de mexer e os dedos escorregaráo sobre o
copo.

Estas observares dáo-nos a ocasiáo de falar de automatismo.

2. Automatismo

Automatismo é um ato complexo exercido inconscientemente. O


exemplo mais obvio e fácil de se perceber é o chamado "reflexo patelar"
ou "da rótula": se alguém se senta cruzando as pernas, fica um joelho
mais a vista; dé-se entáo urna pancada seca no tendió situado logo abai-
xo da rótula, e a perna saltará. Por qué? - Porque o tendáo percutido en-
viou urna mensagem á medula cerebral e esta exerceu urna resposta
motora ¡mediata, que foi o movimento automático da perna. O cerebro
apenas assistiu ao ato, sem tomar parte no movimento.

Existem automatismos mais complexos, e também mais freqüen-


tes, do que este. Com efeito; falar, andar, escrever, ler, nadar, dirigir car
ros», sao, em última análise, atos automáticos. Verdade é que a pessoa
tem que aprender tais coisas e as aprende a duras penas, gravando no
córtex cerebral os esquemas necessários a esses atos; por isto a enanca
balbucía, tropeca, soletra—; depois de aprender, quase nao presta aten-
cao a muitos de seus atos.
\

334
A "BRINCADEIRA" DO COPO 47

Pensemos também na datilógrafa: no comeco de sua carreira, reali


za de modo deliberado e consciente os diversos atos da sua arte; com
o tempo, porém, passa a executar muitos deles de maneira mais ou me
nos mecánica, automática ou inconsciente. Algo de semelhante se dá
com quem dirige um carro. Geralmente as pessoas andam automática
mente, mas, ao pisarem em solo escorregadio, comegam a prestar aten-
9§o aos lugares onde pisam, de modo que perdem algo do seu automa
tismo. O sonámbulo é alguém que, em estado de sonó ou de maneira in
consciente, se levanta da cama, anda, fala e escreve; faz tudo isto nao
porque esteja guiado por um espirito desencarnado, mas simplesmente
porque a sua fantasía trabalha ou sonha durante o sonó, e, sonhando,
impele os músculos das pernas, das máos, da llngua... a traduzir em atos
concretos e perceptíveis aquilo que passa pela ¡maginacáo do paciente.

Os automatismos podem assumir modalidades extremamente re


quintadas. É o que se dá quando movemos a Ifngua e os labios ao falar;
sao quase indescritíveis os movimentos que temos de fazer para pronun
ciar urna só palavra que seja. Somos incapazes de comandar consciente
mente esses reflexos. Também é digna de atencáo a agilidáde com que
um pianista move os dez dedos das máos, mexe os pés e, as vezes, até
fala com um interlocutor sobre outro assunto.

Em suma, o automatismo decorre da lei de Bain: "Todo fato psíqui


co determina um movimento físico e este movimento se irradia por todo
o corpo e através de cada urna de suas partes".

3. Observado final

A "brincadeira" do copo nao deve ser tida como "brincadeira", pois


tem conseqüéncias serias sobre o psiquismo dos participantes. Em geral,
a provocacáo de fenómenos parapsicoiógicos é nociva á saúde mental; os
automatismos desencadeados podem furtar-se ao comando do opera
dor, de modo a tornar-se hábitos nervosos, tiques, manias... que desfi-
guram a personalidade e a podem levar a Clínicas Psicoterapias.

335
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 362/1992

Gorbatchev opina:

Quem é o Papa Joao Paulo II?

O Sr. Michail Gorbatchev, ex-presidente da URSS, emitiu declara


res sobre o Papa Joáo Paulo II que póem em relevo a grandeza da fi
gura desse Papa; trata-se de palavras objetivas e insuspeitas, provenien
tes de um ex-ltder comunista n3o convertido ao Cristianismo.

1. O jornal italiano La Stampa, aos 2/3/1992, publicou um artigo


de M. Gorbatchev, no qual se léem os seguintes dizeres referentes a S.
Santidade:

"Há entre nos um profundo sentimento de simpatía e com-


preensáo. Mas creio que se pode dizer que há principalmente a
vontade de continuar e acabar algo que nos cometamos juntos...

Simplificando, eu poderla dizer que, freqüentando Joáo


Paulo II, experimentei e compreendi o papel do Papa na criacSo
daquilo que mais tarde foi chamado 'o novo pensamento políti
co'. Nio sinto dificuldade para admitir que, em seus discursos,
se encontravam muitas idéias com as quais eu estava de
acordó...

Dos dizeres desse Papa, sempre aprecie!, principalmente, o


conteúdo espiritual, o esforco para contribuir para o cresci-
mento de urna nova civilizacio no'mundo» Hoje pode-se dizer
que nada do que aconteceu na Europa Oriental, no decorrer dos
últimos anos, teria sido possível sem a presenca desse Papa,
sem o grande papel - até mesmo político - que ele soube de-
sempenhar no cenário mundial.

Estamos diante de urna personalidade excepcional. Eu nao


quero exagerar, mas tive urna ¡mpressao muito especial como se

(continua na pág. 308)

336
NOVIDADES

ORDINARIO
para celébretelo da Eucaristía com o povo
25S edigao (atualizada)
Traducáo oficial revisada para o Brasil pela CNBB, aprovada pela
Santa Sé, contando 11 Oragóes Eucarísticas, inclusive a mais recente
"Para diversas circunstancias" (8 novembro 91), com acréscimo
de aclamacóes e novos textos. Impressáo em 2 cores, com tipos betn
Iegfveis. 110 págs. Formato de bolso (15 x 11). Cr$ 3.000,00 (até
julho).

1. SAO JOÁO DA CRUZ, O MESTRE DO AMOR


D0M ODILÁO MOURA, OSB.

Obra publicada em comemoracáo do 49 centenario da morte de


Sao Joáo da Cruz. Nela está retratada a personaüdade grandiosa do ho-
mem e do santo. A sua doutrina espiritual é analisada com criterio teoló
gico. 0 Doutor da Mística mostra-se na sua autentica imagem, positiva e
atraente. O livro pode ser considerado urna introducáo clara e completa á
mística San Juanista.
Editora G.R.D. - 1991. 167p Cr$ 31.000,00

2. PORQUE CRER? A FÉ E A REVELAgÁO.

Por Luiz José de Mesquita. Editora Ave María- Sao Paulo

Cr$ 50.000,00

Dom Estéváo disse deste livro em PR 353/456:


"Denso e Precioso... livro sobre a fé e a Revelacáo Divina. Aborda a com
plexa temática de maneira exaustiva; as suas reflexdes teológicas, filosó
ficas, inspiradas por S. Tomás de Aquino e sua escola, acrescenta urna
coletánea de textos do Novo Testamento, da tradicáo e do Magisterio da
I g reja atinentes a fé".

3. SAO BENTO E A PROFISSÁO DE MONGE


Por Dom Joáo Evangelista Enout O.S.B. 190 Págs... Cr$ 18.000.00
O genio, ou seja. a santidade de um monge da Igreja latina do século VI
(480-540) - SAO BENTO - transformou-o em exemplo vivo, em mes-
tre e em legislador de um estado de vida crista, empenhado na procura
crescente da face e da verdade de Deus, espelhada na trajetória de um
viver humano renascido do sangue redentor de Cristo.- Assim, o dis
cípulo de Sao Bento ouve o chamado para fazer-se monge, para assu-
mir a "profissáo de monge".

RENOVÉ QUANTO ANTES SUA ASSINATURA DE PR.

PARA 1992: Cr$ 25.000,00

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" Ano: 91:


Encadernado em percalina, 590 págs. com índices
(Número limitado da exemplaros)... Cr$ 50.000,00
4? CENTENARIO DE FUNDACÁO DO MOSTEIRO DE S. BENTO
1590-1990

DOCUMENTOS Vol. I destruido pelos


invasores fran
HISTÓRICOS ceses em 1711.

Voi. II (1688-1793).
500 págs.

Vol. III (1793-1829)


447 págs.

Vol. IV (1829-1906)
580 págs.

Vol.V (1907-1921)
438 págs.

moslcirodc saobcnlo Vol. VI (1924-1943)


Formato 28 x 19,5 rtoaejanciro 528 págs.

Leitura, Introducto e índices pelo Prof. Deoclécio Leite Macedo. Apre-


sentagáo pelo Abade do Mosteiro de Sio Bento, D. Inácio Barbosa Ac-
cioly O.S.B. Cada volume contém valiosas reprodúceos de manuscritos,
escrituras de terrenos, plantas origináis dos sáculos XVII e XVIII, ofere-
cendo preciosa contribuicáo aos estudiosos pesquisado res da historia
do Rio de Janeiro, onde está situado o Mosteiro de Sao Bento, fundado
em 1590, que continua, sem ¡nterrupcáo, presente na "heroica Cidade
de S3o Sebastiáo", louvando o Senhor e formando milhares de jovens
em seu Colegio fundado em 1858.
(Cada vol. NCz$ 100.000,00.

RIQUEZAS DA MENSAGEM CRISTA (22 ed.), por Dom Cirilo Folch


Gomes O.S.B. (falecido a 2/12/83). Teólogo conceituado, autor de um
tratado completo de Teología Dogmática, comentando o Credo do Povo
de Deus, promulgado pelo Papa Paulo VI. Um alentó volume de 700 p.,
bes seller de nossas Edic3es, cuja traducSo espanhola está sendo pre
parada pela Universidade de Valencia - NCz$ 58.000,00.

O MISTERIO DO DEUS VIVO. P. Patfoort O.P. O Autor foi exami


nador de D. Cirilo para a conquista da láurea de Doutor em Teología no
Instituto Pontificio Santo Tomás de Aquino em Roma. Para Professores
e Alunos de Teología, é um Tratamento de "Deus Uno e Trino", de
orientacáo tomista e de índole didática. 230 p. NCz$ 38.000,00.

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